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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A PERSISTENTE E CANSATIVA CARA DE PAU DE LULA E PT (Artigo publicado no Estadão, 17-01-2018, p. A2)








Sua retórica se inspira na tradição totalitária que fez milhões de vítimas mundo afora






*Ricardo Vélez Rodríguez, O Estado de S.Paulo
17 Janeiro 2018 | 03h08
O fato que salta à vista neste início de ano é a eterna cara de pau de Lula e dos advogados e militantes do Partido dos Trabalhadores (PT). O famigerado líder petista e seus sequazes tentam peitar a magistratura, com o propósito de tumultuar o julgamento do réu pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, no próximo dia 24, tendo sido já o ex-presidente condenado pelo juiz federal Sergio Moro em primeira instância, no âmbito da Operação Lava Jato.
A finalidade da estratégia petista sempre tem sido pescar em águas turvas. Para Lula, só há uma alternativa: guindá-lo de novo ao poder, do qual ele e seu partido foram desalojados pela sociedade brasileira após 14 anos de desmandos.
Inovou Lula com essa estratégia? Definitivamente, não: essa é a via aberta pelos totalitários desde os jacobinos e Lenin até os dias atuais.
O grande problema não resolvido pelos totalitários é que eles se acham superiores ao restante da humanidade. O termo “democracia”, para o espírito totalitário, significa governo dos próprios totalitários sem nenhuma limitação. Eles assumiram o espírito pregado por Jean-Jacques Rousseau no seu Contrato Social: o líder e os “puros”, seus seguidores, têm a missão escatológica de dar origem ao “homem novo”, aquele não conspurcado pela defesa dos interesses individuais. E somente pode haver uma forma de governo válida: a ditadura do líder messiânico e dos puros, a fim de garantir a unanimidade ao redor da “vontade geral” encarnada neles.
Ora, segundo pensava o maluco filósofo de Genebra na obra citada, o poder total a ser exercido pelo líder e seus seguidores consiste na unanimidade de todos ao redor deles para garantir a felicidade do gênero humano. Qualquer dissidência deve ser aniquilada como atentado contra a felicidade geral. A infelicidade infiltra-se na sociedade em decorrência da existência dos indivíduos e dos seus interesses privados. Devem ser esmagados, portanto, todos aqueles que não se curvarem ao “interesse público”, entendido como a imposição da “vontade geral”, da qual são garantia e manifestação soteriológica, na História, o líder messiânico e os seus seguidores imediatos, os “puros”. O ideal da nova ordem política foi bem definido por Lenin, em O Estado e a Revolução, como “um poder não limitado por leis”.
O espírito totalitário perversamente apregoado por Rousseau passou, na modernidade, a encarnar nas lideranças revolucionárias radicais, que tingiram de sangue a História desde os jacobinos na Revolução Francesa e no Terror por eles imposto, no final do século 18, passando pelo império napoleônico (entre 1804 e 1814) e seguindo, já nos séculos 20 e 21, com a Revolução Bolchevique, na Rússia, em 1917, e a emergência dos totalitarismos. Em todos eles o fantasma do “poder total” assoma, até na mais recente manifestação de chantagem nuclear do tresloucado líder norte-coreano, Kim Jong-un.
Essa saga do totalitarismo já se tinha manifestado em Fidel Castro e na sua ditadura familiar, no Che Guevara, com o seu dístico “Pátria (totalitária) ou morte”, na louca aventura nazi-fascista, com o endeusamento da minoria ariana ao redor do Führer, ou com Mussolini apregoando o princípio do “poder total” na célebre proposta de “tudo dentro do Estado, nada fora dele”.
Não nos enganemos: se Lula representa alguma tradição política, ela se filia a essa herança do totalitarismo hodierno. Não é por outra razão que, para ele e seus cansativos militantes, só há uma alternativa para salvar o Brasil: Lula e o PT.
Como a tradição totalitária se encarna com as cores de cada cultura, no Brasil Lula e os seus sequazes adotaram uma máscara: a cara de pau do “herói sem nenhum caráter”, Macunaíma, genialmente descrito por Mário de Andrade no seu clássico de 1928. Vamos convir: não é de cara de pau a feição do líder messiânico quando aparece na televisão, ou em palanque, afirmando para a enojada audiência que não há vivalma mais ética do que ele? Os petralhas especializaram-se em fazer da corrupção método de ação política e em esfregar no rosto dos perplexos cidadãos tungados por eles na roubalheira geral as “façanhas” praticadas.
Não são, aliás, de cara de pau as feições do comando petralha que “visitou” o desembargador Thompson Flores recentemente em Porto Alegre, como se ele e o tribunal por ele presidido fossem os meliantes, e não eles próprios? Os seguidores de Lula entenderam bem a lição da tragicomédia montada pelo líder: aparecer em público com ar contrito e na maior cara de pau, para dizer o seguinte: “Corruptos são vocês, otários, que votaram em nós e ficaram na rua da amargura juntamente com os 14 milhões de desempregados! Nós somos os puros, os retos, os que devem prevalecer no comando do Estado. Fora de nós não há salvação”. É mesmo muita cara de pau!
A sociedade brasileira tem um caminho para tirar esse lixo da História e impedir que os petralhas assumam, de novo, o poder no Brasil, a fim de destruírem o que ficou das nossas já combalidas instituições republicanas: repetir, em alto e bom som, que sabemos de quem se trata, conhecemos os malfeitos por eles praticados, que hoje já se situam na casa dos bilhões de dólares roubados e ainda estão intactos em paraísos fiscais.
Devemos repetir até o cansaço que acreditamos nas instituições, que a Justiça fará o seu trabalho até o fim, para pôr atrás das grades todos os que se aproveitaram da passagem pelo poder para enriquecer ilicitamente. E devemos repetir, na cara de Lula e dos seus sequazes, que já identificamos onde se inspira a sua retórica vazia: na tradição totalitária que deixou espalhados pelo mundo afora milhões de vítimas.
*Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora (Ufjf), 
professor emérito da Eceme, é docente da Universidade Positivo, em Londrina - e-mail: rive2001@gmail.com

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

PARÂMETROS DOUTRINÁRIOS DA NOVA DIREITA, SEGUNDO LUCAS BERLANZA


Que o chamado "pensamento da direita" está em ascensão não há dúvida. Esclareçamos: por "pensamento da direita" entenda-se, primordialmente, aquele que se afina com as ideias políticas liberal-conservadoras, que se centram nos seguintes pontos: 1 - defesa incondicional da liberdade individual nos terrenos cultural, político e econômico; 2 - respeito às tradições vigentes, levando em consideração que só podem vingar aquelas mudanças sociais que as preservarem.

A propaganda marxista encarregou-se, no Brasil, de confundir as coisas. Tudo aquilo que não se afinasse com o cientificismo comuna foi jogado pelos militantes-propagandistas da esquerda vociferante no saco sem fundo da "direita". Ora, o "pensamento da direita" tem muitas nuances, sendo a principal delas a correspondente ao velho Liberal-conservadorismo. É ao estudo dessa tendência que o jovem escritor carioca Lucas Berlanza dedica a sua obra, recentemente lançada no Rio de Janeiro com o sugestivo título: Guia bibliográfico da nova direita - 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro (Prefácio de Rodrigo Constantino, São Luís: Resistência Cultural, 2017, 255 pgs.).

