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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

NADA MENOS QUE TUDO NOS BASTIDORES DA LAVA-JATO



A obra de Rodrigo Janot intitulada: Nada menos que tudo: bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque, (com a colaboração dos jornalistas Jaílton de Carvalho e Guilherme Evelin, São Paulo: Planeta do Brasil, 2019, 256 p.) é um vivo depoimento acerca da Operação Lava-Jato. Testemunho tanto mais valioso quanto que o seu autor foi personagem central da mencionada quadra da nossa evolução política. A avaliação desse momento é de importância capital para o amadurecimento democrático do Brasil. A opinião pública precisa se debruçar sobre essa quadra da nossa história política, justamente para tirar da Lava Jato as lições que podem ajudar a amadurecer as instituições republicanas. 

É antiga a tradição do "parquet" ou ministério do Executivo que garante a informação, ao Estado, acerca dos desmandos que acontecem na administração pública. Em épocas de absolutismo, o "parquet" , como nos terríveis tempos do terror jacobino, após a Revolução Francesa (1789), chegou a se mimetizar com os próprios justiceiros. Ocorreu isso por força do pensamento de Rousseau (1712-1778), que, cioso de manter incólume a unanimidade ao redor do poder estabelecido, exagerou na dose da eliminação da dissidência, submetendo à guilhotina todos aqueles que discordassem do núcleo moralizador dos "puros", que encarnavam o interesse público. Os mais de 40 mil guilhotinados e os 300 mil camponeses assassinados pelos jacobinos na Vendeia, nessa época, dão testemunho da irracionalidade que reveste a ação daqueles que querem governar partindo da unanimidade ao redor dos detentores do poder. Saint-Just (1767-1794), o "anjo da morte" e o seu inspirador, Robespierre (1758-1794), foram gestores e vítimas, ao mesmo tempo, da implacável máquina de descabeçar opositores. A tragédia se repetiria, multiplicada em número de vítimas, nas aventuras totalitárias do século XX, ao ensejo do comunismo e do nazi-fascismo.

Mas a tradição do "parquet" encontrou, ulteriormente, na França e alhures, civilizadas modalidades, no seio do constitucionalismo moderno. No Brasil do século XXI, não há dúvida de que a atuação do "parquet", ou Ministério Público, estabelecido pela Constituição de 1988, foi fundamental para o sucesso da Operação Lava-Jato, que desmontou a máquina de corrupção instalada pela engenharia da ladroagem do PT e comparsas.

Mas também é claro que existem, hoje, no panorama político, várias tendências que visam a desmoralizar a Operação Lava Jato, como um entrave à normal evolução da política brasileira. Rodrigo Janot endereça o seu depoimento ao público em geral, com a finalidade de ajudar na reflexão que a sociedade deve fazer em torno ao fenômeno da corrupção. A respeito, frisa: "De toda forma, espero sinceramente que os casos trazidos à luz ajudem na reflexão sobre corrupção, política e responsabilidade individual na construção de uma nova sociedade" [p. 11]. Não se trata, portanto, de invalidar as instituições republicanas, como se pudesse ser erguida uma barreira jurídica contra a prática da política. Trata-se, simplesmente, de uma contribuição à reflexão dos cidadãos sobre as instâncias que possibilitam, no Brasil, o combate à corrupção. 

O apoio decidido da opinião pública à Operação Lava-Jato.

A primeira coisa que salta à vista, é que a Operação Lava-Jato foi amplamente apoiada pela opinião pública, até o ponto de que mudou a percepção da tradicional prática política, que fazia da coisa pública uma mistura entre saque ao tesouro e interesses dos atores mais poderosos: políticos profissionais e empresários corruptos. Todos esses atores estavam dispostos a avançar sobre o dinheiro da Nação, mediante fajutas  operações nas quais, sob a fachada de obras públicas, disfarçava-se o enriquecimento ilícito, a fim de abastecer os bolsos dos empresários inescrupulosos e de comparsas políticos, dispostos a qualquer coisa para se locupletarem a partir do erário.

A Operação Lava-Jato cercou aqueles que, segundo as provas, participavam do saque indiscriminado ao Tesouro. O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi, de longe, a figura mais forte em termos dos obstáculos colocados em funcionamento para impedir o avanço das investigações. 

A respeito, escreve Janot: "De todos os investigados por nosso grupo de trabalho da Lava Jato em Brasília, Eduardo Cunha foi, de longe, o que mais opôs resistência ao trabalho do Ministério Público. Tivemos dificuldades com Fernando Collor, com Renan Calheiros e com muitos outros. Mas nenhum deles nos pareceu tão atrevido e tão influente quanto Cunha - nem mesmo Temer, investigado e denunciado quando ainda era presidente da República. Ao longo das investigações, Cunha conseguiu colocar contra a Procuradoria-Geral o vice-presidente da República, um ex-presidente da Câmara, um ex-procurador-geral, duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI da Petrobrás e CPI da JBS) e uma bancada de fiéis e agressivos deputados, boa parte deles do Centrão, que ainda hoje, dá as cartas no Congresso Nacional. Curiosamente, as investigações sobre o ex-deputado foram as mais rápidas e eficientes que fizemos. Em um ano e sete meses de investigação, ele foi afastado da presidência da Câmara, teve o mandato cassado e terminou preso em Curitiba. Foi uma virada de página no caso Petrobrás e uma mudança nos rumos do país" [p. 101].

O papel do Ministério Público é, para Janot, apenas o de um auxiliar da Justiça. Frisa a respeito: "O Ministério Público é o braço acusador do Estado. Nosso papel é investigar, denunciar e brigar pela punição de quem fere a lei. Nada além disso" [p. 251].

Parte da crise pela qual enveredou o Ministério Público recentemente decorre, a meu ver, do fato de alguns Promotores - como no caso da Operação Lava-Jato em Curitiba - terem tentando ampliar a sua função para além de ser "o braço acusador do Estado", passando a fixar normas a serem levadas em consideração pelo eleitorado, função que caberia ao Legislativo ou à Justiça Eleitoral. Aqui se inseririam os "dez preceitos" indicados pelos Promotores para moralizar a representação.

"Quem tem medo não pode ser investigador" - Pressão dos corruptos sobre o Ministério Público.

As investigações do Ministério Público contra Cunha não foram fáceis. Rodrigo Janot confessa que ele e os seus colaboradores enfrentaram uma personalidade capaz de qualquer coisa para paralisar os trabalhos. A intimidação provocada por Cunha e os seus sequazes tornou-se visível no caso da advogada Beatriz Catta Preta, a fim de que ela fosse depor em favor de Cunha, na CPI da Petrobrás. Deputados amigos do presidente da Câmara a pressionaram ameaçando-a. "Mesmo sabendo que poderia contar com a proteção do Estado brasileiro, ela preferiu mudar-se com a família para os Estados Unidos, para manter distância de Cunha e seus aliados", frisa Janot [p. 97]. Um dos colaboradores de Cunha, Lúcio Bolonha Funaro, no melhor estilo mafioso, ameaçou tocar fogo no apartamento de Catta Preta, com ela e os filhos dentro.

