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sábado, 6 de junho de 2015

BALANÇO DOS COLÓQUIOS "ANTERO DE QUENTAL" REALIZADOS EM SÃO JOÃO DEL REI, SEGUNDO ANTÔNIO PAIM

Na segunda semana de Maio deste ano realizou-se, em São João del Rei, a mais recente versão dos Colóquios "Antero de Quental", dedicados ao estudo das relações entre as filosofias portuguesa e brasileira. Divulgo, a seguir, o  texto da avaliação desses eventos feita por Antônio Paim.


Singelo registro da contribuição
de José Maurício de Carvalho
para a continuidade dos estudos
luso-brasileiros


Devemos a Eduardo Soveral (1927/2003) o mérito de nos haver despertado para a importância de nos darmos conta de que a adequada compreensão do processo de formação da cultura brasileira somente poderá ocorrer se a aproximarmos da fonte originária: a cultura portuguesa. É certo que estamos todos sob o manto protetor da cultura ocidental e o seu conhecimento será sempre o ponto de partida. Mas aqui se trata de especificidades.

Soveral concebeu um método para a efetivarmos a pretendida aproximação. Resumidamente: tomar ciclos históricos curtos; nomear e estudar os pensadores destacados em Portugal e no Brasil, isoladamente. Somente depois disto confronta-los com vistas a identificar o que haveria de comum e precisamente o que seria específico. Pacientemente, na Universidade Gama Filho, desde fins dos anos setenta e ao longo da década seguinte, instruiu-nos em tal procedimento. Os Colóquios surgiram (1991) como forma de dar continuidade a esse trabalho, tendo em vista que, como fruto da normalidade democrática introduzida na vida portuguesa nos anos subsequentes à Revolução dos Cravos, os professores portugueses que aqui se haviam exilado regressaram a Portugal, Soveral entre eles.

Soveral faleceu em 2003 e, cumpre reconhece-lo, não tem sido fácil dar continuidade à investigação luso-brasileira. Compreensivamente,  alguns professores portugueses, com destaque para Antonio Braz Teixeira, têm preferido produzir novas interpretações do pensamento brasileiro. Se vivo fosse, nosso saudoso mestre Miguel Reale certamente aplaudiria essa iniciativa, em decorrência do seu entendimento de que a filosofia nutria-se da diversidade de pontos de vista. Posso testemunhar o empenho e a solicitude com que estimulou  Aquiles Cortes Guimarães a produzir uma interpretação do curso da filosofia brasileira do ângulo da fenomenologia. Basicamente, consistiria em tomar a consciência como referência desde o ciclo colonial e não intercala-la com a liberdade, segundo o ponto de vista culturalista. Só que isto não tem muito a ver com a investigação luso-brasileira.

Essa dificuldade patenteou-se quando propusemos dar continuidade ao trabalho liderado por Soveral que, segundo nosso entendimento, havia concluído o confronto em matéria de filosofia. Em conformidade com o programa que estabelecera, deveríamos nos ocuparmos do pensamento político, segundo o seu método No sétimo Colóquio (2006), o primeiro a realizar-se em São João del Rei, sob a direção de José Maurício de Carvalho, tivemos nós mesmos que nos ocuparmos do estudo dos autores portugueses, para confronta-lo ao brasileiro, mais ou menos a mesma coisa ocorrendo com o colóquio seguinte (oitavo; 2009). Entendo que terá sido muito produtivo o trabalho então desenvolvido. Pudemos constatar que, nesse particular, a experiência brasileira terá influído em Portugal, no caso do Regresso, entre nós, e da Regeneração, em Portugal, o que somente vinha sendo reconhecido no caso da República, quando essa influência tornar-se-ia notória. Se embargo da prevalência da influência portuguesa sobre nós, no século passado, notadamente nos casos do Estado Novo e da Constituição brasileira de 88, onde a presença da Constituição saída da Revolução dos Cravos marcaria a sua presença.

A escolha do tema da ética para os Colóquios seguintes não me parece que tenha sido uma escolha adequada. Notadamente porque, em relação a esse tema, não houve o paciente trabalho de estudo de ciclos curtos, agravada pelo fato de que, conforme Ubiratan Macedo e Mário Vieira de Melo, que se detiveram no tema, o país tangenciou as questões nucleares graças, de um lado à sobrevivência da moral contra reformista, sem ser devidamente enfrentada, seguida da simbiose marxista positivista. Não tivemos oportunidade de estudar, nesse plano, a presença marxista em Portugal. Disciplinadamente, José Maurício de Carvalho organizou em São João del Rei o Nono Colóquio (2013), dedicado ao tema.  Assinalo apenas que manifestei a minha opinião sobre essa opção no texto incluído nos Anais do IX Colóquio (páginas 418-427). A meu ver, cumpria-nos aventar hipóteses acerca das razões pelas quais a cultura luso-brasileira recusou  a moral e a ética modernas.

Os quatro volumes dos Anais dos mencionados Colóquios ficam como testemunho do monumental trabalho desenvolvido por José Maurício de Carvalho no cumprimento do programa herdado de Soveral para estudo do pensamento luso-brasileiro. Ricardo Vélez costuma dizer que, no Brasil, a organização de estudos sobre questões determinadas tem, geralmente, um ciclo curto de existência. Andaria, quando muito, à volta de um decênio (2006/2015), justamente o que ora se completa, com o décimo primeiro Colóquio, convocado para maio deste ano (2015), em seguida ao qual terá lugar a aposentadoria de José Maurício de Carvalho.  Assim, não seria exceção à regra se estivermos presenciando o término do período em que São João del Rei os capitaneou.


São Paulo, abril, 2015.

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