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sábado, 29 de outubro de 2016

AS MÃOS SUJAS DE SANGUE E A CULPA DOS OUTROS

Black blocs fascistas-leninistas ocupam escolas no Paraná
A adolescente oradora, Janaína Ribeiro. (Foto: Henry Milleo).

A adolescente Ana Júlia Ribeiro (16 anos) discursou na Assembleia Legislativa do Paraná, em Curitiba, no dia 26 de outubro, a convite do deputado estadual petista Tadeu Veneri. Falando aos deputados estaduais, a oradora disse: "Vocês estão com as mãos sujas de sangue", se referindo ao adolescente Lucas Eduardo (16 anos) que foi morto com uma facada no pescoço pelo seu colega também adolescente. A culpa pelo assassinato do Lucas Eduardo não foi do colega drogado que o vitimou e o deixou agonizando no chão da escola invadida pelo movimento  "Ocupa Paraná". A culpa foi da sociedade representada pelos Deputados Estaduais.

Ana Júlia falou, na entrevista que deu ao jornal Gazeta do Povo, de Curitiba (27 de outubro), que não foi doutrinada ideologicamente na escola. A adolescente falou a verdade, porque a doutrinação já tinha acontecido em casa, onde aprendeu os elementos fundamentais da ideologia petista com o pai, militante do PT. A escola só reforçou o receituário marxista à luz do gramscismo que se respira nas instituições de ensino secundário. 

Na entrevista, Ana Júlia disse que falou o que falou porque era o que as pessoas queriam escutar. Por "pessoas" entendamos o público-alvo da oradora: os adolescentes e jovens instrumentalizados pelos partidos da extrema esquerda (PT, PC do B, PSOL, PSTO) que no movimento "Ocupa Paraná" invadiram 850 escolas, 14 universidades e 11 núcleos de educação, em protesto contra o Plano de Reforma do Ensino Médio e contra a PEC 241 que propõe o limite dos gastos públicos nos próximos 20 anos. 

A oradora seguiu, no quesito "popularidade palanqueira", a receita infalível do seu herói, Lula, (que, aliás, lhe telefonou no dia 27 para cumprimentá-la). Receita para ter sucesso no palanque: falar o que as pessoas querem ouvir. 

A oradora adolescente declarou, por último, que tinha sido influenciada por três autores: o "sociólogo" alemão Karl Marx, o pensador genebrino Jean-Jacques Rousseau e o sociólogo francês barão de Montesquieu.

De Marx, Ana Júlia e os seus colegas secundaristas tiraram a pior parte: o messianismo sindical em que o desalinhado filósofo era craque. Karl Marx não quis saber da libertação do operariado que os saint-simonianos (na França) e os precursores dos fabianos (na Inglaterra) propunham para ser efetivada por força dos próprios operários, nas variadas organizações sindicais nascentes nesses países, sem necessidade de destruir a "sociedade burguesa". Ele criticava duramente Lassalle (o precursor do socialismo democrático) que na França achava ser possível obter o bem-estar dos trabalhadores mediante a participação moderada dos sindicatos na política. Marx preferia o sindicalismo radical e a ditadura do proletariado como conquistas messiânicas dos operários sob a direção dele próprio. Ora, a figura do Lula, líder sindical salvador da Pátria que rejeita as instituições da sociedade burguesa, se insere direitinho nesse modelo, que passou a ser cultuado pelos nossos jovens secundaristas...

De Rousseau, o maluco filósofo de Genebra que inspirou outros malucos como o coronel Hugo Chávez da Venezuela na sua "Revolução Bolivariana", Ana Júlia tirou a convicção de que o homem é bom, sendo deformado na sua bondade natural pela sociedade burguesa. Conclusão prática desse arrazoado: a culpa pelo que os explorados fazem não é deles, mas do "sistema". Logo, "pau na sociedade! 

Do barão de Montesquieu, a secundarista Ana Júlia deve ter lido apenas a capa de algum dos seus livros, possivelmente Do Espírito das Leis. Bem que Ana Júlia poderia ler, com proveito, esta obra do pensador francês, que foi um dos maiores críticos do absolutismo e que enveredou pela busca de caminhos institucionais que se contrapusessem a este mal, com destaque para a  tripartição de poderes públicos que Lula e o PT tanto aborrecem, do alto da visão unipessoal e populista que os anima.

A culpa pelo sangue derramado do adolescente esfaqueado pelo assassino também adolescente não é deste, mas da sociedade representada pelos deputados estaduais do Paraná. Bela generalização que deixa de mãos limpas o verdadeiro culpado e os seus incentivadores, os políticos inescrupulosos que tornaram os alunos das escolas paranaenses massa de manobra política para encobrir o tsunami de impopularidade em que a esquerda afundou, como consequência de 13 anos de crimes cometidos na gestão fraudulenta do Estado brasileiro.

Com essas falsas soluções os partidos da esquerda radical brasileira só conseguirão afundar mais eles próprios e tornar ainda mais difícil a complicada reconstrução do país, após a quebradeira imposta por três governos chefiados pelo PT.  