Essa jovem direita liberal-conservadora eclodiu ao longo dos últimos 15 anos. O seu ponto de partida foi o desencanto das novas gerações com a vulgata marxista, que como pernicioso tsunami tudo invadiu no universo cultural brasileiro, de mãos dadas com a conivência oficial e a pregação dos velhos chavões marxistas-leninistas pela geração de mestres que se dedicou a essa inglória tarefa. Da radicalização simplificadora não escapou nem a Igreja Católica, a partir do momento em que os quadros dirigentes da CNBB foram tomados de assalto por militantes treinados na doutrinação marxista, que tudo centraram ao redor do messianismo político pregado pela Teologia da Libertação, como denunciou com coragem o padre português José Narino de Campos, na sua obrinha intitulada: Brasil, uma Igreja diferente (São Paulo: T. A. Queiroz, 1981).

As desgraças da radicalização e da intoxicação ideológicas não ocorrem ao acaso: elas são preparadas por trabalho continuado de simplificação conceitual e propaganda. De há muito o universo cultural brasileiro foi tomado de assalto pelos radicais marxistas. Já desde início dos anos 80 do século passado, o embaixador Meira Penna chamava a atenção para a silenciosa ocupação das Secretarias estaduais e municipais de Educação pela turma do PT, que se encarregou de radicalizar a formação de professores e alunos no ensino de primeiro e segundo graus, bem como nas Faculdades de Educação, à sombra da doutrina de Paulo Freire. Tudo foi potencializado, como de resto os vícios da corrupção e do compadrio, pelo PT no poder. Mas de tempos atrás a decisão da petralhada para manter vivo o pensamento marxista entre nós, foi projeto acalentado pelas lideranças partidárias.

O ponto alto dessa estratégia de dar vida ao cadáver insepulto do comunismo foi a criação (em 1990), por Lula, do Foro de São Paulo, tendo como colaboradores dessa empreitada os irmãos Castro, cabeças da ditadura cubana. Somaram-se a essa iniciativa os movimentos guerrilheiros atuantes na América Latina, a começar pelas FARC, bem como, anos depois, o coronel Chávez, que se elegeu presidente da Venezuela com a sua descabelada proposta de "Revolução Bolivariana". Fidel Castro achava que a liderança militar do processo de revolução comunista na América Latina deveria ser de Hugo Chávez. De lá para cá só aumentou essa maré vermelha. 

Acontece que os jovens da nova geração se cansaram da dieta ideológica de fome. Começaram a questionar a simplória estória que lhes era contada. Nos últimos 15 anos, essa reação só foi aumentando. Hoje conta com estruturados analistas que colocam as coisas no seu lugar, mostrando as grosseiras simplificações armadas pelo marxismo tupiniquim. 

São várias as jovens personalidades que se destacam, a meu ver, nessa nova geração. Correndo o risco de deixar por fora nomes de relevo, lembro alguns deles: Alex Catharino, Rodrigo Constantino, Alexandro Souza, Marco Antônio Barroso, Humberto Schubert Coelho, Bernardo Goitacazes de Araújo, Jefferson Silveira Teodoro, Bruno Garschagen, Hélio Beltrão, Lucas Berlanza, César Kyn d´Ávila, José Lorêdo Filho (com o magnífico empreendimento editorial da "Resistência Cultural"), Marcus Boeira, Caio Vioto, Paulo Briguet, Sílvio Grimaldo, Filipe Barros, Caroline de Toni, Bernardo Pires Küster, Débora Gois Torres, etc. Efetivamente, são inúmeros os jovens que, em Faculdades e nos seus lugares de trabalho, bem como a partir de grupos de estudo e thing tanks elaboram uma visão crítica da propaganda marxista-leninista, defendendo corajosamente o sagrado valor da liberdade individual e da tradição da Civilização Ocidental, ancorada no Cristianismo. 

Os cursos de História, quem diria, outrora terreno exclusivo dos marxistas, começaram a pensar com categorias diferentes, próximas do liberalismo e do conservadorismo e abertas à pesquisa das origens da nossa realidade social. Essas análises críticas deixam de cabelo em pé os velhos propagandistas do marxismo-leninismo e do gramscismo bem comportado, que o PT colocou como a última moda do bom-mocismo esquerdopata. Os bravos jovens liberais-conservadores optaram também pela luta político-partidária, como é o caso, em Londrina, de Filipe Barros e Bernardo Pires Küster. Os exemplos desses jovens liberais-conservadores engajados na luta político partidária multiplicam-se pelo país afora.

Feita essa introdução, parto para analisar sumariamente o conteúdo da nova obra de Lucas Berlanza. Em 6 capítulos, uma conclusão e um apêndice, o autor desenvolve o seu pensamento acerca da "nova direita" brasileira. Menciono os capítulos que integram a obra: I - Origens e fundamentos das ideias. II - Como entender o Brasil. III - Grandes ícones da política internacional. IV - Um olhar sobre adversários e inimigos. V - Grandes temas e controvérsias. VI - Um olhar sobre os dias atuais. Conclusão: Essa "direita" poderosa e onipresente, um mal absoluto a atrasar o Brasil, não passa de uma lenda. Apêndice: Por uma nova liberdade: o manifesto libertário.

Berlanza deixa clara a sua identificação com a renovação propiciada pelo "pensamento da direita", com as seguintes palavras, no prólogo à obra que comento: "Uma das características mais particulares desse 'novo' tipo de pensamento político, e do movimento que o orbita, é o fato de se fundamentarem em uma bibliografia filosófico-política e econômica toda especial, que não ocupa posição de protagonismo nas indicações didáticas tradicionais. O livre pensar dessa geração a levou a buscar outros ares e pesquisar novas fontes e indicações de leitura, a despeito do 'index' de educadores marxistas de ocasião. Por isso mesmo, entendemos que o vulgo não conheça suas ideias, não entenda do que se trata, e haja o risco de confusões serem semeadas por quem não tem interesse na divergência" (pg. 19).

Lucas Berlanza pretende apresentar na sua obra uma "guia de leitura" do ângulo liberal-conservador. No prólogo, frisa a respeito: "Este livro é nada mais que um esforço para apresentar, através de algumas dicas de leitura cuidadosamente selecionadas, marcos de ideias que tornam possível ao leitor apreender, em um quadro geral, a genealogia e a natureza de alguns princípios e posturas que circulam nesse grupo heterogêneo de liberais e conservadores - e que os definem. Das fontes bibliográficas mais antigas e clássicas até as mais modernas, reuni 39 resenhas de livros que ajudam a esclarecer do que se trata esse fenômeno social que vem inquietando e alimentando esperanças no Brasil. (...). É um livro sobre livros. Não que, em certo sentido, todos os livros não o sejam: mas as resenhas não são apenas artigos elogiando ou criticando determinado título. Todas elas contêm ilações e desdobramentos que delineiam as ideias que justificam sua inclusão e que, compreendidas em seu conjunto, fazem da relação um modesto guia bibliográfico, que não esgota, mas traça um retrato do núcleo de princípios dos grupos de que estamos falando (...)" (pg. 19-20).

Berlança identifica como fontes inspiradoras do conservadorismo liberal da nova geração, as ideias de Burke, Bastiat, Hayek, Von Mises, Margaret Thatcher, Winston Churchill, Roger Scruton, Ronald Reagan, etc. No terreno da cultura brasileira, as fontes do liberal-conservadorismo seriam Roberto Campos, Meira Penna, Carlos Lacerda, José Guilherme Merquior, Ubiratan Borges de Macedo, Ubiratan Jorge Iorio, João Pereira Coutinho (com a sua original contribuição do ângulo luso-brasileiro), Rodrigo Constantino, Ricardo Vélez Rodríguez, etc. 

