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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

ESCOLAS CÍVICO-MILITARES E EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA




A primeira consequência desse criminoso descaso foi a instalação da violência pelo país afora, principalmente naquelas regiões menos desenvolvidas, que não tinham infraestrutura para combater o mal, notadamente as do Norte e Nordeste do país. Foi assim como a Amazônia e o Nordeste se tornaram portas para a exportação de narcóticos, especialmente cocaína, que passou a ser refinada no Brasil. Os narcotraficantes colombianos repassaram aos brasileiros a tecnologia dos pequenos laboratórios de refino, que tinha sido a ponta de lança para a explosão do narcotráfico na vizinha Colômbia, ao longo das décadas de 80 e 90 do século passado.

Com o combate dado aos narcotraficantes no eixo andino, no período mencionado, os financiadores do mercado da morte (a máfia italiana e os narcotraficantes colombianos e latino-americanos em geral), decidiram, no final dos anos 80, deslocar o eixo de exportação de narcóticos para o leste da América do Sul, concretamente para o Brasil. Afinal de contas, o país-continente apresentava mais de 8 mil quilômetros de praias mal vigiadas, na sua maioria e, de outro lado, tinha se sedimentado uma política de festas populares multitudinárias, ao ensejo do carnaval, das festas nordestinas e do norte, que constituíam ambiente propício para instalar e alargar o mercado da morte.[1]

A consequência estratégica dessa desgraça é que o combate à violência é absolutamente ineficaz, se não se enfrenta o problema onde está sedimentado e atormenta a vida dos cidadãos: no município. O sucesso das políticas de segurança pública implementadas, na Colômbia, pelos governos de Alvaro Uribe Vélez e Juan Manuel Santos, decorreu exatamente do fato de que encararam a problemática da segurança ali onde a insegurança ocorria: no município.

O bom senso das políticas anticrime desenhadas pelo Presidente Bolsonaro e o Ministro da Justiça Sérgio Moro, no pacote de luta contra a violência apresentado ao Congresso, radica justamente aí: é a primeira grande proposta de uma política nacional contra a insegurança e o crime organizado, pensada a partir dos lugares onde os cidadãos moram. Não é à toa que a federação dos meliantes trata, por todos os meios, de inviabilizar a aprovação do pacote de Moro. 

O sucesso da iniciativa das escolas cívico-militares decorre justamente de ela se inserir nesse novo contexto. Planos nacionais, pensados num conceito pouco prático de um “Sistema Único de Segurança” não dão certo, porquanto não respondem adequadamente à variada forma de aparição da insegurança e da delinquência nos Municípios. Essa foi a principal falha das Políticas Nacionais de Segurança dos governos do PT. Tais planos fizeram com que os narcotraficantes se deslocassem de região para região, espalhando o crime e a insegurança, como ocorreu nos últimos quinze anos.

No Estado de Goiás, com as suas cinquenta escolas cívico-militares, foi possível enxergar um fato novo: ali onde surgia uma delas, o traficante dava no pé e isso, por si só, já garantia um ambiente de paz que mudava a vida da comunidade para melhor. Isso sem mencionar as vantagens político-pedagógicas da implantação desse novo modelo: os estudantes passaram a sentir mais segurança, desapareceram as gangues, o bullying sumiu, generalizou-se um ambiente de ordem e de respeito pela lei e pelas instituições e as famílias se aproximaram da Escola, voltando a tornar possível a colaboração entre pais e mestres na tarefa educacional. Mutirões foram organizados pelas comunidades municipais, a fim de garantirem a preservação dos prédios e a melhora das condições ambientais.

Não foi uma militarização das Escolas: as funções didático-pedagógicas continuaram a ser realizadas pelos professores, coordenados pelos antigos diretores. Mas a gestão administrativa passou às mãos dos agentes da Polícia Militar, que implantaram costumes patrióticos como cantar o Hino Nacional uma vez por semana, içar a bandeira, baixar um regulamento que prescrevia o uso de uniforme escolar e um comportamento condizente com o ambiente educacional. Os alunos passaram a pôr em prática alguns costumes de ordem e respeito pela autoridade, como ficarem em pé no momento em que o professor entra em sala de aula. Ora, essas práticas cívicas agradaram aos estudantes e pais, implantaram a ordem e a sensação de segurança para os alunos que, tranquilos, passaram a melhor responder aos deveres e atividades acadêmicos.

Menciono  o caso de Goiás, por se tratar de um evento maciço, em nível de um Estado. Mas poderiam ser mencionados, também, inúmeros casos como os ocorridos em Natal (Rio Grande do Norte), no Paraná, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Amazonas, etc. As esquerdas retardatárias, evidentemente, não gostaram e passaram a alcunhar o modelo de “militarização” das escolas. Mas, em face desse caso, falam mais alto a satisfação das famílias dos alunos das instituições em que foi implantado o modelo cívico-militar, o bom desempenho dos discentes nas provas nacionais, as filas que os pais fazem, no início do ano letivo, pedindo vaga para os seus filhos nas escolas cívico-militares e o orgulho dos alunos por pertencerem a tais centros educacionais. Hoje, no país, funcionam perto de 250 escolas cívico-militares.

