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terça-feira, 8 de outubro de 2019

SETENTA ANOS DE COMUNISMO NA CHINA




Acerca da Política, a meditação ocidental elaborou, ao longo dos últimos 2500 anos, dois modelos que foram sistematizados, inicialmente, por dois gênios da reflexão filosófica: Platão e o seu discípulo Aristóteles. Segundo a concepção platônica, expressa no diálogo A República,  a política ideal consiste na unanimidade de todos ao redor do rei filósofo, que é quem pensa pelo todo social.

Segundo Aristóteles, no entanto, não existe política ideal, mas apenas possível. A essência da política radica num fato importante: o ponto de partida do homem, nas suas relações em sociedade, é o dissenso, correspondente às variadas ordens de interesses que movimentam os indivíduos, sendo impossível se pensar, de entrada, numa situação de unanimidade. A política consiste, segundo Aristóteles deixou sistematizado na sua obra  A Política, na realidade do convívio humano. Ela é garantida mediante a formulação de consensos, a fim de identificar aqueles interesses que são válidos para todos, o que implica, evidentemente, numa negociação entre os interesses individuais divergentes. O papel do político profissional seria, para o Estagirita, o de mediador na busca de consensos a partir da diversidade de interesses presentes na sociedade. Não se trataria, portanto, de uma entropia em que ninguém dissente. Trata-se, para Aristóteles, de uma unidade viva, em que a construção de consensos não pára e o diálogo entre os indivíduos é essencial na caminhada rumo à finalidade buscada, o caminho para o convívio pacífico em sociedade.

No mundo moderno, essa visão dicotômica, a platônica e a aristotélica, encontrou fiéis seguidores. O mais importante seguidor do modelo platônico da unanimidade ao redor do Rei Filósofo, foi, no século XVIII, o filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau, que considerava ser a empresa política uma grande obra de construção da unanimidade. Nas democracias de massas que passaram a substituir as comunidades isoladas da Idade Média, o segredo consistiria, pois em como construir a unanimidade. Rousseau dá a dica na sua obrinha intitulada: Do contrato social, onde, no capítulo VIII, o filósofo diz como se constrói aquela: o “comitê de salvação pública” identificado com “os puros”, aqueles que renunciaram à defesa dos mesquinhos interesses individuais, constrói a unanimidade mediante o terror do Estado, apropriado por eles. Quem divergir deve ser eliminado, como alguém que conspira contra a felicidade geral. Essa é a dica para organizar solidamente o poder na modernidade. Ou seja, abre-se a porta para o modelo totalitário, que terminou florescendo no mundo no “curto século XX”, com os totalitarismos comunista e nazifascista. O caminho seria cruel, mas necessário: a destruição dos dissidentes, aqueles que, movidos por interesses particulares, fazem oposição ao rei filósofo, que constrói o Estado a partir da unanimidade. Situam-se neste contexto unanimista, na modernidade, os denominados por Weber de “Estados Patrimoniais”, aqueles que emergiram da hipertrofia de um poder patriarcal original, que alarga a sua dominação doméstica sobre territórios, pessoas e coisas extrapatrimoniais.

A concepção aristotélica da política possível foi retomada por John Locke, no século XVII, na sua obra intitulada: Dois tratados sobre o governo civil (1690). Para o filósofo inglês, organizamos o Estado devido à necessidade de nos unirmos na defesa dos nossos interesses individuais, que são ameaçados pelas forças da natureza ou pelos nossos inimigos. O Estado surge da união dos que, na busca de defender os seus interesses naturais de defesa da vida, da liberdade e das posses, constituem a Comunidade Política com a finalidade de melhor garantir a defesa dos interesses individuais, enfatizando a preservação daqueles interesses que sejam comuns aos indivíduos. O Estado, portanto, surge da defesa dos direitos inalienáveis dos indivíduos à vida, à liberdade e às posses, e não pode se sobrepor a eles, negando os direitos fundamentais. Foi formulado, assim, por Locke, o modelo contratualista de Estado, que é formatado a partir da luta pela defesa dos interesses individuais. A essência da política não seria o banimento do conflito entre indivíduos e classes, mas a superação desse estado conflituoso mediante a negociação entre os interesses representados. Não haveria, assim, um momento definitivo em que desaparecesse o conflito de interesses. Mas há a posta em prática de um mecanismo de sobrevivência da comunidade política, mediante os consensos que a comunidade for formulando para superar os conflitos que aparecem. Situam-se neste contexto de busca de consensos, na modernidade, os denominados Estados contratualistas, aqueles que surgiram da luta de classes e que desaguaram na negociação entre as classes que lutam pela posse do poder.

Não há, no mundo de hoje, sobre a Terra, uma nação que tenha, como a China, uma memória cultural que abarque 4.500 anos. Esse fato confere aos chineses uma característica única no seio da globalização. Eles constituem o único país identificado com uma civilização milenar, que foi acumulando, ao longo das centúrias, memória invejável, que se preservou em decorrência da existência de um estamento que cuidou, sempre, dessa tarefa de manter vivo o DNA cultural: o Mandarinato.

Os chineses inseriram, na sua cultura, duas importantes tradições: por um lado, de férrea unificação e de defesa; por outro, de expansão comercial. A primeira tradição sedimentou-se muito cedo, com a dinastia Chin (entre 221 e 202 antes de Cristo), quando da unificação do país, após o ciclo conturbado dos Estados combatentes. Essa unificação deu-se de modo feroz, no contexto de um agressivo Estado Patrimonial construído ao redor do Imperador e com o auxílio de poderoso estamento burocrático, o Mandarinato, mediante a eliminação das forças oponentes ao poder central do soberano. A unidade primordial do Estado identificou-se com a imposição da unanimidade ao redor do Imperador. Sedimentou-se, assim, a prática defensiva do vasto império mediante o isolamento do mundo exterior, garantido pela construção da Grande Muralha (com quase 5.000 quilômetros de extensão), uma obra somente possível graças ao modelo de despotismo hidráulico, que foi reforçado, alguns séculos mais tarde, com as obras empreendidas pela dinastia Tang (490-919).

A segunda tradição, de expansão comercial, nasceu também muito cedo, ao longo da dinastia Han (202-265), mediante a adoção do Confucionismo. Essa tradição foi reforçada em momentos posteriores como a dinastia Tang, e especialmente ao longo da dinastia mongólica Yuan (1279-1368), mediante a efetivação de grandes trabalhos de construção de vias de comunicação, o incremento da navegação e a publicação do Grande Atlas (tudo isso, evidentemente, em função da expansão comercial).

A novidade da China atual repousa, justamente, na retomada, nos atuais momentos de agressiva globalização, desses dois elementos culturológicos, que funcionam, como diria o general Golbery, à maneira das “sístoles e diástoles do coração do Estado”. Afirmação de uma política defensiva, pensada ao redor do conceito de “Mundo Murado”, ao mesmo tempo em que ocorre o desenvolvimento de uma agressiva expansão comercial. Abertura à ciência e à tecnologia ocidental, sem, no entanto, abrir mão da preservação da própria identidade. Um aspecto não pode ser equacionado, na mentalidade da elite dirigente chinesa, sem que o outro seja também levado em consideração.