Eu adicionaria os nomes de Antônio Paim, o maior historiador contemporâneo do pensamento liberal-conservador brasileiro, Alberto Oliva, Mário Guerreiro e Roque Spencer Maciel de Barros, pensador original que abriu as propostas liberal-conservadoras ao terreno da educação, alertando para o risco totalitário concretizado na vulgata marxista. No campo do conservadorismo típico, não pode deixar de ser mencionado, a meu ver, o nome do professor Olavo de Carvalho e do seu antecessor, Paulo Mercadante.

Destaca-se na obra que comento a inspiração de Lucas Berlanza nos fundadores do Instituto Liberal e discípulos da Escola Austríaca, Donald Stewart e Og Leme. Para ele, contudo, é o pensador irlandês Edmund Burke, o whig que atraiu os tories para refundar o partido conservador britânico, no início do século XIX, o principal inspirador do liberal-conservadorismo brasileiro.

A partir das desassombradas propostas burkianas surgiu, no sentir de Berlanza, uma doutrina que propende pela mudança, sem perder o sentido das conquistas do passado, permanecendo firme no compromisso com a defesa da liberdade individual, nos terrenos social, cultural e econômico. É o velho liberalismo conservador originado em Locke e alargado pelos Pais Fundadores dos Estados Unidos e que os doutrinários colocaram em circulação na França, ao longo do oitocentos. Só que, para Berlanza e os jovens que redescobriram Burke, as fontes prioritárias passaram a ser os clássicos de origem anglo-saxã e irlandesa.

Considero que os doutrinários franceses tinham elaborado uma meditação nova acerca do liberalismo lockeano, a partir das fontes escocesas, naquela aventura intelectual que Ortega y Gasset identificou como "o que de mais interessante ocorreu na Europa Ocidental ao longo do século XIX" e que desaguou na original proposta liberal-conservadora de Madame de Staël e Constant de Rebecque (os precursores) e que continuou com a meditação dos doutrinários propriamente ditos (Roger-Collard, Guizot) e dos seus discípulos (Tocqueville e Aron). 

Ora, penso eu, o liberal-conservadorismo brasileiro, como de resto na Espanha, em Portugal, na Colômbia e alhures na América Latina, formatou-se primordialmente à luz dos doutrinários. Eles falavam uma linguagem mais acessível ao espírito ibérico, do que aquela falada pelos anglo-saxões. A experiência continental europeia na defesa da liberdade foi mais próxima de nós do que a defesa das teses dos liberais britânicos. Isso por conta da nossa tradição jurídica, herdeira do antigo "direito germânico", ao passo que os anglo-saxões ancoravam na tradição consuetudinária restrita a eles.

Capítulo importante da magna obra dos doutrinários foi a defesa incondicional da liberdade, de um lado, junto com a crítica sistemática ao democratismo rousseauniano, que consistiu na nova forma de servidão e sob cuja inspiração foram cometidos todos os excessos da Revolução Francesa e do Terror Jacobino. Os doutrinários destacaram, no entanto, que algo podia ser salvo da maré revolucionária: a defesa da liberdade individual como elemento fundamental da libertação humana. Essa foi, aliás, a réstia de luz que Tocqueville encontrou no tormentoso momento revolucionário de 1789, e que o próprio Kant identificou inicialmente no movimento revolucionário francês. Guizot considerava que a missão dos doutrinários consistiria em "completar a Revolução Francesa" mediante a defesa da liberdade individual através das instituições do governo representativo. Tocqueville alargava a defesa da liberdade individual, com bicameralismo e instituições representativas para todos os franceses, não apenas para a burguesia encarrapitada no poder a partir da restauração monárquica e o reinado de Luís Filipe (1830-1848).

A meu ver, a meditação brasileira do século XIX louvou-se principalmente dos doutrinários, embora conhecesse as fontes britânicas e o pensamento de Burke. O principal expoente dessa versão nossa de liberal-conservadorismo foi, no início do século, Silvestre Pinheiro Ferreira, com a sua teoria da dupla representação (dos interesses permanentes da Nação e dos interesses mudáveis, dos indivíduos), tese que foi seguida nas propostas de criar a representação e o Poder Moderador pelos estadistas do Segundo Reinado, entre os que se destaca o visconde de Uruguai, com o seu Tratado de Direito Administrativo (1860). Mas já no final do século e no início da República, Rui Barbosa retoma as teses tocquevillianas de um liberalismo conservador que quer fazer da República uma experiência liberal, acorde com a representação de interesses e a tripartição de poderes. Idêntico trabalho de arrumação teórica foi feito pelos bravos liberais gaúchos que combateram o castilhismo no final do século XIX, notadamente Gaspar da Silveira Martins e Joaquim Francisco de Assis Brasil. Todas essas são as fontes inspiradoras dos nossos primeiros liberais-conservadores do século XX, Reale, Roque Spencer Maciel de Barros, Merquior, Antônio e Gilberto Paim, Ubiratan Macedo, Meira Penna, Alberto Oliva, Mário Guerreiro, Roberto Fendt, etc. Eu próprio me filio a essa tendência.

Ora, os fundadores do Instituto Liberal (notadamente Donald Stewart e Og Leme) e alguns pensadores próximos deles como Meira Penna, filiam-se sobretudo aos liberais austríacos e partem para discutir os afazeres da política à luz da velha tradição liberal pensada por eles, mas que entronca em Locke e nos patriarcas da Independência americana, bem como no liberalismo telúrico dos pensadores da segunda escolástica ibérica capitaneados por Francisco Suárez, levando em consideração também a mediação de Tocqueville e Aron. A essa turma junta-se, como muito bem mostra Berlanza nas suas páginas, o grande Roberto Campos, na sua última fase, sendo que ele se inspira, também, nas teses do liberalismo econômico já defendidas pelo professor Gudin e pela Escola Austríaca.

Os bravos jovens da novel geração à qual Berlanza pertence, partem com desassombro para uma meditação liberal-conservadora que tece fios de ligação com a primeira geração de liberais conservadores do século XIX, bem como com os seus discípulos brasileiros ao longo do século XX. Parece-me sobremaneira alvissareira a perspectiva que se abre entre os participantes da nova geração, que não se intimidam diante da discussão de questões acirradas como a que diz relação às teses sustentadas pelos libertários (tipo Rothbard) e que enfrentam de peito aberto os seus adversários e inimigos, como faz Berlanza no capítulo IV do seu livro. 

No seio dos adversários, ganham destaque nas páginas de Berlanza os teóricos da social-democracia capitaneados por Fernando Henrique Cardoso (cujo pecado principal foi o festival de tributação que arrancou nos seus dois governos e que se prolongou acintosamente na lamentável gestão lulopetralha, ao longo dos últimos 14 anos). Entre os inimigos figuram os já conhecidos ícones do totalitarismo do século XX, a dupla Lenine-Stalin; o pai do nazismo, Hitler, e Benito Mussolini, formatador do fascismo. Entre os adversários aparecem, outrossim, os estatistas tupiniquins conhecidos: à direita, Ernesto Geisel e à esquerda Nelson Werneck Sodré. 

A nova geração de liberais-conservadores brasileiros (e coisa semelhante está a acontecer em outros países latino-americanos como Chile, México, Argentina, Colômbia, Argentina e Peru) lê diretamente os clássicos britânicos, irlandeses e americanos do pensamento liberal-conservador. A redescoberta de Burke pela atual geração brasileira situa-se nesse contexto.

