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quarta-feira, 16 de maio de 2018

MAIO DE 68

Estou completando 50 anos dedicados à docência superior. Comecei a minha vida de professor universitário em maio de 68, justamente naquela famosa data revolucionária que tantas esperanças levantou entre os jovens da época. 

Eu tinha saído do Seminário em novembro de 1967. As Reformas do Concílio Vaticano II tiveram um efeito devastador nos tradicionais Seminários "Tridentinos", assim chamados porque a disciplina e o regime de estudos tinham sido planejados no século XVI, à luz dos ensinamentos do Concílio de Trento. Era um regime tradicionalista. Todo mundo devia usar batina. A liturgia era aquela velha ritualística em latim, com o padre celebrando a Missa de costas para o povo. E a disciplina era rigorosa. "Grande silêncio" durante a noite. Silêncio na hora das refeições, que eram acompanhadas da leitura de algum autor de espiritualidade. Todo mundo andando em fila indiana nos claustros frios e mal iluminados. O Seminário de Bogotá tinha sido construído recordando os planos do mosteiro do Escorial, perto de Madri, levantado por Felipe II em meados do século XVI, para guardar os restos do seu pai, o imperador Carlos V.

Mosteiro de El Escorial - Tela do pintor francês Michel-Ange Houasse (1722). (Foto: Wikipédia). 
Seminário Conciliar de Bogotá, construído entre 1943 e 1946. Obra do arquiteto colombiano José Maria Montoya Valenzuela, que se inspirou no Mosteiro do Escorial, na Espanha. (Foto: álbum de família)


Decidi abandonar a carreira eclesiástica por dois motivos: em primeiro lugar, porque não topei assinar o documento que, antes do Sub-diaconato, me obrigava a manter o celibato; em segundo lugar, tinha chegado à conclusão de que a disciplina rigorosa da Igreja nos Seminários era apenas uma fachada que ocultava a falta de compromisso sério dos seminaristas. 

Quando, na trilha das reformas liberalizantes do Vaticano II, foi mudado o regulamento, dando mais autonomia aos jovens, o ambiente virou uma bagunça, com gente saindo de farra à noite e voltando na alta madrugada, além dos desvios tradicionais (pedofilia e outras aberrações) que eram de conhecimento público, praticados por padres nos Seminários Menores, como eu tinha testemunhado no Instituto Tihamer Toth. Seria muito oportuno termos, na América Latina, um Spotlight, à semelhança da corajosa investigação que a imprensa livre ensejou em Boston!


Como a expectativa dos meus pais era de que o Papa me ordenasse sacerdote no Congresso Eucarístico Internacional que se realizaria em Agosto de 1968 em Bogotá, a reação do meu pai foi muito forte. Quando cheguei em casa, em Medellín, vestindo trajes civis, ele ficou furioso, pois já tinha mandado imprimir os santinhos que distribuiria entre familiares e amigos com motivo da minha ordenação sacerdotal, a ser ministrada pelo Papa Paulo VI, ao ensejo da primeira visita papal à Colômbia. 



Para diluir o pesado ambiente familiar, imediatamente procurei emprego, tendo conseguido, com amigos espanhóis, a vaga de vendedor de livros da Editora Aguilar. Em Medellín, onde residia a minha família, comecei a penosa tarefa de vendedor de livros. Recebi uma mala cheia de exemplares das novidades editoriais da mencionada editora. O prato forte de vendas era a coleção "Prêmios Nobel de Literatura", belamente encadernada em couro e impressa em papel bíblia, como aquela magnífica coleção francesa "Clássicos Gallimard". 



Em Maio de 68, em cinco meses de trabalho, não tinha vendido nenhum livro. Mas os tinha lido todos! Uma tarde, fui oferecer a coleção na nascente Universidade EAFIT, de Medellín. As bibliotecárias estavam conversando animadamente. O assunto era o casamento de uma jovem professora de filosofia, Carmencita, para cuja vaga não tinha sido conseguido um substituto. Pedi às bibliotecárias que guardassem a minha mala de vendedor, e apresentei-me ao Diretor do Instituto de Humanidades. Quando lhe falei que era formado em filosofia e que buscava emprego, me contratou imediatamente. Assim, através da profissão de vendedor de livros, entrei na mais nobre alternativa de professor universitário, tendo começado a lecionar, no final desse maio turbulento, a disciplina ministrada pela antiga professora: "Humanismo de la Técnica".



O livro-texto que os alunos liam era A rebelião das massas do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, indicado pela antiga professora, Carmencita. Eu sabia que os intelectuais de esquerda criticavam essa obra de forma dura, por se tratar, diziam, de uma "versão pequeno-burguesa". Mesmo com esse óbice, achei mais prático dar continuidade à exposição do texto de Ortega, que me facilitava o trabalho de encarar uma disciplina com o bonde andando. Abri espaço para os meus alunos criticarem a obra, com a condição de que fossem lendo e resumindo os vários capítulos ao longo do período letivo, que se encerrava em dezembro. Na crítica, eles deveriam colocar a fonte em que se inspiravam. Ao aprofundar com os meus alunos na obra do filósofo espanhol, fui concluindo que ele colocava temas importantes nessa agitada conjuntura histórica. Perguntava aos meus alunos o que achavam da argumentação de Ortega sobre a ascensão das massas e as atitudes um tanto infantis das mesmas em face das reivindicações de bem-estar que todo mundo queria. Maio de 68 já se desenhava, aos olhos do mundo, como essa grande festa juvenil que queria tudo de imediato, e que externava a sua pressa na  "ação direta". Um exemplo dessa falta de raciocínio era constituído pelo fato, apontado por Ortega: as massas reivindicam alimento e queimam padarias para consegui-lo! 


