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sexta-feira, 26 de junho de 2015

UM ESTOICO "COLECIONADOR DE ANGÚSTIAS": FIDELINO DE FIGUEIREDO

O escritor e crítico literário português Fidelino de Figueiredo (1888-1967).

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A chamada geração de 98 não foi um fenômeno cultural restrito à Espanha. Houve, também, portugueses que participaram de movimento de idéias semelhante. Um deles foi, sem dúvida, Sampaio Bruno (1857-1915), espírito liberal e anti-positivista convicto. O mais importante representante português da geração de 98 seria, no entanto, Fidelino de Figueiredo (1888-1967). Um representante tardio, influenciado especialmente por Miguel de Unamuno (1864-1936).
Os traços marcantes dessa geração em Portugal lembram como, aliás, aconteceu também com a  sua correspondente espanhola, o movimento de idéias de 70. Em Portugal, esse movimento centrou-se nas famosas Conferências do Cassino, nas quais Antero de Quental (1842-1891) pôs a nu a negativa herança do absolutismo luso, portador, como diria mais tarde o próprio Fidelino de Figueiredo, de tacanha alfândega cultural, que fechou o país à ciência moderna e à democracia.
A geração de 98 espanhola filiou-se, também, a essa herança liberal de crítica às arcaicas instituições, que Azorín qualificou genericamente como lo viejo. O que é isso? Escutemos o próprio Azorín, no seu famoso artigo de 10 de fevereiro de 1913, publicado no jornal ABC: "Lo viejo (...) es lo que no ha tenido nunca consistencia de realidad, o lo que habiéndola tenido un momento, ha dejado de tenerla para ajarse y carcomerse. Lo viejo son también las prácticas viciosas de nuestra política, las corruptelas administrativas, la incompetencia, el chanchullo, el nepotismo, el caciquismo, la verborrea, el mañana, la trapacería parlamentaria, el atraco en forma de discurso grandilocuente, las conveniencias políticas que hacen desviarse de su marcha a los espíritus bien inclinados, las elecciones falseadas, los consejos y cargos de grandes Compañías puestos en manos de personajes influyentes, los engranajes burocráticos inútiles, todo el denso e irrompible ambiente, en fin, contra el cual ha protestado la generación de 1898, pero cuya protesta ha sido preparada, elaborada, hecha inevitable por la crítica de la generación anterior".
Miguel de Unamuno destacou-se como o abandeirado da liberdade da geração de 98. O exílio em Madri, a que foi submetido Fidelino de Figueiredo por causa do seu espírito liberal, permitiu-lhe conhecer a obra do pensador espanhol, com quem desenvolveu ampla correspondência, tendo recebido dele, sem dúvida, a inspiração para a sua concepção agônica da existência, bem como a feição de sentidor que caracteriza a sua autobiografia interna. Da sua estada em Madri e da influência ali recebida de Unamuno, Fidelino de Figueiredo trouxe, como destacou com propriedade António Quadros, no verbete que lhe dedicou na Enciclopédia Lógos, "(...) além de diversos trabalhos sobre a cultura do país vizinho, o livro As duas Espanhas (1931), onde concluía haver na essência da civilização hispânica um princípio de luta, constituído pela oposição permanente entre a variedade centrífuga e a unificação centrípeta, entre a heterodoxia e o filipismo. Profeta (pois a guerra civil só estalaria alguns anos mais tarde), Fidelino de Figueiredo analisa as duas Espanhas inconciliáveis, mas indispensáveis uma à outra, como as duas metades duma concha bivalve, apontando que do seu encontro e permanente estado de guerra é que chispa a criação espanhola, nacionalmente espanhola, e acentuando, aliás, que Portugal, pelo mar arredado para sempre da massa continental ibérica, país atlântico (...) não forma parte de nenhuma das duas Espanhas".
O objetivo deste trabalho é simples: traçar, à maneira unamuniana, a biografia interior de Fidelino de Figueiredo. Para cumprir com essa meta, quatro pontos serão desenvolvidos: 1) alguns dados da sua vida intelectual; 2) aspectos da infância e da primeira formação na escola; 3) sensibilidade estética e 4) a sua valorização da amizade.
1) Alguns dados da vida intelectual de Fidelino Figueiredo
Fidelino de Souza Figueiredo nasceu em Lisboa em 1888 e morreu na mesma cidade em 1967. Desde muito cedo travou relação com as mais importantes figuras do mundo literário português e estrangeiro, como testemunha a sua copiosa correspondência. A sua vinculação intelectual ao Brasil é temprana. Já em 1913, como se deduz de sua correspondência com Max Fleuiss, Secretário Perpétuo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro[1], ingressava nessa instituição. A candidatura do escritor foi proposta nesse ano a 22 de abril, sendo relator Augusto Olympio Viveiros de Castro. O Comissário Especial em Lisboa do Instituto, Victor Ribeiro, foi quem redigiu a proposta favorável a Fidelino Figueiredo e obteve o apoio do Secretário Perpétuo, Max Fleuiss, de Sebastião de Vasconcellos Galvão e de Pedro Bueno Souto Maior. As vagas de sócios correspondentes foram preenchidas, além de Fidelino, pelos escritores David de Mello López, Pedro de Azeredo e John Casper Branner. Fidelino Figueiredo tinha anteriormente solicitado o seu ingresso no Instituto, em maio de 1912, em carta dirigida a Max Fleuiss, que acompanhou de dois escritos seus: O espírito histórico e A crítica literária em Portugal.[2]
Um período importante na evolução intelectual de Fidelino de Figueiredo é marcado pela sua permanência na Espanha, entre 1927 e 1929, a partir do seu desterro de Portugal, motivado pelo sectarismo político então reinante. Julio García Morejón salienta assim as origens do profundo hispanismo que desde cedo empolgou a Fidelino: "El hispanismo de Fidelino de Figueiredo oculta hondas raíces. Discípulo de los historiadores y críticos que arrancan de la renovación ejercida por Menéndez y Pelayo, fué el primer heraldo en Portugal de los avances para la Junta de Ampliación de Estudios, cuyo funcionamiento fué a estudiar a Madrid en 1913, y de la que dijo que significaba uma nova era na história da Espanha culta, porque iniciou a renovação intelectual deste país. No sabemos si antes de 1913 se le ofreció ocasión de establecer contactos estrechos con esta cultura, lo que nos obliga a situar al rededor de dos fechas su quehacer y su entusiasmo hispánico. Una, la citada en 1913, momento en que recoge las ideas que lanzan al terreno de la cultura hombres extraordinarios, como don Ramón Menéndez Pidal, Ramón y Cajal y Rafael Altamira, entre otros; y otra, la de 1927, fecha en que, merced a avatares políticos, se refugia en Madrid, hasta el mes de julio de 1929, en que termina su exilio".[3]
Em Madri foi professor de literatura portuguesa e espanhola na Universidade Central.[4] Julio García Morejón refere assim a entrada de Fidelino de Figueiredo na Espanha e a sua motivação: "En 1927 (...) entra Fidelino de Figueiredo en España, tras una dolorosa romería por las colonias de Portugal localizadas en el Africa occidental. Llega a Bordeaux y el profesor Cirot le invita a ir a París. El ensayista portugués le responde lo que, en situación semejante, acaba de responder don Miguel de Unamuno a la llamada de amigos franceses, y se instala en Madrid, desde donde le será más fácil sentir el pulso de su Patria, el sonido de la otra campana ibérica. Sus primeras agonías las colecciona en uno de sus mejores libros, que tiene mucho de nivola unamuniana y que nos lleva hasta el contradictorio escritor vasco desde el título: Um colecionador de angústias".[5]
O fato de ter saído desterrado da sua pátria, por motivos de sectarismo político, condicionará fortemente a feição antipartidista da sua obra intelectual. Fidelino insistirá, até o final da sua vida, na necessidade de o intelectual superar os estreitos limites dos condicionamentos partidários. E criticará severamente a obra dos intelectuais engajados no sectarismo político, como Teófilo Braga, por exemplo.
Na primavera de 1931 Fidelino de Figueiredo faz a sua primeira viagem aos Estados Unidos. Na Stanford University pronunciou uma memorável conferência sobre a interpretação da história espanhola. De volta a Portugal, desenvolveu essa análise em livro que foi a base das três preleções que proferiu no Instituto de Altos Estudos, da Academia das Ciências (à qual pertenceu durante trinta anos), em janeiro de 1932. A sua obra As duas Espanhas[6] constitui uma das mais profundas análises da história cultural da Espanha.
Em 1936, Fidelino faz a sua segunda viagem aos Estados Unidos. Numa série de conferências que pronunciou na Columbia University de Nova Iorque, o autor "ampliou a sua visão do caráter espanhol num estudo comparativo das literaturas espanhola e portuguesa" [7], que constituiu a sua obra Pyrenne .[8]
Em 1942, Fidelino de Figueiredo ingressa na Academia Brasileira de Letras. Manuel Bandeira, grande amigo do escritor português, relata a forma em que aconteceu o ingresso de Fidelino na Academia, em carta dirigida a ele. Eis o relato do poeta, carregado de humor brasileiro: "Minha querida vítima: Desde o caso da eleição do Leitão me sinto envergonhado diante do meu excelente mestre Fidelino. Também jurei que nunca mais exporia um amigo ao aborrecimento de se ver preterido por um leitão no conceito de uma trompa de cavalos. Foi por isso que não ousei apresentar o seu nome na eleição passada, na qual não teve competidor o Egas Monis, proposto pelo Aloísio de Castro. Desta vez o principal responsável pela sua candidatura foi o Alceu (Amoroso Lima). Fidelino teve por competidor, apresentado pelo Roquette Pinto, o Mendes Correia. Não se pediu voto a ninguém e, francamente, eu não esperava que o seu nome fosse o escolhido. Na discussão do parecer da comissão informadora o padre Serafim, com aquele ar pouquíssimo jesuíta de ex-seringueiro da Amazônia, provocou uma verdadeira tempestade pronunciando umas quatro palavras em que dizia não poder compreender que se estabelecesse comparação entre o grande Fidelino e o Mendes Correia (...). O Roquette Pinto aparteou, o Gustavo Barroso começou a desacatar o padre, eu aparteava, o Clementino chamou o Barroso de intolerante, o outro quis brigar, eu aparteava, o Barroso respondeu muito academicamente vá lamber sabão, que beleza! E na sessão seguinte, já encerrada a discussão, apareceu o Ribeiro Couto, com cara de quem não quer nada, lendo no expediente trechos de um artigo racista do Mendes Correia... Quando dei por mim, estava eleito o meu querido amigo e mestre Fidelino...”. [9]
Fidelino de Figueiredo entregou treze anos da sua maturidade intelectual ao Brasil, entre 1938 e 1951. Esse fato reveste capital importância, pois foi profunda a marca que deixou aqui, particularmente na USP, onde dirigiu a cadeira de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Teve discípulos eminentes como o professor Antônio Soares Amora, que casou com a filha de Fidelino, dona Helena, e sucedeu o mestre na direção da cadeira de Literatura Portuguesa. Vale a pena mencionar o extraordinário projeto que o sucessor cultural de Fidelino de Figueiredo no Brasil adiantou, quando esteve à frente da Fundação Padre Anchieta em São Paulo, no terreno do ensino secundário à distância. Refiro-me ao Telecurso Segundo Grau, que foi desenvolvido em colaboração com a Fundação Roberto Marinho. Essa realização insere-se, sem dúvida, dentro do espírito do mestre português que,  reconhecendo a crise do ensino institucional, mostrou-se muito simpático diante das idéias renovadoras no terreno educacional. Foi notável, por exemplo, o seu entusiasmo diante de uma iniciativa renovadora como a Institución Libre de Enseñanza, inspirada na Espanha por Francisco Giner de los Ríos [10]. Outros discípulos de renome de Fidelino de Figueiredo no Brasil são os professores Segismundo Spina e Massaud Moisés. Este último desenvolveu meritório trabalho de difusão das letras portuguesas, como titular da cadeira de Literatura Portuguesa e como diretor do Centro de Estudos Portugueses da USP. [11]
Fato importante das relações intelectuais e humanas de Fidelino com o Brasil, foi a doação da sua correspondência passiva ao Centro de Estudos Portugueses da USP. Nos seus últimos anos em Lisboa, Fidelino teve a idéia de queimar a sua correspondência passiva. Segundo testemunho do professor Soares Amora [12], a tentativa foi simplesmente fruto do cansaço e da própria doença que o afetava. "Ele queria simplificar as coisas, devido à mudança de residência", frisa o professor Amora. A filha do escritor, dona Helena, e o professor Amora contribuíram para salvar da destruição esse valioso acervo, cuja sistematização foi feita por Herti Hoeppner Ferreira, com a colaboração deles.
Em relação aos motivos que levaram Fidelino a pensar em destruir a correspondência passiva, Herti Hoeppner dá o seguinte testemunho: "Esta correspondência (...)  tem uma história que é necessário resumidamente relatar: um dia, na sua quinta, em Covas de Ferro (Portugal), Fidelino de Figueiredo resolveu fazer uma seleção destes velhos escritos. Releu-os, e nesta altura  -- diz ele --  a emoção do contraste entre o que de mim presumiam os amigos e o pouquíssimo que fui, perturbou-me tanto, que numa fúria destruí grandes maços de cartas. Agravou a situação o despertar de recordações amargas. Então salvou o restante minha filha Helena, levando-o para São Paulo. Eu havia guardado aquilo, não por vaidade, mas por gratidão e respeito pelos signatários".[13]
Segundo a organizadora da correspondência passiva de Fidelino de Figueiredo, várias razões o levaram a doá-la ao Brasil: "(...) aqui vivem os descendentes da família, os continuadores de seu trabalho; aqui se prolonga a história e a língua da terra de nascimento; aqui se encerrou sua longa e notável carreira universitária, depois de treze anos na direção da cadeira de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (...)". [14]
A correspondência passiva de Fidelino de Figueiredo consta de 11.500 espécies [15] e o catálogo completo foi publicado na obra de Julio García Morejón, Dos coleccionadores de angustias [16]. As cartas começam em 1907 e vêm até 1964, segundo Herti Hoeppner Ferreira. [17]  Olhando um pouco ao acaso o acervo epistolar, achamos cartas de Amado Alonso, Dámaso Alonso, Rafael Altamira, Fernando de Azevedo, Manuel Bandeira, Gustavo Barroso, Roger Bastide, Clóvis Bevilacqua, Adolfo Bonilla y San Martín, Pedro Calmon, Francisco Campos, Joaquim de Carvalho, Joaquim Montezuma de Carvalho, Ronald de Carvalho, Luís da Câmara Cascudo, Américo Castro, Hernani Cidade, Alexandre Correia, João Cruz Costa, Afrânio Coutinho, Benedetto Croce, John Dewey, Guillermo Díaz-Plaja, Georges Duhamel, Jackson de Figueiredo, Leonel Franca, Gilberto Freyre, José Ingenieros, Dom Manuel II de Orléans e Bragança, Oliveira Martins, Ramón Menéndez Pidal, Gabriela Mistral, José María Ots Capdequí, Armando Correia Pacheco, Francisco Miró Quesada, Francisco Romero, João de Scantimburgo Filho, Miguel de Unamuno, Pedro Henríquez Ureña,, Washington Luís, Alceu Amoroso Lima, Manuel de Oliveira Lima, etc.
Como se pode observar a partir dessa simples enumeração de nomes, bem como do conteúdo das cartas, duas características deduzem-se da correspondência passiva de Fidelino de Figueiredo: o seu universalismo intelectual, que o levou a manter diálogo constante com espíritos das mais diferentes tendências e o seu profundo humanismo, sempre presente na sua preocupação pelos problemas que afetam o sentido da vida humana.
Organizar uma correspondência tão ampla e tão variada não foi trabalho fácil, conforme confessa Herti Hoeppner Ferreira: "Para inventariar as espécies foi preciso, naturalmente, decifrar assinaturas, em sua maioria desconhecidas para mim; mas nessa árdua e às vezes impossível tarefa colaborou, com dedicação e amor, Helena de Figueiredo e Amora. Muitos escritores ela conheceu na intimidade do pai em Lisboa; de outros ficaram-lhe na memória os nomes ouvidos em comentários de família. Assim, neste meu trabalho, sua cooperação foi inestimável. A ela meus agradecimentos".[18]