A pressão sobre os membros do Ministério Público era constante e terminou gerando uma onda de ameaças, que se traduziram em mudança de hábitos dos investigadores e de reforço ao compromisso deles em prol da manutenção das ações iniciadas contra a bandidagem instalada no coração do Estado. Assim se refere Janot a esse clima de insegurança e apreensão: "É preciso ter uma atuação reta. Se começa a colocar outros ingredientes na sua decisão, que não seja a decisão técnica, aquela que deve ser tomada, você se ferra. Se abrir exceção para um, vai ter que abrir exceção para todo mundo. Nós sabíamos que Cunha era ousado e tinha ligações estranhas. Ouvíamos até que ele tinha ligação com um grupo de extermínio do Rio. Por isso, tínhamos porte de arma e andávamos com proteção. Mas receio do ex-deputado? Não. Ninguém da equipe tinha receio dele. É necessário enfrentar esse tipo de problema. Quem tem medo não pode ser investigador" [p. 98].

A verdade é que a atuação dos membros do Ministério Público cobrou deles, na sua vida particular, uma enorme conta, por força das continuadas tensões emocionais vividas ao ensejo da realização das suas várias missões. O próprio Janot dá conta da pesada dívida existencial que teve de pagar, por conta das tensões continuadas à frente da PGR. No capítulo intitulado: "Nada será como antes", o autor afirma: "Em janeiro de 2018, quatro meses depois do fim do meu segundo mandato como procurador-geral, eu estava morando sozinho num apartamento de 57 metros quadrados em Bogotá.  Tinha me separado da minha mulher em outubro do ano anterior e resolvera aproveitar um convite da Universidad de los Andes para mudar de ares. Também tinha perdido temporariamente o contato com antigos interlocutores da esquerda, da direita, do centro, de todos os quadrantes políticos. Alguns eram amigos, outros nem tanto. Vários estavam, de algum modo, insatisfeitos comigo. (...). As críticas eram sempre as mesmas, mas com sinais trocados. O rigor deveria ser sempre aplicado aos investigados de campos ideológicos opostos. (...) Infelizmente, o compadrio e o jeitinho ainda são traços fundamentais da nossa cultura" [p. 239]. 

Arrependimento do trabalho feito na Procuradoria? Não. Janot é enfático a respeito: "Um amigo, que conhece um pouco esse meu ponto de vista (de luta contra a corrupção, qualquer que seja a sua manifestação), me perguntou se, sendo assim, valera a pena tanta luta. Eu digo que sim. Digo mais, até: faria tudo de novo, igualzinho ao que fizemos todos esses anos. E olha que comemos o pão que o diabo amassou. Em quatro anos de Procuradoria Geral, vivemos quatro décadas. Engordei, envelheci e, confesso, perdi e recuperei as esperanças algumas vezes. Era um carrossel sem direito a descanso. (...) No centro do poder, a luta é diária. A trégua é só a preparação para a batalha seguinte. Comigo e com a minha equipe foi assim. Trabalhávamos em média de doze a quatorze horas por dia. Não poucas vezes, o trabalho avançava pelos fins de semana e feriados. A Lava Jato nos absorveu de tal forma que era impossível parar (...). [p. 242-243].

Isso sem levar em consideração a segurança pessoal, que obrigou o Procurador-Geral a fazer curso de tiro, andar armado e se submeter ao tedioso hábito de ele, e a sua família, consultar a equipe de segurança para qualquer deslocamento.

Uma ironia da história. O bravo Procurador Janot, uma vez relevado do seu cargo, foi vítima, em Bogotá, da traquinagem de reles larápios, os famosos "cacos bogotanos". Eis a narrativa do fato pelo próprio Janot: "Eu acabara de sair do hotel Rosales, onde me hospedara inicialmente, e estava fazendo uma caminhada em direção ao Museu do Ouro. Estava relaxado. Era a primeira vez em muito tempo que caminharia pelas ruas de uma grande cidade sem o risco de ser interpelado por um investigado ou abordado por um jornalista (...). Era a primeira vez em quatro anos que eu poderia andar nas ruas sem segurança e com a tremenda sensação de liberdade. De repente, um transeunte se aproximou de mim e me perguntou, de uma forma confusa, se eu sabia onde poderia fazer 'câmbio'. Ele era da Venezuela e precisava de dinheiro local. Aquilo me soava como o apelo de um refugiado gritando por uma ajuda mínima. Eu respondi que não sabia, que tinha acabado de chegar do Brasil e não conhecia bem a cidade, e segui a minha caminhada. Caminhando ao meu lado, o rapaz apontou para um outro homem parado na esquina, a quem foi pedir informação. 'Onde posso fazer cambio aqui?', o venezuelano perguntou. 'Vocês são estrangeiros? Estão juntos?', respondeu o homem, que sacou uma carteira e se identificou como policial federal. Antes que pudéssemos responder claramente, ele pediu passaportes, fez uma bateria de perguntas e decretou: 'Vocês terão de me acompanhar até a delegacia!' Eu estava em situação regular, mas 'meu amigo venezuelano' não, porque deixara o passaporte no hotel, conforme a versão dele. Portanto, o 'policial federal' teria que registrar o caso numa delegacia a 50 metros dali, e nós deveríamos acompanhá-lo. Achei tudo muito estranho, mas só me dei conta de que tinha caído numa arapuca quando, a caminho da tal delegacia, entramos numa rua secundária e isolada. (...). Antes que eu esboçasse qualquer reação, o 'venezuelano' botou a mão embaixo do casaco para mostrar que estava armado. Entendi que não era o caso de testar a verdade. Eram dois ladrões, e eu não sabia o que poderiam fazer comigo se descobrissem que estavam diante de um 'fiscal da lei'. Sem maiores negociações, eles pegaram as notas de peso e o celular que encontraram no bolso da minha camisa e sumiram em segundos. Voltei à via principal, Carrera Sétima, e relatei o fato a um policial fardado. Ele disse que tentaria localizar os larápios, mas deixou claro que era muito difícil fazer algo contra esse tipo de vigarice. Aquilo era inacreditável. Depois de passar tantos anos enfrentando criminosos no Brasil, eu fora trapaceado por dois malandros de rua em Bogotá. Que humilhação!"[p. 240-242].

