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sábado, 17 de março de 2012

OLIVEIRA VIANNA: TIPOLOGIA SOCIOLÓGICA E MORFOLOGIA DO ESTADO AUTORITÁRIO

O sociólogo Oliveira Vianna, membro da Academia Brasileira de Letras
O pensamento sociológico de Francisco José de Oliveira Vianna (1883-1951) constituiu, junto com o de Lindolfo Boeckel Collor (1890-1942), o referencial estratégico que serviu a Getúlio Vargas para elaborar a sua proposta modernizadora do Estado e da sociedade brasileira, ao longo da década de 30 do século XX. A sociologia de O. Vianna constituiu o marco conceitual que abriu as perspectivas ao jovem deputado Getúlio Vargas (1882-1954), para compreender o alcance nacional da problemática social, superando o vezo provinciano que o jovem castilhista tinha herdado da sua formação no Rio Grande do Sul. Lindolfo Boeckel Collor e Oliveira Vianna representaram, também, o aspecto liberalizante das reformas de Vargas, que encontraram, de outro lado, elementos definidamente autoritários que influíram de forma marcante nos rumos absolutistas do Estado Novo, proclamado em 1937. Dois desses inspiradores autoritários foram, sem dúvida, Francisco Campos (1891-1968) e o general Pedro Aurélio de Góes Monteiro (1889-1956), o primeiro admirador do corporativismo de Mussolini e o segundo, um castilhista linha dura, que pretendia ver implantada no Brasil, indefinidamente, a ditadura científica comteana.

Oliveira Vianna não foi um observador abstrato da sociedade em que vivia. Participou, como acaba de ser mencionado, do amplo esforço modernizador e centralizador empreendido pelo Estado getuliano. Mas seria injusto reduzir a obra do pensador fluminense a um simples comentário tecido ao redor do élan autoritário da década de trinta. Oliveira Vianna pensou de maneira criativa o autoritarismo e a modernidade do Brasil e fez uma crítica sistemática aos extremos liberal-oitocentista e patriarcal-clânico em que naufragaram as nossas reformas desde o Império. Não se pode captar, de forma adequada, o alcance dos conceitos do sociólogo fluminense, sem atender para a sua metodologia de trabalho e para a sua idéia de cultura. Por isso, deter-me-ei nesses aspectos da sua magna obra, após ter feito a exposição dos principais traços biobibliográficos.

I - ASPECTOS BIO-BIBLIOGRÁFICOS DE OLIVEIRA VIANNA.

Francisco José de Oliveira Vianna nasceu em Saquarema, na antiga Província Fluminense, em 20 de julho de 1883, na Fazenda do Rio Seco, e faleceu em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, em 27 de março de 1951. O seu pai, fazendeiro, era a encarnação do paterfamílias. A propósito, frisa o biógrafo de Oliveira Vianna, Vasconcellos Torres: "A incontrastável autoridade do paterfamílias dava tons sublimes ao patriarcado. O núcleo larário tinha muito de templo. Um ambiente doméstico para melhor sobressair a solidariedade. A sociedade era a fazenda, a família e os agregados, cujos interesses fora do círculo parental eram ardorosa e fraternalmente defendidos pelo patrão" [Torres, 1956: 19]. Em que pese a sua natural inclinação pelo estudo da matemática, o jovem Oliveira Vianna viu frustrados os seus planos de ingressar na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Cursou, então, a Faculdade de Direito, tendo-se bacharelado em 1905. Integrou, a seguir, o corpo docente do Colégio Abílio, de Niterói, como professor de matemática. Já desde os últimos anos de estudos universitários colaborou ativamente no jornalismo: escrevia no Diário Fluminense, no jornal A Capital, e logo em outros como A Imprensa, O Paiz e a Revista do Brasil, de São Paulo. Praticamente não exerceu a profissão de advogado, tendo preferido se dedicar ao estudo dos problemas nacionais.

Através da atividade jornalística entrou em contato com Alberto Torres (1865-1917), de cuja amizade receberá forte impulso e influência intelectual para escrever o seu primeiro livro, Populações meridionais do Brasil - volume I: Populações do Centro-Sul, que terminou em 1918 e publicou em 1920. Em 1916 iniciou o seu trabalho como professor de Teoria e prática do Processo penal, na Faculdade de Direito do Estado do Rio de Janeiro (depois denominada de Faculdade de Direito de Niterói). Por esse tempo, era forte a influência de Ferri, cuja obra admirava o jovem professor, mais do ponto de vista sociológico do que puramente criminalístico. A partir da publicação do seu primeiro livro em São Paulo, sob os auspícios de Monteiro Lobato (com quem o nosso autor teve grande amizade), tornou-se conhecido a nível nacional e internacional. Sobre o primeiro volume de Populações meridionais do Brasil escreveu o argentino José Ingenieros: "Pelo seu método, pelas suas idéias, pela sua erudição, tem-me parecido uma das obras mais notáveis no gênero que até agora foi escrita na América do Sul".

A intuição em que se baseia a obra Populações meridionais consiste em identificar no latifúndio vicentista as remotas origens patriarcais da organização social brasileira. Esta evoluiria, consoante o nosso autor, no decorrer dos séculos XVIII e XIX até a consolidação do Estado Nacional no Império e o fortalecimento político das oligarquias regionais na República Velha. Oliveira Vianna dedicou as suas obras sociológicas ao estudo monográfico de aspectos essenciais dessa complexa realidade, nos seguintes livros: O idealismo da Constituição (1920), Pequenos estudos de psicologia social (1921), Evolução do povo brasileiro (1923), O ocaso do Império (1925), Problemas de política objetiva (1930), Formation ethnique du Brésil colonial (1932), Raça e assimilação (1932). Depois da Revolução de 1930 que levou Getúlio Vargas ao poder, Oliveira Vianna tornou-se consultor da Justiça do Trabalho. Graças a essa posição, o nosso autor influiu decisivamente na elaboração da nova legislação sindical e trabalhista. Assinale-se desde logo que a sua influência não foi apenas técnico-jurídica, abrangendo também o campo dos princípios. Como terei oportunidade de destacar mais adiante, Oliveira Vianna considerava o insolidarismo como o traço mais caraterístico dos indivíduos e dos grupos na sociedade brasileira, razão pela qual defendia o papel coactivo e educador do Estado, na formação do que ele chamava de um comportamento culturológico capaz de se sobrepor ao espírito insolidarista.

Desfrutando de uma situação em que poderia atuar nessa direção não deixou de fazê-lo, como se vê da parcela subseqüente da sua obra integrada pelos seguintes livros, que materializam o seu pensamento acerca desse segmento da atuação culturológica: Problemas de direito corporativo (1938), Problemas de direito sindical (1943) e a coletânea de ensaios intitulada Direito do trabalho e democracia social (publicada em 1951). Teve a formação católica de Oliveira Vianna algum peso na elaboração da sua obra no campo do direito do trabalho, como sugere Vasconcellos Torres? Provavelmente sim, embora de forma mitigada. Amigo de Getúlio Vargas, recebeu dele a indicação para ser ministro do Supremo Tribunal Federal; mas declinou o oferecimento. Alegara razões de idade para se dedicar ao estudo do direito civil e, além disso, manifestara a vontade de voltar aos seus estudos sociológicos. Foi-lhe oferecido, então, outro importante cargo, o de ministro do Tribunal de Contas da União, em 1940, que o nosso autor aceitou, movido em parte pelo fato de o novo cargo não lhe impedir a dedicação às suas pesquisas sociológicas. De fato, a circunstância permitiu-lhe dar forma acabada à sua meditação, notadamente mediante a complementação de Populações meridionais do Brasil, com a publicação do segundo volume, dedicado ao estudo do campeador sul-rio-grandense. Esta obra foi publicada postumamente em 1952. Outros escritos do período foram Instituições políticas brasileiras (1949), Problemas de organização e problemas de direção (1952), Introdução à história social da economia pré-capitalista no Brasil (livro publicado postumamente em 1958), História social da economia capitalista no Brasil, História da formação racial do Brasil e Ensaios (reunião de trabalhos esparsos do autor, como opúsculos e publicações em revistas especializadas). As últimas duas obras ainda não foram publicadas.

De índole pessoal tímida e pouco inclinada às manifestações públicas, o nosso autor praticamente não saiu da sua terra natal. Além de curtas viagens a São Paulo, a São José dos Campos e às Estâncias hidrominerais de Minas Gerais para tratamento de saúde, não se afastou do Rio e do cenário fluminense. Declinou atenciosamente os convites que lhe foram feitos em várias ocasiões; por Getúlio Vargas em 1928 para pronunciar uma conferência em Porto Alegre; pelo governador gaúcho Flores da Cunha, alguns anos mais tarde; pelo amigo Afrânio Peixoto, radicado em São Paulo. Igualmente, recusou o convite que lhe fez o chanceler Oswaldo Aranha, em 1944, para chefiar uma missão de estudos do Itamaraty ao Paraguai. Oliveira Vianna integrou a Academia Brasileira de Letras. Pertenceu também, como membro correspondente, às seguintes entidades culturais: Instituto Internacional de Antropologia, Sociedade dos Americanistas de Paris, Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Academia Portuguesa de História, União Cultural Universal de Sevilha, Academia de Ciências sociais de Havana, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, etc.

