| Amigos, a avaliação do ex-prefeito do Rio César Maia, no seu ex-blog de hoje que transcrevo a seguir, é uma análise bastante objetiva, a meu ver, que parte do pressuposto - como diria Aristóteles - "da política possível", não "da política ideal" - como diria Platão -. E, como vivemos no mundo das probabilidades, não dos ideais puros, considero que se aproxima mais do que realmente pode acontecer. Uma perspectiva salutar diante da desconstrução do Estado efetivada pela Dilma e corroborada pelo messianismo pífio do Lula e da sua dogmática militância. Que o Senado, com senso de responsabilidade, faça a sua tarefa neste período crucial da história brasileira!
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1. Sua posse (de Michel Temer) como presidente será um enorme alívio nas relações internacionais. Nos Estados Unidos e União Europeia há uma sensação além de alívio e até de euforia. Na Argentina e na Colômbia idem. A escolha certa do ministro de relações internacionais, por Temer, completará esse quadro. Chefes de estado e de governo europeus devem ter acompanhado a votação e comemorado. 2. Com um período curto de governo –iniciado sob o manto do curtíssimo prazo- Temer não seria ingênuo de publicar um plano de governo. Seria o pretexto para ser cobrado aqui e acolá. Tende a apresentar umas 3 ou 4 medidas de impacto nas áreas fiscal, previdenciária e federativa, lastreadas numa política externa aberta (o abraço em Macri será para valer). A euforia trará um forte fluxo de capitais para obter ganhos futuros de um ciclo positivo. 3. Temer foi deputado federal seis vezes, presidente da Câmara duas vezes, e secretário estadual de segurança pública em S.Paulo. E vice-presidente duas vezes. Como jurista, não precisa de detalhes para despachar decretos. Terá uma relação fluída com o Poder Judiciário, fundamental agora. Dilma nunca havia sido sequer vereadora. Não sabia –e não sabe nada- da arte da política. Como ministra e como presidente aprofundou esse desentendimento, por arrogância e autoritarismo. 4. Pelo fato de ter sido secretário de segurança pública do Estado de São Paulo, coisa que de Getúlio à Dilma nenhum presidente foi e nenhum viveu essa experiência, abrirá um campo de diálogo em matéria crítica para os Estados nesse momento. E para as Olimpíadas. Saberá se assessorar. Dilma viveu como presidente um trauma permanente por ter sido presa política e uma enorme dificuldade de dialogar com policiais e militares. De longe, e de perto, lembrava esse trauma. 5. As articulações políticas desenvolvidas por Temer como vice-presidente e aprofundadas na crise política que se seguiu à eleição de 2014 construíram relações de confiança e impediram quaisquer dependências partidárias. Isso será fundamental agora. Dilma vivia a esquizofrenia das relações com o PT. 6. Temer não terá superego político e econômico. O PSDB enfraqueceu-se na crise política, terá que dialogar horizontalmente como os demais, sem barões e cardeais. Excluindo PMDB, o bloco de 3 partidos médios-grandes com o qual Temer vem trabalhando têm mais que o dobro da bancada do PSDB. E todos têm quadros técnicos ou contatos extraparlamentares para qualquer função. 7. Os Jogos Olímpicos, que começam em pouco mais de três meses, vinham sofrendo desgaste contínuo com as reações figadais de Dilma. Aberta ou reservadamente, mostrava sua antipatia com o presidente do COB/CO-2016. Nos dias que antecederam a votação do Impeachment, autoridades olímpicas mostravam seu desconforto com Dilma. O futebol brasileiro –em destaque a CBF- era tratado de forma generalizada por Dilma, como uma máfia. Trauma das vaias da Copa do Mundo de 2014. As relações serão recompostas. Temer voltará a recebê-los. 8. A força de pressão da tradicional “sociedade civil organizada” não é a mesma hoje, no mundo todo e ainda mais no Brasil. As ruas têm mostrado isso no Brasil todo, há 4 anos. No Brasil –ao contrário do que tem ocorrido em outros países- as redes sociais impulsionando as ruas reais e virtuais, não têm inspiração populista. Não têm interlocução partidária preferencial. Aqui, hoje, são redes sociais livres, não manipuladas (desierarquizadas, horizontais e de agregação individual). E as redes sociais têm consciência que foram parte fundamental da mobilização de opinião e da vitória. Temer terá uma carência de pelo menos 9 meses por parte delas. Se estão na origem do impeachment, é natural e humano que queiram que as coisas caminhem bem: são parte da vitória. |
Um espaço para defesa da Liberdade, da forma incondicional em que Dom Quixote fazia nas suas heroicas empreitadas!
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terça-feira, 19 de abril de 2016
MICHEL TEMER: AMPLOS FATORES FAVORÁVEIS! - Do EXBLOG do César Maia - 19-04-2016
ARISTÓTELES, A GLOBALIZAÇÃO DE ALEXANDRE O GRANDE E O PRIMADO DA EXPERIÊNCIA
![]() |
| Aristóteles (detalhe, acima) e A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio de Urbino (1483-1520), Museu Vaticano. (Fonte: Wikipedia). |
Aristóteles nasceu em Estagira (Macedônia) em 384 a.C.
e morreu em Cálcis, na Ilha de Eubea, em 324 a.C. Durante 20 anos, entre 367 e
347 a.C. foi discípulo de Platão (427-347 a.C.), na Academia.
Por volta de 342 a.C. foi-lhe confiada a educação de
Alexandre (356-323 a.C.), filho de Filipe II (382-336 a.C.), rei da Macedônia,
missão que o nosso pensador cumpriu até 335 a.C. Nesse ano Aristóteles fundou,
em Atenas, no Liceu, a sua própria escola, chamada de peripatética e nela desenvolveu a docência da filosofia e das
ciências até 323 a.C., quando se retirou
à ilha de Eubea (terra da sua mãe), no Mar Egeu.
Os escritos do filósofo que conhecemos, na sua maior
parte estão constituídos pelas notas de aula tomadas pelos seus discípulos, nos
cursos que ofereceu no Liceu. Esses escritos eram chamados, pelo próprio
Aristóteles, de esotéricos.
Diferentemente de Platão, que escreveu a sua obra no elegante dialeto ático,
Aristóteles utilizou a língua comum, a koiné
(ou grego vulgar), que se estendeu como língua franca ao longo da bacia do
Mediterrâneo, e que deu ensejo à grande globalização cultural do Império de
Alexandre.
Em 7 itens podemos sintetizar o essencial do
pensamento de Aristóteles:
1 - Com
Aristóteles encontramos um sistema filosófico completo. A sua obra pode ser agrupada
em cinco grandes blocos, assim:
I – Lógica,
que abrange seis obras, genericamente denominadas de Organon: Categorias, Da
Interpretação, Primeiros Analíticos, Segundos Analíticos, Tópicos e Refutação
dos Sofistas.
II – Escritos
Científicos, integrados por quatro obras: Física, Sobre a Alma, Partes dos Animais e Astronomia.
III – Metafísica,
que inclui os quatro livros que levam esse título.
IV – Ética,
com as seguintes obras: Ética a Nicômaco,
Ética a Eudemo, Grande Ética, Política e Constituição de Atenas.
V – Poética,
que abrange dois escritos: Retórica
(8 livros) e Poética.
