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sábado, 22 de outubro de 2016

PCC, O CARTEL DO "NARCOSUL".

Artigo publicado no Estadão de 22-10-2016
O Presidente Lula, em maio de 2010 e o Presidente boliviano Evo Morales, ostentando colares de folhas de coca em Santa Cruz de la Sierra (Revista Veja, blog de Reinaldo Azevedo, 28 de maio de 2010).


O PCC, ao longo das últimas décadas, converteu-se no Cartel do "Narcosul". Nascido da reação contra o massacre do Carandirú (1992), o PCC já domina a maior parte dos presídios brasileiros. E, desde essa posição, passou a dominar o tráfico de drogas no Brasil e na região do MERCOSUL. Daí o nome dado pelos meliantes à organização: "Narcosul". É o que revela a pesquisa publicada pela revista Veja sob o título: "O Carandiru e o PCC" (edição 2498, 5 de outubro de 2016, pgs. 84-97).

Era questão de tempo o Brasil ter o seu grande cartel das drogas. Acontece que, em política, se falta a perspectiva estratégica (que, infelizmente, está longe das mentes dos nossos políticos), fica aberta a porta para eventos negativos. É o que está acontecendo com a força demonstrada pelo PCC em matéria de narcotráfico. Hoje é a principal organização criminosa brasileira que rivaliza, em lucros, com as maiores empresas do país, chegando a ocupar a 16ª posição, com ganhos da ordem de 20,3 bilhões de reais ao ano, à frente de grandes empresas como a Volkswagen e a JBS Foods. Como chegou a acontecer isso, após termos conhecido as desgraças patrocinadas na Colômbia pelo Cartel de Medellín, de Pablo Escobar, nos anos 80 e 90 do século passado? A resposta é: descaso e populismo.

Esse perigoso binômio nos levou a menosprezar a lição dada pela Colômbia após sofrer a dura guerra do narcotráfico e da narcoguerrilha, com os seus mais de 250 mil mortos. Lembro que, no final dos anos 90, fiz uma palestra no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio, no Rio de Janeiro, acerca das desgraças produzidas pelo narcotráfico na "Cidade Maravilhosa", que se tornou incontrolável após o ciclo populista dos dois governos de Brizola.

Alertava, na época, para o risco de o Brasil se tornar palco do crescimento de grandes cartéis de drogas, em decorrência do vácuo que o populismo abriu em matéria de segurança pública e também como consequência do vazio econômico gerado pela insegurança jurídica ensejada pelo "socialismo moreno" do caudilho gaúcho, que fez com que mais de 800 empresas abandonassem o Rio de Janeiro, quando da primeira administração brizolista que começou em 1983, à sombra da retórica socialista das “perdas internacionais”, que o capitalismo teria trazido ao país. Brizola, efetivamente, deu o passo grande em matéria de abrir espaço ao crime organizado, ao pregar que a polícia não subia em morro. Os traficantes ocuparam rapidamente o vácuo aberto e, orientados pelos meliantes colombianos, começaram a adquirir armamento pesado. Data daí a explosão da violência que o narcotráfico ainda impõe aos cidadãos cariocas.

O empurrão inicial dado pelo brizolismo ao narcotráfico no Rio veio ser potencializado, em nível nacional, pelos 13 anos de populismo lulopetista, que simplesmente abriram as portas para o mercado de tóxicos no Brasil. Lula, no palanque em Santa Cruz de La Sierra com Evo Morales, no início do seu primeiro governo, ostentando no seu peito um colar feito de folhas de coca, essa foi a imagem que percorreu o mundo do narconegócio, indicando o "liberou geral" dos petistas para a produção e a distribuição das drogas. Rapidamente o Brasil viu aumentar de forma fantástica a entrada de pasta base de coca boliviana. O cocalero Evo Morales não fez por menos: ao longo dos governos petistas, simplesmente duplicou a extensão que os bolivianos dedicavam ao cultivo da folha de coca, a fim de destinar a maior parte da produção para o mercado de tóxicos brasileiro.