Muito poderiam aproveitar os nossos jovens liberais-conservadores se aprofundassem também no estudo dos doutrinários. Isso lhes permitiria entender o valor do "poder neutro", ou "poder moderador" defendido pelos liberais conservadores brasileiros do século XIX. Essas teses, levantadas inicialmente por Constant de Rebecque (como mostrou o jovem pesquisador mineiro Marco Antônio Barroso na sua tese de doutoramento na UFJF), em face dos conflitos que grassavam no continente europeu, poderiam iluminar novas experiências de parlamentarismo moderado na América Latina, como as que são levantadas no Brasil na atualidade. A velha experiência do "Poder Moderador" do Segundo Reinado não está tão longe das nossas circunstâncias, mesmo que falemos atualmente de instituições republicanas. Valeria a pena reler Rui Barbosa (o da campanha civilista de 1919) sob esse viés. São reptos novos que a jovem geração de liberais certamente enfrentará com coragem e lucidez.

Lucas Berlanza dá continuidade ao liberalismo-conservador que inspirou ao grande Carlos Lacerda, um dos ícones do liberalismo brasileiro. Lacerda foi injustiçado pelo regime militar, que identificou erradamente o inimigo a ser combatido, tendo passado a combater os liberais, como lembra o professor Antônio Paim na obra A querela do estatismo (1ª edição, 1978; 2ª edição, 1994), quando o real inimigo eram os totalitários comunistas mimetizados, após 1985, em vários partidos e movimentos de esquerda revolucionária.

O atual liberal-conservadorismo brasileiro não se colocou contra as mudanças, muito pelo contrário: aposta naquelas que se enraízam na tradição. Insere-se, assim, no seio dessa secular tradição liberal que endossa as "revoluções conservadoras", como a Gloriosa Revolução inglesa de 1688 (cujo grande propagandista foi John Locke) e a Revolução Americana de 1776. O Brasil também conheceu essas "revoluções conservadoras" com o "Fico" de Dom Pedro, em 1822, ou o Ato Adicional de 1841. A nova geração de liberais-conservadores da qual Berlanza é lúcido expoente, aposta também nessas mudanças de longo curso, à maneira da "revolução conservadora" de Margareth Thathcher e de Ronald Reagan, dando continuidade à gesta de estadistas da talha de Winston Churchill e, entre nós, dos Construtores do Império (lembrando o título de conhecida obra de João Camillo de Oliveira Torres, que teve magnífica edição  pala Resistência Cultural). 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

NOVAS PERSPECTIVAS PARA O BRASIL - O PT, COM DILMA E LULA, SAIU PELA PORTA DOS FUNDOS.


Pela porta dos fundos. Essa foi a imagem mais forte da saída de Dilma do governo. Em que pese o fato de Lula e a petralhada, com Stédile, terem tentado organizar uma “caminhada” do Planalto até o Palácio da Alvorada, acompanhando a mandatária afastada, rapidamente desistiram da ideia ao perceber o número esmirrado de simpatizantes que toparia a brancaleônica marcha. Como registrou O Antagonista (12-05-2016): “Abortaram a brilhante ideia porque não havia gente suficiente para carregar o caixão”.
Ouvi o discurso de Temer e gostei. Nada de promessas mirabolantes. Sensatez e pé no chão nas propostas. Reconhecimento de que pode errar, embora tenha toda a vontade do mundo para acertar. Valorização da livre imprensa e dos demais mecanismos de comunicação entre o poder e o povo. Diminuição do tamanho do Estado, simbolizada na redução de ministérios de 32 para 23 e na volta das privatizações de empresas estatais. Destaque para as áreas em que o Estado tem de se fazer presente: saúde, segurança e educação. Reforma da Previdência para sarar a ferida por onde jorra o dinheiro público. Valorização da operação “Lava-Jato”, que se tornou “referência nacional”, bem como da Magistratura. Manutenção de políticas sociais justas e bem equilibradas no orçamento. Respeito à mandatária afastada. Destaque para o fato de estar assumindo a Presidência em virtude da força das Instituições. Valorização do Congresso que, por ampla maioria, colocou Dilma em escanteio. Pregação da união nacional, num momento em que é necessário salvar o País do abismo da crise moral, da inflação e do descrédito internacional. Elaboração de um orçamento transparente, em que não se neguem os 96 bilhões deixados pela roubalheira e a incapacidade petista.
O discurso do golpismo foi-se embora com os petralhas. Voltarão, é claro, à praça pública, como oposição, esgrimindo as mesmas armas e vociferando a surrada retórica. Mas o processo de impeachment deixou claro quem e quantos são eles. A sua representação, pelas contas das recentes votações na Câmara e no Senado, mal chega a 27%. Fora do poder, essa porcentagem vai diminuir ainda mais no seio da sociedade brasileira. O problema deles é que são totalitários, não deixando espaço para quem deles diverge. Ora, os totalitarismos somente são aceitáveis para quem está dentro deles. Para quem está do lado de fora, ele é veneno que deve ser evitado. Assino embaixo das palavras do Reinaldo Azevedo no seu post de hoje:
“Que coisa curiosa! Se os petistas não tivessem reduzido todas as divergências à luta entre boa-fé, de que se querem monopolistas, e a má-fé – a vontade do outro -, então viveríamos no que um poeta chamou certa feita de ‘a cidade exata, aberta e clara’, em que as divergências não se fazem de virtudes que se negam. (...) Dilma se foi! Fico feliz porque ela me deixava mais cansado do que bravo. Seguirei tocando a minha vidinha (...)”.  
É claro que o Estado patrimonial continua vivo. Só foi desmanchada a sua versão totalitária que o tornaria permanente. A “ponte para o futuro”, na qual Temer pretende transitar, pode se constituir num processo de diminuição do vício do patrimonialismo do Estado brasileiro. Se este consiste em ser mais forte do que a sociedade, o fortalecimento das instituições democráticas certamente ajudará no desmonte do Leviatã e na sua substituição por um Estado democrático e moderno, posto a serviço da Nação. Temos bons motivos, portanto, para comemorar o fim da era lulopetralha.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A OPOSIÇÃO QUE NÃO SE OPÕE



Na terça-feira 12 de Maio de 2015, a Comissão do Senado que trata das relações com o Judiciário fará a sabatina do magistrado Luiz Fachin, indicado pela presidente Dilma como substituto de Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal. É apenas óbvio que uma militante petista como a presidente Dilma indique alguém polarizado pelos interesses do PT e dos ditos “Movimentos Sociais”, notadamente o MST. O que não era de se esperar é que o principal partido da oposição, o PSDB, não desse nenhuma importância a esse fato. Fachin, seguidor dos ensinamentos do constitucionalista português José Gomes Canotilho, se empossado na vaga no STF, fará, com certeza, o “dever de casa”. Como pregava Canotilho, a revolução socialista pode dar uma acelerada mediante a judiciarização da política, proclamando o “socialismo por decreto”. É só dar uma chance a advogados como Fachin.