2 – No conjunto
de obras que integram o Organon,
notadamente nos Analíticos e nos Tópicos, Aristóteles formula a sua
Lógica Formal,
que estuda os esquemas de raciocínios válidos, independentemente do conteúdo
dos mesmos. A Lógica Aristotélica foi aperfeiçoada, posteriormente, por Boécio[1]
(480-524) e por Pedro Hispano[2]
(1205-1277). A Lógica Formal de Aristóteles foi recebida, na tradição medieval,
como parte da Filosofia e se denominava “logica
minor”, sendo que a “logica maior”
correspondia à Teoria do Conhecimento.
A Lógica Formal somente se começou a distanciar da
Filosofia no século XVII, quando Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) formulou
a sua Ars Combinatoria, que deitou os alicerces da Lógica Matemática,
a partir do princípio de que seria possível substituir os conceitos, nos
raciocínios, por símbolos matemáticos. Com essa base, Leibniz pretendia evitar
as disputas sobre conceitos com significação equívoca, atribuindo, a cada um
deles, uma significação exata, expressa em símbolos matemáticos.
As hipóteses de Leibniz foram aperfeiçoadas, do ângulo
matemático, por George Boole (1815-1864), na obra intitulada: Uma
interpretação das leis do pensamento em que se fundamentam as teorias
matemáticas da Lógica e das Probabilidades (1857). Esta obra deu ensejo
à denominada álgebra booleana, ou conjunto de técnicas algébricas para lidar
com expressões no cálculo proposicional. Com base nesse fundamento, a
Lógica Matemática foi sistematizada, no século XX, por Bertrand Russell
(1872-1970) e Alfred North Whitehead (1861-1947), na obra: Principia Mathematica (1913).
Mais adiante, na metade do século XX, foi formulada a Lógica dos Circuitos pelo
engenheiro norte-americano Claude Shannon (1916-2001), com a obra intitulada: A
mathematical Theory of Communication (1948), na qual os símbolos
matemáticos são substituídos pela Lógica Binária (passível de ser traduzida em
impulsos eletrônicos). Essa é a base da linguagem e da memória artificial
utilizadas nos hodiernos computadores.
Como se pode observar, longa foi a caminhada da Lógica
Formal até as manifestações contemporâneas dessa especialidade que, sem
Aristóteles, certamente não teria chegado até os magníficos resultados que
apresenta, hoje, como disciplina autônoma no terreno das ciências.
3 - Na Teoria do
Conhecimento, Aristóteles partiu para elaborar um ponto de vista transcendente
ou realista, como tinha feito o seu mestre Platão. No entanto, o cerne da
gnosiologia aristotélica não é constituído, como em Platão, pela hipótese de
Idéias subsistentes e independentes do mundo. Para Aristóteles, o fundamental é
o conhecimento da realidade que nos circunda, e é aí que ele coloca a sua noção
da substância primeira (próte ousía),
que é definida como aquilo que é em si e
não em outro. As substâncias externas, objeto da nossa experiência
sensível, são as substâncias primeiras. Elas
são formadas por matéria (hyle) e
forma (morfé). A forma das realidades substanciais conhecidas pelos sentidos
movimenta a razão humana, que se encontrava em potência (intellectus patiens, segundo a terminologia escolástica). Ativada
pela forma substancial, a razão fica
em estado de ato (intellectus agens)
e se torna capaz de agir, elaborando representações das formas substanciais
intuídas na experiência. A partir da intuição, pela razão, da essência da
substância concreta (ou seja, da sua forma),
é elaborada uma representação abstrata da mesma, que Aristóteles denomina de substância segunda (deutere ousía) denominada também de conceito universal, e que consiste numa representação abstrata da substância primeira. O processo do
conhecimento se completa mediante a predicação, pela razão, no juízo, em
relação a uma substância primeira, da substância segunda, abstrata, que lhe é
correspondente. Quando digo, por exemplo, “isso é um cachorro”, estou
predicando a representação abstrata que repousa na minha razão, de um ente
concreto que está diante de mim, o animal de quatro patas que eu chamo de
“cachorro”.
Aristóteles valoriza a experiência (ampeiría). Para ele, todos os nossos
conhecimentos provêm dos sentidos. Os escolásticos sintetizaram esse princípio
aristotélico da seguinte forma: “nihil
est in intellectu quod prius non fuerit in sensu” (“Não há nada no entendimento que antes não tenha passado pelos sentidos”).
Para Aristóteles, há cinco tipos de conhecimento, todos eles interligados,
começando pelos sentidos e subindo até intelecção. Temos, em primeiro lugar, o
conhecimento sensorial (aísthesis) em
segundo lugar, o conhecimento empírico propriamente dito (ampeiría) em terceiro lugar, vem o conhecimento técnico (téchne) em quarto lugar, temos o
conhecimento científico, pelas suas causas, das substâncias ocultas atrás dos
fenômenos (epistéme) e, em quinto
lugar, o conhecimento das totalidades à luz do ser (sofía).
A nossa razão atua como ordenadora dos fenômenos
dispersos, mediante a intuição das essências substanciais das coisas que aparecem
na experiência sensorial. Aristóteles valoriza o conhecimento das coisas da
natureza pelas suas causas, bem como a classificação dos seres a partir da
experiência, sendo que a Lógica fornece os instrumentos conceituais necessários
para essa ação ordenadora. Dentre os conceitos que a Lógica oferece, sobressaem
os de gênero e diferença específica. É possível fixar conceitualmente as
características essenciais de uma determinada realidade, mediante a
explicitação do gênero próximo ao
qual ela pertence, adicionando a diferença
específica, que é a responsável pela sua identidade, no contexto do gênero.
Assim, por exemplo, a essência humana consistiria de duas notas: animal (gênero próximo) e racional (diferença específica).
Utilizando esse mecanismo, Aristóteles realizou amplo trabalho de classificação
dos seres vivos, dando início à taxonomia.
No que tange ao conceito de verdade, Aristóteles
distingue dois tipos: verdades
categóricas (aquelas referidas às substâncias que, no Cosmo, têm
regularidade nas suas ações, o que os Gregos, de modo geral, denominavam de tropos) e verdades dialéticas (aquelas referidas ao comportamento humano, não
totalmente previsível porquanto ancorado na liberdade de escolha, e que os
pensadores gregos denominavam de anthrópos).
Uma coisa é verdadeira quando, no juízo afirmamos de uma substância primeira, o
conceito universal (ou substância segunda) que lhe corresponde. Assim, por
exemplo, quando digo: “este animal é um cachorro”, a minha afirmação é
verdadeira se, efetivamente, a essência do bicho que estou vendo é a de
cachorro. Incorro em falsidade quando afirmo de uma substância primeira a
substância segunda (ou o conceito universal) que não lhe corresponde (como
quando digo de um cachorro que é gato).
4 – A Psicologia ou Tratado da Alma complementa a Teoria do Conhecimento de
Aristóteles. O
Estagirita distingue três partes da Alma, que remetem a três estratos da
Natureza: a Alma Vegetativa ou Alma das Plantas; a Alma Sensível ou Alma dos
Animais e, finalmente, a Razão,
que somente se encontra no homem.
