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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

TOLERÂNCIA E DIVERSIDADE


A tolerância, que foi uma conquista do Liberalismo nos últimos quatro séculos, pretende hoje ser superada pelo pensamento "politicamente correto". Isso em aras de uma interpretação rousseauniana e ressentida da questão das diferenças. 

Mas vamos primeiro à lembrança das origens do tema da tolerância: isso se passou na Inglaterra do século XVII, sendo John Locke (1632-1704) o grande sistematizador da questão. O ambiente, até então, era de nítida intolerância em matéria de pluralidade de credos religiosos. Como lembra com propriedade o escritor britânico Ken Follet (1949), no período que antecedeu à Revolução Gloriosa Inglesa (1688), o clima era de intolerância entre os vários credos, o que deu ensejo a inúmeros conflitos pela Europa afora, com as fogueiras crepitando em todos os quadrantes. A única unanimidade era que a fogueira deveria existir. Quanto a quem a frequentaria, aí se davam inúmeras diferenças, de acordo com o credo de quem acendesse a pira. Locke, jovem médico, que tinha se aproximado por questões profissionais do líder dos whigs no Parlamento, lorde Shaftesbury (1621-1683), terminou um pouco ao acaso tomando carona no debate. Chamado na alta madrugada na casa paterna para atender a um moribundo lorde, Locke terminou salvando a vida de Shaftesdbury lhe praticando uma incisão de urgência na vesícula supurada, evitando assim a morte do paciente. 

O lorde, já curado, quis premiar os esforços do jovem profissional, lhe oferecendo o cargo de secretário particular  no Parlamento. Assim, pela vesícula do conde, Locke entrou na política britânica, como o mais importante teórico da onda de renovação que o partido whig imprimira nos costumes políticos na tradicional estrutura da monarquia absoluta inglesa. Indisposto com o soberano, Shaftesbury foi exilado na Holanda, e para lá Locke viajou acompanhando o seu chefe. Na liberal República Holandesa, Locke travou conhecimento com os pensadores que, naquela época, se insurgiam contra a intolerância religiosa, a começar por alguns pastores da tendência denominada dos "Remonstratenses". Para eles, era inconcebível que a título de "cristãos" os homens se matassem numa Europa desolada pelos conflitos de religião. Seria necessário pôr em prática o mandamento da caridade, traduzido numa atitude de tolerância para com os que tivessem opções religiosas diferentes. 

Do pacto de tolerância somente seriam excluídos aqueles que praticassem a intolerância de forma sistemática contra os outros credos religiosos, alicerçados num poder temporal cooptado por eles: arrolava Locke entre esses excluídos os católicos, em decorrência de o Papa, líder espiritual deles, ser também um soberano temporal que tinha como propósito atentar contra a estabilidade da Coroa britânica (desligada do catolicismo desde os tempos de Henrique VIII). E também ficavam por fora os muçulmanos, como consequência da prática da jihad ou guerra religiosa contra os infiéis.

Na Holanda, Locke teve oportunidade de travar relações com os estudiosos da questão da tolerância: Pierre Bayle (1647-1706), o pensador francês que tinha feito do tema o centro da sua meditação filosófica e o judeu de origem portuguesa Baruch de Espinosa (1632-1677), que tinha sofrido em carne própria a intolerância dos seus irmãos de fé, ao ser excomungado da Sinagoga de Amsterdã pelo fato de estudar os filósofos ocidentais e ter tentado estabelecer uma ponte entre as doutrinas destes e o estudo da Torah. Esse é o contexto em que se situam as Quatro Cartas acerca da Tolerância que Locke escreveu entre 1760 e 1780, antes portanto das suas obras fundamentais: O Ensaio sobre o entendimento humano e os Dois tratados sobre o governo civil, que datam de finais da década seguinte. Mas a Carta sobre a Tolerância somente apareceria publicada por Awnsham Churchill na Inglaterra em 1689. Isso se explica em virtude da agressividade  da dinastia Stuart, que pretendia excluir qualquer doutrina que não se acomodasse aos interesses do absolutismo monárquico que foi apeado do poder pela Gloriosa Revolução de 1688.