Como frisava recentemente Reinaldo Azevedo no seu blog: "Depois de ter quebrado o Brasil, de tê-lo conduzido à maior recessão de sua história, de ter feito mais de 12 milhões de desempregados, de ameaçar comprometer o futuro de gerações, as esquerdas resolveram escolher a educação como praça de resistência, justamente a área em que o país é mais carente. Mas é também aquela em que o sindicalismo é mais obtuso, em que há mais ingênuos disponíveis". 

Falando de Lula, inspirador de tantas desgraças, o citado jornalista escreve no seu mais recente post: "Como um Nosferatu desesperado, ele está em busca de sangue novo".

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA


As Nações adoecem como os indivíduos. A sociedade brasileira está doente. A síndrome da violência se instalou como perverso clima que põe em risco a vida de todos nós. É o ambiente hobbesiano de temor da morte violenta. E de fato corremos maior risco que os habitantes de outros países. 60.000 homicídios por ano não é brincadeira. Essa cifra nos coloca no topo das nações mais violentas do mundo. É a falência do Estado patrimonial que não cuida do que deveria cuidar: saúde, educação e segurança dos cidadãos.

Enquanto isso, as instituições deste país, os poderes públicos, cuidam de si próprios e das benesses da imprestável burocracia que nos assoberba. Na rixa entre poderes que caracterizou a última semana, destaca-se um fato: as coisas ficam como estão. Policiais do Senado a serviço da presidência da casa podem bisbilhotar à vontade e atrapalhar investigações ordenadas pela Justiça. O ministro Teori Zavascki, pelo menos, passou essa mensagem ao sustar a Operação Metis, que procurava investigar as trapalhadas de contra-inteligência dos policiais do Senado. Eles serão também, agora, protegidos pelo foro especial. Renan Calheiros agradece penhorado a providência do Ministro. Mas certamente os cidadãos comuns nem entendem o por que dessa providência nem agradecem a mesma, que antes atrapalha as suas vidas e a busca da transparência por todos almejada. Esperamos que o colegiado do STF corrija essa falha.

A violência corre solta pelas ruas e espaços das nossas cidades. Noticia o jornal O Globo de hoje: o Brasil registra 160 assassinatos por dia. No que vai corrido deste ano, o Rio de Janeiro já conta com 846 vítimas de bala perdida. Os presídios federais de segurança máxima contam com 25 facções. Ler tudo isso, de uma tacada só, é para amargar o café da manhã de qualquer um.

Está prevista para hoje reunião de representantes dos três poderes da República para tratar da problemática da segurança pública que, como se vê, está em frangalhos. 

Após os 14 anos de desgovernos petistas instalou-se no Brasil um clima de salve-se quem puder. Nos tradicionais assaltos a norma dos meliantes agora é: primeiro atirar (ou esfaquear, modalidade de crime que no  Rio já virou moda) e depois roubar, como acontecia na Colômbia dos tempos de Pablo Escobar. Essa violência gratuita se instala como gripe suína. Vira clima escatológico mesmo. A violência se sente por toda parte: na agressividade do trânsito, na má educação do caixa de banco, na sem-vergonhice do funcionário público que não está nem aí para a fila interminável que se estende à porta do guichê, no caradurismo dos ladrões de ontem que aparecem de cara lavada, exigindo os "seus direitos" (desde o Lularápio até o militantezinho que imita a arrogância do chefe), na intransigência dos grevistas dos serviços essenciais de olho exclusivamente nas suas reivindicações salariais, na radicalização estúpida da militância das viúvas do PT que manipulam adolescentes e, depois, quando as mortes acontecem, lavam as mãos atribuindo a culpa "ao sistema".

Nesse clima de tudo-vale sobressai a atuação negativa de alguns funcionários públicos que, em lugar de tomar o partido da ordem e da defesa das instituições que servem aos cidadãos, se alinham do lado errado, protegendo os baderneiros. 

É o que aconteceu recentemente quando a subprocuradora da República, que está a cargo da Procuradoria Geral dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, se opôs à determinação do MEC de identificar as lideranças dos baderneiros que estão radicalizando os jovens nas escolas públicas do Paraná, tendo merecido, por essa atitude, um puxão de orelhas do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Ela já tinha tomado as dores dos militantes do caos ao defender que a PM de São Paulo somente agisse contra os baderneiros sob supervisão dos procuradores da República. Ô tempora! Ô mores!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ESTADO PATRIMONIAL CARO: 3 TRILHÕES DE REAIS!


A Secretaria do Tesouro Nacional divulgou recentemente o tamanho da dívida pública brasileira: 3 trilhões de reais! É o preço que pagamos pelo funcionamento paquidérmico e ineficiente do Estado, cada vez mais a serviço de uma oligarquia política.

Pode ser freada essa sangria escatológica que compromete a qualidade de vida dos brasileiros? Digamos que um pequeno passo inicial foi dado com a aprovação, em segunda votação, pela Câmara dos Deputados,  da PEC 241, que estabelece um teto para o gasto público ao longo dos próximos 20 anos. A PEC vai agora ao Senado, para ser discutida e votada ali. Esperamos que o trâmite não seja obstaculizado pelas rixas entre o presidente da Câmara Alta e o Supremo, de um lado, e pelo mal-estar existente entre o senador Calheiros e o ministro da Justiça, em relação às ações da Polícia Federal face à tentativa da polícia legislativa de obstaculizar investigações autorizadas pela Justiça contra alguns parlamentares.

