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quarta-feira, 16 de maio de 2018

MAIO DE 68

Estou completando 50 anos dedicados à docência superior. Comecei a minha vida de professor universitário em maio de 68, justamente naquela famosa data revolucionária que tantas esperanças levantou entre os jovens da época. 

Eu tinha saído do Seminário em novembro de 1967. As Reformas do Concílio Vaticano II tiveram um efeito devastador nos tradicionais Seminários "Tridentinos", assim chamados porque a disciplina e o regime de estudos tinham sido planejados no século XVI, à luz dos ensinamentos do Concílio de Trento. Era um regime tradicionalista. Todo mundo devia usar batina. A liturgia era aquela velha ritualística em latim, com o padre celebrando a Missa de costas para o povo. E a disciplina era rigorosa. "Grande silêncio" durante a noite. Silêncio na hora das refeições, que eram acompanhadas da leitura de algum autor de espiritualidade. Todo mundo andando em fila indiana nos claustros frios e mal iluminados. O Seminário de Bogotá tinha sido construído recordando os planos do mosteiro do Escorial, perto de Madri, levantado por Felipe II em meados do século XVI, para guardar os restos do seu pai, o imperador Carlos V.

Mosteiro de El Escorial - Tela do pintor francês Michel-Ange Houasse (1722). (Foto: Wikipédia). 
Seminário Conciliar de Bogotá, construído entre 1943 e 1946. Obra do arquiteto colombiano José Maria Montoya Valenzuela, que se inspirou no Mosteiro do Escorial, na Espanha. (Foto: álbum de família)


Decidi abandonar a carreira eclesiástica por dois motivos: em primeiro lugar, porque não topei assinar o documento que, antes do Sub-diaconato, me obrigava a manter o celibato; em segundo lugar, tinha chegado à conclusão de que a disciplina rigorosa da Igreja nos Seminários era apenas uma fachada que ocultava a falta de compromisso sério dos seminaristas. 

Quando, na trilha das reformas liberalizantes do Vaticano II, foi mudado o regulamento, dando mais autonomia aos jovens, o ambiente virou uma bagunça, com gente saindo de farra à noite e voltando na alta madrugada, além dos desvios tradicionais (pedofilia e outras aberrações) que eram de conhecimento público, praticados por padres nos Seminários Menores, como eu tinha testemunhado no Instituto Tihamer Toth. Seria muito oportuno termos, na América Latina, um Spotlight, à semelhança da corajosa investigação que a imprensa livre ensejou em Boston!



Como a expectativa dos meus pais era de que o Papa me ordenasse sacerdote no Congresso Eucarístico Internacional que se realizaria em Agosto de 1968 em Bogotá, a reação do meu pai foi muito forte. Quando cheguei em casa, em Medellín, vestindo trajes civis, ele ficou furioso, pois já tinha mandado imprimir os santinhos que distribuiria entre familiares e amigos com motivo da minha ordenação sacerdotal, a ser ministrada pelo Papa Paulo VI, ao ensejo da primeira visita papal à Colômbia. 



Para diluir o pesado ambiente familiar, imediatamente procurei emprego, tendo conseguido, com amigos espanhóis, a vaga de vendedor de livros da Editora Aguilar. Em Medellín, onde residia a minha família, comecei a penosa tarefa de vendedor de livros. Recebi uma mala cheia de exemplares das novidades editoriais da mencionada editora. O prato forte de vendas era a coleção "Prêmios Nobel de Literatura", belamente encadernada em couro e impressa em papel bíblia, como aquela magnífica coleção francesa "Clássicos Gallimard". 



Em Maio de 68, em cinco meses de trabalho, não tinha vendido nenhum livro. Mas os tinha lido todos! Uma tarde, fui oferecer a coleção na nascente Universidade EAFIT, de Medellín. As bibliotecárias estavam conversando animadamente. O assunto era o casamento de uma jovem professora de filosofia, Carmencita, para cuja vaga não tinha sido conseguido um substituto. Pedi às bibliotecárias que guardassem a minha mala de vendedor, e apresentei-me ao Diretor do Instituto de Humanidades. Quando lhe falei que era formado em filosofia e que buscava emprego, me contratou imediatamente. Assim, através da profissão de vendedor de livros, entrei na mais nobre alternativa de professor universitário, tendo começado a lecionar, no final desse maio turbulento, a disciplina ministrada pela antiga professora: "Humanismo de la Técnica".



O livro-texto que os alunos liam era A rebelião das massas do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, indicado pela antiga professora, Carmencita. Eu sabia que os intelectuais de esquerda criticavam essa obra de forma dura, por se tratar, diziam, de uma "versão pequeno-burguesa". Mesmo com esse óbice, achei mais prático dar continuidade à exposição do texto de Ortega, que me facilitava o trabalho de encarar uma disciplina com o bonde andando. Abri espaço para os meus alunos criticarem a obra, com a condição de que fossem lendo e resumindo os vários capítulos ao longo do período letivo, que se encerrava em dezembro. Na crítica, eles deveriam colocar a fonte em que se inspiravam. Ao aprofundar com os meus alunos na obra do filósofo espanhol, fui concluindo que ele colocava temas importantes nessa agitada conjuntura histórica. Perguntava aos meus alunos o que achavam da argumentação de Ortega sobre a ascensão das massas e as atitudes um tanto infantis das mesmas em face das reivindicações de bem-estar que todo mundo queria. Maio de 68 já se desenhava, aos olhos do mundo, como essa grande festa juvenil que queria tudo de imediato, e que externava a sua pressa na  "ação direta". Um exemplo dessa falta de raciocínio era constituído pelo fato, apontado por Ortega: as massas reivindicam alimento e queimam padarias para consegui-lo! 


68 foi uma página de ação direta das massas juvenis. "É proibido proibir" era o lema que carregava em si mesmo, como diriam os escolásticos, uma "contradictio in terminis". Esse tipo de arrazoado ajudava, certamente, a puxar o fio da história que, segundo o pensamento marxista, avança graças às contradições. A lógica ficava, sempre, maltrapilha com esse uso generoso da contradictio. Como rastilho de pólvora, as "litanias" da Maio de 68 se estenderam pelo mundo afora, alimentando os movimentos estudantis que pipocaram nos quatro cantos do planeta. Imagino que os soviéticos, gênios na arte de criar cortinas de fumaça para ocultar os seus podres, tenham ajudado, e muito, na difusão da moda da revolução juvenil. O PC da URSS estava generosamente representado, aliás, no próprio coração do Estado francês, no Ministério da Função Pública, que tinha sido candidamente entregue aos comunistas na repartição burocrática que teve lugar após a Segunda Guerra. E a decomposição do universo comunista estava em andamento, tendo dado ensejo à sanguinolenta repressão do Exército Vermelho. Remember Hungria em 1956 e Praga em agosto de 68. Não seria descabido pensar na presença de agentes soviéticos em Maio, em Paris, nessa agitada primavera. 

Como lembrava recentemente meu amigo João Carlos Espada ("Maio de 68: 50 anos depois", Observador, Lisboa, 23/04/2018), "Contra os anseios revolucionários de Maio 68, a França permaneceu 'burguesa', isto é,  livre e democrática. Pôde assim absorver ideias de Maio 68, que teriam sido esmagadas pelos comunistas". Espada citava a respeito, as palavras que Raymond Aron teria dito então a Pierre Mendès France: "Só existem dois campos, de um lado a República, o governo, as assembleias, as eleições; de outro lado, o partido comunista - que os intelectuais, os revolucionários da caneta, criticam por não ser mais revolucionário. Se a legalidade republicana sucumbir sob a pressão dos tijolos e das multitudes na rua, só o partido comunista preencherá o vazio" (Aron, Mémoires, Paris: Julliard, 1983, p. 475).

Foi exatamente esse confronto identificado por Raymond Aron que ocorreu nos nossos países na América Latina, entre as instituições "burguesas" e os movimentos revolucionários puxados pelos comunistas. No Brasil, o choque foi entre estes e as instituições republicanas que os extremistas queriam substituir pela "ditadura do proletariado", com direito ao paredão para os que não comungassem com as suas ideias. 

68 repetiu o confronto que opôs, em Cuba, dez anos antes, os revolucionários de Fidel e a antiga ordem "burguesa", com os processos sumários contra "a direita" chefiados pelo "anjo da morte", o Che Guevara, que fazia questão de disparar pessoalmente o tiro de misericórdia na cabeça dos sentenciados à morte.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

JOÃO CARLOS ESPADA - A FRAUDE DA REVOLUÇÃO SOVIÉTICA (Diário "Observador", Lisboa, 06-11-2017)

(O Prof. Doutor João Carlos Espada é diretor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa)

A revolução soviética, cujo centenário alguns celebram amanhã, foi simplesmente a maior fraude intelectual e moral do século XX.

Em primeiro lugar, não se tratou de uma revolução popular, mas de um mero golpe armado promovido por uma minoria fundamentalista que nunca convocou e respeitou eleições livres.

Em segundo lugar, não se tratou sequer de um golpe contra um regime despótico. O regime czarista tinha sido deposto em Fevereiro desse mesmo ano de 1917. Um regime constitucional parlamentar dava os seus primeiros passos na Rússia e preparava eleições livres.
Por outras palavras, a tão badalada ‘esperança emancipadora’ da revolução soviética resumiu-se a uma sublevação armada para impedir a tentativa de consolidação de uma democracia parlamentar na Rússia. Traduziu-se depois na criação de um regime sanguinário que procurou exportar para a Europa o mesmo desrespeito fundamentalista pelas regras imparciais do constitucionalismo democrático.