Resultado: viramos mercado para a droga, ao mesmo tempo em que nos firmamos como corredor de exportação de narcóticos para a Europa. Do mercado americano, cada vez mais próspero, os nossos meliantes deixaram que cuidassem os mexicanos, que ocuparam rapidamente o vácuo deixado com a morte de Pablo Escobar, em 1993. As coisas se facilitaram enormemente para os traficantes da América do Sul, com a instauração, na Venezuela chavista, de um autêntico narcoestado que passou a proteger a narcoguerrilha colombiana das Farc e que intermediou a compra de armas (lembremos que Fernandinho Beira-Mar era um dos elos da cadeia de compra de armas por cocaína no mercado americano e também no Brasil).

O corredor brasileiro de exportação de cocaína transladou-se do centro-sul do país para as desguarnecidas cidades do Norte e do Nordeste, carregando consigo a sua procissão de assassinatos e violência generalizada, que explodiu nessas regiões. A África Ocidental, ocupada por narcoestados, passou a ser a nova fronteira a ser atingida pelos traficantes brasileiros. Mas o Brasil virou, também, como previam os mafiosos italianos no final dos anos 80, um próspero mercado para o consumo de entorpecentes. 

Segundo a pesquisa divulgada pela Revista Veja (na edição citada no início deste artigo), o Brasil tem 2 milhões de viciados em cocaína, 1 milhão de viciados em crack e 1,5 milhão de dependentes da maconha. Esses consumidores regulares de tóxicos garantem ao PCC um lucro que, como frisei anteriormente, chega hoje aos 20,3 bilhões de reais por ano. Vai ser difícil nos desfazermos dessa indústria da morte, hoje plenamente estabelecida e que funciona pelo país afora, dinamizada pela enorme e abandonada população carcerária (que já chega a 550.000 indivíduos) dominada na sua maior parte pelo PCC. Um verdadeiro exército da morte, que espalha assassinatos nos presídios e em todos os cantos do Brasil! Mais uma herança perversa do populismo brasileiro.

Abre-se, pois, nova frente para desmontarmos o descaso aberto no país pelo populismo. Mas é melhor agirmos enquanto é tempo. O PCC já mostrou que tem bala na agulha.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

DROGAS ILÍCITAS: O DEBATE NECESSÁRIO


Assim como a democracia não cai do céu, mas é necessário construí-la, de forma semelhante não há solução válida para a proliferação das drogas ilícitas, senão aquela que pacientemente tiver sido equacionada por uma determinada sociedade que sofre desse flagelo. E todas as sociedades nacionais, no mundo atual, estão submetidas, em maior ou menor grau, à comercialização e ao consumo das drogas ilícitas. Depois do mercado do petróleo e das armas, a produção das drogas ilícitas constitui a terceira grande fonte de riqueza no mundo atual, estimando-se em 500 bilhões de dólares anuais o dinheiro que circula por conta desse comércio da morte. É uma verdadeira companhia transnacional, que toma decisões com base num frio cálculo de ganhos e perdas. Ora, no seio de determinada sociedade, qualquer solução é incompleta se, no terreno do combate às drogas, não for involucrada a população. O grande mal do Brasil a respeito consiste justamente na passividade da sociedade civil em face dessa terrível doença do mundo globalizado. Daí por que o debate acerca do consumo de entorpecentes é essencial para a sobrevivência da nossa sociedade.

Recentemente respondi a uma série de questões que, a respeito do consumo de drogas ilícitas pelos jovens em Juiz de Fora, foram formuladas pela jornalista Júlia Pessoa da Tribuna de Minas. Essa enquête serviu de base para extensa matéria que, sobre o particular, publicou o mencionado diário na sua edição de 29 de Abril. Considerando que as respostas por mim dadas constituem pontos de reflexão acerca da mencionada problemática, a fim de estimular o debate, as coloco na sua totalidade. Levo em consideração que a página do jornal aproveitou em parte, apenas, as minhas colocações, em decorrência da extensão da matéria publicada, que focalizou outros aspectos dos tratados por mim e que entrevistou outras pessoas familiarizadas com o tema.

