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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

DILMA, GO HOME!

Dilma acompanhada do Lula, no Palácio da Alvorada em Brasília. (Foto do blog de Paulo Briguet).

Dilma foi deposta pelo conjunto da obra. Merecida defenestração legal. A ré deu provas sobejas de que não sabe governar, de que não cuida do dinheiro público, de que a República pouco lhe interessa, de que a legislação é, para ela, um detalhe a ser esquecido quando melhor lhe convier. 

Junto com ela vai se consolidando a derrubada do mito lulopetralha, habilidosamente costurado, ao longo de décadas, por Lula e pela sua patota. Diziam que iam moralizar o país. Sumiram-no no pior valhacouto que a história republicana já conheceu. Diziam que governariam para os mais pobres. Governaram para eles próprios e para os mais ricos afinados com eles, as grandes empreiteiras que ajudaram a saquear a Petrobrás e outras estatais como a Eletrobrás e os Correios, bem como os bancos públicos. Diziam que iam implantar a democracia plena. Implantaram, pelo contrário, a falência das instituições republicanas. Negaram de chofre tudo que apregoaram. E, não contentes com isso, esfregaram na cara dos brasileiros que o faziam pela causa socialista, ou seja, pela causa deles próprios, que sempre se consideraram donos da Justiça Social. Colocaram em prática o estranho princípio patrimonialista da "privatização de lucros e da socialização de prejuízos".

Os mitos, diz Ortega y Gasset, morrem de dentro para fora, não de fora para dentro. Morrem de anorexia. O mito lulopetralha começou a morrer no dia em que Lula pregou a primeira mentira, ou seja, quando começou a falar. Ele é mentiroso por natureza. O conjunto da sua obra, como o da gestão dilmista, pode ser chamado, como o chamei em livro recente, de "A Grande Mentira". 

A sociedade brasileira cansou-se do messianismo lulista. E mandou para a casa o seu poste, Dilma. E continuará pressionando em ruas, blogs, imprensa, universidades, em conversas informais e onde quer que os cidadãos exponham a sua opinião, para que logo seja esquecido esse projeto mentiroso chamado PT. E para que Lula pague perante a Justiça pelos seus malfeitos.

O "jardim de infância", que sentava à esquerda da mesa do Senado ao longo das muitas horas de debate, lutou até o final para atrapalhar o processo de impeachment. Embora confessem que não acreditam nas "instituições burguesas", os lulopetralhas tudo fizeram para se servirem delas, em benefício da Dilma, de Lula e dos desmandos do partido. A mais recente artimanha foi a proposta de última hora para que, no julgamento do impeachment, se desvinculasse a decisão pela perda do poder, da decisão pela perda dos direitos políticos da ré por oito anos. Dilma, embora tenha perdido o poder por crime de responsabilidade fiscal, absurdamente poderá exercer cargo público. "Contradictio in terminis" que, aliás, joga no lixo a Lei da Ficha Limpa. Mas a opinião pública já está sabendo disso e reagirá à altura.

Quanto ao barulho e à oposição totalitária que os petralhas ameaçam desatar agora contra as instituições republicanas e contra o mandato do presidente Temer, torcemos para que as autoridades não tenham pejo em aplicar a lei com todo o seu rigor. A balbúrdia causada nos últimos dias em São Paulo por militantes petralhas precisa ser reprimida a contento, como, aliás, a polícia paulista já está fazendo. E contra o terrorismo com que ameaçam, há um remédio muito simples: aplicação sem dó da lei anti-terrorista que já está em vigor.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

DILMA: UM DISCURSO PARA O PASSADO

Dilma no Senado. (Foto: El País, Madri). 

Nada de novo nas repetitivas intervenções da Presidente suspensa Dilma, tanto no discurso pronunciado na segunda-feira 29 de Agosto no Senado, quanto nas respostas dadas aos Senadores, ao longo do dia e até à noite. Foi a mesma ladainha. Está isenta de culpa. A responsabilidade pelo que aconteceu com ela é dos outros, da Imprensa à Oposição. Ela sempre foi a defensora da democracia brasileira. Não respondeu, a dizer verdade, a praticamente nenhuma das indagações dos Senadores acerca de se cometeu crime de responsabilidade ao avançar sobre o dinheiro da Nação nas famosas "pedaladas fiscais". Como de praxe, a petista "falou para a posteridade", no sentir dela. Mas, na verdade, somente falou para o passado. Esse é o discurso com que hoje os petistas tentam se defender. Fizeram da presença da Dilma no Senado um documentário do passado para apresentar no futuro, em campanhas eleitorais e em reuniões de oposicionistas ao governo Temer. Mas a indagada não explicou coisa nenhuma. Ela está absolutamente isenta de responsabilidade. Agiu como um poste. Ora, a atitude do "poste" deveria ser de remeter qualquer acusação para aquele que o colocou ali, o engenheiro do caos, Lula.

A retórica com que Dilma e a petralhada nos presentearam é de doer. Coisa embolorada. Retórica para brochar qualquer entusiasmo. Lembra aquelas fotografias do Comitê Central do Partido Comunista da extinta URSS. Uma gerontocracia decadente, corrupta, criminosa e repetitiva. A mensagem que as novas gerações podem tirar disso é, com certeza, a que o filósofo francês Gilles Lipovetski tirou quando abandonou a escuta do decadente discurso do Partido Comunista Francês e passou a ler os liberais. Na circunstância, o pensador escreveu: "Chega de Marx: quero Tocqueville!"

O discurso dilmista - e o lulopetralha, em geral - deve ser analisado, como recomendava Weber, "sine ira ac studio" ("sem paixão e com determinação acadêmica"), a fim de alertar as novas gerações contra o canto de sereia dos pregadores do caos. Bons exemplos do que se deve fazer com essa retórica caduca não faltam. Menciono um, recente, contido no magnífico artigo do professor Bolívar Lamounier publicado no domingo passado ("Cinco razões para darmos adeus a Dilma", Folha de S. Paulo, 28-08-2016, pg. A3). 