A Alma
Vegetativa é responsável pela subsistência; a Alma Animal é responsável pela sensação e o movimento local,
enquanto que a Razão (nous) é responsável pela atividade
intelectual. A Alma é o princípio
formal de todo corpo. A respeito frisa Aristóteles: “Assim, também, a alma é a entelequia primeira de um corpo natural
que possui a vida em potência; tal é o caso do corpo organizado”.
Ao Espírito
corresponde um estatuto particular: podemos subdividi-lo em Espírito Sensitivo (receptivo) e em Espírito Agente (ativo), um
desempenhando a função de matéria (potencialidade) e o outro a função de forma
(atualidade). O Espírito Sensitivo (que
está em relação com as percepções da segunda parte da alma) recebe os objetos
do pensamento segundo a forma, enquanto que o Espírito Agente representa o espírito todo-poderoso para a
atividade da alma espiritual.
Ao contrário das outras partes da alma, o Espírito Agente não está ligado ao corpo
e é, assim, imortal. Mas, como o pensamento não pode nascer senão da relação
com a sensação, o Espírito, após a
morte, não é mais um Espírito Individual (diferentemente
do que Platão defende com a sua teoria da alma).
5 – A Teoria do
Conhecimento em Aristóteles ancora na Metafísica. A ordem do conhecimento segue
a ordem do ser. Assim Aristóteles se mantém fiel à herança platônica.
Aristóteles, no entanto, pensa o Ser não como alicerçado num Sumo Bem distante
do mundo, mas como o fundamento de tudo quanto existe. O Cosmo e o Homem estão
presentes no Ser. Não há, portanto, um mundo separado de Idéias Eternas.
O Ser é partilhado pelos entes, mas eles não o
esgotam. Aristóteles partiu, na sua Metafísica, para fundamentar as
relações entre o Ser e os entes, mediante a sua doutrina da potência e do ato. Todos os seres do Cosmo, o homem inclusive, partilham
limitadamente do Ser, pois são compostos de potência
e ato.
6 – A dinâmica
da Natureza, a partir dos conceitos de Matéria e Forma. Nos livros da Física,
Aristóteles mostra que o Cosmo foi formado a partir de uma matéria primeira (próte hyle) que constituiu os quatro
elementos (terra, água, fogo e ar) de que estão compostos todos os corpos.
Potência e Ato, nesta dimensão que constitui a Natureza (fysis) relacionam-se como matéria (hyle) e forma (morfé). Estes
conceitos integram a denominada Teoria
hilemórfica.
Aristóteles desenvolveu a sua teoria da causalidade, para explicar as relações entre os corpos no
seio da Natureza. Quatro são as causas: material,
formal, eficiente e final. Elas
pressupõem a substância, onde se dá a sua dinâmica. Aristóteles reconhecia dois
modos de ser ou categorias: ser em si (substância ou ousía) e ser em outro (acidente). O ser
em outro se pode dar de nove formas diferentes (que os escolásticos
passaram a denominar com as seguintes expressões latinas: quantidade, qualidade, relação, ação, paixão, quando, onde, situação e hábito). Na sua teoria da causalidade,
Aristóteles dá destaque à causa eficiente
e formula o princípio segundo o qual “tudo que se movimenta é movido por
outro”, que o leva a postular a existência do “motor imóvel”, causa primeira do
movimento do Cosmo.
No seu tratado da Física, no livro II, o Estagirita
oferece quatro definições acerca da Natureza: ela é “Princípio e causa de
movimento e de repouso, para a coisa em que ela reside imediatamente e não por
acidente”. A Natureza é, também, “A matéria que serve de sujeito imediato a
cada uma das coisas que possuem em si um princípio de mudança e movimento”. O
Filósofo ainda traz esta definição de Natureza: “Nas coisas que possuem em si
um princípio de movimento, (ela) é a forma
e o tipo separáveis só logicamente”.
Sintetizando, a Natureza é, para Aristóteles, princípio de movimento e de crescimento.
Um detalhe etimológico deve ser salientado: fysis
(natureza) vem do verbo fyo
(crescer). A quarta definição de Natureza é, segundo Aristóteles, a seguinte:
“Sendo a natureza dupla, matéria de um lado e forma, de outro, e sendo ela um
fim, e estando as demais (coisas) ordenadas a esse fim, ela será uma causa, a
causa final”. A Física de Aristóteles é, conseqüentemente, uma física
finalista, na qual é essencial a experiência, a fim de abarcar o conjunto de
aspectos que rodeiam a Natureza.
Outro conceito que, na Física, é importante para
Aristóteles, é o de movimento. Ele o
define como surgimento, mudança,
progresso ou degradação. O
movimento, quando se trata de um ser vivo, é denominado de metabolé (daí provém o termo metabolismo).
Mas quando é entendido como mudança
de lugar, é denominado de kínesis (daí
provém o termo cinema). Existem, para
Aristóteles, dois tipos de movimento: substancial,
que recai sobre a substância e consiste na geração
ou na corrupção. O segundo tipo de
movimento é o acidental, que não
modifica essencialmente a substância, atingindo apenas algumas qualidades acidentais,
tais como: crescimento e diminuição, alteração e translação.
7 - A ética
aristotélica tem por objetivo o domínio da ação humana, em tanto que alicerçada
numa decisão e a política é o terreno da sua aplicação social. Distingue-se a ética da filosofia teorética, que se dirige ao
imutável e eterno.
Por natureza, segundo Aristóteles, todo ser tende a um
bem que lhe é próprio e no qual encontrará a sua realização. O bem humano é a
atividade da alma conforme à razão. Nessa atividade, o homem descobre a
felicidade (eudemonía), que é
independente das circunstâncias exteriores, como objetivo final das suas
aspirações. Como frisa Aristóteles na sua Ética a Nicômaco, “O bem do homem
consiste numa atividade da alma conforme à virtude”.
Aristóteles distingue entre virtudes dianoéticas (que se manifestam no exercício da razão) e virtudes éticas (que são transmitidas
pela ordem estabelecida na sociedade e na Polis) sendo que elas recebem a sua
validade da tradição e do consentimento universal. A virtude dianoética fundamental é a prudência (frónesis) que leva o homem a reconhecer os meios e os caminhos
justos que conduzem ao bem. À luz dessa virtude o homem desenvolve a atitude ética, que se formata mediante a
prática das virtudes (através do exercício,
o hábito e a aprendizagem).
No que tange ao conteúdo, a virtude ética é definida
como o justo meio (mesotés) entre dois extremos contrários.
Assim, por exemplo: a coragem ocupa o lugar intermediário
entre a covardia e a temeridade. A moderação é um intermédio entre a apatia e a excessiva vontade
e a generosidade é o equilíbrio entre
a avarícia e a prodigalidade.
A justiça (dikaiosýne) para Aristóteles é a virtude
mais importante para a vida em comum. Em tanto que distributiva, ela cuida de distribuir os bens justamente; em tanto
que corretiva, ela compensa os danos
ou os prejuízos sofridos por alguém. Uma virtude essencial é, também, a amizade. Graças a ela, o homem
experimenta a passagem dos interesses individuais para aqueles que constituem a
comunidade.