Uma palavra sobre o conceito de Mundo Murado, que forma uma espécie de pivô da segurança do regime. A propósito, escreve Mark Leonard: “O fio condutor que liga as idéias emergentes da China sobre globalização é uma busca por controle. Pensadores chineses querem criar um mundo onde governos nacionais possam ser donos de seu próprio destino, ao invés de se sujeitarem aos caprichos do capital global e da política externa americana. Eles querem investimentos, tecnologia e acesso ao mercado, mas não querem absorver valores ocidentais. Seu objetivo não é isolar a China, mas, sim, permitir que a China se junte ao mundo nos seus próprios termos. Em resumo, eles querem impedir que a China continue sendo achatada pela globalização” [Leonard, O que a China pensa? 2008: 134].

Mundo Murado seria, portanto, a construção de uma globalização econômica presidida pela China, como potência hegemônica, e como formatadora de uma nova escala de valores, que incluiriam, certamente, o capitalismo, mas sobre bases diferentes das elaboradas pela cultura americana, no modelo que os chineses passaram a denominar de “Capitalismo Rio Amarelo”. Tal modelo capitalista “encoraja o uso de dinheiro público para inovação, um impulso de proteger a propriedade pública e reformas graduais de Zonas Econômicas Especiais”. Ora, esse modelo estaria seduzindo, na atualidade, não apenas os países africanos. “Em sua busca por imitar o sucesso chinês, - frisa Leonard - países tão diferentes como Rússia, Brasil e Vietnã estão copiando a política industrial ativa de Pequim, que usa dinheiro público e investimentos estrangeiros para construir indústrias de capital intensivo. Esses países (...) desaceleraram – por vezes até mesmo reverteram – os programas de privatização que adotaram nos anos 1990” [Leonard, Ob. Cit., 2008: 137].   

Como o poderio americano ainda é muito grande, pensam os intelectuais chineses, convém, por enquanto, administrar o declínio dos Estados Unidos, de forma a que não seja por demais acelerado (uma queda excessiva impediria aos chineses de se beneficiarem, como o fazem agora, da tecnologia e dos recursos financeiros fornecidos pelos Estados Unidos). Mas, ao mesmo tempo, trata-se de que a China ganhe degraus no mundo globalizado, polarizando outros países ao redor do seu modelo de capitalismo marcado pela forte presença do Estado e por valores provenientes do patrimonialismo chinês.

O modelo de gestão do Estado chinês assemelha-se, a meu ver, ao do patrimonialismo modernizador getuliano, em que o Executivo governa alicerçado nos Conselhos Técnicos Integrados à Administração. Justamente para garantir a criatividade em todos os aspectos da gestão pública, o governo chinês dá grande importância, hoje, ao desenvolvimento da sua elite pensante. Os chineses têm feito, nas duas últimas décadas, um esforço notável em prol de constituir centros de pesquisa de ponta e para preparar quadros para estes. Esses centros agem como órgãos permanentes de consulta do Estado. Um exemplo: a CASS, que é a mais alta organização de pesquisa acadêmica nos campos da filosofia e das ciências sociais, reúne 50 centros de pesquisa, que abrangem 260 disciplinas e 4 mil pesquisadores em tempo integral. Essa elite efetiva “a busca da China por autonomia intelectual”, sob o férreo comando do governo, que não desmobilizou, de forma nenhuma, os seus mecanismos repressivos, mas que também não toma medidas sem prévia consulta aos cientistas. Diríamos que as regras do jogo foram claramente assinaladas: você, como intelectual, pode participar desses organismos (nos quais será muito bem pago), pode até criticar o governo, mas em tudo isso há um limite: a manutenção incólume da estrutura de poder do Partido Comunista. Avançar o sinal tem como resposta a eficaz repressão que faz desaparecer dissidentes ou que, se necessário, não duvida em mandar passar os tanques por cima de ativistas ousados, como aconteceu na Praça Tiannamen em 1989.

Dentro desse marco de tolerância, muito bem delimitado, os pensadores chineses estão preocupados com uma dupla pesquisa, que visa a reconciliar dois objetivos concorrentes: como ter acesso aos mercados globais, protegendo a China, ao mesmo tempo, “da ventania da destruição criativa que poderia (desabar) sobre seu sistema político e econômico”. Em outros termos, eles tratam de responder à indagação acerca de como “a China virá para desafiar o mundo achatado da globalização americana com um Mundo Murado, de criação própria” [Leonard, Ob. Cit., 2008: 29].

Algo ficou de fora da escala de valores da civilização chinesa, nessa evolução de séculos que deságua na atual globalização? Certamente, o valor ausente é o da liberdade, na forma incondicionada e simples em que vingou na civilização ocidental, como direito inalienável do indivíduo, que o leva a organizar o poder de baixo para cima, a partir do reconhecimento dos direitos individuais à vida, à liberdade, às posses, como apregoava John Locke. Justamente os dois problemas enfrentados, a ferro e fogo, pela China contemporânea, dizem relação aos espaços em que a ameaçadora forma da liberdade individual passou a inspirar o funcionamento das instituições: o Tibet e Taiwan. No caso tibetano, é claro que a China sempre encontrou uma não sintonia figadal com a forma de liberdade religiosa, que se traduzia em instituições teocráticas liberais no regime de Lhasa (que levaram Leibniz a imaginar, no século XVII, uma China protocristã que faria aliança com o Ocidente, contra o Islã).  No caso taiwanês, os chineses não aceitam o modelo republicano de liberdades presente na “província dissidente”. Se houver, nas próximas décadas, um confronto armado em que a China se engaje, certamente ele começará por Taiwan. A experiência de Hong-Kong situa-se, no contexto do vasto experimento democrático dos chineses, como uma “Área Especial” em que vigora a liberdade de comércio, mas em que foram garantidas, preventivamente, as instituições que ligam essa província ao governo central da China, sem que haja a possibilidade de emergirem formas contestatórias de gestão.

 O elemento que seduz, na China contemporânea é, certamente, o fabuloso desenvolvimento econômico, que age como uma espécie de chamariz para a modalidade de capitalismo “Rio Amarelo”. As características dele quebram todas as expectativas estatísticas. Como frisa conhecido estudioso: “A escala da China é impressionante; é quase impossível, para nós, entender suas estatísticas vitais. Com um habitante a cada cinco do globo, a entrada da China no mercado mundial, quase dobrou a força de trabalho global. Metade das roupas e calçados do mundo já têm uma etiqueta onde se lê Made in China; e a China produz mais computadores do que qualquer outro lugar do planeta. O apetite voraz da China por recursos está devorando 40% do cimento do mundo, 40% do carvão, 30% do aço e 12% de energia. A China está tão integrada na economia global que seus prospectos têm impactos imediatos em nossas vidas diárias: ao mesmo tempo em que dobra o preço do petróleo e corta pela metade o custo dos nossos computadores, mantém a economia dos EUA em circulação, mas afunda a indústria calçadista da Itália” [Leonard, Ob. Cit., 2008: 18]. 