Os processos contra os corruptos.

Os indícios contra Eduardo Cunha foram assim sintetizados por Janot: "(...) No início, quando o ministro Teori Zavascki autorizou a abertura do primeiro inquérito contra Cunha, tínhamos apenas o depoimento em que o doleiro Alberto Youssef relatava o pagamento de US$ 5 milhões a Cunha a pedido do lobista Júlio Camargo. Parte do pagamento teria sido intermediada pelo lobista Fernando Baiano, inclusive com remessas ao exterior. A confissão do doleiro era explosiva, mais do que o necessário para abrir um inquérito, mas não suficiente para sustentar uma acusação formal. Youssef tinha falado sobre um requerimento de informação usado na Comissão de Fiscalização da Câmara para pressionar Camargo a pagar parte da propina a Fernando Baiano. O suborno total seria de US$ 40 milhões. Era a 'comissão' cobrada para induzir a diretoria internacional, comandada por Nestor Cerveró, a adquirir, sem licitação, dois navios-sondas da Samsung Heavy Industries, um negócio de 1,2 bilhão. Detalhe: Cerveró fechou o negócio sem o devido estudo de comprovação da necessidade dos dois navios. Ou seja, ao que tudo indica, a compra bilionária seria um meio de justificar a propina (partilhada entre Cunha, Baiano,  Cerveró e Júlio Camargo), e não o contrário. Enfim, uma estranha inversão de prioridade, inclusive nesse mundo pantanoso da corrupção" [p. 101-102].

A prova necessária para instruir o processo contra Cunha foi a cópia do requerimento de informação usado na Comissão de Fiscalização da Câmara, que teria saído do computador do presidente da Casa. O diretor da Câmara recebeu, então, a visita dos membros do Ministério Público. Tentou obstaculizar a entrega da cópia, alegando que precisaria dar ciência a Eduardo Cunha. O chefe da equipe do Ministério Público orientou, então, o oficial de Justiça a registrar detalhadamente o que estava acontecendo "porque aquilo poderia dar ensejo a um pedido de prisão". Com medo das sanções penais, o diretor da Câmara entregou o documento requerido.

A respeito, Janot frisa: "Diante do requerimento de chantagem, Júlio Camargo, que praticamente ignorou Cunha na delação, decidiu refrescar a memória e, num detalhado depoimento, confirmou a tentativa de extorsão, o pagamento da propina e a agressividade do deputado na cobrança do suborno. Pelo que entendi, o lobista tinha medo físico do parlamentar. A delação de Camargo foi ampliada com a colaboração de Fernando Baiano, que, espremido pelas evidências, também concordou em contar como se utilizara dos serviços de Cunha para cobrar o restante da propina de Camargo" [p. 105].

Apesar das articulações efetivadas pelo deputado Eduardo Cunha para paralisar as investigações do Ministério Público, foi possível enquadrá-lo dentro dos rigores da lei. A propósito, frisa Janot: "Apresentamos a primeira denúncia contra Cunha por corrupção e lavagem de dinheiro em 20 de agosto de 2015. Quatro meses depois, com mais informações coletadas, pedimos o afastamento do deputado da presidência da Câmara. Em março, o STF abriu processo contra o presidente da Câmara. Três meses depois, ele foi afastado da presidência" [p. 107].

A prisão de Cunha mudou radicalmente o panorama político. "Com Cunha na Câmara, frisa Janot, Bolsonaro não seria presidente". O ex-diretor da Procuradoria Geral arrisca a seguinte hipótese: "Se tivesse sobrevivido à investigação, Eduardo Cunha, e não Jair Bolsonaro, teria sido eleito presidente do Brasil nas eleições de 2018" [p. 98]. Janot explica o seu palpite da seguinte forma: "Agora, quando escrevo este livro [entre dezembro de 2018 e o primeiro semestre de 2019], ninguém mais parece se lembrar, mas em 2015, antes de receber o carimbo de corrupto e mentiroso, Cunha vinha recebendo crescente apoio do empresariado, dos evangélicos e dos grupos de direita que lideravam grandes manifestações contra a corrupção. Bolsonaro só passou a catalisar o sentimento anti-PT, que se traduzia nos protestos contra a corrupção na Petrobras, depois que Cunha perdeu o mandato, foi preso e saiu de cena. Nesse sentido, não seria errado dizer que Bolsonaro também deve parte da vitória na eleição presidencial ao sucesso da investigação contra Cunha, o que não deixa de ser um contrassenso no contexto geral. Isso porque o PP, onde militou Bolsonaro por longos anos, foi o partido, em termos numéricos, mais atingido pela Lava Jato. Foi o PP quem indicou Paulo Roberto Costa para a diretoria de Abastecimento e, com isso, instituiu na Petrobrás a cobrança sistemática da propina vinculada a contratos da estatal e empreiteiras. Parlamentares do partido recebiam regularmente uma mesada, que em alguns casos chegava a R$ 150 mil, en troca do apoio a Costa. Bolsonaro foi um dos poucos do partido não mencionados nas delações do ex-diretor e do doleiro Alberto Youssef" [p. 98-99].

O autor expõe em detalhe os processos levantados contra figuras importantes da política brasileira como o senador Delcídio do Amaral e o ex-presidente Lula. As diferenças com a equipe de Procuradores da Lava Jato em Curitiba (chefiada por Deltan Dallagnol) ocorreram pelo fato de eles terem desconhecido a ordem expressa do ministro Teori Zavascki, do STF, no sentido de excluir a possibilidade de a equipe de Curitiba investigar e denunciar Lula por crime de organização criminosa, que seguia no Supremo. Ora, a denúncia por organização criminosa era essencial para Lula ser acusado de lavagem de dinheiro, como queriam Dallagnol e a sua equipe.


Em que pese essa diferença entre a PGR e a turma de procuradores de Curitiba, a equipe de Janot continuou com o seu trabalho. A respeito, frisa o ex-procurador: "(...) Fiz as denúncias conforme os critérios estabelecidos inicialmente, embora a ordem das acusações tenha sofrido uma ligeira alteração. E, em 1º de setembro de 2017, denunciamos o quadrilhão do PP. Quatro dias depois, fizemos uma denúncia por organização criminosa contra Lula e outros do PT, ou seja, quase um ano após a denúncia da força-tarefa de Curitiba. Em 8 e 14 de setembro, protocolizamos as denúncias contra o PMDB do Senado e da Câmara. A troca da ordem, uma diferença de poucos dias, se deveu tão somente ao andamento natural das investigações" [p. 185]. "Em suma - conclui Janot -, eu não poderia corrigir uma falha de Curitiba colocando em risco meu trabalho e, mais do que isso, quebrando a máxima de nunca tomar qualquer decisão que não fosse amparada na regra geral, técnica e impessoal" [p. 185-186].