Posso dar um testemunho pessoal: depois que o meu nome foi anunciado pelo Presidente Bolsonaro para o Ministério da Educação no final de novembro do ano passado, antes de viajar para Brasília, fui procurado, de noite, na minha residência, em Londrina, pelo diretor de uma importante Escola estadual do município de Jandaia (Paraná), com uma carta, endereçada ao MEC, em que os pais e alunos pediam a transformação da sua instituição educacional em Escola Cívico Militar. Outro fato que gostaria de testemunhar: o jovem prefeito Bruno Covas, de São Paulo, com a intermediação do deputado Eduardo Bolsonaro (do PSL), entrou em contato comigo, no Ministério, solicitando que o MEC e a Aeronáutica organizassem, no Campo de Marte, uma escola estadual cívico-militar, a fim de incrementar esse modelo de instituição educacional em todo o Estado.

Para responder a essas expectativas da sociedade brasileira, criei, junto à Secretaria de Educação Básica, a Subsecretaria de Escolas Cívico Militares, à cuja testa foi nomeada a tenente-coronel do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, Márcia Amarílis, que participou do Gabinete de Transição. Ela recebeu a incumbência de, até o mês de maio de 2019, apresentar ao Ministro um modelo exequível de Escola Cívico-Militar, a ser implantada ali onde os cidadãos buscassem tal modelo educacional.

Uma atividade acadêmica nova foi implementada nas Escolas Cívico-Militares: voltou a ser ensinada a antiga disciplina que se denominava de “Educação Moral e Cívica”, e que leva, agora, o nome de “Educação para a Cidadania”. Essa disciplina passou a ser lecionada por um dos Profissionais da Segurança lotado na Escola respectiva. A fim de aperfeiçoar o manual do professor para essa disciplina, retomei um projeto antigo, que já tinha desenvolvido com os amigos Antônio Paim e Leonardo Prota, no Instituto de Humanidades:[2] parti para a atualização do que seria o manual a ser distribuído entre as Escolas Cívico-Militares. Esse manual tinha sido publicado em 2002, em edição de bolso. Considerei que, atualizado, poderia servir como texto auxiliar dos docentes desta matéria.

Com a finalidade de revisar, atualizar e digitalizar o texto, incumbi um Assessor especial meu, o professor Ricardo da Silva Vieira, para que se encarregasse dessa tarefa, fixando o final do mês de maio de 2019 como prazo para entrega da versão digital do mencionado livro. Ele também se incumbiria de revisar o texto do projeto Um por todos e todos por um, que o cartunista Maurício de Souza preparou, em parceria com o MEC, o Ministério da Controladoria Geral da União e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), a fim de abrir o caminho para, mediante histórias em quadrinhos, sensibilizar as crianças nos valores do patriotismo e da solidariedade. O eminente cartunista já tinha preparado os cinco primeiros volumes de histórias em quadrinhos com os seus personagens tradicionais. O Ministro Wagner Rosário e o próprio Maurício de Sousa me apresentaram esse valioso material, no início de 2019, e o achei bem adequado para introduzir os temas de que se desincumbiria, posteriormente, a disciplina “Educação para a Cidadania”.[3]

Explicava assim Maurício de Souza a finalidade desse material didático-pedagógico: “O programa quer, com o auxílio do universo lúdico e divertido da Turma da Mônica, incentivar o desenvolvimento de uma cultura ética e cidadã, entre crianças e adolescentes, por meio da valorização da autoestima, respeito às diferenças e ao patrimônio público e interesse pelo bem-estar coletivo”.[4] Em boa hora, na nossa cidade de Londrina, começam a aparecer iniciativas visando a criar mais escolas cívico-militares. É essa uma contribuição importante para o desenvolvimento de um ambiente de paz e de valorização do patriotismo.






[1] No meu livro intitulado: Da guerra à pacificação: a escolha colombiana. Campinas: CEDET / Vide Editorial, 2010, faço uma detalhada análise dessa estratégia internacional dos narcotraficantes.
[2] Cf. PAIM, Antônio. PROTA, Leonardo. VÉLEZ  Rodríguez, Ricardo. Cidadania: o que todo cidadão precisa saber. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2002, 163 páginas, Coleção “Páginas Amarelas” ,volume 39.
[3] Cf. SOUSA, Maurício de. Um por todos e todos por um. Instituto Maurício de Sousa / MEC / Ministério da Controladoria Geral da União, 2019, 5 volumes. http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-05/turma-da-monica-se-une-cgu-para-difundir-etica-e-cidadania
[4] Cf. SOUSA, Maurício de. Apresentação do projeto “Um por todos e todos por um. Entrevista.http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-05/turma-da-monica-se-une-cgu-para-difundir-etica-e-cidadania

sábado, 28 de abril de 2018

DRAMAS DO OCIDENTE PROFUNDO: AS MAZELAS DA AMÉRICA LATINA

Neste conturbado início de milênio uma das características que aparece com maior claridade é esta: a América Latina corresponde ao Ocidente Profundo e ali tem vigência o estado mais agressivo de violência continuada no panorama mundial. 