A tolerância, para Locke, era uma das bases da sua concepção política, sendo a segunda coluna a teoria da representação, que deveria ser de interesses. Pelo império do princípio da tolerância, o poder civil não poderia ser utilizado para forçar alguém a aderir a determinado credo religioso. "O fim da sociedade religiosa - escrevia o filósofo - é o culto público de Deus e através dele a obtenção da vida eterna. É nesse propósito que se deve concentrar toda a disciplina e esses são os limites que circunscrevem todas as leis eclesiásticas. Nessa sociedade não se trata, portanto, de bens civis, nem de posses materiais; não se pode apelar aqui, por nenhum motivo, ao auxílio da força, que provém toda ela do magistrado civil; é deste poder que depende a posse e o uso dos bens exteriores". [Locke, Carta sobre a Tolerância, 1689).

Mas se a tolerância deve formar parte do pacto político em relação às Igrejas, ela deve também servir para aceitar as diferenças entre interesses materiais a serem representados no seio do Parlamento. A essência do pacto político pressupõe a diversidade de interesses entre os cidadãos. Não aceitar os interesses dos outros - já tinha sido salientado isso por Espinosa no seu Tratado teológico-político (1670) - era inviabilizar o pacto social.

Foi contra essa essa diversidade de crenças e de interesses materiais que se ergueu Jean Jacques Rousseau com a sua proposta de Entropia Civil contida no seu ensaio intitulado Do contrato social (1762). Estava possuído pela ideia de que a unanimidade, no corpo social, garantiria a felicidade dos seus membros. Era necessário, portanto, elaborar um mecanismo que conduzisse a solidificar a unanimidade como única condição de existência social. E ela deveria ser tratada como princípio religioso supremo da nova Religião Civil. Para garantir a unanimidade, deveria ser posto em funcionamento um mecanismo nivelador: o Comitê de Salvação Pública, que garantiria que todos fossem unânimes na defesa do Interesse Público, esquecidos portanto os interesses individuais, origem do dissenso e do egoísmo. O mecanismo a ser posto em prática pela nova ordem seria o Terror do Estado, que possibilitaria até a eliminação física dos recalcitrantes e dissidentes. É sobre essa base que se deveria construir o corpo político. E competiria ao Legislador e ao seu comitê de Puros, identificados unicamente com o Interesse Público ou Republicano, aplicar à sociedade o amargo remédio de extirpar dela qualquer resquício de individualismo. O discurso passaria a ser unívoco, somente traduzindo aquilo que se pudesse identificar como Interesse Público gerido pelos Puros e sob o comando do Legislador. Essa foi a nova versão do domínio inconteste da Razão encarnada no novo Rei-Filósofo pensado inicialmente por Platão na sua República e desenhado nos tempos modernos por Rousseau no Legislador e no Corpo de Funcionários despidos de interesses individuais. Essa comunidade entrópica seria a origem do Homem Novo, puro, idêntico a si mesmo, totalmente solidário. Estava fundada, como dizia Jacob Talmon (1916-1980), a "Democracia Totalitária" dos tempos hodiernos.

