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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

NADA MENOS QUE TUDO NOS BASTIDORES DA LAVA-JATO



A obra de Rodrigo Janot intitulada: Nada menos que tudo: bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque, (com a colaboração dos jornalistas Jaílton de Carvalho e Guilherme Evelin, São Paulo: Planeta do Brasil, 2019, 256 p.) é um vivo depoimento acerca da Operação Lava-Jato. Testemunho tanto mais valioso quanto que o seu autor foi personagem central da mencionada quadra da nossa evolução política. A avaliação desse momento é de importância capital para o amadurecimento democrático do Brasil. A opinião pública precisa se debruçar sobre essa quadra da nossa história política, justamente para tirar da Lava Jato as lições que podem ajudar a amadurecer as instituições republicanas. 

É antiga a tradição do "parquet" ou ministério do Executivo que garante a informação, ao Estado, acerca dos desmandos que acontecem na administração pública. Em épocas de absolutismo, o "parquet" , como nos terríveis tempos do terror jacobino, após a Revolução Francesa (1789), chegou a se mimetizar com os próprios justiceiros. Ocorreu isso por força do pensamento de Rousseau (1712-1778), que, cioso de manter incólume a unanimidade ao redor do poder estabelecido, exagerou na dose da eliminação da dissidência, submetendo à guilhotina todos aqueles que discordassem do núcleo moralizador dos "puros", que encarnavam o interesse público. Os mais de 40 mil guilhotinados e os 300 mil camponeses assassinados pelos jacobinos na Vendeia, nessa época, dão testemunho da irracionalidade que reveste a ação daqueles que querem governar partindo da unanimidade ao redor dos detentores do poder. Saint-Just (1767-1794), o "anjo da morte" e o seu inspirador, Robespierre (1758-1794), foram gestores e vítimas, ao mesmo tempo, da implacável máquina de descabeçar opositores. A tragédia se repetiria, multiplicada em número de vítimas, nas aventuras totalitárias do século XX, ao ensejo do comunismo e do nazi-fascismo.

Mas a tradição do "parquet" encontrou, ulteriormente, na França e alhures, civilizadas modalidades, no seio do constitucionalismo moderno. No Brasil do século XXI, não há dúvida de que a atuação do "parquet", ou Ministério Público, estabelecido pela Constituição de 1988, foi fundamental para o sucesso da Operação Lava-Jato, que desmontou a máquina de corrupção instalada pela engenharia da ladroagem do PT e comparsas.

Mas também é claro que existem, hoje, no panorama político, várias tendências que visam a desmoralizar a Operação Lava Jato, como um entrave à normal evolução da política brasileira. Rodrigo Janot endereça o seu depoimento ao público em geral, com a finalidade de ajudar na reflexão que a sociedade deve fazer em torno ao fenômeno da corrupção. A respeito, frisa: "De toda forma, espero sinceramente que os casos trazidos à luz ajudem na reflexão sobre corrupção, política e responsabilidade individual na construção de uma nova sociedade" [p. 11]. Não se trata, portanto, de invalidar as instituições republicanas, como se pudesse ser erguida uma barreira jurídica contra a prática da política. Trata-se, simplesmente, de uma contribuição à reflexão dos cidadãos sobre as instâncias que possibilitam, no Brasil, o combate à corrupção. 

O apoio decidido da opinião pública à Operação Lava-Jato.

A primeira coisa que salta à vista, é que a Operação Lava-Jato foi amplamente apoiada pela opinião pública, até o ponto de que mudou a percepção da tradicional prática política, que fazia da coisa pública uma mistura entre saque ao tesouro e interesses dos atores mais poderosos: políticos profissionais e empresários corruptos. Todos esses atores estavam dispostos a avançar sobre o dinheiro da Nação, mediante fajutas  operações nas quais, sob a fachada de obras públicas, disfarçava-se o enriquecimento ilícito, a fim de abastecer os bolsos dos empresários inescrupulosos e de comparsas políticos, dispostos a qualquer coisa para se locupletarem a partir do erário.

A Operação Lava-Jato cercou aqueles que, segundo as provas, participavam do saque indiscriminado ao Tesouro. O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi, de longe, a figura mais forte em termos dos obstáculos colocados em funcionamento para impedir o avanço das investigações. 

A respeito, escreve Janot: "De todos os investigados por nosso grupo de trabalho da Lava Jato em Brasília, Eduardo Cunha foi, de longe, o que mais opôs resistência ao trabalho do Ministério Público. Tivemos dificuldades com Fernando Collor, com Renan Calheiros e com muitos outros. Mas nenhum deles nos pareceu tão atrevido e tão influente quanto Cunha - nem mesmo Temer, investigado e denunciado quando ainda era presidente da República. Ao longo das investigações, Cunha conseguiu colocar contra a Procuradoria-Geral o vice-presidente da República, um ex-presidente da Câmara, um ex-procurador-geral, duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI da Petrobrás e CPI da JBS) e uma bancada de fiéis e agressivos deputados, boa parte deles do Centrão, que ainda hoje, dá as cartas no Congresso Nacional. Curiosamente, as investigações sobre o ex-deputado foram as mais rápidas e eficientes que fizemos. Em um ano e sete meses de investigação, ele foi afastado da presidência da Câmara, teve o mandato cassado e terminou preso em Curitiba. Foi uma virada de página no caso Petrobrás e uma mudança nos rumos do país" [p. 101].

O papel do Ministério Público é, para Janot, apenas o de um auxiliar da Justiça. Frisa a respeito: "O Ministério Público é o braço acusador do Estado. Nosso papel é investigar, denunciar e brigar pela punição de quem fere a lei. Nada além disso" [p. 251].

Parte da crise pela qual enveredou o Ministério Público recentemente decorre, a meu ver, do fato de alguns Promotores - como no caso da Operação Lava-Jato em Curitiba - terem tentando ampliar a sua função para além de ser "o braço acusador do Estado", passando a fixar normas a serem levadas em consideração pelo eleitorado, função que caberia ao Legislativo ou à Justiça Eleitoral. Aqui se inseririam os "dez preceitos" indicados pelos Promotores para moralizar a representação.

"Quem tem medo não pode ser investigador" - Pressão dos corruptos sobre o Ministério Público.

As investigações do Ministério Público contra Cunha não foram fáceis. Rodrigo Janot confessa que ele e os seus colaboradores enfrentaram uma personalidade capaz de qualquer coisa para paralisar os trabalhos. A intimidação provocada por Cunha e os seus sequazes tornou-se visível no caso da advogada Beatriz Catta Preta, a fim de que ela fosse depor em favor de Cunha, na CPI da Petrobrás. Deputados amigos do presidente da Câmara a pressionaram ameaçando-a. "Mesmo sabendo que poderia contar com a proteção do Estado brasileiro, ela preferiu mudar-se com a família para os Estados Unidos, para manter distância de Cunha e seus aliados", frisa Janot [p. 97]. Um dos colaboradores de Cunha, Lúcio Bolonha Funaro, no melhor estilo mafioso, ameaçou tocar fogo no apartamento de Catta Preta, com ela e os filhos dentro.

A pressão sobre os membros do Ministério Público era constante e terminou gerando uma onda de ameaças, que se traduziram em mudança de hábitos dos investigadores e de reforço ao compromisso deles em prol da manutenção das ações iniciadas contra a bandidagem instalada no coração do Estado. Assim se refere Janot a esse clima de insegurança e apreensão: "É preciso ter uma atuação reta. Se começa a colocar outros ingredientes na sua decisão, que não seja a decisão técnica, aquela que deve ser tomada, você se ferra. Se abrir exceção para um, vai ter que abrir exceção para todo mundo. Nós sabíamos que Cunha era ousado e tinha ligações estranhas. Ouvíamos até que ele tinha ligação com um grupo de extermínio do Rio. Por isso, tínhamos porte de arma e andávamos com proteção. Mas receio do ex-deputado? Não. Ninguém da equipe tinha receio dele. É necessário enfrentar esse tipo de problema. Quem tem medo não pode ser investigador" [p. 98].