A biblioteca de Fidelino, embora ele quisesse doá-la à USP, terminou sendo doada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que em outubro de 1979 formalizou o recebimento, a fim de abrir a sala Fidelino de Figueiredo, junto à sala Leite de Vasconcellos (em memória do grande filólogo português, mestre de Fidelino). Por motivos burocráticos tornou-se impossível a almejada doação da biblioteca de Fidelino à USP. A família conservou zelosamente essa biblioteca, integrada por 25 mil livros, entre os quais figuram todos os escritos publicados pelo autor. [19]
Salientemos, para terminar esta primeira parte, duas apreciações sobre a obra e os últimos anos de Fidelino de Figueiredo. Segundo o professor Soares Amora, a obra do pensador português pode-se dividir em duas grandes partes: de cunho literário ou de crítica literária, e de cunho filosófico no sentido amplo, quer dizer, no sentido de uma reflexão em maior profundidade sobre a problemática humana, sem maiores pretensões de sistematização.
Para Soares Amora, Fidelino de Figueiredo foi um pensador oitocentista. Tanto a sua concepção um pouco conservadora do liberalismo político, quanto a sua percepção da realidade social e a preocupação por reivindicar uma dimensão espiritualista do agir político, são manifestações desse espírito, que coloca a obra figueirediana numa dimensão muito próxima daquela de Alexandre Herculano. Outro elemento de semelhança com Herculano é a visão crítica que Fidelino tem em relação ao homem na sociedade, baseada numa crítica à preterição dos valores espirituais. [20]
Antônio Soares Amora salientou a importância que teve a figura de Antero de Quental na obra de Fidelino de Figueiredo. A raiz da reflexão figueirediana sobre a morte, que a partir da década de 40 irá se aprofundando progressivamente na sua obra, é decorrente desse influxo de Antero, cuja obra foi, aliás, profundamente conhecida pelo nosso autor. Dois fatos iriam se somar, posteriormente, na década de 50, a essa preocupação de origem anteriana pela morte: a doença incurável que o atacou (paralisia progressiva, que lhe impedia inicialmente caminhar e que, nos últimos anos, dificultou-lhe até a fala) e a morte de uma das suas filhas em São Paulo. Provavelmente, segundo Soares Amora, esses fatos, bem como o influxo de Antero, foram responsáveis por essa vertente de pensamento de Fidelino de Figueiredo. [21]
Mesmo na doença, Fidelino continuou a se comunicar com os seus amigos e recebendo deles o apoio moral que tanto valorizava o ilustre mestre. Uma prova disso, entre muitas, é a carta que em 18/12/52 dirige ao amigo o poeta Manuel Bandeira, de Rio de Janeiro: "Querido amigo e mestre Fidelino: A sua última carta, de 19 de setembro, dizia-me a intenção de voltar em outubro ao Hospital de Santo Antônio, do Porto, para continuar o tratamento de que lhe adviera alguma melhora. Espero que assim tenha sido e que o meu bom amigo esteja hoje devolvido ao seu old self. É o melhor voto de natal que lhe posso fazer (...)".
2) Aspectos da infância e da primeira formação na escola
A biografia interior de Fidelino de Figueiredo é, para o meu propósito, mais importante do que a simples enumeração dos fatos que aconteceram na sua vida. O próprio Fidelino nos relata dessa forma, no estilo das nivolas unamunianas, a sua infância e primeira formação. Faz ênfase não em fatos, mas em sentimentos. Analisemos, junto com o nosso autor, alguns aspectos dessa autobiografia interior.
Fidelino se define, fundamentalmente, como colecionador de angústias. E a imagem que mais gosta de traçar da sua infância é a do pequeno colecionador das angústias que lhe depara a vida cheia de mistérios: "(...) Recortando soldadinhos de papel ou formando-os em parada sobre a mesa, e trauteando por entre dentes marchas militares, o pequeno estava na realidade a reunir a sua coleção de angústias, não a compor batalhões de soldados para simular uma guerra dos espanhóis com os norte-americanos ou dos boers com os ingleses. Outra guerra o interessava mais: a guerra com os mistérios da vida. E à noite, na sua caminha, às escuras, recapitulava as aquisições do dia, ao mesmo tempo que se entretinha a interpretar as formas fantásticas desenhadas pela luz que vinha da rua, através da janelinha da casa de fora". [22]
É a rua o cenário principal desse encontro angustiante entre o pequeno colecionador e o mundo. Eis a forma, verdadeiramente poética, em que o autor descreve os seus sentimentos de menino frente ao mundo: "(...) Aquela rua foi o seu primeiro universo e a sua grande escola para aquelas noções que jamais se apagam da alma, antes se vincam sempre e crescem com ela, como se ampliam indelevelmente as inscrições na casca das árvores. Com os materiais ministrados pela rua é que elaborou a sua primeira enciclopédia e a sua primeira imagem da vida. Todos os nossos conhecimentos tendem, em qualquer altura, a formar um todo cíclico e a conduzir o nosso comportamento. Sentado sobre os degraus da porta do casebre, sapatos de couro amarelo, bibe de riscadinho azul, o pequeno via correr o intenso drama da rua, tecido de mistérios, enigmas e irracionalidades, e tudo interpretava em angústia -- a angústia de não entender, não saber corrigir, não poder queixar-se ao menos. Pairava num estado de vago descontentamento e apertava-se-lhe o coração, como se aperta ao marujo que da praia adivinha tempestades no oceano que tem de singrar num frágil barquinho" 23 .
Porém, como reconhece o próprio autor, embora desejasse submergir-se no vasto oceano do mundo, não lhe era permitido em virtude de um esquema de formação solícito demais, mas sem instinto educativo: "Aquela posição de espectador era a sua posição predileta, frisa Fidelino, não querendo confinar-se na janelinha de guilhotina, que lhe doloria os bracinhos, e não lhe sendo permitida a liberdade de acamaradar com o rapazio da rua. Vivia em casa de uma ama seca, afetuosa, solícita, mas sem instinto educativo. Tudo fazia e dizia em frente da criança, mas guardava-a com escrúpulo. Ele não pertencia à casta inferior que povoava a rua. Estava ali meio escondido. Era talvez um principezinho encantado, que uma rainha loura tivesse deixado na clareira de um bosque, à espera de uma ninfa providencial. Não ia à rua. Os páteos fundos, o prédio avaro das freiras e o muro afortalezado de em frente eram cheios de perigos" 24.
Quem era essa "ama seca, afetuosa, solícita, mas sem instinto educativo"? Realmente não foi possível esclarecer na minha pesquisa essa pergunta, nem tinha muito interesse a questão. O mais importante, do ponto de vista desta biografia interna, é constatar os sentimentos do autor, bem como os efeitos que daí decorreram para a sua posterior concepção do mundo. A ama seca contribuiu, com os seus exagerados cuidados e a atmosfera de nebulosidades pardacentas que a rodeava, a fazer nascer na alma do nosso autor a vontade ilimitada de liberdade e a ardente apetência das planuras luminosas. Reação que Fidelino atribui ao seu caráter voluntarioso e reto. Eis as suas palavras: "A ama seca, guardiã fiel de todas as suas palavras, não terá gostado, porque também se dizia tão amiga do seu pequeno hóspede, como se fora mãe. Ele lembrava-se de tudo isso, dessa fartura de afetos e de cobiça. E tudo isso era uma angústia nova. Quando recebia a visita de três senhoras iguais no rosto, no porte e no falar, todas de luto e ar consternado por dor ainda recente, o pequeno sentia a amargura inconfessável de ter tantas mães, três ou quatro em vez de uma só  -- uma só e toda para ele, para cobrir de beijos e lhe abrir o coração com todas as suas ansiedades misteriosas, o cofre das suas angústias: -- Mãe, não percebo, não sei, tenho medo! --  O grito do nadador incipiente, no meio das águas revoltas, já longe da terra firme. Dessa atmosfera de nebulosidades pardacentas, que lhe desfiguravam e ocultavam as coisas simples em refegos meio misteriosos, é que lhe veio mais tarde, pela reação do seu caráter voluntarioso e reto, a ardente apetência das planuras luminosas, expostas a todos os ventos e submissas a todas as correrias da liberdade com os seus inebriamentos" 25 .
Esse vasto curiosear deambulatório achou inspiração, na sua mocidade, na figura de Carlos Fradique Mendes (1834-1888), a quem Fidelino chama de bom tio Fradique e de quem aprendeu a ser cidadão do mundo. Não podendo ainda ser observador da vida na terra toda, como Fradique, o moço Fidelino contentar-se-ia com um espiolhar arqueológico da sua Lisboa: "Passaram os anos -- diz Fidelino --. E o momento chegou em que a gente moça procura um modelo para ordenar o seu caráter, os seus gostos e as suas idéias, como procura um espelho para se pentear e fazer a gravata. O figurino direto da minha geração, enquanto na sua fase indiferenciada de homogeneidade juvenil, foi esse bom tio Fradique. Mas a sua elegância fidalga e a curiosidade ociosa com que pairava acima dos negrumes da vida, só para lhe sugar o doce mel das idéias, não eram acessíveis a uns pobres estudantes condenados à corveia do concurso e do emprego público, e ao despotismo do diretor geral (...). O vasto curiosear deambulatório, que em Fradique teve por perímetro a Terra toda, em nós limitou-se naqueles dias a um espiolhar arqueológico de alfamas e mourarias, com tortuosas vielas e pitorescas fadistices. Quando há poucos anos uma grande empresa de caminhos de ferro me pediu para a sua propaganda de turismo uma descrição de Lisboa, a coisa saiu-me de uma penada  -- tão pacientemente metódicas haviam sido minhas viagens por bairros mouriscos e velharias típicas! Assim substituíamos nós o babismo, a Índia, o Egito, a China pelo mofo dos museus lisboetas..." 26. O vasto curiosear deambulatório levaria o moço Fidelino, anos mais tarde, a procurar as planuras luminosas do Brasil e a levar a sua mensagem humanística também aos Estados Unidos.
Esse universalismo figueirediano corre paralelo com uma rejeição sincera do espírito de partido, que é contrário à criação cultural. Tal espírito foi conhecido por Fidelino já na sua mocidade, e foram os mestres que lhe ensinaram, com a sua intolerância, a negatividade do sectarismo partidista, vício ao qual jamais aderiu o nosso autor. "Havia lá -- testemunha ele --, mestres insignes pelo renome em suas especialidades científicas e pelo relevo na ação social, e havia-os também anônimos em ambas as direções, pequenos burocratas do ensino. Desses não reza a história. Foram os grandes que me ensinaram muita coisa útil, até pelo contraste ou pela inversão dos seus exemplos. Dos grandes tudo é útil, até o mal, pelas suas proporções ou pelo pensamento interior que o anima ou ainda pelas reações que suscita. E esse foi o fruto que extraí do seu mal. Eram hipercríticos na apreciação dos valores nacionais, tanto os da história passada como os da contemporânea; semeavam no coração dos discípulos um pessimismo negativista que nos levava ao desalento abúlico: - Somos uns inferiores, nada saberemos ou poderemos fazer. Não vale a pena tentar qualquer empreendimento -. Era a conclusão que deduzíamos das suas preleções, quando deixávamos as salas de aula sobrepondo o chapéu ao capacete doloroso que nos apertava as frontes. Vindo a ser professor, jamais desanimei o espírito de iniciativa e a confiança dos estudantes em si e na pátria, sem também recair no narcisismo patrioteiro que depois grassou. Eram inimigos uns dos outros, desprestigiavam-se reciprocamente nas aulas. Havia ódios famosos nos anais escolares, como os de Teófilo, Adolfo Coelho, Epifânio, Pinheiro Chagas. Pois sempre me lembrei desse espetáculo triste, dessa abusiva interpretação da liberdade de cátedra, e jamais pronunciei uma palavra aos meus discípulos contra outros mestres. Até a discordância doutrinária a dissimulei algumas vezes. O trabalho da cultura é trabalho de cooperação leal, em que dá cada um o que pode e recebe tudo que se conquista em definitivo. Não se deve apoucar o óbolo de cada colaborador, nem presumir sobre os sentimentos íntimos com que o dá 27.
Não sem intensa luta o nosso autor conseguiu superar, porém, o espírito de partido que reinava na escola. Foi todo um esforço para desaprender as lições de sectarismo que recebera. E já na maturidade Fidelino se perguntava si tinha conseguido superar a pregação sem tréguas da escola: "De modo que era preciso inverter tudo que o ambiente da escola nos ostentava: relações entre os professores, relações destes com os alunos, relações entre os próprios alunos, e até as relações com a pátria, com tudo que ela significava como tesouro comum e mundo de promessas e expectativas. Um individualismo anarquista e céptico de tudo, prematuramente céptico da pátria que mal conhecíamos, porque não havíamos vivido, e da profissão, da ciência e da vida, -- era tudo que se aprendia ali, que aprendiam e iriam depois ensinar os jovens professores, lado a lado com as noções mortas dos programas das disciplinas escolares. E foi, justamente, o que depois tratei de desaprender. Mas quantas angústias não custou essa luta e esse labor ingente de fazer que más sementes não produzissem frutos envenenados! E terei sempre triunfado nessa peleja? Suspeito que na minha posição perante a obra de Teófilo, sem injustiça, mas também sem brandura, sobreviveu alguma coisa da pregação sem tréguas de Adolfo Coelho. Quando aquele morreu, pronunciei na Academia um discurso à margem das lições da sua vida. E havia ainda, em tudo que disse, esforços de defesa contra a negregada influência da escola e da sua atmosfera de malquerenças" 28 .
Em que pese, porém, os aspectos negativos da formação recebida por Fidelino na escola, ele lembra esses anos com coração agradecido, sem guardar qualquer ressentimento e procurando traduzir a sua reação em diligência para compreender a juventude. O seu espírito crítico seria o meio através do qual o nosso autor conseguiu pairar acima de quaisquer sentimentos negativos. "E assim -- escreve Fidelino --, durante muitos anos, foram rebolando no meu coração agradecido os ecos das lições daqueles mestres, uma vez acatadas com a polidez do historiador da escola, o senhor Busquets de Aguiar, outras vezes invertidas em reação salutar, mas assim mesmo procedente deles, e outras ainda vivificadas em justificação mais compreensiva ou de mais largo alcance, porque o destino me ofereceu termos de comparação. À lição da escola e à contradição da consciência veio sobrepor-se uma super-lição de espírito crítico -- último eco daquelas ladainhas aziumadas do meio claustro baixo, de arcos fechados com vidraças pregadas, que mal deixavam ver as nespereiras farruscas da jardineta e bem guardavam os fedores do urinol ferrugento, esquecido no seu recanto. Nunca houve escola que mais se apartasse da juventude que este sonolento instituto. Todavia dali me veio o impulso inicial para a incessante diligência de compreender a juventude --  o divino tesouro" 29.
Quanto à sua educação religiosa, Fidelino de Figueiredo impressionou-se, desde muito cedo, com a fria distância institucional da religião praticada nos conventos. O pequeno colecionador de angústias tinha dificuldade em entender por que essas instituições permaneciam fechadas face às necessidades dos humildes. Eis a forma em que o autor caracteriza os seus sentimentos de menino, perante o convento que ficava perto da sua casa: "Que era uma casa religiosa, toda a gente o sabia, mas por que tinha de ser a religião ali praticada coisa tão orgulhosamente distante dos humildes que rodeavam a casa muda -- é que ninguém compreendia, a principiar pelo pequeno colecionador de angústias. Jamais a apressada mão ebúrnea, que mal saía da manga farfalhuda para entreabrir a porta, se estendeu com uma côdea de pão ou uma xícara de leite ou um afago ou uma carícia para alguma miséria mais confiada ou mais tocante, que puxasse o ensebado cordão da campainha. Era um prédio voraz. Todos entravam, tudo entrava e ninguém e nada de lá saía. Era um constante entesouramento de haveres e pessoas. Havia lendas sobre os caixotes e os pacotes que se sumiam ali dentro (...)" 30.