A ética aristotélica, contrariamente à platônica, é
uma moral concreta da liberdade e da diferença entre os homens da cidade. Ela
define um espaço de discussão, que deve permitir chegar a um bem soberano, que
não é transcendente (como em Platão), nem imposto desde cima por algum sábio. O
bem soberano aristotélico nasce exclusivamente do contato entre os homens
livres.
No que tange à ordem política, diferentemente de
Platão (que privilegiava o modelo aristocrático), ela é variada, para
Aristóteles, podendo ser de três tipos: realeza
(cuja degeneração é a tirania), aristocracia
(cuja corrupção é a oligarquia) e politéia
ou governo do povo, (cuja degeneração é constituída pela democracia).
Contrariamente a Platão, que no relativo ao conhecimento racional da realidade
política dava prelação à Idéia sobre os conhecimentos empíricos, Aristóteles
privilegia estes últimos. Nesse terreno, o filósofo de Estagira realizou
estudos comparados, tendo chegado a identificar 158 formas de organização ou de
constituição política. Desses estudos somente nos restou o escrito intitulado Constituição
de Atenas.
Platão concebia uma visão ideal da política, ao passo que Aristóteles concebe uma idéia possível. Ele é partidário de um
realismo político. Na obra Política, frisava: “Deve-se,
efetivamente, examinar não somente o melhor regime político, mas também aquele
que é simplesmente possível”. Contrariamente a Platão, para quem os homens
ingressavam no Estado em decorrência das suas fraquezas, Aristóteles considera
que os homens procuram a ordem política, movidos pela sua natureza sociável. A
respeito, escreve: “O homem é por natureza um animal político”.
A linguagem é um signo de que o homem não está
destinado unicamente à simples sobrevivência, mas a viver numa comunidade que deve chegar a acordos
acerca do útil, do bom e do justo. Como Platão,
Aristóteles considera que a tarefa do Estado consiste em possibilitar a
realização ética dos cidadãos. No entanto, enquanto o mestre de Aristóteles
considerava que a questão ética consistia em partir para um processo de
catarse, a fim de o homem voltar à contemplação pura das Idéias no reino do
Sumo Bem, para o Estagirita essa realização consiste em algo muito mais singelo
e terreno: o amor à vida feliz e boa. É somente no seio do Estado que se pode
desenvolver perfeitamente a virtude do indivíduo.
O Estado, para Aristóteles, se forma a partir de um
conjunto de comunidades que vão se alargando. A propósito, frisa: “Na origem,
existe a comunidade de duas pessoas (homem e mulher, pai e filho, amo e servo).
Estes, juntos, constituem a família,
a partir da qual, a seguir, constitui-se a aldeia
e por fim a cidade (pólis) que é o reagrupamento de várias
aldeias”. É somente a partir da cidade que é garantida a autarquia (ou seja, o fato de se garantir, a si próprio, a
independência e a autossuficiência).
O princípio formal da pólis, para Aristóteles, é a constituição.
A respeito, frisa: “A cidade é uma espécie de comunidade e uma participação
comum dos cidadãos no governo”. O filósofo divide as formas de constituição em três “tipos justos” (realeza, aristocracia, politéia).
O critério de classificação é o número dos que participam do poder político: um, alguns, todos.
É boa a forma de governo que serve ao bem-estar geral;
é ruim aquela que somente persegue os interesses dos que mandam. Aristóteles
não prefere de entrada uma das três formas de organização da cidade mencionadas. Considera, contudo,
que a mais realizável e a mais estável é a politéia
ou democracia moderada. É uma forma que mistura as vantagens das outras
constituições e que realiza o princípio formulado na Ética, da virtude como
justo meio entre os extremos. A propósito, escreve: “A melhor comunidade
política é aquela que constitui a classe média[3]
(...). O seu predomínio restabelece o equilíbrio da balança e impede a aparição
dos excessos contrários”. Da análise histórica Aristóteles conclui que a melhor
forma política, em cada caso, é aquela que melhor convém ao país e às
necessidades dos cidadãos.
Em relação à questão da ordem interior do Estado,
Aristóteles considera que é necessário preservar a família e a propriedade
privada. Segundo Aristóteles, a família é ainda mais elementar que a aldeia
e esta é mais primária que o Estado ou a pólis.
A família deve ser privilegiada em tanto que base da ordem natural da sociedade[4],
mesmo se o Estado joga um papel essencial na educação da juventude. Em relação
à propriedade privada, Aristóteles considera que “a propriedade deve ser
privada, mas o seu uso deve ser comum”.[5]
Nestes aspectos, certamente, Aristóteles se distancia dos ensinamentos do seu
mestre Platão.
No que tange à estrutura interna da sociedade,
Aristóteles reconhece, além da escravatura, a desigualdade natural entre homens
e mulheres. Tanto uma quanto outra constituem “condições naturais” da vida
humana. Mas, entre os homens livres, deve reinar a igualdade.
![]() |
| Alexandre, o Grande (356-323 a. C.), Mosaico encontrado nas ruínas de Pompéia, Museu Arqueológico Nacional, Nápoles (Fonte: Wikipédia). |
[1] Boécio era de família nobre e ocupou altos cargos na corte do rei
ostrogodo Teodorico (454-526). Os estudiosos consideram Boécio como o último
romano e o primeiro escolástico.
[2] Filósofo, médico e Papa com o nome de João XXI, nascido em Lisboa, foi
conhecido na Idade Média com o nome de Pedro
Hispano Portucalense.
[3] É interessante destacar que este conceito de classe média inspirou aqueles autores que, na modernidade, tentavam
encontrar um caminho justo entre os extremos da aristocracia (que prevaleceu no
Ancien Regime) e do populismo manipulado pelo déspota (que se tornou o caminho
do bonapartismo, após a Revolução Francesa). Para os doutrinários franceses,
François Guizot (1787-1874) à testa, o modelo social que contaria com plena
estabilidade na França seria o presidido pela classe média, sendo as eleições mecanismos para depurar a média da opinião. Tal conceito entrou a
formar parte do jargão político brasileiro, no discurso dos liberais gaúchos,
sendo Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938) um dos que adotaram tal
terminologia.
[4] Este conceito de valorização da família como célula mater da sociedade, entrou a formar parte do arcabouço
doutrinário dos pensadores escolásticos e foi adotado pela denominada Doutrina
Social da Igreja Católica, que teve o Papa Leão XIII (1810-1903) como um dos
seus principais formuladores.
[5] Este é um conceito básico da Doutrina Social da Igreja Católica e
aparece em pensadores católicos de orientação liberal como Alexis de
Tocqueville (1805-1859), que o utiliza com a denominação de “interesse bem
compreendido”.
BIBLIOGRAFIA
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ARISTÓTELES. Categorias. (Tradução de Silvestre Pinheiro Ferreira; apresentação e notas de Jesué Pinharanda Gomes), Lisboa: Guimarães, 1982.
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.
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ARISTÓTELES. Organon. (Volumes I e II: Categorias e Periérmeneias; volume III: Analíticos Anteriores; volume IV: Analíticos Posteriores; volume V: Tópicos). (Tradução, prefácio e notas de Jesué Pinharanda Gomes). Lisboa: Guimarães, 1982/1987.
ARISTÓTELES. Política. (Tradução, introdução e notas de Mário da Gama Kury). Brasília: Instituto Nacional do Livro / Editora da Universidade de Brasília, 1985.