O discurso políticamente correto foi elaborado pela esquerda norte-americana dos anos 70 como expressão dessa unanimidade ao redor do Legislador. Numa espécie de reduplicação sistêmica do controle pelos Puros, a pragmática transcendental funcionaria dentro dos indivíduos submetidos ao interesse coletivo, como uma espécie de auto-alarme contra o que significasse dissenso. Ora, a primeira coisa a ser eliminada seria a incômoda diferença entre os indivíduos. Todos seriam iguais. A diversidade é culpa do Capitalismo e do Liberalismo, que pretenderam, sempre, nos separar uns dos outros. A salvação é constituída pela Unidade Total do corpo Político, nessa República de zumbis em que o políticamente correto ameaça nos aniquilar. A educação de gênero, convenhamos, tenderia a eliminar essas diferenças burguesas entre sexos, fazendo com que desde o berço nos identificássemos como não diferentes, ou como diferentes na medida em que a linguagem permitisse isso nas novas modalidades trans que começam a povoar o imaginário através da arte e das telenovelas.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A VENEZUELA NO CENÁRIO: ATÉ ONDE O PATRIMONIALISMO PODE AVANÇAR?


A triste saga de corrupção, autoritarismo e violência que os nossos irmãos venezuelanos sofrem não pára de piorar. A seguirem assim as coisas, o maduro-chavismo descambará em mais uma ditadura totalitária, na trilha da que, há mais de sessenta anos, se apossou de Cuba sob a férula de ferro dos irmãos Castro e da sua revolução comunista. 

Como frisava, em artigo recente, o cientista político Bolívar Lamounier ("A Venezuela e as esquerdas brasileiras", O Estado de S. Paulo, 23/04/2017, p. A2), "Passo a passo, o legado chavista vai destruindo a Venezuela. Em vez de agir no sentido da reconciliação da sociedade, Nicolás Maduro, o sucessor de Hugo Chávez, parece querer dividi-la ainda mais. A realidade cotidiana do país é o desabastecimento generalizado e a miséria. Dias atrás os jornais estamparam uma foto de venezuelanos disputando restos de comida com urubus num aterro sanitário de Boa Vista (Roraima). A alucinação de Maduro é de tal ordem que a hipótese de uma guerra civil não pode ser descartada. Informações divulgadas na semana passada dão conta de que ele estaria disposto a recrutar e armar um milhão de milicianos para defender a soberania nacional".

Esses males de ditaduras megalomaníacas não aparecem da noite para o dia. A ditadura cubana foi o primeiro balão de oxigênio que deu fôlego ao autoritarismo chavista. Houve estreita colaboração entre o maluco coronel-presidente Chávez e o regime de Havana, a tal ponto que o ministério venezuelano que cuidava da informação e da segurança do Estado passou a funcionar na ilha caribenha "assessorado" por militares cubanos da área de informação, no contexto da estratégia da guerra revolucionária para o continente latino-americano traçada há mais de três décadas pelo Barba-roxa cubano, o amigo de Fidel, Manuel Piñeiro. 

O projeto era transformar o ensaio venezuelano numa revolução continental que teria como eixo Havana. A idéia, megalomaníaca, foi de Fidel Castro e de Chávez. Este não piscou em comprometer seriamente a soberania do seu país entregando a gestão da informação estratégica e a segurança a estrangeiros. Mais uma vez se verifica que para a esquerda messiânica a ideia de Pátria é relativa. O que importa é a grande revolução mundial dos "oprimidos" contra os "opressores". Os primeiros, sabemos a-priori quem são: os povos latino-americanos. Os segundos concentram-se nos Estados Unidos. Duas simplificações catastróficas das quais somente saem lucrando os administradores da "salvação coletiva" habilmente manipulada pelos revolucionários de plantão. Referir-me-ei logo mais, no presente comentário, a este último ponto.

Mas ainda falando do tema que mencionei no parágrafo anterior, a revolução bolivariana não surgiu do dia para a noite porque, além da ajuda cubana, houve o compromisso de regimes esquerdistas latino-americanos com o seu sucesso. 

Lembremos que, quando Chávez foi desalojado do poder na tentativa de golpe ocorrida em abril de 2002, um dos que colaboraram mais estreitamente com o coronel venezuelano, uma vez abortado o golpe, foi Lula, ao longo do seu primeiro mandato. Diante da ameaça de crise de abastecimento de petróleo (paradoxalmente sofrido pela Venezuela, grande produtora mundial, quando das medidas estatizantes da petrolífera PDVSA por Chávez), Lula colocou à disposição do colega bolivariano um navio cargueiro da Petrobrás para suprir as necessidades prementes do governo chavista. Essa foi a primeira "ajuda" do governo petista ao autocrata venezuelano. 