II - BASES GNOSEOLÓGICAS PARA O ESTUDO DA REALIDADE BRASILEIRA

Embora sempre tivesse observado rigorosa fidelidade em face dos conceitos relacionados ao papel e abrangência da sociologia e do direito, muito tardiamente, porém, o ensaísta fluminense preocupou-se com uma explicitação sistemática dos mesmos. Apenas em 1949, com a primeira edição de Instituições políticas brasileiras, Oliveira Vianna expôs sistematicamente as que podemos considerar como suas bases gnoseológicas para o estudo da realidade brasileira. Para que o leitor possa apreender de modo pleno esse aspecto de sua meditação, cumpre desdobrá-lo deste modo: 1) o primado da objetividade científica na obra de Oliveira Vianna; 2) a presença dessa objetividade na própria atividade intelectual do escritor; 3) a perspectiva gnoseológica de Oliveira Vianna: a culturologia do Estado num contexto pluridimensional; 4) os complexos culturais e a morfologia do Estado, segundo o ensaísta fluminense.

1) A questão da objetividade científica.- No prefácio à quarta edição da obra Evolução do povo brasileiro, (cuja primeira edição foi de 1937), Oliveira Vianna reage contra a forma unilinear de entender a evolução das sociedades, como se houvesse leis gerais que a comandassem. Acolhendo os conceitos de Gabriel Tarde, o nosso autor considera que existem múltiplas tendências na evolução das sociedades, e que é impossível reduzi-las a um único esquema. Existe, hoje, à luz das ciências sociais, o heterogêneo social de que fala Gabriel Tarde, contraposto ao homogêneo social de Spencer [cf. Vianna, 1956: 26-27].

No estudo das sociedades podemos encontrar, segundo Oliveira Vianna, multiplicidade de linhas de evolução e de fatores que intervêm nessas linhas. Para essa multiplicidade de tipos - frisa o nosso autor -, “(...) para essa variedade de linhas de evolução, para este heterogenismo inicial contribui um formidável complexo de fatores de toda ordem, vindos da Terra, vindos do Homem, vindos da Sociedade, vindos da História: fatores étnicos, fatores econômicos, fatores geográficos, fatores históricos, fatores climáticos, que a ciência cada vez mais apura e discrimina, isola e classifica. Estes predominam mais na evolução de tal agregado; aqueles, mais na evolução de outro, mas, qualquer grupo humano é sempre conseqüência da colaboração de todos eles; nenhum há que não seja a resultante da ação de infinitos fatores, vindos, a um tempo, da Terra, do Homem, da sociedade e da História. Todas as teorias, que faziam depender a evolução das sociedades da ação de uma causa única, são hoje teorias abandonadas e peremptas: não há atualmente monocausalismos em ciências sociais”.

Entre todos esses fatores e sem pretender ensejar uma explicação monocausalista, Oliveira Vianna considera de alta importância o elemento por ele chamado de ambiente cósmico, ligado basicamente às condições do solo. Acha que em seu tempo prevaleciam em ciências sociais os trabalhos monográficos, que tentam identificar os elementos específicos que intervêm em determinado meio cósmico. Esses trabalhos devem ter como ponto de partida uma única preocupação: conhecermo-nos a nós mesmos, deixando de lado as tentativas de acomodar a nossa realidade a modelos preexistentes. A respeito, Oliveira Vianna é taxativo em Evolução do povo brasileiro: "Desde o momento em que a ciência confessava a sua ilusão e reconhecia que as leis gerais, a que havia chegado, não correspondiam à realidade das formas infinitas da vida, compreendi que a melhor coisa a fazer não era insistir por encerrar a nossa evolução nacional dentro dessas fórmulas vãs ou querer subordinar nosso ritmo evolutivo a um suposto ritmo geral da evolução humana - ao evolucionismo spenceriano, como fez Sílvio Romero, à teoria filogenética de Haeckel como fez Fausto Cardoso, ou à lei dos três estados de Comte, como têm feito os positivistas sistemáticos. Pareceu-me trabalho inútil esforçar-me por descobrir nos acontecimentos da nossa história a revelação dessas leis gerais, de que a própria ciência acabava de instaurar o processo de falência. O mais sábio caminho seria tomar para ponto de partida o nosso povo e estudar-lhe a gênese e as leis da própria evolução. Se estas coincidissem com as supostas leis gerais, tanto melhor para a ciência e para nós; se não, ficaríamos, pelo menos, conhecendo-nos a nós mesmos - o que já seria alguma coisa, porque valeria o consolo de estarmos com a sabedoria dos antigos" [Vianna, 1956: 37].

Só assim, renunciando de início a qualquer esquematismo preestabelecido, é possível contribuir para a ciência social e para a materialização de uma política orgânica. Unicamente a história (e Oliveira Vianna segue aqui o pensamento de Ranke e de Mommsen) é capaz de nos ajudar a reconstruir as diversas fases evolutivas de um povo determinado, chegando assim a desvendar o seu modo de ser próprio. A preservação dos valores da Civilização do Ocidente no nosso meio dependeria desse trabalho de pesquisa histórica. Referindo-se aos nossos velhos historiadores, Oliveira Vianna salienta que lhes faltam dois elementos essenciais: o povo, que ele chama de massa humana e o meio cósmico.

Oliveira Vianna afirma que nesse trabalho de pesquisa sobre a nossa gente, inspira-se no mesmo espírito de objetividade e imparcialidade com que os técnicos agrícolas estudam, por exemplo, os problemas do café. A respeito escreve: "Estudando as nossas realidades históricas e sociais, o nosso povo, a sua estrutura, a sua psicologia, e a vida, a estrutura e a psicologia dos grupos regionais, que o compõem, faço-o com o mesmo espírito de objetividade e a mesma imparcialidade com que os técnicos do Serviço de Defesa Agrícola estão agora estudando a praga vermelha dos cafezais da Paraíba ou os sábios de Manguinhos estudaram, entre as populações do planalto e da costa, a função patogênica do necator americanus (...). O meu grande, o meu principal empenho é surpreender o Homem, criador da história, no seu meio social e no seu meio físico, movendo-se e vivendo neles, como o peixe no seu meio líquido" [Vianna, 1956: 50].

Essa preocupação com a objetividade científica, comprometida com a observação paciente de todos os detalhes do fenômeno social, tentando chegar a categorias que expressem aquela realidade, faz-se presente em todas as obras de Oliveira Vianna. Mesmo em pontos altamente discutidos e discutíveis - como na questão da superioridade organizacional da raça ariana - não podemos deixar de reconhecer um grande esforço de observação da realidade social. Ao expor, por exemplo, a progressiva arianização da população brasileira, o autor procura alicerçar todas as suas afirmações em dados estatísticos, hauridos dos recenseamentos oficiais [cf. Vianna, 1938: 127-165; 1956: 186-191]. E não deixa de reconhecer, com inegável sensibilidade de cientista, o caráter hipotético das suas afirmações, abertas sempre à discussão pela comunidade científica e ao confronto com a realidade [Cf. Vianna, 1956: 5-6].

2) Testemunhos biográficos.- Essa preocupação com a objetividade condicionou, aliás, a metodologia de trabalho do nosso autor. Segundo testemunho de seu biógrafo, Vasconcellos Torres, o sociólogo fluminense tinha uma definida disciplina intelectual: “Quem visse as pequeninas folhas de seu fichário, fichário no sentido de coleção porque as suas notas eram apenas amarradas num barbante e separadas por assunto, não suspeitaria que, na aparente desorganização com que se apresentava, possuíam extraordinária unidade. Ele sabia encontrá-las no instante preciso. De ver o carinho que nutria por esses papagaios, como os denominava. Quando começava a escrever o livro, a atividade era febricitante e ininterrupta. Na segunda leitura dos originais incluía ou retirava trechos e, digno de referência, era a papelada, um pedaço menor para outro duas vezes maior que uma folha de almaço, colada e com tiras laterais que mais pareciam serpentinas. A datilografia não representava o fim. O processo continuava. (...) De quando em quando examinava recortes de jornais que lhe interessavam, beneditinamente conservados numa pasta” [Torres, 1956: 79-80].

O autor de Populações meridionais não escrevia por escrever. Amadurecia pausadamente uma idéia, até que a encontrava suficientemente clara para divulgá-la. A carta que endereçou ao chanceler Oswaldo Aranha em 1944, recusando o convite que lhe formulara para chefiar uma missão do Itamaraty no Paraguai é bem significativa, porque revela, numa confissão autobiográfica, a medida do seu compromisso como intelectual: "O apelo de V. Exa. me encontra no momento justo, exato de um verdadeiro demarage literário: o do recomeço da elaboração de uma obra, cuja conclusão há pouco mais de dez anos fui forçado a interromper e que por sua vez representa o labor de vinte anos de intensas leituras e penosas pesquisas arquivais sobre o Brasil. São nada menos que quatro volumes, já compostos, embora em escorço grosseiro e despolido (...). Estes quatro volumes eu os havia composto no período que vai de 1924 a 1932, depois de ter concluído o primeiro das Populações meridionais e a Evolução do povo brasileiro (...). Não se admire, meu caro chanceler de ter eu tantos livros no estaleiro, elaborados, mas inéditos. É isto conseqüência do meu método um tanto extravagante de trabalho: planejando o livro, escrevo-o logo (...), sem lavor literário (...); feito isto guardo-o; e só depois de vários anos é que o retomo para os trabalhos definitivos de refusão, atualização e polimento" [apud Torres, 1956: 80].