Em um de seus artigos, publicado no início deste ano, que fala que o Brasil se tornou uma cracolândia, você diz que a maconha é sim, porta de entrada para o crack. Por que? Quais as consequências disso?
Infelizmente, sim, o Brasil virou uma grande cracolândia. É de arrepiar o dado de que mais de 90% dos municípios brasileiros já conhecem essa praga, bem como as conseqüências de desgarramento do tecido social que isso implica. A violência, simplesmente, disparou, pelo Brasil afora, punindo especialmente as pequenas cidades do Interior, menos aparelhadas para o combate à violência ensejada pelo consumo de drogas pesadas. A maconha, em países que já conheceram o flagelo do crack (como é o caso do meu país de origem, a Colômbia), foi a porta natural de entrada para drogas mais pesadas, como a cocaína e o crack, que é a cocaína dos pobres. Isso já foi estudado estatisticamente no país vizinho e, entre nós, não será diferente. A maconha tinha penetrado fundo nos municípios brasileiros, antes de o crack instalar o seu mercado da morte. A principal conseqüência é o acirramento da violência, ali onde a maconha preparou o caminho e onde o crack terminou o serviço. Não é alarmismo, é a cruel realidade.


O que pode ser feito para evitar esse processo?
A primeira coisa, considero, deve ser o estudo aprofundado do processo causado, nos países vizinhos e em outros países, como os europeus e os Estados Unidos, pelo consumo de drogas pesadas. O segundo paso, o estudo de como a maconha foi a porta de entrada para drogas mais pesadas: a análise rigorosa do que aconteceu na Colômbia é importante, pois se trata de um país bem semelhante ao nosso, com um povo alegre, que aprecia muito a religião e a vida de família. O estrago da maconha causado entre os nossos vizinhos precisa ser conhecido em detalhe. Bem como devem ser conhecidas, também as políticas públicas em andamento no vizinho país, no que tange a diminuir o consumo de drogas e também no que diz relação ao combate aos traficantes. Tanto o Exército quanto a polícia foram aparelhados para fazer frente a esse mal. Em terceiro lugar, deve ser estudado em detalhe o que está acontecendo no terceiro front latino-americano da guerra das drogas (o primeiro foi a Colômbia e o segundo está sendo a América do Sul, com o Brasil como epicentro), no México e na América Central: a produção de maconha antecedeu a entrada das drogas mais pesadas, comercializadas por sanguinários cartéis como os Zetas, por exemplo, que estão semeando o pânico e a morte entre a população. Ciudad Juárez, no México, com um milhão e trezentos mil habitantes, hoje é a cidade mais violenta do mundo, mais violenta que as cidades iraquianas e afegãs. Isso por conta da guerra desatada pelos traficantes.

Flagramos diversos adolescentes fumando maconha em ambientes públicos, como a porta de suas escolas, nas ruas etc. O uso deixou de ser velado. O que pode ter causado essa postura mais aberta dos usuários, principalmente os mais jovens, em relação a esta droga?