O panorama é desolador: a América Latina é a área do Planeta onde mais pessoas são assassinadas por ano. Somente no Brasil (para falar da realidade que mais de perto conheço) temos uma estatística alarmante: 60 mil assassinatos anuais. Essa soma equivale a uma guerra de grandes proporções. Como pano de fundo dessa terrível situação que afeta indistintamente ao Brasil, ao México, à Colômbia, à Argentina, à Venezuela, etc., temos um traço cultural comum: o Estado tradicionalmente foi entendido como propriedade de uma minoria que privatizou o poder em benefício próprio, com exclusão violenta do resto. É o perfil do Patrimonialismo, aquela perversa herança ibérica, que nos levou a entender o poder como bem de família a ser distribuído entre amigos e apaniguados, a fim de que estes vingassem como minorias privilegiadas, enquanto a grande maioria ficava do lado de fora dos favores do Estado. O caso mais extremado dessa visão apocalíptica é hoje a Venezuela, literalmente em liquidação pelos corruptos "donos do poder" identificados com os seguidores do Chavismo e do Madurismo.

As últimas décadas assistiram a uma transformação dos parâmetros da violência: ao passo que nos decênios anteriores a divisão entre latino-americanos seguia a pauta das velhas lutas ideológicas que ensanguentaram o século XX, nos últimos quarenta anos essa disputa foi se polarizando ao redor da indústria do narcotráfico que passou a preencher os buracos financeiros deixados com o fim da guerra fria e a queda do Muro de Berlim. As guerrilhas tradicionais do continente sul-americano eram financiadas pelo bloco comunista. Com a dissolução da União Soviética e ao ensejo das reformas modernizadoras empreendidas pelos comunistas chineses sob a batuta de Lin-Xiao Ping, as coisas mudaram de rumo. Os narcotraficantes passaram a ocupar o lugar de financiadores dos grupos armados, como ocorreu na Colômbia ao ensejo da reorganização das FARC, com vistas à tomada do poder no longo conflito dos últimos 30 anos. Dessa transformação não escapou Cuba, com a aproximação das lideranças comunistas desse país em relação aos narcotraficantes. O drama do general Ochoa, fuzilado pelo regime cubano, mostra até que ponto foi profunda dentro da estrutura do Estado essa aproximação. Ochoa caiu quando ficou evidente demais a vinculação do patrimonialismo castrista com os narcotraficantes. Mas a opção pelo financiamento a partir do banditismo dos narcóticos permaneceu firme entre as FARC e outros grupos guerrilheiros colombianos. 

No Brasil, foi aparecendo cada vez mais a incômoda proximidade entre militantes partidários e setores do crime organizado no interior do Estado de São Paulo ou na Baixada Fluminense. O eixo de exportação de narcóticos, no Brasil, ao se deslocar do sudeste do país para as regiões norte e nordeste, carregou consigo o cenário de morte e destruição que hoje afeta as cidades do interior nordestino e da hinterlândia amazônica. Hoje, com o crack presente em 97% dos municípios brasileiros, o aumento da criminalidade está garantido. 

No México, ao longo das últimas duas décadas, revelou-se a capacidade do crime organizado para cooptar setores cada vez maiores da sociedade nos novos cartéis que, como os Zetas, deixavam ver a vinculação com amplos setores da corrupta burocracia estatal. A onda de violência que se alastrou pela América Central revela de que forma esse empoderamento dos grupos narco terroristas no México era capaz de mudar a dinâmica social dos pequenos países centro-americanos, hoje reféns da grande empreitada do tráfico de drogas.

No Brasil, ao longo dos últimos quinze anos, a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder reforçou o velho patrimonialismo que utilizava as benesses do Estado para enriquecimento dos atores políticos, tendo chegado à sistematização dos esquemas de enriquecimento ilícito, com a cooptação das grandes empreiteiras pelo partido do governo, ao ensejo dos episódios do denominado "Mensalão" e da megaoperação de desvio de recursos públicos desvendada pela Operação Lava-Jato. Tudo isso, em lugar de fazer diminuir os índices de violência, levou a que esta crescesse com maior celeridade ao caírem pelo chão as barreiras da moralidade pública. A esquerda literalmente naufragou no Brasil, como explicitou com lucidez um intelectual esquerdista da talha de Wanderley Guilherme dos Santos.

Não assusta, assim, a constatação  da dialética latino-americana entre civilização e barbárie, que o grande Domingo Faustino Sarmiento já evidenciava na sua obra Facundo (1846). Com a predominância, nesta dramática quadra da história latino-americana, da barbárie sobre na civilização. 

Nessa luta, destacam-se pela sua tentativa de consolidar o convívio civilizado e democrático por sobre o pano de fundo da criminalidade e a exclusão latino-americana, o Chile (que conseguiu consolidar e manter a alternância no poder), a Argentina (que com o atual presidente Macri faz as reformas essenciais) e a Colômbia (na heroica luta para derrotar os cartéis do narcotráfico e da narcoguerrilha e os esforços em prol da retomada do desenvolvimento e da reconstrução do tecido social após décadas de conflito). 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A INTERVENÇÃO FEDERAL NO RIO (Artigo publicado em O Estado de S. Paulo, em 22-02-2018)

Das decisões em relação à segurança pública no Rio de Janeiro poder-se-ia afirmar o que Hegel dizia da Filosofia: elas chegam sempre tarde demais, “quando as sombras da noite se aproximam”, ou seja, quando o crime organizado já se sedimentou e tornou refém de si a própria sociedade. Lembro-me de que, em 2003, em palestra proferida no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio, eu apregoava a necessidade dessa intervenção, em face do poder que tinham assumido, no Rio, os bandidos. Hoje, quinze anos depois, a intervenção foi decretada, de forma tímida, mas, enfim, ensejando uma nova etapa no combate à criminalidade. O próprio Presidente da República, Michel Temer, no ato de assinatura do decreto de intervenção federal, deixou clara a gravidade do momento: o banditismo sequestrou a vida dos cariocas e fluminenses! O mal, segundo o Presidente, assemelha-se, hoje, à metástase produzida no organismo pelo câncer, com a criminalidade ameaçando a segurança pública em outros Estados brasileiros. Em face dessa desgraça, a resposta do governo não poderia ter sido outra.