Terminemos destacando as perspectivas que se abrem, para a China, nesta quadra do seu desenvolvimento histórico:

1 – Mudança de rumo, não abandono do Patrimonialismo e retomada, sob Xi Jinping, atualmente, da ortodoxia comunista. A China, com certeza, está longe de sair da tradição patrimonialista que já tinha sido apontada, nela, por Weber e por Wittfogel. Continuará o poder a ter “donos”. O abandono temporário do comunismo maoísta no final do século XX não significou, de forma nenhuma, um rompimento com a tendência à privatização do poder por parte de uma elite ou de uma casta. O Mandarinato chinês se modernizou. Tornou-se o gestor de uma nova Sociedade Limitada capitalista. O capitalismo chinês não é uma economia aberta às sociedades anônimas. É um modelo de capitalismo dirigido desde o Estado. Ou seja, é um modelo capitalista administrado pelo Estado Patrimonial.  Os proprietários da Sociedade Limitada são os dirigentes do Partido Comunista. Acionistas minoritários são aceitos. Mas não podemos deixar de ter dúvidas quanto ao alcance do poder deles em face dos interesses do Mandarinato. Quem não se ajustar – como aconteceu com a Google e, como nos dias que correm, está acontecendo com os jovens da elite chinesa que protestam em Hong-Kong  – tem de tirar a máscara e se conformar, fazer as malas e ir embora, ou simplesmente ser trancafiado na cadeia. A nova ortodoxia de Xi-Jinping é uma volta a um Mão vestindo terno ocidental, mas, afinal contas, um líder comunista que doutrina e põe ordem em casa.

2 – Inserção da prática democrática no contexto do Patrimonialismo de tipo estamental-confuciano. A China pós Mao mudou a base cultural da dominação patrimonialista. O antigo comunismo foi trocado por uma versão afinada com a secular tradição confuciana. Se vivo fosse, Napoleão diria: “arranhai um chinês, encontrareis um confuciano”. Lembremos que o grande general já tinha dito: “arranhai um russo, encontrareis um tártaro”. Ora, o Mandarinato chinês se reciclou, deixou de vestir trajes de militante camponês para aderir ao terno e gravata, engavetou Marx e desengavetou Confúcio. O Mandarinato, que é o estamento dominante do poder, professa essa milenar religião da disciplina, do trabalho, do comércio, do capitalismo à la chinesa. Professa e fortalece a crença de uma “democracia dos melhores” nas várias instâncias da administração. “Democracia dos melhores” que consiste em eleger unicamente aqueles candidatos que se afinem com o conceito oficial de “Mundo Murado”. Assim como em algumas regiões surgiram as áreas econômicas especiais, também o governo de Pequim estimulou, recentemente, uma experiência de democracia à la ocidental no remoto município de Pingchang, sob a orientação de um dos intelectuais do Partido Comunista mais preparado em matéria de inovações, Yu Keping. No entanto, esta é uma experiência que mais parece, como diríamos no Brasil, “para inglês ver”, ao não ultrapassar os limites estreitos de um remoto município do interior; experiência que, se apresentar riscos, pode muito bem ser suspensa, de forma instantânea, pelo governo central.

3 – Reforço ao Patrimonialismo de regimes ao redor do mundo, na Ásia, na África, no Oriente Médio e na América Latina. A forma pragmática em que a nova liderança chinesa está se relacionando com os diferentes países nessas regiões é muito especial. Não questiona direitos humanos nem liberdades fundamentais (como faz, por exemplo, com o ditador do Sudão, com os generais da Birmânia, com os sucessores dos irmãos Castro em Cuba ou com o líder de plantão da “Revolução Bolivariana”, Nicolás Maduro, em Caracas). Interessa a Pequim que as relações econômicas andem bem. De forma indireta, via pragmatismo comercial, os chineses terminam reforçando os regimes de patrimonialismo tribal na África, de estalinismo atômico na Coréia do Norte, de patrimonialismo macunaímico e populista na América Latina, de terrorismo fundamentalista dos Aiatolás, no Irã. Os Mandarins vêm com bons olhos os problemas que esses países causam à diplomacia europeia e norte-americana. É uma forma indireta de ver reforçado o seu poder no cenário internacional. Só não toleram, e aniquilam, qualquer intento de patrimonialismo islâmico no seu próprio território, como fizeram com os revoltosos da província de Xianjiang em 2007 e 2008. Os chineses cultivam ousadas iniciativas no terreno da cultura, hoje, por exemplo, investindo pesadamente em Hollywood, de forma a explorar as “contradições do Ocidente” em torno à impossibilidade da prática da democracia liberal.

4 – Reforço à presença militar chinesa em potências emergentes e em países do terceiro mundo. Essa estratégia inclui venda de armas e visitas de oficiais latino-americanos à China. A propósito, o estudioso Loro Horta informa: “Desde 2000, a China emprega uma estratégia diplomática paciente e de amplo escopo em relação à América Latina. A nova ofensiva sedutora do Exército de Libertação Popular (ELP) vem se consolidando de forma gradual, numa posição segura. As iniciativas, além da venda de armas, permitem cada vez mais ao ELP criar uma base para a cooperação militar de longo prazo, num futuro não muito distante” [Horta, Military Review, 2009: 30]. Nos últimos anos, formaram-se em academias militares chinesas mais de 100 oficiais representantes das três forças de 12 países latino-americanos. Esses números tendem a aumentar e a tornar cada vez mais forte a presença militar chinesa no subcontinente latino-americano. É o fenômeno que os estudiosos chamam de “diplomacia militar da China”.

5 – Modelo estatal de financiamento da pesquisa. Aqui radica um dos gargalos para o regime de Pequim alcançar os Estados Unidos. No sistema americano, o próprio Estado estimula as indústrias privadas a realizarem trabalhos de pesquisa nas áreas mais sensíveis para o desenvolvimento tecnológico do país. Mas a pesquisa é financiada apenas em parte pelo setor público. Compete à iniciativa privada desenvolver os trabalhos, a fim de manter a competitividade em face das exigências do Estado. A iniciativa privada, estimulada, arca com o ônus da pesquisa. Na China, o financiamento é inteiramente estatal. Conseguirá o regime de Pequim desenvolver o volume de pesquisas em alta tecnologia que o país precisa para superar aos seus competidores ocidentais, notadamente os Estados Unidos? Conseguirão os chineses criar e manter, por longo tempo, um regime adequado de liberdade intelectual, sem o qual as pesquisas não avançam? Por enquanto, em áreas muito sensíveis, ainda eles dependem da tecnologia ocidental.
 