Na trilha dessa generosidade patrimonialista viriam outras "ajudas" como a do falido projeto da refinaria Abreu e Lima, que consumiu bilhões de reais sem que os venezuelanos aportassem (como prometeram) os fundos a que tinham se comprometido. Ora, esses bilhões não se traduziram em obras, mas em engorde das contas bancárias dos petralhas e associados. Outra "ajudinha" dos petralhas a Chávez correu por conta de uma das suas "reeleições", sendo que a campanha foi feita pelo marqueteiro de Lula.

Lula, desde o seu eterno palanque, não perdeu nunca a  oportunidade para engrandecer a figura de Chávez e a sua maluca revolução caribenha, afirmando que o problema da Venezuela é que ali havia "até democracia demais", como frisou num dos seus arroubos retóricos quando o líder venezuelano já estava doente, mas não piscava em mandar as hordas repressivas para assassinar oposicionistas ao regime. O antiamericanismo do Lula, aliás, ajudou a disseminar esse clima de admiração a Chávez e às demais propostas comunistas para a região, desde a criação, no início dos anos 90, do famigerado "Foro de São Paulo", cujo nascimento teve dois padrinhos: Lula e Fidel Castro, sendo o batismo do mostrengo ministrado por Frei Beto, representante dos bispos progressistas encarrapitados na direção da CNBB. O braço militar do Foro, é bom que se lembre, foi nomeado por Fidel na pessoa do coronel Chávez....

A propósito  da defesa incondicional do regime bolivariano por Lula e patota, Bolívar Lamounier frisa no artigo acima citado: "Ora, Lula é o líder inconteste da esquerda brasileira. A maioria dos políticos, clérigos e intelectuais que se autointitulam 'de esquerda' se dedica diuturnamente a cultuar sua personalidade. Voltemos, pois, à Venezuela. Ao evocar o que há anos se vem passando naquele país, é inevitável que nos vejamos como testemunhas da atitude das esquerdas brasileiras. Estas, com as exceções de praxe, notabilizam-se, como diria Nelson Rodrigues, por um silêncio 'de estourar os tímpanos'. Não defendem os direitos humanos como conceito universal, e sim os direitos humanos de uma determinada faixa ideológica. Quem quiser compreender tal atitude deve começar pelo antiamericanismo. Para o esquerdista brasileiro (ou para o latino-americano, em geral), ser indiscriminadamente contra os Estados Unidos é a credencial sine qua non de quem luta pelo progresso social e pelo bem da humanidade. O corolário desse posicionamento é que qualquer regime antiamericano é bom. Cuba é excelente; a teocracia iraniana é excelente; o chavo-madurismo pode não ser excelente, mas não é o caso de criticá-lo É, no mínimo, um aliado em 'nossa' luta contra o imperialismo. Mas o antiamericanismo é somente a ponta emersa de um grande iceberg. A parte submersa, em geral estruturada em torno da vulgata marxista, é a missão que as esquerdas se arrogam de conduzir a humanidade a algum paraíso terreno (...)".