Na data marcada para o debate, senadores importantes do PSDB não estarão presentes na Comissão que sabatinará o candidato. Estarão em Nova Iorque, participando de uma comemoração internacional que exalta o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Isso é dar muito mole para a petralhada. O PSDB, aliás, já deu mole quando Fernando Henrique, na época do Mensalão, desistiu de incentivar o processo de impeachment contra Lula, preferindo “deixa-lo sangrar”. Aconteceu o que era de se esperar. O sapo barbudo deu a volta por cima, se reelegeu e elegeu (e reelegeu) o seu poste, com toda a série de desgraças que se abateram sobre o Brasil, deixando-nos prostrados do jeito que todo mundo conhece.

Acho que o artigo que ora divulgo sobre a oposição que não se opõe, publicado no primeiro número da Revista Nabuco (Agosto-Outubro de 2014), pode contribuir ao debate que deve se abrir em torno à fraqueza da atitude dos senadores tucanos.

A oposição brasileira não propõe porque não se opõe. E não se opõe porque foi cooptada pelo Estado Patrimonial. Essa é a triste realidade que pretendo ilustrar nas seguintes páginas.

Dividirei a minha exposição em três partes: 1 – A tradição patrimonialista. 2 – Doze anos de lulopetismo: a oposição cooptada pelo Executivo. 3 – Condições necessárias para o funcionamento de uma verdadeira oposição.

1 – A tradição patrimonialista.

O Brasil herdou de Portugal a estrutura patrimonial do Estado. Isso aconteceu mediante a junção, em original simbiose, da tradição cartorial com a inédita realidade das novas terras apropriadas pelos Capitães Mores e os Sesmeiros e, depois, pelos Senhores de Engenho.

A primeira experiência brasileira no mundo da política, nos períodos que correspondem às Capitanias Hereditárias e às Sesmarias, que ensejaram o latifúndio, não foi a luta de classes, nem a organização do Estado contratualista. A primeira vivência tipicamente brasileira do exercício do poder consolidou-se ao redor da Casa Grande [1]. Tratou-se, portanto, de uma experiência de privatização do poder, em que se confundia público com privado, na liturgia dos Senhores de Engenho.  Eis a questão fundamental: a defesa dos interesses do clã patriarcal.

Quem não se acolhesse a essa premissa, não sobreviveria. Por isso, a arraia miúda do povo precisava se arregimentar, sem discussão, na serventia de um Senhor de Engenho, para ver respeitados os seus direitos à vida, às escassas posses e à precária liberdade do latifúndio. Consolidou-se, na história do nosso Patrimonialismo, a crença de que quem manda não pode ter oposição. Esta era considerada, desde o início, como atentado contra a autoridade. Somente era concebível uma atitude de total submissão do povo em face dos donos do poder. [2]

Quando, no século XVIII, foram descobertas, nas Minas Gerais, as jazidas de ouro e diamantes, a Coroa portuguesa passou a exercer forte ação centralizadora. A partir da criação do “Distrito Diamantino”, a Metrópole tentou organizar a dispersão dos senhores patrimoniais locais, colocando sobre eles a autoridade dos Governadores Gerais das antigas Províncias. Esse processo foi, aos poucos, aglutinando os poderes familísticos dispersos na imensidão territorial do Vice Reinado.

De outro lado, graças às bandeiras iniciadas pelos senhores patrimoniais vicentistas, a Coroa portuguesa abocanhou generosas extensões territoriais, ao oeste e ao sul, para lá do Tratado de Tordesilhas, fazendo encolher, astutamente, os restos do Império Espanhol nos limites da bacia do Rio da Prata e dos contrafortes dos Andes. Os novos territórios ocupados foram dotados pela administração pombalina de uma rede de fortes. Paralelamente, o primeiro ministro de Dom José desenvolveu uma ousada estratégia de ocupação do centro do vasto território, consistente no projeto de construção de uma capital no Planalto Central que se comunicasse, mediante vias radiais, com as várias Províncias. Esta proposta, como se sabe, foi posta em execução, primeiro na construção da cidade de Goiás Velha, ainda no ciclo colonial, e depois, em meados do século XX, na construção de Brasília por Juscelino Kubitschek.

O efeito central da luta da Monarquia com os poderes locais seria este: consolidou-se, entre nós, um Estado mais forte do que a sociedade.  O poder centrípeto do Rei, no período colonial, bem como o do Imperador, ao longo do século XIX, e o do Executivo, no período republicano, criaram forte aparelho burocrático alicerçado no sentimento de fidelidade pessoal.

No entanto, continuaram vivos, no seio da sociedade, os antigos hábitos de privatização do poder pelos clãs, à maneira do ocorrido nos Engenhos. A res publica foi vivenciada, pelos cidadãos da jovem República que emergia da retórica positivista no final do século XIX, como res privata ou coisa nossa, a ser administrada domesticamente, ensejando, assim, as conhecidas práticas do empreguismo e da corrupção, sob as suas várias manifestações.

Em que pese o fato do caráter tradicional assinalado por Raimundo Faoro para o Patrimonialismo no Brasil, Simon Schwartzman e Antônio Paim destacaram um componente modernizador, que deu lugar a nova tradição, identificada por eles como patrimonialismo modernizador ou neopatrimonialismo. Consiste este, segundo Paim, na incorporação da ciência moderna pelo Estado centralizador, fato que se realizou em Portugal a partir das reformas pombalinas, e que se projetou no Brasil na geração de homens públicos que fizeram a Independência (formados na nova Universidade aberta às ciências e às técnicas). Essa elite organizou os primeiros institutos superiores, entre os quais cabe destacar a Real Academia Militar criada, em 1810, pelo Conde de Linhares, dom Rodrigo de Souza Coutinho.

A tendência modernizadora, vinculada ao cientificismo a serviço do Estado, ensejou ampla prática centralizadora, já a partir do período pombalino. O ministro de Dom José I pôs em execução o modelo de Estado empresário, produtor da riqueza da Nação e equacionador da ordem política e moral, mediante a incorporação da ciência moderna e da técnica. [3]

Longe de ensejar a participação da sociedade, o modelo pombalino submetia os cidadãos à tutoria do soberano. Inseriram-se no contexto do Estado tutelar e modernizador as reformas empreendidas por Getúlio Vargas, ao longo das décadas de 30 e de 40 do século passado, inspiradas diretamente na filosofia política castilhista. Partindo do princípio de que o regime parlamentar é um regime para lamentar, foram banidos o debate político e a representação, sendo substituídas essas práticas pelo “equacionamento técnico dos problemas”. [4]

Segundo Oliveira Vianna, não se desenvolveu, no Brasil, a consciência do bem público, pelo fato de estarmos, sempre, sob o império do interesse particular ou familiar. Esse individualismo, que impede entender o que é a solidariedade social ou o interesse público, passou das elites para o povo. A escola prática da vida política, que foi a fazenda ou o engenho, formou o brasileiro na submissão incondicional ao senhor, na defesa exclusiva dos interesses familiares dos clãs. [5]

De acordo com o sociólogo fluminense, a construção do Estado Nacional, no Brasil, foi obra da geração de estadistas do Segundo Reinado que, reunidos ao redor de Dom Pedro II, conseguiram cooptar, mediante a Guarda Nacional, os senhores patrimoniais locais (os senhores de engenho), ao redor de uma proposta de unificação do país. Dom Pedro II situou-se na cúpula do poder, distribuindo benesses entre aqueles que o reconhecessem como soberano de todos. Uma vez consolidada a autoridade do soberano, ele disciplinou a autoridade dos senhores de engenho para fazer emergir os Partidos Liberal e Conservador, ao redor dos quais se concretizou a representação dos interesses mudáveis da sociedade.