A verdade é que a atuação dos membros do Ministério Público cobrou deles, na sua vida particular, uma enorme conta, por força das continuadas tensões emocionais vividas ao ensejo da realização das suas várias missões. O próprio Janot dá conta da pesada dívida existencial que teve de pagar, por conta das tensões continuadas à frente da PGR. No capítulo intitulado: "Nada será como antes", o autor afirma: "Em janeiro de 2018, quatro meses depois do fim do meu segundo mandato como procurador-geral, eu estava morando sozinho num apartamento de 57 metros quadrados em Bogotá.  Tinha me separado da minha mulher em outubro do ano anterior e resolvera aproveitar um convite da Universidad de los Andes para mudar de ares. Também tinha perdido temporariamente o contato com antigos interlocutores da esquerda, da direita, do centro, de todos os quadrantes políticos. Alguns eram amigos, outros nem tanto. Vários estavam, de algum modo, insatisfeitos comigo. (...). As críticas eram sempre as mesmas, mas com sinais trocados. O rigor deveria ser sempre aplicado aos investigados de campos ideológicos opostos. (...) Infelizmente, o compadrio e o jeitinho ainda são traços fundamentais da nossa cultura" [p. 239]. 

Arrependimento do trabalho feito na Procuradoria? Não. Janot é enfático a respeito: "Um amigo, que conhece um pouco esse meu ponto de vista (de luta contra a corrupção, qualquer que seja a sua manifestação), me perguntou se, sendo assim, valera a pena tanta luta. Eu digo que sim. Digo mais, até: faria tudo de novo, igualzinho ao que fizemos todos esses anos. E olha que comemos o pão que o diabo amassou. Em quatro anos de Procuradoria Geral, vivemos quatro décadas. Engordei, envelheci e, confesso, perdi e recuperei as esperanças algumas vezes. Era um carrossel sem direito a descanso. (...) No centro do poder, a luta é diária. A trégua é só a preparação para a batalha seguinte. Comigo e com a minha equipe foi assim. Trabalhávamos em média de doze a quatorze horas por dia. Não poucas vezes, o trabalho avançava pelos fins de semana e feriados. A Lava Jato nos absorveu de tal forma que era impossível parar (...). [p. 242-243].

Isso sem levar em consideração a segurança pessoal, que obrigou o Procurador-Geral a fazer curso de tiro, andar armado e se submeter ao tedioso hábito de ele, e a sua família, consultar a equipe de segurança para qualquer deslocamento.

Uma ironia da história. O bravo Procurador Janot, uma vez relevado do seu cargo, foi vítima, em Bogotá, da traquinagem de reles larápios, os famosos "cacos bogotanos". Eis a narrativa do fato pelo próprio Janot: "Eu acabara de sair do hotel Rosales, onde me hospedara inicialmente, e estava fazendo uma caminhada em direção ao Museu do Ouro. Estava relaxado. Era a primeira vez em muito tempo que caminharia pelas ruas de uma grande cidade sem o risco de ser interpelado por um investigado ou abordado por um jornalista (...). Era a primeira vez em quatro anos que eu poderia andar nas ruas sem segurança e com a tremenda sensação de liberdade. De repente, um transeunte se aproximou de mim e me perguntou, de uma forma confusa, se eu sabia onde poderia fazer 'câmbio'. Ele era da Venezuela e precisava de dinheiro local. Aquilo me soava como o apelo de um refugiado gritando por uma ajuda mínima. Eu respondi que não sabia, que tinha acabado de chegar do Brasil e não conhecia bem a cidade, e segui a minha caminhada. Caminhando ao meu lado, o rapaz apontou para um outro homem parado na esquina, a quem foi pedir informação. 'Onde posso fazer cambio aqui?', o venezuelano perguntou. 'Vocês são estrangeiros? Estão juntos?', respondeu o homem, que sacou uma carteira e se identificou como policial federal. Antes que pudéssemos responder claramente, ele pediu passaportes, fez uma bateria de perguntas e decretou: 'Vocês terão de me acompanhar até a delegacia!' Eu estava em situação regular, mas 'meu amigo venezuelano' não, porque deixara o passaporte no hotel, conforme a versão dele. Portanto, o 'policial federal' teria que registrar o caso numa delegacia a 50 metros dali, e nós deveríamos acompanhá-lo. Achei tudo muito estranho, mas só me dei conta de que tinha caído numa arapuca quando, a caminho da tal delegacia, entramos numa rua secundária e isolada. (...). Antes que eu esboçasse qualquer reação, o 'venezuelano' botou a mão embaixo do casaco para mostrar que estava armado. Entendi que não era o caso de testar a verdade. Eram dois ladrões, e eu não sabia o que poderiam fazer comigo se descobrissem que estavam diante de um 'fiscal da lei'. Sem maiores negociações, eles pegaram as notas de peso e o celular que encontraram no bolso da minha camisa e sumiram em segundos. Voltei à via principal, Carrera Sétima, e relatei o fato a um policial fardado. Ele disse que tentaria localizar os larápios, mas deixou claro que era muito difícil fazer algo contra esse tipo de vigarice. Aquilo era inacreditável. Depois de passar tantos anos enfrentando criminosos no Brasil, eu fora trapaceado por dois malandros de rua em Bogotá. Que humilhação!"[p. 240-242].

Os processos contra os corruptos.

Os indícios contra Eduardo Cunha foram assim sintetizados por Janot: "(...) No início, quando o ministro Teori Zavascki autorizou a abertura do primeiro inquérito contra Cunha, tínhamos apenas o depoimento em que o doleiro Alberto Youssef relatava o pagamento de US$ 5 milhões a Cunha a pedido do lobista Júlio Camargo. Parte do pagamento teria sido intermediada pelo lobista Fernando Baiano, inclusive com remessas ao exterior. A confissão do doleiro era explosiva, mais do que o necessário para abrir um inquérito, mas não suficiente para sustentar uma acusação formal. Youssef tinha falado sobre um requerimento de informação usado na Comissão de Fiscalização da Câmara para pressionar Camargo a pagar parte da propina a Fernando Baiano. O suborno total seria de US$ 40 milhões. Era a 'comissão' cobrada para induzir a diretoria internacional, comandada por Nestor Cerveró, a adquirir, sem licitação, dois navios-sondas da Samsung Heavy Industries, um negócio de 1,2 bilhão. Detalhe: Cerveró fechou o negócio sem o devido estudo de comprovação da necessidade dos dois navios. Ou seja, ao que tudo indica, a compra bilionária seria um meio de justificar a propina (partilhada entre Cunha, Baiano,  Cerveró e Júlio Camargo), e não o contrário. Enfim, uma estranha inversão de prioridade, inclusive nesse mundo pantanoso da corrupção" [p. 101-102].

A prova necessária para instruir o processo contra Cunha foi a cópia do requerimento de informação usado na Comissão de Fiscalização da Câmara, que teria saído do computador do presidente da Casa. O diretor da Câmara recebeu, então, a visita dos membros do Ministério Público. Tentou obstaculizar a entrega da cópia, alegando que precisaria dar ciência a Eduardo Cunha. O chefe da equipe do Ministério Público orientou, então, o oficial de Justiça a registrar detalhadamente o que estava acontecendo "porque aquilo poderia dar ensejo a um pedido de prisão". Com medo das sanções penais, o diretor da Câmara entregou o documento requerido.

A respeito, Janot frisa: "Diante do requerimento de chantagem, Júlio Camargo, que praticamente ignorou Cunha na delação, decidiu refrescar a memória e, num detalhado depoimento, confirmou a tentativa de extorsão, o pagamento da propina e a agressividade do deputado na cobrança do suborno. Pelo que entendi, o lobista tinha medo físico do parlamentar. A delação de Camargo foi ampliada com a colaboração de Fernando Baiano, que, espremido pelas evidências, também concordou em contar como se utilizara dos serviços de Cunha para cobrar o restante da propina de Camargo" [p. 105].