Ponto alto das investigações da PGR foi a gravação que o empresário Joesley Batista fez do Presidente Temer no Palácio Jaburu. A respeito, escreve Janot: "Com a artilharia crescendo em nossa direção, tivemos que trabalhar em dobro, a inda mais rápido. Rocha Loures e outros réus estavam presos. Tínhamos prazos curtos a cumprir. Rocha Loures foi preso em 3 de junho [de 2017], depois que perdeu a vaga a deputado com o retorno de Osmar Serraglio à Câmara. Em 26 de junho, pouco mais de um mês depois das primeiras buscas, denunciamos o presidente da República e o ex-assessor especial por corrupção. Para nós, o crime estava devidamente caracterizado nas imagens de Rocha Loures recebendo a mala com R$ 500 mil de Ricardo Saud. A entrega da mala era o primeiro resultado concreto da conversa de Temer com Joesley Batista no Jaburu e das incursões de Loures pelo governo para atender os interesses do empresário. Era um caso com ciclo completo Na primeira cena, o presidente se reúne com um empresário às escondidas e indica um interlocutor de confiança, autorizado a tratar de qualquer assunto. No momento seguinte, o empresário se encontra com o assessor e apresenta um pedido de favores para uma de suas empresas. Na terceira etapa, o assessor recebe uma mala de dinheiro e sai correndo com a fortuna pelas ruas de São Paulo. Um roteiro de cinema não poderia ser mais completo e simples". 

"Como se não bastasse - continua Janot -, relatório da Polícia Federal sobre a primeira fase do inquérito contra Temer seguia na mesma direção. 'Diante do silêncio do mandatário maior da Nação (Michel Temer) e de seu ex-assessor especial (Rocha Loures), resultam incólumes as evidências que emanam do conjunto informativo formado nestes autos a indicar, com vigor, a prática de corrupção passiva', concluiu o delegado Marlon Cajado. A denúncia teve forte impacto. Afinal, pela primeira vez na história, um presidente da República era denunciado por corrupção em pleno exercício do mandato. Alguns diziam que a acusação formal da Procuradoria-Geral seria o fim do governo. Outros insistiam na tese do açodamento. Outros ainda diziam que o procurador-geral deveria ter esperado um pouco mais (quanto tempo?) para fazer uma denúncia de tamanha envergadura. (...) Temer chegou a insinuar que minha atuação tinha como objetivo final alguma vantagem financeira (...)" [p. 218-219].

Janot relata a perseguição de que foi vítima, através de ataques contra a honra do irmão falecido e contra a filha Letícia, cheias de insinuações maldosas. "Num dos momentos de dor aguda - confessa -,  de ira cega, botei uma pistola carregada na cintura e por muito pouco não descarreguei na cabeça de uma autoridade de língua ferina que, em meio àquela algaravia orquestrada pelos investigados, resolvera fazer graça com a minha filha. Só no houve o gesto extremo porque, no instante decisivo, a mão invisível do bom senso tocou meu ombro e disse: não" [p. 216]. Pouco antes do lançamento do seu livro, no segundo semestre de 2019, o próprio Janot, em entrevista à imprensa, confessou que a mencionada autoridade era o ministro Gilmar Mendes.

Para Janot, tentar jogar pelo chão a denúncia do Ministério Público contra o Presidente Temer, equivaleria a rasgar o Código Penal. Resume assim as provas levantadas e sustentadas pela PGR: "Tínhamos a gravação da conversa incriminadora entre Temer e Joesley Batista na calada da noite no Jaburu. Tínhamos a gravação de Batista e Rocha Loures acertando o uso da estrutura do governo em benefício do empresário. E, por fim, tínhamos a corridinha com a mala de dinheiro pelas ruas de São Paulo. Se aquelas conversas escabrosas e aquela fuga do assessor do presidente com uma mala com R$ 500 mil não eram 'indícios' suficientes para se abrir um processo por corrupção, o crime deveria ser excluído do Código Penal" [ p. 221].

Conclusão: o que esperarmos do papel do Ministério Público em face da Operação Lava Jato?

A minha posição em face desse aspecto é clara: a Operação Lava Jato foi uma grande realização do Ministério Público, que em muito ajudou a clarear o nosso ambiente político, delimitando, com meridiana claridade, os lindeiros do que é permitido por lei e do que constitui prática criminosa.

O Ministério Público, ao ensejo dessa operação, agiu rigorosamente dentro dos marcos assinalados pela Lei, apresentando à Justiça provas para o julgamento de agentes públicos suspeitos e ulteriormente acusados de corrupção. Mas, de outro lado, teria faltado, aos arquitetos da Operação, fixar os limites temporais desse conjunto de ações. 

O próprio Rodrigo Janot assinala este aspecto, no seguinte comentário por ele tecido na Apresentação da obra: "Lembro-me (...) de uma profética conversa que tive com a deputada italiana Marina Sereni num jantar na embaixada da Itália, em 2015. Ela me fez três perguntas: 1 - 'O senhor ou alguém de sua equipe pretende disputar algum cargo político?'; 2 - 'O senhor já definiu o limite descendente, ou seja, até onde vão descer as investigações?' 3 - 'Já sabe quando o senhor vai terminar essa investigação?' - À primeira pergunta eu respondi com firmeza. Não me candidataria a nada, nem a síndico de prédio. As duas outras perguntas me pareceram estranhas. Como assim, definir limite de uma investigação? Como estabelecer prazo para concluir as apurações? A deputada me disse, então, que, ao ampliar demais as investigações e atingir pessoas comuns, a Operação Mãos Limpas, da Itália, perdeu o apoio da opinião pública, inflamada por 14 suicídios. Disse também que, se não encerrássemos de forma planejada a Lava Jato, uma 'mão externa' o faria por nós. Só hoje consigo entender o alcance daquelas palavras. Agora que vejo que esse movimento vasto, de múltiplas procedências, para 'estancar a sangria com o Supremo, com tudo' " [p. 10-11]. 


Os atuais movimentos do Supremo, no sentido de acabar com a prisão após a segunda instância, faz parte, certamente, desse "movimento vasto" a que se referia Janot. O caminho, hoje, para voltar à normalidade, parece complexo. Passa, a meu ver,  pela ação dos freios e contrapesos do Congresso da República sobre o Supremo, no caso específico da decisão de acabar com a prisão após a segunda instância. Só assim se garantiria a ação já executada pela Operação Lava Jato, sem anular os seus efeitos benfazejos ao atacar a corrupção no seu nascedouro. E se abriria a porta, também, para a definição de um limite temporal para a mesma. Nos atuais momentos, de perda de credibilidade do Supremo, esses limites temporais teriam de ficar por conta do Legislativo, que é o poder constitucional chamado a corrigir os desvios do STF.