68 foi uma página de ação direta das massas juvenis. "É proibido proibir" era o lema que carregava em si mesmo, como diriam os escolásticos, uma "contradictio in terminis". Esse tipo de arrazoado ajudava, certamente, a puxar o fio da história que, segundo o pensamento marxista, avança graças às contradições. A lógica ficava, sempre, maltrapilha com esse uso generoso da contradictio. Como rastilho de pólvora, as "litanias" da Maio de 68 se estenderam pelo mundo afora, alimentando os movimentos estudantis que pipocaram nos quatro cantos do planeta. Imagino que os soviéticos, gênios na arte de criar cortinas de fumaça para ocultar os seus podres, tenham ajudado, e muito, na difusão da moda da revolução juvenil. O PC da URSS estava generosamente representado, aliás, no próprio coração do Estado francês, no Ministério da Função Pública, que tinha sido candidamente entregue aos comunistas na repartição burocrática que teve lugar após a Segunda Guerra. E a decomposição do universo comunista estava em andamento, tendo dado ensejo à sanguinolenta repressão do Exército Vermelho. Remember Hungria em 1956 e Praga em agosto de 68. Não seria descabido pensar na presença de agentes soviéticos em Maio, em Paris, nessa agitada primavera. 

Como lembrava recentemente meu amigo João Carlos Espada ("Maio de 68: 50 anos depois", Observador, Lisboa, 23/04/2018), "Contra os anseios revolucionários de Maio 68, a França permaneceu 'burguesa', isto é,  livre e democrática. Pôde assim absorver ideias de Maio 68, que teriam sido esmagadas pelos comunistas". Espada citava a respeito, as palavras que Raymond Aron teria dito então a Pierre Mendès France: "Só existem dois campos, de um lado a República, o governo, as assembleias, as eleições; de outro lado, o partido comunista - que os intelectuais, os revolucionários da caneta, criticam por não ser mais revolucionário. Se a legalidade republicana sucumbir sob a pressão dos tijolos e das multitudes na rua, só o partido comunista preencherá o vazio" (Aron, Mémoires, Paris: Julliard, 1983, p. 475).

Foi exatamente esse confronto identificado por Raymond Aron que ocorreu nos nossos países na América Latina, entre as instituições "burguesas" e os movimentos revolucionários puxados pelos comunistas. No Brasil, o choque foi entre estes e as instituições republicanas que os extremistas queriam substituir pela "ditadura do proletariado", com direito ao paredão para os que não comungassem com as suas ideias. 

68 repetiu o confronto que opôs, em Cuba, dez anos antes, os revolucionários de Fidel e a antiga ordem "burguesa", com os processos sumários contra "a direita" chefiados pelo "anjo da morte", o Che Guevara, que fazia questão de disparar pessoalmente o tiro de misericórdia na cabeça dos sentenciados à morte.

domingo, 6 de maio de 2018

KARL MARX (1818-1883) DUZENTOS ANOS


Karl Marx nasceu em Treves, capital da província alemã do Reno, em 5 de maio de 1818 e faleceu em Londres, em 1883. Na cidade natal, o nosso autor teve oportunidade de sentir duas influências contrárias: o liberalismo revolucionário, herdeiro do jacobinismo francês e, de outro lado, a reação conservadora capitaneada pela Prússia, defensora do Antigo Regime. O pai de Karl, Hirschel Marx (1777-1838) era advogado, tendo abandonado o judaísmo em 1824, batizando-se na Igreja Luterana com o nome de Heinrich. Os estudiosos consideram que nessa conversão mediaram motivos de índole econômica, pois na Renânia, onde residia a família Marx, os cargos públicos estavam vedados aos judeus. A mãe do nosso autor, Enriqueta Pressburg (1787-1863), era descendente de rabinos.

Completados os estudos secundários em Treves, Marx ingressou na Universidade de Bonn, a fim de estudar Direito. Em 1836, o jovem estudante transferiu-se para a Universidade Friedrich Wilhelms de Berlim para continuar os estudos de Direito. O seu foco de interesse, no entanto, era o estudo da História e da Filosofia, tendo abandonado o curso inicial. Em Berlim, o nosso autor recebeu a influência do pensamento de Hegel. O estudante dedicado que era Marx, logo se filiou à denominada corrente da Esquerda Hegeliana capitaneada por Ludwig Feuerbach (1804-1872), que repudiava a exaltação que Hegel (1770-1831) tinha feito do Estado Prussiano.

Em Berlim, Marx ingressou no Doktor Club, que era liderado por Bruno Bauer (1809-1882). Em 1841, obteve o título de doutor em Filosofia com a tese intitulada: Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro. Não tendo conseguido empreender a carreira acadêmica em decorrência das suas idéias radicais, tornou-se, em 1842, redator do jornal Gazeta Renana, editado em Colônia, onde conheceu aquele que seria o seu mais fiel amigo, o jovem Friedrich Engels (1820-1895), filho de um industrial de Barmen (Alemanha). Em 1843, tendo sido fechada a Gazeta Renana pelo governo prussiano, Marx partiu para Paris, onde assumiu a direção da revista Anais Franco-Alemães, tendo-se casado, pouco antes, com a bela Jenny von Westphalen (1814-1881), filha do barão prussiano Ludwig von Westphalen (1770-1842), professor universitário em Berlim. Na capital francesa, ciceroneado pelo poeta romântico Heinrich Heine (1797-1856), o nosso autor participou de vários círculos de estudos e sociedades secretas, dentre os quais cabe mencionar a Igreja Saint-simoniana. Teve oportunidade, outrossim, de conhecer os escritos de François Guizot (1787-1874), o poderoso primeiro-ministro de Luis Felipe I (1773-1850). Ainda em Paris, em 1843, Marx escreveu a Crítica da filosofia do direito de Hegel e A questão judaica. No ano seguinte, teve contato com a Liga dos Justos (que mais tarde seria conhecida como Liga dos Comunistas) e escreveu os Manuscritos econômico-filosóficos, bem como o famoso artigo acerca de uma greve ocorrida na Silésia, que lhe causaria a expulsão da França, em 1845, a pedido do governo prussiano.