A representação dos interesses permanentes da Nação ficaria centralizada no Poder Moderador, exercido pelo Soberano e pelo seu Conselho de Estado. Dessa forma, foi possível unificar o país ao redor de um centro de poder, ao passo que se consolidava a possibilidade da representação. Essa complexa obra de engenharia política foi obra de grandes estadistas da talha de Silvestre Pinheiro Ferreira (o precursor das instituições imperiais, no início da nossa vida independente) e da denominada por Oliveira Vianna de “elite de homens de mil”, integrada por incondicionais colaboradores do Imperador como o visconde de Araguaia, Domingos Gonçalves de Magalhães, o duque de Caxias, ou o visconde de Uruguai, Paulino Soares de Sousa, cujo Ensaio de Direito Administrativo [6] testemunha a clarividência dessa geração.

A República Velha constituiu, no Brasil, uma privatização do poder pelos clãs políticos, identificados com as oligarquias estaduais. A essas oligarquias reagiu fortemente o estamento militar, nos movimentos insurrecionais protagonizados pelo Tenentismo, ao longo da década de 20. Getúlio Vargas e as elites mineira e paraibana reagiram contra a hegemonia das oligarquias, na denominada campanha da Aliança Liberal que depôs Washington Luiz em 1930. Getúlio, rodeado pelos tenentes e pela Segunda Geração Castilhista, deu ensejo a uma completa reforma do Estado. O getulismo correspondeu à aplicação, no plano nacional, do modelo castilhista de “equacionamento técnico dos problemas”.

O Estado presidido por Vargas submeteu as oligarquias estaduais e consolidou amplo processo centralizador e autoritário ao redor do Executivo hipertrofiado, auxiliado pelos Conselhos Técnicos Integrados à Administração. O Estado já não seria mais o mesmo após o longo ciclo getuliano, que se estendeu de 1930 até 1945 e de 1951 até 1954. Getúlio, como lembra Oliveira Vianna, acumulou em suas mãos tal grau de poder como nunca se tinha observado na história brasileira, desde Dom Pedro II. O Estado getuliano e as reformas ensejadas correspondem, portanto, a novo ciclo da política brasileira, identificado com um modelo de Patrimonialismo Estamental. Tudo passou a girar ao redor do Executivo e do seu Estamento burocrático presidido pelos Conselhos Técnicos. Trata-se, sem dúvida, de uma tardia manifestação da “ditadura científica”, inaugurada na França, no início do século XIX, por Napoleão Bonaparte.

Três princípios autoritários inspiraram Vargas no tratamento da oposição: o primeiro, de origem castilhista, rezava assim: “O regime parlamentar é um regime para lamentar”, destacando-se, nele, a ideia de que o verdadeiro poder é o Executivo, sendo a representação parlamentar simples expediente oligárquico para garantir privilégios. A representação, na sua origem, era desmoralizada pela retórica oficial.

O segundo princípio, de origem igualmente castilhista, dizia assim: “Aos nossos adversários o único que resta é uma sincera penitência”, destacando a ideia de que qualquer oposição é indesejável, confundido o esforço em prol de organiza-la como atentado contra o poder do Estado.

O terceiro princípio, elaborado por Vargas à luz do saint-simonismo que, paralelamente ao positivismo castilhista o inspirava, rezava assim: “Não fazer inimigos que não se possa transformar em amigos”, explicitando a ideia de que qualquer oposição deve ser diluída na cooptação dos adversários pelo Executivo, mediante o oferecimento de cargos e favores.

Em que pese o fato de a nossa sociedade ter-se transformado radicalmente ao longo do século XX, notadamente a partir do processo de industrialização e de urbanização, fortemente acelerados nos últimos cinquenta anos, não podemos negar que uma das características marcantes da vida social é o insolidarismo. O país cresceu em termos demográficos, econômicos e políticos. As velhas estruturas rurais deram lugar à sociedade industrial e urbana. Mas não foram modificados os valores. O secular espírito de patota e o insolidarismo, que é o seu corolário, estão presentes em todas partes. No Brasil, o patotismo sufocou o patriotismo.

Apesar da adoção do ideal democrático como um dos Objetivos Nacionais Permanentes pela Escola Superior de Guerra, na década de cinquenta do século passado, as reformas modernizadoras deflagradas no ciclo militar, entre 1964 e 1985, retomaram a tendência estatizante do período getuliano. A hipertrofia do Executivo e o crescimento exagerado do setor estatal da economia seriam dois elementos fundamentais desse processo. As empresas estatais passaram de 90, em 1964, para cerca de 490, no fim do ciclo mencionado. Tornou-se necessário, como frisou o general Golbery do Couto e Silva, na sua memorável palestra na ESG, em 1980, [7] um processo de descentralização administrativa e de abertura política, a fim de contornar o excessivo centralismo de inspiração autoritária, que ameaçava a sobrevivência do sistema.

O curioso é que, hoje, após os esforços para retomar a vida democrática, através da valorização da representação política no Congresso e do controle da sociedade sobre o setor estatal, mediante as privatizações e a Lei de Responsabilidade Fiscal, (medidas efetivadas entre 1986 e 2002), com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, foi deflagrado novo ciclo patrimonialista, de forte caráter estatizante e centralizador.

2 – Doze anos de lulopetismo: a oposição cooptada pelo Executivo.

Antônio Paim, na sua obra Para entender o PT, [8] frisou que a característica fundamental do Partido dos Trabalhadores consiste em ser uma agremiação afinada com o Patrimonialismo, sem possuir uma proposta claramente democrática e modernizadora. Nesse contexto, o papel da oposição foi se diluindo paulatinamente, ao longo destes últimos doze anos. Isso aconteceu em decorrência da hipertrofia que sofreu o Executivo, que terminou cooptando o Legislativo e atrapalhando o Judiciário no exercício das suas funções, como se observou no caso do julgamento do Mensalão. O ex-presidente Lula, com a maior cara de pau, sempre falou que “Mensalão nunca existiu”, atribuindo esse fato à imprensa.

Dois fatores, a meu ver, contribuíram para que essa hipertrofia se consolidasse e se tornasse, sob a égide dos governos petistas, um perigo para a normalidade institucional do país: em primeiro lugar, a fraca representatividade dos eleitos para a Câmara e o Senado, em decorrência do viciado sistema proporcional existente; em segundo lugar, a prática das “emendas parlamentares”, que passaram a ser administradas pelo Executivo de forma a tornar os deputados, amigos do rei, beneficiários desses recursos.

Em cinco itens identificarei as principais características que levaram o Partido do Governo a se tornar um empecilho para a independência da oposição no seio do Congresso: A – Consolidação da entropia administrativa. B – Corrupção desenfreada. C – Gasto público incontrolado. D – Supremacia do Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário.  E - Ideologização da política externa.

A – Consolidação da entropia administrativa. Este mal decorre, a meu modo de ver, da esquizofrênica gestão pública implantada pelo Partido dos Trabalhadores, que se pautou por duas cartas de navegação: uma, para “inglês ver” e ganhar as eleições de 2002, identificada com uma plataforma socialdemocrata semelhante à desenvolvida por Fernando Henrique Cardoso nos seus dois governos. Tal plataforma foi adotada pelo candidato Lula na denominada “Carta ao Povo brasileiro”, com a finalidade de desfazer os temores de que, se eleito, implantaria no Brasil um modelo socialista.
A outra carta de navegação identificava-se com as tradicionais propostas socialistas do PT, inspiradas no modelo posto em funcionamento em Cuba pelos irmãos Castro ao longo dos últimos cinquenta anos. Esse modelo, aliás, inspirou a criação, nos anos 90, do Foro de São Paulo, a partir da proposta apresentada por Lula e Fidel Castro, com a finalidade de dar sobrevida ao comunismo na América Latina.