Esta tentativa de exportação do fundamentalismo comunista acabou por gerar outros fundamentalismos de sinal contrário: o nacional-socialismo e o fascismo. Todos eles são expressão da mesma revolta primitiva contra a sociedade aberta e pluralista — da qual todos eles inicialmente fizeram o seu principal inimigo. E em comum desencadearam a II Guerra, em Setembro de 1939, através da invasão combinada da Polónia pela Alemanha nazi e pela Rússia comunista.

Por que motivo produziu o bárbaro regime soviético tanta admiração entre a intelectualidade ocidental? É um mistério a que Raymond Aron, em 1955, chamou de ‘ópio dos intelectuais’. Funda-se num conjunto de mitos que muitos intelectuais ainda hoje recusam confrontar com os factos. A mais devastadora crítica desses mitos comunistas e marxistas foi produzida por Karl Popper em 1945, na sua obra A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos.

O primeiro desses mitos consiste na crença positivista em leis deterministas da história. O comunismo seria o sucessor inevitável do capitalismo, assim como este sucedera inevitavelmente ao feudalismo, e o feudalismo sucedera inevitavelmente ao regime esclavagista e este ao chamado ‘comunismo primitivo’. Esta sucessão inevitável resultaria do desenvolvimento dos meios e técnicas de produção e não dependia das escolhas morais e políticas dos indivíduos — que apenas poderiam atrasar ou acelerar o rumo predeterminado da história.

Esta foi a ‘teoria científica da história’, anunciada por Marx e Engels no seu ‘Manifesto Comunista’ de 1848. Mas, perguntou Popper, se se trata de uma teoria científica, como pode ser testada pelos factos? Em que condições futuras poderia o não advento do comunismo refutar a teoria?

Nenhumas, mostrou Popper, porque sempre que o comunismo falhar os crentes positivistas poderão argumentar que se tratou de um recuo temporário — e que, no futuro, o comunismo inevitavelmente triunfará. (Isto é precisamente o que dizem hoje os comunistas quando confrontados com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a implosão do comunismo soviético).

É como o letreiro que anuncia ‘Amanhã a cerveja será gratuita’. Os clientes voltarão todos os dias e todos os dias terão de pagar a cerveja. Mas o letreiro continua certo porque cada dia será ‘hoje’ — e pode ser que ‘amanhã’ a cerveja seja gratuita. Por outras palavras, disse Popper, a ‘visão científica’ da história não passa de uma versão positivista de ‘profetismo oracular’.

Além disso, mostrou Popper, todas as poucas previsões empiricamente testáveis produzidas pelo marxismo foram refutadas pelos factos. Não se verificou a queda tendencial da taxa de lucro nem a estagnação da inovação promovida pelas empresas privadas, livres e descentralizadas. Não houve bipolarização entre ricos e pobres, mas impressionante expansão das classes médias. Não foi impossível reformar o sistema capitalista através do Parlamento — pelo contrário, foi possível criar pacificamente fortes redes de segurança para todos e melhorar as condições de trabalho de todos.
O mito das ‘leis da história’ foi refutado pelos factos. Dele sobrou o relativismo niilista do ‘socialismo científico’. Esse niilismo foi a doença infecciosa do século XX, que produziu milhões de vítimas de governos totalitários sem escrúpulos — e sem vergonha.

Esse vírus estava contido no chamado ‘socialismo científico’ de Marx e Engels. Ao condenarem o que chamaram de ‘moralismo burgês’ do socialismo democrático e da social-democracia, Marx e Engels deram alegada justificação ‘científica’ à ausência de moral em política. A revolução comunista, disseram eles, não deve ser apoiada por razões morais, mas por razões científicas — porque o comunismo é o futuro inexorável.

Mas está bem de ver que, mesmo que o comunismo fosse o futuro inexorável, isso não constituiria razão moral para o apoiar. A menos que tivesse sido adoptada uma premissa ‘moral’ que não está expressa nesse raciocínio: a premissa ‘moral’ de que ‘só devemos apoiar causas vencedoras’. Esta foi na verdade a premissa não dita que o chamado ‘socialismo científico’ adoptou — a premissa do culto do poder sem restrições morais (que Nietzsche também espalhou, entre outras clientelas).

Foi este culto do poder sem restrições morais que deu lugar à política violenta dos ‘camaradas’ — uns de punho fechado, outros de braço estendido, todos aos gritos estridentes contra o capitalismo democrático. Mas esse culto fundamentalista foi derrotado pela tranquila resistência da civilização ocidental — fundada na liberdade ordeira sob a lei e no Governo representativo que prestas contas ao Parlamento.


sábado, 23 de julho de 2016

MENTIRA, A VELHA CARTA DE APRESENTAÇÃO DO COMUNISMO INTERNACIONAL

Amigos, em relação à esdrúxula troupe que compôs o famigerado "Tribunal Internacional pela Democracia no Brasil", concordo com a análise feita pelo jornalista gaúcho Percival Puggina. Trata-se, sem dúvida, de mais um "tribunal popular" para livrar a cara da petralhada e justificar a roubalheira destes quatorze anos de desgoverno, a verdadeira "herança maldita" que o PT nos deixou. 
Ora, ora, "Via Campesina" e quejandos não têm nenhuma autoridade moral. São larápios internacionais. Dilma et caterva não perdem por esperar. a Opinião Pública brasileira já sabe quem são eles. Mais um pouquinho e estarão, definitivamente, no olho da rua.
Divulgo a seguir matéria de Percival Puggina sobre o tal "Tribunal Internacional" que se reuniu no Rio de Janeiro para vociferar contra as instituições republicanas brasileiras.

A MENTIRA É O EXIGÊNIO DO COMUNISMO
Percival Puggina
           Na última quarta-feira (20/7), reuniu-se no Rio de Janeiro um grupo de juristas escolhidos a dedo para compor um certo "Tribunal Internacional pela Democracia no Brasil". O nome da inaudita corte confessa um perfeito enquadramento: trata-se de promover a defesa da democracia "no Brasil". Venezuela, Cuba e outros são situações especiais. Se observarmos bem a imagem veremos uma bandeirinha da Venezuela sobre a mesa dos trabalhos...
          A decisão final afirma que o processo jurídico e político em curso no Brasil "viola a Constituição brasileira, a Convenção Americana de Direitos Humanos e o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, constituindo um verdadeiro golpe de Estado”.
          O evento, que transcorreu no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro, foi uma promoção conjunta da Via Campesina Internacional, Frente Brasil Popular e Frente Brasil Juristas pela Democracia, com apoio de diversas organizações sociais, entre elas a CUT. O bicho, como se vê, tem coro de jacaré, rabo de jacaré, anda como jacaré e não vai para o céu porque tem boca grande e só fala mentiras. Mas as mentiras, bem sabemos, adquirem consistência pela repetição. Mais ainda se proferidas por supostas autoridades. Ninguém prestaria atenção numa mentira da Via Campesina, nem de certos juristas brasileiros que são conhecidos porta-estandartes nos desfiles da Unidos pela Estrela. No entanto, um grupo de pessoas com nomes estranhos e estrangeiros, como as senhoras Azadeh N. Shahshahani, Almudema Barnabeu e Lawrence Cohen, chama atenção. Esse processo está muito bem descrito e fartamente exemplificado no livro Disinformation, do general dissidente Ion Mihai Pacepa. Os russos da KGB, hoje FSB, eram mestres nesses estratagemas.
          O site Brasil 247, entre outros, abriu manchete: "Tribunal Internacional conclui que impeachment de Dilma é golpe de Estado". Tribunal Internacional com qual legitimidade, caras-pálidas? Quem proporcionou a essa trupe homogênea autoridade superior à Constituição do Brasil, às duas casas do Congresso Nacional e ao longo e ponderado rito em curso, que já leva meses, conforme definido e acompanhado pelo Supremo Tribunal Federal?
           Quanta razão tinha o grande escritor russo Alexander Soljenitzin, Nobel de literatura e autor do Arquipélago Gulag: "O pior do comunismo não é a opressão, mas a mentira"!
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* Percival Puggina (71), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

HIJOS DEL DEMOCRATISMO



Chávez encarnado en la figura del pajarito que iluminó a Maduro
El Brasil vive tiempos de democratismo. Lope de Vega (1562-1635) en su drama Fuenteovejuna (publicado en 1618) ilustró de manera especial esa realidad. Ante el asesinato de un noble, el “Comendador”, la autoridad pregunta: - “Quién mató al Comendador?” La turba responde: - “Fuenteovejuna, Señor”. – “Y quién es Fuenteovejuna?” Indaga el alcalde. La turba responde: - “Todos a una!”


Los brasileños – y, en general, los latinoamericanos del área bolivariana (Venezuela, Brasil, Cuba, Argentina, Bolivia, Nicaragua, Ecuador, El Salvador) – viven tiempos de Fuenteovejuna. Nadie, individualmente, es culpable, si pertenece a la clase más numerosa, la de los descamisados, o si obra en defensa de ésta. La sociedad es la culpable por los posibles desvíos que éstos cometan. Los teólogos de la liberación, aquellos padres incrédulos que le vendieron el alma al Che Guevara, inventaron un concepto que traduce muy bien ese espíritu: el “pecado social”. Los pecadores, para los clérigos rojos, no son las personas. Son las estructuras injustas. Los pecados son imputables solamente a los explotadores de los pobres. Los descamisados, sin embargo, y sus representantes en el gobierno están cobijados por el manto de la impunidad democrática. No pueden errar pues todo lo hacen en nombre de la mayoría. Por el contrario, los ricos, los representantes del capital internacional y sus agentes represores, la policía y las fuerzas armadas en general, son sí culpables por los errores que cometan, pues no pertenecen a la mayoría.