Do pai, militarão generoso e jovial, o nosso autor receberia uma lição: a religião como culto e o culto como serviço. No seu livro Diálogo ao espelho31 , Fidelino traz a seguinte descrição a respeito dessa influência paterna: "Meu pai, militarão generoso e jovial, da religião só via o culto; e o culto era matéria de serviço. Muitas vezes o vi entrar na igreja da freguesia, à frente do seu regimento, para a missa. Encantava-me essa missa, pelo seu aparato marcial: no altar-mor uma guarda de honra, de baioneta armada, e no momento da elevação os toques de corneta, a alertar as almas, como numa antecipação do  chamamento para o juízo final. Eu ia esperar a tropa no adro e rever-me no pai rebrilhante, com o colar da sua Torre Espada. E ele dava-me um sorriso, mais dos olhos que das faces, e fazia-me um aceno com a espada".
Se a influência paterna na formação religiosa tinha-lhe oferecido um exemplo de formalismo cultural, mais profundo seria o influxo recebido por Fidelino da religiosidade materna, voltada para o culto da Rainha Santa. A formação religiosa recebida da mãe ampliou o primeiro contato do nosso autor com o catecismo tridentino e, o que é mais importante, alicerçou o sentimento de dignidade em fundamentos religiosos. Eis as suas palavras a respeito: "Falei do meu primeiro contato com o catecismo tridentino ou de Carlos Borromeu, porque ele formou também a comunicação principal entre mim e o teologismo do ambiente. Minha mãe ampliou-o um pouco ao fazer-me praticar o culto, atrativamente poético pela sua auréola de lendas, da Rainha Santa. A bondosa tolerância do seu coração e a sua ternura só pensavam noutro culto mais alto e mais próximo de Deus: o culto da inteligência. A Rainha Santa protegia a inteligência dos seus afilhados. E minha mãe, na modéstia do seu viver caseiro, só tinha uma aspiração: que seu filho chegasse aonde ela, com toda a sua dedicação e energia moça, não conseguira que chegasse nenhum dos seus irmãos. Neste sonho, além da espontânea elevação do seu espírito, devia haver influência do brilho da posição política e social do seu padrinho de batismo, o Conselheiro Mendes Leal, um autodidata e lutador, que só pelo ascendente da inteligência chegara a dramaturgo aplaudido, acadêmico, embaixador e ministro de Estado, e partindo de mais baixo. Meu avô era oficial reformado; e o seu compadre eminente era filho de um músico proletário" 32.
O exemplo de dignidade alheia a qualquer compromisso com o sectarismo político ou com a riqueza, foi um belo exemplo que Fidelino aprendeu do Conselheiro Mendes Leal, através da cálida lição materna. Eis o testemunho do nosso autor: "Nunca minha mãe me louvou a riqueza ou exortou a lutar pela sua conquista e pelos gozos e privilégios, que ela confere. Mas muitas vezes, comigo sentado nos seus joelhos, me contou histórias da vida e dos triunfos de Mendes Leal, salientando sempre a humildade da sua origem e a fidelidade modesta que ele guardava a essa origem. Essas histórias, que tanto e tanto me emocionavam, exerceriam sua influência no meu destino" 33 Pode-se afirmar, sem exagero, que a vida de Fidelino de Figueiredo resume-se num exemplo de dignidade. Tão profundo foi o influxo materno na formação do seu espírito.
Em que pese as limitações econômicas enfrentadas pelo nosso autor na sua infância, e apesar da superproteção recebida da ama nos seus primeiros anos, Fidelino reconhece que não experimentou coações espirituais. Essa era, aliás, segundo ele, uma das boas caraterísticas da sociedade portuguesa da época, alheia ao nefasto influxo da propaganda. A liberdade de pensar, sentir e julgar, que tiveram o nosso biografado e a sua geração, era mais importante do que o conforto programado da sociedade atual. Estas são as suas palavras a respeito: "Deste modo não foi em som de guerra ou de rebeldia, como quem ovante ou amargurado se solta das grades, foi com plena facilidade e simpleza que se me definiu o sentimento da finitude total da vida, encanto, beleza e segurança da existência humana. Sofri limitações da pobreza, mas nunca me oprimiram coações espirituais. Naquele tempo ainda se não inventara essa maldita propaganda, com sua técnica de corrupção psicológica da juventude e das massas ingênuas. Não tínhamos automóveis nem eletricidade, mas usufruíamos completa liberdade de pensar, sentir e julgar. A própria infância parecia impermeável a quaisquer influências de domínio. Bastava observar as crianças à saída das escolas e da catequese das sacristias: pareciam touros libertos do curro, a correr numa embriaguez de ar livre e de movimentação. Não tínhamos nem eletricidade, mas tínhamos homens livres. E a presença de meia dúzia de homens livres, que sabem fazer uso superior dessa liberdade na criação de pensamento, beleza e saber, assinala mais dignamente uma época e um povo do que a difusão do bem-estar médio com suas necessidades supérfluas" 34.
É por isso que Fidelino se auto define unamunianamente como livre sentidor:  "Assim, sem dominadoras influências do meio social ou da escola, nem coações domésticas, pude sentir livremente, ler livremente, e contentar livremente os meus instintos intelectuais. Fui bem um livre sentidor  -- atitude que Unamuno apõe com neologismo seu a livre-pensador. Pelo contrário, algumas sugestões dos ambientes que frequentava me apoiaram na espontânea tendência"35.
Essa liberdade de que Fidelino gozou para experimentar a vida na sua infância e juventude, gozou-a para ter o seu primeiro encontro com a Morte: "(...) Quando o avô morreu -- escreve o nosso autor -- houve sentimento profundo, mas sem manifestações lúgubres ou mórbidas. Aos noventa e dois anos a morte não é uma surpresa, é um sucesso legitimamente lógico. E na roda mais modesta de uma velha ama, que eu frequentava, não escondiam os mortos em cenários macabros e inacessíveis a crianças e mantinham a tradição pagã das visitas ao cemitério, para ajardinar os covais, sem lágrimas, nem suspiros pela vida eterna, antes com o escorripichar de vinho e molhar nele bolachas ou pão de ló" 36. A partir dessa caraterística da sua formação, que o familiarizou desde cedo com a morte, podemos entender a serenidade que configura o estoicismo figueirediano e que se refletiu na sua concepção filosófica da finitude humana.
Anotemos, para terminar este item, outra experiência do nosso colecionador de angústias: a sua primeira percepção da violência humana, que posteriormente desenvolveria nas reflexões sobre a revolução espanhola e a corrida armamentista norte-americana. Eis a forma em que o menino Fidelino defrontou-se com a guerra do homem contra o homem, no cenário da rua: "Justamente ao alto da rua, naquele cotovelo prometedor de ignotos mundos, havia um renque de muros hostis, muros de quintais, grossos e altos, com o rebordo crivado de cacos de copos e garrafas, agudos como lanças em riste. Quando esses muros passavam ao lado da coluna de algum candieiro público alteavam-se em corcova e os cacos eram maiores, mais ameaçadores que espadas e frechas na esplanada de um castelo, no momento dum assalto. O pequeno perguntava a si mesmo a razão de todo aquele aparelho bélico. Para afugentar os gatos não era, porque eles circulavam à vontade ao longo do muro e até corriam, se alguma pedra os afugentava. Seria para guardar as couves humildes, as uvas da parreira e as nêsperas de dentro? Então os donos preferiam ver um assaltante esfomeado ou atrevido esfarrapar as carnes nos cacos a perder um cacho de uvas ou uma alface! E foi essa a primeira noção do permanente estado de guerra do homem contra o homem" 37.
3) Sensibilidade estética
Quem tiver lido Um colecionador de angústias não pode negar que Fidelino de Figueiredo foi um grande escritor que soube comunicar a sua vida interior em belas imagens e conseguiu dar à sua língua possibilidades muito ricas de expressão. Fidelino tinha alma de artista. Ele próprio testemunha sua sensibilidade estética ao comentar, em Diálogo ao espelho, o gosto lúdico que experimentava com a música: "(...) Para a gente comum -- escreve Fidelino -- a música sempre ostenta certo caráter simplesmente distractivo ou mesmo festivo, que envolve uma opinião de leviandade sobre quem se dá imoderadamente a ela. Uma variante do alcoolismo ou do jogo. Já minha mãe, com toda a sua benevolência, dizia há dezenas de anos: - em casa de meu filho é sempre dia de festa. E no seu sorriso havia uma ligeira advertência. Naquele tempo toda a minha música se reduzia ao piano caseiro. Mas não o escondia na sala de visitas, coberto por um pano oriental e objectozinhos de bric-à-brac, numa atmosfera de mofo. Todos os dias se ouvia e bem à vista. Esse o motivo de estranheza. A audição musical era coisa de sueto festivo (...)" 38.
Para Fidelino de Figueiredo a arte, longe de constituir uma simples imagem do real, é fundamentalmente uma supra-realidade em que o mundo ganha vida nova, graças à perpetuidade dos valores criados pela poesia: "(...) Certos críticos  -- afirma Fidelino --   sobretudo nos países de língua inglesa, e mais na América do que na Europa, distinguem entre literatura e vida, música e vida, considerando estas duas artes como dois planos inferiores ou artificiais ou subjetivos do mundo. E dizem do espírito, que se afunda no oceano da experiência condensada em arte, que ele está more inclined toward the world of literature than to that of reality. Enganam-se redondamente, como se enganam os que só sentem o canto através da letra e querem ouvir as óperas italianas em traduções. Há dois planos, mas noutra relação hierárquica: realidade e supra-realidade ou vida e arte. Quando críticos eminentes, como Roberto F. Giusti e János Hankiss, articulam os dois planos, literatura e vida, em obras profundas, rendem-se à perpetuidade dos valores criados pela poesia, que suprime o tempo e cristaliza paisagens espirituais de beleza imortal, infensas às variações arbitrárias do fluir cotidiano"39.
Manuel Bandeira, em carta endereçada ao amigo Fidelino em junho de 1951, reconhecia com estas palavras a capacidade criadora do nosso autor: "Venho agradecer-lhe a oferta de Um colecionador de angústias e a honra que me deu fazendo-me portador do exemplar oferecido à Academia (...). Li deliciado todos os capítulos, inclusive aquele profundo Retrato da Morte, que, quando o li no jornal, me impressionou tanto, ao ponto de me levar ao pleonasmo de chover no molhado, pois para que passar para a poesia o que já era poesia, e da melhor, e na melhor forma? O que houve foi apenas intenção de mais uma vez prestar homenagem ao grande escritor que tanto admiro (...)".
Outro testemunho, de Robert Ricard, vem salientar a capacidade artística de Fidelino de Figueiredo: "Entre la familia espiritual de San Pablo, Santa Teresa y Pascal, por una parte, y la de Voltaire, Renan y Anatole France, por la outra, seguramente Fidelino Figueiredo no vacila, y prefiere la primera, la de las Almas regias, a quienes la profundidad de la conciencia y de los sentimientos confiere una indiscutible superioridad artística -- indiscutible, se entiende, para los que vem con claridad y se aplican a mirar de buena fe" 40
4) Valorização da amizade
Ponto importante na vida de Fidelino de Figueiredo é a valorização que sempre deu à amizade. Descrente da existência de uma vida futura, além da morte, Fidelino reconheceu que na amizade reside a luz animadora da vida humana. E viveu profundamente essa convicção. Nos seus últimos anos fazia esta bela confissão: "Sou sempre amigo dos meus amigos, com livros e sem livros, com cartas e sem cartas, com visitas e sem visitas, de perto e de longe. Nesta altura de retiro e reflexão a presença real das pessoas e das coisas já não é imprescindível. Os velhos amores e as velhas amizades são-nos supridos pelas recordações. E desse tesouro acumulado nos vem o calor que nos conforta -- como das estrelas há muito extintas nos chega ainda a luz animadora" 41.
A vasta correspondência é a prova mais clara desse alto conceito em que Fidelino tinha a amizade na sua vida. Como afirma Herti Hoeppner Ferreira, "as cartas atestam também as atividades do jornalista, do tradutor, do político que foi Fidelino de Figueiredo; e caracterizam o homem que apreciava tertúlias acadêmicas, conversas de café, reuniões sociais. Mostram o carinho e a admiração de companheiros ilustres e humildes, revelados em diversas ocasiões; como a do atentado que sofreu quando diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa e a do exílio na África, por motivos políticos. Estas prosas rápidas, muitas vezes singelas, pitorescas, espontâneas, outras vezes elegantes, cerimoniosas, ajustam as linhas de uma existência humana intensamente vivida na solidão reflexiva e em comunidade. Compreensivo para os simples, atencioso com quem lhe solicita apoio, auxílio, ouve dúvidas, temores, lutas, queixas, alegrias, tristezas, aspirações. Esses papéis são um precioso documentário humano. Pessoa humana e humaníssima, Fidelino de Figueiredo colocou a amizade entre os mais elevados sentimentos (...)" 42.
A amizade de Fidelino levou-o a ser solidário com os seus amigos ao longo dos anos e em todas as circunstâncias. E não só personagens importantes receberam a amizade do nosso autor. Jovens intelectuais, como Carlos de Assis Pereira, que depois organizaria o Ideário crítico de Fidelino  Figueiredo, experimentaram a solícita dedicação do mestre e amigo, como costumava chamá-lo o escritor Manuel Bandeira.
Em carta datada no Rio de Janeiro em 23/5/43 escreveu o poeta ao nosso autor, em relação ao jovem professor Carlos de Assis Pereira, de quem Fidelino era mentor intelectual: "Sua encantadora carta de 21 do corrente choveu no molhado, pois saiba o meu amigo que vai para um mês o angélico e lento Carlos de Assis Pereira se ocupa remuneradamente de pôr em ordem e em catálogo a minha biblioteca. Além disso ando diligenciando por ver se interesso os meus amigos em arranjar-lhe alguma colocação como professor. Quero bem ao Carlos e a sua paternidade reforça todos os motivos de afeto e estima que ele me inspira".
A preocupação solícita dos dois velhos amigos pelo jovem pupilo estende-se por anos. Em carta datada no Rio de Janeiro em 2/8/43, escreve Manuel Bandeira: "O nosso Carlos de Assis Pereira anda contentíssimo nas funções de catedrático interino de Literatura no Pedro II. A cadeira ficará extinta no fim do ano, mas é muito provável que ele seja aproveitado como professor de português (...)". Em carta datada no Rio em 2/8/49, o poeta informava ao amigo residente em São Paulo: "Anteontem, depois do jantar, fiz a minha primeira visita ao nosso afilhado casal Carlos de Assis Pereira. A moça me pareceu bastante saudosa de São Paulo; Carlos sempre com aquele seu ar de professor menino. Naturalmente falamos do colecionador de angústias com a admiração e o afeto de sempre". Em 1/5/50 Manuel Bandeira continuava a informar ao mestre Fidelino sobre o comum amigo: "Estou em constante comunicação com o nosso querido pupilo agora pai de uma Cláudia, que entrou cesarianamente neste ingrato mundo. Não me parece que haja motivo de alarme no presente momento (...). Quando vem ao Rio? As saudades são muitas (...)".
A solidária amizade de Fidelino voltou-se, também, para Manuel Bandeira, com motivo da doença de surdez que afetou a este. Em carta datada no Rio de Janeiro em 6/9/50, escrevia o poeta: "Querido amigo Fidelino, muito obrigado pelas suas boas palavras da carta de 26 de agosto. Nessas horas de abafamento, como as que venho passando por causa da minha súbita surdez, é reconfortante sentir o afeto fraternal dos amigos que mais prezamos e admiramos (...)".
A solidariedade de Fidelino ao seu amigo Manuel Bandeira foi calorosamente correspondida pelo poeta. A fim de acalmar as saudades lusitanas do nosso autor, Manuel Bandeira compôs para Fidelino o belo soneto A Camões, que acompanhou da seguinte dedicatória, em carta datada no Rio em 23/6/42: "Aí vai, meu caro mestre e amigo Fidelino, o soneto que me pediu. Tenho sentido grandes saudades suas (...)". Vale a pena transcrever o poema de Manuel Bandeira:
A Camões

Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque sempre ela a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá, sem poetas nem soldados,
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

Em Fidelino achamos estreitamente unidas a sua amizade e a vocação de escritor. Como acertadamente frisou Herti Hoeppner Ferreira, "a extraordinária capacidade ativa e a vocação do escritor não absorveram o homem, embora a literatura fosse a função normal de seu espírito. Daí, Fidelino de Figueiredo dizer: a minha amizade por toda aquela gente era bem funda e, nalguns casos, tão fundamentalmente fraternal que tem resistido às distâncias e aos imprevistos do destino. E também, ao se pronunciar a respeito de um deles: Como de tão longe e ao fim de tantos anos, o seu coração vibra em uníssono com o meu!" 43 .
A amizade de Fidelino de Figueiredo com Manuel Bandeira levou o poeta brasileiro a se inspirar na descrição que o nosso autor fizera da morte em Um colecionador de angústias. A respeito, diz Fidelino: "Do segundo painel desse pequeno tríptico  desentranhou Manuel Bandeira uma linda balada, O homem e a morte. Aqui lhe deixo um pensamento afetuoso" 44 . Em relação ao seu poema, assim escrevia Manuel Bandeira ao nosso autor, em carta datada no Rio de Janeiro em 9/4/46: "Querido amigo: o nosso poema sairá no terceiro número da Revista Província de São Pedro, que se edita em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Foi vendido (e bem vendido) a ela, de sorte que não podemos deixar que apareça em outro lugar antes que apareça na Revista (...)". Em carta datada no Rio em 26/7/46, escrevia ainda o poeta: "Meu querido amigo e mestre Fidelino, recebi esta manhã o número de março (só agora saiu) da Revista de São Pedro. Lá está o nosso poema do Homem e a Morte. Nosso, mais do que meu, porque sua é a substância dele".
Conclusão
Ao terminar estes traços biográficos acerca de Fidelino de Figueiredo, devo lembrar que somente pretendi fazer uma rápida apresentação do homem Fidelino, que se apresentou a si mesmo como colecionador de angústias, que sentiu de perto e em toda a sua universalidade as preocupações existenciais do homem contemporâneo e que, corajosamente consciente da finitude humana, tentou, na amizade, na realização da sua missão de escritor e no culto à arte e aos valores espirituais, encontrar um sentido para viver com dignidade.
Nessa lição de dignidade, como frisei atrás, pode ser sintetizada a vida de Fidelino de Figueiredo. Nada melhor do que fazer minhas, aqui, as palavras do ilustre ensaísta português: "(...) Se a nossa obstinação em ver na morte o fim de tudo a todos vence, nada ganhamos, porque tudo acaba, mas também nada perdemos em ter vivido com dignidade; se a nossa obstinação é vencida, nada perdemos, porque possuímos uma honrada fé de ofício para exibir como passaporte recomendatório, honrada porque fez da própria honra o seu objectivo único e ignorou todo o cálculo, toda a adulação e todo o medo. Si vous gagnez, vous ne gagnez rien; si vous perdez, vous gagnez la valeur de votre vie..." 45. Bela confissão do mais puro estoicismo lusitano.
Bibliografia e Documentos consultados
AMORA, Antônio Soares. Entrevista concedida em São Paulo. 10 de setembro de 1979.

AZORÍN. La generación del 98. In:ABC, Madrid, 10/02/1913. O texto deste artigo foi consultado in: Literario Dominical - El Colombiano, Medellín, 11/01/1998.

FERREIRA, Herti Hoeppner. Trajetória espiritual de uma correspondência (1965). In: Julio García Morejón, Dos coleccionadores de angustias. São Paulo:  Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1967, pg. 68 seg.

FIGUEIREDO, Fidelino de.  As duas Espanhas. Lisboa: Ed. Europa, 1932. Foi consultada também a 4ª edição, Lisboa: Guimarães, 1959.

FIGUEIREDO, Fidelino de. Correspondência passiva. São Paulo: USP-Centro de Estudos Portugueses. (Pesquisa realizada ao longo do ano 1979).

FIGUEIREDO, Fidelino de. Diálogo ao espelho. Lisboa: Guimarães, 1957.

FIGUEIREDO,  Fidelino de. Pyrenne. 2ª edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935.

FIGUEIREDO,  Fidelino de. Sob as cinzas do tédio, romance de uma consciência. Coimbra: Nobel, 1944.

FIGUEIREDO, Fidelino de. Um colecionador de angústias. 1ª edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1951.

FIGUEIREDO, Fidelino de. Um homem na sua humanidade. 2ª edição. Lisboa: Guimarães, 1957.

FIGUEIREDO, Fidelino de. Viagem à Espanha literária. Rio de Janeiro: Tupi, 1951.

GARCÍA Morejón, Julio. Dos coleccionadores de angustias. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1967.

GINER DE LOS RÍOS, Francisco. Ensayos. (Seleção, edição e prólogo de Juan López Morillas). Madrid: Alianza, 1969.

PEREIRA, Carlos de Assis. Ideário crítico de Fidelino de Figueiredo. São Paulo: USP-Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1962.

QUADROS, António. Fidelino de Figueiredo. In: Lógos - Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Lisboa: Verbo, 1990.

RICARD, Robert. Prólogo. In: Fidelino de Figueiredo.Bajo las cenizas del tedio. Buenos Aires: Espasa-Calpe, 1947.

VÉLEZ RODRÍGUEZ, Ricardo. Traços biográficos de Fidelino de Figueiredo. In: Boletim, Universidade Estadual de Londrina-Departamento de Ciências Sociais, no. 2 (1982): pgs. 12-24.


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[1] Carta de Max Fleuiss a Fidelino de Figueiredo, Rio de Janeiro, 18/4/1913. A correspondência passiva de Fidelino está arquivada e organizada no Centro de Estudos Portugueses da Universidade de São Paulo.
[2] Cf. carta de Max Fleuiss a Fidelino de Figueiredo, 10/6/1912.
[3] García Morejón, Julio. Dos coleccionadores de angustias. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1967, pg. 15. O autor faz referência às seguintes obras de Fidelino de Figueiredo:  Viagem através da Espanha literária, Rio de Janeiro, 1951, pgs. 7 e 53 e Estudos de literatura, (primeira série, 1910/1912), Lisboa:, 1917, pg. 230.
[4] Soares Amora, Antônio (genro e discípulo de Fidelino de Figueiredo). Entrevista concedida em São Paulo, 10/9/79.
[5] García Morejón, Julio.Dos coleccionadores de angustias, ob. cit., pgs. 17/18. Na sua obra Um colecionador de angústias (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1951, 1ª edição, pgs. 134/135), Fidelino de Figueiredo refere-se à sua viagem a Espanha.
[6] Foram consultadas, para este trabalho, duas edições: Lisboa: Editorial Europa, s. d. (1922), 292 pgs. e Lisboa: Guimarães, 4ª edição, 1959, 246 pgs.
[7] Apresentação de Guimarães Editores à 4ª edição de As duas Espanhas, Lisboa: 1959.
[8] A segunda edição é da Companhia Editora Nacional de São Paulo, 1935, fato que indica que o autor escreveu o livro antes da sua segunda viagem aos Estados Unidos.
[9] "Carta datada no Rio de Janeiro, 30/8/42.
[10] As principais idéias pedagógicas de Giner de los Ríos acham-se expostas nos seus Ensayos (seleção, edição e prólogo de Juan López Morillas), Madrid:  Alianza Editorial, 1969.
[11] Além de conservar a correspondência passiva de Fidelino de Figueiredo, o Centro de Estudos Portugueses (para cuja criação contribuiu definitivamente o mestre português) publica um Boletim informativo sob a direção do professor Massaud Moisés e possui uma completa biblioteca de cultura portuguesa.
[12] Entrevista concedida em São Paulo, 10/9/1979.
[13] Ferreira, Herti Hoeppner, "Trajetória espiritual de uma correspondência (1965)", apud Julio García Morejón, Dos coleccionadores de angustias, ob. cit., pg. 68.
[14] Ferreira, Herti Hoeppner, ob. cit., ibid.
[15] Cf. Ferreira, Herti Hoeppner, ob. cit., ibid.
[16] Ob. cit., pgs. 77-111.
[17] "Trajetória espiritual de uma correspondência". Ob. cit., apud García Morejón, ob. cit., pg. 71.
[18] Ob. cit., apud García Morejón, ob.cit., pg. 68
[19] Antônio Soares Amora, entrevista concedido em São Paulo, 10/09/1979.
[20]  Entrevista concedida em São Paulo, 10/09/1979.
[21]  Soares Amora, entrevista concedida em São Paulo, 10/09/1979.
[22] Um colecionador de angústias. 1ª edição, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1951, pg. 31.
23 Fidelino de Figueiredo, Um colecionador de angústias, op. cit., pg. 23.
24 Op. cit., pg. 24.
25 Op. cit, pgs. 31-32.
26 Fidelino de Figueiredo, Sob as cinzas do tédio, romance de uma consciência, Coimbra: Nobel, 1944, pg. 11. Citado por Carlos de Assis Pereira (organizador), in: Ideário crítico de Fidelino de Figueiredo, São Paulo: USP/Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1962, pg. 430.
27 Fidelino  de Figueiredo, Um colecionador de angústias, op. cit., pg. 56.
28 Um colecionador de angústias, op. cit., pg. 58
29 Um colecionador de angústias, op. cit., pg. 64.
30 Um colecionador de angústias, op. cit., pg. 31.
31 Lisboa: Guimarães, 1957, pg. 55-56.
32 Diálogo ao espelho, op. cit., pg. 54-55.
33 Diálogo ao espelho, op. cit., pg. 55.
34 Diálogo ao espelho, op. cit., pg. 56-57.
35 Diálogo ao espelho, op. cit., pg. 56.
36 Diálogo ao espelho, op. cit., ibid.
37Um colecionador de angústias, op. cit., pg. 24

38 Lisboa: Guimarães, 1957, pg. 107.
39 Citado por Carlos de Assis Pereira, in: Ideário crítico de Fidelino de Figueiredo, op. cit., pg. 298.
40 Prólogo a Bajo las cenizas del tedio, de Fidelino  de Figueiredo, Buenos Aires: Espasa/Calpe, 1947, pg. 32-33. Apud García Morejón,  Dos coleccionadores de angustias, op. cit., pg. 9-10.
41 Fidelino de Figueiredo, Um homem na sua humanidade 2ª edição, Lisboa: Guimarães, 1957, pg. 33.
42 Herti Hoeppner Ferreira, "Trajetória espiritual de uma correspondência", in: García Morejón,  Dos coleccionadores de angustias, op. cit., pg. 73-74.
43 Herti Hoeppner Ferreira, "Trajetória espiritual de uma correspondência", in: García Morejón, op. cit., pg. 71. As citações de Fidelino Figueiredo feitas aqui por Herti H. Ferreira foram tomadas, respectivamente, das seguintes obras do escritor português: Viagem da Espanha literária, Rio de Janeiro: Tupi, 1951, pg. 11, e Diálogo ao espelho, Lisboa: Guimarães, 1957, pg. 21.
44 Fidelino de Figueiredo, Um colecionador de angústias, 3ª edição, Lisboa: Guimarães, 1962,  pg. 261.
45 Fidelino de Figueiredo,  Diálogo ao espelho, op. cit., pg. 71.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

ANTÔNIO PAIM - O ASPECTO DA REFORMA DO ISLAMISMO QUE DIZ RESPEITO AO OCIDENTE, SEGUNDO AYAAN HIRSI ALI

O professor Antônio Paim.
      Ayaan Hirsi Ali nasceu em 1969 na Somália, cresceu na Arábia Saudita e sua família acabou radicando-se no Quênia, tendo sido educada como muçulmana. Não obstante essa formação, rebelou-se contra a mutilação genital feminina e, em geral, contra o menosprezo às mulheres, em razão do que incompatibilizou-se com o ambiente local e obteve asilo na Holanda. Estávamos em  1992 e tinha então 23 anos.
        Na Holanda, deu prosseguimento à sua militância. Entre outras coisas criou uma organização para a defesa dos direitos das mulheres. Escreveu o roteiro para um filme nessa linha, exibido com o título de Submissão. A circunstância valeu-lhe ameaças de morte que se concretizaram em relação ao diretor (Theo Van Gogh). Tendo sido eleita para o Parlamento em 2003 tornar-se-ia alvo preferencial dos emigrantes muçulmanos radicados no país, verificando-se campanha em prol da cassação de sua cidadania. Estabeleceu-se celeuma de tal ordem que desencadeou uma crise governamental, levando-a a renunciar ao mandato parlamentar.
       Alcançaria ampla notoriedade mundial com a publicação de livro de memórias (Infiel). Traduzido ao inglês tornar-se-ia best-seller e a projetou no mundo acadêmico, passando a integrar o corpo docente  da Escola de Governo da Universidade norte-americana de Harvard. Apesar dessa fama, continua com a sobrevivência ameaçada, a ponto de que, tendo se radicado nos Estados Unidos, mantém em segredo onde precisamente fixou residência.

