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sábado, 28 de abril de 2018

DRAMAS DO OCIDENTE PROFUNDO: AS MAZELAS DA AMÉRICA LATINA

Neste conturbado início de milênio uma das características que aparece com maior claridade é esta: a América Latina corresponde ao Ocidente Profundo e ali tem vigência o estado mais agressivo de violência continuada no panorama mundial. 

O panorama é desolador: a América Latina é a área do Planeta onde mais pessoas são assassinadas por ano. Somente no Brasil (para falar da realidade que mais de perto conheço) temos uma estatística alarmante: 60 mil assassinatos anuais. Essa soma equivale a uma guerra de grandes proporções. Como pano de fundo dessa terrível situação que afeta indistintamente ao Brasil, ao México, à Colômbia, à Argentina, à Venezuela, etc., temos um traço cultural comum: o Estado tradicionalmente foi entendido como propriedade de uma minoria que privatizou o poder em benefício próprio, com exclusão violenta do resto. É o perfil do Patrimonialismo, aquela perversa herança ibérica, que nos levou a entender o poder como bem de família a ser distribuído entre amigos e apaniguados, a fim de que estes vingassem como minorias privilegiadas, enquanto a grande maioria ficava do lado de fora dos favores do Estado. O caso mais extremado dessa visão apocalíptica é hoje a Venezuela, literalmente em liquidação pelos corruptos "donos do poder" identificados com os seguidores do Chavismo e do Madurismo.

As últimas décadas assistiram a uma transformação dos parâmetros da violência: ao passo que nos decênios anteriores a divisão entre latino-americanos seguia a pauta das velhas lutas ideológicas que ensanguentaram o século XX, nos últimos quarenta anos essa disputa foi se polarizando ao redor da indústria do narcotráfico que passou a preencher os buracos financeiros deixados com o fim da guerra fria e a queda do Muro de Berlim. As guerrilhas tradicionais do continente sul-americano eram financiadas pelo bloco comunista. Com a dissolução da União Soviética e ao ensejo das reformas modernizadoras empreendidas pelos comunistas chineses sob a batuta de Lin-Xiao Ping, as coisas mudaram de rumo. Os narcotraficantes passaram a ocupar o lugar de financiadores dos grupos armados, como ocorreu na Colômbia ao ensejo da reorganização das FARC, com vistas à tomada do poder no longo conflito dos últimos 30 anos. Dessa transformação não escapou Cuba, com a aproximação das lideranças comunistas desse país em relação aos narcotraficantes. O drama do general Ochoa, fuzilado pelo regime cubano, mostra até que ponto foi profunda dentro da estrutura do Estado essa aproximação. Ochoa caiu quando ficou evidente demais a vinculação do patrimonialismo castrista com os narcotraficantes. Mas a opção pelo financiamento a partir do banditismo dos narcóticos permaneceu firme entre as FARC e outros grupos guerrilheiros colombianos. 

No Brasil, foi aparecendo cada vez mais a incômoda proximidade entre militantes partidários e setores do crime organizado no interior do Estado de São Paulo ou na Baixada Fluminense. O eixo de exportação de narcóticos, no Brasil, ao se deslocar do sudeste do país para as regiões norte e nordeste, carregou consigo o cenário de morte e destruição que hoje afeta as cidades do interior nordestino e da hinterlândia amazônica. Hoje, com o crack presente em 97% dos municípios brasileiros, o aumento da criminalidade está garantido. 

No México, ao longo das últimas duas décadas, revelou-se a capacidade do crime organizado para cooptar setores cada vez maiores da sociedade nos novos cartéis que, como os Zetas, deixavam ver a vinculação com amplos setores da corrupta burocracia estatal. A onda de violência que se alastrou pela América Central revela de que forma esse empoderamento dos grupos narco terroristas no México era capaz de mudar a dinâmica social dos pequenos países centro-americanos, hoje reféns da grande empreitada do tráfico de drogas.

No Brasil, ao longo dos últimos quinze anos, a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder reforçou o velho patrimonialismo que utilizava as benesses do Estado para enriquecimento dos atores políticos, tendo chegado à sistematização dos esquemas de enriquecimento ilícito, com a cooptação das grandes empreiteiras pelo partido do governo, ao ensejo dos episódios do denominado "Mensalão" e da megaoperação de desvio de recursos públicos desvendada pela Operação Lava-Jato. Tudo isso, em lugar de fazer diminuir os índices de violência, levou a que esta crescesse com maior celeridade ao caírem pelo chão as barreiras da moralidade pública. A esquerda literalmente naufragou no Brasil, como explicitou com lucidez um intelectual esquerdista da talha de Wanderley Guilherme dos Santos.

Não assusta, assim, a constatação  da dialética latino-americana entre civilização e barbárie, que o grande Domingo Faustino Sarmiento já evidenciava na sua obra Facundo (1846). Com a predominância, nesta dramática quadra da história latino-americana, da barbárie sobre na civilização. 

Nessa luta, destacam-se pela sua tentativa de consolidar o convívio civilizado e democrático por sobre o pano de fundo da criminalidade e a exclusão latino-americana, o Chile (que conseguiu consolidar e manter a alternância no poder), a Argentina (que com o atual presidente Macri faz as reformas essenciais) e a Colômbia (na heroica luta para derrotar os cartéis do narcotráfico e da narcoguerrilha e os esforços em prol da retomada do desenvolvimento e da reconstrução do tecido social após décadas de conflito). 

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