El binomio opresor-oprimido termina explicándolo todo e indicando quién es el culpable: el opresor. Karl Marx con su socialismo totalitario y mesiánico fué quien de manera más clara utilizó esta dialéctica, al considerar que todo se explica por la lucha entre el capital y el trabajo, siendo que los trabajadores son los explotados en la historia y los que salvarán a la totalidad de la humanidad. Lenín, al pensar la lucha por la toma del poder en Rusia, aconsejaba, a la luz de los conceptos de Marx, que lo primero que los bolcheviques deberían hacer sería estimular la guerra total, la contienda civil, a fin de derrocar de una vez por todas las instituciones burguesas, encarnación de mal. Cuando los latinoamericanos, a fines del siglo XX, vincularon el populismo bolivariano con las ideas de Marx a través de los conceptos de la “revolución cultural” predicada por Antonio Gransci, dieron a luz el monstruo que hoy los aterroriza: el populismo totalitario, cuya alma es el democratismo que acaba de ser descrito.


Desde el punto de vista filosófico, el democratismo representado literariamente por Lope de Vega en el siglo XVII, fue pensado por dos autores: el filósofo ginebrino Jean-Jacques Rousseau (en la segunda mitad del siglo XVIII en su obra El contrato social), y el pensador social Henri-Claude de Saint-Simon (a comienzos del siglo XIX, en sus obras La fisiología social y El nuevo cristianismo). Para Rousseau, la Voluntad General es la llamada a gobernar, siendo que ésta es encarnada por el Legislador y el cuerpo de asistentes denominados “puros” (que abdicaron de la defensa de sus intereses particulares para entregarse totalmente al bien público). Ellos tienen dos misiones grandiosas: garantizar la felicidad general de todos los hombres, mediante la impantación de la unanimidad (destruyendo a todos aquellos que conspiren contra ésta) y hacer nacer el Hombre Nuevo, totalmente entregado a la defensa del interés público.


Para Saint-Simon, la clase oprimida, los proletarios, es la llamada a encarnar la Voluntad General, en conjunto con los que encarnan en el gobierno la defensa de los pobres. Todos ellos, proletarios y líder carismático que pasó a defenderlos, son los que constituyen la fuente del poder y tienen el deber de salvar a la sociedad de la aporía en que fué encerrada por el egoísmo. Karl Marx sólo tuvo que reinterpretar todas esas fuentes poniéndose a sí propio en el papel de representante de la salvación de los oprimidos. El doctrinario liberal François Guizot había dicho: “Burgueses de Francia, uníos”. Marx y Engels acomodaron esta fórmula en el Manifiesto Comunista de 1848 a la célebre consigna: “Proletarios del mundo, uníos”.


Los brasileños viven tiempos de democratismo. El salvador de ellos es hoy en día el representante de los descamisados, Lula y su patota de petistas amaestrados, incluyéndose entre éstos a la actual presidente Dilma, canina seguidora de las consignas lulistas. Como el gobierno petista es inepto (en lo económico, en lo político, en lo cultural  y en lo social) y da pruebas de que no se enmienda (ya transcurrieron once largos años de inepcia y de consignas revolucionarias), los descamisados han decidido practicar la que Ortega denominaba “acción directa”. Las bandas de pistoleros se han multiplicado por doquiera (como sucedió en Colombia cuando los tradicionales carteles de la droga fueron derrotados a fines del siglo pasado). Los “justicieros” y sicarios (pistoleros a sueldo) matan a la luz del día los sindicados de crímenes y estos actos de barbarie  son filmados y divulgados por las redes sociales. Todo es válido si se hace por los marginados y en contra de las élites burguesas.


Lo curioso en este caso es que tanto Lula como su patota de petistas en el poder ya están riquísimos. Y aún continúan diciendo que la culpa es de los ricos. Me imagino que esto sucedió en la Revolución Francesa. De tanto incitar al populacho contra las élites, los miembros del escalón que dirigía la loca República que fue parida por la Revolución de 1789 se olvidaron de que ellos también formaban parte de la élite. Y la guillotina se volvió contra ellos y los descabezó. Murieron en el cadalso iluminista Danton, Robespierre, Saint-Just y hasta el propio doctor Guillotin que inventó la célebre maquinita.


Lo que está pasando en Venezuela, en donde el sucesor de Chávez parece que va a llevar hasta las últimas consecuencias su condición de mesías de los “de abajo” ilustra bien la sinrazón de esa empresa soteriológica. Maduro se caerá de maduro porque está convencido de que la Voluntad General se ha encarnado en él y de que, como su maestro, el finado coronel Chávez, deberá salvar a los explotados. Ya no es necesario que un pajarito, encarnación de Chávez, se lo diga. Él está convencido de que es el salvador de la patria. Los cubanos se frotan las manos con tanta disposición, pues Venezuela continuará financiando la quebrada economía de la isla, mientras haya en Caracas alguien dispuesto a salvar a los desposeídos.


Cosas de la loca razón humana. Vayan a explicarle esto a los petistas y a sus semejantes bolivarianos en esta agitada América Latina que nos ha tocado vivir.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A REVOLUÇÃO SENTIMENTAL - UMA LÚCIDA ANÁLISE DO CHAVISMO


Capa e conbtracapa da obra de Beatriz Lecumberri, intitulada: La revolución sentimental.




Quem quiser entender, de forma equilibrada, o que se passa na Venezuela atualmente, pode ler uma obra de referência: o livro que a jornalista espanhola Beatriz Lecumberri (1972-), lançou recentemente, em Caracas, com o sugestivo título de: La revolución sentimental: viaje periodístico por la Venezuela de Chávez (Prólogo de Cristina Marcano. Caracas: Ediciones Puntocero, 2012, 398 páginas). 


Diretora da Agência France Presse em Caracas e República Dominicana durante quatro anos, entre 2008 e 2012, Lecumberri entrou em contato com os principais atores políticos da Venezuela, bem como com cidadãos comuns de várias classes e tendências políticas e conseguiu desenhar, na sua obra, o mais completo quadro jornalístico desse país, no que tange: I – à economia; II – à política (incluindo uma abrangente descrição dos aspectos estratégicos, bem como das relações internacionais e das políticas públicas na área social); III – à cultura.


A elaboração da obra de Beatriz Lecumberri constituiu uma difícil empreitada, levando em consideração a profunda cisão ensejada pela revolução bolivariana no país caribenho, fato que passou a dividir as opiniões de forma praticamente irreconciliável, entre partidários de Chávez e detratores dele e da sua gestão. Tudo por conta da radicalidade e do teor messiânico-ufanista do governante. A obra em apreço consta de quatro partes: Pátria, Socialismo, Muerte e Venceremos. Centrarei a minha abordagem numa sucinta análise dos itens mencionados no parágrafo anterior que abarcam, a meu ver, os aspectos essenciais da sociedade venezuelana contemporânea. Concluirei destacando as perspectivas que, segundo Beatriz Lecumberri, se descortinam para a Venezuela nos atuais momentos e adicionarei o meu ponto de vista do que da experiência venezuelana se depreende para o Brasil, que foi polarizado, também, nos governos petistas, no âmbito de um socialismo análogo ao proposto por Chávez.

 

I – No que tange à economia, Lecumberri mostra que Hugo Chávez propendeu, ao longo da sua permanência no poder, entre 1999 e os dias atuais, por dois esforços correlatos: instaurar um sistema produtivo centrado no crescimento estatal da economia, tendo como eixo a indústria petroleira e, em segundo lugar, desmontar a grande empresa capitalista, notadamente a transnacional, em todas as áreas, desde a agrobusiness até a prestação de serviços nos terrenos da comunicação, cultura, informação, educação, saúde, transportes, etc. Ainda no campo econômico, Chávez tem procurado estimular a pequena e média empresa nacional substituindo, no entanto, a dinâmica do mercado por um rígido colbertismo econômico que termina asfixiando a iniciativa privada.