Essa rixa, diga-se de passagem, é motivada pelo medo do senador Calheiros de ser enquadrado também pela Operação  Lava-Jato, após a prisão, a mando do juiz federal Sérgio Moro, do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Se este foi para o xilindró, não há motivo para não pensar que, num futuro próximo, Calheiros não seja enquadrado também em algum dos crimes de que é acusado perante o Supremo Tribunal Federal. O chilique seria apenas jogo de cena do atual presidente do Senado, a fim de mostrar a sua força e afastar a possibilidade de entrar na fila dos que prestarão contas à Justiça. Mas, pelo andar da carruagem da reação da sociedade, que dá pleno apoio aos Procuradores e Juízes da Lava-Jato, acho que a performance de Calheiros é inútil. Como se diz em linguagem popular, "a batata dele está assando".

Em relação às críticas que a PEC 241 vem recebendo, no sentido de  que comprometerá, nos próximos anos, as verbas destinadas à saúde e à educação, o secretário de acompanhamento econômico da Fazenda, Mansueto Almeida, deu alguns esclarecimentos importantes em artigo publicado na revista Valor Econômico (em 14 de outubro de 2016). A respeito, escreveu: "As despesas federais não serão congeladas por 20 anos e muito menos as despesas com saúde e educação. Despesas com saúde e educação estão protegidas e, com a volta do equilíbrio fiscal, despesas programadas serão efetivamente pagas, ao contrário do que ocorreu com a despesa com saúde de 2011 a 2015 [nos governos da Dilma Rousseff]. Mas se não fizermos o ajuste fiscal, o baixo crescimento continuará e o Tesouro Nacional não terá recursos para pagar nem as despesas sociais e nem os seus credores".

Em outro trecho bastante esclarecedor do seu artigo, Mansueto Almeida escreve:  "Não há corte nominal de despesa primária do governo federal. A economia virá ao longo do tempo à medida que o crescimento da economia reduza a relação da despesa primária como porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB). Pela regra da PEC 241, no final de dez anos, a despesa primária será reduzida em cerca de 5 pontos do PIB e, assim, a depender da recuperação da receita, o déficit primário atual de 2,7% do PIB (R$ 170,5 bilhões) poderá se [converter] num superávit primário acima de 3 pontos do PIB". 

A onda de ocupações de escolas com que as viúvas do PT (representadas pelos partidos da esquerda ululante, a começar pelo PSOL) protestam contra o projeto de controle dos gastos públicos é explicável: a esquerda retardatária é contra perder as boquinhas conquistadas ao longo do ciclo lulopetralha. Mas os preguiçosos militantes não perdem por esperar: não somente se saíram mal nas eleições municipais, como também amargarão, nos próximos 20 anos, o fechamento dos cofres públicos, que tão generosos foram com eles nos dois desgovernos petistas.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

HÁ SESSENTA ANOS, OS HÚNGAROS SE INSURGIRAM CONTRA A DITADURA SOVIÉTICA

Capa da edição brasileira da obra O Livro Negro do Comunismo (Editora Bertrand Brasil, 1999). (Fonte: Wikipédia).

Parece que foi ontem. Pelo menos para os que, como eu, estamos já na casa dos 70. Lembro-me das tocantes imagens publicadas pela Revista Life sobre a Revolução Húngara, ocorrida em outubro de 1956. Sempre achei heroica a atitude dos Húngaros que se revoltaram contra o poder soviético e que deram o primeiro grito de liberdade contra o totalitarismo de Moscou. A esse primeiro grito de independência seguiram-se outros no vasto universo das Repúblicas Socialistas Soviéticas: a Primavera de Praga, em 1968 e o Movimento Solidariedade dos trabalhadores poloneses, em 1980. Esses gritos de resistência anteciparam a queda definitiva do Império Soviético em 1989. 

Comunista no poder, quando questionado, age sempre assim: tanques por cima dos cidadãos descontentes! Foi assim na Praça da Paz Celestial, em Pequim, no final dos anos 80. Foi assim na Hungria e em Praga. Bem que os soviéticos tentaram sufocar brutalmente os protestos do Solidariedade. Mas os tempos já estavam mudando. O mundo era outro. O "lamaçal" que acobertava as falcatruas da burocracia corrupta de Moscou não conseguia mais esconder as coisas do resto do mundo. Mais ainda: em Roma tinha sido coroado Papa João Paulo II, o Pontífice Polonês que infernizou a vida dos comunistas.

Vamos convir que as comemorações pelos 60 anos da Revolução Húngara no Brasil ficaram praticamente reduzidas a algumas notas de rodapé dos grandes jornais. O nosso sentimento da defesa das liberdades é ainda muito tênue, em que pese a longa noite do descalabro lulopetista, cuja conta, pesada, estamos pagando todos. Falta-nos mais arrojo para defendermos a liberdade e para comemorarmos as datas marcantes dessa luta no universo internacional.