O professor Lamounier começa assim o seu artigo: "O excesso, não a falta, é o que dificulta enumerar os motivos para o afastamento definitivo de Dilma Rousseff da Presidência. Quem assume tal tarefa se vê diante de duas alternativas: resumi-los numa única sentença, dizendo que ela nunca deveria ter estado lá, ou elaborar um esquema lógico parcimonioso, que permita reduzi-los a um número manejável". O brilhante sociólogo optou pela segunda alternativa. Resume em cinco pontos as falhas do dilmismo e a explicação de por que Dilma deve ser tirada definitivamente da Presidência da República.

1º Ponto: A ilegalidade ou a "posição de ilegitimidade formal em que Dilma se colocou" em decorrência dos crimes de responsabilidade que embasam o impeachment. A respeito, Lamounier frisa: "Como Estado constitucional que é, o Brasil não poderia seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Não poderia manter na Presidência um titular que, além de  reiteradamente demonstrar desapreço pelas instituições da democracia representativa, não hesitou a atropelar os limites da legalidade no tocante à administração financeira e à legislação orçamentária".

Os quatro pontos seguintes, no sentir de Bolívar Lamounier, tipificam o que denominou  de "ilegitimidade material, ou substantiva". Menciono eles apenas:

2º Ponto: para se eleger e se reeleger Presidente, Dilma tomou carona numa farsa bolada por Lula, alicerçada na popularidade deste, nos embustes publicitários e nos recursos de origem ilícita.

3º Ponto: "A incompetência gerencial de Dilma e sua interface com a corrupção".

4º Ponto: O despreparo de Dilma que "não decorre apenas de sua incompetência gerencial e de sua incultura econômica, mas de algo que, de certa forma, as precede: a pobreza de sua visão de mundo".

5º Ponto: A saída de Dilma Rousseff da Presidência da República "é a limpeza de terreno imprescindível para que o Brasil apresse a recuperação econômica e comece, o quanto antes, a repensar seu futuro".

É fácil imaginar a resposta que Dilma e o resto da petralhada darão a esses arrazoados do professor Lamounier: eles estão ditados pela lógica da "zelite", que luta até o último momento para preservar intocados os seus privilégios. Esse arrazoado constitui o Leitmotiv do populismo lulista, no qual o apedeuta não é original, pois tal expediente retórico foi, antes, formatado na onda populista latino-americana deflagrada pelo "Socialismo Bolivariano" apregoado pelo finado coronel Chávez, da Venezuela.

O que certamente chama a atenção nas atuais circunstâncias do auto sacramental piegas montado pela petralhada com motivo da deposição da Dilma, é a carona que a esquerda brasileira toma em todo esse conjunto de asneiras, para defender um regime insustentável. A presença do Chico Buarque nas galerias do Senado, ao lado de Lula, para apoiar os arrazoados descosturados da Dilma, é bem significativa. Isso decorre, como mostrou o professor Antônio Paim na sua obra Marxismo e descendência (2008), do fato de que parte significativa da intelectualidade republicana optou pelo discurso cientificista, originado no século XVIII com o Marquês de Pombal, e que foi formatado pelos positivistas. 

Nessa maluca opção pseudointelectual, a intelectualidade da esquerda brasileira não está sozinha: o grosso dos professores franceses na área das ciências sociais também ficou contagiado pelo mesmo mal, que os levou a defender, antes de qualquer raciocínio, um obscuro e vaporoso socialismo como saída para todos os males, prescindindo da paciente observação  e análise dos fatos sociais. É o fenômeno que o historiador Maurice Druon identificou no seu crítico livro intitulado: La France aux ordres d´un cadavre (A França às ordens de um cadáver), no qual mostra que o vírus do positivismo marxista penetrou fundo nos meios docentes, em decorrência do domínio dos comunistas no seio do Ministério da Função Pública, posto em mãos do líder comunista Maurice Thorez a partir de 1946. 

Resta a nós, liberais, bem como aos conservadores, elaborarmos um arrazoado de acordo aos comezinhos princípios de respeito pela realidade e de posição crítica em face dos "messianismos epistemológicos". 

Felizmente um segmento ilustrado da nossa esquerda intelectual (identificado com os social-democratas, de que são dignos representantes Fernando Henrique Cardoso, Bolívar Lamounier, José Serra, Simon Schwartzman, Miguel Reale Jr., Janaína Pascoal e outros) se pôs a salvo, há já várias décadas, desse vírus do cientificismo marxistoide. Talvez, por isso, os petralhas os odeiam tanto.

sábado, 27 de agosto de 2016

A QUEDA DO FARSANTE LULA


Amigos, estamos de parabéns, você, eu e todos os brasileiros: a farsa do Lula começou a cair. O seu indiciamento pela Polícia Federal marca o início da derrubada definitiva do patife. Faço minhas as palavras de Mário Sabino de O Antagonista, publicadas hoje, 27 de Agosto. Pode-se enganar alguns durante muito tempo, muitos durante algum tempo, mas é impossível enganar todos o tempo todo! O Lularápio vai encontrar o lugar que merece: o xilindró e o esquecimento. Culpa dele e dos seus endeusadores do PT. Culpa da esquerda burra. Culpa do gramscismo acadêmico que tentou instaurar a hegemonia do "Novo Príncipe", o Partido do Lula e coligados. Virá, depois, o Impeachment do poste de Lula e a longa estrada da recuperação nacional, para sairmos do buraco em que o PT jogou a credibilidade do País, as nossas instituições republicanas e a economia estraçalhada pela incompetência e a ladroagem petralha. Vale a pena comemorar! Esta é uma etapa importante no desmonte do Estado Patrimonial brasileiro. Claro que é apenas o começo do desmonte do Leviatã tupiniquim. Mas, com a queda do Lula, o caminho para a saída do atraso do estatismo e do corporativismo está franqueado. Mãos à obra! 

 

Resumo de uma farsa chamada Lula

26 de Agosto de 2016


Por Mario Sabino


Hoje, dia 26 de agosto de 2016, uma farsa começou a ser formalmente desmontada. A farsa chamada Luís Inácio Lula da Silva. Ele foi indiciado pela Polícia Federal por corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de capitais, no âmbito da Lava Jato. Todos esses crimes estão conectados ao recebimento de vantagens indevidas pela OAS, uma das empreiteiras do petrolão, no caso do triplex do Guarujá. Lula também deverá ser indiciado em relação ao sítio de Atibaia.