BARTHÉLEMY, J. J. Vida religiosa dos Gregos. (Tradução e notas de F. J. Cardoso Júnior). Lisboa: Editora Inquérito, 1940.
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BURCKHARDT, Jacob. Historia de la cultura griega. (Tradução do alemão ao espanhol por Eugenio Ímaz et alii). Barcelona: Iberia, 1975. 5 Volumes.
BURKARD, Franz-Peter. KUNZMANN, Peter. WIEDMANN, Franz. Atlas de la Philosophie. (Tradução francesa de Z. Housez e S. Robillard). Paris: Librairie Générale Française, 1993.
CAEIRO, Francisco da Gama. COXITO, A. BRAZ TEIXEIRA, António. "Aristotelismo em Portugal". Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Lisboa / São Paulo: Editorial Verbo, 1989, vol. 1, p. 433-454.
GOUGENHEIM, Sylvain. Aristote au Mont Saint-Michel - Les racines grecques de l´Europe chrétienne. Paris: SEUIL, 2008.
JAEGER, Werner. Aristóteles. (Tradução de José Gaos). México: Fondo de Cultura, 1992.
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PLUTARCO. Alexandre o Grande. (Tradução de Hélio Vega). Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
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ARISTÓTELES. Organon. (Volumes I e II: Categorias e Periérmeneias; volume III: Analíticos Anteriores; volume IV: Analíticos Posteriores; volume V: Tópicos). (Tradução, prefácio e notas de Jesué Pinharanda Gomes). Lisboa: Guimarães, 1982/1987.
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MORRALL, John B. Aristóteles. 2ª edição. (Tradução de Sérgio Duarte). Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1985.
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PT - A DEMOCRACIA COMO VALOR MONETÁRIO - Texto de Mário Sabino de O Antagonista, 18/04/2016
Amigos, Gostei do texto de Mário Sabino de O Antagonista (18 de Abril de 2016), que transcrevo por se tratar de um quadro fiel do que se passa na cuca dos petralhas. A Democracia serve apenas para encher as burras. Eles sempre quiseram vender ao Brasil esse tipo de Democracia, como uma espécie de porta dos fundos do balcão de negócios que é a política na versão lulopetralha. Pequeno detalhe: o honrável público matou a charada e não cai mais na conversa do Lula. Excelente depoimento!
PT: A DEMOCRACIA COMO VALOR MONETÁRIO
Por Mário Sabino
Em 1990, eu passei por uma experiência curiosa e esclarecedora: editei a revista Teoria & Debate, do PT. Tinha 28 anos, estava desempregado e um amigo me convidou para esse trabalho. Eles não precisavam de um petista – jamais fui simpatizante do partido ou filiado –, mas de um jornalista que soubesse editar. Recém-casado, durango, aceitei o convite.
Eu era um estranho no ninho, mas fui bem recebido. Tanto que continuei a editar a Teoria & Debate, na condição de freelancer, por mais algum tempo, mesmo depois de empregado na Istoé.
Eu lia aqueles artigos extensos, escritos numa língua próxima ao português, e procurava lhes dar alguma sintaxe na sua falta de sentido intrínseco e extrínseco. Eu dizia que não era possível que eles ainda acreditassem em "luta de classes" e minhas observações eram ouvidas com sorrisos condescendentes. Eu fazia piadas sobre a "redenção da classe operária" e eles riam. Eu colocava poesias de grandes autores na quarta capa e eles aceitavam.
Eles, no caso, eram o baixo clero da máquina do partido com quem eu lidava no cotidiano. Meu contato com o alto clero – os intelectuais petistas, integrantes do conselho editorial da revista – era esporádico. Vez por outra, havia uma reunião para definir a pauta e o meu papel era escutar calado o que discutiam.
Lembro que uma questão aparentemente não superada pelo PT naquele momento era se a democracia era um "valor estratégico" ou um "valor universal". Traduzindo: se aceitar as regras democráticas consistia apenas numa forma para chegar ao poder – e, em seguida, implodir a coisa toda, a fim de instituir a "ditadura do proletariado" –, ou se era possível revolucionar a sociedade dentro da moldura estabelecida institucionalmente pela "burguesia". O contexto mundial era o da recente queda do Muro de Berlim e o esfacelamento do que os petistas chamavam de "socialismo real" no Leste Europeu (uma distopia que queriam fazer renascer como utopia).
Passados quase trinta anos, constato que, para o PT, a democracia sempre foi um valor monetário.
Uma vez no poder, o PT tentou apodrecer a democracia para enriquecer ilicitamente a casta dirigente do partido.
Uma vez no poder, o PT tentou putrefazer a democracia para desgovernar o país por meio da compra de aliados circunstanciais.
Uma vez no poder, o PT tentou ulcerar a democracia para conquistar votos através da distribuição de migalhas a pobres desassistidos eternizados como pobres assistidos.
Em resumo, o PT raspou os bigodes stalinista e trotskista para tascar um bigodão sarneyzista no seu discurso socialista.
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domingo, 17 de abril de 2016
O PATRIMONIALISMO E O INFERNO DE JEFFERSON (Publicado no Estado de S. Paulo, 16/04-2016)
![]() |
| Bartolomeu de Fruosino - Ilustração para o Mapa do Inferno de Dante Alighieri (1430). |
Uma das primeiras obras da narrativa moderna é a Divina
Comédia de Dante Alighieri. Nela, retomando o leitmotiv das obras
medievais (o mundo do Além), numa perspectiva individual que antecipa os
relatos de viagens da literatura do Iluminismo, o florentino conta a visita que
o seu personagem central, ele mesmo, faz ao mundo do além, dividido segundo a
imaginação cristã em três cenários: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Pela
mão do seu guia, o poeta latino Virgílio, Dante percorre os sombrios corredores
do Purgatório e os indescritíveis círculos do Inferno. E da mão da sua amada,
Beatrice, visita as fulgurantes escadarias e caminhos floridos do Paraíso.
Destaca-se, na bela poesia de Dante, a perspectiva humana: os
personagens que povoam o Mundo do além ocupam posições relacionadas ao papel
que desempenharam em relação à cidade do narrador: a sua amada Florença. Para
os amigos, o Céu; para os inimigos, o Inferno, com a incômoda companhia do
diabo em pessoa! Perspectiva bem moderna, aliás. Para os amigos, leia-se:
aqueles relacionados com a construção da Polis dos nossos sonhos, a eterna
lembrança da bem-aventurança. Para os que conspiraram contra esse ideal cívico,
o inferno do esquecimento!
Pois bem: Roberto Jefferson, o ex-presidente do PTB,
condenado no Mensalão, sai do inferno da penitenciária, perdoado pela Justiça,
e se reintegra ao mundo dos cidadãos. A entrevista que concedeu recentemente ao
Estadão
(01-04-2016) dá conta do que ele viu e a memória das trevas fá-lo lembrar daquilo
que constitui a essência do Estado Patrimonial.
No clima escatológico que estamos vivendo, um fato salta à
vista na citada entrevista. Nela, como numa revelação do que se passa nas
entranhas do Estado Patrimonial brasileiro, o ex-parlamentar que assumirá novamente
o seu cargo de Presidente do PTB, dá detalhes de como funciona o aparelho
patrimonialista na alta política.