Os comunistas sempre foram muito criativos na propaganda para defenderem as "conquistas" por eles conseguidas. Apregoaram aos quatro cantos do Planeta a libertação dos oprimidos: eles, certamente, onde se instalaram, sempre por processos de força, oprimiram como ninguém. 

Os mortos da aventura comunista somente são comparáveis (superando-os em milhões) aos mortos da outra ditadura totalitária do século XX: a nazi-fascista. A noite negra do comunismo espalhou pelo mundo afora 100 milhões de vítimas. É isso que é calculado no Livro negro do Comunismo, publicado na França por intelectuais independentes. A edição brasileira, pela Bertrand Brasil, é de 1999.

Em que consistiu a propaganda comunista para defender a dominação totalitária e a eliminação de milhões de oponentes? Consistiu numa simplificação brutal, à sombra do arrazoado de Rousseau e de Lenine: a felicidade geral da Nação (Rousseau) decorre da eliminação da dissidência. Ora, esta operação deve ser feita sem nenhum obstáculo pelos donos do poder. O ideal seria um Estado não controlado por leis (Lenine). 

O "Sistema" seria identificado como o grande inimigo a ser eliminado. Ele se identificava com o capitalismo liberal. Ali onde imperasse tal sistema, os homens estavam escravizados e era necessário libertá-los. Essa foi, simplificada, a missão fixada pelos ativistas de esquerda inspirados na nova onda salvacionista. Ora, o que era o "Sistema"? Ele estava constituído pelo universo capitalista alicerçado em instituições liberais, segundo as quais o poder tinha que ter limites, aqueles estabelecidos pela legislação.

Para tamanha simplificação devemos ter uma resposta clara: gostamos do "Sistema", a única forma de exercício do poder acorde com a dignidade humana. 

Como frisou o professor João Carlos Espada em recente artigo para comemorar o grito de independência dos Húngaros em 1956, trata-se de "um sistema livre, de freios e contrapesos, em que ninguém detém o poder absoluto - que está dividido entre executivo, legislativo e judiciário. E mesmo o poder desses três ramos do Estado está limitado pela lei, que protege os direitos das pessoas à vida, à liberdade e à busca da felicidade, para citar a Declaração da Independência norte-americana de 1776 (ela própria herdeira da Magna Carta de 1215). (...)  Foi para reconquistar este sistema que os Húngaros se bateram em 1956. A homenagem que lhes é devida exige que saibamos voltar a defender o sistema da democracia ocidental - hoje mesmo antes que seja tarde". 

sábado, 22 de outubro de 2016

PCC, O CARTEL DO "NARCOSUL".

Artigo publicado no Estadão de 22-10-2016
O Presidente Lula, em maio de 2010 e o Presidente boliviano Evo Morales, ostentando colares de folhas de coca em Santa Cruz de la Sierra (Revista Veja, blog de Reinaldo Azevedo, 28 de maio de 2010).


O PCC, ao longo das últimas décadas, converteu-se no Cartel do "Narcosul". Nascido da reação contra o massacre do Carandirú (1992), o PCC já domina a maior parte dos presídios brasileiros. E, desde essa posição, passou a dominar o tráfico de drogas no Brasil e na região do MERCOSUL. Daí o nome dado pelos meliantes à organização: "Narcosul". É o que revela a pesquisa publicada pela revista Veja sob o título: "O Carandiru e o PCC" (edição 2498, 5 de outubro de 2016, pgs. 84-97).

Era questão de tempo o Brasil ter o seu grande cartel das drogas. Acontece que, em política, se falta a perspectiva estratégica (que, infelizmente, está longe das mentes dos nossos políticos), fica aberta a porta para eventos negativos. É o que está acontecendo com a força demonstrada pelo PCC em matéria de narcotráfico. Hoje é a principal organização criminosa brasileira que rivaliza, em lucros, com as maiores empresas do país, chegando a ocupar a 16ª posição, com ganhos da ordem de 20,3 bilhões de reais ao ano, à frente de grandes empresas como a Volkswagen e a JBS Foods. Como chegou a acontecer isso, após termos conhecido as desgraças patrocinadas na Colômbia pelo Cartel de Medellín, de Pablo Escobar, nos anos 80 e 90 do século passado? A resposta é: descaso e populismo.

Esse perigoso binômio nos levou a menosprezar a lição dada pela Colômbia após sofrer a dura guerra do narcotráfico e da narcoguerrilha, com os seus mais de 250 mil mortos. Lembro que, no final dos anos 90, fiz uma palestra no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio, no Rio de Janeiro, acerca das desgraças produzidas pelo narcotráfico na "Cidade Maravilhosa", que se tornou incontrolável após o ciclo populista dos dois governos de Brizola.