Apesar das articulações efetivadas pelo deputado Eduardo Cunha para paralisar as investigações do Ministério Público, foi possível enquadrá-lo dentro dos rigores da lei. A propósito, frisa Janot: "Apresentamos a primeira denúncia contra Cunha por corrupção e lavagem de dinheiro em 20 de agosto de 2015. Quatro meses depois, com mais informações coletadas, pedimos o afastamento do deputado da presidência da Câmara. Em março, o STF abriu processo contra o presidente da Câmara. Três meses depois, ele foi afastado da presidência" [p. 107].

A prisão de Cunha mudou radicalmente o panorama político. "Com Cunha na Câmara, frisa Janot, Bolsonaro não seria presidente". O ex-diretor da Procuradoria Geral arrisca a seguinte hipótese: "Se tivesse sobrevivido à investigação, Eduardo Cunha, e não Jair Bolsonaro, teria sido eleito presidente do Brasil nas eleições de 2018" [p. 98]. Janot explica o seu palpite da seguinte forma: "Agora, quando escrevo este livro [entre dezembro de 2018 e o primeiro semestre de 2019], ninguém mais parece se lembrar, mas em 2015, antes de receber o carimbo de corrupto e mentiroso, Cunha vinha recebendo crescente apoio do empresariado, dos evangélicos e dos grupos de direita que lideravam grandes manifestações contra a corrupção. Bolsonaro só passou a catalisar o sentimento anti-PT, que se traduzia nos protestos contra a corrupção na Petrobras, depois que Cunha perdeu o mandato, foi preso e saiu de cena. Nesse sentido, não seria errado dizer que Bolsonaro também deve parte da vitória na eleição presidencial ao sucesso da investigação contra Cunha, o que não deixa de ser um contrassenso no contexto geral. Isso porque o PP, onde militou Bolsonaro por longos anos, foi o partido, em termos numéricos, mais atingido pela Lava Jato. Foi o PP quem indicou Paulo Roberto Costa para a diretoria de Abastecimento e, com isso, instituiu na Petrobrás a cobrança sistemática da propina vinculada a contratos da estatal e empreiteiras. Parlamentares do partido recebiam regularmente uma mesada, que em alguns casos chegava a R$ 150 mil, en troca do apoio a Costa. Bolsonaro foi um dos poucos do partido não mencionados nas delações do ex-diretor e do doleiro Alberto Youssef" [p. 98-99].

O autor expõe em detalhe os processos levantados contra figuras importantes da política brasileira como o senador Delcídio do Amaral e o ex-presidente Lula. As diferenças com a equipe de Procuradores da Lava Jato em Curitiba (chefiada por Deltan Dallagnol) ocorreram pelo fato de eles terem desconhecido a ordem expressa do ministro Teori Zavascki, do STF, no sentido de excluir a possibilidade de a equipe de Curitiba investigar e denunciar Lula por crime de organização criminosa, que seguia no Supremo. Ora, a denúncia por organização criminosa era essencial para Lula ser acusado de lavagem de dinheiro, como queriam Dallagnol e a sua equipe.


Em que pese essa diferença entre a PGR e a turma de procuradores de Curitiba, a equipe de Janot continuou com o seu trabalho. A respeito, frisa o ex-procurador: "(...) Fiz as denúncias conforme os critérios estabelecidos inicialmente, embora a ordem das acusações tenha sofrido uma ligeira alteração. E, em 1º de setembro de 2017, denunciamos o quadrilhão do PP. Quatro dias depois, fizemos uma denúncia por organização criminosa contra Lula e outros do PT, ou seja, quase um ano após a denúncia da força-tarefa de Curitiba. Em 8 e 14 de setembro, protocolizamos as denúncias contra o PMDB do Senado e da Câmara. A troca da ordem, uma diferença de poucos dias, se deveu tão somente ao andamento natural das investigações" [p. 185]. "Em suma - conclui Janot -, eu não poderia corrigir uma falha de Curitiba colocando em risco meu trabalho e, mais do que isso, quebrando a máxima de nunca tomar qualquer decisão que não fosse amparada na regra geral, técnica e impessoal" [p. 185-186].

Ponto alto das investigações da PGR foi a gravação que o empresário Joesley Batista fez do Presidente Temer no Palácio Jaburu. A respeito, escreve Janot: "Com a artilharia crescendo em nossa direção, tivemos que trabalhar em dobro, a inda mais rápido. Rocha Loures e outros réus estavam presos. Tínhamos prazos curtos a cumprir. Rocha Loures foi preso em 3 de junho [de 2017], depois que perdeu a vaga a deputado com o retorno de Osmar Serraglio à Câmara. Em 26 de junho, pouco mais de um mês depois das primeiras buscas, denunciamos o presidente da República e o ex-assessor especial por corrupção. Para nós, o crime estava devidamente caracterizado nas imagens de Rocha Loures recebendo a mala com R$ 500 mil de Ricardo Saud. A entrega da mala era o primeiro resultado concreto da conversa de Temer com Joesley Batista no Jaburu e das incursões de Loures pelo governo para atender os interesses do empresário. Era um caso com ciclo completo Na primeira cena, o presidente se reúne com um empresário às escondidas e indica um interlocutor de confiança, autorizado a tratar de qualquer assunto. No momento seguinte, o empresário se encontra com o assessor e apresenta um pedido de favores para uma de suas empresas. Na terceira etapa, o assessor recebe uma mala de dinheiro e sai correndo com a fortuna pelas ruas de São Paulo. Um roteiro de cinema não poderia ser mais completo e simples". 

"Como se não bastasse - continua Janot -, relatório da Polícia Federal sobre a primeira fase do inquérito contra Temer seguia na mesma direção. 'Diante do silêncio do mandatário maior da Nação (Michel Temer) e de seu ex-assessor especial (Rocha Loures), resultam incólumes as evidências que emanam do conjunto informativo formado nestes autos a indicar, com vigor, a prática de corrupção passiva', concluiu o delegado Marlon Cajado. A denúncia teve forte impacto. Afinal, pela primeira vez na história, um presidente da República era denunciado por corrupção em pleno exercício do mandato. Alguns diziam que a acusação formal da Procuradoria-Geral seria o fim do governo. Outros insistiam na tese do açodamento. Outros ainda diziam que o procurador-geral deveria ter esperado um pouco mais (quanto tempo?) para fazer uma denúncia de tamanha envergadura. (...) Temer chegou a insinuar que minha atuação tinha como objetivo final alguma vantagem financeira (...)" [p. 218-219].

Janot relata a perseguição de que foi vítima, através de ataques contra a honra do irmão falecido e contra a filha Letícia, cheias de insinuações maldosas. "Num dos momentos de dor aguda - confessa -,  de ira cega, botei uma pistola carregada na cintura e por muito pouco não descarreguei na cabeça de uma autoridade de língua ferina que, em meio àquela algaravia orquestrada pelos investigados, resolvera fazer graça com a minha filha. Só no houve o gesto extremo porque, no instante decisivo, a mão invisível do bom senso tocou meu ombro e disse: não" [p. 216]. Pouco antes do lançamento do seu livro, no segundo semestre de 2019, o próprio Janot, em entrevista à imprensa, confessou que a mencionada autoridade era o ministro Gilmar Mendes.

Para Janot, tentar jogar pelo chão a denúncia do Ministério Público contra o Presidente Temer, equivaleria a rasgar o Código Penal. Resume assim as provas levantadas e sustentadas pela PGR: "Tínhamos a gravação da conversa incriminadora entre Temer e Joesley Batista na calada da noite no Jaburu. Tínhamos a gravação de Batista e Rocha Loures acertando o uso da estrutura do governo em benefício do empresário. E, por fim, tínhamos a corridinha com a mala de dinheiro pelas ruas de São Paulo. Se aquelas conversas escabrosas e aquela fuga do assessor do presidente com uma mala com R$ 500 mil não eram 'indícios' suficientes para se abrir um processo por corrupção, o crime deveria ser excluído do Código Penal" [ p. 221].