Mesmo com as idas e vindas da política, uma lição ficou clara, para Janot, a partir da Operação Lava-Jato: nunca a vida será a mesma, de agora em diante, para os corruptos. A respeito, frisa: "A Lava Jato não acabou com a corrupção, mas mexeu significativamente em feudos políticos e econômicos. Os donos do poder foram tirados da eterna zona de conforto em que se encontravam. Não há, é verdade, a certeza de que todo poderoso que cometa um crime sofrerá algum tipo de punição. Mas também não há mais certeza de que não terá nenhum incômodo. O próprio Temer passou dois anos se escudando na Presidência da República, mas, tão logo deixou o cargo, foi preso duas vezes. Isso, para mim,  é uma mudança clara de paradigma. Uma mudança que, no futuro, será vista como um salto histórico. É perceptível também que o discurso da moralidade no serviço público foi incorporado por parte expressiva da população. Não existe mais espaço para velhos bordões do tipo 'rouba, mas faz', a expressão máxima do cinismo que predominava na velha política. O 'roubo' pode até acontecer, mas ninguém teria mais a coragem de se vangloriar publicamente de uma desonestidade operativa. O lema agora poderia ser outro. 'Faça e não roube', porque ninguém poderá alegar inocência. Ninguém poderá dizer que foi seduzido ou constrangido. O empresário não poderá culpar o político. O político não poderá culpar o financiador de campanha. Se uma empresa não puder ganhar uma concorrência, que mude de ramo. Se um político não consegue dinheiro legalmente para sua campanha, que não se candidate. Caso contrário, que admita o risco permanente da virada do jogo. Porque, depois de tudo que foi feito nos últimos cinco anos, nada será como antes" [p. 252-253].

domingo, 6 de maio de 2018

O PATRIMONIALISMO DE CORPO INTEIRO

Dizia Sir Francis Bacon no seu Novum Organon (1620), que as descobertas da ciência não aparecem a qualquer um, mas que é preciso ter o espírito preparado para elas. São janelas por onde se filtra a luz que nos explica o emaranhado relacionamento dos fenômenos. O cientista precisa estar alerta, a fim de não deixar passar o instante em que a verdade dos fatos se revela. 

Pois bem: com a complicada natureza do Estado Patrimonial não acontece diferente. Alguns fatos, pequenos às vezes, servem para nos revelar a presença, sob as instituições formais, do Estado Patrimonial. É isso que a Operação Lava Jato tem revelado. O "Público como Privado" da nossa estrutura republicana é o grande mal. Mas ele se revela, especialmente, em algumas circunstâncias.

Um pequeno fato revelou, há já vários anos, a estrutura do Estado Patrimonial, colocando de manifesto a existência de um estamento burocrático privilegiado: em entrevista a jornalistas, um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal revelou a razão pela qual era necessário manter o super-salário que recebia, corrigido acima da média da inflação, contrastando com a penúria de outros funcionários públicos e com a situação da maioria dos brasileiros que viam os seus ingressos serem corroídos pela cadeia inflacionária. O ex-magistrado falou mais ou menos assim com a jornalista: "Ora, para manter o meu padrão de vida é necessária essa correção do salário. Acostumei-me a trocar de carro (de luxo) todo ano".

Um segundo fato, recente, jorrou outro clarão de luz sobre a existência do estamento burocrático privilegiado, para o qual não vale a lei como para o resto dos brasileiros. Fazendo os cálculos sobre quem sairia perdendo com a queda do foro privilegiado, debatida no Supremo na semana passada, jornalistas calculavam a quantas pessoas abriga atualmente o "foro privilegiado" no Brasil, chegando à conclusão de que os beneficiários seriam em torno de 50 mil funcionários públicos e políticos. Isso explica a grita enorme que a queda do foro privilegiado produz nas redes sociais, nos arraiais do governo e na imprensa.

O fato maior, porém, veio na trilha das investigações ensejadas pela Operação Lava Jato e à sombra das delações premiadas de empresários e políticos presos. Tais delações revelaram, no decorrer dos últimos anos, a essência do Estado Patrimonial como aquele no qual o núcleo do poder, identificado com o Executivo e com setores expressivos da cúpula do Legislativo, alargou a sua dominação doméstica sobre territórios, pessoas e coisas extra-patrimoniais, passando a administrá-lo tudo como posse de família. O fato revelado consistia no projeto de perpetuação do PT no poder. Tal projeto, elaborado pela Presidência da República no primeiro governo de Lula (com a colaboração direta dos ministros José Dirceu e Luiz Gushiken), consistia em utilizar as empresas estatais e os fundos de pensão das mesmas como cabeças de ponte para o PT se apropriar, de forma alargada, de enormes fatias de dinheiro público desviado fraudulentamente mediante a cooptação das maiores empreiteiras do país que virariam "campeãs de bilheteria", mediante empréstimos irregulares do BNDES, concedidos com a prévia condição de que os empresários beneficiários (no Brasil e no exterior) das licitações fraudulentas, rachassem as milionárias somas desviadas com a elite petista, com a finalidade, dupla, de: a - enriquecer os membros do stablishment petista e os seus colaboradores e, b - fazer um fundo amplo para financiar a compra das eleições presidenciais vindouras, abrindo assim a perspectiva para a perpetuação do PT no poder. 

Esse esquema começou a ser revelado em 2005 com a operação ensejada pela Magistratura auxiliada pelo Ministério Público, que denunciou e puniu o "Mensalão", ou compra de maiorias parlamentares mediante o pagamento às lideranças das agremiações de gratificações para aprovarem a toque de caixa, no Congresso, projetos de interesse do governo. O esquema revelado mostrou que foi construída complexa rede de altos funcionários de governos estrangeiros beneficiários dos "empréstimos" do BNDES, tanto em países da América Latina quanto da África especialmente, com as consequências de crise interna nos países que adotaram esse tipo de parceria criminosa com o governo petista. Ainda está por ser revelada a real dimensão dessa megaempresa de corrupção, que projetou a imagem do Brasil como um dos campeões da corrupção em nível mundial, mas que está resgatando, também, a imagem do Brasil como um país em que a Magistratura e as instituições republicanas estão atuantes para fazer frente a esse mal.

O esquema funcionou a contento até a segunda eleição da Dilma Rousseff, mas fez água em decorrência da quebra da economia propiciada pelas "pedaladas fiscais" que, somadas aos desvios que já tinham se perpetrado na Petrobrás, na Eletrobrás e em outras estatais, levaram à literal insolvência do Estado com a consequente deposição da presidente em 2016, no tumultuado processo de impeachment que ilegitimamente passou a ser denominado pelos petistas de "golpe".