Alertava, na época, para o risco de o Brasil se tornar palco do crescimento de grandes cartéis de drogas, em decorrência do vácuo que o populismo abriu em matéria de segurança pública e também como consequência do vazio econômico gerado pela insegurança jurídica ensejada pelo "socialismo moreno" do caudilho gaúcho, que fez com que mais de 800 empresas abandonassem o Rio de Janeiro, quando da primeira administração brizolista que começou em 1983, à sombra da retórica socialista das “perdas internacionais”, que o capitalismo teria trazido ao país. Brizola, efetivamente, deu o passo grande em matéria de abrir espaço ao crime organizado, ao pregar que a polícia não subia em morro. Os traficantes ocuparam rapidamente o vácuo aberto e, orientados pelos meliantes colombianos, começaram a adquirir armamento pesado. Data daí a explosão da violência que o narcotráfico ainda impõe aos cidadãos cariocas.

O empurrão inicial dado pelo brizolismo ao narcotráfico no Rio veio ser potencializado, em nível nacional, pelos 13 anos de populismo lulopetista, que simplesmente abriram as portas para o mercado de tóxicos no Brasil. Lula, no palanque em Santa Cruz de La Sierra com Evo Morales, no início do seu primeiro governo, ostentando no seu peito um colar feito de folhas de coca, essa foi a imagem que percorreu o mundo do narconegócio, indicando o "liberou geral" dos petistas para a produção e a distribuição das drogas. Rapidamente o Brasil viu aumentar de forma fantástica a entrada de pasta base de coca boliviana. O cocalero Evo Morales não fez por menos: ao longo dos governos petistas, simplesmente duplicou a extensão que os bolivianos dedicavam ao cultivo da folha de coca, a fim de destinar a maior parte da produção para o mercado de tóxicos brasileiro.

Resultado: viramos mercado para a droga, ao mesmo tempo em que nos firmamos como corredor de exportação de narcóticos para a Europa. Do mercado americano, cada vez mais próspero, os nossos meliantes deixaram que cuidassem os mexicanos, que ocuparam rapidamente o vácuo deixado com a morte de Pablo Escobar, em 1993. As coisas se facilitaram enormemente para os traficantes da América do Sul, com a instauração, na Venezuela chavista, de um autêntico narcoestado que passou a proteger a narcoguerrilha colombiana das Farc e que intermediou a compra de armas (lembremos que Fernandinho Beira-Mar era um dos elos da cadeia de compra de armas por cocaína no mercado americano e também no Brasil).

O corredor brasileiro de exportação de cocaína transladou-se do centro-sul do país para as desguarnecidas cidades do Norte e do Nordeste, carregando consigo a sua procissão de assassinatos e violência generalizada, que explodiu nessas regiões. A África Ocidental, ocupada por narcoestados, passou a ser a nova fronteira a ser atingida pelos traficantes brasileiros. Mas o Brasil virou, também, como previam os mafiosos italianos no final dos anos 80, um próspero mercado para o consumo de entorpecentes. 

Segundo a pesquisa divulgada pela Revista Veja (na edição citada no início deste artigo), o Brasil tem 2 milhões de viciados em cocaína, 1 milhão de viciados em crack e 1,5 milhão de dependentes da maconha. Esses consumidores regulares de tóxicos garantem ao PCC um lucro que, como frisei anteriormente, chega hoje aos 20,3 bilhões de reais por ano. Vai ser difícil nos desfazermos dessa indústria da morte, hoje plenamente estabelecida e que funciona pelo país afora, dinamizada pela enorme e abandonada população carcerária (que já chega a 550.000 indivíduos) dominada na sua maior parte pelo PCC. Um verdadeiro exército da morte, que espalha assassinatos nos presídios e em todos os cantos do Brasil! Mais uma herança perversa do populismo brasileiro.

Abre-se, pois, nova frente para desmontarmos o descaso aberto no país pelo populismo. Mas é melhor agirmos enquanto é tempo. O PCC já mostrou que tem bala na agulha.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A VENEZUELA NO BURACO

"O passarinho Chávez de Maduro", charge do jornal argentino Clarín, abril de 2013.

A crise institucional está tocando fundo na Venezuela. O Chavismo acabou com o país. A prova mais forte dessa trágica situação é a fuga em massa dos cidadãos venezuelanos para o Brasil e a Colômbia.

Já são mais de 30.000 os que cruzaram a fronteira com o nosso país, no longínquo Estado de Roraima. E a onda humana continuará a aumentar, o que obrigará o governo brasileiro a tomar medidas extraordinárias. As autoridades de Roraima deverão decretar o estado de calamidade pública, a fim de receberem ajuda federal e fazerem frente a essa situação emergencial. Algo semelhante ocorre na Colômbia, onde têm procurado refúgio miles de venezuelanos que fogem porque não têm mais o que comer no seu país de origem. O chavismo acabou com a economia de mercado e com a Venezuela!

As desgraças que os nossos vizinhos venezuelanos sofrem já eram previstas. Ao longo dos últimos quinze anos, a "Revolução Bolivariana" do coronel Chávez e do seu sucessor, o inepto Maduro, passou a gerir ideologicamente o país. 