BIBLIOGRAFIA
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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

TOLERÂNCIA E DIVERSIDADE


A tolerância, que foi uma conquista do Liberalismo nos últimos quatro séculos, pretende hoje ser superada pelo pensamento "politicamente correto". Isso em aras de uma interpretação rousseauniana e ressentida da questão das diferenças. 

Mas vamos primeiro à lembrança das origens do tema da tolerância: isso se passou na Inglaterra do século XVII, sendo John Locke (1632-1704) o grande sistematizador da questão. O ambiente, até então, era de nítida intolerância em matéria de pluralidade de credos religiosos. Como lembra com propriedade o escritor britânico Ken Follet (1949), no período que antecedeu à Revolução Gloriosa Inglesa (1688), o clima era de intolerância entre os vários credos, o que deu ensejo a inúmeros conflitos pela Europa afora, com as fogueiras crepitando em todos os quadrantes. A única unanimidade era que a fogueira deveria existir. Quanto a quem a frequentaria, aí se davam inúmeras diferenças, de acordo com o credo de quem acendesse a pira. Locke, jovem médico, que tinha se aproximado por questões profissionais do líder dos whigs no Parlamento, lorde Shaftesbury (1621-1683), terminou um pouco ao acaso tomando carona no debate. Chamado na alta madrugada na casa paterna para atender a um moribundo lorde, Locke terminou salvando a vida de Shaftesdbury lhe praticando uma incisão de urgência na vesícula supurada, evitando assim a morte do paciente. 

O lorde, já curado, quis premiar os esforços do jovem profissional, lhe oferecendo o cargo de secretário particular  no Parlamento. Assim, pela vesícula do conde, Locke entrou na política britânica, como o mais importante teórico da onda de renovação que o partido whig imprimira nos costumes políticos na tradicional estrutura da monarquia absoluta inglesa. Indisposto com o soberano, Shaftesbury foi exilado na Holanda, e para lá Locke viajou acompanhando o seu chefe. Na liberal República Holandesa, Locke travou conhecimento com os pensadores que, naquela época, se insurgiam contra a intolerância religiosa, a começar por alguns pastores da tendência denominada dos "Remonstratenses". Para eles, era inconcebível que a título de "cristãos" os homens se matassem numa Europa desolada pelos conflitos de religião. Seria necessário pôr em prática o mandamento da caridade, traduzido numa atitude de tolerância para com os que tivessem opções religiosas diferentes. 

Do pacto de tolerância somente seriam excluídos aqueles que praticassem a intolerância de forma sistemática contra os outros credos religiosos, alicerçados num poder temporal cooptado por eles: arrolava Locke entre esses excluídos os católicos, em decorrência de o Papa, líder espiritual deles, ser também um soberano temporal que tinha como propósito atentar contra a estabilidade da Coroa britânica (desligada do catolicismo desde os tempos de Henrique VIII). E também ficavam por fora os muçulmanos, como consequência da prática da jihad ou guerra religiosa contra os infiéis.

Na Holanda, Locke teve oportunidade de travar relações com os estudiosos da questão da tolerância: Pierre Bayle (1647-1706), o pensador francês que tinha feito do tema o centro da sua meditação filosófica e o judeu de origem portuguesa Baruch de Espinosa (1632-1677), que tinha sofrido em carne própria a intolerância dos seus irmãos de fé, ao ser excomungado da Sinagoga de Amsterdã pelo fato de estudar os filósofos ocidentais e ter tentado estabelecer uma ponte entre as doutrinas destes e o estudo da Torah. Esse é o contexto em que se situam as Quatro Cartas acerca da Tolerância que Locke escreveu entre 1760 e 1780, antes portanto das suas obras fundamentais: O Ensaio sobre o entendimento humano e os Dois tratados sobre o governo civil, que datam de finais da década seguinte. Mas a Carta sobre a Tolerância somente apareceria publicada por Awnsham Churchill na Inglaterra em 1689. Isso se explica em virtude da agressividade  da dinastia Stuart, que pretendia excluir qualquer doutrina que não se acomodasse aos interesses do absolutismo monárquico que foi apeado do poder pela Gloriosa Revolução de 1688.

A tolerância, para Locke, era uma das bases da sua concepção política, sendo a segunda coluna a teoria da representação, que deveria ser de interesses. Pelo império do princípio da tolerância, o poder civil não poderia ser utilizado para forçar alguém a aderir a determinado credo religioso. "O fim da sociedade religiosa - escrevia o filósofo - é o culto público de Deus e através dele a obtenção da vida eterna. É nesse propósito que se deve concentrar toda a disciplina e esses são os limites que circunscrevem todas as leis eclesiásticas. Nessa sociedade não se trata, portanto, de bens civis, nem de posses materiais; não se pode apelar aqui, por nenhum motivo, ao auxílio da força, que provém toda ela do magistrado civil; é deste poder que depende a posse e o uso dos bens exteriores". [Locke, Carta sobre a Tolerância, 1689).

Mas se a tolerância deve formar parte do pacto político em relação às Igrejas, ela deve também servir para aceitar as diferenças entre interesses materiais a serem representados no seio do Parlamento. A essência do pacto político pressupõe a diversidade de interesses entre os cidadãos. Não aceitar os interesses dos outros - já tinha sido salientado isso por Espinosa no seu Tratado teológico-político (1670) - era inviabilizar o pacto social.

Foi contra essa essa diversidade de crenças e de interesses materiais que se ergueu Jean Jacques Rousseau com a sua proposta de Entropia Civil contida no seu ensaio intitulado Do contrato social (1762). Estava possuído pela ideia de que a unanimidade, no corpo social, garantiria a felicidade dos seus membros. Era necessário, portanto, elaborar um mecanismo que conduzisse a solidificar a unanimidade como única condição de existência social. E ela deveria ser tratada como princípio religioso supremo da nova Religião Civil. Para garantir a unanimidade, deveria ser posto em funcionamento um mecanismo nivelador: o Comitê de Salvação Pública, que garantiria que todos fossem unânimes na defesa do Interesse Público, esquecidos portanto os interesses individuais, origem do dissenso e do egoísmo. O mecanismo a ser posto em prática pela nova ordem seria o Terror do Estado, que possibilitaria até a eliminação física dos recalcitrantes e dissidentes. É sobre essa base que se deveria construir o corpo político. E competiria ao Legislador e ao seu comitê de Puros, identificados unicamente com o Interesse Público ou Republicano, aplicar à sociedade o amargo remédio de extirpar dela qualquer resquício de individualismo. O discurso passaria a ser unívoco, somente traduzindo aquilo que se pudesse identificar como Interesse Público gerido pelos Puros e sob o comando do Legislador. Essa foi a nova versão do domínio inconteste da Razão encarnada no novo Rei-Filósofo pensado inicialmente por Platão na sua República e desenhado nos tempos modernos por Rousseau no Legislador e no Corpo de Funcionários despidos de interesses individuais. Essa comunidade entrópica seria a origem do Homem Novo, puro, idêntico a si mesmo, totalmente solidário. Estava fundada, como dizia Jacob Talmon (1916-1980), a "Democracia Totalitária" dos tempos hodiernos.