Esse centripetismo econômico ao redor do Estado empresário tem uma finalidade clara: a instauração de um modelo socialista, nos parâmetros do que é praticado no mundo comunista em Cuba, seguindo a tradição estatizante da antiga União Soviética e da China de Mao, principalmente. A autora ilustra da seguinte forma o preconceito de Chávez em relação à agroindústria, no âmbito de uma ambígua política de estatização das terras mais produtivas para colocar, à frente delas, o Estado empresário. A propósito, frisa Beatriz Lecumberri: “Desde 1999, o Governo venezuelano apropriou-se de aproximadamente 3,6 milhões de hectares em todo o país, onde se calcula que há uns 30 milhões de hectares cultiváveis. É o denominado resgate de terras, a revolução agrária de Chávez: acabar com os latifúndios e estatizar as grandes propriedades para devolvê-las aos produtores, com a finalidade de incrementar a produção nacional de alimentos, acabar com os altos preços que freqüentemente afetam ao país e conseguir que a Venezuela, que importa a maior parte dos produtos que consome, se torne auto-suficiente. A agricultura representaria atualmente um 5% do Produto Interno Bruto (PIB). As terras sob controle governamental aumentam praticamente a cada mês, mas a Venezuela dedica anualmente maiores quantidades de dólares para importar produtos de primeira necessidade, embora continuem faltando itens básicos nos supermercados, fato que faz com que a inflação dispare. Somente em 2011, a Venezuela comprou no exterior, por um montante de 46,44 bilhões de dólares, um total de 20% a mais do que em 2010, segundo cifras do Banco Central. Desse total, 6,3 bilhões destinaram-se à importação de alimentos”.[1]


Ao analisar as contraditórias medidas tomadas pelo Governo de Chávez no terreno econômico, salta à vista que a preocupação do mandatário não consiste propriamente, como é propalado pela propaganda oficial, em combater o latifúndio: trata-se, melhor, de atacar a iniciativa privada, mesmo em pequenas e médias propriedades produtivas. Foi o fenômeno que se observou nas sucessivas desapropriações efetivadas numa das regiões mais produtivas da Venezuela, o conjunto de fazendas de médio porte situadas ao Sul do Lago de Maracaibo, na região conhecida como Santa Bárbara.


Eis o relato que Lecumberri faz do que aconteceu nessa outrora próspera região: “Em torno à mesa, entre um bocado de deliciosa carne e de aipim, a maioria tem uma história para contar. Todos nasceram em Santa Bárbara, criaram-se entre vacas e bananais, aprenderam a dirigir trator desde crianças, herdaram a terra quando morreram os seus pais, sentem-se orgulhosos de serem criadores de gado e não imaginam fazer outra coisa. Quando são chamados de latifundiários, muitos não podem conter uma gargalhada. ‘Tenho 50 hectares. Que tipo de latifundiário sou eu?’, me diz Julio Luzardo, proprietário da fazenda Costa Verde, confiscada e posteriormente devolvida. Alguns dos presentes votaram em Chávez em 1998 e inclusive voltaram a votar nele até 2006, mas já faz anos estão decepcionados com o rumo que toma o Governo. – ‘Esta região é muito especial. Representa o sucesso empresarial privado em face do fracasso do público. Roubam-nos para fazer acreditar ao país que estão construindo alguma coisa. Venezuela precisa olhar para o Sul do Lago (de Maracaibo), porque isto pode acontecer com qualquer cidadão. Nós estamos observando os dentes e as garras de Chávez’ – frisa Joaquín Urdaneta, dono de Las Mercedes, outra das fazendas desapropriadas”.[2]  


Acompanhando essas medidas atabalhoadas, injustas e agressivas do governo venezuelano contra as propriedades produtivas, os fazendeiros da região de Santa Bárbara queixam-se do terrorismo desatado pelo Estado. A propósito, Lecumberri escreve: “A todos falta informação oficial e os rumores multiplicam-se no seio do povo, estimulados pela presença de mais de 1.600 militares, dezenas de funcionários do Ministério da Agricultura e do Instituto Nacional de Terras (INTI) e grupos de camponeses de todo o país reclamando essas terras. ‘Enquanto garantimos a produção de comida, ouço rumores de todo tipo: o Governo estaria dando refúgio na região a ativistas do grupo terrorista basco ETA ou teria feito um acordo com o governo da Rússia para ceder parte dessas terras, para um projeto agrícola e pagar assim uma dívida. Estamos acuados – diz-me Júlio Luzardo -. Pediram-me praticamente que renunciasse aos meus direitos de proprietário. Essa fazenda é minha, ali vivo, é produtiva, os meus trabalhadores estão comigo e eu quero defender tudo isso. Os militares foram embora, mas pressionam-me para que venda a minha produção a empresas do Estado’ – me explica. Os criadores de gado sentem que o fato de o Zulia ser, há anos, um estado governado pela oposição, torna-os ainda mais indefesos em face das decisões imprevisíveis do Governo. ‘É vergonhoso ver como um corpo armado, criado para nos proteger e cuidar dos nossos bens, hoje se presta a obedecer a um homem que está errado e viola a Constituição’ – reclama Barboza”.[3]
 

Se, de um lado, o governo venezuelano é claro na sua prepotência e preconceito contra a empresa privada, de outro fica evidente que não tem definido os contornos do vaporoso “socialismo do século XXI” apregoado pelo líder. A propósito, Lecumberri escreve: “Se for lido o inventor do termo socialismo do século XXI, Heinz Dieterich, antiga pessoa de confiança de Chávez, uma democracia plenamente participativa, um verdadeiro poder popular e uma sociedade onde o Estado não esteja por cima dos indivíduos, esses seriam os pilares de tal ideologia. Contudo, vai o presidente venezuelano por esse caminho? O rentismo venezuelano está evoluindo em direção a outro modelo? Segundo Dieterich, não. A Venezuela não soube implantar esse novo socialismo genuíno, adaptado às circunstâncias e às realidades do século XXI. ‘A grande oportunidade de Chávez de construir o primeiro socialismo científico e democrático do século XXI perdeu-se para sempre. E a estrutura apresentada como tal, efetivamente, não passa de ser mais do que uma humilde choupana levantada sobre os alicerces do arranha-céu construído por Marx e Engels’ – afirma este professor alemão”.[4]


O desinteresse do governo chavista em face da definição do termo “socialismo do século XXI” ficou claro quando, em evento que intelectuais venezuelanos organizaram, em Caracas, para debater o tema, nenhum representante oficial apareceu. A propósito, Lecumberri anota: “Margarita López Maya, historiadora e coordenadora dos dois volumes intitulados: Ideas para debatir el socialismo del siglo XXI, contava-me que, quando realizaram os works-shop que serviriam de base para o livro, ninguém do governo participou. Isso provocou uma grande decepção. As contadas exceções foram o general Alberto Müller Rojas, hoje falecido, e Marta Harnecker. Se aventurar a proferir opiniões sobre algo que muitos adeptos do Governo tampouco tinham muito claro que era, com o risco de que o dito fosse contrário ao pensamento do Presidente, fazia tremer de medo a mais de um”.[5]


O que resta na prateleira dos modelos econômicos é, pois, a retórica chavista acerca do “socialismo do século XXI” ou “socialismo bolivariano”. É parte dessa ideologia qualquer coisa que convier a Chávez e aos seus incondicionais seguidores. Puro oportunismo para, na sombra da intimidação, os “donos do poder” se perpetuarem no governo e se enriquecerem às custas dos venezuelanos. A respeito deste ponto, Lecumberri comenta as palavras da historiadora López Maya, da seguinte forma: “Para esta esquerda crítica, nos últimos 13 anos os câmbios na Venezuela parecem ser guiados desde cima e o poder real das missões sociais, os conselhos comunais ou as bases do partido no poder, o PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela), limita-se ao que o Governo lhes outorga. – ‘Isso não é democracia participativa. É outro projeto. Chávez o entende como um aprofundamento da democracia participativa, mas não, é algo personalista, autoritário, onde tudo depende do Presidente da República. Até os setores populares dependem dele’ – frisava López Maya”.[6]


Lecumberri conclui: “Justamente nesses bairros populares de Caracas onde Chávez gerava uma ilusão sem medida, sente-se já um crescente desencanto em relação ao sistema de governo. Os altos índices de violência, a pressão para que os seus habitantes se inscrevam no partido do Presidente, o PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela), ou os procedimentos pouco claros de alguns líderes comunitários incomodam cada dia mais, embora Chávez continue alimentando esperanças e receba agradecimentos pelos subsídios, pelo médico cubano ou pelas bolsas de estudos”.[7]


Do ângulo da previsão do desenvolvimento econômico da Venezuela para os próximos anos – e este ponto se reveste de capital importância, após o triunfo eleitoral de Chávez em 8 de Outubro de 2012, que ainda não tinha acontecido quando a obra que comentamos foi publicada – as perspectivas são realmente sombrias.  A respeito, escreve Lecumberri: “Desde 2007, o governo venezuelano converteu-se num grande empresário e tomou o controle de múltiplas indústrias de praticamente todos os setores da economia. Estatização, expropriação, aquisição forçada e resgate: os termos são múltiplos para finalmente definir uma mesma realidade. O Executivo tem o controle de empresas chave da cadeia alimentícia, desde produtores de fertilizantes até fabricantes de vasilhames ou cadeias de supermercados e decretou estatizações ou expropriações de empresas de cimento, petróleo, siderurgia, telecomunicações, eletricidade, transporte, entidades financeiras e bancárias, entre outros. Ao longo dos últimos dez anos, calcula-se que o Governo tomou o controle, por diversas vias, de mais de 1.400 empresas de tamanhos e setores diferentes e pagou unicamente a um 10% delas, segundo dados da confederação de industriais (CONINDUSTRIA)”.[8]    