Algo que no Brasil conhecemos de perto ao longo do ciclo lulopetralha. Hoje estamos pagando a conta, com a economia esgarçada pelo festival de corrupção e de inépcia que foi enxotado com o governo da Dilma. A presidente-poste deu continuidade ao carnaval de corrupção e de descaso com a coisa pública, dos dois governos de Lula. Felizmente no Brasil a sociedade civil conseguiu colocar para fora os petralhas, antes de que acabassem com a nossa economia e com o que restava de credibilidade do país no cenário internacional.

A desagregação dos Estados é como a explosão das estrelas: jogam para fora, na imensidão do espaço cósmico, a sua massa de prótons e de nêutrons (no caso da morte estelar), ou enxotam para fora das suas fronteiras a massa humana que, desnorteada, passa a ocupar espaços dos países vizinhos (no caso da falência institucional de um Estado). É o que atualmente está acontecendo com a Venezuela.

O caso venezuelano é apenas um episódio da "onda vermelha", que percorreu o continente latino-americano após a criação do Foro de São Paulo por Lula e Fidel Castro, nos anos 90 do século passado. Nessa estapafúrdia organização refugiaram-se as "viúvas da Praça Vermelha", após o desmanche do Império Soviético em 1989. 

Os regimes surgidos desse pacto do atraso levaram justamente para o buraco os países que acreditaram na falsa saída: Argentina, Bolívia, Equador, Brasil, Venezuela, para não falar nos países menores da América Central e do próprio México, que também sofreram os abalos da proposta de revivescência do comunismo. Os nossos vizinhos colombianos viram-se às voltas com as tentativas totalitárias das FARC para fazer desse país a sede de mais um governo da esquerda troglodita.

A "onda vermelha", felizmente, está chegando ao seu fim. Mas o caso mais dramático é o desmanche da Venezuela, que está afetando diretamente a vida de milhões de cidadãos.

O Chavismo está na origem dos males que sofrem hoje os nossos vizinhos venezuelanos. Recordemos que o maluco coronel, que considerava ser ele a reencarnação do Libertador Simón Bolívar, simplesmente jogou por terra as instituições republicanas do seu país, ao transformar o Estado venezuelano numa espécie de extensão da sua própria casa, à maneira como o ditador Juan Vicente Gómez privatizou as instituições venezuelanas num regime familístico que se estendeu de 1908 até 1938, tendo inspirado ao Nobel colombiano García Márquez na escrita da sua obra prima sobre os ditadores latino-americanos: O outono do Patriarca (1975).

O Chavismo tentou privatizar o Estado e transformá-lo em empreendimento familiar do déspota o do seu séquito. Ora, essa lenta transformação teve três variáveis: econômica, política e cultural. 

No terreno econômico, o maluco coronel simplesmente destruiu a empresa privada venezuelana, passando a estatizar, primeiro, as maiores firmas produtoras de alimentos. Desde a sua chegada ao poder até a morte do ditador, foram estatizadas 1.300 grandes empresas do setor agropecuário. Moral da história: o país passou a importar alimentos. Quando os preços do petróleo descambaram no mercado internacional, a crise alimentar se instalou e começou a faltar comida nos supermercados. Hoje os venezuelanos fogem do país para não morrerem de fome.

No terreno político, a "Revolução Bolivariana" de Chávez centralizou todos os poderes no Executivo hipertrofiado. As leis passaram a ser ditadas pelo presidente. O Legislativo e o Judiciário converteram-se em cópias do Executivo. A monótona figura de Chávez e, depois, de Maduro, paramentados de vermelho e brandindo a "Constituição Bolivariana", converteu-se em símbolo do despotismo implantado. Os opositores ao regime passaram a ser tratados como "inimigos da Nação". Os que não foram assassinados, amargam longas condenas impostas pelo Judiciário submetido à vontade do presidente de plantão. 

A Venezuela entregou a sua soberania a Cuba, ao ter instalado em Havana os organismos de inteligência e repressão. Os cubanos passaram a gerir diretamente essas duas instâncias. O ditador venezuelano foi morrer em Havana, para onde tinha sido transferida parte essencial do poder do Estado venezuelano.

No terreno cultural passou a se instalar a figura do "Big Brother", o líder vermelho. Convenhamos que as coisas pioraram após a morte de Chávez em 2013. Este tinha carisma e se tornou o "Pop Star" da mídia venezuelana. Chávez pretendia garantir a felicidade dos venezuelanos. Criou, para isso, o Ministério da Felicidade Popular (que, pasmem os leitores, ainda funciona!). Trata-se, certamente, de uma verdadeira aberração megalomaníaca, somente possível à luz dos ensinamentos do maluco "filósofo de Genebra", Jean-Jacques Rousseau. 

Maduro não tem a popularidade nem o carisma de Chávez. O medíocre sucessor do lunático coronel passou a agir à sombra da memória do líder falecido, que lhe falava "através de um passarinho". Ridícula versão do populismo chavista que, se não fosse trágica (em decorrência das miles de vidas humanas que estão sendo sacrificadas pelo regime repressor), não passaria de uma comédia pastelão.

domingo, 16 de outubro de 2016

DIA DOS MESTRES

O professor escocês Gilbert Arthur Highet (1906-1978), autor da obra The Art of Teaching (1950). Foto: Wikipédia.