Hélio Palmier, o último secretário particular de Oliveira Vianna, deu o seguinte testemunho acerca da rigorosa disciplina científica do mestre: "Seu método de trabalho era uma prova da sua probidade intelectual. Confessou-me, certa vez, jamais ter idéia preconcebida de escrever um livro. Anotava fatos ou observações em pequenos pedaços de papel - papagaios chamava-os - reunia-os, depois de certo tempo, e, verificando a interrelação dos fenômenos observados, deduzia fatos, estabelecia leis, e só então ia procurar os livros dos estudiosos - dos sabidos, como dizia. Ditava-me, então, os originais. Recebendo-os de volta, datilografados, na ânsia da perfeição recortava-os, emendava-os ou inutilizava-os, mandando-me fazê-los de novo; e repetia essa operação várias vezes. Elaborado o livro guardava-o, para, mais tarde, anos depois verificar se os fatos estavam a confirmar as suas teses. Caso contrário, eliminava, sumariamente, os pontos falhos. Na revisão das provas tipográficas, ainda não satisfeito, fazia alterações, acrescentava frases, suprimia parágrafos" [apud Torres, 1956: 80].

3) Perspectiva gnoseológica de Oliveira Vianna: a culturologia do Estado num contexto poliédrico ou pluridimensional.- Em Instituições políticas brasileiras Oliveira Vianna firma o que pode ser chamado de bases gnoseológicas para o estudo da sociedade brasileira. O autor salienta, em primeiro lugar, a presença do direito costumeiro do povo-massa. direito que é geralmente desconhecido pelos legisladores. A respeito frisa: "Há, por exemplo, um largo setor do nosso direito privado que é inteiramente costumeiro, de pura criação popular, mas que é obedecido como se fosse um direito codificado e sancionado pelo Estado. Quero me referir ao direito que chamo esportivo e que só agora começa a ser anexado pelo Estado e reconhecido por lei. Este direito (...) organizou instituições suas, peculiares, que velam pela regularidade e exação dos seus preceitos. Tem uma organização também própria de Clubes, Sindicatos, Federações, Confederações, cada qual com administração regular (...) e um Código Penal seu (...). Direito vivo, pois. Dominados pela preocupação do direito escrito e não vendo nada mais além da lei, os nossos juristas esquecem este vasto submundo do direito costumeiro do nosso povo (...)" [Vianna, 1974: I, 22-23]. Logo a seguir, na mesma obra, o nosso autor aponta outra manifestação desse direito costumeiro. Trata-se do que ele chama de direito social operário, que é caracterizado nos seguintes termos: "Todo um complexo de normas e regras (...), objetivado em usos, tradições, praxes, costumes, mesmo instituições administrativas oficiosas. Era todo um vasto sistema, que regulava as atividades (...), a vida produtiva de milhões de brasileiros, mas cuja existência os nossos legisladores não haviam sequer pressuposto. Sistema orgânico de normas fluidas, ainda não cristalizadas ou ossificadas em códigos; mas, todas provindas da capacidade criadora e da espontaneidade organizadora do nosso próprio povo-massa, na sua mais autêntica expressão" [Vianna, 1974: I, 27].

Exemplo desse direito social operário costumeiro seria o conjunto de normas práticas que nortearam, ao longo de quatro séculos, o trabalho marítimo e da estiva. Indica que os técnicos do Ministério do Trabalho, respeitando as tendências do povo massa, com muito bom senso simplesmente incorporaram esse direito ao texto legal. Acha ainda que preocupação idêntica orientou os técnicos do Ministério na elaboração da legislação sindical, embora não pretenda negar a inspiração forânea. Tema predileto do pensador fluminense seria justamente a afirmativa de que direito semelhante do nosso povo-massa vingou no campo constitucional. Ignorando que o nosso povo sempre teve o seu direito público próprio, costumeiro, a elite intelectual elaborou outro direito, teórico, que sempre entrou em atrito com o primeiro. Oliveira Vianna sintetiza assim os traços fundamentais desse direito público do povo-massa: "1) Na vida política do nosso povo, há um direito público elaborado pelas elites e que se acha concretizado na Constituição. 2) Este direito público elaborado pelas elites, está em divergência com o direito público elaborado pelo povo-massa e, no conflito aberto por esta divergência, é o direito do povo-massa que tem prevalecido praticamente. 3) Toda a dramaticidade da nossa história política está no esforço improfícuo das elites para obrigar o povo-massa a praticar este direito por elas elaborado, mas que o povo-massa desconhece e que se recusa a obedecer" [Vianna, 1974: I, 27]. E conclui assim, ligando a problemática política à mais ampla problemática do comportamento humano e da cultura, e assinalando o papel que corresponde a ele, como cientista social, nesse contexto: "O meu objetivo será, pois, (...) estudar o nosso direito público e constitucional exclusivamente à luz dos modernos critérios da ciência jurídica e da ciência política: isto é, como um fato de comportamento humano. Dentro desse critério, os problemas de reformas de regime, convertem-se em problemas de mudança de comportamento coletivo, imposto ao povo-massa; portanto em problemas de cultura e de culturologia aplicada".
Na linha de Ralph Linton, Donald Pierson, Baldus e Willems, Oliveira Vianna entende o termo cultura no sentido originário da palavra alemã Kultur, que os ingleses traduziram como culture e que a escola sociológica francesa entendeu como ethnographie. Esse termo refere-se ao meio social ou à formação social. O ensaísta fluminense esclarece que só passou a utilizar esse termo na última parte da sua obra (a partir de Instituições políticas brasileiras, que data de 1949) e explica assim a razão desse atraso: "É que, dominado, literariamente, pela preocupação do lucidus ordo cartesiano, sempre fugi, por sistema, nos meus escritos, às expressões demasiadamente técnicas, só acessíveis a mestres, a profissionais ou a iniciados, ou ainda não incorporadas àquela língua franca da ciência, de que nos fala Linton". Mas esclarece que passa a usar o termo cultura na acepção acima indicada, levando em consideração que em língua portuguesa já se encontra uma bibliografia suficiente para a correta interpretação sociológica do mesmo. Oliveira Vianna menciona a Introdução à antropologia social de Ralph Linton, bem como o Dicionário de etnologia e sociologia de Baldus e Willems, a revista paulista Sociologia e a obra Teoria e pesquisa em sociologia de Donald Pierson. (Convém esclarecer que o livro de Ralph Linton foi traduzido por Lavínia Vilela em São Paulo, em 1934, ao passo que a obra de Baldus e Willems foi publicada na mesma cidade em 1939, ano em que apareceu também em São Paulo a obra de Pierson). O sociólogo fluminense alerta, contudo, para o perigo de utilizar o termo cultura fora do sentido sociológico, como cultura intelectual, salientando que essa foi a dificuldade enfrentada por Fernando de Azevedo na sua obra intitulada A cultura brasileira.

Quanto à culturologia do Estado, especificamente, Oliveira Vianna frisa que esse é o aspecto que mais lhe interessa e que pretende ter desenvolvido na maior parte da suas obras, desde Populações meridionais do Brasil (1920) até Instituições políticas brasileiras (1949); trata-se, portanto, do que poderíamos chamar de objeto formal da sua sociologia, o aspecto específico sob o qual o pesquisador fluminense estuda a realidade brasileira. A culturologia do Estado salienta Oliveira Vianna, é especialidade assaz descuidada por parte dos etnólogos. Confessa ter encontrado alguma coisa sobre esse tema na Social anthropology de Radin, nos Principles of Anthropology de Carleton Coon e Chapple e na obra clássica de Goldenweiser. Contudo, frisa o nosso autor, "foram os franceses e não os americanos que me deram as melhores sugestões sobre este ponto, e o livro de Moret e Davy, Des clans aux empires (Paris, 1932) é o mais sugestivo trabalho que conheço sobre a genética do Estado". Em que pese o fato de Oliveira Vianna ter lido a obra de Max Weber [cf. Vianna, 1974: I, 93, 95, 114-115, 123-124, 291], não chega a se interessar, contudo, pelo estudo que o sociólogo alemão faz do Patrimonialismo, (tipologia que teria, aliás, encaixado perfeitamente nas categorias telúricas do nosso autor). Weber interessa a Oliveira Vianna sob dois aspectos especificamente: no estudo das comunidades de aldeia na Europa feudal, e na análise do oikós do faraó, que o ensaísta fluminense achava muito semelhante à autarquia econômica materializada no engenho real descrito por Antonil. Talvez o nosso autor achasse a categoria do Patrimonialismo weberiano alheia ao contexto americano, levando em consideração o fato de o sociólogo alemão ilustrar esse tipo ideal a partir das sociedades antigas, como a chinesa ou a egípcia. A aplicação mais larga do conceito de Patrimonialismo, de modo a situar nele o absolutismo ibérico pós-feudal seria feita muito posteriormente na análise de Wittfogel (Oriental despotism, Yale University Press, 1957).