Vários fatores causaram essa epidemia de consumo de droga. O primeiro, a meu ver, foi a irresponsabilidade de alguns dos nossos homens públicos, que não trataram o consumo de drogas como algo sério. A fotografia publicada pela imprensa, há alguns anos, do ex-presidente Lula, no palanque, ao lado do presidente boliviano Evo Morales, ambos ostentando colares de folhas de coca, falou mais do que mil palavras. A mensagem subliminar foi: coca é carnaval! O segundo fator, a meu ver, é a desinformação da sociedade brasileira em relação ao perigo representado pelo consumo de drogas. Campanhas publicitárias de vez em quando, alertando para esse perigo, não bastam. É necessário uma ação diuturna de reflexão dos vários setores sociais sobre o problema. Aqui a questão correu um pouco por conta da nossa tradicional passividade para tratarmos acerca dos problemas que são de todos (buracos na rua, insegurança, depredação dos espaços públicos, drogas...). Nós brasileiros achamos que esses problemas são questões exclusivas do governo, não preocupação nossa. O terceiro fator, foi a publicidade que os produtores internacionais de drogas decidiram fazer no Brasil, já desde finais dos anos oitenta, quando tomaram a decisão de tornar o nosso país fronteira do narcotráfico e espaço para o consumo de tóxicos, ao ensejo do combate que os traficantes sofriam no eixo andino. Os mafiosos italianos, que tinham interesse no desenvolvimento do mercado brasileiro de drogas, decidiram partir para mostrar que consumo de entorpecentes é coisa chique, aproveitando o pouco policiamento das nossas fronteiras e a índole festiva do nosso povo. O resultado está aí: crack em mais de 90% dos municípios brasileiros! Da maconha, amplamente difundida, passou-se às drogas pesadas.


A maconha preocupa mais como problema de saúde ou de segurança pública?


Bem, eu acho que a preocupação deve ser em relação aos dois itens. Tanto em relação à maconha como em face do álcool e do tabaco. Os resultados obtidos  diante deste último são amplamente positivos no nosso país. As novas gerações entenderam a mensagem. Os problemas decorrentes do álcool estão sendo debatidos hoje, com motivo da violência do trânsito. Mas a divulgação de dados sobre os estragos da maconha e de outras drogas está na esfera do "políticamente correto". Alguém ja parou para pensar quantos acidentes de trânsito são causados pela maconha e pelas drogas mais pesadas? Não se pode falar dos riscos da maconha sem ser alcunhado de careta. Ora, consumo de maconha traz, sim, riscos para a saúde e para a entrada de outras drogas como a cocaína e o crack. Muitas vezes, esse consumo está associado ao consumo de álcool. O adolescente que se acostumou a viajar com bebida ou com bagulho para esquecer problemas está na autopista das drogas mais pesadas.


Em outros trabalhos,o senhor fala que a descriminzaliação das drogas não resolveria os problemas do tráfico e cita o exemplo da Holanda, onde toda a sociedade passou a sentir os efeitos da violência do tráfico. Como isso aconteceu e o que poderia acontece no Brasil?
Sempre pensei que para problemas complexos, como o das drogas, não pode haver soluções simples, mas complexas. Só a descriminalização alicerçada em razões de ordem econômica, não é suficiente. Foi o arrazoado que conduziu, numa primeira etapa, à descriminalização das drogas na Suíça, por exemplo e, depois, na Holanda. Estive, em 1986, na praça vizinha à estação ferroviária central de Zurique, um espaço liberado para o consumo de drogas. Era um lugar perigoso, de delinqüência pesada, e teve de ser fechado. O slogan "viciados do mundo uni-vos" pareceu ser uma voz que percorreu todas as cidades européias, conduzindo jovens dependentes a esse espaço. Algo semelhante ocorreu nas cidades holandesas, ao longo dos anos 90 e início deste milênio. A solução não é liberar o consumo, mas tratar os dependentes. Não se trata, evidentemente, de puni-los. Mas de tratá-los. As políticas tipo "liberou-geral" trazem mais problemas do que soluções. Hoje no Brasil estamos na fase da carnavalização da narco-dependência e do narcotráfico que a alimenta. E já estamos pagando um alto preço por essa atitude irresponsável.
 Porque descriminalizar as drogas  não é solução?
No item anterior já expus o meu pensamento a respeito. Não se trata, certamente, de punir aqueles que viraram dependentes das drogas. Mas também não se trata de ver o carnaval passar como se tudo fosse festa. Trata-se, sim, de formular políticas públicas que conduzam as pessoas dependentes a uma terapia que as liberte dessa desgraça. Pode-se falar, então, nesse ponto, de "descriminalização" em relação a esses usuários que viraram vítimas. Mas tomando medidas para que efetivamente se tratem e não voltem a consumir drogas. E confrontando com denodo e com todos os instrumentos do Estado de Direito aqueles que se aproveitam dos que viraram dependentes. O combate aos traficantes que espalham o comércio da morte acho que tem de continuar. Falar em descriminalização em face deles é uma irresponsabilidade.