Tendo-se mudado para Bruxelas, Marx escreveu, ainda em 1845, as Teses sobre Feuerbach e, junto com Engels, A sagrada família. Em 1846, em parceria com Engels, escreveu A Ideologia Alemã, que só seria publicada anos mais tarde. Ajudado pelo amigo, organizou, na capital belga, o Comitê de Correspondência da Liga dos Justos que, como já foi frisado, passou a ser chamada de Liga dos Comunistas. Em 1847 viajou para Londres, onde publicou a Miséria da Filosofia. De volta para a Bélgica, terminou expulso pelo governo desse país em 1848 e, junto com Engels, mudou-se para Colônia, onde fundou a Nova Gazeta Renana. Nesse ano foi publicado, em Londres, o Manifesto comunista, de autoria de Marx e Engels.

Expulso de Colônia, em 1849, Marx enfrentou sérias dificuldades financeiras, das quais saiu graças à ajuda do pensador e líder socialista alemão Ferdinand de Lasalle (1825-1864), que depois seria atacado pelo próprio Marx. Nesse ano, o nosso autor escreveu Trabalho assalariado e capital. Em Londres, Marx dedicou-se aos estudos econômicos na biblioteca do Museu Britânico. Para subsistir, trabalhou como redator no New York Daily Tribune. Em 1852, publicou O 18 brumário de Luís Bonaparte, dedicado à análise dos eventos ocorridos ao ensejo do golpe de estado perpetrado pelo sobrinho do falecido imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821).


Karl Marx: o ativista sobrepôs-se ao intelectual, dando ensejo a uma posição radical, que o conduziu ao modelo de socialismo totalitário, que passou a ter vigência na
Rússia e nos outros países comunistas, pelo mundo afora, ao longo do século XX, com um saldo trágico de mais de 90 milhões de mortos [Stéphane Courtois, et alii, Le livre noir du Communisme. Paris: Robert Laffont, 1997, p. 14].

Dedicado integralmente ao estudo na capital inglesa, em que pese inúmeros e sérios distúrbios de saúde, Marx publicou, em 1857, a obra intitulada Esboço de uma crítica da economia política. Em 1859 apareceu, em Berlim, a obra intitulada Para uma crítica da economia política, ao ensejo da qual o nosso autor frisou com ironia: “Com certeza é a primeira vez que alguém escreve sobre o dinheiro com tanta falta dele”. Em 1864, Marx propôs a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), denominada popularmente de Primeira Internacional. Em 1865, publicou Salário, preço e lucro, além de uma biografia de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), com quem manteve séria polêmica, em decorrência do fato de discordar do modelo de socialismo democrático proposto por ele. Em 1867 apareceu publicado, em Hamburgo, o primeiro volume de O Capital. Em 1869, o nosso autor deu continuidade à escrita do segundo volume desta obra, que tinha interrompido devido ao seu precário estado de saúde, agravado pela crise financeira familiar. Ao ensejo da revolta conhecida como Comuna de Paris publicou, em 1871, A guerra civil na França. Em 1873, o nosso autor encaminhou o seu primeiro volume de O Capital a duas personalidades da intelectualidade britânica: Charles Darwin (1809-1882) e Herbert Spencer (1820-1903). Em que pese o fato de o médico ter-lhe proibido qualquer tipo de esforço, em decorrência do agravamento da saúde, o nosso autor continuou trabalhando incessantemente na redação de O Capital, e fez inúmeras leituras acerca de temas diferentes como Matemática, Geologia, Física e a situação social e política da Rússia. Em 1875, Marx publicou Crítica do programa de Gotha. Sob os cuidados de Engels foram publicadas, postumamente, as edições do segundo volume (1885) e do terceiro volume (1894) de O Capital.

As idéias filosóficas de Marx podem ser sintetizadas nos seguintes pontos:

1.      Adoção da perspectiva transcendental.- Marx, como Immanuel Kant (1724-1804), desmistifica o conhecimento humano, que nas metafísicas dogmáticas tinha ficado reduzido a uma cópia passiva da realidade exterior. Quando o nosso autor afirmava que “até agora os filósofos estiveram preocupados em contemplar o mundo, nós vamos transformá-lo”, justamente propunha um novo tipo de conhecimento em que a verdade fosse efeito da ação humana, não a pura contemplação de um arquétipo pré-existente fora da razão.

2.      Formulação do 11º mandamento: “Não explorarás o trabalho alheio”. Marx reagiu contra um princípio de ação estranho ao homem (moralidade pautada pela religião ou pelas leis da circulação de mercadorias), e colocou como critério de ação o homem mesmo, na sua dinâmica histórica, no seio da consciência de classe. Não há dúvida quanto à inspiração kantiana do imperativo formulado por Marx. Como frisa Antônio Paim, “segundo Kant, os princípios morais só o são se não se subordinam a qualquer classe de coação externa e se correspondem a uma exigência profunda da racionalidade, aparecendo ao homem como autêntico imperativo. Essa afirmativa não envolve, por certo, a solução do grave problema da coerência do homem com semelhantes princípios, mas explica satisfatoriamente a vitalidade da ética cristã. A força do marxismo reside no mesmo princípio. O mandamento segundo o qual ´Não explorarás o trabalho alheio´ parece consistir no ápice de toda uma ética humanista” [Paim, História das idéias filosóficas no Brasil, 3ª edição, São Paulo: Convívio, 1984, p. 502].