O discurso políticamente correto foi elaborado pela esquerda norte-americana dos anos 70 como expressão dessa unanimidade ao redor do Legislador. Numa espécie de reduplicação sistêmica do controle pelos Puros, a pragmática transcendental funcionaria dentro dos indivíduos submetidos ao interesse coletivo, como uma espécie de auto-alarme contra o que significasse dissenso. Ora, a primeira coisa a ser eliminada seria a incômoda diferença entre os indivíduos. Todos seriam iguais. A diversidade é culpa do Capitalismo e do Liberalismo, que pretenderam, sempre, nos separar uns dos outros. A salvação é constituída pela Unidade Total do corpo Político, nessa República de zumbis em que o políticamente correto ameaça nos aniquilar. A educação de gênero, convenhamos, tenderia a eliminar essas diferenças burguesas entre sexos, fazendo com que desde o berço nos identificássemos como não diferentes, ou como diferentes na medida em que a linguagem permitisse isso nas novas modalidades trans que começam a povoar o imaginário através da arte e das telenovelas.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

L'influence de Rousseau sur la formation et sur la vie de Simon Bolivar

            Este texto foi publicado nos Anais do Congresso sobre Jean-Jacques Rousseau ocorrido en Montmorency, França, no final de 1995.
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O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), inspirador de Simon Bolívar.