Indiciamento não é condenação, mas as provas contra Lula são tão robustas que será muito difícil para ele escapar de uma sentença dura. Esperava-se o indiciamento para logo depois do impeachment de Dilma Rousseff. A situação se precipitou por causa do cancelamento da delação premiada de Léo Pinheiro, por Rodrigo Janot, episódio ainda mal explicado. O que se sabe até agora é que a PF não gostou de ter sido deixada de lado nas negociações da PGR com o ex-presidente da OAS.



Não importam as circunstâncias do indiciamento, o Brasil está se livrando de Lula. Com ele, atingimos o ápice da demagogia e da corrupção neste terra pródiga em demagogos e corruptos.



Lula surgiu no regime militar, quando se apresentou como líder sindicalista tolerável aos generais. Na redemocratização, a esquerda o transformou em ícone revolucionário e chefe de partido. No entanto, o discurso radical que lhe fora oportuno na construção do PT revelou-se um desastre eleitoral nas campanhas presidenciais -- e Lula, então, engravatou o pescoço e as palavras, para conquistar banqueiros, empresários e parte da classe média. Chegou ao Planalto por meio do que parecia ser um consenso inédito entre interesses de trabalhadores e patrões.



No poder, Lula levou às últimas consequências o assistencialismo mais rasteiro e uma política econômica que, baseada apenas em crédito farto, graças à bonança mundial, resultaria no desastre completo sob Dilma Rousseff, a criatura que escolheu para sucedê-la e autora da maior fraude fiscal já cometida no país. Como resultado, os ganhos sociais relevantes proporcionados pelo Plano Real foram parar na fila do desemprego.



No poder, Lula instituiu, para além da imaginação, a prática de comprar apoio parlamentar  e financiar campanhas com dinheiro sujo. Tanto no mensalão como no petrolão, o seu partido e aliados desviaram bilhões de reais dos cofres públicos para realizar tais pagamentos.



No poder, Lula e boa parte dos seus companheiros enriqueceram por meio de contratos fraudulentos entre empreiteiras e estatais como a Petrobras, arrasada durante os anos dos governos do PT.



No poder, Lula tentou calar a imprensa independente, comprou o veneno de blogueiros e jornalistas decadentes, perseguiu profissionais que desvelavam os porões imundos do lulopetismo e cortou propaganda de veículos sérios, como a revista Veja. Com isso, minou um dos pilares da democracia que é a liberdade de imprensa.



É essa farsa que começou a ser formalmente desmontada pela PF num radioso 26 de agosto de 2016.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

BALANÇO DAS OLIMPÍADAS DO RIO: ALEGRIA, CIDADANIA, ATLETAS MILITARES

Este cronista com a filha Vitória, na Candelária. No fundo, a tocha olímpica. (Foto: álbum de família).
Museu do Amanhã no Boulevard Olímpico. (Foto: Vitória Vélez).


























As Olimpíadas do Rio chegam ao fim e é hora de fazer um balanço. Queria destacar três aspectos: 1 - De um lado, a alegria das medalhas conquistadas, notadamente do ouro no futebol e no vôlei, que simbolizou o clima popular que prevaleceu na grande festa. 2 -  O contraste dessa alegria com a falta de civilidade do público brasileiro em alguns eventos. 3 - Em terceiro lugar, a contribuição dada pelas Forças Armadas nos resultados positivos do magno evento, em termos de medalhas conquistadas pelos nossos esportistas.

1 -  A alegria das medalhas conquistadas e as festas de abertura e encerramento. O espírito olímpico é, antes de tudo, de congraçamento alegre entre as Nações. Esse clima prevaleceu ao longo da grande festa, em que pese incidentes dolorosos  no terreno da segurança pública, ensejados pela crônica criminalidade. A máxima manifestação do clima de alegria pôde ser observada na animada torcida de aproximadamente um milhão de pessoas, que ocupou o Boulevard Olímpico na tarde e na noite do sábado 20 de Agosto, quando do jogo decisivo entre a Alemanha e o Brasil, que terminou conferindo à nossa seleção o almejado ouro olímpico. Essa alegria acompanhou, também, as belíssimas cerimônias de abertura e encerramento dos jogos. O Brasil deu mais uma vez, perante o mundo, prova de que é craque na produção de grandes eventos. A nossa imagem reluziu no cenário internacional das festas populares.

A alegria das grandes massas que acompanham os Jogos Olímpicos, essa foi a herança que os modernos organizadores tiraram da antiga tradição grega. Na Antiguidade clássica, suspendiam-se as guerras entre as cidades-estado, a fim de que as Olimpíadas possibilitassem uma festa em que cada grupo expunha perante os outros o valor da força, da disciplina e da habilidade corporal, num contexto em que o que valia era a competição honesta entre os esportistas, sem esperar mais reconhecimento do que a admiração dos concidadãos e a perpetuação da memória dos heróis olímpicos, simbolizada na coroa de louro com que eram agraciados os vencedores. 

Nesses eventos se colocava de relevo o valor da amizade e da lealdade entre os contendores e os assistentes, numa espécie de antítese à ferocidade das guerras muito frequentes entre as várias cidades da península helênica e das suas ilhas. Os Jogos constituíam, assim,  um oásis de diálogo amistoso e de negociação entre as cidades guerreiras. O valor supremo da "paideia" ou educação para a cidadania, era o binômio "kalós kaí agathós" (beleza e coragem) que, na antiga Atenas, sedimentava o espírito de defesa da Cidade, após as reformas de Clístenes ocorridas por volta do ano 500 a.C. 

Ora, os Jogos eram como uma espécie de projeção artística daquilo que havia de mais perdurável na lide desportiva: a beleza dos corpos e a habilidade nas várias provas. Os Romanos sintetizaram no trinômio famoso: "citius, "fortius", "altius" ("mais rápido, mais forte, mais alto") esse espírito de competição e de progressiva superação dos jovens atletas.

A tradicional hospitalidade do povo carioca e, em geral, dos brasileiros, reluziu nas festas olímpicas. O bom humor das pessoas ajudou a mitigar as deficiências administrativas nos transportes e na alimentação. A festa foi, em termos gerais, maravilhosa, contagiando os nossos visitantes que, certamente, quererão voltar. Essa é uma prova do nosso soft power que, livre de manipulações populistas, é um ativo importante neste mundo globalizado refém do terrorismo.