3.      Formulação do materialismo histórico. Competiria a Marx corrigir o rumo da reflexão feuerbachiana operando o trânsito entre o naturalismo de Feuerbach e o historicismo. A consciência da necessidade nasce não apenas da exterioridade da natureza, mas também da própria história humana. O estímulo para o movimento e a transformação é interior à própria realidade humana. A necessidade é, portanto, não apenas exigência natural, mas também força geradora e motora da história. Em lugar do homem abstrato da natureza, temos o homem concreto e vivo da história, através da classe social. O homem que adquiriu consciência de classe entra na luta de classes, na qual consiste a essência da política (idéias que Marx tira dos doutrinários franceses Benjamin Constant e François Guizot). A massa humana, que tinha sido idealizada por Feuerbach, encontra em Marx uma formulação concreta e atuante [cf. Mondolfo, Marx y marxismo, México: Fondo de Cultura, 1960]. Marx sintetizou esta dimensão na sua frase, presente na obra A ideologia alemã: “A existência humana determina a consciência”. A propósito deste ponto, frisa Antônio Paim [História das idéias filosóficas no Brasil, ob. cit., p. 496]: “Resumindo, temos que o momento Kant-Hegel chega a uma fase de plena configuração com a esquerda hegeliana, em particular com Feuerbach-Marx. Ao invés da perspectiva platônica (o outro lado das coisas, a permanência, a substância), a perspectiva kantiana (meditação limitada à dimensão humana) desenvolvida no sentido de apreender o homem através de tudo quanto criou, não um homem dado e acabado ex nihilo mas envolvido no próprio processo de sua criação”.

4.      Inspiração de Marx em Claude-Henri de Saint-Simon (1760-1825). Segundo Gurvitch, as teses filosófico-sociológicas em que Marx se inspirou no pensamento saint-simoniano foram as seguintes: A – A afirmação de que “a vida social é essencialmente prática”, bem como a idéia de que “a produção faz o homem” e de que homens e sociedade se produzem a si mesmos pelo seu esforço. B – A idéia de que certas estruturas sociais e determinados modos de produção “impedem a sociedade de entrar em plena posse de seu impulso criador”, sendo que Marx amplia essa idéia na sua teoria das alienações e das ideologias. C – A afirmação de que “as obras da consciência real”, ou obras da civilização, e até as ideologias se integram, de alguma maneira, nas forças produtivas. D – A inclinação de Marx em favor de uma visão dicotômica das relações entre as classes, que o leva a considerar o Estado como seu órgão de domínio de classe. E - A crença de Marx na desaparição do Estado e a adoção, por ele, de slogans saint-simonianos, tais como: “o governo das pessoas será substituído pela administração das coisas”, ou “a cada um de acordo com as suas capacidades, a cada um segundo as suas obras”. F – A concepção escatológica da história. A respeito, escreve Gurvitch: “Marx não evita a tentação de uma filosofia da história que submete à sociologia e que profetiza o fim da história. É neste aspecto que Marx, apesar dos seus esforços, permanece, mais do que Proudhon, fiel a Saint-Simon e à sua escola” [Georges Gurvitch, Introdução à obra de Saint-Simon, La Physiologie sociale - Oeuvres choisies. Paris: PUF, 1965, p. 40].

5.      Inspiração de Marx em Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865).  Segundo Gurvitch, Marx inspirou-se nos seguintes pontos do pensamento proudhoniano: A – A crítica às “classes altas”, burgueses e patrões, pela sua ociosidade. B – O conceito de “força coletiva”, que inspira o conceito marxista de “forças produtivas”. C – A predição acerca da desaparição do Estado.

6.      Comunismo implantado por métodos violentos: a destruição do Estado burguês. Este elemento permanece claro na obra de Marx e se contrapõe aos esforços dos socialistas franceses, ingleses e alemães, em prol da construção de uma nova sociedade mediante reformas, com a chegada do proletariado ao poder através de eleições (como terminou, de fato, acontecendo, ao longo dos séculos XIX e XX). Marx considerava ser ele o líder da revolução violenta apregoada. A verdade claudicou diante da militância política. Marx foi desmoralizando, um a um, todos os pensadores e líderes socialistas que tinham aderido a um socialismo democrático, diferente do modelo totalitário por ele apregoado. Fez isso, por exemplo, na Alemanha, com Ferdinand Lasalle (1825-1864) e, na França, com Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Antônio Paim deixa claro que houve uma influência muito grande do regime apregoado por Marx sobre o adotado, na Rússia, após a Revolução de 1917, por Lenine (1870-1924). Para ambos, somente valia um tipo de comunismo: o imposto pelo líder, com absoluto banimento da dissidência e com a implantação de um regime de poder total. Na Rússia, o regime bolchevique foi o novo capítulo do “despotismo oriental” czarista [cf. Paim, Marxismo e descendência, Campinas: Vide Editorial, 2009; Wittfogel, Le despotisme oriental, Paris: Minuit, 1977].

7.      Inspiração em Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Marx recebeu esta influência ao longo de sua permanência em Paris. Para o filósofo genebrino, a soberania do povo repousa na “vontade geral”. Esta é apropriada pela “vanguarda do povo”, constituída pelos “puros”, aqueles que se despiram dos seus interesses individuais para defender o interesse público. Ora, essa vanguarda é chefiada, no caso da revolução comunista, pelo próprio Marx, que se converte numa espécie de salvador das massas proletárias.

8.      Inspiração no pensamento dos liberais franceses Benjamin Constant de Rebecque (1767-1830) e François Guizot (1787-1874). Como destacou Georgi Valentinovich Plekhanov (1857-1918), um dos mais importantes estudiosos russos da obra de Marx, idéias básicas da sociologia do pensador alemão como interesses individuais, interesses de classe, consciência de classe, luta de classes, encontram a sua origem nesses pensadores liberais, cujas obras Marx leu durante a sua permanência em Paris. Até a expressão, presente no Manifesto Comunista: “proletários do mundo, uni-vos” inspira-se na frase conhecida de Guizot: “burgueses da França, uni-vos” e “enriquecei-vos”.




O PATRIMONIALISMO DE CORPO INTEIRO

Dizia Sir Francis Bacon no seu Novum Organon (1620), que as descobertas da ciência não aparecem a qualquer um, mas que é preciso ter o espírito preparado para elas. São janelas por onde se filtra a luz que nos explica o emaranhado relacionamento dos fenômenos. O cientista precisa estar alerta, a fim de não deixar passar o instante em que a verdade dos fatos se revela. 