O mais curioso é que um fato, aparentemente intranscedente, de corrupção de balcão de pequena monta (três mil míseros reais), no decorrer de 2005, ocorrido na Empresa de Correios, pôs de relevo, nos meses posteriores, a verdadeira dimensão, escatológica, da empreitada da corrupção petista. Quem tivesse ouvido a notícia isolada, ficaria com a impressão de que se tratava de um fato a mais do dia a dia da esperteza brasileira. No entanto, a inusitada delação do projeto de corrupção por um político insatisfeito com o desigual reparto do butim entre os corruptos (tratava-se do presidente de uma pequena sigla partidária aliada do PT), revelou as verdadeiras dimensões do Mensalão. Mais uma surpresa da fresta através da qual se revelou a natureza do Estado Patrimonial brasileiro. A verdade, como diria Parmênides, "gosta de se esconder" e vai se revelando aos poucos.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

CORRUPÇÃO ENDÊMICA NO BRASIL E NO MUNDO: AS (VELHAS) NOVIDADES BRASILEIRAS


Não é de hoje que a corrupção endêmica ameaça as Nações. Da segunda metade do século XX para cá, além da nossa Operação Lava Jato, mais quatro grandes operações foram deflagradas em diversos países, com a finalidade de esconjurar o mostrengo: a operação "Mãos Limpas" na Itália, a reação do partido comunista contra a "Máfia dos quatro" na China, o reconhecimento de que tudo era inviabilizado pela onda de corrupção da burocracia corrupta (denominada de O Lamaçal) na ex-União Soviética, e a denúncia fulminante da imprensa acerca das maquinações corruptas de Nixon contra o Partido Democrata nos Estados Unidos. De comum a todas essas operações ressalta a insatisfação crescente da sociedade em face da corrupção escancarada.

1 - Itália e a Operação "Mãos Limpas". 

Na Operação "Mãos Limpas" na Itália, a sociedade reagiu contra as práticas de corrupção corriqueiras no seio dos partidos políticos que se acostumaram à distribuição do butim, se apropriando de parcelas significativas de dinheiro público como "compensação" pelos serviços prestados à Nação em obras públicas e serviços essenciais. A reação de juízes e promotores foi saudada pelos cidadãos que se sentiam espoliados pelos corruptos. Com sucesso marcante nos primeiros anos, os juízes e promotores foram, aos poucos, perdendo apoio da sociedade, em decorrência da falta de uma moral social firme que desse continuidade à ação encetada no início com sucesso. Ao que tudo indica, a Igreja Católica, tradicionalmente majoritária no país, não conseguiu difundir no seio da sociedade italiana esse tipo de moral social. Tradicionalmente dividida em círculos de clientelismo corrupto, a sociedade italiana terminou se esquecendo da tarefa heroicamente empreendida por funcionários públicos honestos e terminou abrindo a porta para que novos líderes aparecessem, retomando a tendência corrupta. Foi assim como se tornou possível a aparição de um líder como Berlusconi, que terminou estabelecendo elos de continuidade mafiosa entre as suas empresas da área de comunicação e setores da sociedade italiana que passaram a apoia-lo. Se bem é certo que os antigos chefes políticos surpreendidos "com as mãos da massa" das práticas corruptas perderam a vez, surgiram novos rebentos do mesmo espírito que legislaram em causa própria. Resultado: a volta da doença atingiu a eficiência econômica do sistema, a Itália perdeu pontos no desenvolvimento da sua economia, novos centros do cancro corrupto foram abertos pela ação das tradicionais máfias (como ficou demonstrado por Roberto Saviano nas suas obras de denúncia política) e as coisas se acomodaram de forma periclitante para a sobrevivência do sistema, em face de novos e agressivos reptos como os decorrentes das ondas massivas de imigrantes cuspidos nas praias italianas pelos regimes terroristas do Oriente Médio e da Africa, com a espada da Dámocles do terrorismo sobre a testa do governo e da sociedade civil, como ocorre hodiernamente.

2 - A China comunista e a "Máfia dos Quatro". 

Na China comunista, após a morte de Mao-Tse-Tung, ficou exposto o trabalho em surdina desenvolvido pela mulher do líder, que organizou, com membros da burocracia partidária fiéis a ela, a denominada "Máfia dos Quatro" que passou a se enriquecer estupidamente a partir das expropriações efetivadas ao longo do período da "Revolução Cultural" maoista. No entanto, setores não contaminados do PC chinês reagiram à sombra da ética do mandarinato, neutralizaram a onda corrupta e reformularam o sistema à luz do princípio pragmático formulado por Den Xiao Ping de que "Não importa a cor do gato, conquanto cace o rato". Os chineses descobriram as práticas de gestão do capitalismo, abriram as suas fronteiras aos dinheiros do Ocidente e deram ensejo à onda de renovação da China contemporânea. Não é de hoje que a secular burocracia chinesa descobre esse caminho de abertura ao oeste. Isso já vinha sendo praticado em ondas que se repetiam, desde os velhos tempos das dinastias Han (202 a.C-265 d.C), Yuan (1279-1368), Manchu (1644-1912), etc., até a contemporaneidade. O conceito estratégico hodierno da liderança chinesa de "Mundo Murado" preserva a atitude de um pé atrás nas reformas modernizadoras, que devem preservar, antes de tudo, a estabilidade do sistema e a ortodoxia da burocracia inspirada no confucionismo. Xi Jinping, o atual mandatário chinês, emergiu justamente do lado conservador dessa burocracia confuciana, com raízes no seio das famílias, do atual mandarinato. O PC chinês conseguiu dar continuidade à onda de crescimento econômico graças ao investimento maciço em formação de lideranças empresariais e tecnológicas, as primeiras provenientes da elite empreendedora da "diáspora chinesa" que tinha emigrado para os denominados "Tigres Asiáticos" nas épocas duras da revolução maoista, tendo desenvolvido no exterior a sua criatividade mediante a prática do comércio intensivo, a poupança e a derivação para atividades empresariais e bancárias que a tornaram extremadamente rica, ao ponto de poder voltar para a Mãe Pátria no momento de pragmatismo de Den Xiao Ping, tendo feito florescer grandes conglomerados empresariais, incluindo Bancos. Esse processo de renovação econômica sobre bases éticas confucianas foi estudado pelo professor Peter Berger, da Universidade de Boston, ao longo das últimas duas décadas. 