Parece-me, no entanto, que a intervenção decretada ainda é tímida demais, diante da gravidade dos fatos. Com um organismo policial, como o que hoje age no Estado do Rio de Janeiro, corroído até as entranhas pela corrupção e as negociatas obscuras com o crime organizado, como já foi reconhecido por muitos, desde o governo federal até as instâncias estaduais e municipais, era necessário que a intervenção focalizasse, primeiro, o saneamento da corporação da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. A banda podre da PM, sabemos, a torna refém dos interesses dos meliantes. Bandidos eliminam sem nenhum constrangimento, metralhando-os no meio da rua e à luz do dia, aqueles oficiais, sub-oficiais e jovens soldados que contrariarem os seus interesses. Até comandante de batalhão da PM foi recentemente executado na rua, numa cena que não era de um simples confronto com meliantes. O Presidente recordava, no seu pronunciamento, o drama de famílias que sofrem com a perda de entes queridos, notadamente crianças, vítimas do fogo cruzado entre bandidos e forças policiais. Mas, convenhamos, boa parte do drama decorre da presença, entre os atores à margem da lei, de elementos corruptos provenientes da Polícia Militar, alguns deles hoje integrados às milícias que constituem a outra frente da luta armada e que disputam com os marginais territórios nas favelas, tendo-se integrado já ao mercado de tóxicos e de armas. A Polícia Civil, de outro lado, encontra-se numa situação de penúria administrativa e financeira, que a impossibilita de realizar a contento os seus trabalhos investigativos e de inteligência.

Ora, em face da gravidade do problema, a primeira frente da luta contra o crime organizado deve começar pela extirpação cirúrgica e rápida dos focos de policiais militares corruptos, como foi feito na Colômbia, no início da luta do Estado contra os cartéis das drogas. Em Bogotá, no primeiro ano de enfrentamento contra a corrupção policial, nos anos 90 do século passado, mais de dois mil agentes foram colocados no olho da rua e passaram a responder na Justiça pelos seus crimes. A providência do saneamento da Corporação da Polícia Militar deve incluir a identificação e sumária expulsão dos elementos vinculados ao crime organizado, seja qual for a sua patente. Terá o Interventor Federal poderes para tanto?

Por outro lado, o decreto de intervenção prevê que as Forças Armadas não têm poder de polícia no combate sem quartel que vão travar contra o crime organizado. Ou seja: não têm poder para eliminar em confronto ou prender bandidos. Acho tímida demais essa modalidade de intervenção. Os militares deveriam ser munidos do poder de polícia, que compartilhariam com os elementos escolhidos das polícias militar e civil. E devem ter todo o amparo legal para eliminar os bandidos que entrarem em confronto com eles ou que atentarem contra os cidadãos. Se não for assim, os militares ficarão em posição de desvantagem no cumprimento da sua missão.

A atual quadra do empoderamento do crime organizado no Rio é mais um capítulo das desgraças que o populismo trouxe para o Brasil, a partir da redemocratização. Primeiro foram os dois governos populistas de Leonel Brizola, que tornaram os morros santuários do crime organizado, com a sua maluca ideologia do “socialismo moreno” que impedia aos policiais de entrarem nos redutos dos bandidos. Depois vieram as réplicas dos discípulos de Brizola, entre os quais se destaca o casal Garotinho. Depois veio a desgraça que se abateu sobre o Brasil com o populismo lulopetista no governo federal, que encontrou eco na corrupta gestão de Sérgio Cabral. O PT simplesmente abriu as portas do nosso país para o crime organizado, graças às simpatias de Lula para com regimes “bolivarianos” claramente favoráveis ao narcotráfico, como o chavista, o do bispo Lugo no Paraguai e o do líder cocalero Evo Morales na Bolívia.


A sociedade civil deve apoiar com firmeza a intervenção no Rio e a ação das Forças Armadas no combate ao crime organizado. A pior atitude é a de alguns acadêmicos de esquerda que identificam as atuais medidas como um “espanta baratas” que não produzirá resultados. Isso somente reforça os interesses do crime organizado. É necessário que as universidades e os centros de estudos destaquem os aspectos que poderiam ser dinamizados para a intervenção atual ter sucesso. A crítica destrutiva somente favorecerá os interesses dos meliantes. Perante situações extraordinárias devemos empenhar esforços também extraordinários. Não temos outro caminho.

domingo, 4 de dezembro de 2016

MEDELLÍN E A TRAGÉDIA CHAPECOENSE


Comovedora homenagem dos torcedores em Medellín, 30 de novembro
O público brasileiro ficou emocionado ao presenciar a bela homenagem prestada pelos cidadãos de Medellín à equipe chapecoense vítima do brutal acidente de aviação que, no dia 27 de Novembro, no voo da empresa Lamia, entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín, terminou vitimando a maior parte da equipe chapecoense, bem como duas dezenas de jornalistas brasileiros, além dos funcionários do clube e a comissão técnica da equipe.