A fonte de financiamento das atividades do Estado Patrimonial
são as estatais. Sem elas não haveria bala na agulha para os aliciadores de
fidelidades caninas aos donos do poder. Frisa Jefferson: “(A Petrobrás) sempre
foi a empresa elite dos partidos mais poderosos. As estatais no Brasil são o
braço financeiro das corporações sindicais e partidos. Quem financia partido
são as estatais. (...). A estatal é a semente da corrupção no Brasil. Partidos
disputam cargos nas estatais pera seu financiamento. O que vão assaltar nos
seis meses enquanto durar o processo de impeachment é uma loucura. Vai todo
mundo querer fazer caixa, porque ela cai em seis meses. Cobra 100% de comissão aí!”
Ora, a história moderna do Brasil mostra exatamente isso que
Jefferson revela. Os processos modernizadores, desde o Estado getuliano até a
contemporaneidade têm naufragado justamente por causa de que, potencializadas
pela produção de riqueza que o setor privado garantiu, as lideranças políticas
terminaram desviando o caminho do progresso, para garantirem uma ordem
clientelística mantida às custas dos recursos que financiariam a definitiva
entrada do Brasil na modernidade.
O Estado getuliano, pensado na rígida regra do estatismo
castilhista, se louvando, de outro lado, da experiência modernizadora de
Mussolini na Itália, terminou carregando mundos e fundos no financiamento dos
sindicatos dependentes do Estado, pensados como esteios da nova ordem. Os
partidos getulianos nasceram da visão corporativista que arregimentou os
apoiadores do regime, identificados com os que mantinham a sociedade organizada
ao redor dos sindicatos e dos empresários aglutinados em torno ao Estado,
presidido pelo Executivo tecnocrático.
Clima semelhante terminou afetando o regime militar de 64, no
final do ciclo, em meados dos anos 80 do século passado. A pesada estrutura
sindical janguista, herdeira do getulismo, terminou sendo substituída pelo bipartidarismo
artificial financiado pelas estatais que, de 90, no início do ciclo, pularam
para 490 no final desse período. Esse estatismo levou o general Médici, em
viagem presidencial ao Nordeste, a pronunciar a famosa frase: “Estado rico,
país pobre”.
Caem os panos da representação da ópera bufa em que se tornou
a nossa República nestes tempos de lulopetismo cínico e o que vemos pela lente
de Roberto Jefferson? Um panorama semelhante, justiça sendo feita ao passado,
sem a lisura da maior parte dos militares no comando do navio, que terminaram
remediados como entraram, descontados os espertalhões que se locupletaram ao
redor das Estatais e da própria Petrobrás, bem como nas Secretarias chefiadas
por técnicos militares, como a famosa Secretaria Especial de Informática, que
vendeu cara a entrada das empresas ao mundo digital mediante licenças
concedidas a preço de ouro.
Na festa iconoclasta e de cinismo explícito a que estamos
assistindo, o PT deixou claro para que veio: para se locupletar a partir das
estatais, beneficiando aqueles que os apoiam e deixando na sombra do
esquecimento (quando não do cemitério, como aconteceu com Celso Daniel),
aqueles que ousaram colocar obstáculos de monta aos engenheiros da nova ordem
que acabaria com a pobreza no Brasil.
A receita para o mal foi assinalada pelo próprio Roberto
Jefferson na sua entrevista: “Se
queremos país moderno, vamos ter que fazer privatização, porque (ela) não vai
permitir a concentração da corrupção”.
terça-feira, 12 de abril de 2016
PLATÃO (427-347 a.C.) E O REINO DAS IDEAS
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| Platão. Detalhe do afresco "A Escola de Atenas" (1509-1511), de Rafael Sanzio de Urbino, Stanza dellla Signatura, Museus Vaticanos, Roma (Foto: Wikipédia). |
Platão nasceu em Atenas em 427 a.C. e ali morreu em
347 a.C. Filho de uma família da aristocracia ateniense, sofreu a influência de
dois pensadores notadamente: Pitágoras de Samos (580-497 a.C.) e Sócrates
(469-399 a.C.). Em 387 a.C., Platão fundou a Academia, que se constituiu, junto
com a Biblioteca de Alexandria, numa das mais importantes iniciativas culturais
do Mundo Antigo, tendo funcionado até 529 d.C., quando foi encerrada por ordem
de Justiniano I. Convidado pelo rei Dionísio, passou um bom tempo em Siracusa,
ensinando filosofia na corte.
Com a sua teoria das Idéias, Platão construiu um sistema que aproximava a filosofia pré-socrática das reflexões do seu mestre, Sócrates. Mas, em decorrência da abrangência e da profundidade que imprimiu ao seu sistema, Platão, por outro lado, formulou um pensamento com repercussões que nenhum outro filósofo conseguiu ter na História do Pensamento Ocidental. A respeito, Alfred North Whitehead (1861-1947) frisa: “Toda a filosofia ocidental não passa de notas de rodapé das páginas de Platão” [1].
Os aspectos básicos da Teoria das Idéias de Platão
podem ser sintetizados nos seguintes 12 itens:
1 – É
pressuposto, por Platão, um reino hipotético de essências imateriais,
eternas e imutáveis que constitui o mundo das Ideias (Eidos) As Ideias são arquétipos da realidade e, de acordo com elas,
são formados os objetos do mundo visível. A propósito, escreve Platão no seu
diálogo Fédon, destacando que as Ideias constituem o paradigma do Ser e
da Verdade: “(...). Assim, depois de haver tomado como base, em cada caso, a idéia,
que é, a meu juízo, a mais sólida, tudo aquilo que lhe seja consoante eu o
considero como sendo verdadeiro, quer se trate de uma causa ou de outra
qualquer coisa, e aquilo que não lhe é consoante, eu o rejeito como erro” [2].
2 – As Ideias
existem de forma objetiva, ou seja, independentemente do nosso pensamento.
Em que pese o fato de serem independentes dele, podem por ele ser conhecidas.
Em decorrência disso, a doutrina platônica foi caracterizada pelos estudiosos
como um idealismo objetivo. O fato de
que o nosso entendimento possa conhecer as Idéias, (ou seja, os arquétipos
subsistentes do real, que existem fora de nós), faz com que Platão seja
considerado pelos estudiosos como o fundador da perspectiva realista ou
transcendente, ou seja, aquela que pressupõe que o entendimento humano tem
acesso à coisa em si. Esta perspectiva contrapõe-se à transcendental, que parte do pressuposto de que o nosso
entendimento somente pode ter acesso aos fenômenos
(àquilo que aparece), não às coisas em si; esta perspectiva foi formulada e
sistematizada, no século XVIII, por Hume e Kant [3].
3 – Platão, por
outro lado, postula a teoria dos dois mundos. O primeiro é o mundo visível
ou sensível, no qual se desenvolve a nossa existência e que está submetido à
mudança e à degradação. O segundo é constituído pelo mundo inteligível (que fundamenta
a essência do primeiro). É o mundo das Idéias imutáveis. Este é um mundo do
tipo que os Eleatas encontravam como próprio do Ser: é o reino da permanência e
da imutabilidade. No diálogo Fédon é clara a contraposição que
Platão faz desses dois mundos, sendo que o de baixo, aquele em que habitamos, é
caracterizado pela precariedade, ao passo que o de cima, o verdadeiro, é um
mundo de luz e de perfeição.