La présence des idéaux rousseauniens est indéniable dans les luttes d'indépendance des  plusieurs pays ibéro-américains [1]. Mon but dans ce travail est de montrer l'inspiration exercée par le philosophe de Génève sur l'une des plus expressives personnalités du monde ibéro-américain: le Libérateur Simón Bolivar (1783-1830). Je développerai deux aspects de cette inspiration: premièrement, le Maître, où je releverai la façon dont la pensée rousseaunienne inspira le tuteur et maître de Bolivar, don Simón Rodríguez (1771-1854) et comment celui-là  marqua la formation intellectuelle du Libérateur; deuxièmement, le Disciple, où j'analyserai l'influence de Rousseau sur Bolivar.
1- Le Maître
            Simón Rodríguez fut, sans doute, l'éducateur qui exerça la plus grande influence sur la formation de la personnalité du Libérateur Simón Bolivar. Rodriguez naquit à Caracas et décéda à Amotape , petit village du Département de Piura (Pérou) [2].
            Si quelqu'un un jour réussit à incarner  fidèlement l'idéal de vie et de conception humanistique prêchés par Jean- Jacques Rousseau, ce fut Simón Rodríguez. Il reproduisit  dans sa vie et dans ses enseignements  les  idéaux rousseauniens de la théorie de la bonté naturelle de l'homme et du contrat social, d'autodidactisme, de rapport étroit entre nature et société, de morale basée sur la liberté, de  triomphe du sentiment sur la raison. [3].
            Simón Rodríguez subit également l'influence d"Holbach (1723-1789) et de Saint-Simon (1760-1825). Du premier, l'éducateur de Bolívar prit la valorisation du savoir scientifique et experimental de la nature, une influence qui, d'ailleurs, il avait aussi reçu de Rousseau. Du deuxième, il prit les idéaux socialistes, fondés sur l'idée rousseaunienne d'égalité. La philosophie qui eut donc plus d'influence chez Rodríguez fut celle de Rousseau.
            Comme le philosophe de Génève, Simón Rodriguez fut un penseur itinérant. "Je ne veux pas être, disait-il, comme les arbres, qui étendent leurs racines dans un endroit pour ne plus le quitter. Le vent, l'eau, le soleil, tout ce qui bouge et ne s'arrête jamais, c'est cela la vie pour moi." [4]. Bolivar lui-même ainsi définit la personnalité itinérante et cosmopolite de son maître et ami: "C'est le meilleur homme du monde, pourtant, puisque que c'est un philosophe cosmopolite, il n'a ni patrie, ni foyer, ni famille, ni rien d'autre." [5]. Dans sa conduite le maître de Bolivar était aussi totalement rousseaunien: autodidacte, ce qui a été déjà signalé, amant de la nature, défenseur infatigable des opprimés, réformateur audacieux  des  méthodes pédagogiques , il s'agissait d'une personnalité polyfacétique, difficile à être insérée dans un système de réflexion ou d'un stablishment. Cette originalité naturelle le mena à changer de nom, ayant adopté celui de "Samuel Robinson". Guillermo Francovich[6] a ainsi synthétisé la figure de Rodríguez: "La personnalité du ‘Maître du Libérateur’, Simon Rodríguez, est l'une des plus originales de l'histoire américaine. On connaît beaucoup d'anecdotes sur lui, grâce auxquelles , s'il avait été né en Grèce classique, il aurait certainement mérité de figurer dans la galérie des ‘philosophes illustres’ de Diogènes Laerce, à côté des maîtres de la pensée cynique et sceptique. Malgré son apparente excentricité, Simón Rodriguez fut un esprit profondement humain et toujours préoccupé des problèmes du bien-être social."
            J. A. Cova [7] à son tour, identifie Rodriguez comme étant une espèce de copie de Rousseau: "Les excentricités, les faiblesses ou les manies de l'angoissé auteur des Confessions, revivent incorporées au "dromomane" impénitent, au precepteur systématique, au sophiste et au poète hypocondriaque."
            Le contact de Simón Rodríguez avec Bolivar se fit en trois moments: pendant l'adolescence de son disciple, entre ses 11 et 14 ans (1794-1797), pendant sa jeunesse, à 21 ans (1804-1805) et, finalement, vingt ans après, quand Bolivar était déjà le Libérateur de cinq pays. En tous ces moments, l'influence du maître sur son disciple fut décisive.
            Concernant l'influence exercée par Rodriguez sur Bolivar adolescent, Jules Mancini [8] nous rapporte: "Investi de totale autorité sur son disciple favori, Rodriguez a alors pensé pouvoir réaliser un projet spécialement cher à son coeur, celui de mettre sur pied le système d'éducation prôné par Rousseau. Le garçon qu'on lui avait confié était, tel qu'Emile, "riche", "de grande lignée", "orphelin", "robuste" et "sain". En même temps, Rodriguez ne réalisait-il pas l'idéal du précepteur rêvé par Jean-Jacques? "Jeune", "prudent", "célibataire" et ïndépendant", "une âme sublime", des qualités ou attributs auxquels pouvait aspirer Simón Rodríguez , qui avait alors vingt et un ans et la réputation d'être le meilleur instituteur de la ville."
            Pour que le disciple développât les potentialités, le tuteur se voua, comme le disait Rousseu [9] dans Emile ou de l'Education, à la "difficile tâche de ne rien lui apprendre" afin qu'il pût demeurer dans son "état naturel". D'autre part, persuadé  de la vérité de l'axiome rousseaunien selon lequel "la raison du savant habituellement s'associe à la vigueur de l'athlète", Rodriguez prolongea les séjours de son disciple à la campagne et réussit à développer à merveille les aptitudes physiques du futur Libérateur. En effet, celui-ci devint  un marcheur infatigable, un extraordinaire chevalier et un nageur audacieux, avec qui, comme le remarque Mancini [10], "ne réussit jamais à concourir aucun de ses camarades d'armes."
            Concernant l'influence exercée par Simón Rodríguez pendant la jeunesse de Bolivar, le Libérateur fit lui-même un important rapport. Dans une lettre adressée de Paris à sa cousine Fanny D'Ervieu de Villars, en 1804, Bolivar avoue que ce fut Simón Rodriguez qui le délivra de l'état de dépression où il se trouvait après la mort de sa femme Maria Teresa Rodriguez de Toro, survenue en 1803. Ce fut le maître qui lui fit voir que la lutte pour la libération de l'Amérique espagnole serait un dessein qui donnerait du sens à sa vie. [11]. En 1805, maître et disciple voyagerènt en Italie, et sur le Monte Sacro, à Rome, Bolivar prononça devant Rodríguez  le fameux serment où il s'engageait à libérer les peuples hispano-américains . [12].
            Par rapport à l'influence exercée par Símon Rodríguez sur la maturité du Libérateur, la lettre qu'il envoya à son maître en 1804 en est très éclairante. Rodríguez venait de retourner en Ibéro-Amérique, après avoir vécu 20 ans en Europe. En voilà un extrait: "Mon maître! mon ami! mon Robinson! Vous en Colombie! Vous à Bogotá et vous ne m'avez rien dit, rien écrit ! Il est hors de doute que vous êtes l'homme (...) le plus extraordinaire du monde (...). Personne autant que moi sait combien vouz aimez notre Colombie idolâtrée. (...) Vous souvenez-vous du jour où nous sommes allés sur le Monte Sacro, à Rome, promettre sur cette terre sainte la liberté de la Patrie? (...) Vous, mon maître, ce que vous avez dû m'observer de près, quoique placé à une si lointaine distance! Avec quel interêt vous avez dû suivre mes pas, conduits bien avant par vous même. (...) Vous ne pouvez pas imaginer combien sont enfoncés dans mon coeur vos enseignements: je n'ai pas réussi à effacer même pas une virgule des grandes maximes dont vous m'avez fait cadeau: toujours présentes devant mes yeux, je les suis comme des guides infaillibles. (...) J'impatiente de connaître vos projets au sujet de tout.(...) Vous contemplerez avec enchantement l'immense patrie qui est sculptée dans le rocher du despotisme par le burin victorieux des libérateurs, vos frères. (...) Venez a Chimborazo. Profanez de votre pied audacieux l'escalier des Titans, la couronne de la Terre, la tour inaccessible de l 'Univers Nouveau. (...) Ami de la nature, venez l'interroger sur sa vie, sur son essence primitive. (...) Là-bas (en Europe) , elle est pliée sous le poids des années , des maladies et de l'haleine pestilentielle des hommes: ici , elle est pucelle, immaculée, belle, touchée par la main du Créateur. " [13].
            Le Libérateur voulut que son maître repandît la lumière de ses connaissances sur les pays récemment libres. Dans le Haut Pérou (Bolivie), Simón Rodríguez a essayé de développer ses "écoles-modèles", ou s'accomplirait l'idéal d'un "socialisme pédagogique", dont l'objectif était de transformer les enfants abandonnés en des citoyens libres. L'intention de cette entreprise , le remarquait Rodríguez , "n'était pas de remplir le pays d'artisans rivaux ou miséreux , mais de les cultiver  et les habituer au travail pour qu'ils devinssent des hommes productifs, leur donner des terres et les appuyer dans leurs entreprises. Il s'agissait de coloniser le pays avec ses propres habitants. On donnait instruction et métier aux femmes pour qu'elles ne se prostituissent pas par besoin , ni fissent du mariage une affaire qui garantît leurs nécessités." [14]. L'initiative de Rodríguez n'a pas eu de suite, d'une part à cause de son manque d'esprit pratique, et d'autre part à cause des intrigues des oligarquies, desquelles , d'ailleurs , le Libérateur lui-même fut vicitme, mis à l'écart de la vie publique pendant ses dernières années. [15]. Maître et disciple eurent donc une fin de vie d'incompréhension, comme l'avait eu aussi le génial inspirateur des deux, "l'homme qui croyait en l'homme", Rousseau, pour répéter le titre bien trouvé de l'oeuvre de Vincent Howlet [16].
2-Le Disciple
            S'il est certain que la formation de Simón Bolivar subit, comme nous l'avons vu, la remarquable influence de son tuteur et maître, Simón Rodríguez, on ne peut pourtant pas affirmer qu'elle se bornait aux idéaux humanistiques rousseauniens de son "Robinson". Il eut aussi chez le Libérateur la formation militaire. Pour compenser la formation hétérodoxe et romantique que le tuteur accordait à l'adolescent, son soucieux oncle, don Carlos Palacios décida de l'inscrire en tant qu'aspirant au Bataillon de Volontaires d'Aragua, celui où le père du jeune homme avait été jadis. Entre 1797 et 1798, pendant 13 mois, le futur Libérateur  reçut sa formation militaire. Comme le signale Sandoval Franky [17] "(...) désormais, jusqu'à sa mort, ce serait son activité la plus glorieuse, peut-être son exclusif et vrai métier."