Conclusão: o que esperarmos do papel do Ministério Público em face da Operação Lava Jato?

A minha posição em face desse aspecto é clara: a Operação Lava Jato foi uma grande realização do Ministério Público, que em muito ajudou a clarear o nosso ambiente político, delimitando, com meridiana claridade, os lindeiros do que é permitido por lei e do que constitui prática criminosa.

O Ministério Público, ao ensejo dessa operação, agiu rigorosamente dentro dos marcos assinalados pela Lei, apresentando à Justiça provas para o julgamento de agentes públicos suspeitos e ulteriormente acusados de corrupção. Mas, de outro lado, teria faltado, aos arquitetos da Operação, fixar os limites temporais desse conjunto de ações. 

O próprio Rodrigo Janot assinala este aspecto, no seguinte comentário por ele tecido na Apresentação da obra: "Lembro-me (...) de uma profética conversa que tive com a deputada italiana Marina Sereni num jantar na embaixada da Itália, em 2015. Ela me fez três perguntas: 1 - 'O senhor ou alguém de sua equipe pretende disputar algum cargo político?'; 2 - 'O senhor já definiu o limite descendente, ou seja, até onde vão descer as investigações?' 3 - 'Já sabe quando o senhor vai terminar essa investigação?' - À primeira pergunta eu respondi com firmeza. Não me candidataria a nada, nem a síndico de prédio. As duas outras perguntas me pareceram estranhas. Como assim, definir limite de uma investigação? Como estabelecer prazo para concluir as apurações? A deputada me disse, então, que, ao ampliar demais as investigações e atingir pessoas comuns, a Operação Mãos Limpas, da Itália, perdeu o apoio da opinião pública, inflamada por 14 suicídios. Disse também que, se não encerrássemos de forma planejada a Lava Jato, uma 'mão externa' o faria por nós. Só hoje consigo entender o alcance daquelas palavras. Agora que vejo que esse movimento vasto, de múltiplas procedências, para 'estancar a sangria com o Supremo, com tudo' " [p. 10-11]. 


Os atuais movimentos do Supremo, no sentido de acabar com a prisão após a segunda instância, faz parte, certamente, desse "movimento vasto" a que se referia Janot. O caminho, hoje, para voltar à normalidade, parece complexo. Passa, a meu ver,  pela ação dos freios e contrapesos do Congresso da República sobre o Supremo, no caso específico da decisão de acabar com a prisão após a segunda instância. Só assim se garantiria a ação já executada pela Operação Lava Jato, sem anular os seus efeitos benfazejos ao atacar a corrupção no seu nascedouro. E se abriria a porta, também, para a definição de um limite temporal para a mesma. Nos atuais momentos, de perda de credibilidade do Supremo, esses limites temporais teriam de ficar por conta do Legislativo, que é o poder constitucional chamado a corrigir os desvios do STF.

Mesmo com as idas e vindas da política, uma lição ficou clara, para Janot, a partir da Operação Lava-Jato: nunca a vida será a mesma, de agora em diante, para os corruptos. A respeito, frisa: "A Lava Jato não acabou com a corrupção, mas mexeu significativamente em feudos políticos e econômicos. Os donos do poder foram tirados da eterna zona de conforto em que se encontravam. Não há, é verdade, a certeza de que todo poderoso que cometa um crime sofrerá algum tipo de punição. Mas também não há mais certeza de que não terá nenhum incômodo. O próprio Temer passou dois anos se escudando na Presidência da República, mas, tão logo deixou o cargo, foi preso duas vezes. Isso, para mim,  é uma mudança clara de paradigma. Uma mudança que, no futuro, será vista como um salto histórico. É perceptível também que o discurso da moralidade no serviço público foi incorporado por parte expressiva da população. Não existe mais espaço para velhos bordões do tipo 'rouba, mas faz', a expressão máxima do cinismo que predominava na velha política. O 'roubo' pode até acontecer, mas ninguém teria mais a coragem de se vangloriar publicamente de uma desonestidade operativa. O lema agora poderia ser outro. 'Faça e não roube', porque ninguém poderá alegar inocência. Ninguém poderá dizer que foi seduzido ou constrangido. O empresário não poderá culpar o político. O político não poderá culpar o financiador de campanha. Se uma empresa não puder ganhar uma concorrência, que mude de ramo. Se um político não consegue dinheiro legalmente para sua campanha, que não se candidate. Caso contrário, que admita o risco permanente da virada do jogo. Porque, depois de tudo que foi feito nos últimos cinco anos, nada será como antes" [p. 252-253].

domingo, 28 de maio de 2017

A CRISE É GRAVE E A SAÍDA É NOSSA (Publicado em O Estado de S. Paulo, 28/05/2017, p. A2).


A crise é séria e ameaça as conquistas atingidas neste primeiro ano do governo Temer, bem como o prosseguimento das reformas. Sem elas, o nosso bem-estar estará comprometido pelas próximas décadas. A saída é inteiramente nossa: não serão os marcianos que vão equaciona-la. Ou nos entendemos, ou nos inviabilizamos como país. Como frisa o mestre Antônio Paim na apresentação ao Curso de Introdução à Ciência Política (edição coordenada por ele, com a colaboração de Leonardo Prota e minha, Londrina: Edições Humanidades, 2002, 5 volumes), "as instituições do governo representativo não caem do céu; somos nós que temos de construí-las". E a construção das mesmas pressupõe dois aspectos: um estrutural, outro moral.

Quanto ao primeiro, trata-se de dar uma base confiável aos nossos partidos políticos que, ainda, são apenas "blocos parlamentares", ou seja, falando em linguagem carnavalesca, possuem batucada sem enredo. Ora, os partidos políticos para valer são aquelas organizações que visam à conquista do poder e que contam com um programa para tanto definido. Em linguagem carnavalesca, seriam como escolas de samba, que possuem batucada e enredo. Este último constituiria, nas agremiações partidárias, a parte programática alicerçada em sólida doutrina.

Nós, brasileiros, como nação, não somos nem melhores nem piores do que outros povos. Temos as nossas qualidades e os nossos defeitos. Mas, do ângulo das estruturas políticas, somos tremendamente relapsos. Não conseguimos estruturá-las a contento, de acordo às exigências prementes dos tempos atuais. A falha principal está em não termos dotado às nossas organizações político-partidárias de uma estrutura sólida que garanta a sua permanência e a sua eficácia na representação de interesses. É lógico apenas que se, em trinta anos de prática democrática, não conseguimos fazer o dever de casa, estejamos colhendo agora os amargos frutos do descaso no item construção de instituições republicanas, cujo principal degrau consiste em garantir uma representação confiável. Como não a temos, ficou substituída nestas três últimas décadas, pela mágica dos marqueteiros, aliada à improvisação e à falta de escrúpulos dos políticos populistas que vingam, como moscas no lixo, nessa ausência de instituições representativas.

Como lembrava em recente artigo Bolívar Lamounier, citando texto escrito por ele em 1985 para a Comissão Afonso Arinos encarregada de elaborar um pre-projeto de Constituição ("Nau sem rumo", O Estado de S. Paulo, 20-05-2017, p. A2), "(...) O resultado de nossa descontínua história partidária, com poucas exceções, fora uma sucessão de sistemas frágeis e amorfos. (...) Uma estrutura mais forte dificilmente se constituiria a partir de uma organização institucional que combinava o regime presidencialista com a Federação, um multipartidarismo exacerbado e um sistema eleitoral individualista, frouxo e permissivo. Para que a redemocratização chegasse a bom porto era, pois, imperativo adotar outro conjunto de incentivos, entre os quais o voto distrital".