4 – O mundo
sensível está submetido ao mundo das Idéias, tanto do ponto de vista ético,
quanto do ângulo ontológico. Ele só se estrutura por participação ou por imitação
do mundo verdadeira e plenamente existente das Idéias. São esses processos que
garantem a existência do mundo das coisas: elas existem, porque são
participação e imitação das Idéias. Em relação a este ponto, escreve Platão no
diálogo Parmênides, colocando em boca deste filósofo a teoria platônica
da participação e da imitação: “(...) – Dize-me uma coisa:
pelo que declaraste, admites a existência das idéias, das quais as coisas tiram
os nomes, na medida em que delas participam, a saber: a participação da semelhança
as deixa semelhantes, a da grandeza, grandes, e a da beleza e da justiça,
justas e belas? – Perfeitamente, teria respondido Sócrates” [4] .
5 - Do ponto de vista da forma segundo a qual conhecemos as realidades essencial e aparente que acabam de ser mencionadas, Platão formula quatro tipos de conhecimento, sendo que dois pertencem ao mundo visível e dois são próprios do mundo que somente é acessível ao espírito. Os quatro tipos são estes:
5 - Do ponto de vista da forma segundo a qual conhecemos as realidades essencial e aparente que acabam de ser mencionadas, Platão formula quatro tipos de conhecimento, sendo que dois pertencem ao mundo visível e dois são próprios do mundo que somente é acessível ao espírito. Os quatro tipos são estes:
- Aquilo que é perceptível indiretamente (exemplo: as sombras e os
reflexos dos espelhos).
- Aquilo que é perceptível diretamente (exemplo: os objetos materiais
e os seres vivos).
- Aquilo que é conhecido pelas ciências (exemplo: a matemática, a
qual, superando o suporte material – as figuras geométricas –, atinge um
conhecimento intelectual como o relativo aos teoremas universais).
- Aquilo que constitui o reino das Idéias e que é acessível à “razão
pura”, que está na base de todas as representações intelectuais.
6 - Ponto
central da doutrina platônica: a Idéia do Bem. Embora o Bem ocupasse um
lugar de destaque no pensamento de Sócrates (como valor ético que deve inspirar
ao cidadão), para Platão, no entanto, reveste-se de uma radicalidade maior: o
Bem é o fim almejado e o começo de todo ser, tanto do ângulo gnosiológico,
quanto do ponto de vista da ontologia. O Bem, segundo Platão, é o princípio
radical de todas as Idéias e se situa acima delas. É nele que se fundam as
Idéias de Ser e de Valor e, com elas, se instauram os fundamentos do mundo
inteiro. O Bem cria a ordem, a medida e a unidade do mundo. A respeito, frisa
O. Gignon: “Para Platão, a questão: por que o Bem? É uma pergunta que não faz
sentido. Podemos indagar por aquilo que há para além do ser, mas não podemos
perguntar acerca do que há a por trás do Bem” [5].
7 – O homem não
pode ter acesso ao conhecimento do Ser, senão à luz do Bem. Essa luz é,
para a razão humana, como o sol para os olhos. No entanto, é um sol que não
somente ilumina, mas que também garante a presença dos objetos iluminados no
Ser. Em A República, Platão afirma: “Podes estar seguro de que aquilo que
comunica a verdade aos objetos cognoscíveis e ao espírito a faculdade de
conhecer, é a Idéia do Bem (...)”.
8 – Sobre o
pano de fundo metafísico e gnosiológico que acaba de ser exposto, Platão
constrói a sua Física. O mundo da natureza é, segundo o filósofo no diálogo
Timeu
[6],
constituído da seguinte forma: “O mundo material do devir é instaurado por um
operário do mundo, um demiurgo, de
forma ordenada e conforme à razão (teleologia),
na medida em que ele o modela segundo o arquétipo das Idéias”. O mundo, assim,
constitui uma ordem harmônica, o que em grego se traduz pelo termo Cosmos. A matéria prima na qual é
concretizada a encarnação das Idéias é o receptáculo (déchoménon).
9 – Sobre as
bases metafísicas e físicas que acabam de ser mencionadas, Platão elabora a sua
Gnosiologia (ou Teoria do Conhecimento), inserindo os quatro tipos
possíveis de conhecimento no contexto da teoria acerca das faculdades
cognitivas da alma. Os tipos de conhecimento e as respectivas faculdades são os
seguintes, a começar pelos que se ligam ao mundo material e seguindo até
aqueles que o superam. O quadro a seguir sintetiza estas variáveis:
TIPOS DE CONHECIMENTO
I – Conhecimentos Visíveis, através de imagens (eikónes).
II- Conhecimentos de Totalidades Visíveis (fóa - hóla).
III – Conhecimentos Científicos Racionais, ou
Invisíveis Inteligíveis inferiores (mathémata,
noetá).
IV – Contemplação Intelectiva (eide).
FACULDADES DA ALMA
I – Sensibilidade (aísthesis)
e Imaginação (eikasía).
II – Opinião (dóxa)
e Crença (pístis).
III – Razão (dianóia)
equivalente da ratio, para os
Latinos.
IV – Intelecção (nous,
theoría), equivalente do intellectus, para os Latinos.
10 – A teoria
de Platão acerca do homem insere-se no contexto de sua doutrina acerca do
Conhecimento e do Ser, que foi sintetizada nos itens anteriores. Como se
torna possível, aos homens, a Contemplação Intelectiva, mediante o pleno
exercício da Intelecção? Esse tipo de conhecimento, o mais perfeito ao qual o
homem pode aspirar, não procede dos níveis inferiores de apreensão da realidade
(a partir do mundo sensível). Procede tal conhecimento intelectivo, no entanto,
de uma reminiscência da alma da sua passagem ou da sua proveniência do Mundo
Inteligível. Todo conhecimento intelectivo é, portanto, reminiscência ou anámnese.
A alma do homem, segundo Platão, contemplou as Idéias numa existência anterior,
mas as esqueceu depois da sua entrada no corpo. Nele, a alma vive encadeada.
A alegoria da
caverna, que Platão apresenta na sua obra A República [7],
ilustra essa situação da alma presa no corpo. Os homens são semelhantes a
prisioneiros encadeados no fundo da caverna, não podendo ver nada do mundo
real. Aquilo que eles tomam como a realidade são sombras de objetos fabricados
cujas silhuetas uma fogueira projeta sobre a parede da caverna. A anámnese é representada mediante a
visita que um dos prisioneiros faz ao mundo exterior, onde contempla os objetos
naturais e o sol, tal como eles são na realidade. As sombras e os objetos na
caverna correspondem à experiência sensível, ao mundo situado fora do
inteligível. A força que conduz o homem em direção à região do Ser e do Bem é Eros. Ele acorda, em nós, o desejo de
nos levantarmos até o conhecimento das idéias. No diálogo Banquete, Platão
caracteriza Eros como a busca filosófica
da beleza e do conhecimento. Ele estabelece, para os humanos, a ponte entre o
mundo sensível e o inteligível. Platão denomina de dialética o método que conduz à descoberta do mundo das Idéias, sob
o impulso de Eros. A dialética (ou a busca filosófica da
Beleza e do Conhecimento) ocorre na relação do eu com os outros homens, na qual
se concretiza o ato pedagógico (épimeléia)
de procurar a verdade que diz relação aos humanos, superando o conhecimento do
mundo físico.