Num país em que grande parte da atividade econômica depende do petróleo, a inversão privada sempre foi fraca. Segundo FEDECÁMARAS, esta participava de um 19% do PIB em 1970. Mas, com o chavismo, essa situação se tornou mais precária: a inversão privada passou a um 4% atualmente.[9] Em proporção direta à estatização, a corrupção corre solta no governo de Chávez. Os grandes projetos petroleiros na região do Orenoco estão enriquecendo os amigos do líder bolivariano. A produção de PDVSA alimenta, por outra parte, sem nenhuma transparência, os programas sociais (denominados de “Missões”) do Presidente, com muita publicidade que se faz presente nos períodos eleitorais. E sedimenta, de outro lado, o espírito rentista do venezuelano médio, que se revela na aspiração ao enriquecimento rápido à sombra do Estado. O petróleo é, para Chávez, moeda imprescindível de troca para desenvolver a sua política de expansão da “revolução bolivariana” aos demais países da bacia do Caribe e da América do Sul. A propósito dessas políticas, a autora frisa: “Chávez supõe um antes e um depois na política petroleira. O Presidente, que é o chefe de Estado que maiores ingressos têm recebido com a venda do petróleo cru, é o grande distribuidor da riqueza que a todos pertence. Uma espécie de grande justiceiro. Para os críticos de Chávez, esses ingressos milionários, mais do que gerar desenvolvimento duradouro para o país, têm-se transformado em benesses, em programas sociais dependentes do ouro negro, que só servem para aumentar o caráter rentista do país. Acreditar que o petróleo é de todos faz com que na Venezuela a gasolina seja praticamente gratuita, muitíssimo mais barata do que na Arábia Saudita, primeiro produtor mundial do petróleo cru. Mas, na Venezuela de Chávez, este não é um tema que seja debatido com freqüência. Todos concordam em que o fato de pagar um dólar para encher o tanque de um veículo é, além de uma barbaridade e uma sangria financeira, uma medida que favorece somente àquele que tem um automóvel, ou seja, aos mais ricos. Mas o Presidente não tem tratado do assunto, embora esta situação seja muito capitalista e burguesa, diante do risco de ficar na corda bamba, se for objeto de manifestações multitudinárias de protesto, como já ocorreu com outros governos que ousaram decretar um aumento de preço”.[10]


Gastos atabalhoados com os dólares do petróleo, quase nenhuma transparência na gestão pública, desorganização do governo, corrupção sem controle, violência crescente que tornou as cidades venezuelanas redutos da criminalidade: eis os itens que projetam sombras sobre as perspectivas do desenvolvimento na Venezuela. A propósito, a autora escreve: “A desorganização do executivo e uma corrupção que corrói as entranhas do Estado e do país inteiro, do menor ao maior, do policial do bairro ao alto funcionário, colocam na corda bamba o bem-estar do venezuelano”. A propósito dessa situação, Lecumberri cita as palavras de Antonio Ledesma, prefeito metropolitano de Caracas, da oposição: “Chávez fala da oligarquia, enquanto os seus trocam a casa em Coche [bairro de classe média] pelo apartamento em Cerro Verde [bairro de classe alta], decolam do aeroporto de La Carlota com destino a Miami, passeiam em carros de luxo e bebem whisky de 18 anos à vista de todos. A corrupção no chavismo é tão grande que um dia vão afanar a carteira de Chávez em pleno conselho de ministros”.[11]


Em que pese esse conjunto de aspectos negativos, resta, no entanto, ainda, um ponto firme: as rendas do petróleo conseguem sustentar o projeto chavista. Há uma espécie de “racionalidade administrativa variável”,[12] ao nosso modo de ver, que dá oxigênio ao patrimonialismo chavista, lhe permitindo ganhar eleições, como as acontecidas em meados de Dezembro de 2012, quando os candidatos governistas ganharam o poder em quase todos os Estados venezuelanos. Uma das exceções foi o Estado Miranda, onde o líder oposicionista Henrique Capriles ganhou a reeleição. Os rios de dinheiro provenientes da venda do petróleo, notadamente aos Estados Unidos, alimentam com regularidade as “missões” chavistas, nome dado aos projetos sociais do governo. As benesses aumentam, é lógico, em períodos eleitorais.


II – No que tange à política, a autora consultou a opinião de vários historiadores,[13] a fim de identificar a causa da concepção centrípeta e personalista do poder que anima a Chávez. O resultado das suas indagações foi claro: o líder venezuelano se inspira no pensamento de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e de Simón Bolívar (1783-1830), que foi formado no mais estrito rousseaunianismo pelo seu tutor, Simón Rodríguez (1771-1854).  Essa é a conclusão a que chega, por exemplo, o historiador Elias Pino, cujas palavras são estas: “Creio que Chávez leu as cartas e os documentos de Bolívar, quase como nenhum historiador tem feito e deles extraiu a parte autocrática do Libertador. Chávez encontra, em Bolívar, os elementos que vão lhe permitir justificar um governo sem freios nem contrapesos e que correspondem com o projeto de país que ele deve guardar em algum lugar da sua cabeça; a monarquia sem coroa, o presidente vitalício ou a criação de um poder moral. Chávez teria feito uma leitura do seu jeito orientada ao total controle da sociedade. Esse é o lado bolivariano de Chávez (...). É um filão quase inexplorado, um tema sobre o qual seria possível escrever páginas e páginas. No discurso de Angostura de 1819, Bolívar proclama a incapacidade do povo venezuelano para caminhar sozinho pelas trilhas da democracia e da liberdade. ‘Um povo ignorante é um instrumento cego da sua própria destruição; um povo pervertido, se atingir a sua liberdade, bem cedo volta a perdê-la’, frisa o Libertador. Bolívar usa o mito da caverna e compara os venezuelanos com um povo que sai da escuridão, da cangalha espanhola, mas se deslumbra e é um gigante cego que deve aprender a caminhar. Porque a liberdade é um alimento suculento de difícil digestão, considera o Libertador, parafraseando Jean-Jacques Rousseau”.[14]


Convém lembrar aqui que Bolívar, alimentado pelo pensamento de Rousseau, terminou claudicando diante de um modelo de governo unipessoal, identificado com o Legislador moralizante imaginado pelo filósofo de Genebra e disposto a implantar a unanimidade, como expressão da “vontade geral” imaginada no Contrato Social, e que se concretizaria no império da moral ao redor dos “puros”. Estes, na imaginação de Rousseau, se identificavam com o líder e os seus seguidores. Tendo-se comprometido totalmente com o bem público, mediante o esquecimento dos seus interesses individuais, eles implantariam o regime da unanimidade, que conduziria a sociedade à felicidade geral. Para isso, o líder, que seria o grande Legislador, implantaria uma “religião civil” cujas premissas, segundo constava no VIII capítulo do Contrato Social,[15] permitir-lhe-iam sufocar, por qualquer meio, o dissenso no seio da sociedade. Quem divergisse do líder atentaria contra a felicidade geral e deveria ser excluído do convívio político. O líder e os puros seriam, então, portadores de uma soberania sem limites, pelo fato de se identificarem como salvadores do povo contra o egoísmo representado pela sociedade burguesa. 


De posse dessa inspiração messiânica, Chávez partiu para a concretização de um modelo savífico da sociedade na “revolução bolivariana”. Ela deveria ser concretizada, primeiro, na Venezuela, para depois estendê-la a todo o continente sul-americano, bem como às vizinhanças das ilhas caribenhas e da América Central, reforçando o papel salvacionista do comunismo cubano para a América Latina, conforme os postulados do Foro de São Paulo.


Do castrismo Chávez tirou, sem dúvida, o arquétipo prático e o apoio estratégico que lhe permitiu completar, na Venezuela, a sua “revolução bolivariana”. Duas agressivas organizações são os seus instrumentos de ação: as Forças Armadas depuradas pelo espírito revolucionário e as “milícias bolivarianas”. As primeiras, integradas por 136 mil homens, estão sendo brutalmente submetidas a um processo de depuração com a finalidade de destruir a antiga hierarquia militar alicerçada no mérito e no profissionalismo. Trata-se da transformação das Forças Armadas em Exército Revolucionário, no qual o progresso na carreira decorre única e exclusivamente da obediência cega ao Chefe. Nessa empreitada, Chávez conta com a estreita colaboração de militares cubanos. Eles estão presentes, também, na organização das “milícias bolivarianas” que chegam, atualmente, a 126 mil homens e mulheres, armados e treinados pelo Estado sob o rígido controle de oficiais do Exército definidamente chavistas. Essas “milícias”, uma espécie de “guarda pretoriana” [16] do Executivo, constituem a força que aglutina, pelo país afora, os “comitês de defesa da revolução”, organizados sob a supervisão de peritos cubanos. A finalidade destes “comitês” é clara: fazer surgir e manter viva, no seio da sociedade venezuelana, a unanimidade dos cidadãos ao redor do Chefe do Estado. Chávez traduz esse estado de entropia social com a expressão: “Bolívar somos todos nós”. Os “comitês” podem apelar, (como os “puros” de Rousseau), para a utilização de quaisquer meios na sua ação moralizadora, inclusive utilizando o terror policial e a “ação direta”, intimidando e assassinando dissidentes (como aconteceu na favela “La Piedrita”, perto de Caracas).[17]
 

Em relação à organização revolucionária das Forças Armadas, Lecumberri centra a sua abordagem na entrevista que fez ao general Jesús González González, diretor do Comando Estratégico Operacional (CEO), o organismo que planeja e dirige operações militares destinadas à defesa integral da Venezuela. Antes, porém, a autora sintetiza, assim, os aspectos orçamentários da área militar: “Em números do orçamento venezuelano de 2009, dedicaram-se à Defesa 8,9 bilhões de bolívares (4,139 bilhões de dólares no câmbio da época, de 2,15 bolívares por um dólar), um 5,3% do total. Em 2012, o orçamento global do Ministério da Defesa representa 21,299 bilhões de bolívares (5,114 bilhões de dólares no câmbio atual de 4,3 bolívares por dólar), ao redor de 7% do total. Comparativamente, no orçamento para 2012 será destinado à Saúde, um dos pontos fortes do governo de Chávez, um montante de 19,5 bilhões de bolívares (4,534 bilhões de dólares)”.[18]