Em um artigo o senhor diz que  "(...) restabelecer a credibilidade da Justiça, mediante uma legislação mais dura para com os criminosos" é essencial. Ao falar dos criminosos, o senhor se refere somente aos traficantes ou também aos usuários? Como "endurecer" a legislação? Iso ajudaria a reduzir o cosumo?


Bem, acho que nas minhas duas respostas anteriores já respondi a esta pergunta.

Em outro ponto do artigo, o senhor  diz que "Não se trata de criminalizar sumariamente os usuários, mas eles devem ser enquadrados nas suas responsabilidades como dependentes químicos, ajudando-os a superar a dependência." O senhor concorda com a legislação atual, em que os usuários deixaram de ter pena de prisão? Acredita que, pelo fato de usuários não serem presos ou receberem punição mais "severa", o consumo aumentou?

Acho que usuário dependente tem de ser tratado. E não deve ser estimulado o consumo de drogas em festas universitárias, por exemplo. E faço referência, aqui, também ao consumo de álcool e drogas, que já virou epidemia entre os estudantes. A imprensa noticiou que, há algumas semanas, uma menina de 17 anos foi estuprada numa festinha de estudantes da UFJF. Pelo teor do relato que foi veiculado pela imprensa, ela estava bêbada e, certamente, os que praticaram o crime deveriam estar bêbados, pelo menos. Festinhas dessa natureza não podem ocorrer numa instituição de ensino.

O que pode ser feito, em relação às drogas, em termos de segurança pública e em sua faceta como problema social?


A polícia, a meu ver, precisa de uma preparação para fazer frente ao combate aos traficantes e ao mercado da morte. Um trabalho essencial, que foi desenvolvido na Colômbia, é o de inteligência. Forças policiais precisam de uma infraestrutura de inteligência que lhes indique os objetivos das suas intervenções, que devem respeitar os direitos dos cidadãos. Em segundo lugar, as nossas forças policiais têm de estar bem treinadas e com armamento moderno. Faltam ainda aos policiais, em geral, no Brasil, mais completo treinamento e dotação de armamentos adequada. A segurança pública é questão de sobrevivência da sociedade. Portanto o seu equacionamento tem de ser amplamente coberto pelo orçamento da Nação. Ainda muita gente acha que com policiais mal-pagos, mal-treinados e mal-armados pode haver segurança para os cidadãos. Vale a pena ver o que foi realizado nas cidades colombianas para fazer refluir a onda de brutalidade dos narcotraficantes. As cidades, como Bogotá (5 milhões de habitantes) e Medellín (3 milhões) passaram a ser vigiadas vinte e quatro horas por dia, com câmeras ligadas às delegacias de polícia. Isso é caro, certamente menos do que vermos uma geração de jovens mortos ou mutilados pela violência das drogas. As nossas Forças Armadas, notadamente o Exército, tentam cumprir com a sua missão de proteger fronteiras, para que por elas não entrem os insumos para o refino de coca ou armamentos. Temos mais de 16 mil quilômetros de fronteira seca com países da América do Sul, por onde entram drogas e insumos para o seu refino, além de armas ilegais. O Exército solicitou um orçamento de 9 bilhões de Reais, para serem aplicados nos próximos 10 anos, com a finalidade de  melhor policiar esse espaço enorme, ampliando para 38 o número de pelotões de fronteira, com a infraestrutura necessária. O que fizeram os políticos em Brasília? "Contingenciaram" os dinheiros solicitados pelo nosso Exército, ao passo que a festança com o dinheiro público corre solta pelo Brasil afora. São mais de 70 bilhões de Reais mal-gastos, anualmente, com corrupção e roubalheira de falsas ONGs. Isso é conspirar contra o combate às drogas e agir contra a segurança dos brasileiros. Um dado estarrecedor: a guerra das drogas, na Colômbia (entre 1979 e 2002), matou 450 mil colombianos. Vamos esperar que desgraça semelhante aconteça no Brasil? Violência que, infelizmente, cidades como BH ou Rio de Janeiro já conhecem, com toda a desgraça que isso implica. Lembremos que, há alguns meses, foi noticiado que o Rio é a capital brasileira de consumo de diazepam e outros tranqüilizantes. A violência do narcotráfico cobra o seu preço.