            Dans la personnalité de Bolivar le caractère militaire était évident. "La guerre est mon élément; les dangers ma gloire", dirait-il plus tard. Mêlées d'une ironie mélancolique, écrivait-il ces lignes au général Santander: "Etant l'organisation de cette République un fait aussi sublime et moi même si profondément soldat, je ne serais pas capable de manipuler des touches aussi délicates."  "Hors de l'armée, disait-il ailleurs, je suis deplacé de mon centre." Et encore une autre assez éloquente: "Soldat par besoin et par penchant, mon sort est tracé dans le champ ou dans la caserne." Ou alors, une autre: "Mon horrible métier militaire m'a forcé à former une conscience de soldat et un bras robuste qui ne peut manier le bâton au lieu de l’épée” [18]. Si les idéaux humanistiques et civiques furent abreuvés dans la source rousseaunienne, son archétype militaire fut Napoléon. Comme le remarque Mancini [19], "il ne lui fut pas possible de s'échapper à l'influence des deux hommes dont la pensée et dont l'action dominèrent le siècle; et ce fut à Jean-Jacques et à Napoléon que Bolivar demanda des leçons et des exemples." Malgré l'admiration que le Libérateur avait pour le héros de France à l'époque de la signature du Traité d'Amiens en 1802 [20], au moment du couronnement du Grand Général, en 1804, Bolivar conclut qu'il avait trahi les idéaux républicains. Et il avoua  quelques années plus tard au général Tomás Cipriano de Mosquera [21]: "Après être devenu roi, la gloire de Napoléon même me parut le resplendissement de l'enfer, les flammes du volcan qui recouvrait la prison du monde."
            Désormais, l'archétype militaire que représentait Napoléon était soumis, pour Bolivar, à la préversation de l'idéal républicain prêché par Rousseau, centré sur la sauvegarde du salut publique dans un moment de crise de légitimité, comme celui que vivaient les nations hispano-américaines.
            Le principe qui inspira la "geste" révolutionaire de Bolivar fut, sans doute, celui que Rousseau exposa [22] dans son  Contrat Social: "Seuls les plus grands dangers peuvent contrebalancer  (le pouvoir) d'altérer l'ordre public, et on ne doit jamais suspendre le pouvoir sacré des lois, sauf quand il s'agit du salut de la patrie. Dans ces rares et évidentes occasions, on  assure la sécurité publique par un acte particulier qui confie le poste au plus digne (...), on nomme un chef suprême qui doit faire éteindre toutes les lois, en suspendant la volonté générale, il étant évident que le premier dessein du peuple est d'éviter l'anéantissement de l'État." Ce fut ce principe, par exemple, qui mena Bolivar à accepter d'exercer la dictature au Venezuela, en 1814 et au Pérou en 1824. Mais l'inspiration rousseaunienne du Libérateur ne s'arrêtait pas là. Une fois garantie l'indépendance et la liberté aux nations hispano-américaines, le Libérateur aspira au suprême idéal roussseaunien: incarner la figure du Législateur, "(...) individu unique (...), être extraordinaire, inspiré et quasi divin, capable de donner à un peuple, au point de départ, à l'origine de sa vie politique, son système de  législation, ses lois essentielles, fondamentales, source d'institutions durables" [23].
            De cette façon, l'aspect fondamental du Bolivar homme politique fut celui du Législateur qui pensa les fondements légaux du pacte social, qui garantirait la liberté et l'égalité aux nations nouvellement libérées du pouvoir espagnol. Il est évident que la conception constitutionnelle du Libérateur ne se basait pas seulement sur les principes rousseauniens. Ses inspirateurs furent aussi Locke, Montesquieu, Sieyès et les constitutionalistes anglo-américains. Le projet de constitution présenté par Bolivar au Congrès d'Angostura (1819) laisse voir ces influences dans les huit propositions qu'il contient: 1) forme républicaine de l'Etat; 2) souverainété nationale materialisée par les représentants de la nation élus au suffrage censitaire; 3) adoption du partage des pouvoirs publics, qui devraient être quatre: exécutif, législatif, judiciaire et moral; 4) adoption des droits individuels et des libertés publiques, conformément aux expériences nord-américaine et française; 5) abolition de l'esclavage et des titres nobiliaires; 6) organisation politique et administrative basée sur le principe centraliste; 7) adoption du modèle présidentiel américain, ayant un pouvoir exécutif monocratique contrôlée par un législatif de deux chambres; 8) création d'un pouvoir moral ayant la tâche de garantir une  éducation fondamentale civique pour les citoyens [24].
            On peut donc conclure que l'influence de Rousseau est la plus remarquable en ce qui concerne les convictions constitutionnelles de Bolivar, puisque c'est sur la philosophie politique du génébrien que se fonde l'aspect le plus original de la proposition bolivarienne: l'idée du pouvoir moral. Bolivar  voulait, à partir de ce pouvoir, donner naissance au "régime de la vertu" prêché par Rousseau dans son Contrat Social. Cela consistait, fondamentalement, à bannir les interêts privés pour qu'émergissent le bien public et la volonté générale, indivisible, infaillible, absolue, inaliénable, sacrée et inviolable.
            Ce passage du discours prononcé par Bolivar à Angostura en 1819 dévoile son inspiration rousseaunienne: "Pour retirer du chaos notre jeune République, toutes nos facultés morales ne seront pas suffisantes si on ne fond pas la foule populaire en un tout, la composition du gouvernement en un tout, la législation en un tout, et l'esprit national en un tout. Unité , unité, unité, cela doit être notre consigne (...). L'éducation populaire doit être le soucis aîné de l'amour paternel du Congrès. Morale et lumières sont deux pôles d'une République, morale et lumières sont nos premiers besoins. Prenons d'Athènes son Aréopague et les gardiens des moeurs et des lois; prenons de Rome ses censeurs et ses tribunaux domestiques, et en formant une Sacrée Alliance de ces institutions morales, renouvelons dans le monde l'idée d'un peuple auquel il ne suffit pas d'être libre et fort, mais qui veut aussi être vertueux. Prenons d'Esparte ses austères établissements, et formant, à partir de ces trois torrents, une source de vertu, donnons à notre République un quatrième pouvoir dont le domaine soit l'enfance et le coeur des hommes, l'esprit public, les bonnes moeurs et la morale républicaine. Constituons ce Aréopague pour qu'il veuille sur l'éducation des enfants, sur l'instruction nationale, pour qu'il purifie ce qui a été corrompu dans la République (...). Le pouvoir de ce Tribunal vraiment sacré doit être effectif par rapport à l'éducation et à l'instruction, en même temps il doit donner son opinion sur les pénalités et châtiments. Mais ses annales ou notations, où sont inscrites ses décisions, les principes moraux et les actes des citoyens, seront les livres de la vertu et du vice. Des livres d'enquête du peuple pour ses choix, des Magistrats pour leurs décisions et des juges pour leurs jugements (...)" [25].
            A la lecture de ces paroles, on conclut qu'il n'y a pas d'exagération de la part des biographes du Libérateur (comme Mancini, par example) quand il dit que les oeuvres de Rousseau "constituent (...) en toute occasion, sa lecture préférée. Il prend des Discours  le fond de son vocabulaire jusqu'à ce qu'en lisant Bolivar on croit, parfois, lire une traduction de Rousseau. Quand il s'agit de célébrer par des fêtes les premiers exploits des armées libératrices, il s'adresse à Lettre sur les spectacles. Le Contrat Social, ‘phare des législateurs’, est son code en matière de politique, ainsi que la Profession de foi du vicaire savoyard  lui sert de réligion." [26].
            Pourtant, ce ne fut pas seulement Bolivar homme politique ou législateur qui révela l'influence rousseaunienne. Elle se révela aussi, de façon remarquable, chez Bolivar éducateur, pour qui le processus éducationnel consistait dans "l’endurcissement du corps en tant que support de l'esprit" [27]. L'influence rousseaunienne se manifeste également chez Bolivar romantique qui aime les femmes et la vie du bon sauvage et qui se lasse de la vieille Europe. À Fanny de Villars, dont il s'éprit à Paris, le jeune Bolivar écrivait en 1807: "Je vais chercher un autre mode de vie, je sens du dégoût envers l'Europe et ses vieilles sociétés. Je retourne en Amérique. Que ferai-je là-bas? (....) Je l'ignore.(...). Vous savez que chez moi tout est spontané et que je ne fais jamais de projets. La vie du sauvage a pour moi beaucoup d'enchantements. Il est probable que je construise une chaumière entourée des beaux bois du Venezuela (...)" [28]. Un autre trait romantique du Libérateur qui l'approche de Rousseau, on le trouve dans la mystique révolutionnaire qui l'inspira et qui le mena à proférer, en 1805, sur le Monte Sacro, à Rome, le serment de libération de sa patrie [29]. Côté romantique aussi est sans doute son admiration rousseaunienne de la nature, dont la manifestation est perçue dans son extraordinaire "Délire sur Chimborazo" (1824) [30], ainsi que la séduction et la magnétisme de sa personnalité, qui, sans aucun doute, rappellent à la fois le héros à la Rousseau et le charisme napoléonien [31].
            Comme Rousseau et aussi comme son maître Simón Rodríguez, Bolivar ne fut point compris à la fin de sa vie. Les paroles, écrites peu avant sa mort, à son amie Fanny de Villars, en donnent la preuve: "(...) Je meurs méprisé, proscrit, détésté par ceux mêmes qui ont profité de mes faveurs; victime d'énorme douleur, captif d'innombrables amertumes. Je te laisse mes souvenirs, mes tristesses et les larmes que mes yeux n'ont pas réussi à verser" [32].
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                                             La version de ce travail a été executée par MARIA LÚCIA VIANA. L’Auteur lui consigne ici ses remerciements. Juiz de Fora, (Minas Gerais, Brésil), Octobre de 1995.