Para o general González González, a política venezuelana em matéria estratégica é puramente defensiva. Contra quem? O militar, na longa entrevista que concedeu a Lecumberri, cita dois inimigos: as FARC, de um lado, e o governo americano, de outro. Não importa que as suas afirmações sejam pouco convincentes. É sabido que as FARC recebem proteção e suprimentos militares da Guarda Nacional e do Exército venezuelanos. Segundo denúncias do governo colombiano, de finais de 2010, protocoladas na OEA, o governo chavista dava guarida, em território venezuelano, a pelo menos quinze acampamentos das FARC. E, apesar dos pesares, os Estados Unidos são o grande comprador do petróleo venezuelano. A pouca objetividade do militar entrevistado levou Lecumberri a tirar esta conclusão: “Mais do que palavras de um militar profissional, parecia-me estar escutando as de um líder do partido de Chávez. Ou inclusive as palavras do próprio Chávez. Inteligente, sem histrionismos, com conhecimento e bem estruturado, o discurso do general era, também, tremendamente militante. Sem fissuras”.[19]


A reforma revolucionária das Forças Armadas conta, na estratégia de Chávez, com a intimidação dos quadros dirigentes, mediante a punição exemplar daqueles oficiais que, embora companheiros do Líder desde a primeira hora, ousaram dele divergir. É o que a autora mostra ao ensejo da longa entrevista que fez ao general Baduel, preso político que acompanhou a Chávez desde a Escola Militar, mas que se afastou dele quando, em 2005, decidiu se transformar em chefe inapelável.


As palavras do general Baduel deixam ver o esquema mafioso e totalitário do governo Chávez: “Chávez quer que eu seja um proscrito. Ameaçam a minha família, pressionam os visitantes. Disseram aos companheiros presos e aos guardas que não tenham consideração comigo, que nem sequer me cumprimentem. Companheiros militares têm medo de me visitar por causa das represálias. Mas isto é Venezuela (...). Temos caído em um esquema mafioso, o futuro da Venezuela é difícil (...)”.[20]


De outro lado, o controle do governo chavista sobre a sociedade efetiva-se, como já foi frisado, através dos “Comitês de Defesa da Revolução Bolivariana”, que utilizam um eficaz mecanismo de intimidação pela TV estatal e pelas emissoras radiofônicas do governo, em cuja programação o líder aparece diariamente. Nesses espaços, sendo um dos mais populares o programa radial “alô Presidente”, o grande comunicador que preside o país fala de tudo: economia, religião, arte, vida sentimental, saneamento básico, educação, relações internacionais, etc. Um item está sempre presente nas alocuções chavistas: as violentas denúncias do Presidente contra os que tenham divergido da sua política. Uma vez feita a denúncia pelo programa radial ou pela TV, os jornalistas “chapa-branca” se encarregam de ampliar as críticas do chefe, e os “Comitês de Defesa da Revolução” passam, então, a infernizar a vida dos “indiciados” pelo Executivo imperial. A eficácia terrorista dos “Comitês de Defesa da Revolução” do chavismo é realmente impressionante. 


Eis o que afirmava, em entrevista, Valentin Santana, líder do “Comitê” da favela “La Piedrita”, nos arrabaldes de Caracas, na véspera de uma eleição: “(...) Nós temos um exército organizado, mas agora o povo também está armado. Não acredite você que só existe Força Armada. Este povo aprendeu, quer a revolução bolivariana e vai sair à rua quando seja necessário defendê-la pela via das armas – me explica. – E quem paga as suas armas os seus veículos? São de alguma forma financiados pelo Governo? – Isso é mentira – me diz violentamente -. Nós fazemos coletas. A comunidade apóia-nos em tudo isso. (...). - Cremos nos candidatos da Revolução. Se a direita desconhece o triunfo dos companheiros teremos de agir de outra forma porque eles já decidiram que o caminho é a violência. Se eles vierem aqui, nós temos armas e vamos enfrentá-los militarmente. Não se trata apenas do projeto de Chávez; este é o projeto de todo um povo. A Revolução nasceu para ficar. Como revolucionários temos a obrigação de fazer com que isto siga caminhando. Durante esta conversa, meses antes que a emenda constitucional sobre a reeleição ilimitada fosse aprovada em fevereiro de 2009, Santana já fez menção a ela, argumentando que Chávez era, por enquanto, imprescindível e deveria governar pelo menos ‘até 2030’, para fortalecer o processo. – Se a Revolução se detém, andaríamos 20 anos para trás e isso seria uma guerra civil. Mas a frase não é sua, é de Chávez. Textual. Fica claro que Santana passa o tempo escutando o Presidente”.[21]
 

Foram vítimas desse processo de denúncia presidencial e de perseguição sumária atrás descrito, importantes figuras da oposição, ou que simplesmente divergiram dos rumos tomados pela “Revolução Bolivariana”. Entre os perseguidos contam-se militares como o general Baduel, o humorista Carlos Lovera, a juíza Lourdes Afiuni, o jornalista Peña Esclusa, o ex-oficial da Guarda Nacional Gabriel Gómez, etc.


No terreno das relações internacionais, parece que a diretriz de Chávez consiste em se relacionar preferencialmente com aqueles países cujos governos apóiem a sua “Revolução Bolivariana”.  Nicolás Maduro, ministro das Relações Exteriores e atual vice-presidente e sucessor de Chávez caracterizou, assim, em entrevista concedida a Lecumberri, a orientação efetivada da sua pasta: “É uma política exterior que foi sendo construída para tecer laços de união com esse mundo que está se configurando por novos pólos emergentes como a China, Índia, Rússia, Irã ou África e, é claro, América Latina (...) Nós lutamos contra qualquer império. Chávez estabeleceu, desde há anos, [como alicerces] a soberania e a independência da nossa política externa e a articulação com novos pólos emergentes do mundo, passando pela construção do eixo de forças que surge na América Latina. Cremos que o futuro da humanidade deve ser o socialismo, porque é a única forma de sobreviver. O capitalismo está fracassado e eu confio em que esta crise geral recolocará, na Europa e no mundo, o debate das idéias socialistas”.[22]


Para antigos diplomatas críticos da política chavista, há muita improvisação e gasto exagerado de dinheiro público na agenda exterior do governo. Uma dessas vozes críticas, o diplomata Ramón José Medina, frisava o seguinte, em entrevista concedida à autora: “Mas por trás dessa popularidade mundial de Chávez e da sua revolução, lateja um grande fracasso. Venezuela tem gastado muito dinheiro em construir um eixo com a Rússia, com a China e com o Irã, mas não tem funcionado. Saiu da Comunidade Andina de Nações (CAN) e tem tardado em ingressar como sócio pleno do MERCOSUL; a ALBA (Aliança Bolivariana para los Povos de América) é um bloco que não caminha e a União de Nações Sul-americanas (UNASUR) não é, finalmente, um órgão regional de importância estratégica (...). Há uma improvisação em termos de política exterior, consistente em não ter definido o que se quer”.[23]


III – No que tange à cultura, tudo, na Venezuela de Chávez, passou a girar ao redor do culto à personalidade do Líder. A “Revolução Bolivariana”, pensada, como foi mostrado no item anterior, a partir da ação messiânica dos puros, ou seja, de Chávez e dos seus irrestritos colaboradores, enraíza-se num misticismo que cultua a figura do Líder Carismático. Chávez, que no início de sua pregação revolucionária se aproximou da Teologia da Libertação, se identificando com Cristo Libertador dos Oprimidos, evoluiu, nos últimos anos, para uma representação religiosa mais heterodoxa ainda, no terreno da santeria afro-caribenha.


Na madrugada de 16 de Julho de 2010, os restos de Bolívar foram exumados por ordem de Chávez, nessa data simbólica que coincide com a festa da Virgem do Carmo representada, no culto yoruba, por Oyá, deusa que comanda o espírito dos defuntos. Eis aqui o relato do transe místico vivido por Chávez naquela noite, segundo a narração de Beatriz Lecumberri: “O mandatário diria depois que, ao se aproximar do esquife, sentiu um fogaréu, foi como se, desde o fundo da caveira, uns olhos o fitassem e contemplou o seu pai, Bolívar, como uma criança e sentiu desejos de abraçá-lo. Então pediu a Deus que repetisse o milagre de Lázaro e o fizesse levantar e andar antes de perceber que o Libertador continuava vivo no seio do seu povo. ‘Tive algumas dúvidas, e não sou o primeiro, ao longo destes anos. Mas ontem à noite, vendo os restos de Bolívar, não sei, o coração me disse: sim, sou eu. Choramos, quem não vai chorar? Bolívar é mais do que um esqueleto. É Bolívar vivo e lutador que hoje se colocou à frente desta revolução e deste povo’. Chávez estava visivelmente emocionado e comovido. Não era para menos. (...) As imagens de um grupo de pessoas, científicos, membros do Governo e guardas de honra, fundamentalmente, vestidos com roupas brancas e máscaras de proteção, ao redor do esqueleto do Libertador, herói da independência da região, deram volta ao país, uma e outra vez, durante vários dias”.[24]