Essa bela homenagem foi espontânea. Qual foi a força que mobilizou mais de cinquenta mil pessoas para que, do fundo do coração, rendessem homenagem tão singela e autêntica, capaz de comover milhões de pessoas que assistiram pela TV, no Brasil e pelo mundo afora, ao ato no estádio Atanásio Girardot de Medellín? Qual foi o motivo que levou ao próprio governo colombiano a se somar à homenagem prestada aos mortos, fazendo com que as aeronaves da Força Aérea Brasileira que transportavam os caixões para o Brasil, fossem belamente escoltadas por aviões da Força Aérea Colombiana, desenhando nos céus de Medellín as cores da bandeira do clube chapecoense?

As razões para esse clima de compaixão coletiva devem ser buscadas na história que as cidades colombianas, particularmente Medellín, viveram ao longo dos últimos trinta anos. Nesse período, a Colômbia sofreu duas guerras: a do narcotráfico e a das FARC. Que o ambiente que se vivia na Colômbia era de violência generalizada não resta dúvida e disso dão testemunho os seriados "El Patrón del Mal" e "Narcos", que contam a história de Pablo Escobar e do Cartel de Medellín, com as suas guerras contra o Cartel de Cali e contra o Estado colombiano. Seriados anteriores como o famoso "Rodrigo D" de Victor Gaviria, premiado em Cannes, já davam conta desse clima de violência que afetava a todos e que parecia não ter fim.

Digamos, de entrada, que a Colômbia escolheu a paz, como destaco no meu livro publicado há algum tempo com o título de: Da guerra à pacificação: a escolha colombiana (Campinas: Vide Editorial, 2010, 165 p.). Mas essa busca não foi apenas um objetivo traçado pelo presidente Alvaro Uribe Vélez em 2002, quando assumiu o poder num país devastado pela guerra interna. Foi também uma opção dos cidadãos, cansados já de tanta violência. O caminho pelo qual enveredaram as cidades colombianas, Medellín à testa, foi o da educação cidadã. Graças a essa opção, complementada com o firme combate, por parte do Estado, aos grupos violentos, foi possível desmontar os cartéis da droga e dominar os guerrilheiros, de forma a que se submetessem às regras do jogo democrático e assinassem a paz, como acabam de fazê-lo os guerrilheiros das FARC.

No contexto da luta contra os traficantes e a guerrilha, Medellín optou pela educação cidadã. Essa opção tinha sido iniciada, nos anos 90, nas pequenas cidades do interior, a partir dos núcleos urbanos administrados por indígenas. 

Segundo a herança deixada pelo Direito Filipino, na América espanhola os aborígenes tiveram a possibilidade de, nas regiões onde predominavam os seus agrupamentos, eleger os governantes locais (prefeitos, vereadores e, a partir da Constituição de 1990, os seus senadores e deputados). 

Ora, foi a partir dos assentamentos indígenas onde as FARC começaram a encontrar resistência cívica não violenta contra as suas arremetidas para impor o "clientelismo armado", após bombardear, pela noite, com grosseiros morteiros que disparavam botijões de gás cheios de dinamite e pregos, a cidade a ser submetida. Na manhã do dia seguinte, com os prédios públicos em ruínas, os cidadãos eram reunidos na praça central, a fim de que identificassem o prefeito e os vereadores, para que assinassem com os meliantes um "contrato" de segurança, lhes passando 10% do orçamento municipal a título de "imposto de segurança". Quem não fizesse isso seria simplesmente eliminado. Foram numerosos os prefeitos e vereadores fuzilados em praça pública pelos guerrilheiros, ao se oporem às injustas pretensões. 

Os indígenas, nos seus povoados, quando foram assim abordados pelos guerrilheiros, após a noite de bombardeio, sentavam em silêncio, todos vestidos de branco, na praça da cidadezinha. Os guerrilheiros ficaram literalmente paralisados. Não sabiam o que fazer. Terminavam por sair da pequena cidade. Essa resistência pacífica à la Gandhi contaminou beneficamente as outras cidades colombianas. Medellín copiou o exemplo.

O prefeito metropolitano que, segundo a reforma constitucional de 1993 passou a ser o chefe das forças de segurança, definia quais os lugares mais violentos da cidade. Ali se tornariam presentes a polícia, e, se necessário, as forças especiais do exército, para eliminarem os focos armados. 120 dias após a intervenção das forças da ordem, o prefeito entregava à comunidade, no lugar onde antes imperavam os foras-da-lei, um belo Parque-Biblioteca com os seguintes serviços: escola municipal totalmente equipada, campos de esporte, posto médico, delegacia policial, agência bancária. Tudo disposto ao redor da Biblioteca Pública. 