Pois bem: com a complicada natureza do Estado Patrimonial não acontece diferente. Alguns fatos, pequenos às vezes, servem para nos revelar a presença, sob as instituições formais, do Estado Patrimonial. É isso que a Operação Lava Jato tem revelado. O "Público como Privado" da nossa estrutura republicana é o grande mal. Mas ele se revela, especialmente, em algumas circunstâncias.

Um pequeno fato revelou, há já vários anos, a estrutura do Estado Patrimonial, colocando de manifesto a existência de um estamento burocrático privilegiado: em entrevista a jornalistas, um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal revelou a razão pela qual era necessário manter o super-salário que recebia, corrigido acima da média da inflação, contrastando com a penúria de outros funcionários públicos e com a situação da maioria dos brasileiros que viam os seus ingressos serem corroídos pela cadeia inflacionária. O ex-magistrado falou mais ou menos assim com a jornalista: "Ora, para manter o meu padrão de vida é necessária essa correção do salário. Acostumei-me a trocar de carro (de luxo) todo ano".

Um segundo fato, recente, jorrou outro clarão de luz sobre a existência do estamento burocrático privilegiado, para o qual não vale a lei como para o resto dos brasileiros. Fazendo os cálculos sobre quem sairia perdendo com a queda do foro privilegiado, debatida no Supremo na semana passada, jornalistas calculavam a quantas pessoas abriga atualmente o "foro privilegiado" no Brasil, chegando à conclusão de que os beneficiários seriam em torno de 50 mil funcionários públicos e políticos. Isso explica a grita enorme que a queda do foro privilegiado produz nas redes sociais, nos arraiais do governo e na imprensa.

O fato maior, porém, veio na trilha das investigações ensejadas pela Operação Lava Jato e à sombra das delações premiadas de empresários e políticos presos. Tais delações revelaram, no decorrer dos últimos anos, a essência do Estado Patrimonial como aquele no qual o núcleo do poder, identificado com o Executivo e com setores expressivos da cúpula do Legislativo, alargou a sua dominação doméstica sobre territórios, pessoas e coisas extra-patrimoniais, passando a administrá-lo tudo como posse de família. O fato revelado consistia no projeto de perpetuação do PT no poder. Tal projeto, elaborado pela Presidência da República no primeiro governo de Lula (com a colaboração direta dos ministros José Dirceu e Luiz Gushiken), consistia em utilizar as empresas estatais e os fundos de pensão das mesmas como cabeças de ponte para o PT se apropriar, de forma alargada, de enormes fatias de dinheiro público desviado fraudulentamente mediante a cooptação das maiores empreiteiras do país que virariam "campeãs de bilheteria", mediante empréstimos irregulares do BNDES, concedidos com a prévia condição de que os empresários beneficiários (no Brasil e no exterior) das licitações fraudulentas, rachassem as milionárias somas desviadas com a elite petista, com a finalidade, dupla, de: a - enriquecer os membros do stablishment petista e os seus colaboradores e, b - fazer um fundo amplo para financiar a compra das eleições presidenciais vindouras, abrindo assim a perspectiva para a perpetuação do PT no poder. 

Esse esquema começou a ser revelado em 2005 com a operação ensejada pela Magistratura auxiliada pelo Ministério Público, que denunciou e puniu o "Mensalão", ou compra de maiorias parlamentares mediante o pagamento às lideranças das agremiações de gratificações para aprovarem a toque de caixa, no Congresso, projetos de interesse do governo. O esquema revelado mostrou que foi construída complexa rede de altos funcionários de governos estrangeiros beneficiários dos "empréstimos" do BNDES, tanto em países da América Latina quanto da África especialmente, com as consequências de crise interna nos países que adotaram esse tipo de parceria criminosa com o governo petista. Ainda está por ser revelada a real dimensão dessa megaempresa de corrupção, que projetou a imagem do Brasil como um dos campeões da corrupção em nível mundial, mas que está resgatando, também, a imagem do Brasil como um país em que a Magistratura e as instituições republicanas estão atuantes para fazer frente a esse mal.

O esquema funcionou a contento até a segunda eleição da Dilma Rousseff, mas fez água em decorrência da quebra da economia propiciada pelas "pedaladas fiscais" que, somadas aos desvios que já tinham se perpetrado na Petrobrás, na Eletrobrás e em outras estatais, levaram à literal insolvência do Estado com a consequente deposição da presidente em 2016, no tumultuado processo de impeachment que ilegitimamente passou a ser denominado pelos petistas de "golpe".

O mais curioso é que um fato, aparentemente intranscedente, de corrupção de balcão de pequena monta (três mil míseros reais), no decorrer de 2005, ocorrido na Empresa de Correios, pôs de relevo, nos meses posteriores, a verdadeira dimensão, escatológica, da empreitada da corrupção petista. Quem tivesse ouvido a notícia isolada, ficaria com a impressão de que se tratava de um fato a mais do dia a dia da esperteza brasileira. No entanto, a inusitada delação do projeto de corrupção por um político insatisfeito com o desigual reparto do butim entre os corruptos (tratava-se do presidente de uma pequena sigla partidária aliada do PT), revelou as verdadeiras dimensões do Mensalão. Mais uma surpresa da fresta através da qual se revelou a natureza do Estado Patrimonial brasileiro. A verdade, como diria Parmênides, "gosta de se esconder" e vai se revelando aos poucos.

sábado, 5 de maio de 2018

MÁRIO JOSÉ DOS SANTOS (IN MEMORIAM)


Faleceu o meu amigo e colega Mário José dos Santos. Saudades do seu convívio leve e da sua companhia, sempre discreta, como Chefe de Departamento ou como simples Professor. Mário foi uma daquelas pessoas que passam pela nossa vida deixando um ambiente de paz e cordialidade. O serviço público brasileiro, na área da educação, serve para duas coisas: ensinar e pesquisar, claro está, e reunir gente interessante cuja amizade nos enriquece e vai tornando, no dia a dia, mais leve a nossa faina. Mário José inseria-se nessas duas categorias.