A minha vocação para a docência nasceu cedo: quando cursava o terceiro ano de ensino secundário na Colômbia. Um dos meus professores emprestou-me o livro do historiador da literatura escocês Gilbert Arthur Highet (1906-1978) intitulado: A arte de ensinar (The Art of Teaching, 1950). 

Nessa obra Highet, que foi catedrático de história da literatura na Universidade de Columbia, apresentava a docência como uma aventura fascinante em que os alunos poderiam embarcar, com a condição de que o mestre fosse um apaixonado pelo saber que transmitia a eles. A arte do ensino, considerava Highet, constituía uma magia (de que não todos os docentes eram portadores) capaz de suscitar o entusiasmo dos discentes pela cultura e pelo aprofundamento nela. O ensino da cultura antiga, que era o seu forte, seria como uma viagem fantástica, em que embarcavam mestre e discípulos. Fiquei empolgado com a exposição de Gilbert Highet e decidi que seria professor quando me formasse, após concluir o segundo grau e os meus estudos superiores. Anos antes de me formar em Filosofia, ainda cursando os últimos anos do denominado "Bacharelado em Humanidades", com a idade de 15 anos comecei a lecionar para alunos do segundo grau. Depois, estudei Filosofia na Universidade Javeriana de Bogotá, cursei a Teologia no Seminário Conciliar da capital colombiana, abandonei a carreira eclesiástica e me dediquei à docência.

Ao longo da minha vida de professor encontrei, felizmente, outros mestres que reacenderam em mim o ideal pela docência, que tinha auferido da leitura da obra de Gilbert Highet. Tive a felicidade de encontrar, pelo caminho, verdadeiros mestres.

Na Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín encontrei um grupo desses verdadeiros mestres: René Uribe Ferrer, decano da Faculdade de Filosofia e Letras, e os professores Alberto Restrepo Arbeláez (de quem fui assistente na cadeira de História da Literatura Grega, Latina e Hebraica), Beatriz Restrepo Gallego (professora de Metafísica) e Freddy Salazar (especialista em Espinosa e professor de História da Filosofia Moderna). O grupo era constituído por outros docentes de grande valor. Mas os mais chegados a mim eram os mencionados. Nos reuníamos, semanalmente, na sala de professores, para discutirmos as novidades acadêmicas e as dificuldades que os docentes enfrentávamos naqueles tumultuosos tempos (corria o ano de 1968 e os ares estavam caldeados nas Universidades pelos acontecimentos parisienses). Nota caraterística dos integrantes desse grupo de mestres era a amizade que nos unia. Assim, os mais jovens, como eu, encontrávamos nos colegas apoio e senso crítico que nos levava a progredir na função docente. O clima que imperava na Faculdade não era burocrático, mas inspirado na "Filía" aristotélica, a mais pura forma de amizade.

Nas minhas aulas de Teoria da Literatura e de História da Literatura Antiga encontrava jovens militantes dos grupos guerrilheiros. Em alguma oportunidade, após a explosão num prédio residencial de um arsenal em cuja manutenção estavam implicados dois dos meus alunos, apareceram na minha sala de aula, por meses a fio, agentes do temido Departamento Administrativo de Seguridad (o DAS, serviço secreto da polícia). Pensava que a radicalização dos meus alunos tinha produzido pelo menos um efeito positivo: levar à sala de aula rudes agentes que alguma coisa tiveram de aprender no terreno da História da Literatura...

Eram memoráveis as tardes em que o grupo mais chegado de professores e alguns dos nossos alunos nos encontrávamos no bar Macondo, vizinho da Faculdade, e discutíamos até altas horas da noite assuntos do momento, acadêmicos e políticos. Planejávamos publicações e eventos culturais. Programávamos excursões às cidades vizinhas de Medellín, no Oriente Antioqueño, em que realizávamos jornadas de estudo sobre temas candentes como a reforma da Universidade seguindo o modelo que então estava em voga, proveniente da Universidade de Córdoba, na Argentina. E surgiam entre os alunos e os professores solteiros os namoricos de rigor. Mas havia também um componente importante de parte dos mestres: todos estávamos inspirados pela fé religiosa e procurávamos descobrir uma forma de cristianismo mais acorde com a realidade vivida pelo nosso país.

Essa primeira experiência de solidariedade entre mestres e alunos encontrei em outras circunstância da minha vida como professor universitário. Refiro, apenas, a experiência mais marcante que dessa realidade tive no Brasil, onde me estabeleci a partir dos anos 70. De forma transitória, primeiro (entre 1973 e 1975), quando vim cursar o Mestrado em Filosofia na PUC do Rio de Janeiro. E de forma definitiva, logo depois, (a partir de 1979), quando vim cursar o Doutorado em Filosofia na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, tendo ficado, depois, definitivamente, em decorrência das dificuldades ensejadas pela guerra colombiana.