Na contramão do que deveria ser feito, a intelligentsia brasileira desconheceu essa situação catastrófica da nossa representação. A respeito, frisa Bolívar Lamounier: "Poucos anos mais tarde o meio acadêmico acolheu um entendimento precisamente oposto. Nossos partidos e balizamentos institucionais seriam perfeitamente adequados e não seria exagero dizer que se incluíam entre os melhores do mundo. Não representavam nenhum risco para a estabilidade democrática, muito menos para a governabilidade (...). A tese da fragilidade partidária não passaria de um mito".

Essa falta de visão do meio intelectual, aliada ao imediatismo dos políticos, produziu o efeito perverso que estamos a assistir e que Lamounier sintetiza assim: "Quem tem olhos de enxergar sabe que praticamente todos os partidos couberam no bolso de duas empresas, a Odebrecht e a JBS (...). Ou seja, o cartel das empreiteiras, Eike Batista e os irmãos Joesley e Wesley mandavam muito mais do que centenas de deputados eleitos pelo voto popular. Em 2010, três grandes eleitores - Lula, Marcelo Odebrecht e o marqueteiro João Santana - substituíram-se à grande massa votante e enfiaram Dilma Rousseff pela goela abaixo dos brasileiros". As coisas mudaram de lá para cá, mas de maneira fortuita, como frisa o sociólogo: "O quadro acima se alterou graças a dois fatores principais: o instituto da delação premiada e a circunstância até certo ponto fortuita de o Mensalão ter caído nas mãos de Joaquim Barbosa e o Petrolão, nas do juiz Sérgio Moro".

A respeito da oportunidade perdida em relação à Constituição de 88, lembro que, nos trabalhos de elaboração dos aspectos políticos do texto, com o meu mestre Antônio Paim prestei assessoria ao então senador José Richa, do antigo MDB na comissão presidida por ele. Richa tinha decidido apoiar a inclusão do voto distrital no texto constitucional. Teria sido um passo definitivo rumo à consolidação de uma sólida representação dos interesses dos cidadãos, abrindo um espaço importante para a sociedade controlar o jogo político partidário. A proposta do senador Richa, no entanto, naufragou no seio da comissão. O autor do desfecho negativo foi um membro do mesmo partido de Richa, o senador Mário Covas, que não queria que se mexesse na velha legislação existente que consagrava o voto proporcional e abria espaço para as alianças de legenda. Covas levou um agressivo grupo de sindicalistas representantes dos estivadores do porto de Santos, seu reduto político. Diante desses "argumentos", nada pôde ser feito e a adoção do voto distrital ficou para as calendas gregas.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DÚVIDAS DE PESO: O ARRAZOADO DE PERCIVAL PUGGINA EM RELAÇÃO À 2ª TURMA DO SUPREMO



Amigos. Tenho a minha posição firmada no sentido de apostar nas instituições brasileiras e na responsabilidade dos seus condutores. Mas os fatos das últimas semanas levantam sérios questionamentos que não podemos abafar. 
A atitude da maioria dos ministros do STF da 2ª Turma, notadamente de Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandovski no sentido de, céleres, terem aprovado o relaxamento da prisão do peso-pesado do crime organizado José Dirceu, causou impacto negativo na sociedade brasileira. A razão de peso é, a meu ver, a seguinte: A cúpula petista associou-se para delinquir. Na cúspide da pirâmide há duas figuras: Lula e Dirceu. Claro que há outras também, a começar pela Dilma que, como seu chefe, Lula, pelas delações feitas, sabe-se que "sabia de tudo". Ora, ora. Tudo bem que a Justiça ande devagar na colheita de provas. Os ritos precisam ser preservados. Mas ritos e atitudes éticas não podem brigar ao ponto de, num determinado momento, os primeiros passarem à sociedade a mensagem de que não há mais sentido de Justiça neste país. 
Dentre as muitas reações dos brasileiros em face desses fatos, ressaltam as razões apontadas, ontem, pelo general Augusto Heleno, ex-comandante militar da Amazônia. Elas situam-se neste contexto e é necessário que sejam levadas em consideração, dada a inquestionável autoridade moral desse eminente oficial perante a tropa e a opinião pública brasileira.
Parecem mais convincentes, hoje, as razões expostas pelo juiz Sérgio Moro, no sentido da necessidade de manter Dirceu na prisão, visto que, como um dos chefes da organização criminosa, poder vir a tumultuar as investigações em curso, tendo ficado fora da prisão graças à decisão da 2ª Turma do Supremo. Não podemos admitir, nesta altura dos acontecimentos, "pedaladas togadas". E sabemos que Lewandoski é mestre nelas (à luz do acontecido no julgamento da Dilma e da generosa interpretação de que ela poderia ser afastada da Presidência da República sem perder os seus direitos políticos). 
No atual embate entre a Segunda Turma do STF e os integrantes vencidos da mesma, os ministros Fachin e Celso de Melo, de um lado, de outro, entre a maioria da Segunda Turma e o Plenário do colegiado (evento que que está por vir) e, para complicar as coisas, entre o juiz Sérgio Moro e o Ministério Público, de um lado, e de outro a maioria dos ministros da 2ª Turma do STF, a resultante é a dúvida crescente, no seio da sociedade brasileira, no sentido de que a Suprema Corte represente a última instância jurídica em que todos podemos acreditar.
Que os eminentes Ministros do STF levem em consideração a perplexidade que ora paira na sociedade brasileira. Como eco equilibrado das dúvidas de peso que ora se levantam, reproduzo, neste espaço, o artigo que, hoje, divulga o jornalista gaúcho Percival Puggina.
OS HABEAS CORPUS DO STF: TERÁ A ÁGUA BATIDO EM QUEIXOS IMPRÓPRIOS?
Percival Puggina
           Ao mandar de volta ao aconchego do lar João Claudio Genu, José Carlos Bumlai, Eike Batista e José Dirceu, a segunda turma do STF abriu a porteira nos dois sentidos. Saem os presos e as suspeitas invadem o topo do judiciário nacional.
          Chega às raias do inadmissível que, conforme denunciou o procurador Deltan Dallagnol, o mesmo grupo de ministros tenha mantido na cadeia delinquentes em situação análoga aos que agora manda soltar. Como costumava dizer um amigo meu, já falecido: "É a diferença entre pano de chão e toalha felpuda".
          Como pode proporcionar segurança à sociedade um poder "supremo" da República que faz esse tipo de diferenciação? Que se conduz de modo ziguezagueante, para não dizer trôpego? Que decide e logo volta atrás? Onde alguns de seus membros se consideram em condições de julgar casos ante os quais se deveriam declarar impedidos? Que mantêm uma vida social comum e  conversações tão frequentes quanto pouco recomendáveis com figuras da cena política e econômica de quem nós guardaríamos prudente distância?  Os membros da Suprema Corte dos EUA, tão logo assumem suas funções, se recolhem a uma vida quase monástica, evitando toda atividade social que os exponha a situações de convívio inconveniente.
          Sinto muito. A desejável saída da crise política, pela qual tanto ansiamos como nação, pressupõe credibilidade no Poder Judiciário. E o STF vem se esforçando por cair em descrédito. É essa a conclusão inevitável de uma deliberação por 3 x 2 em matéria de tamanha sensibilidade social, onde isso parece não haver merecido qualquer consideração por parte da posição vencedora.
          Proliferam, então, as suspeitas. Como não associar esse surto de habeas corpus e as palavras arrogantes, duras e desrespeitosas do ministro Gilmar Mendes contra os promotores da Lava Jato, com a ruptura do contrato entre Antonio Palocci e os advogados que tratariam de sua delação premiada? Um dia o "Italiano" anuncia estar em condições de disponibilizar a Sérgio Moro atividades ilícitas com nomes, endereços e anotações que poderiam demandar mais um ano de investigações. Dia seguinte, recado dado, sabe-se da contratação, por ele, de advogados especializados em delações. Qual a consequência? Liberdade ainda que tardia para as toalhas felpudas! Só faltou ser dito: "Ai de quem falar em delação premiada daqui para a frente!". E Palocci dispensou seus advogados.
          Terá a água batido em queixos impróprios? A declaração da ministra presidente em entrevista ao programa "Conversa com Bial" da Rede Globo, na madrugada desta quarta-feira, 3, é uma clara expressão de insegurança quanto a isso. Disse ela: "A Lava Jato não está ameaçada, não estará. Eu espero que aquilo que cantei como hino nacional a vida inteira, nós do Supremo saibamos garantir aos senhores cidadãos brasileiros, de quem somos servidores: verás que um filho teu não foge à luta". Veremos?
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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