Analisando as relações entre direito, cultura e comportamento social, Oliveira Vianna lembra que dos métodos enumerados por Jacobsen como utilizáveis no estudo da ciência política, do direito público e das instituições do Estado (histórico, comparativo, filosófico, experimental, biológico, psicológico e legístico), só apenas um tem sido aplicado no Brasil: o legístico, que "vê a sociedade política, apenas, como uma coleção de direitos e obrigações expressos em lei e tende a não levar em conta as forças sociais e extralegais, sem as quais, entretanto, não seria possível nenhuma explicação que corresponda aos fatos da vida do Estado" [Vianna, 1974: I, 33-34]. Quanto ao moderno método científico ou sociológico, que se caracteriza pela objetividade dos seus critérios, Oliveira Vianna supõe que, em geral, os nossos juristas o consideraram sempre como uma impertinência, continuando fiéis à metodologia de Rui Barbosa. O pioneirismo nesse campo é representado por Alberto Torres, Sílvio Romero, Euclides da Cunha e por ele mesmo. A respeito, o nosso autor escreve: "O segundo tipo de estudos - do direito como costume ou cultura - tem o seu primeiro padrão nos ensaios de Torres, começando com a pioneiragem de Sílvio e Euclides. Depois, no estudo sistemático e rigorosamente científico que, nos meus livros, venho fazendo da história e da sociologia das nossas instituições políticas e partidárias". Informa ter sido Sílvio Romero quem primeiro o influenciou desde 1900, quando ainda era estudante. O elemento mais importante dessa influência foi a revelação da escola lepleyana, cujo critério monográfico Oliveira Vianna achou então o mais apropriado para o estudo do povo brasileiro. O ulterior encontro com Alberto Torres (em 1914), quando o nosso autor já era bacharel em Direito, bem como o estudo dos sociólogos americanos e franceses, vieram aprofundar a herança recebida de Sílvio Romero e Euclides da Cunha.

Para Oliveira Vianna é um fato que o método sociológico aplica-se, cada vez com maior intensidade, ao campo do direito. A grande preocupação é com a objetividade, que ele entende assim: "Objetividade - eis o caráter que distingue esta fase moderna da ciência do direito, esta nova metodologia, esta nova atitude dos espíritos em face do fenômeno jurídico. Estudar a vida do direito criminal, do direito internacional com a mesma objetividade com que Lévy-Bruhl estudou as funções mentais nas sociedades primitivas, ou Radcliffe-Brown os ritos mágicos dos indígenas das Ilhas Adaman, ou Malinowski a vida dos insulares da Melanésia - eis o ideal do moderno estudo do Direito como ciência social, seja o Direito Privado, seja o Direito Público" [Vianna, 1974: I, 35]. A seu ver, nesse esforço de aplicação do método sociológico ao direito, têm sido de grande valor os trabalhos da Escola de Direito Comparado de Lyon sob a direção de Eduardo Lambert, bem como a contribuição da Nova Escola Americana de Jurisprudência (Holmes, Roscoe Pound, Benjamin Nathan Cardozo, Brandeis, Karl Llewellyn, Felix Frankfurter, Huntington Cairns, Max Radin, Jerôme Frank, etc.). Considera que a influência das ciências sociais (principalmente da psicologia social, da etnografia, da economia política, da antropogeografia, da culturologia) sobre o direito, tem contribuído para que esta disciplina se liberte progressivamente dos seus elementos apriorísticos e se torne uma autêntica ciência social, cada vez mais objetiva.

Como fazer - pergunta o nosso autor - um estudo do direito que possa ter peso científico? A resposta é simples: referindo-o aos comportamentos sociais. Isso porque (e aqui Oliveira Vianna segue o pensamento de Huntington Cairns na obra The Theory of legal science, publicada em 1941), as ciências sociais podem ser definidas como um tipo de conhecimento que tem como objetivo "o estudo do comportamento humano, tal como se manifesta em ações na sociedade". Se a base da cientificidade do direito é o comportamento social, conclui que ela será constituída não pelo direito escrito - como se considerou no Brasil - mas pelo direito costumeiro. A conseqüência que Oliveira Vianna tira dessa premissa é clara: no povo-massa reside a base objetiva da cientificidade do direito, por ser ele a fonte do direito público costumeiro. E conclui: "Em vez de um problema de hermenêutica constitucional, torna-se, assim, o estudo do nosso direito público e constitucional um problema de culturologia aplicada". Esta conclusão implica na realização de um aprofundamento no sentido da cultura e da sua influência como força determinante dos comportamentos individuais. A respeito deste ponto, o nosso autor critica, em primeiro lugar, o panculturalismo de Spengler, Schmidt e Frobenius, por se tratar de uma reação extremada contra o biologismo unilateralista, que reduzia a sociedade a um agregado de indivíduos. Oliveira Vianna critica a concepção panculturalista, em decorrência da concepção determinística do homem que a empolga.

Esse vício determinístico do panculturalismo provém do fato de considerar a cultura como exterior ao homem. Esse extremo corresponde, no entanto, a uma primeira fase da teoria culturalista. Entende que essa concepção, fundada na suposição de que a cultura transcende ao homem, teria sido substituída por uma visão que o nosso autor chama de imanência da cultura. As ciências têm mostrado que toda cultura se dá num contexto de reflexos condicionados por vários fatores, de forma tal que ela, também, está dentro de nós. A conclusão seria que a cultura, entendida desta forma ampliada, reconhecendo a existência independente da psique e da estrutura física dos indivíduos, não os aniquila, mas preserva, pelo contrário, a sua criatividade. As modernas pesquisas de cientistas como Malinowski, Mac Iver e outros, teriam demonstrado claramente as falhas do panculturalismo: estudando sociedades primitivas, tais pesquisas chegaram à conclusão de que as normas culturais vigentes em determinado meio têm um valor relativo quanto ao modo de sua execução. O qual demonstra a insuficiência do contexto dado pela cultura, para explicar, de forma exclusiva e sem recorrer a fatores diferentes, as variações de comportamento em relação à norma preestabelecida (culturalmente).

Oliveira Vianna expressa deste modo a sua divergência com os seguidores americanos do panculturalismo: "O meu ponto de divergência com os antropologistas da escola culturalista, Boas e seus seguidores, é que eles consideram a cultura como um sistema social que encontra explicação em si mesmo, ao passo que eu, embora aceite a concepção central da etnologia americana - do regionalismo das áreas de cultura – contudo, não aceito o panculturalismo desta escola, que quer tudo explicar em termos de cultura, até os fenômenos fisiológicos, e se recusa a fazer intervir, na formação e evolução das sociedades e da civilização, os fatores biológicos, negando qualquer influência ao indivíduo ou à raça e à sua poderosa hereditariedade". Na base da crítica do nosso autor está a firme convicção, repetidas vezes afirmada, "da importância que na elaboração das culturas e dos seus destinos, tem o homem, o seu temperamento, as suas idiossincrasias pessoais - o poliedrismo da sua personalidade" [Vianna, 1974: I, 57].

Em que pese as críticas feitas ao panculturalismo, Oliveira Vianna não deixa de reconhecer um alto valor heurístico à escola culturalista, quando desprovida dessa metafísica sócio-vitalista, que faz da cultura enteléquia responsável por tudo quanto acontece nas sociedades. Justamente, na medida em que um cientista como Ralph Linton consegue relativizar em alguma medida a função cultural, nos seus estudos sobre as relações entre personalidade e cultura é dada a esta variável a sua adequada dimensão, apesar da originária inspiração desse autor na escola culturalista. As possibilidades desta escola, aliás, estão chegando aos seus limites, afirma Oliveira Vianna. Pode-se fazer hoje a previsão de que "não está muito longe o dia em que a sociologia terá de reconhecer - na gênese das culturas e nas transformações das sociedades - não apenas o papel da hereditariedade individual e do grande homem, mas mesmo o papel da raça. Na verdade, tudo parece afluir para uma grande síntese conciliadora (...). O certo, porém, é que passou definitivamente a época dos exclusivismos monocausalistas" [Vianna, 1974: I, 70-71].

Em que termos se efetivaria essa síntese conciliadora? O nosso autor assim explica esse processo: "Em suma, o quadro clássico dos fatores da Civilização e da História se está restaurando. Em vez de uma causa única - meio só (Buckle), ou raça só (Lapouge), ou cultura só (Spengler, Frobenius, Boas) - a ciência confessa que tudo se encaminha para uma explicação múltipla, eclética, conciliadora: Raça + Meio + Cultura. Com estes elementos é que ela está recompondo o quadro moderno dos fatores de Civilização". Quanto ao tipo em que se inspira esta posição, Oliveira Vianna frisa: "É o que esperamos do trabalho científico feito sob a inspiração daquela integralist sociology, de que nos fala Sorokin e que concebe a realidade social como um complexo multifário (a complex manifold)". À luz dessa perspectiva conciliadora, ou melhor, segundo os termos usados pelo próprio autor, poliédrica, Oliveira Vianna entende a totalidade da sua obra como um esforço para aproximar-se desse grupo de fatores (Raça, Meio, Cultura), fazendo recair a ênfase em algum deles. Daí o caráter monográfico da sua obra. A respeito, afirma: "Nos meus livros anteriores, (...) tenho investigado todos esses grupos de fatores da nossa formação e da nossa evolução histórica e social: o meio antropogeográfico (clima e solo), os fatores biológicos e heredológicos (linhagem e raça) e os fatores sociais (cultura), embora com outra tecnologia. Retomo agora (em Instituições políticas brasileiras), depois de dez anos de forçada interrupção, estes meus estudos sobre a nossa formação social (...). Por agora, irei investigar neste volume, e de forma monográfica e especializada, unicamente o papel da cultura na formação da nossa sociedade política e na evolução e funcionamento do Estado no Brasil" [Vianna, 1974: I, 71-72]. O nosso autor conclui assim, salientando o caráter multidimensional da sua pesquisa: "É claro que, estudando a cultura, não irei estudá-la apenas no seu aspecto puramente geográfico, como é dos estilos; mas também (enquanto é) um complicado e delicado mecanismo que as sociedades humanas constroem, sob o condicionamento do Meio e da História, para selecionar, distribuir e classificar os valores humanos, gerados em seu seio pelas matrizes biológicas da Linhagem e da Raça".