As elites tecnológicas, por sua vez, vêm sendo preparadas mediante acertada política de "ciência sem fronteiras" direcionada, ao longo das últimas três décadas, a formar os melhores estudantes nos melhores centros tecnológicos dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Hoje a China sabe o que fazer com essa onda modernizadora, como mantê-la neste mundo convulsionado. Para isso, segundo revelam estudos de cientistas políticos alemães, a China conta hoje com mais de 1400 centros de estudos estratégicos financiados generosamente pelo governo, a fim de estudar todas as variáveis que se abrem pelo mundo afora em face da manutenção da segurança e da prosperidade do país. Uma invejável perspectiva estratégica de que estamos longe, certamente, no Brasil, onde o Estado não conta sequer com um centro de prospecção estratégica de nível internacional. Hoje a China, para 500 milhões de chineses, chegou ao Primeiro Mundo. Basta dar uma olhada para o turismo que essa elite econômica pratica, sendo praticamente multitudinárias as ondas de turistas chineses que percorrem os boulevards parisienses e demais roteiros "Elizabet Arden" do jet-set internacional. 

Na China, efetivamente, ocorreu uma mudança de rumo, mas o país ainda não saiu da tradição patrimonialista: o poder continuará a ter "donos". O abandono do comunismo maoísta pela atual elite dirigente não significou um rompimento com a tendência à privatização do poder por parte de uma elite ou de uma casta. O mandarinato chinês se modernizou. Tornou-se gestor de uma nova "sociedade limitada" capitalista. Porém, o capitalismo chinês não é uma economia aberta às sociedades anônimas. É um modelo de capitalismo dirigido desde o Estado. Quem não se ajustar - como aconteceu com o Google - , tem de arrumar as malas e ir embora.

3 - "O Lamaçal" na União Soviética.

Na antiga União Soviética, a corrupção correu por conta do poder total desempenhado pelo Partido Comunista, que varreu a inteligência e se apropriou da riqueza. De forma semelhante a como Hitler destroçou a intelectualidade alemã, a fim de erguer à liderança do país as mediocridades de que se compunha a elite do Partido Nacional Socialista alemão, Lenine e Stalin fizeram outro tanto na Rússia: simplesmente eliminaram todos aqueles que fossem capazes de pensar  ou elaborar uma visão da União Soviética e do mundo diferente da que eles professavam. A mentalidade que tomou conta do poder era unilinear, o que fez com que ficasse comprometido o processo de consolidação da Rússia como nação moderna. Isso se viu agravado com a perpetuação, sob Stalin, das erráticas políticas agrícolas de Lenine, que conduziram ao desaparecimento dos empresários rurais. Lenine tinha, aliás, uma visão bastante ingênua do que era a economia industrial, imaginando que esta se reduzia ao simples controle cartorial, pelo Estado, sem maiores preocupações técnicas (como lembra Antônio Paim na sua obra Marxismo e descendência, de 2009). Desaparecido Stalin, o centro do sistema foi ocupado por burocratas pertencentes à antiga nomenklatura, formados na mentalidade de enriquecer a partir do Estado, passando rasteira em todos quantos se opusessem às suas tacanhas ambições. Era como se tivesse sido organizada uma Igreja com bispos "orçamentívoros" (bem ao gosto do que imaginava fazer, no Brasil, o PT). No seio dessa cultura de enriquecimento privado às custas dos bens públicos, os nomenklaturistas passaram a se considerarem superiores à lei. Os estatutos legais valiam para os outros, não para eles. Podiam praticar, sem risco, qualquer tipo de desvio de dinheiros públicos. Ninguém, na cúpula, via nada nem sabia de nada. O pacto era para que cada aprelho se enriquecesse, sugando a parcela de riqueza nacional por ele administrada. Nesse cinismo em que o público confundiu-se com o privado, os interesses pessoais e familísticos passaram a valer mais  do que a preocupação com o bem do país. 

Essa burocracia corrupta passou a ser chamada pelo povão de "O Lamaçal", nome que se poderia aplicar hoje, perfeitamente, à caterva de petistas chefiados por Lula e aglutinados no sindicalismo barulhento e improdutivo da CUT que só pensa na "greve geral". Esse foi o pano de fundo em que ocorreu a queda do Muro, sem ser disparado um único tiro. O sistema soviético caiu de podre. Como de podre caiu o petismo no Brasil. Gorbatchev, representante da geração nova de tecnocratas cansados com a corrupta burocracia do partido, esse estadista decidiu pôr em marcha um movimento de contestação às antigas estruturas, partindo de dentro do próprio sistema, numa espécie de "autoritarismo instrumental" que lembra a frase do general Figueiredo: "Juro fazer deste país uma democracia e prendo e arrebento quem se opuser". O Capítulo hodierno de Putin, novo czar emergido do serviço de inteligência da antiga URSS não rompeu definitivamente com o passado, mas passou a agir como autêntico "dono do poder", que gerencia estrategicamente a grande máquina de guerra que restou da antiga URSS. Mas a produção de bens e serviços em benefício da população não chegou a decolar como esperado. Do ângulo da formulação de uma moral social de tipo consensual que reforce a posição da sociedade russa em face do Estado, a inserção desse país no contexto do cristianismo ortodoxo, na tradição de subserviência da religião ao Kremlin, certamente de pouco tem ajudado para conter o despotismo dos donos do poder.

4 - Nixon, o bisbilhoteiro, nos Estados Unidos. 

O momento Nixon, protagonizado pelo presidente americano ao redor do famoso affaire Watergate nos anos 70 do século passado, em que informações sigilosas foram roubadas por agentes secretos a serviço do poder da sede do Partido Democrata em Washington e que, revelado amplamente pela imprensa, conduziu à queda do presidente, é bastante lembrado no Brasil, notadamente pelo papel decisivo que a imprensa livre teve em todo esse processo. Numa sociedade aberta como a estadunidense, os inimigos da democracia são exorcizados pela imprensa livre e pelas instituições que funcionam, sem que se decante o veneno da elite que se considera "dona do poder". Nixon foi jogado na lata de lixo da história e a democracia americana continuou a marchar rumo a novos desafios.

5 - O Brasil da Operação "Lava-Jato". 

Já no nosso combalido Brasil da era "Lava-Jato", os criminosos se acham no direito de questionar as instituições, comandados pelo ladrão-mor, Lula. A proposta de uma lei contra o abuso do autoridade que circula no Parlamento e que, embora modificada, acaba de passar no Senado, encaminhada pelos aliados do Lularápio, mostra até que ponto cresceu a desfaçatez dos arquitetos do caos. É de se esperar que a sociedade brasileira reaja em face de mais essa tentativa de destruir as instituições, em que Lula et caterva são especialistas. O pior crime cometido por Lula foi tentar desmontar as instituições republicanas. Ele já deveria estar preso "pelo conjunto da obra". 