Voltemos aos administradores da salvação coletiva. A ideia foi inventada por um filósofo genial e maluco do século XVIII, Jean Jacques Rousseau, fundador da ditadura de massas da modernidade. Como fazer para arregimentar os milhões de seres humanos que compõem os países na era moderna, perguntava o filósofo (lembremos que na França da Revolução Francesa havia 26 milhões de habitantes). Rousseau, no 8º capítulo do seu Contrato Social fornece a receita: crie-se um "credo político" em que todos devam acreditar. Quem não acreditar, seja jogado "nas trevas exteriores", ou seja, excluído do pacto político e da existência. Por que isso? Porque a unanimidade é o estado de felicidade coletiva da Humanidade. Logo, conseguir a unanimidade implica em garantir a felicidade geral. Quem consegue implantar a unanimidade? - Os "puros", responde Rousseau, ou seja aqueles que renunciaram aos seus interesses individuais para construir o interesse coletivo. Eles são os chamados a chefiar a grande transformação revolucionária. Como? Aterrorizando e chegando até a eliminação dos dissidentes. O resultado será o reino da Unanimidade ao redor do Legislador, que garantirá a felicidade coletiva.  Ele ocupará o lugar que na antiguidade Platão assinalava ao Rei Filósofo.

O corolário do maluco arrazoado é evidente: os rios de sangue que, à luz do rousseaunianismo, correram no mundo moderno, por conta das Revoluções em busca da Unanimidade, a começar pela Revolução Francesa, que inventou a maquininha para cortar cabeças de dissidentes, seguida pela Revolução Russa que, chefiada pela Minoria ("Bolcheviques", em russo) impôs o paraíso da unanimidade na ditadura totalitária bolada por Lenine e Trotsky e aperfeiçoada por Stalin e seguidores. É o paraíso que Lula et caterva queriam implantar no Brasil e que Maduro, ouvindo os trinos do "passarinho" de Chávez, está tentando impor a ferro e fogo, na vizinha Venezuela.

O troglodita metroviário virou chefe de Estado. E, com um exército de milicianos de um milhão de fanáticos armados de rifles kalashnikov, implantará o paraíso no país vizinho. Os descontentes já estão sendo mortos a tiros ou pulando fora. Os venezuelanos que disputam com urubus comida em Boa Vista formam parte dessa turma de amaldiçoados. Outros capítulos bastante cruéis desse drama estão por vir. Venezuela não merecia um desfecho tão trágico.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ASSASSINANDO REPUTAÇÕES E DESAFETOS

Capa da obra de Robert Darnton, intitulada: O diabo na água benta (São Paulo: Companhia das Letras, 2012), que retrata a estratégia de assassinato de reputações na Europa dos séculos XVII a XIX.

O Livro do delegado Romeu Tuma Junior, o Tuminha, intitulado: Assassinato de reputações - Um crime de Estado (Rio de Janeiro: Topbooks, 2013, 557 páginas) não traz nada de novo na longa esteira de safadezas e truculências da petralhada. Registra, sob renovado viés, o caráter sistêmico que essas práticas ganharam na estratégia petista, rumo à consolidação da hegemonia partidária. Partindo da hipótese levantada por Antônio Paim na obrinha intitulada: Para entender o PT (Londrina: Edições Humanidades, 2002), no sentido de que o que inspira aos petistas é a ética totalitária ("os fins justificam os meios"), podemos dizer que o assassinato de reputações via dossiês falsos é um dos meios para a conquista do poder e para sua manutenção. Em época de eleições essas práticas voltam, turbinadas, ao cenário político sem que, evidentemente, se restrinjam a esses momentos. Vejam os caros leitores, por exemplo, o caso do CADE, sob direção do sobrinho do Gilberto Carvalho, que jogou os holofotes sobre a oposição do PSDB, para encontrar corrupção no financiamento das obras de trens e metrô ao longo das últimas duas décadas, analisando unicamente os desafetos. Esse estardalhaço todo vem justamente no momento em que os líderes petralhas do mensalão começam a cumprir penas. Pura ação de desinformantsia, diriam os russos, useiros e vezeiros nesse tipo de prática desde os tempos de Pedro o Grande, no século XVII.