Área de anexos

terça-feira, 25 de abril de 2017

INDEPENDÊNCIA JUDICIAL E ABUSO DE AUTORIDADE - SÉRGIO FERNANDO MORO - Juiz Federal

O juiz federal Sérgio Moro [Reuters / O Globo]
Amigos, divulgo neste espaço o corajoso artigo do Juiz Federal Sérgio Moro, publicado no jornal O Globo, no dia de hoje 25 de abril de 2017. Divulgo esse importante documento num momento em que setores da classe política tentam inviabilizar a Operação Lava-Jato, mediante uma esdrúxula proposta que tira a independência dos Juízes e de outros funcionários ligados à administração de Justiça. Ora, isso vai contra toda a tradição democrática brasileira que, desde 1897, sob a liderança de Rui Barbosa - como lembra com propriedade o magistrado no seu artigo - firmou a independência do Judiciário, em face das ameaças do Executivo hipertrofiado. Essas ameaças eram proferidas, no século XIX, pelo líder gaúcho Júlio de Castilhos, a fim de manietar o Judiciário em face dos desarranjos institucionais por ele patrocinados no Estado sulino. Hoje, senadores como Roberto Requião e o presidente do Senado Renan Calheiros lideram inglória tentativa nesse mesmo sentido. Só a pressão da opinião pública para fazer frente a essa tentativa de achincalhamento das nossas Instituições Republicanas. Fechemos fileiras com o Juiz Sérgio Moro na defesa da independência do Judiciário.


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As Cortes de Justiça precisam ser independentes. Necessário assegurar que os julgamentos estejam vinculados apenas às leis e às provas e que sejam insensíveis a interesses especiais ou à influência dos poderosos.

A independência dos juízes tem uma longa história. Na Idade Média, os juízes do rei se impuseram, inicialmente, às Cortes locais, estas mais suscetíveis às influências indevidas nos julgamentos. Sucessivamente, os juízes se tornaram independentes do próprio rei e, posteriormente, daqueles que o substituíram no exercício do poder central, o executivo ou o parlamento.

Nos Estados Unidos, a independência judicial foi definitivamente afirmada ainda no ano de 1805 com o fracasso da tentativa de impeachment do juiz Samuel Chase da Suprema Corte. O impeachment foi aprovado na Câmara dos Deputados, mas foi rejeitado no Senado. Tratava-se de tentativa do então presidente Thomas Jefferson, notável por outras realizações, de obter domínio político sobre a Suprema Corte. O célebre John Marshall, então juiz presidente da Suprema Corte, afirmou, sobre o episódio, que o impeachment tinha por base o equivocado entendimento de que a adoção por um juiz de uma interpretação jurídica contrária à legislatura tornaria-o suscetível ao impeachment. A recusa do Senado, mesmo pressionado pela Presidência, em aprovar o impeachment propiciou as bases da tradição de forte independência das Cortes norte-americanas e que é uma das causas da vitalidade da democracia e da economia daquele país.

No Brasil, a independência das Cortes de Justiça é resultado de uma longa construção, trabalho não de um, mas de muitos.

Seria, porém, injustiça não reconhecer a importância singular de Rui Barbosa nessa construção.

‘Lei precisa de salvaguardas expressas para prevenir a punição do juiz’

Rui Barbosa é um dos pais fundadores da República. Foi o maior jurista e o mais importante advogado brasileiro. De negativo em sua história, apenas o seu envolvimento na política econômica do encilhamento, a confirmar o ditado de que bons juristas são péssimos economistas e vice-versa.

Rui Barbosa assumiu a defesa, no final do século XIX, do juiz Alcides de Mendonça Lima, do Rio Grande do Sul. O juiz, ao presidir julgamento pelo júri, recusou-se a aplicar lei estadual que eliminava o voto secreto dos jurados, colocando estes à mercê das pressões políticas locais.

O então presidente do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos, contrariado, solicitou que fosse apurada a responsabilidade do “juiz delinquente e faccioso”. O tribunal gaúcho culminou por condená-lo por crime de abuso de autoridade.

Rui Barbosa levou o caso até o Supremo Tribunal Federal, através da Revisão Criminal nº 215.

Produziu, então, um dos escritos mais célebres do Direito brasileiro, “O Jury e a responsabilidade penal dos juízes”, no qual defendeu a independência dos jurados e dos juízes. Argumentou que um juiz não poderia ser punido por adotar uma interpretação da lei segundo a sua livre consciência. Com a sua insuperável retórica, afirmou que a criminalização da interpretação do Direito, o assim chamado crime de hermenêutica, “fará da toga a mais humilde das profissões servis”. Argumentou que submeter o julgador à sanção criminal por conta de suas interpretações representaria a sua submissão “aos interesses dos poderosos” e substituiria “a consciência pessoal do magistrado, base de toda a confiança na judicatura”, pelo temor que “dissolve o homem em escravo”. Ressaltou que não fazia defesa unicamente do juiz processado, mas da própria independência da magistratura, “alma e nervo da Liberdade”.

O Supremo Tribunal Federal acolheu o recurso e reformou a condenação, isso ainda nos primórdios da República, no distante ano de 1897.

Desde então sepultada entre nós a criminalização da hermenêutica, passo fundamental na construção de um Judiciário independente.

Passado mais de um século, o Senado Federal debruça-se sobre projeto de lei que, a pretexto de regular o crime de abuso de autoridade, contém dispositivos que, se aprovados, terão o efeito prático de criminalizar a interpretação da lei e intimidar a atuação independente dos juízes.

Causa certa surpresa o momento da deliberação, quando da divulgação de diversos escândalos de corrupção envolvendo elevadas autoridades políticas e, portanto, oportunidade na qual nunca se fez mais necessária a independência da magistratura, para que esta, baseada apenas na lei e nas provas, possa determinar, de maneira independente e sem a pressão decorrente de interesses especiais, as responsabilidades dos envolvidos, separando os culpados dos inocentes.

Ninguém é favorável ao abuso de autoridade. Mas é necessário que a lei contenha salvaguardas expressas para prevenir a punição do juiz — e igualmente de outros agentes envolvidos na aplicação da lei, policiais e promotores — pelo simples fato de agir contrariamente aos interesses dos poderosos.

A redação atual do projeto, de autoria do senador Roberto Requião e que tem o apoio do senador Renan Calheiros, não contém salvaguardas suficientes. Afirma, por exemplo, que a interpretação não constituirá crime se for “razoável”, mas ignora que a condição deixará o juiz submetido às incertezas do processo e às influências dos poderosos na definição do que vem a ser uma interpretação razoável. Direito, afinal, não admite certezas matemáticas.

Mas não é só. Admite, em seu art. 3º, que os agentes da lei possam ser processados por abuso de autoridade por ação exclusiva da suposta vítima, sem a necessidade de filtro pelo Ministério Público. Na prática, submete policiais, promotores e juízes à vingança privada proveniente de criminosos poderosos. Se aprovado, é possível que os agentes da lei gastem a maior parte de seu tempo defendendo-se de ações indevidas por parte de criminosos contrariados do que no exercício regular de suas funções.