4) Complexos culturais e morfologia do Estado.- Estes dois elementos formam parte, também, do quadro gnoseológico de Oliveira Vianna. Sem caracterizarmos o conteúdo de ambos os conceitos, não poderíamos proceder a uma interpretação do pensamento do sociólogo fluminense. Quanto ao conceito de complexo cultural, Oliveira Vianna frisa: "O complexo representa um conjunto objetivo de fatos, signos ou objetos, que, encadeados num sistema, se correlacionam a idéias, sentimentos, crenças e atos correspondentes. (...) É toda uma multidão de fatos, objetos, signos, utensílios, etc., que se prendem a usos, costumes, tradições, crenças, artes, técnicas, que, por sua vez, se prendem igualmente a idéias, sentimentos, condutas, tudo correlacionado com estes tópicos peculiares da atividade econômica: - e cada um destes tópicos forma um complexo" [Vianna, 1974: I, 74].

Em todo complexo cultural encontramos dois tipos de elementos: externos ou objetivos (fatos, coisas, signos, tradições), e internos ou subjetivos (sentimentos, idéias, emoções, julgamentos de valor, etc.). Os primeiros constituem os chamados elementos transcendentes da cultura, ao passo que os segundos são os seus elementos imanentes. A interrelação desses dois grupos de elementos é complexa. Oliveira Vianna a explica assim: "Estes elementos conjugados ou associados formam um sistema articulado, onde vemos objetos ou fatos de ordem material, associados a reflexos condicionados, com os correspondentes sentimentos e idéias. Estes elementos penetram o homem, instalam-se mesmo dentro da sua fisiologia: e fazem-se enervação, sensibilidade, emoção, memória, volição, motricidade. Os quadros mentais do indivíduo se constituem de acordo com estes complexos: estes lhes dão das coisas e do mundo uma representação coletiva, como dizia Durkheim. Tanto que já se começa a lançar os fundamentos de uma nova especialização científica: a sociologia do conhecimento de que a obra de Mannheim é, decerto, um belo exemplo". Do ponto de vista psicológico, portanto, um complexo cultural é um sistema idéio-afetivo, do qual se derivam atitudes ou comportamentos com projeção social, numa sincronia de sensibilidades, emoções, sentimentos, preconceitos, preferências, repulsões, julgamentos de valor, deliberações, atos omissivos ou comissivos de conduta. O nosso autor chama a atenção para um fato importante: quando se pretende mudar um determinado complexo cultural a nível exclusivamente objetivo (promulgando, por exemplo, uma nova constituição em nome de Deus ou do povo), as possibilidades de sucesso de tal mudança são mínimas, pois a ela opor-se-á o elemento subjetivo ou imanente (sentimentos, crenças, preconceitos, praxes seculares dessa comunidade humana). Por isso, salienta Oliveira Vianna, têm fracassado tantas reformas no nosso meio latino-americano: porque os reformadores, imbuídos de espírito legalista, acham que mudando as leis vão mudar os hábitos da população, que permanece sempre alheia ao formalismo externo. Oliveira Vianna endossa a afirmação de Jung de que os traços culturais imanentes se transmitem pelo inconsciente coletivo, e "tudo é como se eles se imprimissem ou se contivessem nos genes das próprias raças formadoras".

Quanto à morfologia do Estado, Oliveira Vianna identifica quatro tipos: Estado-aldeia, Estado-cidade, Estado-império e Estado-nação. Faz uma detalhada análise do primeiro tipo, ilustrando especialmente o funcionamento das aldeias hidráulicas da Península Ibérica (seguindo a terminologia de Maurice Aymard), de acordo à exposição feita por Joaquim Costa na obra Colectivismo agrario en España. O nosso autor, contudo, considera isoladamente estas comunidades reduzidas, supondo-as verdadeiras democracias telúricas, sem enxergar o contexto mais largo do despotismo hidráulico que vingou na Península Ibérica durante a ocupação sarracena. Registra, é certo, as dificuldades enfrentadas por essas comunidades de aldeia, quando se defrontaram com o absolutismo pós-feudal, não só na Península Ibérica, mas também no resto da Europa. A impressão que se tem ao ler a morfologia do Estado elaborada por Oliveira Vianna, é que ele desconhece o fenômeno do feudalismo em toda a sua profundidade, especialmente no relacionado à passagem da organização feudal à moderna realidade do Estado. Não estabelece - ao contrário de Weber - uma diferenciação de tendências nesse surgimento do Estado moderno. Por isso, junta sem maior preocupação os Estados em que vingou a formação de tipo patrimonial aos Estados em que o poder patrimonial do monarca foi controlado, tendo surgido instituições de governo representativo. O seguinte trecho de Oliveira Vianna, referido indistintamente a todos os países da Europa, exprime de forma clara essa confusão: "Estes grandes Estados imperiais não se assentavam, porém, sobre bases democráticas - ao modo dos Estados-aldeias ou dos Estados-cidades das épocas anteriores. Neles, o soberano não era o povo, como havia sido antes e como veio a ser depois; mas, o Rei. Este Rei tinha um caráter místico ou religioso nos predicamentos da sua investidura: era um soberano carismático; quer dizer: por sua graça divina. Deus o havendo escolhido e consagrado para esta missão, era em nome de Deus que ele, Rei, governava os povos. Por força desta designação divina é que ele exercia os poderes do Estado: o Poder Executivo, o Poder Judiciário e o Poder Legislativo. (...) Em síntese: O Estado-império que governou e administrou a Europa até a Revolução Francesa, era uma organização de estrutura nitidamente aristocrática. O Rei, soberano por graça de Deus, dirigia a Nação e a administrava, rodeado de uma casta nobre e privilegiada, com direito de exclusividade ao exercício do governo e de todos os cargos públicos. Esta nobreza irradiava das Cortes e dos bastidores palacianos para todos os postos administrativos das Províncias e dos Municípios, bem como para as longínquas colônias d'além-mar, integrantes do Império. E foi o que ocorreu aqui durante o período colonial (1500-1822)" [Vianna, 1974: I, 104-106].

O nosso autor ignora aqui a Revolução Gloriosa (1688) que ensejou, na Inglaterra, o primeiro ensaio sistemático de governo representativo e deu origem à monarquia constitucional. Esta experiência, e não a Revolução Francesa foi, certamente, o núcleo de inspiração da filosofia política liberal. E constituiu a primeira tentativa bem sucedida de pôr um freio ao fortalecimento do Estado Patrimonial. Oliveira Vianna identifica como primeiro Estado-nação a França. Tal Estado, para ele, é de origem muito recente. A respeito frisa: "O mundo civilizado só o viu aparecer depois da Revolução Francesa, com o reconhecimento do princípio da soberania do povo e o advento das democracias européias". A limitação da perspectiva escolhida por Oliveira Vianna na sua análise do Estado moderno, condicionou o seu estudo sobre a realidade brasileira. Ao passo que valoriza a democracia como um desejo da Nação, no momento da escolha de alternativas concretas para materializar esse ideal, o sociólogo fluminense voltar-se-á para os exemplos em que, no seu sentir, materializou-se realmente a democracia: O Estado-aldeia e o Estado-cidade da Antigüidade. A sua visão do Estado moderno terminou sendo polarizada por uma das formas que este assumiu historicamente: o Estado Patrimonial.

Conclusão.- Apesar das deficiências teóricas que afetam a análise de Oliveira Vianna sobre o Estado Moderno, uma coisa é certa: o pensador fluminense rejeita e supera definitivamente o monocausalismo sociológico que vingou nas diversas teorias de inspiração cientificista acerca da formação social brasileira, ao longo do século XIX e ainda no século XX. Um outro mérito inegável é a rica tipologia sociológica com que soube ilustrar a organização política do Brasil, desde a Colônia até o século XX. Ninguém que pretenda fazer um estudo sério sobre a evolução sócio-política brasileira, poderá se dar ao luxo de ignorar conceitos básicos da sociologia de Oliveira Vianna, tais como os de povo-massa, homens de mil, clã parental, clã político, clã eleitoral, solidariedade de família senhorial, responsabilidade coletiva familiar, sinecurismo parlamentar, burocratismo orçamentívoro, etc. Justamente o espírito científico do pensador fluminense se revela no rigor metodológico por ele seguido no processo de formulação dos conceitos sociológicos, extraídos, como vimos, de uma rigorosa observação dos fatos sociais e do confronto com os dados da experiência. Tendência salutar, hoje mais do que nunca extremamente necessária, em face da perniciosa ideologização das ciências sociais. Por todos esses motivos, mas principalmente pelo fato de ter inserido a sociologia brasileira na rica corrente do culturalismo sociológico, prolongando a tendência ensejada por Sílvio Romero e continuada por Alcides Bezerra, a figura de Oliveira Vianna é sem dúvida pioneira no hodierno pensamento social e político brasileiro. Nada mais justo às vésperas das comemorações pelos 130 anos do seu nascimento do que lembrar, como acaba de ser feito, os traços marcantes da idéia de cultura de Oliveira Vianna aplicada ao estudo do Estado.

BIBLIOGRAFIA

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VÉLEZ Rodríguez, Ricardo [1997]. Oliveira Vianna e o papel modernizador do Estado Brasileiro. (Apresentação de Antônio Paim). Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina.



VIANNA, Francisco José de Oliveira [1930]. Problemas de política objetiva. 1ª edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional.



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VIANNA, Francisco José de Oliveira [1938]. Raça e assimilação. 3ª edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional.