As fontes para a estratégia de assassinato de reputações não são novas. De um lado, estão os russos, com a sua secular prática de criar confusão no galinheiro alheio quando as coisas não andam bem em casa. Essa estratégia recebeu sistematização aprimorada no Testamento Político de Pedro o Grande, que recomendava azucrinar a vida das potências inimigas, como a Grã Bretanha, plantando falsas informações que enfraquecessem o poder no seio delas. Discípulo aprimorado da estratégia grã russa foi, sem dúvida nenhuma, Vladimir Illich Ulianov, o Lenine, que aconselhava coisa parecida no início do século XX, com a finalidade de fortalecer o poder dos bolcheviques. Stalin foi um disciplinado e inescrupuloso realizador dessa estratégia, não só plantando falsos dossiês contra oposicionistas, mas também matando literalmente de fome os camponeses que integravam a classe média (fala-se em 20 milhões de vítimas), a fim de fortalecer a política centralista e estatizante das Granjas Coletivas Soviéticas. Lógica de ditador georgiano é outra coisa. Lógica de ferro. Stalin raciocinava da seguinte forma: "quem cria problemas são as pessoas; eliminem-se as pessoas e solucionar-se-ão os problemas". Lógica para deixar com água na boca a terroristas jacobinos como Saint-Just, Che Guevara, Fidel e outros...

Mas há outras duas fontes importantes na estratégia de assassinato de reputações. A literatura marrom dos que, ao longo dos séculos XVII e XVIII, viveram da escrita de libelos acusatórios contra quem quer que fosse. O único que importava era o pagamento em dia dos "honorários" combinados entre o escriba e os mandantes. Robert Darnton, aliás, em magnífica obra, O diabo na água benta - Ou a arte da calúnia e da difamação de Luís XIV a Napoleão (São Paulo: Companhia das Letras, 2012) traz-nos uma bela descrição desses profissionais da calúnia, que não eram grandes escritores, claro, mas que se identificavam com poetas falidos, ensaístas fracassados, militantes apalermados, todos aqueles que trocaram as emoções da praça pública e da pancadaria nas manifestações e arruaças pelas agressivas páginas dos libelos. Uma malta para ninguém botar defeito e que colaborou, de forma decisiva, para acirrar os ânimos e criar esse ambiente revolucionário de "guerra de todos contra todos" que caracteriza as últimas décadas do século XVII e as do século seguinte. É a razão individual maluca, solta em casa como louco cego, e que vai se alimentando de tudo quanto é dúvida contra o que está aí, dando ensejo ao clima de agitação universal que pairava no ar às vésperas da Revolução Francesa. A cabeça pensante do rei que governava absoluto no século XVII de Luís XIV, foi substituída pela multidão que pensa que pensa e que desafoga as suas contradições no movimento revolucionário: é a razão que toma conta da praça pública e que será coroada como rainha em Notre Dame pelos revolucionários de 1789.

A outra fonte importante para a estratégia de assassinato de reputações é a obra Du contrat social do filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que elaborou a estratégia para consolidação da "democracia de massas", origem remota do hodierno totalitarismo e dos populismos que estão atazanando a vida da América Latina. O arrazoado de Rousseau era claro: a felicidade geral da nação decorre da unanimidade. Logo: Pau na dissidência! À luz desse raciocínio foi criado o mecanismo para construção da democracia de massas. O Legislador, cercado pelos puros (aqueles que abdicaram da luta em prol dos seus interesses individuais para se dedicarem única e exclusivamente à defesa do interesse público), organiza o Comitê de Salvação Coletiva que tem como finalidade destruir todo aquele que ousar dissentir da unanimidade almejada. Fica como resultado dessa ousada ação a paz do cemintério, que é a sociedade neutralizada pelo Líder e os ses sequazes.

Com esse pano de fundo doutrinário dá para ver que a estratégia petista de assassinato de reputações não é nova. Estratégia que, se necessário, converte-se em via para o assassinato de pessoas, caso haja alguém suficientemente louco para peitar a unanimidade da vontade geral. Tuminha lembra o caso Celso Daniel. O PT também é capaz de crueldades maiores, diria o velho Lenine.