Finalidade da ação cívica: mostrar aos cidadãos que o Estado existe, representado na cidade pela Prefeitura e que as instituições vieram para ficar e para defender os cidadãos nos seus direitos básicos à vida, à liberdade, às posses. Todas as obras foram bancadas mediante parcerias-publico-privadas entre a Prefeitura e os empresários locais. Lição fundamental desse liberalismo telúrico de que os colombianos, notadamente os "antioqueños" (habitantes do Departamento de Antioquia) são tão ciosos e que se representam a si mesmos como "o povo que não agacha a cabeça".

Ao longo da primeira década deste milênio foram completadas ações desse tipo ao longo da cidade, nos lugares mais deprimidos social e economicamente e que tinham virado refúgio da guerrilha ou dos narcotraficantes. A cidade foi, assim, pacificada. As taxas de violência, que eram as maiores do mundo, ao longo das décadas de 80 e 90 do século passado, com 300 homicídios por cem mil habitantes, despencaram rapidamente, beirando hoje o nível dos 10 homicídios por cem mil habitantes. E nasceu, entre os habitantes de Medellín, o sentimento cívico de morarem na cidade "mais educada". 

Efetivamente, o slogan colou: "Medellín, la más educada" virou cartão de apresentação da cidade perante o mundo. Hoje, Medellín se orgulha de ser uma cidade vitrine onde se apresenta a solução cívica da conquista da paz pela educação, como mensagem aberta ao mundo. Medellín já virou referência internacional de "soluções criativas" para a conquista da paz e do convívio humano de qualidade. São inúmeros os prêmios internacionais que a cidade recebe anualmente. 

Os habitantes de Medellín já se acostumaram a participar do movimento cívico "Como Vamos", integrado por empresários, universitários, cidadãos comuns, sindicatos e associações profissionais, reunidos ao redor da Câmara de Comércio. Mensalmente, o comitê executivo do movimento estuda a situação do município nos seguintes itens:

Educação,
Saúde, 
Saneamento Básico,
Habitação, 
Meio Ambiente, 
Áreas Públicas, 
Transporte Viário,
Responsabilidade Cidadã,
Segurança Cidadã,
Gestão Pública,
Finanças Públicas,
Desenvolvimento Econômico.

O maior jornal da cidade, El Colombiano, publica mensalmente os resultados da pesquisa, que se tornaram diretriz para o Prefeito. As eleições passaram a privilegiar aqueles candidatos que melhor respondessem, com os seus programas, às expectativas do movimento cívico "Como Vamos", garantindo-assim, nas gestões vindouras, a continuidade administrativa, sem levar em consideração coloração político-partidária.

Essa é a origem do surgimento e preservação da atitude cívica da compaixão, que os habitantes de Medellín mostraram perante o mundo com a sua atitude em face das vítimas da tragédia chapecoense, passando a se apresentar ao mundo como parceiros da dor dos amigos brasileiros. 

Belo exemplo de educação para a cidadania, que renovou a qualidade de vida de uma das cidades mais castigadas pela violência no mundo contemporâneo. Bela lição de esperança para nós, brasileiros, que nos sentimos ludibriados hoje por uma classe política que não olha para os nossos interesses legítimos, preferindo partir para a defesa unilateral dos seus privilégios. A conclusão que salta à vista é esta: se os habitantes de Medellín conseguiram melhorar a sua condição de cidadãos, nós também podemos fazer a mesma coisa, nas nossas cidades castigadas pela violência e a corrupção desenfreadas!

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

FESTA OLÍMPICA: LEGADO E PROBLEMAS

Esgoto na praia da Barra da Tijuca. (Foto: The Guardian, 03-08-2016)



A Festa Olímpica, com todo o seu brilho, não desfaz, num passe de mágica, os problemas que o Brasil enfrenta nesta difícil quadra da sua história. Está aí o "custo Brasil" que superfaturou obras e encareceu para os brasileiros a conta a pagar. Não há almoço de graça, como dizia conhecido economista. Mas tampouco há Olimpíada de graça. A conta é paga pelos contribuintes, que podem sentir muito forte o baque. A Grécia que o diga. 

Os problemas com o descaso em face do meio ambiente estão sendo sentidos pelos participantes dos Jogos Olímpicos do Rio. E nem adianta disfarçá-los. Estão aí, aos olhos de todos, como o esgoto e os detritos que contaminam as águas da Baia da Guanabara e que já estão dando dores de cabeça aos esportistas de remo, vela, caiaque e assemelhados, bem como aos seus auxiliares. No caso do esgoto visível nas águas do mar no Rio de Janeiro, será difícil convencer o honorável público estrangeiro de que são fatalidades da natureza. 

Reportagem do jornalista John Vida, do londrino The Guardian intitulado: “Por que o Rio de Janeiro está achando tão difícil limpar o seu lixo?”(03-08-2016) informava: “Um entre três dos mais de 10 milhões de habitantes da grande área metropolitana vive em lugares que não possuem saneamento básico e metade do lixo da cidade não é tratado antes de ser despejado nos cursos de água e, eventualmente, no oceano”.

Reportagem de Pauline Fréour do jornal parisiense Le Figaro, em artigo intitulado: “Jogos Olímpicos: no mar e sobre a terra, os atletas face à poluição”, alertava acerca do perigo que os esportistas vão encontrar na Lagoa Rodrigo de Freitas nas competições de caiaque e canoagem, em decorrência das altas porcentagens de microrganismos nocivos presentes na água, sendo que “a concentração de adenovírus é 25 mil vezes superior ao nível de alerta fixado nas praias da Califórnia”. John  Griffith, biólogo marinho  da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, entrevistado a respeito, frisava: “O que há lá é água de esgoto, simplesmente”.