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VIANNA, Francisco José de Oliveira [1951]. Direito do trabalho e democracia social: o problema da incorporação do trabalhador no Estado. Rio de Janeiro: José Olympio.



VIANNA, Francisco José de Oliveira [1952]. Problemas de organização e problemas de direção: o povo e o governo. 1ª edição, Rio de Janeiro: José Olympio.



VIANNA, Francisco José de Oliveira [1956]. Evolução do povo brasileiro. 4ª edição, Rio de Janeiro: José Olympio.



VIANNA, Francisco José de Oliveira [1958]. Introdução à história social da economia pré-capitalista no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio.


VIANNA, Francisco José de Oliveira [1973]. Populações meridionais do Brasil - volume I: Populações rurais do Centro-Sul. 6ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra.



VIANNA, Francisco José de Oliveira [1974]. Instituições políticas brasileiras. 3ª edição. Rio de Janeiro: Record. 2 Volumes.



VIANNA, Francisco José de Oliveira [1987]. História social da economia capitalista no Brasil. (Apresentação e organização de Antônio Paim). Belo Horizonte: Itatiaia; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2 volumes.



VIANNA, Francisco José de Oliveira [1987]. Populações meridionais do Brasil. - 1º volume: Populações rurais do Centro-Sul; 2º volume: O campeador Rio-Grandense. 3ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia; Niterói: Universidade Federal Fluminense.



VIANNA, Francisco José de Oliveira [1991]. Ensaios Inéditos: reunião de trabalhos esparsos, opúsculos e publicações em jornais e revistas especializadas. (Apresentação de Marcos Almir Madeira). Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.




































































sexta-feira, 16 de março de 2012

AQ SAGA DO PENSAMENTO ESTRATÉGICO BRASILEIRO

Estátua do fundador do Reino de Portugal, Afonso Henriques (1109-1185), em Guimarães
Esta variante do pensamento político está presente, desde tempos remotos, na cultura luso-brasileira. Portugal desenvolveu, muito cedo, uma política de sobrevivência no meio de Nações mais fortes. Na partilha do Reino entre os filhos de Afonso VI (1039-1109), Rei de Leão e Castela e Imperador da Espanha, coube à herdeira do Condado Portucalense, Dona Teresa de Leão (1080-1130), filha bastarda, fazer valer os seus direitos contra as pretensões de Dona Urraca I de Leão e Castela (1081-1126), que pretendía se apossar das suas terras. Casadas as meias-irmãs com dois príncipes estrangeiros, Urraca com Raymundo de Borgonha (1070-1107) e Teresa com Henrique de Borgonha (1066-1112), houve uma negociação entre este e o seu tio, Guido de Borgonha (1050-1124), bispo de Vienne (cidade do departamento de Isère, na França), que em 1119 foi eleito Papa, em Cluny, (tendo adotado o nome de Calixto II), no sentido de que fosse garantida, pela Santa Sé, a independência do Condado Portucalense, em face das pretensões de Castela . Não há dúvida de que essa preocupação estratégica entrou no DNA político do fundador do Reino de Portugal, Dom Afonso Henriques (1109-1185), filho de Teresa e Henrique de Borgonha.

Ulteriormente, essa política de sobrevivência manifestar-se-ia nas medidas tomadas pelos Reis de Portugal, no sentido de costurar alianças que garantissem a independência do país em face das pretensões espanholas ou de outros reinos europeus, notadamente da França. Data do século XVII o “plano B” da Coroa portuguesa de transferir a capital do Reino para fora do continente, caso houvesse uma invasão por parte de outro Estado. Inicialmente tinha-se pensado na instalação da Corte nas Ilhas Açores, como capital de um Reino que, além de Portugal, abarcasse, também, o Pará e o Maranhão . Quando o general José Bonaparte (1768-1844) entrou na Península Ibérica, em 1808, pôs-se em funcionamento um plano desse tipo, com a transferencia da corte portuguesa para o Brasil, inicialmente para Salvador e, pouco depois, para o Rio de Janeiro.

Zelo estratégico especial tiveram os negociadores portugueses do Tratado de Tordesilhas (assinado entre Espanha e Portugal e ratificado pelo Papa Júlio II, em 1506), no sentido de, mediante hábeis negociações e falsificação de mapas, ir alargando a faixa que correspondía a Portugal, em direção ao oeste. Senso estratégico extraordinário acompanhou à idéia pombalina, no século XVIII, de ocupar a hinterlândia brasileira, mediante a transferencia da capital da Colônia para o Planalto Central, de onde pudessem ser atendidas todas as Províncias, colocando um tapume para a expansão castelhana, cujas Colônias ficaram confinadas nos Andes, ao ensejo da anulação definitiva do Tratado de Tordesilhas, em 1777, pelo Tratado de Santo Ildefonso. O plano pombalino de ocupação do Planalto Central voltou a ser acariciado pelo Patriarca da Independência brasileira, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), em 1821, e seria a idéia geradora da construção de Brasília, no governo de Juscelino Kubitschek (em 1961). Os mapas portugueses dos séculos XVI e XVII foram progresivamente empurrando a linha demarcatória do antigo Tratado para o oeste, de forma a garantir a posse, por Portugal, de vastas áreas que outrora eran reivindicação castelhana. A política de construção de fortes, no período pombalino, conserva esse mesmo espírito, de garantir a defesa dos limites das colônias portuguesas. Nesse contexto de um senso quase instintivo de sobrevivência coletiva, que garantiu a soberanía portuguesa entre vizinhos mais poderosos, inserem-se os primórdios do pensamento estratégico brasileiro.

Recolhendo a herança dos autores que pensaram o Brasil a longo prazo num contexto estratégico, ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX , destacam-se quatro pensadores na contemporaneidade: a professora Terezinha de Castro (falecida em 2000), o general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), o general Carlos de Meira Mattos (1913-2007) e o jornalista e sociólogo Oliveiros Ferreira (nasc. 1929). A estratégia brasileira, no decorrer do século XX, esteve marcada por um fator decisivo: o perfil autoritário incutido à República pelos positivistas. Assim, foram de cunho autoritário as formulações estratégicas efetivadas durante o longo ciclo getuliano (pela segunda geração castilhista) e durante o ciclo militar de 64 (que orbitou ao redor do modelo denominado por Wanderley-Guilherme dos Santos de “autoritarismo instrumental”). No entanto, em que pese o viés autoritário, firmou-se, definitivamente, a base modernizadora do Estado brasileiro, no ciclo getuliano e no período militar pós 64. No primeiro período, efetivou-se a integração política nacional, superando as divisões ensejadas pelas oligarquías estaduais. No segundo período (que corresponde ao ciclo militar), realizou-se a transformação do país em economía industrial e deu-se um passo definitivo rumo à integração nacional, mediante a modernização das telecomunicações e a abertura da malha rodoviária federal, sendo que se equacionou também, de forma pacífica, a abertura democrática, à luz do que o general Golbery denominava de “engenharia política”, com a volta dos exilados e a livre fundação de partidos políticos.

Não deixa de ostentar uma faceta autoritária a atual formulação da política externa, efetivada pelo regime lulo-petista à sombra da “diplomacia presidencial” praticada por Lula e por Dilma e norteada, inicialmente, pelo ex-ministro Mangabeira Unger (nasc. 1947) e, depois, pela geração de diplomatas terceiro-mundistas que tomaram conta do Itamaraty, embalados na retôrica gramsciana e na compulsão ideológica de um imaturo anti-americanismo , e que efetivaram grosseira simplificação do atual momento de globalização.

Podem ser identificados acertos na atual política brasileira, sendo o principal a decisão de formular uma Estratégia Nacional de Defesa que corresponda ao ideal democrático e à complexidade do mundo contemporâneo. Mas esta disposição não se coaduna com os aspectos negativos mencionados no parágrafo anterior, nem com a irracional sonegação, pelo governo, dos recursos a serem aplicados na realização da política traçada . Seria conveniente a formulação de uma estratégia que incorporasse, novamente, o controle, pela sociedade civil, do aparelho do Estado, mediante o revigoramento da representação parlamentar e a limitação da ingerência indebida do Executivo na legislação, como acontece com a prática das “medidas provisórias”. Esses ideais, de inspiração liberal, foram praticados pelos estrategistas do século XIX e deixados de lado no ciclo republicano.

A formulação de uma estratégia que incorpora o ideal democrático está presente, no entanto, nas inúmeras iniciativas da sociedade civil e de alguns órgãos das Forças Armadas, que menciono a seguir: em primeiro lugar, a criação do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa” da Universidade Federal de Juiz de Fora, em 2005; sobressaem, aquí, a contribuição dada por Expedito Carlos Stephani Bastos , com estudos acerca de tecnologia militar e história dos blindados brasileiros e por Aristóteles Rodrigues , com análises estratégicas que abarcam a variável psicossocial. Em segundo lugar, os Foros Nacionais, programados regularmente no Rio de Janeiro pelo Instituto Nacional de Altos Estudos, sob a coordenação do ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso (nasc. 1931). Em terceiro lugar, os estudos e eventos programados, no Rio de Janeiro, pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), sob a direção do embaixador José Botafogo Gonçalves (nasc. 1935). Em quarto lugar, os Encontros Nacionais de Centros de Estudos Estratégicos, programados, no Rio, pela ECEME, com a colaboração da ESG. Em quinto lugar, as atividades do Centro de Estudos e Formulação Estratégica do Exército, com sede em Brasília. Em sexto lugar, os seminários promovidos regularmente sobre temas estratégicos e políticos, pelo Instituto Millenium, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em sétimo lugar, os seminários desenvolvidos, no Rio de Janeiro, pela Academia Brasileira de Defesa (presidida pelo brigadeiro Ivan Frota). Em oitavo lugar, os colóquios e simpósios programados, no Rio de Janeiro, pelo Instituto de História e Geografia Militar (presidido pelo general Aureliano Pinto de Moura) e pela Academia Brasileira de Filosofia (presidida pelo professor João Ricardo Moderno).