As suas pesquisas sobre os Pré-Socráticos, que culminaram com o livrinho de texto que leva o mesmo título, foram de grande estímulo para os meus alunos e me ajudaram a desenvolver, de forma mais pedagógica, esse tema importante na formação da Teoria do Conhecimento na Filosofia Grega.

Mário chegou a cursar os créditos para o Curso de Doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro da Universidade Gama Filho, junto com outros colegas da UFJF, lá pelos anos 90 do século passado. Participaram desse grupo, também, Luciano Caldas Camerino, Mário Sérgio Ribeiro e Pedro Paulo de Araújo Ferreira. Essa foi a segunda geração dos docentes da UFJF que fizeram a pós em Pensamento Luso-Brasileiro na Gama Filho. Da geração anterior tinham participado José Carlos Rodrigues, Aristóteles Ladeira Rocha e Joel Neves. Outros professores provenientes de instituições de renome (como a antiga Funrei, hoje Universidade Federal de São João del Rei) fizeram o doutoramento na mesma área, na Universidade Gama Filho: José Maurício de Carvalho, o padre Fábio Rômulo Reis, Thiago Adão Lara, Adelmo José da Silva, João Bosco Batista, Marilúze  Ferreira de Andrada e Silva e o padre Sílvio Firmo do Nascimento.

Nos anos 80, Mário José tinha participado do grupo que organizou, na UFJF, sob a direção de José Carlos Rodrigues e Aristóteles Ladeira Rocha, o primeiro curso de pós-graduação lato sensu em Filosofia (área de Pensamento Brasileiro), que depois se converteu, com o apoio de Antônio Paim e com a minha colaboração, em meados dos anos 80, no Curso de Mestrado em Pensamento Brasileiro (que funcionou até o final da década de 90).

O Curso terminou sendo fechado por pressões dos discípulos do padre Lima Vaz, encarrapitados, desde o ciclo militar, em posições de comando na Capes. Lima Vaz não queria que se estudasse o pensamento brasileiro, na forma em que Antônio Paim orientava as suas pesquisas. Ou seja, desvendando a índole problemática da meditação filosófica dos autores. Isso por um motivo simples: o padre jesuíta tinha sido o animador dos grupos de jovens católicos (vinculados à Ação Popular Marxista-Leninista) que se vincularam à luta armada nos anos 60, inspirados no hegelianismo de esquerda do Padre Vaz. A melhor forma de tolher essa pesquisa era o padre Vaz utilizar o seu poder de coordenador do comitê de avaliação da Capes na área da Filosofia. Desde o início, o Mestrado em Filosofia da UFJF esteve fadado a ser fechado, como deixou claro um dos avaliadores enviados intempestivamente pelo padre Vaz, Guido Antônio de Almeida, na visita-surpresa que fez ao Curso em 1986, um ano apenas depois de ter sido iniciado. "Este curso não será aprovado pela Capes", sentenciou, então, Guido. E assim foi: o Curso, embora aprovado no começo, foi descredenciado e clausurado no decorrer da década dos noventa por pressão dos próprios avaliadores da Capes.

Mário José dos Santos, assim como José Carlos Rodrigues, era um jovem sacerdote que decidiu deixar a batina para se dedicar plenamente ao exercício da docência superior. Foi acolhido, bem como José Carlos, de forma paternal, por Monsenhor Luiz de Freitas, um emérito pastor que estava à frente da tradicional Igreja de São Mateus. Monsenhor Luiz amparava os seus ex-alunos de Seminário e tinha destinado para eles um aparamentosinho no interior da Casa Paroquial. Quem sabe se não voltariam ao Clero! Mas, se não voltassem, lá, sob o amparo de Monsenhor Luiz, os jovens ex-padres teriam um lugar de acolhimento e de reflexão. Monsenhor Luiz de Freitas era um pastor de tempo integral, como aqueles padres liberais que Alexandre Herculano descreve no seu belo romance "O Pároco da Aldeia". Um belo exemplo de pastor de almas. O Mestre Antônio Paim tinha pelo saudoso Pastor um carinho todo especial, sempre fazendo questão de visitá-lo na Casa Paroquial quando das suas idas a Juiz de Fora. Eu também me tornei amigo de Monsenhor Luiz, nos últimos anos de sua vida.

Mário José era um intelectual preocupado com a questão social. Aproximou-se do PT, sem chegar à militância, mas era admirador das políticas sociais do Partido, ao longo dos governos petistas. Divergi sempre dos seus pontos de vista, pois achava Lula um enganador. Mas sempre tivemos uma relação de respeito nas nossas opções ideológicas e político-partidárias. O compromisso social do meu amigo Mário canalizou-se também nas suas relações com os alunos, aos quais sempre dava um tratamento cheio de dedicação e amizade. 

Saudades do amigo que partiu e que nos deixou tristes na comunidade acadêmica da UFJF. Para os seus familiares, os meus sentimentos.

terça-feira, 1 de maio de 2018

O BURACO SEM FUNDO DA ROUBALHEIRA DO PT NO BNDES, SEGUNDO A SOCIÓLOGA MARIA LÚCIA VICTOR BARBOSA


Amigos, a socióloga Maria Lúcia Victor Barbosa, corajosa lutadora contra a roubalheira petista, divulgou recentemente, no seu blog, a lista dos empréstimos fraudulentos feitos, na era lulopetista, pelo BNDES, com dinheiro dos brasileiros, em benefício de governos corruptos pelo mundo afora, dispostos a rachar com Lula o dinheiro do povo brasileiro, desviado criminosamente. Num momento em que começa a aparecer nova linha de revelações ao ensejo da Operação Lava Jato, com motivo de novas delações premiadas, vale a pena registrar os dados recordados por Maria Lúcia, minha amiga, de quem tenho o privilégio de ser confrade na Academia Londrinense de Letras, Artes e Ciências.
A seguir, a matéria postada por Maria Lúcia Victor Barbosa no seu blog.
Países com representação no Foro de São Paulo, foram os mais beneficiados. Os outros, assim como os primeiros, na base da propina e da corrupção deslavada. Nenhum  Al Capone no mundo das organizações criminosas, poderia imaginar tamanha facilidade em "vender proteções" de tamanho porte. O Brasil é rico, principalmente na criatividade dos ladravazes.
Repasso a mensagem abaixo.