2 - O contraste da alegria olímpica com a falta de civilidade do público brasileiro em alguns eventos. A torcida é inerente aos grandes eventos esportivos. Pesquisas realizadas por arqueólogos americanos e gregos revelam que nos Jogos antigos da cidade de Olímpia havia torcidas organizadas. O que não significa que as vaias contra as equipes adversárias pudessem se sobrepor ao espírito olímpico. 

Infelizmente as vaias sobrepuseram-se ao espírito olímpico em alguns momentos da Olimpíada do Rio. As provas de atletismo viram-se prejudicadas por manifestações dessa natureza. Os organizadores falharam ao não terem desenvolvido campanha publicitária adequada, a fim de que se preservasse a compostura para que não fossem prejudicadas provas em que é primordial o silêncio que garanta a concentração dos atletas. Essa falha insere-se, a meu ver, na mais larga carência que o Brasil hodierno sente em relação à educação para a cidadania.

Os nossos períodos democráticos são confundidos com espírito de vale-tudo, como se não fosse essencial a manutenção de condutas condizentes com os valores cidadãos. No ciclo militar, o ensino básico cuidava para que os alunos recebessem noções básicas de cidadania e da preservação de valores que dizem relação ao nosso convívio coletivo. Eram conhecidas disciplinas como "Educação Moral e Cívica", ministradas ao longo dos níveis fundamental e secundário. Na Universidade, era ministrada a disciplina "Estudo de Problemas Brasileiros", em que eram discutidas as grandes questões que, do ângulo comportamental, dificultavam o desenvolvimento.

Chegado o período da redemocratização, após o fim do regime militar, tudo isso foi jogado no lixo da história como "entulho autoritário", sem que se cuidasse da educação para a cidadania num contexto democrático. A bem da verdade, as únicas instituições de ensino que passaram a desenvolver uma reflexão nesse ponto foram as Academias Militares das três Armas, que cuidaram de preparar o pessoal militar, tanto de oficiais quanto de suboficiais e praças, para a adequada atuação das Forças Armadas num contexto democrático. 

Resultado: hoje elas representam uma instituição respeitável e afinada com a nossa democracia. Ao longo dos agitados anos do regime lulopetista que conseguiu pôr em xeque as instituições republicanas, em nenhum momento as nossas Forças Armadas colocaram como saída opções diferentes das consagradas na Constituição de 1988. Ora, não se pode dizer o mesmo da totalidade da nossa sociedade civil, em cujo seio  políticos, sindicalistas e militantes de várias siglas da esquerda apregoam soluções de fato, acusando os seus oponentes de um "golpe" que, paradoxalmente, forma parte do seu próprio cardápio.

3 - A contribuição dada pelas Forças Armadas nos resultados positivos do magno evento, em termos de medalhas conquistadas pelos nossos esportistas. O positivo resultado conquistado pelos nossos atletas nestas Olimpíadas foi evidentemente superior ao alcançado em certames anteriores. A razão funda-se na política adotada pelo Ministério da Defesa desde 2008, no que tange à realização, pelas Forças Armadas, de programas de treinamento de alto rendimento de jovens participantes dos quadros militares, com vistas a melhorar a performance brasileira no terreno esportivo. Inicialmente foram visadas as Olimpíadas Militares realizadas no Brasil em 2011 (quando o nosso país ficou em 1º lugar), tendo ficado em 2º, quatro anos depois. 

É um programa que deve continuar, junto com o chamado de "Força no Esporte", do qual participam 21 mil crianças, que têm acesso regular à prática supervisionada de esportes em unidades militares em todo o país. Os jovens suboficiais que venceram provas nas várias modalidades, do atletismo às provas de remo, honraram a memória das Forças Armadas às quais pertencem, adotando a posição de sentido na hora de receber as medalhas conquistadas. Bela manifestação de patriotismo nestes tempos empanados pela corrupção generalizada. Os jornais noticiaram com ressalvas esses fatos. Alguns afoitos criticaram a atitude dos nossos atletas militares. Divirjo veementemente dessa posição. Acho que foi muito positiva a atitude dos que receberam com a saudação militar as suas honrarias esportivas. Afinal, o número deles foi significativo: da Olimpíada que ora se encerra os militares constituíram 33% dos atletas brasileiros, com 81% das medalhas conquistadas. Um sucesso retumbante!

O mundo precisa saber que as Forças Armadas Brasileiras preparam a nossa juventude para a prática sadia do esporte de alto rendimento. Esta é, aliás, a ponta do iceberg. Na base, sabemos que há muita dedicação e competência na gestão acadêmica das Escolas Militares. O professor Alessandro Barreta García, em obra recente (Educação física e Regime Militar, Jundiaí: Paço Editora, 2015, apresentação de minha autoria), destacou esses aspectos. 

Um pequeno exemplo: as únicas instituições de ensino que fazem avaliação de docentes no Brasil, de forma sistemática e seriamente planejada,  são as pertencentes às Forças Armadas, tanto nos níveis de ensino médio (Colégios Militares) quanto na graduação e na pós-graduação. Sou, com muita  honra, professor emérito da ECEME e posso dar este testemunho a partir da própria experiência. Colaboro com o Exército desde 1983 na preparação de oficiais em nível de pós-graduação, tanto nessa instituição quanto no Centro de Estudos de Pessoal, no Rio de Janeiro. Também colaboro com o Clube da Aeronáutica, no Rio, nos cursos de Pensamento Brasileiro organizados ali em nível de pós-graduação. Nas minhas atividades docentes nas Escolas Militares sempre fui avaliado de forma séria e regular, coisa que não tenho experimentado nas Universidades públicas nas quais trabalhei desde a minha chegada ao Brasil em 1979. Nestas, as políticas de avaliação acomodaram-se aos interesses do sindicalismo petista que deformou totalmente o caráter de seriedade acadêmica que deveria presidir esse tipo de análise do desempenho docente. 