sábado, 28 de janeiro de 2012

CRACOLÂNDIA BRASIL

O presidente Lula, no palanque do presidente da Bolívia,  Evo Morales, ostentando colar de folhas de coca: portas abertas para o narcotráfico boliviano?

O "capo di tutti capi", Pablo Escobar, fundador do Cartel de Medellín: a Colômbia de hoje é o Brasil de amanhã?

Projeto Sisfron do Exército brasileiro. Os burocratas do governo "contingenciaram" os fundos que consolidariam a realização do Projeto.
Viramos uma imensa cracolândia. Temos, hoje, 800 mil consumidores de crack. Há dez anos, eram 200 mil viciados. O crescimento foi tremendamente acelerado. Outros países, como os Estados Unidos, sofrem também do mesmo mal. Só que, ali, a epidemia teve o seu auge nos anos 80. Em 1988, 2,5 milhões de americanos eram consumidores da droga. Com as políticas públicas postas em funcionamento no país do norte, os números foram caindo progressivamente. Em 2002 eram 337 mil viciados. Hoje esse número caiu para 83 mil. A epidemia do crack está no seu ponto mais alto, hoje, no Brasil. Segundo estudos divulgados pela revista Veja (“É pior do que parece”, edição 2252, 18/01/ 2012 e “O crack bate à nossa porta”, edição 2253, 25/01/ 2012), dados coletados em 4430 municípios revelam um fato estarrecedor: 91% das cidades foram invadidas pelo crack. É uma estatística deveras trágica, pois a invasão da droga da morte se traduz num aumento extraordinário de criminalidade, notadamente de homicídios, o que torna o país um dos mais perigosos do mundo. A desgraça da droga disseminou-se democraticamente pelo Brasil afora, sem poupar ninguém: pobres, remediados e abastados são hoje vítimas da maré assassina. Para todos eles, as portas de entrada para o crack foram o álcool, a maconha e a cocaína. A recente operação da polícia paulista na cracolândia revelou esse perfil universal da droga, que abarca todas as classes sociais.