Para o historiador Elias Pino, a encenação montada por Chávez no túmulo de Bolívar era absolutamente desnecessária e abriu a porta para interpretações heterodoxas. A respeito, frisa a autora: “No caso dos restos do Libertador, os rumores não se fizeram esperar. Um deles ganhou especialmente força: tudo teria um símbolo. Chávez teria escolhido conscientemente a data, dia da Virgem do Carmo, e a hora, três da madrugada, e um momento preciso do ciclo lunar, para realizar um ato de bruxaria no Panteão Nacional. Entre os homens vestidos de branco haveria ‘paleros’, que realizaram um ritual para dar mais força política ao mandatário, e os restos do Libertador teriam servido para uma cerimônia de santeria. ‘Não o toquei. Dizem que fizemos bruxaria. Eles são loucos. Somente fui para ver. Não podia não fazê-lo, tinha de ir’, respondeu Chávez, quase se justificando. – ‘É uma hipótese peregrina, mas a verdade é que com Chávez, este culto que antes era marginal tem-se popularizado muito. E a tentação de pensar em ritos mágicos não deixa de ter sentido’ frisa Pino. Os paleros são os iniciados num culto que chegou a países do Caribe, notadamente Cuba, com os escravos da África. Essa variante da santeria é freqüentemente criticada pelo seu obscurantismo e por fundamentar as suas práticas no relacionamento com os defuntos”.[25]


É claro que o que interessa a Chávez é se firmar, no imaginário social do povão, como messias salvador, aquele que, encarnando a figura lendária de Bolívar, é o “Novo Adão”. Efetivamente, Chávez é o criador de uma “novilíngua” caracterizada por retórica chula em que mistura expressões do povão e da caserna e dá novos nomes às coisas e às pessoas. Para o lingüista Germán Flores, Chávez apresenta-se, no seu discurso, como o “Adão do século XXI que dá nome às coisas”.[26] Não é uma tentativa nova dentre as muitas que, ao longo dos dois últimos séculos, têm emergido das sombras do espírito rousseauniano. Já os jacobinos de 1789 tinham partido, também, para empresa lingüística equivalente, no seu esforço totalitário de “gerar o novo homem” apregoado pelo filósofo de Genebra, o que ensejou o surgimento de um novo calendário com nomes grotescos para dias, estações e meses. Tanto Chávez quanto a Revolução Francesa adotaram o estilo das revoluções religiosas que apregoam a nova humanidade. Lembremos a apropriada análise que Tocqueville faz deste fenômeno, em face dos acontecimentos de 1789, no seu clássico livro O Antigo Regime e a Revolução.[27]


Chávez expande a sua imagem aos quatro ventos, utilizando fartamente, e com eficiência, a mídia. A sua onipresença lembra a perenidade de um outro ditador venezuelano, Juan Vicente Gómez (1857-1935), que inspirou a García Márquez para recriar a figura do ditador em O outono do patriarca. Acerca da personalidade oceânica de Chávez veiculada pela mídia, escreve Lecumberri: “O Presidente venezuelano é o único protagonista desta aventura revolucionária. Não há sequer atores secundários, somente figurantes. Chávez é a Revolução Bolivariana. Concentra um grande poder, converteu-se praticamente na única fonte de informação do país, marca a agenda, mantém uma onipresença na TV e enche as páginas políticas dos jornais. Chávez não é só o motor do seu próprio partido e o seu melhor embaixador, mas até alguns anos atrás também parecia ser, de alguma maneira, a pedra angular da oposição, desunida, perdida e sem programa próprio, além de criticar o chefe do Estado. Chávez está em todas partes, em todos os temas de atualidade”.[28]


Na base da comunicação chavista está a tremenda capacidade midiática do Presidente. Ele é um showman de si próprio e da sua ditadura. A respeito, frisa Lecumberri: “Mas, violento ou não, o discurso do Presidente penetra fundo nas pessoas porque ele se parece muito com elas. Chávez é um venezuelano que em direto e pela TV canta e dança joropos, espalha gargalhadas ou vomita insultos, fala de suas noivas, de fracassos sentimentais de juventude, explica qual é a sobremesa preferida, conta o que lê quando não consegue dormir e até descreve com detalhes os seus problemas digestivos. O operário de Boconó, a dona que faxina casas em Altamira, o taxista de Catia, a secretária de Chacaíto e a empregada do Metrocable de San Agustín sentem que é um Presidente próximo, que lhes fala, usando palavras claras e parecendo conhecer os seus problemas. O desembaraço de Chávez, mais estudado do que se poderia imaginar, o faz falar durante longas horas e consegue que as pessoas o escutem também durante horas (...). O estilo do mandatário provoca, ademais, um contágio generalizado, uma imitação de parte de simpatizantes e opositores. Não é fácil dizer se o Presidente fala com os venezuelanos ou se são os venezuelanos que falam com ele. Porque, já faz anos, Chávez consegue impor as suas formas. É comum escutar as expressões usadas pelo chefe do Estado na rua, na TV e nos titulares dos jornais,  independentemente de sua orientação política”.[29]



IV - Conclusões. A seguir, destacarei as três principais conclusões que se podem tirar das análises de Beatriz Lecumberri e destacarei, no final, numa quarta conclusão, as lições que podemos tirar para o Brasil.

1 – Do messianismo ao continuísmo pragmático do chavismo. Quais são as alternativas que restam para a Venezuela nestes momentos em que o fim do Ditador se insinua no horizonte, ao ensejo da sua doença incurável? Como numa espécie de relâmpago no final da tempestade, o próprio Chávez acenou com a sua sobrevivência para além da doença, fazendo sentir, aos venezuelanos, que venceria mais essa etapa na tumultuada aventura da sua existência. Porém, nem o segredo dos médicos cubanos, nem a praticamente nula transparência do governo venezuelano (acerca da evolução da moléstia), foram capazes de fazer com que as sombras do ocaso não se projetassem sobre a figura mítica do Líder. 


Sabemos, pelos jornais, que o próprio Chávez já fala do seu fim e da indicação do seu vice, o fidelíssimo ex-condutor de metrô e chanceler Nicolás Maduro para substituí-lo nas funções presidenciais, caso se veja obrigado a abandonar o poder. Esta alternativa, segundo a imprensa internacional, parece inspirada por Fidel Castro, que a pôs em prática em Cuba. Conseguiria Maduro manter o chavismo nas bases centralizadoras e messiânicas que ostenta? Será possível que o chavismo resista a uma oposição que dá mostras de estar mais bem organizada? O futuro dirá.


Mas o que o líder venezuelano queria, em primeira instância, era inserir a doença no processo simbólico de perpetuação da sua presença na mídia venezuelana e na imaginação do povo. A propósito, Lecumberri escreve: “(...) Chávez sempre fez catarse em público com mandatários, amigos, ministros, seguidores anônimos ou jornalistas internacionais. É um exercício necessário, no mandatário, purgar interpretando, ridicularizando ou relativizando no palco as coisas que lhe desagradam ou o angustiam. (...) Chávez contou pormenores de sua operação, a sua angústia, as suas dores, as suas conversas com Fidel Castro, os seus pensamentos antes de entrar na sala de cirurgia. Os venezuelanos tiveram o direito de saber de que tamanho era o tumor, quantas horas durou a operação, quem lhe deu a notícia, como reagiu ele, quanto come, quando pratica esporte, o quadro que está pintando, mas jamais foi divulgado um comunicado médico oficial nem se informou exatamente onde estava o tumor maligno. A cura de Chávez parecia e parece ser, até hoje em dia, uma questão de fé”.[30]


A respeito da manipulação da informação sobre a saúde de Chávez, alguns intelectuais consideram que quem comanda todo o processo é o governo cubano. Em relação a este ponto, afirma a conceituada historiadora Margarita López Maya: “Estamos em mãos dos cubanos que nos desenham a estratégia, que decidem até quanta informação nos é passada. É uma coisa inédita. É um país que tem a sua soberania depositada na ilha de Fidel e de seu irmão. Mas é, sem dúvida, o país que está doente, vivendo uma divisão desnecessária. Chávez quis governar por cima da Constituição e o país está destroçado (...)”.[31]


2 – Aumento descontrolado da violência e insatisfação crescente na sociedade venezuelana. Em que pese a propaganda oficial e a presença obrigatória do Líder na mídia, os problemas sociais não esperam. Segundo Américo Martín, um velho militante esquerdista do MIR (“Movimiento de Izquierda Revolucionaria”), há, hoje em dia, 500 protestos por mês contra os desmandos do governo Chávez.[32] A violência urbana, principalmente, está fora de controle. A respeito do crescimento descontrolado do fenômeno, Lecumberri registra o seguinte: “Segundo cálculos extra-oficiais, em 1999, ano em que Chávez começou a governar, houve 4.500 homicídios na Venezuela, enquanto que, em 2011, os assassinatos superaram os 19.000. Entre 2001 e 2011 ocorreram no país mais de 141.000 homicídios”.[33] Depois de anos tentando ignorar a questão, Chávez viu-se obrigado a reconhecer que a violência é um problema sério na Venezuela de hoje. Porém a culpa não é dele, segundo sua interpretação, mas dos inimigos da Revolução Bolivariana: os paramilitares colombianos, os agentes da CIA, a imprensa que divulga dados inverídicos, os empresários contra-revolucionários, etc.