[1]Cf. SÁNCHEZ VÁSQUEZ, Adolfo.Rousseau en México. Mexico: Grijalbo, 1969; VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. Liberalismo y conservatismo en América Latina .Bogotá: Tercer Mundo/Université de Medellín, 1978 . Du même auteur, A propaganda republicana. 2ème édition. Rio de Janeiro: Université Gama Filho, 1994. ARCINIEGAS, Germán. Bolivar y la revolución. Bogotá: Planeta, 1984.
[2]Cf. LIÉVANO AGUIRRE, Indalecio. Bolivar. 6ème édition. Bogotá: La Oveja Negra, 1987, pgs. 15-22.
[3]Cf. FRANCOVICH, Guillermo. “Un mago de la ortografía”. In:Ultima Hora, La Paz, 31/08/83, p. 2.
[4]In CASTRO, Moacyr Werneck de. Bolivar (1783-1830). São Paulo: Ed. Três, 1973, p. 22.
[5]In CASTRO, Moacyr Werneck de,  op. cit.,, ibid.
[6]FRANCOVIC, Guillermo. La filosofia en Bolivia. Buenos Aires: Losada, 1945, p. 75.
[7] COVA, J. A. El superhombre: vida y obra del Libertador. (Prologue de R. Goménez Oreamuno). 3ème édition. Caracas: Novedades, 1943
[8] MANCINI, Jules.op. cit., p. 118.
[9] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Obras I. (Plan, intr. et notes par P. Arbousse-Bastide, traduction d L. Santos Machado), Porto Alegre: Globo, p. 65.
[10] MANCINI, Ob. cit., p. 118.
[11] BOLIVAR, Simon.Cartas de Bolivar, 1799 a 1822. (Intr. de J. E. Rodó; notes de R. Blanco-Fombona). Paris/Buenos Aires: Louis Michaoud, 1912, pp. 41-42.
[12] MANCINI, Jules. Ob. cit., p. 150.
[13] Apud MANCINI,  Jules, ob. cit., pp. 154-155.
[14] Apud FRANCOVICH, Guillermo. La filosofia en Bolivia. op. cit., p. 79
[15] Cf. FRANCOVICH, Guillermo, “Contrastes (Diálogo)”.Ultima Hora, La Paz, 24/12/84, p. 2; GARCÍA-MÁRQUEZ, Gabriel.El general en su laberinto, Bogotá: La Oveja Negra, 1989 269-272; MUTIS, Alvaro,  Ël último rostro (fragmento)”. In: La mansión de Araucaima, Bogotá: La Oveja Negra, 1982, pp. 70-93.
[16] HOWLETT, Marc-Vincent,L’Homme qui croyait en l’Homme: Jean-Jacques Rousseau. Paris: Gallimard, 1994.
[17] SANDOVAL-FRANKY, Jairo.Simon Bolivar: sus años formativos. Bogotá: Plaza & Janés, 1991, p. 40.
[18] Apud SANDOVAL-FRANKY, Jairo. Simon Bolivar: sus años formativos, op. cit., ibid.
[19] MANCINI, Jules. Bolívar y la emancipación de las colonias españolas desde los orígenes hasta 1815. Op. cit., p. 151.
[20] Cf. COVA, J. A. El superhombre: vida y obra del Libertador. Op. cit., p.49.
[21] MOSQUERA, Tomás Cipriano de. Memoria sobre la vida del general Simon Bolivar, Libertador de Colombia, Perú y Bolivia. (Intr. de M. González). Bogotá: Instituto Colombiano de Cultura, 1977, p. 39.
[22] ROUSSEAU, Jean-Jacques.Obras II. (Plan et notes par P. Arbousse-Bastide; traduction de L. Gomes Machado). Porto Alegre: Globo, 1962, p. 150.
[23] CHEVALLIER, Jean-Jacques. As grandes obras políticas de Maquiavel a nossos dias. (Trad. de L. Christina). Rio de Janeiro: Agir, 1973, p. 173.
[24] ROZO ACUÑA, Eduardo. Bolivar: Pensamiento constitucional.Bogotá: Universidad Externado de Colombia, 1983, pp. 14-15.
[25] BOLIVAR, Simon. Ensayos políticos. (Selection et notes par G. Soriano). Madrid: Alianza Editorial, 1971 pp. 116-117.
[26] MANCINI, Jules. Bolivar y la emancipación de las colonias españolas desde los orígenes hasta 1815. Op. cit., p. 151.
[27] Apud ACEVEDO CARMONA,  Jairo. Bolivar Libertador y Educador de América. Medellín: Universidad de Antioquia, 1989, p. 26.
[28] Apud GAITÁN DE PARÍS, Blanca. La mujer en la vida del Libertador. 2ème édition. Bogotá: Sociedad Bolivariana de Colombia, 1991, p. 43.
[29] Cf. MANCINI, Jules.Bolivar y la emancipación de las colonias españolas desde los orígenes hasta 1815. Op. cit., pp. 149-150.
[30] Cf. MANCINI, Jules, op. cit., pp. 148-149; ARCINIEGAS, Germán. Bolivar y la revolución. op. cit., p. 57.
[31] Cf. NOGUERA-MENDOZA, Anibal et Flavio DE CASTRO. (Organisateurs). Aproximación al Libertador: Testimonios de su época. Bogotá: Academia Colombiana de Historia/Plaza & Janés, 1983, pp. 83, 137, 168.
[32] In: CASTRO, Moacyr Werneck de. Bolivar (1783-1830). São Paulo: Edit. Três, 1973, p. 275.