No que tange às revistas e publicações especializadas, cabe mencionar as seguintes: Política e Estratégia, editada pela sociedade Convívio, em São Paulo, ao longo dos anos 80 do século passado (sob a direção de Adolpho Crippa e Antônio Carlos Pereira); a Revista de Ciência Política publicada pela Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, destacando-se, aquí, os trabalhos desenvolvidos pelo cientista político Octavio Amorim Neto; A defesa nacional, publicada regularmente no Rio de Janeiro pela Bibliex; Aeronáutica, editada no Rio de Janeiro, para o Clube da Aeronáutica, pelo coronel aviador Araken Hipólito da Costa; a Revista do Exército Brasileiro, publicada no Rio de Janeiro pela Bibliex; as diversas publicações sobre temas estratégicos, que regularmente realizam a Biblioteca do Exército, no Rio de Janeiro, bem como a Escola de Guerra Naval; a Revista de Economia e Relações Internacionais, publicada em São Paulo pela Fundação Armando Alvares Penteado; as inúmeras publicações realizadas sobre temas diplomáticos e estratégicos pelo IPRI (ligado ao Ministério das Relações Exteriores, em Brasília); as revistas eletrônicas Ibérica – Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos e Cogitationes , coordenadas por Alexandre Ferreira de Souza e Marco Antônio Barroso, do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da Universidade Federal de Juiz de Fora, etc.









segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

SÍRIA: DESPOTISMO E SANGUE

O cruel ditador sírio Bachar-el-Assad, com essa estranha figura de fuinha comprida, não engana mais ninguém: faz jus à tradição de despotismo oriental que está nas raízes da história dessa parte do mundo. Ao ensejo da “Primavera Árabe” foram caindo, como peças de dominô, os vários ditadores do lado africano do Mediterrâneo, bem como outros déspotas do Oriente Médio. Mas o único a permanecer, até agora, incólume, é o ditador sírio. Não porque o seu regime goze de ostensivo apoio popular. Mas porque, embora pertencente à minoria alauíta, ou talvez precisamente por isso, se escorou de forma decidida na utilização das armas para esmagar os movimentos de contestação ao seu governo. Nada que dure cem anos. Estou mais para a opinião de Barack Obama de que a questão síria não é se vai cair o ditador ou não, mas quando.

O apoio russo e chinês ao governo sírio, no seio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, decorre mais de cálculo estratégico das duas potências, no complexo xadrez do poder mundial. Ora, esse cálculo começará a sinalizar em outra direção, no momento em que a soma de desvantagens para os dois garantidores do regime sírio seja maior do que as vantagens calculadas inicialmente. Sem dúvida que uma das razões que pesa no apoio da Rússia e da China, diz relação às questões internas que os descontentes de origem muçulmana, nos dois países, têm colocado ao longo das últimas décadas. Uma posição favorável à Síria é uma mensagem direta a esses opositores: nem o Kremlin, nem Pequim estão dispostos a tolerar excessos das minorias muçulmanas, podendo adotar medidas de força contra elas, como as que Bachar-el-Assad tem posto em prática na Síria. (Medidas, aliás, tão brutais quanto as adotadas, anos atrás, por Russos e Chineses contra Chechenos e Uigures, respectivamente). Trata-se, sob este viés, de mais um desdobramento do despotismo oriental, que está na comum origem de Chineses, Russos e Sírios. “Dios los cria y ellos se juntan”. Poder-se-ia aplicar o ditado espanhol ao caso.

Mas lembremos um pouco a história da Síria, a fim de compreender melhor esse caráter violento dos alauitas (a minoria à qual pertencia Hafez Assad, o anterior mandatário, bem como o seu filho e hoje presidente, Bachar). No segundo milênio antes de Cristo já eram conhecidos pela sua violência os Hititas, que dominavam no que hoje é a Síria e a Anatólia (uma região da Turquia). O Império Hitita constituía uma das três grandes potências do mundo nos séculos XIV e XIII antes de Cristo (sendo as outras duas o Egito e a Babilônia). Ficou famosa na história a batalha de Kadesh entre Hititas e Egípcios, na qual as tropas de Ramsés II foram vencidas pelo príncipe hitita Hattosilis. O Faraó, que controlava rigorosamente a informação passada pelos seus escribas aos construtores oficiais, mandou que a versão fosse outra, ordenando um conjunto de inscrições que narravam encarniçado combate, em que os egípcios faziam alarde da sua magnanimidade para com os vencidos, tendo o Faraó recebido no seu harém a filha do soberano hitita Hattosilis III, a fim de selar a paz.

Um segundo momento memorável nessa história de despotismo foi o protagonizado por Seleuco, um dos “diádocos” (assim chamados os generais de Alexandre, que passaram a se distribuir o seu vasto império após a morte dele, em 312 a. C.). Famoso pela sua crueldade para com os inimigos e aqueles que lhe fizessem oposição, esse general fundou o vastíssimo Império Selêucida, que se estendia do Mar Egeu até o Afeganistão, tendo como capital a cidade de Antioquia. Memorável pela sua crueldade para com os judeus foi um dos sucessores de Seleuco, Antíoco IV Epífanes, que governou entre 175 e 164 a. C., e que mereceu ser citado pelo profeta Daniel em decorrência da “abominação desoladora” (Daniel 9, 26-27) que praticou em Jerusalém, ao destruir o templo e assassinar centenas de judeus, em 167 a. C.

Entre 64 a. C. e o ano de 637 da nossa era, a Síria foi província romana, uma das mais importantes por sinal, dado o seu caráter conflituoso. A relevância das províncias do Império era medida pelo número de legiões nelas sediadas. Ora, a Síria era uma das mais significativas, dado que nela permaneciam três legiões, sendo apenas superada pela Gália e a Germânia (com quatro legiões cada). A importância da Síria pode-se avaliar, também, pelo fato de um dos seus governadores, o general africano Septimio Severo, ter virado Imperador, em crudelíssimo golpe perpetrado pelas suas legiões contra os outros pretendentes ao trono, em 193. Ficaram famosas as perseguições dos governadores da Síria contra os cristãos, no primeiro século, que deram ensejo à reação doutrinária de São João no seu cifrado escrito com que culmina a Bíblia, o Apocalipse, no qual o Império Romano é comparado à “besta que vem do mar” (Apo. 13, 1).

Em 637, a Síria foi conquistada pelos muçulmanos e passou a sediar a mais importante unidade política destes, o Califado de Damasco, presidido pela dinastia dos Omíadas, muito menos tolerantes que os seus rivais da Dinastia Abácida, que terminaram se impondo em 750, tendo fundado em Bagdá a capital do seu Império. Lembremos que foram Tarik e Mussa, os capitães de Al Walid, califa de Damasco, os que efetivaram a sangrenta expedição do Norte da África, que culminou com a conquista da Península Ibérica pelos sarracenos, em 711. Mais adiante, em 1171, Saladino terminou unificando o mundo islâmico ao redor do Principado da Síria e do Egito.

A Síria foi incorporada ao Império Otomano (1299-1922). No final da Primeira Guerra Mundial, com a derrubada deste, o país passou ao domínio da França, que terminou privilegiando a minoria dos alauítas (de inspiração xiita), como forma de se contrapor ao movimento independentista árabe dos sunitas. Nos anos 70, Hafez Assad tornou-se presidente da Síria. O seu partido Baath atraiu muitos alauítas como militantes, devido aos seus ideais igualitaristas. O fato de constituir uma minoria na Síria fez dos alauítas, no poder, governantes extremamente violentos com a oposição. A inspiração xiita dos alauítas explica, de outro lado, a aproximação que o governo sírio teve, ao longo dos últimos trinta anos, com o regime dos Aiatolás do Irã. Explica, também, o favorecimento aos grupos terroristas praticado pela Síria. Tanto o radicalismo xiita quanto a longa história de violência que acabamos de expor, explicam a política de despotismo que o atual presidente sírio, Bachar-el-Assad, põe em prática, ao esmagar os seus opositores.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ÓRFÃOS DA REPÚBLICA

A Guerra do Contestado, que banhou de sangue o interior de Santa Catarina entre 1912 e 1916, mereceu recentemente um belo trabalho de jornalismo investigativo (Leonencio Nossa - Textos - e Celso Júnior - Fotos -, “Meninos do Contestado”, O Estado de S. Paulo, 12/02/2012, Caderno X, p. 1-14) que revela, de forma eloqüente, a forma excludente em que a nossa República se estabeleceu no seio da cultura patrimonialista. Euclydes da Cunha, no seu clássico Os Sertões, já tinha feito análise bastante completa do fenômeno de despotismo iluminista que presidiu a repressão republicana contra os esfarrapados camponeses de Canudos. A versão de Euclydes, aliás, ensejou bela criação literária efetivada por Mário Vargas Llosa, no seu romance La guerra del fin del mundo (1982).