A simultaneidade dessas duas cartas de navegação na agenda do PT é responsável pela incoerência da gestão pública petista. Enquanto que a proposta socialdemocrata da “Carta ao Povo brasileiro” defendia o respeito aos contratos internacionais, bem como o funcionamento da livre empresa capitalista e o regime de liberdades civis, a “carta do peito” dos petistas defendia a instauração de um modelo de socialismo estatizante, autoritário e distributivista.

Ora, o que se tem visto nesta década é o desgoverno causado pela mistura contraditória das duas propostas, que terminou redundando na implantação de um distributivismo irresponsável em benefício dos denominados “movimentos sociais” e dos mais carentes, nas inúmeras “bolsas” concedidas a torto e a direito, sem assinalar responsabilidades por parte dos beneficiários e sem fazer um balanço transparente, perante a opinião pública, dos resultados obtidos.

Essa política distributivista tornou-se, assim, como frisava o senador Jarbas Vasconcelos, o maior programa de compra de votos do Hemisfério Ocidental. Essas bondades indiscriminadas terminaram ensejando o enfraquecimento da oposição, bem como o desequilíbrio nas contas públicas. 

No terreno empresarial, a exigência de transparência nos créditos que beneficiariam o setor, simplesmente ficou para as calendas gregas. A política oficial terminou consolidando a surrada praxe de cooptação de empresários que seriam apresentados como “campeões de bilheteria”, simplesmente pelo fato de que se colocaram do lado certo, a serviço dos donos do poder. Os restantes empresários, a grande maioria, ficaram do lado de fora do festival de bondades do BNDES. Esta instituição terminou sendo convertida em guichê de favorecimento a empresários e a governos estrangeiros amigos. O Brasil está pagando a pesada conta dessas “bondades” oficiais.

A entropia administrativa ficou garantida, portanto, pelas opções contraditórias do Partido do governo. As administrações petistas simplesmente prescindiram dos instrumentos de navegação no tumultuado mar da conjuntura internacional, ao jogarem pela borda os dados outrora confiáveis do IPEA e ao tentarem aparelhar o IBGE. A nau do Estado passou, assim, a navegar em águas incertas e a transmitir essa falta de rumo à sociedade.

b – Corrupção desenfreada e “assassinato de reputações”. Esta mazela foi tomando conta da gestão pública ao ser criminosamente estimulada pelo Executivo, mediante a prática da cooptação dos Partidos políticos no Congresso, no seio do esquema de distribuição sistemática de dinheiros públicos para comprar o apoio do Legislativo. Outro expediente igualmente importante do autoritarismo petista tem sido aquele que foi denominado de “assassinato de reputações”. [9]

O primeiro esquema, denominado de “Mensalão”, foi investigado pelo Ministério Público e terminou dando ensejo ao conhecido julgamento desses crimes pelo Supremo Tribunal Federal, ao longo de 2012 e 2013. Longe de criticar a cúpula partidária que foi condenada e que se encontra pagando pena em presídios de várias cidades, o PT simplesmente passou a vociferar contra a Magistratura, declarando que “Mensalão não houve”, sob o comando vergonhoso do ex-presidente Lula.

No segundo esquema, o governo passou a desviar recursos para financiar o aniquilamento de qualquer oposição, mediante a prática totalitária do crime que Romeu Tuma Jr. identificou como “assassinato de reputações”, sendo peça fundamental dessa operação corrupta a partidarização da Polícia Federal, que passou a ser considerada pelo PT como força armada ao seu serviço, com a finalidade de montar falsos dossiês a serem utilizados para neutralizar membros do parlamento ou do próprio governo, quando assim conviesse ao Partido, corrompendo, destarte, setores importantes não só da polícia como também da magistratura. [10]

O Partido do governo, de outro lado, como retaliação contra os juízes da mais alta corte brasileira pelo julgamento do Mensalão, apresentou ao Congresso duas propostas de emenda constitucional que tinham como finalidade diminuir os poderes do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal. Isso sem esquecer as ameaças de morte que contra o Presidente desta alta corte tem sido feitas por militantes do Partido pelas redes sociais, o que contribuiu para aumentar o clima de desconforto da sociedade em face da corrupção apoiada pelo próprio governo.

c – Gasto público incontrolado. Este mal se instalou em decorrência do debilitamento das instâncias institucionais que exerciam controle sobre o gasto público. Tais instâncias, de fato, estavam representadas pelo Tribunal de Contas da União e pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Ora, segundo decisão tomada pelo presidente Lula, o Tribunal de Contas não poderia mais tomar conhecimento do destino dos dinheiros públicos colocados à disposição dos sindicatos, sem importar o montante recebido. Tal medida conferiu às organizações sindicais um poder extraordinário, até o ponto de convertê-las num “Estado dentro do Estado”, configurando assim aquilo que Fernando Henrique Cardoso denominou, com propriedade, de um tipo de “peronismo à brasileira”. De outro lado, a Lei de Responsabilidade Fiscal foi derrogada na prática por Lula, ao ignorar a sua aplicação naqueles municípios administrados por prefeitos do Partido dos Trabalhadores.

d – Supremacia do Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário. Esta tendência, que já se encontrava presente na história republicana brasileira (como, por exemplo, no longo ciclo getuliano e no regime militar) voltou a ganhar força na Nova República devido ao abuso na prática das “medidas provisórias” (legislação por decreto presidencial que deve ser ratificado pelo Congresso).

O uso exagerado dessa forma de legislação pelos presidentes Lula e Dilma terminou entorpecendo os trabalhos normais do Legislativo e tem gerado constantes atritos com o Poder Judiciário, ao serem contempladas decisões que ferem a Constituição.

e - Ideologização da política externa. Ao longo dos governos petistas, a política externa brasileira foi desenhada não de acordo aos interesses da Nação, mas em consonância exclusiva com os interesses do PT, que buscava firmar a sua hegemonia no plano interno e desenvolver uma política favorável aos populismos socialistas na América Latina.

A partir dos dois governos de Lula e continuando com o mandado de Dilma Rousseff, a política externa brasileira passou a seguir as diretrizes do Foro de São Paulo. Assim, o governo passou a defender, de forma indiscriminada, a “revolução bolivariana” do coronel Chávez na Venezuela, a ditadura cubana dos irmãos Castro, bem como as reivindicações de grupos reconhecidamente terroristas como as FARC. Isso se tem traduzido numa confusa posição brasileira no panorama latino-americano, em prol das iniciativas venezuelanas (com o reforço à ALBA e à UNASUL) e contra outras políticas regionais diferentes destas, como as representadas pelas nações que se organizaram na Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile).

O resultado de tudo isso terminou sendo o encadeamento do Brasil aos consensos cada vez mais fechados do MERCOSUL (uma aliança que deixou de ser um pacto econômico para se transformar em organização político-ideológica) e o abandono da sadia prática de uma independência da nossa política externa para efetivar pactos bilaterais que abrissem novos mercados ao Brasil.