Já no grupo de colegas e mestres que conheci quando do meu Mestrado, encontrei um círculo de amigos que se organizou ao redor do professor Antônio Paim, que coordenava a linha de pesquisa ao redor do Pensamento Filosófico Brasileiro. Mestre Paim foi, para mim, a figura ideal do professor comprometido com o crescimento intelectual e humano dos seus discípulos. Pude vivenciar isso no meu caso particular. Vinculado, na Colômbia, a grupos da extrema esquerda, jamais o mestre, que era um crítico forte das opções vinculadas ao marxismo, questionou a minha opção política. No entanto, encontrei, nele, subsídios fundamentais para que pudesse eu revisar, criticamente, a minha opção política. Quando da elaboração da Dissertação de Mestrado, o mestre apresentou-me várias opções que se inseriam na linha de pesquisa em que deveria eu trabalhar: "Filosofias políticas e pensamento brasileiro nos séculos XIX e XX". Poderia escolher entre estudar um autor conhecido do pensamento católico, crítico do autoritarismo (Alceu Amoroso Lima), ou aprofundar na visão metafísica de um espiritualista do início do século XX (Farias Brito), sendo também possível escolher o estudo de uma tendência que tivesse sido marcante no século XIX, com influência no pensamento do século XX (A Filosofia Política de Inspiração Positivista no Brasil). Optei por esta última alternativa.

Rapidamente o Mestre indicou-me ampla bibliografia, tendo-me alertado de que se tratava de uma opção difícil, pois teria de consultar na Biblioteca Nacional do Rio, na sessão de publicações periódicas, a trilha seguida pelo pensamento dos doutrinadores positivistas, notadamente Júlio de Castilhos, redator de A Federação, o jornal gaúcho em que escreviam os seguidores do Partido Republicano Rio-Grandense. No decorrer da minha pesquisa, o Mestre falou-me da necessidade de confrontar o pensamento dos positivistas gaúchos com os seus oponentes, os liberais, dentre os que se destacavam as figuras de Gaspar da Silveira Martins e Joaquim Francisco de Assis Brasil. E deveria pesquisar, claro, as fontes primárias tanto do positivismo comteano, quanto do pensamento liberal. Deveria ler o Sistema de Política Positiva de Comte, bem como as obras essenciais de Locke (Dois tratados sobre o governo civil e Ensaio sobre o entendimento humano, além das Quatro Cartas sobre a Tolerância e a  Constituição Fundamental para a Carolina do Norte), a versão de democracia presente na obra A democracia na América de Tocqueville e a versão que do mesmo modelo tinham efetivado os doutrinadores americanos autores da coletânea O Federalista. Isso, para início de conversa.

Confesso que achei um tanto extensa a bibliografia de que deveria dar conta e falei disso com o meu orientador. Mas o Mestre Paim ponderou que, se eu querida trabalhar com o Castilhismo, deveria dar conta tanto dos seus princípios positivistas fundamentais, quanto das críticas a eles efetivadas pelos liberais. Santa exigência do meu Mestre que me obrigou, sendo ainda um trotskista confesso, a ler os pensadores liberais que, paulatinamente, foram me abrindo as portas para o tema da defesa da liberdade, por mim simplesmente ignorado nos meus estudos. Da leitura dos clássicos liberais tirei uma grande lição: o pensamento marxista simplesmente ignorava o ideal da liberdade, que constituía tema central do pensamento liberal. Mudei rapidamente no meu modo de pensar. De militante trotskista virei estudioso do liberalismo. Como escreveu o filósofo francês Gilles Lipovetski, "abandonei Marx e aderi a Tocqueville". Essa foi a minha mudança, em cuja origem se situa a exigência acadêmica de um caro amigo, o Mestre Antônio Paim.

Do grupo de professores e alunos que o professor Antônio Paim organizou na Universidade Gama Filho (que deu continuidade, no final dos anos 70, ao programa abortado na PUC do  Rio de estudo do pensamento filosófico brasileiro), formava parte um grande Mestre português, que virou meu amigo: Eduardo Abranches de Soveral. O que mais me impressionou nas lições de Soveral foi a sua grande abertura intelectual, bem como a delicadeza de quem vivia, em profundidade, o ideal do Mestre: abrir espaços de indagação intelectual para que o aluno crescesse. Um desses espaços foi o relativo à meditação de Soveral em relação ao que deveria ser o ideal do Mestre. Impressionou-me vivamente o seu ensaio sobre o Ideal do Professor em que o pensador português aprofundava na exigência existencial que o deveria guiar em face dos seus alunos. O professor, escrevia o Mestre português, deve ser como o São João Batista do saber. Não deve ter medo de que os seus alunos cresçam e ele, Mestre, desapareça. Bela lição de humildade intelectual de um dos grandes pensadores portugueses da contemporaneidade, infelizmente já falecido.

A lição de ética do Mestre, tanto a do Paim, quanto a do Soveral, aproxima-se da reflexão que Max Weber dedicou aos que ensinam. Para o grande sociólogo alemão, duas são as obrigações éticas do Professor: passar aos seus alunos, com total honestidade intelectual, os vários pontos de vista existentes em relação a determinado ponto e agir, na exposição dos temas a serem ensinados, com total respeito pelas mentes e pela liberdade de pensamento dos alunos, de forma a que eles possam escolher o ponto de vista que mais lhes interessar, mesmo que seja contrário ao que o Mestre pensa.