Poucas são as Universidades que no Brasil têm programas continuados de educação física e de prática esportiva abertos à comunidade. A Universidade Gama Filho foi exemplo que se destacou nesse campo. Infelizmente, foi clausurada pelo MEC, numa decisão atabalhoada e pouco transparente, sob a regência do ex-ministro Aloísio Mercadante.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O PATRIMONIALISMO BALANÇA MAS NÃO CAI


Dizia o general Figueiredo que o Brasil precisava fazer a sua Revolução Francesa. Concordo. A sociedade brasileira está cansada com o altíssimo preço que paga para manter funcionando a máquina patrimonialista, que cresceu e se fortaleceu absurdamente durante os governos petistas. O patrimonialismo de séculos, que ainda nos mantém cativos do atraso, esse é o nosso Antigo Regime.

O fenômeno de sociedades cansadas de serem sugadas pelos zangões improdutivos das burocracias corruptas não é novo. Uma das primeiras grandes revoluções da modernidade, a Francesa, aconteceu justamente porque a sociedade se cansou da minoria que a explorava: o denominado "primeiro estado" (integrado pela nobreza e o alto clero) e que, como denunciava Sieyès no seu opúsculo O que é o terceiro estado? (1789) era constituído por apenas 180 mil felizardos burocratas que se apropriavam do orçamento pago pelos impostos de 25 milhões de cidadãos. 

No caso brasileiro, uma improdutiva e atabalhoada burocracia que já chega, com os seus dependentes, à casa dos 10 milhões de indivíduos, simplesmente se apropria dos impostos pagos pelos 190 milhões de membros restantes da sociedade civil. Essa é a raiz do descontentamento que levou a classe média às ruas desde 2013. Esse é o motivo do impeachment da Dilma. Essa é a causa da enorme rejeição ao Lula e à sua corja, que potencializaram a gulodice do Estado cartorial em nome da "moralidade republicana".

O Antigo Regime brasileiro, após o Mensalão e o Petrolão, balança. Mas, por enquanto, não cai. A tradição patrimonialista tem a força das práticas seculares que estão presentes no interior das células do organismo social. O Patrimonialismo forma, ainda, parte do nosso DNA. Todo mundo almeja por mudanças. Mas, como dizia, dia destes, o presidente do Banco Central, cada um cuida do seu pequeno quinhão ignorando o resto. Assim não dá. Ou todos aderimos às mudanças necessárias,  ou as coisas continuarão como sempre e afundaremos em profundezas venezuelanas. 

A maior parte dos Congressistas dizem apoiar as mudanças apresentadas pelo governo Temer na condução da economia. Mas, na hora do "pega pra capar", que é quando as matérias são votadas, muitos se fingem de marcianos e votam contra. Pior: nas Comissões encarregadas de discutir as propostas para por limites à fome do Leviatã patrimonialista, os ilustres representantes do povo simplesmente tentam desmontar os projetos veiculados pela sociedade civil ou pelos seus porta-vozes ad hoc, como é o caso das 10 propostas apresentadas ao Parlamento pelo Ministério Público, que já estão bastante deformadas na respectiva Comissão, com a finalidade de favorecer os larápios. Os deputados malandros optaram, também por simplesmente se escafederem das sessões em que se votam matérias incômodas à gatunagem institucionalizada. 

E nem falar de setores da sociedade afinados com a burocracia patrimonialista, como as centrais sindicais. Uniram-se em torno a manter incólume a atrasada legislação trabalhista que nos escraviza. Nada de mudar a idade da aposentadoria para níveis praticados pelo resto do mundo. Aposentadoria quanto antes e integral! Isso simplesmente garantirá a falência definitiva do sistema.

A esperança por respirarmos ares menos contaminados pelo estatismo arrefece. Tomara que não morra. Também pudera: os governos petistas foram agressivos em termos de crescimento descontrolado da presença do Estado na economia e na vida da sociedade como um todo, abarcando inclusive as políticas culturais, submetidas ao descalabro de ONGs que propiciaram a gatunagem lulopetralha e que se apropriaram dos dinheiros públicos para reforçarem, do ângulo da cultura, a imagem e os interesses dos larápios. No terreno econômico, Lula e Dilma foram mestres em estatismo: entre 2003 e 2015 criaram nada menos do que 41 empresas estatais, gerando um rombo de 8 bilhões de reais torrados pelos "companheiros".

A coisa fica ruim se dermos uma olhada para o panorama internacional. Obra recente organizada em Washington pelos politólogos Larry Diamond, Marc F. Plattner e Cristopher Walker, intitulada: Authoritarianism Goes Global: the Challenge to Democracy (publicada pelo International Forum for Democratic Studies e pela John Hopkins University Press), destaca que os cinco grandes do patrimonialismo global estão bastante ativos para desmoralizar os Estados Unidos e a União Européia, bastiões das democracias liberais. Ora, esses cinco grandes Estados Patrimoniais são: a Rússia, a China, o Irã, a Arábia Saudita e a Venezuela e são financiados, em grande parte, pelo petróleo e pelo agressivo comércio exterior, como é o caso da China. Todos esses Governos organizaram agências de publicidade e de notícias, em território americano e na Europa, visando a desmoralizar as potências ocidentais e vendendo, como grande solução civilizatória para a globalização, variados modelos de autoritarismo, apoiando, inclusive, como fez o presidente Chávez da Venezuela em anos anteriores, partidos de esquerda, tanto na América Latina quanto na Europa (lembremos que os petrodólares venezuelanos estão na raiz de novos partidos espanhóis como Podemos e outros). Como se pode observar, o velho despotismo oriental está ativo e quer varrer do mapa as conquistas da civilização ocidental.

Ficaremos passivos diante da agressividade dos Estados Patrimoniais na defesa desse tosco modelo? Acho que os liberais e os conservadores podemos fazer ainda mais do que se faz nas redes sociais e na área da denominada "resistência cultural". Podemos, por exemplo, como fez Raymond Aron, na França que se reerguia das desgraças da guerra, ao longo dos anos 50 do século passado, reviver as ideias liberais voltando a estudar clássicos da defesa da liberdade como Tocqueville. Podemos colocar na pauta de leitura das novas gerações, os clássicos do nosso liberalismo, Ruy Barbosa, Assis Brasil, Silveira Martins, Tobias Barreto, Miguel Reale, Roque Spencer Maciel de Barros, Antônio Paim, José Guilherme Merquior, Ubiratan Macedo, Meira Penna e tantos outros. 