O GOVERNO QUE MAIS INVESTIU 

Meus amigos, sejamos justos: nenhum governo antes na história deste país investiu mais que a governança petista nos seus quase 14 anos de mandato.

Não tenho a pretensão de enumerar aqui todos os empreendimentos realizados pelos governos Lula e Dilma, nas mais diversas áreas mundo afora. 

Como são muitos, inspirado no filme "Ali Babá e os Quarenta Ladrões", destaquei "apenas" 40:
1- Barragem de Muamba Major, para água e irrigação, Moçambique: 500 milhões de dólares;
    
2- Aeroporto de Nacala, Moçambique: 144 milhões de dólares;

3-Terminal de Carvão – Cais 8, no Porto de Beira, Moçambique: US$ 220 milhões ; 

4- Corredores de ônibus de Maputo, Moçambique: 180 milhões de dólares;

5- Fábrica de remédios contra a AIDS, Moçambique. Inclusive compra de prédio, viaturas e contratação de mão- de- obra: 21 milhões de dólares;

6- Doação de Lula à Bolívia de instalações petrolíferas da Petrobras: 1,5 bilhão de dólares;

7- Projeto Hacia del Norte, Bolívia (também conhecida como “Estrada da Cocaína”) : 199 milhões de dólares;

8- Hidrelétrica de Tumarin, Nicarágua: 343 milhões de dólares;
   
9- Estação de tratamento de água da capital peruana - Projeto Bayovar : 270 milhões de dólares;
  
10- Via expressa de Luanda- Kifangondo, Angola- (2º país mais corrupto do mundo): 1 bilhão de dólares;

11- Hidrelétrica de Cambambe, Angola: 464 milhões de dólares;

12-  Fomentação de pequenas e médias empresas em Angola: 552 milhões de dólares;

13- Barragem hidrelétrica de Laúca, Angola: 200 milhões de dólares;

14- Saneamento básico em Angola: 1 bilhão de dólares;

15- Infraestrutura viária, habitação, exploração e produção de energia em  Angola: 1 bilhão de dólares;
  
16- Segunda ponte de 3.156 metros sobre o rio Orinoco (Venezuela) com quatro faixas para veículos e uma para linha férrea. A obra considerada uma maravilha da engenharia atual foi construída com tecnologia e financiamento brasileiros: 1,22 bilhão de dólares;


Ponte de 3.156 metros sobre o rio Orinoco, presente de US$ 1,22 bilhão de Lula ao camarada Hugo Chávez

17- Linhas 3 e 4 do metrô de Caracas, Venezuela: 1,6 bilhão de dólares;


Metrô de Caracas: mais um regalo de 1,6 bilhão de dólares dos compañeros Lula e Dilma a Hugo Chávez

18- Soterramento do Ferrocarril Sarmiento, Argentina: 1,5 bilhão de dólares;
   
19- Aqueduto do Chaco, Argentina: 180 milhões de dólares;
      
20- Autopista Madden - Colón, Panamá: 152,8 milhões de dólares;
       
21- Metrô Cidade do Panamá, Panamá: 1 bilhão de dólares;

22- Usina hidrelétrica de Chaglla, Peru:  320 milhões de dólares;
     
23- Usina hidrelétrica de Mandariacu, Equador: 90 milhões de dólares;
      
24- Usina hidrelétrica de San Francisco, Equador (primeira usina do mundo totalmente subterrânea): 243 milhões de dólares;
    
25- Porto de Mariel, Cuba: 682 milhões de dólares;

26- Compra de alimentos para Cuba: 400 milhões de dólares;

27- Compra de máquinas agrícolas para Cuba: 200 milhões de dólares;

28- Melhorias no porto de Mariel, Cuba; 6 milhões de dólares;
  
29- Centro médico, Palestina: 10 milhões de dólares;

30- Fábrica de remédios na Nigéria: 23 milhões de dólares;

31- Programa “Mais Alimentos” para o sanguinário ditador Mugabe, do Zimbábue (deposto recentemente): 98 milhões de dólares;

32- Aqueduto do Chaco, Argentina: 180 milhões de dólares;

33- Gasoduto San Martin, Argentina: 2 bilhões de dólares;

34- Sistema de irrigação Trasvase Daule Vinces, no Equador: 137 milhões de dólares;

35- Estrada denominada “Corredor Ecológico Pontezuela”, República Dominicana: 200 milhões de dólares;

36- Hidrelétrica na Nicarágua: 343 milhões de dólares;

37- Ampliação da rodovia Centro Americana, Guatemala: 280 milhões de dólares;

38- Financiamento para a compra de 20 aviões comerciais para a Argentina: 595 milhões de dólares;

39-Projeto AgrárioSocialistado vale de Quibor, Venezuela: 2 milhões de dólares;

40- Projeto Agrário Socialista Planície de Maracaibo, Venezuela: mais de 2 milhões de dólares.

Só nesse breve apanhado - sem ir a fundo-, lá se foram mais de 50 bilhões de reais surrupiados do povo brasileiro.

E NÓS ESPERANDO O TREM-BALA!!!

Agora pergunto:
-Só por isso - e isso não é só-, como diria Cármen Lúcia, não era para Lula e Dilma estarem presos na mesma cela?

A Venezuela deu calote numa dívida de US$270 milhões.
Essa notícia não espanta ninguém.
O problema é que o fiador da Venezuela é, adivinhem... o BRASIL.
Assim, para não passar por caloteiro, o Brasil vai ter que pagar a dívida que, em reais, dá mais de R$900 milhões.