Os australianos, aliás, na tela dos noticiários por causa das suas legítimas reclamações quanto às obras inacabadas dos apartamentos na Vila Olímpica, quando foi a vez deles, em Sydney, nas Olimpíadas de 2000, não se viram às voltas com esses problemas de contaminação das águas. Muito pelo contrário: fizeram da sua Olimpíada um belo exemplo de políticas públicas para cuidar da natureza, como lembrou recentemente André Trigueiro no seu programa “Cidades e Soluções”, divulgado pela Globo News.

A Austrália deu um show de preservação ambiental cuidando, de forma exemplar, da pureza das águas da hiperpoluída baía de Homebush, conhecida como o maior esgoto do país, muito semelhante, em deterioração, ao estado em que se encontra a nossa baía da Guanabara. Esse foi o cenário para os esportes náuticos e ficou como legado da Olimpíada, ao ter totalmente saneadas as suas águas e ao ser convertido o seu entorno num parque natural de 430 hectares. Para conseguirem obter em tempo recorde esses magníficos resultados, os organizadores não pouparam esforços: gastaram 2,1 bilhões de dólares australianos e chamaram para colaborar no planejamento ecológico grupos ambientalistas internacionais, conhecidos pelo seu rigor nas políticas preservacionistas, como o Greenpeace. Ali foi estabelecido o primeiro sistema integrado do país de reciclagem total da água. Lembremos, por outro lado, que a Vila Olímpica foi abastecida totalmente com energia renovável proveniente de painéis solares. 


"Floresta flutuante" em navio abandonado, na bela e despoluída baía de Hombebush, em Sydney. (Foto: Divulgação).


As obras de preservação ambiental continuaram nos anos seguintes. Em 2014 foi inaugurado um parque ecológico sui-generis. O navio de suprimentos americano SS Armyfield de 1.400 toneladas, construído em 1911 e que tinha sido abandonado perto da praia pelos americanos após o final da 2ª Guerra Mundial, foi transformado em parque ecológico flutuante e passou a ornar, como uma espécie de grande vaso verde, as tranquilas águas da baia de Homebush.

Bem que os brasileiros poderíamos ter feito bonito nesse item. Mas não: optamos pela improvisação. A administração municipal ficou refém das piadinhas sem graça do Prefeito, que ofereceu cangurus aos australianos e se queixou (sem fundamento) de ter de "oferecer caviar" ao Comitê Olímpico.

De outro lado e já no plano nacional, ficará difícil para explicar aos estrangeiros presentes nas Olimpíadas as cenas de terrorismo deflagradas em Natal pelo Primeiro Comando da Capital e quejandos, que dominam os presídios brasileiros e que decidiram mostrar a sua força perante o mundo, envergonhando as autoridades brasileiras e a todos nós. Uma centena de ônibus incendiados para aterrorizar a população em pleno período de Olimpíada é terrorismo no duro. Vamos ver se as autoridades estaduais e federais vão dar o tratamento que merecem os autores desses crimes. Já temos uma lei antiterror que os petralhas fizeram o possível para que não fosse aprovada. Terão coragem as autoridades competentes para aplica-la, como a opinião pública espera?

E, por falar em terrorismo, ficaram famosas as fotografias tiradas pela equipe masculina chinesa de basquete (mostrando pessoas se jogando ao chão para se protegerem do tiroteio patrocinado por traficantes). A equipe chinesa tinha ficado  presa, entre as Linhas Amarela e Vermelha, logo após o seu desembarque no aeroporto do Galeão. Isso não podia acontecer. Grave falha do esquema de segurança!


Tiroteio na entrada ao Rio, na junção das Vias expressas Amarela e Vermelha. Fotografia tirada pela equipe masculina de basquete da China (04-08-2016).

Numa outra abordagem dos jornalistas internacionais, reportagem do jornal espanhol El País fez ampla matéria sobre a prostituição de jovens mulheres ao ensejo da Olimpíada no Rio de Janeiro. As “trabalhadoras sexuais”, como a esquerda gramsciana gosta de chama-las, não se sentem à vontade na sua profissão durante esses dias de folguedo. Como destacou a jornalista Maria Martin em duas matérias publicadas no dia 2 de Agosto, (“El sueño agridulce de las prostitutas de los Juegos Olímpicos” y “Prostitución infantil con vistas al Parque Olímpico”), muitas mulheres de várias regiões do país viajaram para o Rio de Janeiro, aliciadas por falsos empresários que lhes pagaram a viagem de ida e retorno, além de uma refeição básica, a fim de se prostituírem na região central da cidade ou em alguns clubes noturnos da zona sul. A reportagem entrevistou várias delas. Todas declararam que se tratava de uma opção difícil e que caíram na esparrela do comércio sexual em decorrência do aperto econômico ensejado pela crise que vive o país em tempos de Petrolão. Perderam o precário emprego que tinham ou simplesmente não conseguiam pagar as contas por ganharem somas irrisórias em face das necessidades de sobrevivência. Nenhuma manifestou satisfação com as condições de trabalho.