E os socialdemocratas, que acreditam nas benesses da liberdade e da livre empresa, precisam defender para valer as privatizações que deram sustentação ao Plano Real, descer do muro da defesa suicida da esquerda patrimonialista, e passarem a bater forte no Lularápio e patota. Ainda estes meliantes são tratados com punhos de renda pela nossa esquerda dita "civilizada". É a tentação socialdemocrata de que falava Robert Dahl.


sábado, 13 de agosto de 2016

A INSEGURANÇA DO RIO OLÍMPICO: CONSEQUÊNCIA DE POLÍTICAS "MEIA-SOLA"


A morte do soldado da Força Nacional que foi assassinado ao entrar, guiado pelo GPS, na "Comunidade" da Maré, mais do que um caso isolado, é a prova de que os narco-terroristas cariocas peitam as instituições do Estado. Tudo decorrente da "pacificação meia-sola" efetivada no Rio ao longo dos últimos dez anos. Se era para ter feito algo semelhante ao que os colombianos fizeram, em Medellín e Bogotá, entre 2002 e 2007, os bandidos que não tivessem deposto as armas e se submetido aos tribunais, já deveriam ter sido eliminados pela Polícia e pelas Forças Armadas.
Mas nada disso aconteceu em tempo e o resultado é esse: "Comunidades" como a da Maré, reféns dos chefetes do narcotráfico armados como nunca e que, em plena Olimpíada, desafiam as Forças da Ordem, os cidadãos, os jornalistas estrangeiros e os brasileiros. O crime organizado cresceu e se tornou forte no Rio pelo conluio trágico entre populismo e espírito do politicamente correto.
Desde os tristes tempos dos governos Brizola até hoje, é isso o que acontece. O lulopetismo só fez reforçar esse estado de coisas, de mãos dadas com os populistas acomodados no poder do Estado e do Município. Os momentos de lucidez foram sufocados pelo desleixo na administração do Estado e da cidade. A Olimpíada passará, ficarão, pelo menos, as obras de infraestrutura (muitas delas superfaturadas), mas no quesito "segurança pública" todos saimos perdendo, a Cidade Olímpica, o Estado do Rio de Janeiro e o Brasil. Estrangeiros e patrícios que vieram à Cidade Maravilhosa estão registrando tudo, como os jornalistas que tiveram o seu ônibus "apedrejado". Restará a nós, brasileiros, retomarmos a vida e administrar o caos que se instalou com a pacificação "meia sola" implantada nos últimos anos.
Pacificação para valer implicava muito mais do que as medidas parciais postas em execução na última década, com grande aparelho de propaganda. Como foi feito em Medelín e Bogotá, cidades visitadas pelo governador fluminense em 2007, teria sido necessário realizar um conjunto complexo de ações que contemplassem três planos: econômico, jurídico-político e cultural.
No primeiro, tanto em Bogotá quanto em Medellín foram elaborados, em parceria de empresários e poder público, estudos tendentes à dinamização do comércio e da indústria, a fim de acelerar o crescimento econômico e a mais racional das inclusões, a decorrente dos benefícios do desenvolvimento que gera empregos. Os nossos vizinhos têm crescido a taxas de causar inveja, que se situam entre 4,5 e 6,5 por cento ao ano.
No tocante à variável jurídico-política, foi feita uma teia de reformas que possibilitaram a eficácia do combate ao terrorismo, centralizando nos respectivos prefeitos (alcaides) metropolitanos a gestão das políticas de segurança. Reformas do aparelho policial e dos corpos das Forças Armadas que iriam colaborar nas ações de pacificação foram feitas com dois intuitos: aproximar as Forças da Ordem dos cidadãos, de forma a que estes confiassem nelas, e treinamento do pessoal militar para que executasse as ações de pacificação com um adequado embasamento legal e com a devida transparência.
Essas medidas institucionais foram acompanhadas de perto pela sociedade civil, mediante a criação, nas respectivas cidades, do movimento “Como Vamos”, do qual participam estudantes, professores, grêmios econômicos (que aglutinam os empresários da indústria e do comércio, bem como os bancos), profissionais liberais, membros da Igreja, imprensa e organizações comunitárias, divulgando mensalmente, no jornal de maior circulação, os resultados da avaliação sobre os vários itens das políticas traçadas visando à segurança.
No tocante à variável cultural (dirigida a desenvolver o sentimento de participação cidadã) nas áreas pacificadas e após um prazo de 120 dias, a respectiva Prefeitura entregava às comunidades um conjunto de obras educacionais e sociais denominado de “Parque-Biblioteca” que abarcava: luxuosa biblioteca pública, campos esportivos, escola municipal, posto de saúde, agência bancária e ligação com o transporte de massa (em Medellín, conexão com o metrô mediante bondinhos; em Bogotá, conexão dos bairros mediante micro-ônibus com o Trans-Milênio, o sistema de ônibus articulados que percorrem a cidade de norte a sul e de leste a oeste).
Todas essas medidas locais foram acompanhadas, no plano nacional, por uma política de segurança pública efetivada com a finalidade de modernizar as Forças Armadas e a Polícia Nacional e por políticas sociais que reforçassem a inclusão social. O programa “Bolsa Família” brasileiro foi adotado com modificações que o tornaram eficiente, ao cobrar o governo resultados das famílias beneficiadas, a fim de que não se tornasse ajuda crônica e irresponsável como aconteceu no nosso país. 
Assinale-se, para terminar, que as políticas efetivadas foram financiadas pelos governos locais com a parceria dos empresários locais: efetivamente, 90% das obras para construção dos Parques-Bibliotecas foi financiado mediante a modalidade de parcerias público-privadas, sem que se desenvolvessem ações de corrupção como tem acontecido no Brasil.
No Brasil, longe de as políticas pacificadoras se complementarem com políticas sociais e econômicas, o governo federal, embriagado com o populismo lulopetista, terminou piorando as coisas ao desmoralizar a ação das autoridades contra o crime organizado e ao adotar um esquema de megacorrupção para perpetuar no poder o partido do governo .

Esse é o quadro da nossa precária segurança pública no Rio Olímpico. Poderia ter sido de outra forma, se as autoridades regionais e nacionais tivessem tido bom senso e não deixassem prosperar o vírus da corrupção. Mas ainda é tempo para começar a mudar no sentido de políticas bem definidas e de colaboração efetiva com o setor privado. Os cariocas merecem uma cidade em ordem e segura. Pelo menos, merecem observar alguma perspectiva de mudança. Deixar como está ninguém merece!