A percepção pela sociedade do tamanho do mal ensejado pelo consumo de drogas é, via de regra, tardia. Acontece em nível macro o mesmo fenômeno que ocorre com a percepção do fenômeno em escala familiar: as pessoas procuram negá-lo e só o reconhecem quando já está instalado e começou a produzir efeitos de desagregação social, que se traduzem em mortes violentas, agressões contra mulheres, crianças e idosos, roubos, assaltos, etc. É mais fácil não reconhecer a dependência das drogas do que enfrentá-la. No Brasil, demoramos muitos anos até reconhecermos que o crack está afogando o país. O evento que fez acordar a opinião pública, em nível nacional, foi a operação da polícia na cracolândia paulista, no início de 2012. Lembro-me de que, quando cheguei ao Brasil em 1979, fugindo da guerra das drogas na Colômbia, ficava espantado de ver a tolerância e a ingenuidade das pessoas em face do consumo de entorpecentes. Festinhas universitárias eram regadas a cocaína. A maconha tinha-se tornado, já nos anos 80, droga de consumo generalizado entre a classe média. A socialite carioca Narcisa Tamborindegui, no seu livro intitulado: Ai, que loucura, gabava-se de receber, no seu luxuoso ap. da Avenida Atlântica, no Rio, via moto-boy, generosas doses de cocaína para os seus convidados. Em mesa-redonda programada em Juiz de Fora por uma entidade universitária, ouvi de um médico da prefeitura a seguinte aberração, no início dos anos 90: “a questão de consumo de drogas é de foro interno, diz relação apenas à satisfação individual; se você quiser consumir em casa, tudo bem, é só tirar as crianças da sala e mandar ver”. Numa outra mesa-redonda, na PUC do Rio, nos anos 80, já tinha ouvido de um psiquiatra a sábia recomendação, ao Estado, para que financiasse a fabricação e distribuição de um bagulho oficial, que ele batizava de “maconhol”. Tudo se passava no Brasil, para o meu espanto, como ocorrera na Colômbia. Ali, as drogas invadiram todos os estratos sociais, corromperam a política, a magistratura, as Forças Armadas e a polícia, fazendo mergulhar a sociedade numa desastrosa guerra que desestabilizou as instituições e tornou as famílias reféns dos traficantes. Saldo da loucura patrocinada pelas drogas: 450 mil mortos entre 1979 e 2005, na guerra civil patrocinada pelos cartéis de Medellín, de Cali, dos paramilitares e das FARC.

A expansão da fabricação, circulação e consumo de drogas no Brasil não foi uma circunstância fortuita, mas uma decisão friamente planejada pelas máfias do narcotráfico que, no final dos anos 80, consideravam ser necessário transferir o eixo da produção e circulação de narcóticos dos Andes para a costa brasileira e a Amazônia. Isso em decorrência do combate que o governo americano e as autoridades dos países andinos deflagraram contra os traficantes. O Brasil apresentava ainda a vantagem de ter fronteiras secas mal vigiadas e uma grande extensão litorânea sobre o Atlântico Sul, com portos numerosos e sem policiamento efetivo. O nosso país, consideravam ainda os mafiosos, oferecia a vantagem de oferecer um rico calendário de festas multitudinárias, como o carnaval e os festivais de rock, onde, certamente, haveria um incremento significativo do consumo de entorpecentes. Outra vantagem: o grande número de imigrantes vindos dos quatro cantos do mundo, o que facilitava a presença, entre nós, de “mulas” a serviço do narcotráfico. A julgar pelo estado lamentável em que nos encontramos, com praticamente todos os municípios brasileiros invadidos pelos traficantes e com a presença de viciados, não se enganavam as máfias nos seus cálculos originais.

Um fator veio agravar enormemente o problema do narcotráfico no Brasil: os governos populistas, tanto no plano estadual, quanto em nível federal. Foi decisiva para a acelerada penetração do narcotráfico no Rio de Janeiro a dupla eleição de Leonel Brizola para o governo do Estado, ao longo dos anos 80 e 90. A maluca tese do “socialismo moreno”, que tornava os morros santuários da marginalidade, aonde não entrava a polícia, fortaleceu os pequenos traficantes e os tornou praticamente invencíveis no confronto com as foras da ordem, bastante minadas, aliás, pela corrupção, que deu ensejo ao fortalecimento da “banda podre” ainda em atividade e com ramificações, nos dias atuais, entre as milícias. O populismo, no plano federal, tornou-se explícito nos dois governos de Lula, e nas suas alianças pseudo-estratégicas com populistas de carteirinha como Chávez, na Venezuela, e Morales, na Bolívia, ambos afinados com o samba doido do socialismo bolivariano.