Platão, certamente, herdou do seu mestre Pitágoras de
Samos (580-497 a.C.), a concepção bipolar do homem, como cindido entre dois
princípios irreconciliáveis, corpo (soma)
e alma (psyché). É herança
pitagórica, outrossim, a concepção segundo a qual a alma deve controlar o
corpo. A alma, substância homogênea que se compara às Idéias imutáveis e
eternas, justamente por essa sua característica elevada (que a coloca por cima
da matéria), está habilitada para conhecer o mundo dos Arquétipos e é capaz de
se movimentar por si própria. Platão afirma que a vida é característica
essencial da alma, não podendo ela, em consequência, admitir a morte.
A alma, por sua vez, possui três partes: a razão
(faculdade que é portadora da fagulha divina que os homens levam consigo), a coragem
(a parte nobre) e os apetites (a parte inferior). A razão
é simbolizada por Platão como o cocheiro que conduz o carro, sendo que a
coragem é o cavalo que obedece e os apetites são simbolizados pelo cavalo
rebelde. Três virtudes emergem, segundo o filósofo, dessas partes da alma: a
sabedoria (da razão), a perseverança (da coragem) e a moderação (dos apetites
controlados pela razão). No entanto, há uma virtude que, presente na alma,
permite ao homem estabelecer um equilíbrio harmonioso entre as três virtudes
mencionadas: ela é a justiça (dikaiosyne).
11 – A Política, para Platão, espelha a concepção
antropológica que acaba de ser resumida. O Estado repete a estrutura do
indivíduo. Platão deixa claro que entramos na ordem política, não por causa das
nossas virtudes, mas em decorrência das carências que nos afetam. O Estado,
para o filósofo, divide-se em três ordens[8]: a dominante, integrada pelos filósofos ou sábios (representantes da razão
e os únicos que são aptos para buscar a maneira justa segundo a qual os
cidadãos devem pautar a sua vida); em segundo lugar vem a ordem dos guerreiros (que são aqueles que
constituem a parte sensível da alma,
ou que representam a coragem) e a
ordem dos produtores, que
corresponde à parte sensível da alma
(artesãos, comerciantes, camponeses que devem garantir os bens materiais de que
a sociedade carece).
A educação deve ser conduzida rigorosamente pela
Cidade-Estado, a fim de garantir o máximo de eficiência e racionalidade na sua
defesa e na gestão dos assuntos públicos. A
educação para a cidadania (paidéia) deve abarcar a vida toda dos
cidadãos e contempla as seguintes quatro etapas: educação elementar pela música, a poética e a ginástica (até os 20
anos); educação científica, que
abarca: matemáticas, astronomia e ciência da harmonia (deve durar 10 anos); iniciação à dialética ou filosofia
(com duração de 5 anos); educação
política (que consiste na prática da gestão do Estado e que deve durar 15
anos). Após todas essas etapas, o cidadão poderia escolher entre o acesso ao
poder do Estado ou a Vida Contemplativa.
O filósofo cultuava um modelo de gestão total do Estado sobre os cidadãos,
segundo o qual o Rei Filósofo e os seus colaboradores deveriam prever todos os
aspectos da vida privada (concernentes às relações sexuais, à geração dos
filhos, à religião e à educação de jovens e crianças). A idéia seria garantir a
seleção dos melhores para a condução e a administração do Estado, bem como para
a sua defesa. A célula mater da
sociedade não seria, pois, a família, nem o clã, e passaria a ser o aparelho administrativo rigorosamente
controlado pelo Rei-Filósofo. A constituição
do Estado proposto por Platão seria, portanto, uma aristocracia, ou governo dos melhores. Na parte final da sua obra
política (que é constituída pela obra intitulada As Leis, escrita na
velhice), o pensador insistia menos no Rei-Filósofo e enfatizava o papel das
leis (corretamente entendidas pelos cidadãos), na estruturação do regime ideal.
12 – Caminho
pedagógico para a dialética: o diálogo. É através dele que os
homens encontram os conceitos que representam as Idéias. Estas vão se revelando
aos homens dialeticamente, sem
recurso à representação das coisas do mundo sensível. O diálogo entre os humanos possibilita a análise e a síntese dos
conceitos, bem como a formulação de hipóteses
que são examinadas e, logo, aceitas ou rejeitadas. Os personagens presentes nos
diálogos platônicos defendem, deliberadamente, posições opostas, com o objetivo
de examinar as teses, à luz das suas antíteses. Dessa oposição emerge a
verdade.
Sócrates é o personagem principal dos diálogos
platônicos (uma evidente homenagem de Platão ao seu mestre). A interpretação
dos diálogos insere-se numa dinâmica
dialética do pensamento, como foi frisado pouco antes. A estrutura dialogal da
sua obra possibilita ao pensador se esconder por trás da figura de algum dos
interlocutores. A temática tratada nos 25
Diálogos considerados autênticos
é variada: a questão da virtude (que é o ponto central dos diálogos de
juventude), passando pela problemática do conhecimento (Menon e Teeteto,
por exemplo), e chegando à política (A República, As Leis), bem como à
filosofia da natureza (Timeu).
A forma literária dos diálogos platônicos, certamente,
é um instrumento em mãos do pensador para realizar a ponte entre mito e lógos. No pensamento do filósofo, a estrutura da realidade
alicerçada no Sumo Bem e nos Arquétipos nele subsistentes, ocupa o lugar da
antiga teomaquia (ou combate entre os
deuses, que teria dado origem ao Cosmo). O diálogo
equivale, no pensamento platônico, ao rito, na estrutura mítica.
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SOUSA, Eudoro de. História e mito. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981.
[1] Cit. por Kunzman –
Burkard – Wiedmann, in: Atlas de la Philosophie, trad.
francesa de Desanti, Droit et alii,
Paris: Librairie Genérale Française,
1993, p. 39
[2] PLATÃO, Diálogos. (Tradução e
notas de J. Paleikat e J. Cruz Costa; seleção de textos de J. A. Motta
Peçanha). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 106.
[3] Cf. PAIM, Antônio. Roteiro
para o estudo da Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant. Juiz de Fora:
UFJF - Curso de Mestrado em Filosofia, 1984, p. 2, (mimeo.).
[4] PLATÃO. Diálogos – Volume VIII Parmênides
– Filebo. (Tradução de Carlos Alberto Nunes). Belém: Universidade
Federal do Pará, 1974, p. 26-27. Coleção Amazônica – Série Farias Brito.
[5] Cit. por Kunzman –
Burkard – Wiedmann. Atlas de la philosophie, ob. cit., p. 39.
[6] Cit. por Kunzman –
Burkard – Wiedmann. Atlas de la philosophie, ob. cit., p. 39.
[7] PLATÃO. L´État ou la République.
(Tradução francesa de A. Bastien). Paris: Garnier, s/d, p. 271-275.
[8] PLATÃO. L´État ou la République.
(Tradução francesa de A. Bastien). Paris: Garnier, s/d, p. 86 seg.
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