Conclusões:

1 - A Venezuela não só está num buraco danado e não honra suas dívidas, como ainda dá rasteira nos vizinhos;

2 - Graças ao governo bonzinho do PT, o Brasil acaba de torrar R$900 milhões. que poderiam ser usados para construir alguma coisa boa para a população.

O quer dizer da Venezuela e, principalmente. do seu governo?

sábado, 28 de abril de 2018

DRAMAS DO OCIDENTE PROFUNDO: AS MAZELAS DA AMÉRICA LATINA

Neste conturbado início de milênio uma das características que aparece com maior claridade é esta: a América Latina corresponde ao Ocidente Profundo e ali tem vigência o estado mais agressivo de violência continuada no panorama mundial. 

O panorama é desolador: a América Latina é a área do Planeta onde mais pessoas são assassinadas por ano. Somente no Brasil (para falar da realidade que mais de perto conheço) temos uma estatística alarmante: 60 mil assassinatos anuais. Essa soma equivale a uma guerra de grandes proporções. Como pano de fundo dessa terrível situação que afeta indistintamente ao Brasil, ao México, à Colômbia, à Argentina, à Venezuela, etc., temos um traço cultural comum: o Estado tradicionalmente foi entendido como propriedade de uma minoria que privatizou o poder em benefício próprio, com exclusão violenta do resto. É o perfil do Patrimonialismo, aquela perversa herança ibérica, que nos levou a entender o poder como bem de família a ser distribuído entre amigos e apaniguados, a fim de que estes vingassem como minorias privilegiadas, enquanto a grande maioria ficava do lado de fora dos favores do Estado. O caso mais extremado dessa visão apocalíptica é hoje a Venezuela, literalmente em liquidação pelos corruptos "donos do poder" identificados com os seguidores do Chavismo e do Madurismo.

As últimas décadas assistiram a uma transformação dos parâmetros da violência: ao passo que nos decênios anteriores a divisão entre latino-americanos seguia a pauta das velhas lutas ideológicas que ensanguentaram o século XX, nos últimos quarenta anos essa disputa foi se polarizando ao redor da indústria do narcotráfico que passou a preencher os buracos financeiros deixados com o fim da guerra fria e a queda do Muro de Berlim. As guerrilhas tradicionais do continente sul-americano eram financiadas pelo bloco comunista. Com a dissolução da União Soviética e ao ensejo das reformas modernizadoras empreendidas pelos comunistas chineses sob a batuta de Lin-Xiao Ping, as coisas mudaram de rumo. Os narcotraficantes passaram a ocupar o lugar de financiadores dos grupos armados, como ocorreu na Colômbia ao ensejo da reorganização das FARC, com vistas à tomada do poder no longo conflito dos últimos 30 anos. Dessa transformação não escapou Cuba, com a aproximação das lideranças comunistas desse país em relação aos narcotraficantes. O drama do general Ochoa, fuzilado pelo regime cubano, mostra até que ponto foi profunda dentro da estrutura do Estado essa aproximação. Ochoa caiu quando ficou evidente demais a vinculação do patrimonialismo castrista com os narcotraficantes. Mas a opção pelo financiamento a partir do banditismo dos narcóticos permaneceu firme entre as FARC e outros grupos guerrilheiros colombianos. 

No Brasil, foi aparecendo cada vez mais a incômoda proximidade entre militantes partidários e setores do crime organizado no interior do Estado de São Paulo ou na Baixada Fluminense. O eixo de exportação de narcóticos, no Brasil, ao se deslocar do sudeste do país para as regiões norte e nordeste, carregou consigo o cenário de morte e destruição que hoje afeta as cidades do interior nordestino e da hinterlândia amazônica. Hoje, com o crack presente em 97% dos municípios brasileiros, o aumento da criminalidade está garantido. 

No México, ao longo das últimas duas décadas, revelou-se a capacidade do crime organizado para cooptar setores cada vez maiores da sociedade nos novos cartéis que, como os Zetas, deixavam ver a vinculação com amplos setores da corrupta burocracia estatal. A onda de violência que se alastrou pela América Central revela de que forma esse empoderamento dos grupos narco terroristas no México era capaz de mudar a dinâmica social dos pequenos países centro-americanos, hoje reféns da grande empreitada do tráfico de drogas.

No Brasil, ao longo dos últimos quinze anos, a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder reforçou o velho patrimonialismo que utilizava as benesses do Estado para enriquecimento dos atores políticos, tendo chegado à sistematização dos esquemas de enriquecimento ilícito, com a cooptação das grandes empreiteiras pelo partido do governo, ao ensejo dos episódios do denominado "Mensalão" e da megaoperação de desvio de recursos públicos desvendada pela Operação Lava-Jato. Tudo isso, em lugar de fazer diminuir os índices de violência, levou a que esta crescesse com maior celeridade ao caírem pelo chão as barreiras da moralidade pública. A esquerda literalmente naufragou no Brasil, como explicitou com lucidez um intelectual esquerdista da talha de Wanderley Guilherme dos Santos.

Não assusta, assim, a constatação  da dialética latino-americana entre civilização e barbárie, que o grande Domingo Faustino Sarmiento já evidenciava na sua obra Facundo (1846). Com a predominância, nesta dramática quadra da história latino-americana, da barbárie sobre na civilização. 

Nessa luta, destacam-se pela sua tentativa de consolidar o convívio civilizado e democrático por sobre o pano de fundo da criminalidade e a exclusão latino-americana, o Chile (que conseguiu consolidar e manter a alternância no poder), a Argentina (que com o atual presidente Macri faz as reformas essenciais) e a Colômbia (na heroica luta para derrotar os cartéis do narcotráfico e da narcoguerrilha e os esforços em prol da retomada do desenvolvimento e da reconstrução do tecido social após décadas de conflito).