       Vem de publicar (New York, Harper Collins Publishers, 2015) um novo livro que está provocando vivos debates e cujo conteúdo ora nos propomos a apresentar. Intitula-se Herege. Porque o Islã necessita de reforma agora. Independente de sua viabilidade bem como do fato de que ao Ocidente só cabe a posição de observador interessado, os termos nos quais coloca a religião islâmica fornece, aos governos europeus e aos Estados Unidos, valiosas indicações para a formulação de uma política em relação aos imigrantes muçulmanos, comprovado que está o fracasso do  chamado multiculturalismo e da inadmissibilidade da simples proibição reivindicada pelos setores mais radicais da população.
        Herege estabelece como premissa  da reforma de que se trata,  concebida por expressivas personalidades, a diferenciação entre três grupos de muçulmanos. Grupamento que difere da conhecida divisão entre sunitas e shiitas.
        O primeiro grupo seria constituído pelos fundamentalistas. Ambicionam regime baseado na lei islâmica (sharia, que regula minuciosamente o comportamento social a ser imposto) com o que revelam considerar intocável o legado do sétimo século, isto é, da época em que viveu e atuou Maomé. Além do mais, sua fé deve ser imposta a todos. Denomina-os “muçulmanos milenaristas”, designação que justifica deste modo: “seu fanatismo corresponde a reminiscência das várias seitas fundamentalistas que floresciam na Idade Média anterior à Reforma, combinados com o fanatismo e a violência decorrente da antecipação do fim do mundo.” Acreditam que a morte de um infiel é um imperativo de sua recusa em converter-se voluntariamente ao Islã. Aspiram à criação de Califato aqui na terra. Judeus e cristão são tidos como “porcos e macacos”. Não admitem nenhuma dúvida sobre tais fundamentos.
       Este primeiro grupo forma a minoria. Estima-se que seriam 3% dos muçulmanos no mundo (1,6 bilhão no total, de que resultaria algo em torno de 48 milhões).
        O segundo grupo representa a maioria. São muçulmanos fieis ao núcleo do credo e adoradores devotos mas sem inclinação para a prática da violência. Chama-os muçulmanos de Meca. Escreve: “Como devotos cristãos ou judeus acham-se atentos ao serviço religioso todos os dias e abençoam o que comem e vestem.” São a maioria de Casablanca a Jacarta.
       A situação singular em que se encontra essa maioria seria a seguinte: “Os muçulmanos de Meca têm um problema: suas crenças religiosas existem numa inquietante tensão com a modernidade -- as complexas inovações econômicas, culturais e políticas não repercutem apenas no mundo ocidental e, dramaticamente, transformam o mundo desenvolvido, como o Ocidente as exporta. Os valores da sociedade racional e individualista são corrosivos dos fundamentos das sociedades tradicionais, especialmente aquelas baseadas na hierarquia de gênero, idade e status daí decorrentes.”
     Nos países de maioria muçulmana é limitado o poder da modernidade de promover mudança econômica, social e (recentemente) nas relações de poder. Nessas sociedades, os muçulmanos podem usar celular sem necessariamente enxergarem conflito entre a sua fé religiosa e as facilidades tecnológicas criadas pela sociedade racionalista e secular. No Ocidente, entretanto, onde a religião muçulmana é minoritária, os muçulmanos devotos vivem o que se convencionou denominar de dissonância cognitiva.
     Engajados numa luta diária para manter suas crenças no islamismo no contexto de uma sociedade secular e pluralística, muitos deles só resolvem essa tensão criando enclaves, tentando educar os filhos em sua crença, em suma, isolando-se.
     Entende a autora que só lhes restam duas alternativas: abandonar o islamismo, a exemplo do que se viu instada a fazer, ou então rejeitar de sua crença o que provém da ação político-social desenvolvida pelo Profeta no período de sua vida que se seguiu ao abandono de Meca, isto é, ao que denomina de (fase ou ciclo) de Medina. Esta parcela do islamismo teria caráter  político ao invés de religioso.
     Prosseguindo em sua análise afirma textualmente: “Por certo reconheço não ser plausível que esses muçulmanos aceitem chamamento à reforma doutrinal provinda de alguém que consideram apostata e infiel. Mas podem reconsiderar esse posicionamento se conseguir persuadi-los a ver-me não como apostata mas como herética: alguém como crescente número de pessoas nascidas no Islã levadas a pensar criticamente sua fé. É com esse terceiro grupo --no seio do qual apenas uma reduzida parte abandonou o Islã-- com o qual desejo agora identificar-me.”
     E, logo adiante: “A maioria dos dissidentes são crentes reformistas --entre eles clérigos que não vêm como realizar seus deveres religiosos se seus seguidores acham-se condenados a interminável ciclo de violências política”.
     Destaca a importância do trabalho desenvolvido por esses dissidentes acreditando que os ocidentais precisam dar-se conta da forma como se originam os atentados  praticados por muçulmanos no Ocidente bem como de onde provém a política de  recrutamento de jovens ocidentais para atuarem em seu favo nos conflitos que proliferam em várias partes do mundo muçulmano.
       Ayaan Hirsi Ali propõe cinco correções ao islamismo, sendo a primeira a de considerar que parte dos textos provindos do Profeta atendem a circunstâncias históricas e não têm porque ser consideradas inalteráveis. Em entrevista ao jornal carioca O Globo (edição de 13/06/2015) apresenta-a como se tratando de uma mudança de atitude diante dos ensinamentos de Maomé. A segunda diz respeito à primazia da vida eterna em detrimento da vida antes da morte. A terceira seria o abandono da sharia, isto é, da regulamentação da vida político-social segundo regras de índole religiosa. A quarta, a de obrigar as pessoas a considerar o certo e o errado do ângulo estrito da religião; e, por último, a admissão da jihad (guerra santa).
     Reconhece que não cabe à intelectualidade ocidental liderar a reforma do islamismo. Mas compete-lhes rejeitar a opinião de que apenas os islamitas podem tecer considerações a seu respeito. Leva em conta, talvez, ao assassinato frio dos redatores  da revista francesa Charlie Hebdo, ocorrido em janeiro do corrente ano de 2015.
     Os aspectos antes enumerados são detalhados em capítulos autônomos evidenciando que se trata de questões analisadas teoricamente com a imprescindível profundidade. Nesta breve resenha não seria o caso de nos determos em sua caracterização.

A escritora somali Ayaan Hirsi Ali.
                
 As dimensões do movimento
Reformista.
          Pelas indicações contidas no livro, parece que organizações em atividade relacionadas à crítica ao islamismo radical limitar-se-iam ao Ocidente. Para exemplificar refiro a seguinte indicação. Nos Estados Unidos, o físico norte-americano Zahid Nasser fundou o Fórum Americano para a Democracia, sediado em Fênix, Arizona, que mantém o “Jefferson Projeto para o Islã”. Advoga a separação das mesquitas do Estado em que funcionem, a exemplo do que ocorre com os templos em geral no Ocidente. Entidades análogas, naturalmente com programas diferenciados, existem na Inglaterra, França, Holanda, Dinamarca, Alemanha e Canadá.
      Em alguns  países islâmicos existiriam personalidades expressivas que advogam  a livre discussão das questões de índole religiosa. Menciona o professor Abd  Al-Hamid Al-Ansari, ex-diretor da Faculdade de Direito da Universidade do Catar, que desaprova o menosprezo de outras religiões que não sejam o Islã. Questionado publicamente por considerar que não se deve pregar o ódio aos que não sejam islamitas, argumenta com expressões desse tipo: “Deve-se esperar que ensine à minha filha o ódio aos cientistas judeus que inventaram a insulina, que uso para tratar minha mãe?” Trata-se justamente do desconforto suscitado pelos avanços tecnológicos ocidentais que acabam por penetrar em países islâmicos. Em Apêndice constante do livro relaciona cidadãos que advogam a reforma no Egito, Turquia, Iraque e Paquistão. Relaciona inclusive clérigos dissidentes, em relação aos quais diz entretanto não esperar que consigam resultados significativos.
 Onde residiria a contribuição
da obra considerada.
        A intenção de Ayaan Hirsi Ali é alcançar o apoio dos governos ocidentais para a causa dos dissidentes do islamismo. Para tanto busca comprovar que os textos considerados sagrados inserem uma componente política que faz com que o Islã não seja uma religião de paz, como supõem muitos dos ocidentais, inclusive entre os que se proclamam liberais. Embora sua argumentação seja consistente e suas teses achem-se rigorosamente fundamentadas, a laicidade inerente à cultura política ocidental é evidentemente impeditiva de que se imiscua o Estado numa questão que para nós é inquestionavelmente de foro íntimo.
     Entretanto, o livro contém uma informação que deve calar fundo nos formuladores da política de imigração dos Estados Unidos, que é o país referido, mas que diz respeito também à Comunidade Européia, às voltas com problemas dos mais agudos com essa questão imigratória.
     Dados mobilizados pela autora  indicam que a expectativa é a de que a população muçulmana vivendo na América do Norte deve aumentar dos atuais 2,6 milhões para 6,2 milhões em 2030. Embora em termos absolutos seja inexpressiva, na prática tornar-se-á a maior população muçulmana em países ocidentais, com a única exceção da França.
     Resumo a sua argumentação.
     Aproximadamente quarenta por cento dos novos imigrantes serão originários de três países: Paquistão, Bangaladesh e Iraque. A mesma fonte consultada antes indica que os pontos de vista vigentes nesses países seriam considerados radicais no Ocidente. Três de cada quatro paquistaneses e contingentes maiores nos dois outros países revelam concordar com a aplicação da sharia nos seus países. Proporções similares consideram imorais as formas de entretenimento usuais no Ocidente. Somente frações diminutas sentir-se-iam confortáveis se seus filhos contraíssem matrimônio com católicos e desconfortáveis diante do assassinato de mulheres por questões de honra. Um em cada oito paquistaneses e um quarto dos que vivem em Bangaladesh acham justificado atentados suicidas para punir aqueles que consideram infiéis.
       As questões mencionadas são inquestionavelmente políticas. Assim, podem perfeitamente figurar numa pauta que justifique recusa de visto ou expulsão dos que radicados em países ocidentais advogam comportamentos francamente contrários aos mais caros direitos dos nossos cidadãos. A adoção desse tipo de regra poderia suprir a lacuna deixada na legislação ocidental com o fracasso da prática do multiculturalismo. A par disto, muito provavelmente poria termo às divergências em matéria de política imigratória, mais visíveis na Europa mas também presentes nos Estados Unidos.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O PENSAMENTO POLÍTICO DE CAMPOS SALES (1841-1913)


No centro, Arsênio Eduardo Corrêa, rodeado, da esquerda para a direita, por Leonardo Prota, José Maurício de Carvalho e Antônio Paim (Foto: Ricardo Vélez Rodríguez, São João del Rei, 2008).

Este é o título de importante livro do Dr. Arsênio Eduardo Corrêa, meu amigo, brilhante advogado paulista e membro do Instituto de Humanidades. A obra, publicada em Londrina por Edições Humanidades, em 2009, consta de 126 páginas. Constitui contribuição de peso para o melhor conhecimento da forma em que se deu o início da denominada “política dos governadores” posta em execução por Campos Sales (1841-1913), quando da sua passagem pela Presidência da República (entre 1898 e 1902).

Arsênio Corrêa dividiu a sua obra em quatro partes: I – Campos Sales e a implantação do modelo político adotado na República Velha. II – Na vazante da “maré cheia liberal” emergem correntes autoritárias. III – O pensamento político de Campos Sales. IV – Epílogo.

O autor destaca que duas foram as marcas registradas dos três primeiros governos republicanos (presididos sucessivamente por Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Prudente de Morais): instabilidade crescente e autoritarismo. Tal circunstância decorreu da ruptura ensejada com a queda do Império e o abandono das instituições do governo representativo no novo ciclo histórico. “A opção por uma república federativa, nos moldes americanos, – frisa o autor – levou o governo a adotar a teoria da descentralização. Portanto de uma prática organizacional de mais de meio século (...), saltamos no escuro para uma nova organização política e administrativa” [pg. 16].

Como ministro da Justiça do Governo Provisório, Campos Sales tentou dar estabilidade à administração (presidida pelo velho Marechal Deodoro, bastante doente), mediante a tese da responsabilidade compartilhada do Chefe do Executivo e os seus ministros, nos atos de governo. No mandato de Prudente de Morais, que seguiu ao bonapartista governo de Floriano Peixoto, a instabilidade aumentou, na medida em que o Presidente da República ficou refém do Partido Republicano Federal, sendo que o chefe deste, nas palavras de José Maria Belo, tornou-se “uma espécie de condestável da República” [pg. 28].