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

FESTA OLÍMPICA: LEGADO E PROBLEMAS

Esgoto na praia da Barra da Tijuca. (Foto: The Guardian, 03-08-2016)



A Festa Olímpica, com todo o seu brilho, não desfaz, num passe de mágica, os problemas que o Brasil enfrenta nesta difícil quadra da sua história. Está aí o "custo Brasil" que superfaturou obras e encareceu para os brasileiros a conta a pagar. Não há almoço de graça, como dizia conhecido economista. Mas tampouco há Olimpíada de graça. A conta é paga pelos contribuintes, que podem sentir muito forte o baque. A Grécia que o diga. 

Os problemas com o descaso em face do meio ambiente estão sendo sentidos pelos participantes dos Jogos Olímpicos do Rio. E nem adianta disfarçá-los. Estão aí, aos olhos de todos, como o esgoto e os detritos que contaminam as águas da Baia da Guanabara e que já estão dando dores de cabeça aos esportistas de remo, vela, caiaque e assemelhados, bem como aos seus auxiliares. No caso do esgoto visível nas águas do mar no Rio de Janeiro, será difícil convencer o honorável público estrangeiro de que são fatalidades da natureza. 

Reportagem do jornalista John Vida, do londrino The Guardian intitulado: “Por que o Rio de Janeiro está achando tão difícil limpar o seu lixo?”(03-08-2016) informava: “Um entre três dos mais de 10 milhões de habitantes da grande área metropolitana vive em lugares que não possuem saneamento básico e metade do lixo da cidade não é tratado antes de ser despejado nos cursos de água e, eventualmente, no oceano”.

Reportagem de Pauline Fréour do jornal parisiense Le Figaro, em artigo intitulado: “Jogos Olímpicos: no mar e sobre a terra, os atletas face à poluição”, alertava acerca do perigo que os esportistas vão encontrar na Lagoa Rodrigo de Freitas nas competições de caiaque e canoagem, em decorrência das altas porcentagens de microrganismos nocivos presentes na água, sendo que “a concentração de adenovírus é 25 mil vezes superior ao nível de alerta fixado nas praias da Califórnia”. John  Griffith, biólogo marinho  da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, entrevistado a respeito, frisava: “O que há lá é água de esgoto, simplesmente”.

Os australianos, aliás, na tela dos noticiários por causa das suas legítimas reclamações quanto às obras inacabadas dos apartamentos na Vila Olímpica, quando foi a vez deles, em Sydney, nas Olimpíadas de 2000, não se viram às voltas com esses problemas de contaminação das águas. Muito pelo contrário: fizeram da sua Olimpíada um belo exemplo de políticas públicas para cuidar da natureza, como lembrou recentemente André Trigueiro no seu programa “Cidades e Soluções”, divulgado pela Globo News.

A Austrália deu um show de preservação ambiental cuidando, de forma exemplar, da pureza das águas da hiperpoluída baía de Homebush, conhecida como o maior esgoto do país, muito semelhante, em deterioração, ao estado em que se encontra a nossa baía da Guanabara. Esse foi o cenário para os esportes náuticos e ficou como legado da Olimpíada, ao ter totalmente saneadas as suas águas e ao ser convertido o seu entorno num parque natural de 430 hectares. Para conseguirem obter em tempo recorde esses magníficos resultados, os organizadores não pouparam esforços: gastaram 2,1 bilhões de dólares australianos e chamaram para colaborar no planejamento ecológico grupos ambientalistas internacionais, conhecidos pelo seu rigor nas políticas preservacionistas, como o Greenpeace. Ali foi estabelecido o primeiro sistema integrado do país de reciclagem total da água. Lembremos, por outro lado, que a Vila Olímpica foi abastecida totalmente com energia renovável proveniente de painéis solares. 


"Floresta flutuante" em navio abandonado, na bela e despoluída baía de Hombebush, em Sydney. (Foto: Divulgação).


As obras de preservação ambiental continuaram nos anos seguintes. Em 2014 foi inaugurado um parque ecológico sui-generis. O navio de suprimentos americano SS Armyfield de 1.400 toneladas, construído em 1911 e que tinha sido abandonado perto da praia pelos americanos após o final da 2ª Guerra Mundial, foi transformado em parque ecológico flutuante e passou a ornar, como uma espécie de grande vaso verde, as tranquilas águas da baia de Homebush.

Bem que os brasileiros poderíamos ter feito bonito nesse item. Mas não: optamos pela improvisação. A administração municipal ficou refém das piadinhas sem graça do Prefeito, que ofereceu cangurus aos australianos e se queixou (sem fundamento) de ter de "oferecer caviar" ao Comitê Olímpico.

De outro lado e já no plano nacional, ficará difícil para explicar aos estrangeiros presentes nas Olimpíadas as cenas de terrorismo deflagradas em Natal pelo Primeiro Comando da Capital e quejandos, que dominam os presídios brasileiros e que decidiram mostrar a sua força perante o mundo, envergonhando as autoridades brasileiras e a todos nós. Uma centena de ônibus incendiados para aterrorizar a população em pleno período de Olimpíada é terrorismo no duro. Vamos ver se as autoridades estaduais e federais vão dar o tratamento que merecem os autores desses crimes. Já temos uma lei antiterror que os petralhas fizeram o possível para que não fosse aprovada. Terão coragem as autoridades competentes para aplica-la, como a opinião pública espera?

E, por falar em terrorismo, ficaram famosas as fotografias tiradas pela equipe masculina chinesa de basquete (mostrando pessoas se jogando ao chão para se protegerem do tiroteio patrocinado por traficantes). A equipe chinesa tinha ficado  presa, entre as Linhas Amarela e Vermelha, logo após o seu desembarque no aeroporto do Galeão. Isso não podia acontecer. Grave falha do esquema de segurança!


Tiroteio na entrada ao Rio, na junção das Vias expressas Amarela e Vermelha. Fotografia tirada pela equipe masculina de basquete da China (04-08-2016).