Abriram-se as comportas para a presença, entre nós, de “representantes internacionais” das FARC, acobertadas generosamente por Chávez em território venezuelano e beneficiadas com a cega estratégia do Foro de São Paulo, que tinha como finalidade o combate ao imperialismo ianque, mediante o fortalecimento do comunismo latino-americano e, evidentemente, do narcoterrorismo das FARC. O narcotráfico boliviano aproveitou o ensejo e passou a despachar para o Brasil cada vez mais toneladas de cocaína, para o consumo dos nossos narco-dependentes e para o comércio internacional. Os “representantes” das FARC no Brasil ajudaram a acelerar a penetração de traficantes na Amazônia brasileira. Foi lamentável a fotografia do presidente Lula, na Bolívia, no palanque abraçado a Morales e ostentando, junto com ele, um colar de folhas de coca.

A massiva entrada de toneladas de cocaína pela fronteira com a Bolívia e a mudança do eixo de exportação da droga para a Europa, via África Ocidental, fez com que, nos últimos anos, se deslocasse a fronteira de exportação de tóxicos do Sudeste para o Nordeste do Brasil. Afinal de contas, era muito mais fácil fazer chegar a droga aos portos africanos desde o Nordeste brasileiro, distante apenas seis horas de vôo. Isso produziu o fenômeno que estamos presenciando, de violência indiscriminada nas cidades nordestinas, mal aparelhadas para o combate aos traficantes. A área destinada à produção de cocaína pelo governo boliviano praticamente dobrou: passaram a ser cultivadas vinte mil hectares, enquanto Morales, na fase inicial, tinha delimitado a produção a dez mil hectares. Tudo isso sob as bênçãos do socialismo bolivariano e da retórica esquerdizante da Unasul. E, evidentemente, com a ciosa colaboração do governo brasileiro, guiado nessa desastrosa empreitada pelo ideólogo de plantão, Marco Aurélio Garcia e o chanceler petista dos governos Lula, Celso Amorim. Sobre eles, certamente, recairá o peso do julgamento da história, como os responsáveis pelo acelerado crescimento do comércio da morte, graças ao tresloucado populismo que franqueou as nossas fronteiras aos traficantes andinos.

Como enfrentar o desastre do crack no Brasil? É necessário, em primeiro lugar, identificar os erros do passado que conduziram ao estado de desagregação presente, a fim de que não os repitamos. É imperativo, em segundo lugar, unificar esforços da sociedade civil e dos governos federal e estaduais, a fim de formular políticas públicas que façam frente à desgraça do comércio da morte, combatendo, com denodo, a produção, a comercialização e o consumo de crack. O combate ao consumo não é fácil e, certamente, não se restringe à descriminalização de algumas drogas como a maconha. Ela continua sendo, apesar das atitudes politicamente corretas, porta de entrada para o consumo da cocaína e do crack. Pareceu-me muito sensata a posição defendida recentemente pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, quando afirmava recentemente (“Crack - Hora de unir responsabilidades”, in: O Estado de S. Paulo, 25/01/2012): “A luta contra o crack e a discussão polêmica sobre método de internação, tratamento e recuperação de químico-dependentes estão diariamente na mídia. É assunto tão antigo quanto complexo e merece reflexão apurada. A realidade é que o consumo do crack começou no final dos anos 1980 e em menos de 20 anos se difundiu por todo o País. É hoje grave problema de saúde pública e sério desafio para o aparato policial que tenta, na raiz do problema, conter o tráfico e a entrada da cocaína - origem do crack - no Brasil. Trata-se de encarar uma epidemia que hoje assola cidades médias, pequenas e até a zona rural, atingindo todas as classes sociais. Assim, a atuação do Ministério da Saúde é bem-vinda. Usaremos todos os recursos oferecidos, como sempre usamos, pois esse problema só pode ser enfrentado somando esforços e verbas dos três níveis de governo. Não é hora de apontar culpados nem de alimentar pendengas eleitoreiras. É hora, sim, de também prover de mais recursos as forças que combatem os traficantes. Mais investimento e maior concatenação de ações certamente trarão resultados ainda melhores. É hora de os protagonistas da área jurídica se debruçarem sobre os limites legais que ainda impedem internações urgentes e necessárias”.