As instituições republicanas, no Brasil, passaram a sofrer das mesmas contradições que enfrentou a Terceira República francesa: acirrada disputa entre o Executivo e o Parlamento, como destacava José Maria Belo: “O poder do Congresso e o poder do Presidente da República harmonizavam-se apenas nos artigos constitucionais; na realidade, não se entenderiam nunca” [História da República, 6ª edição, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969, p. 151].

A “política dos governadores”, posta em execução por Campos Sales ao longo do seu mandato presidencial (1898-1902), foi a resposta dada pelo mandatário a essa crônica instabilidade. Antônio Paim sintetizou assim a essência daquela: “A peça-chave dessa política consistia em delegar à Mesa da Câmara, composta pela Chefia do Executivo, a atribuição de reconhecer os diplomas dos parlamentares. Às eleições concretas se substituía a ata da apuração, confeccionada na Capital da República a partir do único critério de assegurar maioria sólida ao governo, sem maiores compromissos com o evento real. Viu-se então representantes eleitos que perdiam seus votos na confecção da ata e toda sorte de chicana. Tudo isto mediante simples arranjo no Regimento da Câmara dos Deputados, intocada a Constituição” [A querela do estatismo, 1ª edição, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978, p. 62].

Arsênio Corrêa caracterizou a “política dos governadores” como um expediente pragmático do governo para garantir a unidade política e a estabilidade, sem intervir direto nos Estados, mas manipulando o mecanismo de legitimação das eleições, privilegiando os interesses do Executivo e do Partido Republicano, ao seu serviço. Eis a caracterização efetivada pelo autor: “A política dos governadores foi, portanto, a unidade política estabelecida por Campos Sales, que pressupunha a não intervenção nos Estados. Isso trouxe a perda de importância das eleições, consolidando as situações estaduais, cuja legitimidade era equivalente à da União. É forçoso reconhecer que assegurou estabilidade política. Naturalmente, às custas da legitimidade da representação, vale dizer, do abandono do espírito que presidiu à estruturação das instituições de tal governo, no Segundo Reinado. Ali, o foco estava na determinação dos interesses que deveriam ser representados. E, subseqüentemente, a avaliação sucessiva da capacidade respectiva de assegurar-lhe legitimidade. Agora o foco mudava completamente de direção: assegurar o livre exercício do poder, excluída a possibilidade de negociação fora dos círculos que tivessem comprovado sua fidelidade ao sistema republicano. Somente o Partido Republicano tinha autorização de funcionamento e, portanto, de participar dos pleitos em que era admitida a disputa” [pg. 61].

O efeito produzido pelo arranjo autoritário foi a desvalorização da representação e a instabilidade, que conduziriam diretamente à adoção, mais adiante, do modelo de ditadura republicana criado por Castilhos no Rio Grande do Sul. O autor ilustrou esses aspectos negativos da seguinte forma: “Os efeitos das novas regras estabelecidas no Regimento Interno da Câmara revelaram-se devastadores. A primeira vez em que se deu sua aplicação, em 1900, sob Campos Sales, (com a atuação da) Comissão instituída a partir da Mesa Cessante, deixaram de ser reconhecidos 74 mandatos, cerca de 35% do total (o Parlamento se compunha de 212 representantes).  O caso extremo deu-se na Câmara eleita em 1912: 91 mandatos deixaram de ser reconhecidos, 43% do total. Criou-se, assim, uma falsa estabilidade, na medida em que exigia fosse desfigurada a representação. Ainda que a Constituição fosse mantida e submetidos ao Parlamento os freqüentes estados de sítio, a providência tornou-se a ante-sala do longo ciclo autoritário vivido pela República brasileira” [p. 61].

A formulação da “política dos governadores” por Campos Sales alicerçava-se no democratismo rousseauniano, de que o mencionado homem público era tributário, como, aliás, a geração de jovens bacharéis formados no Largo de São Francisco, na segunda metade do século XIX. Segundo Arsênio Corrêa, Campos Sales deixou-se seduzir pelo ideal do caudilhismo militar em que era muito rica a tradição política hispano-americana, claramente professado por Quintino Bocaiúva, um dos mais atuantes propagandistas das idéias republicanas e que integrou, junto com Campos Sales, o primeiro gabinete republicano. Com essa geração de bacharéis que chegavam à vida pública, salvo contadas exceções como o calejado liberal Rui Barbosa, passou a prevalecer, como marco teórico que daria vida às instituições republicanas, o democratismo rousseauniano, em substituição às idéias liberais de Locke, Constant de Rebecque, Guizot e Tocqueville, em que tinham se formatado as instituições imperiais. O abandono da questão da representação de interesses dos cidadãos era apenas o corolário dessa opção teórica.

À luz do espírito de Rousseau foi aclimatada, pela elite bacharelesca à cuja testa situou-se Campos Sales, a concepção que tinha vingado no século XIX, na França, nos ciclos do republicanismo bonapartista (1799-1804), do Primeiro Império (1804-1814), da Segunda República (1848-1851) e do Segundo Império (1852-1870). Efetivamente, os dois Napoleões (tio e sobrinho) forjaram nova teoria da representação, inspirada no ideal da “vontade geral” do filósofo de Genebra, nos seguintes termos: 1) O governante (presidente eleito, primeiro cônsul ou imperador) é o verdadeiro representante da “vontade geral” da Nação. 2) Os corpos colegiados são legitimados, como representantes secundários da “vontade geral”, pelo primeiro mandatário. 3) As eleições são apenas mecanismos secundários para provisão dos corpos colegiados, que passarão a desempenhar apenas funções técnicas (elaborar o orçamento, por exemplo), sendo que toda a questão de legislar e governar cabe ao Executivo, ajudado pelo Conselho de Estado, que é integrado, basicamente, por técnicos escolhidos a dedo pelo primeiro mandatário. 4) Quando as eleições são praticadas para eleger os mandatários nos ciclos republicanos (como quando Luís Napoleão assumiu a Presidência da República, em 1848) legitimam um poder que não pode ter limites e que é republicano pelo fato de ter sido eleito.   

A fim de situar esse modelo no contexto em que foi gerado, vale a pena analisar os seus aspectos fundamentais. Jacques Necker (1732-1804), ministro das Finanças de Luís XVI e pai de Madame de Staël (1766-1817), analisou detalhadamente a Constituição de 22 Frimário, ano VIII (1800), que sagrou um modelo de República autoritária, presidida pelos três Cônsules, sendo Bonaparte o que de fato exercia o poder [cf. Chevallier,  Histoire des Institutions et des Regimes Politiques de la France de 1789 à nos jours, 1977, p. 105-108]. O pai de Madame de Staël considerava que, não tendo sido estabelecida, nessa Constituição, uma verdadeira representação dos interesses populares no Parlamento, a eleição não tinha nenhum sentido e as instituições republicanas careciam de autenticidade. A propósito, escrevia Necker: "A primeira circunstância que chama a atenção ao examinar esta Constituição é que, num Governo denominado de Republicano, nenhuma porção dos poderes políticos, nenhuma, realmente, foi confiada à Nação. No entanto, não apenas nas Repúblicas mistas ou puramente democráticas, mas também nas Monarquias moderadas, o povo concorre à nomeação do Corpo Legislativo, à nomeação das autoridades que determinam os seus sacrifícios. Vemos na Inglaterra os Membros da Câmara dos Comuns eleitos pela Nação. Vemos na Suécia uma ordem de Burgueses, uma ordem dos Camponeses comporem o Poder Legislativo; e sob a Monarquia Francesa o Terceiro Estado nomeava Deputados às Assembléias Nacionais. Uma tal prerrogativa, a mais importante de todas, foi substituída por uma ficção no novo código político da França. Concede-se ao Povo um direito de indicação que não significa nada para ele e que aborrecerá ao Governo se esse direito for respeitado" [Necker, Dernières vues de politique et de finance, offertes à la Nation Française par M. Necker, Paris: Bibliothèque de France, 1802, vol. I, p. 1-2]. 

Ora, nenhuma estabilidade institucional poderia advir de um tal regime. Tratava-se de uma República de faz-de-conta, modelo da que, no final do século XIX, os Castilhistas instaurariam no Rio Grande do Sul. Tudo girava ao redor do único poder verdadeiramente forte: o general Bonaparte. A feição dessa pseudo República foi resumida perfeitamente por Jean-Jacques Chevallier, com as seguintes palavras: "Uma fachada de sufrágio universal (simples direito de apresentação). Uma fachada de assembléias: o Senado, o Tribunato, o Corpo Legislativo. No governo uma fachada de três cônsules, sendo que o poder repousava realmente no Primeiro Cônsul. Na tarde em que o texto constitucional foi solenemente promulgado nas ruas de Paris, as pessoas perguntavam: O que há na Constituição? E a resposta era a seguinte: Há Bonaparte. O referendum sobre um texto constitucional tinha fatalmente virado um plebiscito sobre um homem" [Chevallier, ob. cit., p. 107]. A propósito dessa enorme encenação, escreveu Necker: "Mostraremos agora que toda essa organização é ao mesmo tempo motivo de irritação para a massa geral dos Cidadãos, bem como um atentado aos seus direitos, um estorvo para o Governo e um constrangimento prejudicial para o bem do Estado" [Necker, ob. cit., p. 4-5].

O modelo de representação previsto pela Constituição bonapartista do ano VIII constituía uma caricatura da prática do verdadeiro parlamentarismo. Os cidadãos habilitados para votar segundo as normas oficiais (cinco milhões, calculava Necker, sobre uma população de mais de vinte milhões de Franceses), nos seus respectivos cantões indicariam as pessoas que, segundo o seu critério, pudessem desempenhar cargos públicos. Daí sairia uma massa de cinco mil homens aptos para receberem do Senado Conservador, formado à revelia da Nação, a responsabilidade de administrar a máquina do Estado. Seria uma representação às avessas, que personificaria os interesses de Bonaparte e da sua burocracia, deixando de lado os reais interesses dos cidadãos. "Essas listas de elegibilidade - frisava Necker [ob. cit., p. 10-11] - teriam pouca credibilidade, ao reduzir cinco milhões de homens a cinco mil, sem nenhuma das precauções que garantem ao menos um sentimento de interesse, um grau formal de atenção a essa grande ação política".


Este modelo de representação às avessas foi posto em prática, com grande sucesso, por Napoleão III, ao longo da Segunda República (1848-1851) e do Segundo Império (1852-1870), com uma inovação: a prática corriqueira do plebiscito, a fim de dar um verniz de legitimidade democrática às decisões tomadas pelo dono do poder. Sabemos de que forma Napoleão III abusou dessa modalidade de governo, tipicamente ditatorial, fato que levou Victor Hugo a escrever: “Não, esse homem não raciocina; tem necessidades, tem caprichos, tem de os satisfazer. São vontades de ditador” [Napoleão – O pequeno. Tradução de Márcia Aguiar, São Paulo: Ensaio, 1996, p. 108]. Quando a oposição questionava a legitimidade do Presidente-ditador e, após 1852, do Imperador, este lembrava que tinha sido eleito em 1848 como Presidente com 5,5 milhões de votos e que dois plebiscitos com mais de 95% dos votos legitimaram a sua auto-nomeação, primeiro como Cônsul (em dezembro de 1851) e logo como Imperador (em novembro de 1852).

Que o modelo de pseudo-representação rousseauniana posto em marcha por Napoleão Bonaparte e pelo seu sobrinho Luís Napoleão ainda está vigente, o provam as circunstâncias dos populismos latino-americanos, que fazem uso e abuso do mecanismo da re-eleição e do plebiscito na Venezuela, na Bolívia, no Equador, na Argentina e No Brasil lulopetralha. Isso para não falar na arquiditadura cubana, velha de meio século. Vida longa para o despotismo republicano e para o modelo reacionário de legitimação que foi posto em prática por Campos Sales no Brasil, na virada do século XIX para o XX!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

EDUCAÇÃO FÍSICA E REGIME MILITAR: UMA GUERRA CONTRA O MARXISMO CULTURAL

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A obra do professor Alessandro Barreta Garcia intitulada 'Educação física e regime militar: Uma guerra contra o marxismo cultural' chega às livrarias em bom momento para os leitores brasileiros. 


Esta obra, efetivamente, constitui uma crítica contra a monocórdia propaganda gramsciana que, nestes onze anos de dominação lulopetista, tomou conta do cenário cultural brasileiro, deformando totalmente o conceito de educação e substituindo-o pelo de doutrinação ideológica. 



O autor, com rara coragem, não duvida em destacar os aspectos niilistas da proposta oficial no terreno da educação, que se tem traduzido em inúmeros fracassos nos programas educacionais apresentados pelo PT, quer no ciclo básico, quer no ensino secundário e no plano universitário.
No terreno da educação física, que constitui a especialidade do autor, as coisas não foram diferentes. Os técnicos do governo e os intelectuais associados à visão chapa-branca tentam, por todos os meios, desacreditar os programas educacionais vigentes antes da era lulopetista, como pertencentes a propostas que visavam a manutenção da exploração capitalista sobre as massas ignaras.
Em face dessa tentativa de falseamento da história, o autor mostra, na sua obra, que a proposta de educação física posta em prática durante o ciclo militar obedecia a uma concepção enraizada na melhor tradição humanística do Ocidente. Tal proposta se inseria, segundo o autor, no contexto mais amplo da educação para a cidadania e considerava a educação física e o esporte como meios de grande peso na sedimentação dos valores fundantes da cidadania. Alessandro Barreta Garcia tenta, na sua obra, resgatar essa tradição educacional e, para tanto, retoma a melhor tradição filosófico-educacional do Ocidente, aquela surgida ao redor da filosofia de Aristóteles. Estes conceitos aparecem claramente no seguinte trecho da obra que ora apresentamos:
Durante o regime militar brasileiro a pedagogia e a psicologia são fundamentais para esse processo. Formar o cidadão para o esporte é cultivar os frutos de uma civilização de qualidade. Os valores morais são bem claros e a formação educacional do aluno frente ao esporte é fundamental para o desenvolvimento da unidade nacional. Respeitar as regras, ser disciplinado não é um mal, pelo contrário, uma virtude. Ainda nessa perspectiva a cooperação também foi um fator observado nas aulas de educação física. Para os gregos na Antiguidade, a formação moral também era essencial para o cidadão se tornar virtuoso.
Em relação ao conceito de esporte-educacional vigente no ciclo militar, o autor afirma:
O esporte-educacional, como aquele observado nos anos de 1964 a 1985, aparece claramente com o notável intuito de formar a juventude brasileira por meio de valores supremos. A honestidade nos jogos é um valor moral que já observávamos entre os gregos antigos. Pierre de Coubertin, inspirado nesse espírito grego, tentou revigorar na modernidade as mesmas características desejadas nos anos do militarismo brasileiro.
O autor, na conclusão da obra, enfatiza o papel que o Exército Brasileiro ainda pode desempenhar no terreno da educação física para a renovação do espírito que a deve animar. A propósito, frisa:
Destacamos, ainda, que o Exército contribuiu, e muito tem a contribuir com a educação física brasileira. Hoje, mais do que nunca, precisamos de ordem, disciplina e respeito na escola. Uma educação de qualidade caracteriza-se por ser responsável, técnica, conceitual, racional e empírica. Entre as melhores escolas do país estão as militares, e certamente uma das opções honrosas de um ensino de qualidade é a instituição militar. Se um dia quisermos nos tornar uma potência esportiva, devemos voltar às origens, à caserna, que é aprender com quem cuidou muito bem de nossa educação física, com quantidade e qualidade, com amor, dedicação ao corpo e à alma de uma nação.
Levando em consideração a escolha teórica do autor para fundamentar a sua análise crítica da educação física brasileira, gostaria, nesta apresentação, destacar o que do ângulo da educação física pode ser haurido da obra de Aristóteles, centrando a minha atenção no conceito da ética e da sua aplicação ao processo educacional. 