Há outros problemas na lei, como a criminalização de certas diligências de investigação ou a criminalização da relação entre agentes públicos e advogados, o que envenenará o cotidiano das Cortes.

Espera-se que uma herança de séculos, a construção da independência das Cortes de Justiça, não seja desprezada por nossos representantes eleitos. Compreende-se a angústia do momento com a divulgação de tantos casos de corrupção. Mas deve-se confiar na atuação da Justiça, com todas as suas instâncias, para realizar a devida depuração. Qualquer condenação criminal depende de prova acima de qualquer dúvida razoável. A aprovação de lei que, sem salvaguardas, terá o efeito prático de criminalizar a hermenêutica e de intimidar juízes em nada melhorará a atuação da Justiça nessa tarefa. Apenas a tornará mais suscetível a interesses especiais e que, por serem momentâneos, são volúveis, já que — e este é um alerta importante — os poderosos de hoje não necessariamente serão os de amanhã.


Rui Barbosa também foi Senador da República. É o seu busto que domina o Plenário do Senado. Espera-se que a sua atuação como um dos fundadores da República e em prol da independência da magistratura inspire nossos representantes eleitos.

sábado, 31 de dezembro de 2016

O BRASIL TEM JEITO (publicado no jornal O Estado de São Paulo, 31 de dezembro de 2016, pg. A2)

O ano de 2016 terminou em meio aos solavancos que o terrorismo infringiu à Europa. A assombração do "Lobo Solitário" virou força tresloucada e assassina nas ruas e avenidas das capitais europeias, no pistoleiro suicida de Ankara que matou a sangue frio o embaixador russo, no motorista do caminhão roubado que avançou sobre a multidão indefesa que fazia compras de Natal em Berlim, como já tinha acontecido no meio do ano findo em Nice, etc.

No mundo globalizado em que vivemos, o terrorismo virou parte do nosso prato natalino e de fim de ano. De uma forma ou de outra, os fatos mencionados nos afetaram. Como nos afetou, também, o drama dos civis presos e mortos no meio do fogo suicida dos terroristas, dos oposicionistas ao governo de Assad, dos russos que colaboram na "pacificação" à moda da limpeza étnica praticada por eles na Chechênia e dos comandos iranianos associados ao presidente sírio. Civis indefesos postaram as suas últimas palavras nas redes sociais, que as divulgaram aos quatro cantos do Planeta, desde as casas e apartamentos bombardeados indiscriminadamente em Aleppo. É o terror que chega, em vivo e em direto, à nossa sala de jantar.

Nesse triste contexto de destruição e morte, o que pensar do nosso Brasil neste início de ano? Vamos convir que é difícil ser otimista no contexto macabro que acabo de descrever e que é reforçado pela nossa violência silenciosa do dia a dia, que deixa nos cemitérios 60 mil assassinatos ao longo do do ano, acompanhados dos quase 50 mil brasileiros que morreram em acidentes de trânsito. Saldo negativo que deixa essa mensagem soturna de que a vida humana vale pouco.

Remando contra a maré dos fatos negativos, tentarei, no entanto, discorrer sobre as coisas positivas com as que podemos contar em 2017. Três pontos vêm à minha memória: 1 - o sucesso do agronegócio; 2 - o regular funcionamento dos poderes públicos, as reformas em curso e as eleições pacíficas de outubro; 3 - a retomada do desenvolvimento e das boas relações com os outros países. Comentarei brevemente cada um desses pontos positivos.

1 - O sucesso do agronegócio. É evidente que esse setor da economia preservou a sua vitalidade, em que pese a crise que se instalou na indústria, no comércio e nos serviços. O campo ajudará ao Brasil, também em 2017, a pagar as suas contas, com a safra recorde projetada de 213,1 milhões de toneladas (14,2% maior que a anterior). De janeiro a outubro de 2016 o agronegócio brasileiro exportou produtos pelo valor de 73,1 bilhões de dólares, sendo que o superávit obtido de 62,1 bilhões de dólares cobriu o déficit dos outros setores, tendo deixado um saldo positivo de 38,5 bilhões de dólares. Os subsídios oficiais para o agronegócio, em contrapartida, foram bem minguados, chegando a apenas 5% dos recursos disponíveis (enquanto que outros países cuidam com mais empenho da produção agropecuária, sendo que os subsídios pagos ao setor na União Europeia e na China vão de 20 a 25%  e nos Estados Unidos chegam a 12%). Confirma-se, de novo, a observação crítica do mestre Eugênio Gudin, feita em meados do século passado, no sentido de que o Brasil não olha com carinho para o agronegócio, concentrando os incentivos na produção industrial.

2 - O regular funcionamento dos poderes públicos, as reformas em curso e as eleições pacíficas de outubro. O ciclo pós-petista tem-se caracterizado pelo regular funcionamento dos poderes públicos, apesar dos confrontos entre eles, superados os surtos de estrelismo personalista com a negociação à sombra da lei. Não seria justo afirmar que um dos poderes sobrepôs-se aos outros. A operação Lava-jato, em que pese o caráter escatológico que alguns funcionários do Ministério Público ou parcelas da opinião têm tentado lhe impingir, está sendo levada adiante, com respeito às normas jurídicas e processuais. O normal funcionamento da máquina pública e dos Poderes possibilitou a realização tranquila das eleições municipais de outubro, com um claro recado aos políticos: "chega de populismo", num contexto claramente definido de opções conservadoras e de maior transparência. Apesar das dificuldades econômicas e políticas herdadas do ciclo lulopetista, o plano de reformas para impulsionar a economia vai sendo aprovado regularmente no Congresso. A baixa popularidade do presidente Temer não ameaça o prosseguimento das reformas. Esses entraves dissipar-se-ão, na medida em que as reformas que impulsionam a economia, como a do teto de gastos públicos e a reforma previdenciária se consolidarem ao longo do ano próximo. A reforma do ensino médio foi aprovada, apesar da grita das viúvas do PT e coligados. Não adianta judicializar esta última, pois o grosso da opinião pública a defende.

3 - A retomada do desenvolvimento e das boas relações com os outros países. O Ministério das Relações Exteriores, sob o acertado controle do chanceler José Serra, fez de forma eficiente as reformas necessárias para que a nossa política externa voltasse aos trilhos do bom senso que caracterizou tradicionalmente o Itamaraty. O populismo da era lulopetista é coisa do passado. O Brasil volta a ser escutado, e respeitado, no cenário internacional. Seria necessário, nesse processo de desideologização da nossa política externa, que decisões rápidas fossem tomadas, no sentido de colocar o Brasil na dinâmica da Aliança do Pacífico, que abre definitivamente a nossa economia para a nova fronteira da bacia do Pacífico, de que já participam ativamente outros países latino-americanos como Chile, Peru, México e Colômbia. O Mercosul deve ser revitalizado nesse contexto de abertura, deixadas para trás as feições populistas que o atrelaram ao atraso e ao protecionismo cego sob os governos de Lula e Dilma.

Um feliz Ano Novo para todos os amigos leitores. O Brasil tem jeito!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

UMA JUSTA HOMENAGEM AOS PROCURADORES DO MINISTÉRIO PÚBLICO

Amigos, acho de elementar justiça me somar à bela homenagem do jornalista Percival Puggina aos Procuradores Federais da Operação Lava Jato, que prepararam o terreno para que o Juiz Sérgio Moro enquadrasse como réus o ex-presidente Lula, dona Marisa Letícia (sua esposa), Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula e mais algumas pessoas vinculadas ao crime de desvio de recursos públicos. Transcrevo, a seguir, o artigo do mencionado jornalista.