Numa outra abordagem dos jornalistas internacionais, reportagem do jornal espanhol El País fez ampla matéria sobre a prostituição de jovens mulheres ao ensejo da Olimpíada no Rio de Janeiro. As “trabalhadoras sexuais”, como a esquerda gramsciana gosta de chama-las, não se sentem à vontade na sua profissão durante esses dias de folguedo. Como destacou a jornalista Maria Martin em duas matérias publicadas no dia 2 de Agosto, (“El sueño agridulce de las prostitutas de los Juegos Olímpicos” y “Prostitución infantil con vistas al Parque Olímpico”), muitas mulheres de várias regiões do país viajaram para o Rio de Janeiro, aliciadas por falsos empresários que lhes pagaram a viagem de ida e retorno, além de uma refeição básica, a fim de se prostituírem na região central da cidade ou em alguns clubes noturnos da zona sul. A reportagem entrevistou várias delas. Todas declararam que se tratava de uma opção difícil e que caíram na esparrela do comércio sexual em decorrência do aperto econômico ensejado pela crise que vive o país em tempos de Petrolão. Perderam o precário emprego que tinham ou simplesmente não conseguiam pagar as contas por ganharem somas irrisórias em face das necessidades de sobrevivência. Nenhuma manifestou satisfação com as condições de trabalho.


A reportagem informou acerca do estouro, pela polícia civil do Rio, de sofisticado esquema de “prostituição chique” com adolescentes que foram aliciadas em várias cidades brasileiras, mediante anúncio de oportunidade ímpar para entrar nas passarelas como modelos, ou na carreira artística como cantantes ou atrizes de cinema. Três luxuosos apartamentos com vista para o Parque Olímpico foram invadidos pelos policiais. Num deles, confinadas, moravam as adolescentes. Os outros dois serviam como base para as “atividades profissionais”. Os dois aliciadores, garotões malhados, vestiam roupas luxuosas e andavam em carrões importados, mas sumiram. Quando chegaram os policiais, os meliantes se escafederam. Ao que tudo indica, tratava-se de narcotraficantes tentando lavar dinheiro sujo e buscando faturar um extra com motivo da festa olímpica.

É claro que nem tudo é contaminação das águas, terrorismo no Rio Grande do Norte, tiroteios nas vias de acesso ao Rio Olímpico ou cenas de prostituição. A Cidade Maravilhosa ganhou obras significativas para a mobilidade urbana. A região do Porto foi definitivamente revitalizada. Museus e espaços públicos foram inaugurados e ficarão para serem desfrutados pela cidadania. O Parque Olímpico é um marco de referência na urbanização da zona oeste e as suas instalações são certamente motivo de alegria e orgulho para cariocas e visitantes. Mas festa olímpica é evento exigente e a presença de visitantes de outras nacionalidades, acostumados a que as coisas funcionam a contento, enxergaram as nossas falhas e as colocaram aos olhos do mundo. É melhor tomar conhecimento desses defeitos e procurar saná-los. E assumirmos as nossas responsabilidades, num mundo globalizado, para quando recebermos visitantes estrangeiros em eventos que, no futuro, sejam novamente programados.



O belo Parque Olímpico do Rio de Janeiro, uma das heranças positivas da Olimpíada para a Cidade Maravilhosa. (Foto: Renato Sette / Prefeitura do Rio de Janeiro).

A encenação que acompanha a abertura dos Jogos Olímpicos é, costumeiramente, uma radiografia da alma dos que organizam essa festa. Os chineses deram, em 2008, um belo espetáculo do que são, no fundo das suas almas: uma multidão de pessoas que se movem ao uníssono, com ética confuciana. 

A estética da gambiarra esteve presente na festa brasileira, reforçada pela imagem da favela que cresce sem parar, que apareceu como pano de fundo no palco. Isso, aliado ao erro histórico de, ao se fazer referência aos que nos enriqueceram de fora com a sua vinda como imigrantes ao Brasil, terem sido excluídos dois grupos fundamentais na colonização do Sul especialmente, embora tenham estado presentes, também, em outras regiões. Refiro-me aos Italianos e aos Alemães. Ficar, como se fez, só com a memória dos Libaneses e dos Japoneses foi um erro histórico grave, provocado possivelmente pelo afã de agradar ao Lula (que manifestou em alguma oportunidade não gostar de brancos de olhos azuis) e que achava que iria "papar" os louros da abertura da festa olímpica. 

Claro que gostei de ver a bela Gisele Bündchen desfilando majestosa (com a sua herança genética alemã) na enorme passarela, ao som da música de Tom Jobin, executada pelo seu filho. Claro que gostei dos deslumbrantes cenários montados com o que de melhor há na tecnologia digital. E gostei dos fogos, como deles gostou, fascinado, o meu filhinho. Não gostei, contudo, dos comentários patrioteiros do Galvão Bueno, exaltando os Brasileiros como se fossemos a nação mais civilizada do planeta. Não gostei da pretensão de dar aos espectadores uma aula de preservação ambiental, como se fôssemos os mais civilizados no quesito de cuidados com o meio ambiente. Não somos isso e temos consciência das nossas limitações. Da vaia ao Temer, repetiria com Nelson Rodrigues que o Maracanã vaia até minuto de silêncio. O nosso vice, exercendo as funções de presidente interino, teve uma atitude digna e realista, não dando ao incidente a importância que os líderes petistas, Lula e Dilma, deram, quando, por sua vez, foram vaiados em cenários esportivos internacionais.

Estou com Reinaldo Azevedo, na sua coluna de 05-0 publicada em Veja.com: "Não é a nossa capacidade de realizar eventos gigantescos que está em questão. Setores da economia brasileira dominam tecnologia de ponta capaz de rivalizar com o que de melhor se faz mundo afora. O nosso primitivismo está em outro lugar. É a política que ainda é movida a tração animal; é o respeito aos direitos individuais que ainda está em lombo de burro; é o arcabouço legal para empreender que ainda é movido a vapor; é o respeito à cidadania que ainda é analógico; é a tara pelo estatismo que ainda revela uma noção de país coberta de sapé e sentada de cócoras. Como o Jeca Tatu. Como a casa do Jeca Tatu. Infelizmente, desde a sua fundação e ao longo de 13 anos no poder, o PT fez dessa soma de atrasos uma ética e uma estética. E nos empurrou para o buraco. Mas estamos começando a sair dele. Assim, meu bom brasileiro, vibre com os jogos. Divirta-se com os jogos; o que nos envergonha estava aqui antes deles".