A ética do Estagirita tem por objetivo o domínio da ação humana, em tanto que alicerçada numa decisão e a política é o terreno da sua aplicação social. Distingue-se a ética da filosofia teorética, que se dirige ao imutável e eterno. Por natureza, segundo Aristóteles, todo ser tende a um bem que lhe é próprio e no qual encontrará a sua realização. O bem humano é a atividade da alma conforme à razão. Nessa atividade, o homem descobre a felicidade (eudemonía), que é independente das circunstâncias exteriores, como objetivo final das suas aspirações. 


Como frisa Aristóteles na sua Ética a Nicômaco, “O bem do homem consiste numa atividade da alma conforme à virtude”. Aristóteles distingue entre virtudes dianoéticas (que se manifestam no exercício da razão) e virtudes éticas (que são transmitidas pela ordem estabelecida na sociedade e na Polis) sendo que elas recebem a sua validade da tradição e do consentimento universal. 

A virtude dianoética fundamental é a prudência (frónesis), que leva o homem a reconhecer os meios e os caminhos justos que conduzem ao bem. À luz dessa virtude o homem desenvolve a atitude ética, que se formata mediante a prática das virtudes (através do exercício, o hábito e a aprendizagem).

No que tange ao conteúdo, a virtude ética é definida como o justo meio (mesótes) entre dois extremos contrários. Assim, por exemplo: a coragem ocupa o lugar intermediário entre a covardia e a temeridade. A moderação é um intermédio entre a apatia e a excessiva vontade e a generosidade é o equilíbrio entre a avareza e a prodigalidade.

A justiça (dikaiosune), para Aristóteles, é a virtude mais importante para a vida em comum. Em tanto que distributiva, ela cuida de distribuir os bens justamente; em tanto que corretiva, ela compensa os danos ou os prejuízos sofridos por alguém.
Uma virtude essencial é, também, a amizade. Graças a ela, o homem experimenta a passagem dos interesses individuais àqueles que constituem a comunidade.
A ética aristotélica, contrariamente à platônica, é uma moral concreta da liberdade e da diferença entre os homens da cidade. Ela define um espaço de discussão, que deve permitir chegar a um bem soberano, que não é transcendente (como em Platão), nem imposto desde cima por algum sábio. O bem soberano aristotélico nasce exclusivamente do contato entre os homens livres.


No que tange à ordem política, diferentemente de Platão (que privilegiava o modelo aristocrático), ela é variada, para Aristóteles, podendo ser de três tipos: realeza (cuja degeneração é a tirania), aristocracia (cuja corrupção é a oligarquia) e politéia ou governo do povo, (cuja degeneração é constituída pela democracia).

Contrariamente a Platão, que no relativo ao conhecimento racional da realidade política dava prelação à Ideia sobre os conhecimentos empíricos, Aristóteles privilegia estes últimos. Nesse terreno, o filósofo de Estagira realizou estudos comparados, tendo chegado a identificar 158 formas de organização ou de constituição política. Desses estudos somente nos restou o escrito intitulado 'Constituição de Atenas'.
Platão concebia uma visão ideal da política, ao passo que Aristóteles concebe uma ideia possível. Ele é partidário de um realismo político. Na obra 'Política', frisa o Estagirita: “Deve-se, efetivamente, examinar não somente o melhor regime político, mas também aquele que é simplesmente possível”. Contrariamente a Platão, para quem os homens ingressavam no Estado em decorrência das suas fraquezas, Aristóteles considera que os homens procuram a ordem política, movidos pela sua natureza sociável. A respeito escreve: “O homem é por natureza um animal político”: anthopos fusei zoon politikon. 



A linguagem é um signo de que o homem não está destinado unicamente à simples sobrevivência, mas a viver numa comunidade que deve chegar a acordos acerca do útil, do bom e do justo.


Como Platão, Aristóteles considera que a tarefa do Estado consiste em possibilitar a realização ética dos cidadãos. No entanto, enquanto o mestre de Aristóteles, Platão, considerava que a questão ética consistia em partir para um processo de catarse, a fim de o homem voltar à contemplação pura das Ideias no reino do Sumo Bem, para o Estagirita essa realização consiste em algo muito mais singelo e terreno: o amor da vida feliz e boa. É somente no seio do Estado que se pode desenvolver perfeitamente a virtude do indivíduo. O Estado, para Aristóteles, se forma a partir de um conjunto de comunidades que vão se alargando. A propósito, frisa: 

“Na origem, existe a comunidade de duas pessoas (homem e mulher, pai e filho, amo e servo). Estes, juntos, constituem a família, a partir da qual, a seguir, constitui-se a aldeia e por fim a cidade (polis), que é o reagrupamento de várias aldeias”

É somente a partir da cidade que é garantida a autarquia (ou seja, o fato de se garantir, a si próprio, a independência e a autossuficiência). O princípio formal da pólis, para Aristóteles, é a constituição. A respeito frisa Aristóteles: “A cidade é uma espécie de comunidade e uma participação comum dos cidadãos no governo”. O filósofo divide as formas de constituição em três “tipos justos” (realeza, aristocracia, politéia). O critério de classificação é o número dos que participam do poder político: um, alguns, todos. É boa a forma de governo que serve ao bem-estar geral; é ruim aquela que somente persegue os interesses dos que mandam.

Aristóteles, não prefere, de entrada, uma das três formas de organização da polis mencionadas. Considera, contudo, que a mais realizável e a mais estável é a politéia (ou democracia moderada). É uma forma que mistura as vantagens das outras constituições e que realiza o princípio formulado na Ética, da virtude como justo meio entre os extremos. A propósito, Aristóteles escreve: “A melhor comunidade política é aquela que constitui a classe média (...). O seu predomínio restabelece o equilíbrio da balança e impede a aparição dos excessos contrários”. Da análise histórica Aristóteles conclui que a melhor forma política, em cada caso, é aquela que melhor convém ao país e às necessidades dos cidadãos. 

Em relação à questão da ordem interior do Estado, Aristóteles considera que é necessário preservar a família e a propriedade privada. Segundo Aristóteles, a família é ainda mais elementar que a aldeia e esta é mais elementar que o Estado ou a polis. A família deve ser privilegiada em tanto que base da ordem natural da sociedade, mesmo se o Estado joga um papel essencial na educação da juventude. 

Em relação à propriedade privada, Aristóteles considera que “a propriedade deve ser privada, mas o seu uso deve ser comum”. Nestes aspectos, certamente, o Estagirita se distancia dos ensinamentos do seu mestre Platão. No que tange à estrutura interna da sociedade, Aristóteles reconhece, além da escravatura, a desigualdade natural entre homens e mulheres. Tanto uma quanto outra são “condições naturais” da vida humana. Mas, entre os homens livres, deve reinar a igualdade.

Seria necessária, contudo, a influência do Cristianismo sobre o pensamento grego para que esta visão se ampliasse até levar em consideração todos os seres humanos, não apenas os pertencentes à sociedade ateniense. Em boa hora Alessandro Barreta Garcia retoma a obra de Aristóteles para fundamentar, nela, a prática da educação física. Aristóteles, efetivamente, enriquecido pela tradição judaico-cristã, passou a ser referência nas filosofias da educação desde a Idade Média, sendo a síntese efetivada por São Tomás de Aquino, no século XIII, manifestação dessa riqueza doutrinária, ensejando uma tradição humanística que vem até os dias de hoje. A volta a essa tradição humanística é o marco assinalado pelo autor na sua obra e pode, no conturbado mundo de hoje, ser fonte de renovação para o ensino da educação física, retomando um elo esquecido pelas esquerdas brasileiras nas últimas décadas.



sábado, 13 de junho de 2015

ESPERANÇAS PERDIDAS E NOVAS PERSPECTIVAS

Populismo, narcotráfico e violência: o "companheiro" Morales garantiu as exportações de pasta de coca para o Brasil.

Um articulista do jornal El País de Madri, escrevia, há alguns meses, que a violência indiscriminada constitui a porta de saída do túnel de populismo cínico que tomou conta do Brasil na última década. Algo semelhante tinha sido escrito, na Colômbia, pelo padre Camilo Torres (1929-1966), que era excelente sociólogo, mas que terminou se engajando na guerrilha comunista do Exército de Libertação Nacional, tendo sido colocado por ela como bucha de canhão num enfrentamento com as forças militares. Camilo terminou morto por uma patrulha do Exército colombiano chefiada pelo então coronel Alvaro Valencia Tovar (1923-2014). [1]
Sobre a gênese da violência nas sociedades, o padre Camilo escrevia: "A agressividade pode ser individual ou social. A agressividade individual é o resultado de um desejo de destruição originado em uma frustração. A destruição é buscada como uma compensação e como um meio de reconstrução do que não se conseguiu. A agressividade social possui as mesmas características, mas alargadas ao grupo social. A agressividade pode ser manifesta ou latente, segundo o desejo de destruição possa se realizar ou não. A agressividade social, em geral, encontra-se naqueles países nos quais há frustração de aspirações. Se essa frustração de aspirações forma parte da consciência social e encontramos, no interior das instituições sociais, instrumentos violentos e eficazes de realização, a agressividade tornar-se-á manifesta". [2]
Ora, a violência que vemos explodir em todos os quadrantes da sociedade brasileira, é efeito dessa decomposição decorrente da perda de laços entre os cidadãos e de compromissos dos que governam em face dos governados. É uma pesada herança do Estado Patrimonial, potencializada nos tempos atuais pela tresloucada opção ideológica gramsciana dos dirigentes e dos militantes petistas.
Oliveira Vianna já apontava, nos seus ensaios sociológicos, para a origem da nossa endêmica violência, na tradicional privatização do Estado por clãs e patotas. Segundo o sociólogo fluminense, o motivo imediato que impelia a população rural brasileira a se organizar em violentos clãs, era a necessidade de defesa contra a anarquia branca praticada por portugueses e pela elite brasileira, já desde os tempos coloniais. Nessa época, só havia no Brasil um Estado organizado: o da Metrópole portuguesa cujos agentes, como se queixava o padre Antônio Vieira (1608-1697) ao Rei, “não vêm aqui buscar o nosso bem, mas os nossos bens”. A corrupta magistratura lusitana não funcionava a contento, como tampouco os tribunais superiores, que ficavam muito distantes; isso levava a população a se refugiar em clãs, para se proteger contra os excessos dos magistrados e poderosos. "Nessa situação de permanente desamparo legal, -- frisa Oliveira Vianna -- em que vivem, sob esse regime histórico de mandonismo, de favoritismo, de caudilhismo judiciário, todos os desprotegidos, todos os fracos, todos os pobres e inermes tendem a abrigar-se, por um impulso natural de defesa, à sombra dos poderosos, para que os protejam e defendam dos juízes corruptos, das devassas monstruosas, das residências infamantes, das vinditas implacáveis. Faz-se, assim, a magistratura colonial, pela parcialidade e corrupção dos seus juízes locais, um dos agentes mais poderosos da formação dos clãs rurais, uma das forças mais eficazes da intensificação da tendência gregária das nossas classes inferiores". [3]
Cheguei a uma etapa da vida, ao passar dos 70 anos, em que a gente não deve se dizer mentiras ou cultivar esperanças pífias. Tenho medo pelo futuro do Brasil. A minha formação liberal me levou, sempre, a aceitar as diferenças. Aceito, como coisa boa, o convívio com pessoas de orientações políticas as mais diversas. Contam-se entre os meus amigos pessoas muito diferentes pelas suas convicções políticas, religiosas, filosóficas e sociais. Numa ocasião, uma amiga me postou no Facebook o seguinte comentário: “Você não se incomoda de, entre os seus amigos nas redes sociais, aparecerem muitos marxistas?” – “Não me incomodo, respondi-lhe, faço até questão de que eles conheçam os meus pontos de vista econômicos e políticos, pois do confronto entre as várias abordagens sai algo de positivo para o nosso convívio social”.

Mas confesso que com o PT perdi as esperanças. Como as perdi, em 1978, quando decidi sair da Colômbia e me radicar no Brasil, ao ensejo da campanha presidencial que então se desenvolvia no meu país natal. Participava então do Partido Liberal renovado que tinha se aglutinado ao redor do ex-presidente Carlos Lleras Restrepo (cujo mandato modernizador tinha transcorrido entre 1966 e 1970). Ele era o meu candidato nas eleições presidenciais que tiveram lugar em 78 e tomei parte ativa na campanha, percorrendo as regiões norte e noroeste do país, em companhia do meu saudoso amigo Orión Alvarez, então reitor da Universidade de Medellín, entidade na qual eu desempenhava as funções de diretor do Instituto de Postgrado e Investigación “Luis López de Mesa”.

Quando percebi que, na Costa Atlântica, os narcotraficantes estavam comprando votos em dólares e que o candidato apoiado por eles, Júlio César Turbay Ayala, do Partido Liberal oficialista, ganharia o pleito turbinado pelos “dineros calientes”, achei que tinha chegado a hora de salvaguardar a família e vir morar no Brasil, enquanto as coisas não melhorassem na minha pátria de origem. Numa das instituições de ensino em que lecionava, a conhecida Universidade de Antioquia, em Medellín, ao longo do ano de 1978 foram assassinados 18 professores de diferentes orientações políticas. Pensar e opinar tinha se tornado operação de alto risco! Foi difícil convencer a minha esposa de que deveríamos retornar ao Brasil. Ela gostava muito de Medellín (que então contava com pouco mais de um milhão de habitantes e era uma bela cidade). Ora, as coisas desandaram rapidamente na Colômbia, que mergulhou, sucessivamente, em duas guerras: a do narcotráfico e a das FARC, ambas potencializadas pela coca, deixando um negro saldo de mais de 200 mil mortos e aproximadamente 2 milhões de refugiados internos.