O dramático de tudo isso é que não se consolidou, no Brasil, uma moral social consensual, independente das instâncias de governo, que blinde a sociedade contra as arremetidas dos poderosos encastelados em instituições patrimonialistas. A moral contrarreformista que ainda tem vigência foi reforçada pela conversão esdrúxula da máxima instituição da Igreja Católica no Brasil, a CNBB, em partido político, já há mais de três décadas, desde quando o padre português José Narino de Campos escreveu, em 1981, a obra intitulada: Brasil, uma Igreja diferente (São Paulo, T. A Queiroz), em que denunciava com dor a tomada, por ativistas marxistas, da alta cúpula da organização eclesial, tendo-a convertido em aparelho de ação e propaganda política simpatizante dos comunistas. Na ausência de uma moral social consensual decididamente voltada para a modernidade e que acelere a democratização das instituições preservando as liberdades, talvez fiquemos patinando, ainda durante muito tempo, no chão movediço dos interesses privados que tomam conta do Estado, com a nomenclatura patrimonialista de séculos enquistada no poder. 

Parece que alguma coisa, no entanto, está mudando no seio da sociedade brasileira. A "Revolução do Smartphone" que está ocorrendo por trás da Operação Lava-Jato, certamente é uma novidade no horizonte. Já não sobrevivem, como antigamente, nas eleições, aqueles que foram identificados pela sociedade como beneficiários do Estado Patrimonial. Será que vai continuar essa tendência? A julgar pelo que dizem conhecedores profundos da estrutura patrimonialista do Estado, como por exemplo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, parece que há chances de mudança. Quem tiver sido identificado pelo eleitorado como vinculado à onda de corrupção denunciada pela Lava-Jato, dificilmente se elegerá, seja do Partido que for. Isso já começou a se tornar realidade nas eleições municipais de outubro de 2016. Os petistas foram literalmente varridos do mapa. 

Em entrevista recente à imprensa portuguesa ("O sistema político partidário brasileiro acabou", jornal Público, Lisboa, 22/04/2017), Fernando Henrique falou: "Precisamos de lideranças. Hoje as pessoas já não se mobilizam em função de interesses partidários e políticos em sentido estrito, mobilizam-se eventualmente por causas: a paz, a participação das mulheres, a ecologia, a moral - esse vai ser um fator grande na situação brasileira, 'eu sou a favor de um comportamento mais transparente, eu não quero mais saber de político que enrole'. O político de modo geral enrola no modo de falar. Os que estão a ganhar no mundo de hoje, inclusive no Brasil, são aqueles que vão cara a cara, dizem o que querem, o que pensam, o que são. Não dizem que são uma coisa e fazem outra, isso desmoraliza. (...) Vou dizer como o [prefeito de São Paulo] João Dória ganhou a eleição. Ele é um empreendedor, é rico. Foi para a campanha e disse o que ele era isso, mas que também era joão trabalhador. Há um modo de comunicação com o povo que é diferente. O próprio Lula tinha uma capacidade de se comunicar pelo que ele era. Agora estão a mostrar, na Lava-Jato, que ele não era o que ele dizia que era".




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O FILHO DO MEDO (Percival Puggina)


Amigos, reproduzo, na íntegra, o artigo do jornalista gaúcho Percival Puggina que desenha, de forma clara, o panorama do Congresso brasileiro, dominado pela defesa insustentável de interesses particulares dos próprios congressistas, que terminaram esquecendo a essência do Poder Legislativo: representar e defender os interesses dos cidadãos. É o mal do Patrimonialismo infernizando a vida da Nação! Tudo na contramão do que deve ser a política, como expressão da vontade popular.


          No último dia 30, naquele horário em que se apagam luzes e televisores e se intensifica a atividade dos cabarés, saqueadores do Brasil transformaram um pacote de medidas contra a corrupção no oposto daquilo para o que foi concebido. Aves de rapina! Fizeram de um colibri algo à sua imagem e semelhança.
          É fácil entendê-los. Quatro perguntas ao leitor destas linhas ajudam a esclarecer tudo. Você, leitor, tem medo da Lava Jato, do juiz Sérgio Moro, de passar uma temporada em Curitiba? Você está preocupado com a delação da Odebrecht? Não? Pois é. Eles sim. Eu os vi esganiçados aos microfones naquela sessão da Câmara dos Deputados. Destilavam ódio e vingança. Comportavam-se como membros da Camorra, da Cosa Nostra, da Máfia italiana. Sua conduta e seus discursos faziam lembrar animais encurralados. O pacote pró-corrupção foi um apavorado filho do medo.
          Não é diferente a situação no poder vizinho. Mal raiara o sol, na manhã daquele mesmo dia, Renan Calheiros já cobrava a urgente remessa da encomenda para o protocolo do Senado. Queria votar tudo em regime de urgência e agasalhar-se com o mesmo cobertor legislativo. Aprovado em modo simbólico, o pacote só não foi adiante porque alguém cobrou que o voto fosse nominal. Nominal? Imediatamente abaixaram-se os braços e o plenário optou pela rejeição. Ouvido, Renan, o hipócrita,  afirmou que a decisão fora muito boa e que a matéria não tinha, realmente, urgência.
          Após o impeachment da presidente Dilma, esse foi, certamente, o episódio político de maior consequência para o futuro do Brasil. Ele noticiou à opinião pública dois fatos que, antes, seria impossível conhecer em toda extensão:
·       A Orcrim, que constitui, no Congresso, verdadeira e atuante Frente Parlamentar do Crime, tem ampla maioria da Câmara dos Deputados, onde aprova o que quer;
·       Os mesmos deputados, que tanto clamam contra os "vazamentos" de informações que os comprometem, vazaram a si mesmos, tornando conhecido seu desejo pessoal de conter as investigações, atacar os investigadores, acabar com as colaborações premiadas, preservar anéis e dedos. Entregaram-se, todos, ao juízo dos eleitores para o tribunal das urnas de 2018. 
     Agora podemos dizer a suas excelências que sabemos quem são e estamos vendo o que fazem. Agir assim numa crise como a que enfrentamos? Convenhamos. Depois da crise, vem o caos. E ninguém sabe o que há depois do caos. A Venezuela ainda não nos mostrou. 
          Escrevo este artigo durante as manifestações populares deste domingo 4 de dezembro. Enquanto escrevo, os poderes de Estado, em suas poltronas, assistem a manifestação do Brasil cuja indignação não é postiça nem indigna. Os cidadãos que lotam avenidas e praças em verde e amarelo, falando com seus cartazes e alto-falantes, são, em seu conjunto, a voz do dono. São a manifestação visível e audível da soberania popular.

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* Percival Puggina (71), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.