HOMENAGEM AOS PROCURADORES FEDERAIS DA LAVA JATO
Percival Puggina

             Mais importante do que conhecer é reconhecer.
        Sim, os fatos narrados na longa dissertação do procurador Deltan Dallagnol são ofensivos, são impróprios, são intoleráveis por toda consciência bem formada. Sim, foram duras aquelas palavras e podemos dizer como os discípulos a Jesus: "Quem as pode ouvir?". Ora, se o cidadão comum se sente assim ao ver desvelada com crueza substantiva e adjetiva a ampla organização criminosa que saqueava o país, imagino o desconforto que as denúncias causam a quem vê exibida em público a face hedionda do objeto de sua devoção.
             A entrevista ainda estava em curso e já começavam os protestos. "Essas coisas não são feitas assim!", clamavam uns. "O Ministério Público foi longe demais!", exaltavam-se outros. "A acusação deve simplesmente anunciar que encaminhou a denúncia e jamais produzir libelos públicos!", professoravam certos escolados.  Mesmo entre os que concordavam com a narrativa da acusação, havia quem reprovasse a contundência do discurso.
          No entanto, quanta lógica na decisão que os procuradores da operação Lava Jato tomaram! E com quanta admiração ouvi e acolhi sua iniciativa! Há mais de dois anos, pondo em risco a própria segurança, no torvelinho da maior investigação criminal da história do país, eles combatem os poderes das trevas que atuam no topo da nossa ordem política, econômica e judiciária. Contrariam interesses hegemônicos. Seus investigados têm, ao estalo dos dedos, todo o dinheiro de que possam necessitar para quanto lhes convenha e todas as facilidades para agir fora e acima da lei. Não bastasse isso, Dallagnol e seus colegas enfrentam, também, o carisma de Lula, as milícias de João Pedro Stédile, Guilherme Boulos e Vagner Freitas, e o escudo protetor que a prerrogativa de foro proporciona aos principais indiciados da operação.
          Eles ouviram centenas de testemunhas. Setenta indiciados relataram seus crimes e informaram o que sabiam. Empilharam dezenas de milhares de provas, relatórios e documentos. A repetição das fórmulas evidenciou rotinas consolidadas ao longo dos anos. Os crimes eram revelados e confessados pelos beneficiários, pelos autores e por seus operadores. Bilhões de reais estão sendo devolvidos e reavidos.
          O Brasil que não é comprado com depósitos na Suíça nem com pratos rasos de lentilha, louva a ação da Lava Jato e aplaude Sérgio Moro. Mas sabemos todos e sabem ainda melhor os procuradores que, assim como na italiana operação Mãos Limpas, o Congresso Nacional pode aprovar projetos que já tramitam e tornam inócuas suas apurações e denúncias. Sabem que seus inimigos agem no entorno e no interior do STF, dentro e fora do governo. Se o leitor entendeu, há de ter visto que estão aí, devidamente alinhadas, grossas fatias do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. E se entendeu completamente reconhecerá o imenso serviço que aquela coletiva prestou à Nação, com sacrifício e risco pessoal dos procuradores federais.
          Não sei o que acontecerá nos próximos dias, mas quis escrever este artigo antes de o sabermos.
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* Percival Puggina (71), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.
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terça-feira, 6 de setembro de 2016

FASCISMO-LENINISMO PETRALHA EM AÇÃO


É o que eles sabem fazer: baderna e atentados ao patrimônio público e privado. Tática nova? Certamente não! Leninistas e fascistas fizeram isso, costumeiramente, ao longo do século passado, na Europa, nas Américas, na Ásia, na Africa, em todo lugar. 

Utilizo a expressão cunhada pelo jornalista argentino, radicado nos Estados Unidos, Andrés Oppenheimer (do The Miami Herald) para identificar esses ativistas totalitários: eles são "fascistas-leninistas". "O fascismo vermelho está nas ruas", escreve o bravo jornalista gaúcho Percival Puggina. Os métodos dos meliantes são sempre os mesmos: tacar terror na sociedade quando os seus objetivos são frustrados, ou quando querem "acelerar" o curso da história ou "retardá-lo" em benefício próprio. É um expediente totalitário que decorre da teoria do ressentimento elaborada por Jean-Jacques Rousseau, o maluco pai genebrino da "democracia totalitária", com o seu Contrato Social. Para ele, a culpa pelas próprias frustrações é da sociedade. Logo, quando necessário for, pressão nela, pelo terror, para conseguir os fins almejados ou simplesmente para dar vazão à própria infelicidade.

Dilma foi enxotada legal e legitimamente do Palácio do Planalto. Mas os petralhas, que já estavam acostumados às benesses do poder, não ficaram satisfeitos. A chefona os conclamou a sair à rua berrando o slogan adotado nesta circunstância: "Diretas já". Como se não houvessem sido preenchidos os cargos vagos de forma legítima. Como se o presidente Temer tivesse chegado ao Planalto de forma marginal. Como se todo o processo de impeachment tivesse sido uma manobra espúria.

Nisso ela foi coerente, bem como o seu mestre, Lula: desde o início afinaram os ponteiros para repetirem, "ad nauseam", que se tratava de um golpe. Bem que o trio dos três patetas (Levandowski, Calheiros, Eunício) tenham tentado, na sessão do Senado que votou o impeachment, favorecer a amigona com "pedaladas jurídicas" absolutamente carentes de fundamento e criminosas, a pedido dos senadores petralhas. Mas no final das tantas, a dita cuja foi colocada no olho da rua. O Supremo, nas próximas semanas, cuidará de pôr fim à fantasiosa maquinação que livrou a "ex-presidenta" de ser excluída por oito anos dos cargos públicos.

Restou aos calhordas militantes, a serviço do Lularápio, da Dilma et caterva, fazer barulho nas ruas. Polícia neles! Gostei da declaração feita no dia 5 de Setembro pelo porta-voz da Polícia Militar de São Paulo, no sentido de que a instituição não é de ninguém em particular, mas dos cidadãos de bem de São Paulo e do Brasil. Os facínoras que destroem patrimônio público e privado devem ser colocados onde a lei manda, no xilindró, como, aliás, a Polícia Militar paulista está fazendo. Palmas para ela. Palmas para o governador de São Paulo, Geraldo Alkmin!

Os meliantes petralhas fazem barulho, soltam na rua os seus ativistas fascistas-leninistas, porque sabem que a Operação Lava Jato lambe as botas do Lularápio e Companhia Familiar e Partidária. A Operação Greenfield está enquadrando os ladrões petralhas que se apossaram dos Fundos de Pensão, sugando 50 bilhões de Reais. É mais um Petrolão da vida. As investigações desse crime chegam perto do Lula e, certamente, complicarão a sua vida ao longo das próximas semanas. Daí vem a fúria dos cachorros da matilha petista.  Estão chegando perto do Chefão!

50 bilhões torrados para financiar a propaganda petralha nos últimos anos e para continuar engordando os bolsos dos ladrões, não é pouca coisa. "O PT, dizia velho jornalista amigo, veio para roubar. É uma quadrilha de Ali Babá e seus 40 ladrões". Não passam disso. A cúpula petralha que se apossou dos fundos de pensão das estatais, sob o comando do Lula e do falecido Luiz Gushiken já foi identificada e está prestando esclarecimentos à justiça: Guilherme Lacerda (FUNCEF), Sérgio Rosa (PREVI), Wagner Pinheiro (PETROS) foram buscados pela Operação Greenfield e estão falando direitinho. Como frisava O Antagonista, "Há mais PT no esquema dos Fundos de Pensão do que no Esquema da Petrobrás". Escrevia a respeito Reinaldo Azevedo (05-09): "Estamos assistindo, de forma inédita, à revolta dos ladrões". 

Mas a Operação Lava Jato continua impávida a sua marcha. Peixes graúdos que não contaram tudo ou que ocultaram parte dos fatos já estão sendo apertados pela Justiça, como é o caso de Pedro Barusco ou Léo Pinheiro. Vão terminar cantando fininho e contando tudo. Lularápio que espere, a sua hora vai chegar!