Volto à análise da nossa realidade brasileira. O PT conseguiu a façanha de esgarçar o tecido social e nos fazer embarcar, em treze anos de desastradas administrações, num navio sem rumo. O resultado de tudo isso é visível no terreno da violência: 50 mil assassinatos por ano cometidos com armas de fogo. Em todos os quadrantes do país sente-se essa situação de violência indiscriminada, que ataca a todos: ricos, remediados, pobres. A mais recente onda dessa dança macabra constitui o assassinato gratuito de cidadãos por arma branca, nas ruas e praias do Rio de Janeiro, cartão postal do país, que se prepara para as Olimpíadas de 2016. O Rio é a cidade onde mais cruamente aparecem os resultados de vários governos populistas, desde a época da primeira administração de Leonel Brizola (1922-2004), nos anos 80 do século passado. 

Mas sob o império do lulopetismo o mal da violência se estendeu a praticamente todos os municípios brasileiros, de mãos dadas com a democratização do comércio da pedra da morte, o crack, tornado abundante e barato graças à ajuda do “companheiro” cocalero Evo Morales, da Bolívia, que duplicou a área de plantação de folha de coca para produção de cocaína e derivados. O Brasil virou a porta de exportação de narcóticos para a África Ocidental, tendo como cabeça de ponte as cidades do Nordeste, tradicionalmente mal aparelhadas no item segurança pública. Dos narco-Estados da África Ocidental, as drogas ganham os mercados europeu e norte-americano. O corredor de exportação de tóxicos estendeu-se também para a Venezuela, nova porta de saída das drogas. Esse país foi convertido pelo chavismo bolivariano num narco-Estado, que abastece regularmente o mercado norte-americano, com a intermediação dos cartéis mexicanos. 

Graças a toda essa atividade marginal, os índices de violência quintuplicaram nas cidades e no interior dos Estados nordestinos, os mais pobres da União. Empresários brasileiros corruptos se associaram aos cartéis da coca, notadamente às FARC, que agem livremente em território venezuelano, para exportar a cocaína produzida no eixo andino e que já é refinada em laboratórios brasileiros. De outro lado, em 98 % dos municípios se comercializa o mais destrutor subproduto da coca, o crack, que é capaz de tornar dependente quem o consume uma só vez. Grande façanha dos lulopetralhas! Consequência direta: a violência disparou em cidades do nordeste e do interior do Brasil.

No poder, os lulopetralhas se especializaram na “honrosa” tarefa de facilitar as coisas para a implantação no Brasil da indústria da morte. A nossa vigilância de fronteiras, missão das Forças Armadas, simplesmente tem sido inviabilizada pela alta administração federal, mediante a conhecida prática do “contingenciamento” de gastos. Hoje os mais de 16 mil quilômetros de fronteira seca não conseguem ser vigiados a contento. As verbas solicitadas pelo Exército ao longo dos últimos dez anos para implantar o Sisfron, a fim de cumprir com a sua patriótica missão, simplesmente foram reduzidas a uma ridícula quantia, que mal dá para manter a tropa. Enquanto isso, o Instituto Lula e os petralhas enchem os bolsos com o dinheiro desviado dos cofres públicos, repassado inescrupulosamente pelas empreiteiras cooptadas pelo governo.

O PT conseguiu potencializar as raízes da violência, que já estavam presentes na formação patrimonialista do nosso Estado e que se reforçaram com o narcotráfico, mediante a disseminação, ao longo dos últimos treze anos, de uma perniciosa ideologia que já vinha inspirando a ação política do Partido dos Trabalhadores. Refiro-me à “revolução cultural gramsciana”.

Misturados no caldo de cultura do peleguismo, o princípio macunaímico do culto ao herói sem nenhum caráter e os imperativos revolucionários do cientificismo gramsciano, deram ensejo a amplo projeto de desconstrução de tudo que cheire à cultura das elites. Subiram ao cadafalso da guilhotina cultural os heróis nacionais, a moral familiar, a religiosidade tradicional. Tudo, como nos prolegômenos jacobinos da Revolução Francesa, passou a ser objeto da sanha revolucionária dos novos messias “orgânicos”, encarregados de garantir a hegemonia das classes populares. A antiga jurisprudência, consolidada em séculos de tradição legislativa, é substituída pelo denominado “direito alternativo”. Os heróis de antanho perdem lugar no pedestal da história, para novas figuras saídas das sombras do populismo. Dom João VI já tinha sido defenestrado por Carla Camurati no seu filme “Carlota Joaquina”, numa típica desconstrução gramsciana dos nossos valores nacionais. Nada presta, somente ficando em pé a retórica vazia da “revolução cultural”, em agressiva ascensão. As “místicas” encenadas habitualmente nas Escolas do MST são prova desse esforço da pedagogia salvadora. Os novos heróis serão todos aqueles que ameaçarem a ordem burguesa. O funk que embala as noitadas patrocinadas pelo narcotráfico, com ostensiva apologia do crime, do sexo entre adolescentes e do consumo de drogas, é guindado ás alturas de manifestação cultural autêntica. Nesse espaço de barbárie não é difícil imaginar a ascensão de novos próceres ligados à quebra de valores, como Marcola, Fernandinho Beira-Mar ou Champinha.

É fácil observar como esse contexto de “revolução cultural” fomenta a violência entre as pessoas e os grupos sociais. Os índices de violência e insegurança jamais decresceram durante os governos petistas. Muito pelo contrário: aumentaram, até chegar ao paroxismo em que nos encontramos, sendo que os cidadãos hoje são reféns do banditismo travestido de “direitos humanos” ou “movimentos sociais”. O único caminho para sair desse impasse consiste num duplo esforço, político e cultural, para tirar terreno dos petralhas e abri-lo à sociedade civil. É essencial que a sociedade brasileira continue pressionando os políticos para que as investigações da operação “Lava-Jato” cheguem a um término satisfatório, com a prisão dos corruptos e dos corruptores. Estes, ao contrário do que apregoa o PT, não estão entre os empresários, mas na cúpula do Partido dos Trabalhadores e nos altos escalões do governo.
No terreno cultural, é necessário criticar com assiduidade as perniciosas propostas do gramscismo, que constitui a ponta de lança dos petralhas para destruir os valores que dão sustentação à sociedade brasileira e que se situam na defesa da família, da livre empresa, da religião, do saneamento do governo representativo e da política em geral, da valorização das Forças Armadas e do culto aos verdadeiros heróis da nossa história, que não são os subversivos nem os larápios (como pretende fazer crer a intelligentsia petralha), mas as figuras de prol da nossa história, tão vilipendiada pelos doutrinadores de plantão.

Felizmente aparece no horizonte da sociedade brasileira progressivo movimento de grupos e de pessoas tendente à formulação de novas propostas políticas, que nos libertem da onda de desfaçatez e cinismo totalitário da petralhada. Nas manifestações dos últimos dois anos uma coisa fica clara: a sociedade brasileira está cansada com o PT e a sua ação destruidora. Os brasileiros querem, cada vez mais, novas instituições, que lhes garantam o tranquilo exercício da liberdade e o espaço pluralista necessário para formação dos seus filhos. Essa força crescente se faz sentir no Congresso, que tem acolhido, a partir da pressão das ruas e dos movimentos cívicos, propostas para melhorar a representação (como a do voto distrital, já aprovado no Senado e com debate marcado na Câmara dos Deputados). Contrariando a cultura gramsciana que permite atos de ódio contra a religião cristã (como se observou nas cenas cristofóbicas ocorridas na última parada Gay em São Paulo), a sociedade brasileira reivindica hoje o respeito aos símbolos da nossa tradição religiosa e a defesa do sadio pluralismo.

Do ângulo do debate de ideias aparecem no horizonte novas propostas liberais e conservadoras que lutam pela defesa de valores tradicionais da civilização ocidental, como o respeito à família, além do já mencionado apelo para a preservação dos símbolos religiosos caros à tradição brasileira. Não se trata de misturar religião e política, mas de abrir um espaço de liberdade para os cultos religiosos, longe da intolerância e respeitando o pluralismo de crenças. Formata-se, no seio da sociedade brasileira, forte movimento de organização de siglas partidárias que preservem esses elementos importantes da nossa cultura, com propostas de inspiração política liberal e conservadora. As próximas décadas verão surgir novas propostas políticas e partidos afinados com a atual realidade complexa e dinâmica da nossa sociedade, com a defesa da liberdade individual, a preservação dos valores caros à civilização cristã ocidental e a derrubada das tendências totalitárias que, fincadas no imperativo categórico de que “os fins justificam os meios”, têm tornado tão convulsa a vida social com a consequência direta dos índices crescentes de violência e criminalidade.





[1] Em encontro que tive em São Paulo, em Setembro de 1979,com o general Valencia Tovar, contou-me que ordenou aos soldados sob seu comando que poupassem a vida de Camilo Torres, caso o encontrassem. O ex-sacerdote terminou sendo morto na localidade de Patio Cemento (Departamento de Santander), num enfrentamento com uma coluna do Exército. Segundo os integrantes da mesma, o padre guerrilheiro praticamente se abalançou atirando sobre a coluna de militares, tendo sido baleado. Os seus restos mortais foram colocados provisoriamente, por ordem do general Valencia Tovar, no Panteão Militar de Bucaramanga, tendo sido postos à disposição da família.
[2] TORRES, Camilo. "La violencia y los cambios socioculturales en las áreas rurales colombianas". In: Vários autores, Once ensayos sobre la violencia.  Bogotá: CEREC/ Centro Gaitán, 1985, pgs. 106-107.
[3] VIANNA, Francisco José de Oliveira. Populações meridionais do Brasil: vol. I - Populações rurais do centro-sul. 6ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1973, p. 142.

sábado, 6 de junho de 2015

BALANÇO DOS COLÓQUIOS "ANTERO DE QUENTAL" REALIZADOS EM SÃO JOÃO DEL REI, SEGUNDO ANTÔNIO PAIM

Na segunda semana de Maio deste ano realizou-se, em São João del Rei, a mais recente versão dos Colóquios "Antero de Quental", dedicados ao estudo das relações entre as filosofias portuguesa e brasileira. Divulgo, a seguir, o  texto da avaliação desses eventos feita por Antônio Paim.


Singelo registro da contribuição
de José Maurício de Carvalho
para a continuidade dos estudos
luso-brasileiros


Devemos a Eduardo Soveral (1927/2003) o mérito de nos haver despertado para a importância de nos darmos conta de que a adequada compreensão do processo de formação da cultura brasileira somente poderá ocorrer se a aproximarmos da fonte originária: a cultura portuguesa. É certo que estamos todos sob o manto protetor da cultura ocidental e o seu conhecimento será sempre o ponto de partida. Mas aqui se trata de especificidades.

Soveral concebeu um método para a efetivarmos a pretendida aproximação. Resumidamente: tomar ciclos históricos curtos; nomear e estudar os pensadores destacados em Portugal e no Brasil, isoladamente. Somente depois disto confronta-los com vistas a identificar o que haveria de comum e precisamente o que seria específico. Pacientemente, na Universidade Gama Filho, desde fins dos anos setenta e ao longo da década seguinte, instruiu-nos em tal procedimento. Os Colóquios surgiram (1991) como forma de dar continuidade a esse trabalho, tendo em vista que, como fruto da normalidade democrática introduzida na vida portuguesa nos anos subsequentes à Revolução dos Cravos, os professores portugueses que aqui se haviam exilado regressaram a Portugal, Soveral entre eles.

Soveral faleceu em 2003 e, cumpre reconhece-lo, não tem sido fácil dar continuidade à investigação luso-brasileira. Compreensivamente,  alguns professores portugueses, com destaque para Antonio Braz Teixeira, têm preferido produzir novas interpretações do pensamento brasileiro. Se vivo fosse, nosso saudoso mestre Miguel Reale certamente aplaudiria essa iniciativa, em decorrência do seu entendimento de que a filosofia nutria-se da diversidade de pontos de vista. Posso testemunhar o empenho e a solicitude com que estimulou  Aquiles Cortes Guimarães a produzir uma interpretação do curso da filosofia brasileira do ângulo da fenomenologia. Basicamente, consistiria em tomar a consciência como referência desde o ciclo colonial e não intercala-la com a liberdade, segundo o ponto de vista culturalista. Só que isto não tem muito a ver com a investigação luso-brasileira.

Essa dificuldade patenteou-se quando propusemos dar continuidade ao trabalho liderado por Soveral que, segundo nosso entendimento, havia concluído o confronto em matéria de filosofia. Em conformidade com o programa que estabelecera, deveríamos nos ocuparmos do pensamento político, segundo o seu método No sétimo Colóquio (2006), o primeiro a realizar-se em São João del Rei, sob a direção de José Maurício de Carvalho, tivemos nós mesmos que nos ocuparmos do estudo dos autores portugueses, para confronta-lo ao brasileiro, mais ou menos a mesma coisa ocorrendo com o colóquio seguinte (oitavo; 2009). Entendo que terá sido muito produtivo o trabalho então desenvolvido. Pudemos constatar que, nesse particular, a experiência brasileira terá influído em Portugal, no caso do Regresso, entre nós, e da Regeneração, em Portugal, o que somente vinha sendo reconhecido no caso da República, quando essa influência tornar-se-ia notória. Se embargo da prevalência da influência portuguesa sobre nós, no século passado, notadamente nos casos do Estado Novo e da Constituição brasileira de 88, onde a presença da Constituição saída da Revolução dos Cravos marcaria a sua presença.

A escolha do tema da ética para os Colóquios seguintes não me parece que tenha sido uma escolha adequada. Notadamente porque, em relação a esse tema, não houve o paciente trabalho de estudo de ciclos curtos, agravada pelo fato de que, conforme Ubiratan Macedo e Mário Vieira de Melo, que se detiveram no tema, o país tangenciou as questões nucleares graças, de um lado à sobrevivência da moral contra reformista, sem ser devidamente enfrentada, seguida da simbiose marxista positivista. Não tivemos oportunidade de estudar, nesse plano, a presença marxista em Portugal. Disciplinadamente, José Maurício de Carvalho organizou em São João del Rei o Nono Colóquio (2013), dedicado ao tema.  Assinalo apenas que manifestei a minha opinião sobre essa opção no texto incluído nos Anais do IX Colóquio (páginas 418-427). A meu ver, cumpria-nos aventar hipóteses acerca das razões pelas quais a cultura luso-brasileira recusou  a moral e a ética modernas.

Os quatro volumes dos Anais dos mencionados Colóquios ficam como testemunho do monumental trabalho desenvolvido por José Maurício de Carvalho no cumprimento do programa herdado de Soveral para estudo do pensamento luso-brasileiro. Ricardo Vélez costuma dizer que, no Brasil, a organização de estudos sobre questões determinadas tem, geralmente, um ciclo curto de existência. Andaria, quando muito, à volta de um decênio (2006/2015), justamente o que ora se completa, com o décimo primeiro Colóquio, convocado para maio deste ano (2015), em seguida ao qual terá lugar a aposentadoria de José Maurício de Carvalho.  Assim, não seria exceção à regra se estivermos presenciando o término do período em que São João del Rei os capitaneou.


São Paulo, abril, 2015.