Em 2009, a ONG Programa Venezolano de Educación-Acción (PROVEA) denunciou a trágica situação do país, mediante o seguinte comunicado: “Apesar das declarações dos altos mandos do Executivo nacional a respeito, registra-se um incremento sustentado da criminalidade. Há uma falta de capacidade do Governo para abordar, de maneira efetiva, os graves problemas de insegurança e uma negativa a promover o diálogo nacional para abordar a situação”.[34]


A verdade é que o governo de Chávez já não tem a força de antigamente, porque a sociedade venezuelana está reagindo contra a falta de transparência, o autoritarismo e a incompetência. O já citado líder esquerdista Américo Martín destacava a respeito: “No caso de Chávez, a sua vocação totalitária se expande, pretende ocupar todos os espaços e criar um sistema absolutamente dominado por ele, até que é detido por algo que lhe impede fechar o círculo e declarar uma ditadura. Ele não pensa com a implacabilidade de Fidel e o tema dos direitos humanos lhe produz uma verdadeira dor de cabeça, porque teme a reação popular (...).[35]


3 – Reorganização da oposição e aumento da sua capacidade eleitoral. Apesar de a oposição venezuelana ter-se mantido dividida e sem uma clara agenda política ao longo dos primeiros dez anos da dominação chavista, a situação, de um tempo para cá, começou a se desenhar de forma diferente. Em que pese o fato de proliferarem, entre os oposicionistas a Chávez, vários agrupamentos com idéias diferentes, parece que a oposição conseguiu definir uma rota de ação progressiva para ir tirando força ao governo. Insinua-se, no horizonte, a possibilidade de um triunfo eleitoral. 


A campanha presidencial de Outubro de 2012, se bem deu a vitória a Chávez, no entanto manifestou que praticamente a metade dos venezuelanos é partidária de um candidato como Henrique Capriles, que apresenta propostas moderadas de governo e que se dispõe a criar uma agenda comum com outros grupos oposicionistas. Surge, assim, no panorama venezuelano, uma oposição com capacidade de pôr fim ao ciclo chavista, por meios democráticos. A vitória de Capriles como governador do Estado de Miranda, em meados de dezembro de 2012, reforçou esta possibilidade.


Para Capriles, o chavismo pode ser substituído por um governo democrático e pluralista, que conserve o lado bom dos programas sociais realizados por Chávez, sem, no entanto, polarizá-los ideologicamente como faz o atual presidente. A respeito, afirmava Capriles em entrevista a Beatriz Lecumberri: “Não acredito na forma de fazer política que faz chantagem atemorizando as pessoas. Falo com muita gente na rua que simpatiza com o atual governo e que me pergunta: ‘É verdade que você vai tirar isto?’ Ora, não faria isso nem que fosse louco. Você acredita que alguém pode lhe tirar a casa ou um serviço de saúde? Ninguém pode tirar essas coisas. As missões[36] devem ser melhoradas. Para ninguém é um segredo a crise que se instalou na prestação desses serviços. Se quisermos fechar os olhos, nunca veremos o problema”.[37]


Em que pese a situação de deterioro institucional em que o país se encontra, não pode ser negado, segundo Beatriz Lecumberri, que o saldo social do governo chavista é a realização mais importante. A própria oposição o reconhece ao pretender manter esses programas, como destacava Capriles na sua campanha recente, libertando-os, no entanto, do peso autoritário, personalista e messiânico. Esse tipo de avaliação foi feito pela historiadora Margarita López Maya, com as seguintes palavras: “O que para mim fica claro é que, se o governo de Chávez terminasse amanhã, o seu grande legado será essa prioridade no combate e redução da pobreza, bem como o fato de ter colocado todo o aparelho do Estado nessa direção (...). Neste país era fundamental dar de comer às pessoas. Na prática, ele o tem feito de forma péssima, mas conceitualmente há coisas muito valiosas. Por exemplo, a Missão Bairro Adentro. O fato de ter colocado ali esses médicos cubanos, 24 horas por dia, prestando serviços gratuitos, é uma idéia maravilhosa conceitualmente. Igualmente, os modelos de alfabetização. É necessário massificar a educação como apregoa este governo, mas claro, deve ser educação de qualidade e não ideológica. As missões sociais deveriam ser parte das instituições do Estado e estar garantidas pelo orçamento nacional, não unicamente pelo Presidente. Tudo deverá ser corrigido um dia para que continue funcionando, porque hoje tudo depende do Presidente para que todos votemos nele”.[38]


4 – Reflexão em face da realidade brasileira. A análise crítica do chavismo feita na sua obra por Beatriz Lecumberri é de grande valor para, no Brasil, pensarmos acerca do que de aproveitável há na era lulopetista, a fim de corrigir os rumos que ameaçam com levar por água abaixo a estabilidade econômica e o funcionamento das instituições democráticas. Assim como o chavismo na Venezuela, a era lulopetista apresentou-se, perante a sociedade, como uma salvação tipificada naquele chavão de Lula: “Nunca antes na história deste país”. 


O sistema de bolsas sociais com que os governos petistas tentaram combater a desigualdade teve, certamente, um aspecto positivo: diminuiu a pobreza dos setores mais carentes, beneficiários das mesmas. Mas trouxe um aspecto negativo: a não suficiente avaliação do impacto desses benefícios, aliada às dificuldades do empresariado (às voltas com pesadíssima carga tributária), criou obstáculos para a geração de empregos em novas indústrias e a inserção no mercado de trabalho dos beneficiários dos programas sociais, que, nas regiões mais carentes, passaram simplesmente a depender do favor oficial, configurando massa de manobra política em períodos eleitorais. De outro lado, a improvisação em matéria de gestão, bem como a índole autoritária da militância que ocupou os cargos da alta burocracia, emperrou a racionalidade da administração pública, com medidas atabalhoadas e quase nenhuma transparência. 


A idéia de que, em lugar de incentivar a iniciativa privada, era necessário estimular o surgimento de empresas estatais, fez com que voltasse o antigo fantasma da inflação. Os preconceitos contra setores modernos da economia, como a agroindústria, têm criado sérios problemas para o progresso desse setor, responsável em boa medida pela preservação das nossas reservas. E as práticas perversas da cooptação de parlamentares pelo Executivo terminou fazendo deslanchar a onda de corrupção ao ensejo do “Mensalão”, “como nunca na história deste país”.


Corrigir esses rumos implica, certamente, em diminuir o peso do Estado na economia, como se faz necessário na Venezuela de hoje. Torna-se imperativa, mais do que nunca, a transparência na gestão da Petrobrás e dos Bancos estatais, notadamente o BNDES. É imprescindível, também, efetivar uma séria crítica ao populismo. Segundo esse tipo de dominação (uma variante hodierna do Patrimonialismo), o líder carismático, com a sua capacidade de fazer promessas irresponsáveis, termina comprometendo a governabilidade e gera fantasmas que irão assombrar as gerações futuras, com a volta do velho estatismo salvacionista e do seu corolário, a inflação, na melhor tradição familística, tão em voga na América Latina.



[1] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental: viaje periodístico  por la Venezuela de Chávez. Prólogo de Cristina Marsano. Caracas: Puntocero, 2012, p. 125.
[2] LECUMBERRI,  Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 127.
[3] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 126-127.
[4] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 144. A autora faz alusão à entrevista concedida por Heinz Dieterich à página web Kaos, em agosto de 2011.
[5] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 144. A obra mencionada nesta citação é: Margarita LÓPEZ MAYA e Vladimir ACOSTA (organizadores), Ideas para debatir el socialismo del siglo XXI, Caracas: Editorial Alfa, 2007, 2 volumes.
[6] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 145.
[7] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 145.
[8] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 134-135.
[9] Ce. LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 140.
[10] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 157.
[11] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 155.
[12] A expressão é do cientista político russo Paul Miliukov (1859-1943), um dos estudiosos mais destacados das bases econômicas do Patrimonialismo, no contexto dos despotismos hidráulicos. Cf. A respeito, WIITFOGEL, Karl (1896-1988), Le despotisme oriental. (Trad. de Micheline Pouteau), Paris: Minuit, 1977.
[13] Foram entrevistados pela autora os seguintes historiadores, membros da Academia Nacional de História de Venezuela: Inês Quintero, Elias Palomino e Germán Carrera Damas.
[14] Apud LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit, p. 307-308.
[15] Cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Du contrat social. Paris: Gallimard, 1987.
[16] A expressão tem sido utilizada por alguns oposicionistas para caracterizar a natureza violenta dessa organização, a serviço do projeto chavista. Cf. LECUMBERRI, Beatriz, La revolución sentimental, ob. cit., p. 114-115.
[17] Cf. LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 101-102.
[18] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 108-109.
[19] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 109.
[20] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 32-33.
[21] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 101-102.
[22] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 170.
[23] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 174.
[24] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 300.
[25] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 302-303.
[26] ECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 280.
[27] Cf. TOCQUEVILLE, Alexis de. O Antigo Regime e a Revolução. (tradução brasileira de Y. Jean). Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979.
[28] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 201-202.
[29] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 282.
[30] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 290-291.
[31] LÓPEZ MAYA, Margarita, apud LECUMBERRI, Beatriz, La revolución sentimental. Ob. cit., p. 291.
[32] Apud LECUMBERRI, Beatriz, La revolución sentimental, ob. cit., p.  50.
[33] LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 218.
[34] Apud LECUBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 229.
[35] Apud LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 50.
[36] Nome dado por Chávez aos programas sociais do governo.
[37] Apud LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental. Ob. cit., p. 379.
[38] Apud LECUMBERRI, Beatriz. La revolución sentimental, ob. cit., p. 57.