A reportagem informou acerca do estouro, pela polícia civil do Rio, de sofisticado esquema de “prostituição chique” com adolescentes que foram aliciadas em várias cidades brasileiras, mediante anúncio de oportunidade ímpar para entrar nas passarelas como modelos, ou na carreira artística como cantantes ou atrizes de cinema. Três luxuosos apartamentos com vista para o Parque Olímpico foram invadidos pelos policiais. Num deles, confinadas, moravam as adolescentes. Os outros dois serviam como base para as “atividades profissionais”. Os dois aliciadores, garotões malhados, vestiam roupas luxuosas e andavam em carrões importados, mas sumiram. Quando chegaram os policiais, os meliantes se escafederam. Ao que tudo indica, tratava-se de narcotraficantes tentando lavar dinheiro sujo e buscando faturar um extra com motivo da festa olímpica.

É claro que nem tudo é contaminação das águas, terrorismo no Rio Grande do Norte, tiroteios nas vias de acesso ao Rio Olímpico ou cenas de prostituição. A Cidade Maravilhosa ganhou obras significativas para a mobilidade urbana. A região do Porto foi definitivamente revitalizada. Museus e espaços públicos foram inaugurados e ficarão para serem desfrutados pela cidadania. O Parque Olímpico é um marco de referência na urbanização da zona oeste e as suas instalações são certamente motivo de alegria e orgulho para cariocas e visitantes. Mas festa olímpica é evento exigente e a presença de visitantes de outras nacionalidades, acostumados a que as coisas funcionam a contento, enxergaram as nossas falhas e as colocaram aos olhos do mundo. É melhor tomar conhecimento desses defeitos e procurar saná-los. E assumirmos as nossas responsabilidades, num mundo globalizado, para quando recebermos visitantes estrangeiros em eventos que, no futuro, sejam novamente programados.



O belo Parque Olímpico do Rio de Janeiro, uma das heranças positivas da Olimpíada para a Cidade Maravilhosa. (Foto: Renato Sette / Prefeitura do Rio de Janeiro).

A encenação que acompanha a abertura dos Jogos Olímpicos é, costumeiramente, uma radiografia da alma dos que organizam essa festa. Os chineses deram, em 2008, um belo espetáculo do que são, no fundo das suas almas: uma multidão de pessoas que se movem ao uníssono, com ética confuciana. 

A estética da gambiarra esteve presente na festa brasileira, reforçada pela imagem da favela que cresce sem parar, que apareceu como pano de fundo no palco. Isso, aliado ao erro histórico de, ao se fazer referência aos que nos enriqueceram de fora com a sua vinda como imigrantes ao Brasil, terem sido excluídos dois grupos fundamentais na colonização do Sul especialmente, embora tenham estado presentes, também, em outras regiões. Refiro-me aos Italianos e aos Alemães. Ficar, como se fez, só com a memória dos Libaneses e dos Japoneses foi um erro histórico grave, provocado possivelmente pelo afã de agradar ao Lula (que manifestou em alguma oportunidade não gostar de brancos de olhos azuis) e que achava que iria "papar" os louros da abertura da festa olímpica

Claro que gostei de ver a bela Gisele Bündchen desfilando majestosa (com a sua herança genética alemã) na enorme passarela, ao som da música de Tom Jobin, executada pelo seu filho. Claro que gostei dos deslumbrantes cenários montados com o que de melhor há na tecnologia digital. E gostei dos fogos, como deles gostou, fascinado, o meu filhinho. Não gostei, contudo, dos comentários patrioteiros do Galvão Bueno, exaltando os Brasileiros como se fossemos a nação mais civilizada do planeta. Não gostei da pretensão de dar aos espectadores uma aula de preservação ambiental, como se fôssemos os mais civilizados no quesito de cuidados com o meio ambiente. Não somos isso e temos consciência das nossas limitações. Da vaia ao Temer, repetiria com Nelson Rodrigues que o Maracanã vaia até minuto de silêncio. O nosso vice, exercendo as funções de presidente interino, teve uma atitude digna e realista, não dando ao incidente a importância que os líderes petistas, Lula e Dilma, deram, quando, por sua vez, foram vaiados em cenários esportivos internacionais.

Estou com Reinaldo Azevedo, na sua coluna de 05-0 publicada em Veja.com: "Não é a nossa capacidade de realizar eventos gigantescos que está em questão. Setores da economia brasileira dominam tecnologia de ponta capaz de rivalizar com o que de melhor se faz mundo afora. O nosso primitivismo está em outro lugar. É a política que ainda é movida a tração animal; é o respeito aos direitos individuais que ainda está em lombo de burro; é o arcabouço legal para empreender que ainda é movido a vapor; é o respeito à cidadania que ainda é analógico; é a tara pelo estatismo que ainda revela uma noção de país coberta de sapé e sentada de cócoras. Como o Jeca Tatu. Como a casa do Jeca Tatu. Infelizmente, desde a sua fundação e ao longo de 13 anos no poder, o PT fez dessa soma de atrasos uma ética e uma estética. E nos empurrou para o buraco. Mas estamos começando a sair dele. Assim, meu bom brasileiro, vibre com os jogos. Divirta-se com os jogos; o que nos envergonha estava aqui antes deles".