Essa política externa do PT, contrária, de forma sistemática, aos Estados Unidos e favorável a tudo quanto signifique combate ao denominado “imperialismo norte-americano”, terminou por colocar o Brasil em posição desfavorável no mundo globalizado. O Brasil relegou a segundo plano os interesses da indústria e do comércio ao se alinhar, por motivos ideológicos, com países que atacam os interesses econômicos brasileiros. Isso aconteceu, por exemplo, com a política de estatizações de empresas exploradoras de petróleo e gás na Bolívia e com a adesão brasileira às políticas comerciais aventureiras do presidente venezuelano.

Chávez simplesmente deixou de pagar a contribuição pactuada com o Brasil na empresa binacional criada por Lula, a Refinaria Abreu e Lima, no Recife. Os venezuelanos, até agora, não aportaram um único centavo para esse empreendimento, que produziu uma forte descapitalização da Petrobrás. Essa política, mais ideológica do que fundada em princípios pragmáticos, derrubou, de forma quase irreparável, a tradição de seriedade que tinha sido conquistada pela diplomacia brasileira ao longo do século XX.

3 – Condições necessárias para o funcionamento de uma verdadeira oposição.

Somente uma reforma política que adote uma relação direta entre eleitores e eleitos (o que implicaria na adoção do voto distrital) poderia pôr remédio ao mal da falta de oposição. Mas a reforma nunca sai. Ela não interessa nem ao Executivo, que se beneficia com o mecanismo de cooptação representado pelas mencionadas “emendas”, nem ao Legislativo, que se acomodou aos benefícios adquiridos ao longo das últimas décadas. 

Lembro-me de que durante a Constituinte, um grupo de parlamentares do velho PMDB, com José Richa à testa, optou por apresentar a adoção do voto distrital. Grande foi a agitação entre os Constituintes. O argumento brandido por eles, tanto no seio do PMDB quanto na Arena, era o seguinte: “se fomos eleitos pelo voto proporcional, para que mudar esse sistema?” Argumento cartorial que se acomodava às práticas patrimonialistas que consagraram o entendimento da representação como sesmaria a ser explorada em benefício próprio.

Uma reforma política para valer deve, certamente, provir do seio da própria sociedade. As massivas manifestações de Junho de 2013 tinham essa finalidade: mostrar a insatisfação da sociedade em face dos vícios institucionais em que mergulhou o Estado, notadamente diante da cooptação vergonhosa do Congresso pelo Executivo. A manifestação massiva dos jovens foi o primeiro passo e não deve ser descartado o aparecimento de novas iniciativas nesse sentido, em que pese os esforços feitos pelo governo petista para fazer “melar” as pacíficas reivindicações dos jovens, com a participação de ativistas a serviço de escusos interesses partidários. Têm sido visíveis as articulações do ministro Gilberto Carvalho, junto aos denominados “movimentos sociais”, no intento de tirar o foco do essencial nas manifestações populares, fomentando a baderna. Já ficou provada a participação, nesta, como agentes provocadores, de militantes partidários.

A sociedade brasileira vê com preocupação a presença, nas manifestações multitudinárias, ao lado dos agentes provocadores mencionados, de pessoas claramente vinculadas ao crime organizado. Isso tem sido observado nas badernas que têm agitado as noites da cidade de São Paulo e de outras cidades outrora pacíficas, como Florianópolis e Joinville. Membros do crime organizado (e o PCC já é uma gangue com projeção nacional) têm estado presentes nessas agitações. O governo não tem feito o trabalho que se esperava no sentido do restabelecimento da ordem, mediante a neutralização rápida e eficaz desses elementos. O próprio PT tem desenvolvido uma esquisita tolerância em face desses abusos, nas tresloucadas interpretações ideológicas dos distúrbios feitas pelo prefeito de São Paulo e outras autoridades ligadas ao PT, em importantes cidades como Porto Alegre.

Hoje, mais do que em qualquer outro tempo, é necessário um trabalho persistente da sociedade para conseguir resultados de médio e longo prazo. Uma sugestão concreta seria que os Partidos que integram a oposição formal ao governo partissem para um trabalho de planejamento conjunto, superando as diferenças ideológicas e os interesses conjunturais, com o propósito de buscar a governabilidade fortalecendo a representação política e, logicamente, o exercício legítimo da oposição. No entanto, o que até agora se vê são esforços isolados dos líderes partidários e dos potenciais candidatos das oposições. São tímidas e insulares iniciativas. É necessário algo mais.

Esse trabalho de construção de uma proposta conjunta das oposições deveria se abrir à participação dos jovens que se tem manifestado particularmente ativos nas redes sociais. São inúmeros os grupos dos que se arregimentam em portais e blogs de índole conservadora ou liberal, em prol de um saneamento das nossas políticas públicas. Essa é uma força importante de opinião, que precisa ser canalizada para uma participação mais completa. E, nesse terreno, as oposições deveriam atuar com maior afinco. Até agora, contudo, as iniciativas têm sido muito tênues. São poucos os políticos que se tem disposto a manter um diálogo sistemático com esses jovens nas redes sociais e em outras organizações. É um trabalho que pressupõe muito estudo desses fluxos de comunicação e muita disposição para o diálogo com os elementos jovens.

O governo tenta fazer a parte que corresponde aos interesses totalitários do PT, desenvolvendo, com dinheiro público, uma vergonhosa guerrilha virtual que visa a desmoralizar quem esboça oposição nas redes sociais. Que a sociedade brasileira não se deixa domesticar pelos donos do poder no terreno da circulação de ideias e de críticas aos desmandos petistas, fica claro nas respostas que, na hora, têm sido dadas pelas redes sociais diante dos pronunciamentos oficiais.





[1] Cf. FREYRE, Gilberto, Casa Grande & Senzala – Formação da Família Brasileira sob o regime de Economia Patriarcal. 25a edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.
[2] Cf. FAORO, Raimundo. Os donos do poder – Formação do patronato político brasileiro. 1ª edição. Porto Alegre: Globo, 1958, 2 vol.
[3] Cf. PAIM, Antônio (organizador). Pombal na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro / Fundação Cultural Brasil-Portugal, 1982.
[4] Cf. VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. Castilhismo: uma filosofia da República. 2a edição, ob. cit., p. 229-270.
[5] Cf. VIANNA, Francisco José de Oliveira. Populações meridionais do Brasil e Instituições políticas brasileiras. 1ª edição num único volume. Brasília: Câmara dos Deputados, 1983.
[6] Cf. SOUSA, Paulino Soares de. Ensaio sobre o Direito Administrativo, com referência ao Estado e Instituições peculiares ao Brasil. (Prefácio de T. Brandão Cavalcanti). 2ª edição, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1960.
[7] Cf. SILVA, Golbery do Couto e. Conjuntura Política Nacional: o Poder Executivo e Geopolítica do Brasil.  2a. Edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.
[8] Cf. PAIM, Antônio. Para entender o PT. Londrina: Edições Humanidades, 2002.
[9] Cf. TUMA JÚNIOR, Romeu. Assassinato de reputações – Um crime de Estado. (Com a colaboração de Claudio Tognolli). 1ª edição, Rio de Janeiro: Topbooks, 2013.

[10] Cf. TUMA JÚNIOR, Romeu. Assassinato de reputações – Um crime de Estado. Ob. cit., p. 129. A respeito dessa deletéria prática, escreve Romeu Tuma Jr.: “Quando constato um crime e parto em busca de seu autor, estou investigando. Quando escolho um alvo e parto em busca do que ele fez, ou anda fazendo, estou espionando. A Justiça não pode autorizar o uso das mesmas ferramentas legais em ambos os casos, mas leniente, tem o feito à exaustão!”.