Diferentemente do que indica a palavra “Res Publica” (Negócio Público), as nossas instituições republicanas consolidaram-se, ab origine, como entidades a serviço de interesses de uma parcela, não de toda a população. O chamado “povo” esteve ausente, já desde o dia proclamação, à qual, como dizia conhecido jornalista da época, Quintino Bocaiúva, assistiu “bestificado”. É claro que as nossas instituições republicanas foram preparadas por intenso trabalho de propaganda ideológica, (ao qual, aliás, dediquei livro intitulado: A propaganda republicana, 1ª. Edição, Brasília: Universidade de Brasília, 1982; 2ª. Edição, Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1984). Mas o modelo teórico no qual ancorou a ação dos “Clubes Republicanos” (que pulularam como cogumelos, nas últimas décadas do século XIX, do Pará ao Rio Grande do Sul), estava inspirado no pensamento de Rousseau, enquanto outra versão de República (como, por exemplo, aquela que se consolidou nos Estados Unidos da América) inspirava-se no modelo anglo-americano.

No modelo rousseauniano de República, encontramos as seguintes características: 1 - A organização republicana é entendida como unanimidade dos cidadãos ao redor do poder central encarnado nos “puros” (aqueles que renunciaram aos seus vis interesses individuais, para se devotarem totalmente ao bem público). 2 - A unanimidade é a força aglutinadora dos cidadãos, porquanto dela depende a felicidade dos mesmos, sendo o dissenso o caminho para a infelicidade de todos; por tal motivo, os dissidentes devem, simplesmente, ser eliminados. 3 - Todos os meios são válidos para os “puros” eliminarem a dissidência: desde as simples ameaças até o terror do Estado. 4 - A República é, eminentemente, assim, o “reino da virtude”, caracterizado pelo desinteresse de todos e a busca, exclusivamente, do “bem público” assinalado pelos “puros”. 5 - Rousseau, profundo conhecedor da “Democracia dos Antigos”, presente na polis grega e na cidade de Roma, inspirou-se no princípio do direito antigo, explicitado por Plutarco: “Non est civitas propter civem sed cives propter civitatem” (“Não está o governo em função do cidadão, mas o cidadão em função do governo”).

No modelo anglo-americano de República (que tinha como filosofia inspiradora o liberalismo de John Locke), encontramos as seguintes características: 1 - A organização republicana é entendida, como frisava Tocqueville em relação aos Estados Unidos da América, como “ação lenta e tranqüila da sociedade sobre si mesma. É um governo conciliador, em que as resoluções amadurecem longamente, discutem-se com lentidão e executam-se com maturidade. O que se chama República, nos Estados Unidos, é o reino tranqüilo da mesma maioria” (A democracia na América, trad. De J. A. G. Albuquerque, São Paulo: Abril Cultural, 1973). 2 - O consenso é a força aglutinadora dos cidadãos, sendo o dissenso o ponto de partida; para firmar o que tange ao bem comum, torna-se necessário conciliar os interesses dos cidadãos ao redor de alguns pontos essenciais para todos, o que implica na prática da representação e no fortalecimento do Congresso como órgão da representação popular. Após as contribuições teóricas de pensadores como Tocqueville e John Stuart Mill, a representação foi aperfeiçoada, de forma a dar voz, no Parlamento, à representação dos interesses das minorias. 3 - Somente são aceitáveis meios de ação do governo sobre a sociedade que estejam de acordo com a reta razão e que respeitem os interesses dos cidadãos representados no Legislativo (estes dois aspectos foram destacados por Immanuel Kant, no opúsculo A Paz Perpétua, como essenciais para a consolidação do ideal republicano). Para Locke, aliás, o Legislativo é o poder supremo. No modelo de república que vingou nos Estados Unidos, deve haver equilíbrio entre os poderes públicos, não podendo o Executivo, por exemplo, passar por cima das deliberações do Legislativo. 4 - A República é o reino do consenso ao redor do que é considerado essencial para o bem de todos. Como frisa Benjamin Constant em Princípios de Política, o “bem público” não é mais do que o bem dos cidadãos, do ângulo do que é considerado imprescindível na defesa dos interesses daqueles, no interior do corpo político. 5 - Tanto para os liberais anglo-americanos quanto para os doutrinários franceses e para o próprio Tocqueville, é superada a estreita visão da “Democracia dos Antigos” por este princípio da denominada por Constant de “Democracia dos Modernos”: “Non est cives propter civitatem, sed civitas propter civem” (“Não está o cidadão em função do governo, mas o governo em função do cidadão”).

No seio da dinâmica da sociedade patrimonial entre nós, estabeleceu-se, desde as reformas pombalinas, que o Estado é uma espécie de tutor dos cidadãos, que dele devem esperar tudo, até os meios de enriquecimento e o equacionamento das questões morais. A nossa República adotou o modelo rousseauniano atrás descrito. Na trilha desse despotismo iluminista, os positivistas completaram a tarefa, destacando o caráter tutelar do Estado sobre a sociedade, a fim de que os cidadãos renunciem aos seus interesses egoísticos e se entreguem totalmente à defesa do “bem público”, sob o comando dos “puros”, aqueles que renunciaram à defesa dos seus interesses particulares, para zelarem pelo “bem público”, identificado com a estabilidade das instituições republicanas, entendidas, à maneira de Rousseau, como “reino da virtude”.

Victor de Brito, na sua obra intitulada: Gaspar Martins e Júlio de Castilhos, estudo crítico de psicologia política (Porto Alegre: Livraria Americana, 1908, p. 48-49) explicava, assim, a forma em que deveria ser entendido o “Reino da Virtude” no seio a “ditadura científica” estabelecida por Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul: “A autoridade saída do consentimento geral dos povos não passa de uma fórmula grotesca, cuja impotência e incapacidade para a solução dos magnos problemas, oferecidos pela civilização hodierna, dia a dia se vão afirmando na consciência dos homens esclarecidos. A obsoleta democracia foi-se com a bancarrota da metafísica. A sociedade precisa ser regida pelas mesmas leis, submetida aos mesmos métodos primitivos das matemáticas e da biologia. Isso de soberania popular, de governo do povo pelo povo, são conceitos vãos, criados para estorvar a ação da autoridade no estudo das questões sociais, cuja solução só se deve inspirar na necessidade histórica e na utilidade pública”. Este foi o marco conceitual em que se consolidaram as nossas instituições republicanas, levando em consideração que, nos dois momentos de solidificação modernizadora das mesmas (os longos ciclos getuliano e do período militar), nada mudou essa visão tutelar do Estado sobre a sociedade. Tutela que, infelizmente, constitui ainda a mola mestra do modelo de República sindical imposto pelo PT. O cientificismo positivista travestiu-se de assistência tecnocrática, centrada na hipertrofia do Executivo.

Os órfãos da República não são mais hoje, certamente, os “meninos do Contestado” ou os esfarrapados combatentes de Canudos, liquidados, todos eles, pelos fuzis da República positivista. São os milhões de brasileiros que ficaram de fora do festim orçamentívoro que os donos do poder oferecem, hoje, às custas dos contribuintes. Para pagarem os seus impostos ao Leviatã, os cidadãos deste país devem trabalhar, praticamente, durante seis meses a cada ano. Esses são, hoje, os órfãos da República petista!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A VOVOZINHA-LOBO NA PASTA DAS MULHERES

“Eu fiz dois abortos e também digo que sou avó do aborto também porque por mim já passou” [da entrevista concedida por Eleonora Menicucci a Joana Maria Pedro, da Universidade Federal de Santa Catarina, em 2004].

Quando pensávamos que já tínhamos visto tudo em matéria de trambique patrimonialista neste governo de presidencialismo de coalizão, eis que somos presenteados com a vovozinha-lobo na Secretaria da Política para as Mulheres. A julgar pela longa entrevista transcrita por Reinaldo Azevedo no seu Blog (“A lenda da vovozinha vermelha que engoliu o lobo” e “Ministra das Mulheres confessa ter cometido crime na Colômbia”, 13/02/2012, Revista Veja), a titular da pasta está mais para a cruel velhinha que engoliu chapeuzinho e o próprio lobo, do que para funcionária qualificada e isenta, apta a presidir a mencionada Secretaria (que tem nível de Ministério). Tudo se resumiu, em matéria de exigências que a qualificassem para o cargo, ao fato de a candidata à pasta ter dividido a cela da cadeia com a presidente Dilma, nos tempos de aventuras guerrilheiras. Critério duvidoso e, a todas as luzes, insuficiente. Ressaltemos, de entrada, para prevenir as ladainhas da petralhada, que não se trata de preconceito contra uma mulher que teve compromissos com a esquerda radical. Trata-se, sim, de analisar os contornos das convicções políticas de uma pessoa que, ao ser guindada ao palco ministerial, é pública, deixando, portanto, de ser uma simples cidadã confinada à vida privada.

Causam espécie ao cidadão comum alguns itens do pensamento da nova Ministra. Em primeiro lugar, a sua convicção, revelada na entrevista mencionada (concedida em 2004 a Joana Maria Pedro, para a Revista IHV on line, da Universidade Federal de Santa Catarina), de que o que define a moralidade dos atos é o julgamento do “coletivo”, ou seja, do aparelho político, não a voz da consciência individual. A própria entrevistada deu um exemplo desse tipo de prática onde a pessoa simplesmente não conta: ela confessa que praticou um aborto simplesmente porque o “aparelho” no qual estava inserida mandou (ela militava no POC, Partido Operário Comunista). Ora, a moralidade é algo que se alicerça nos imperativos categóricos da pessoa, não nas consignas da praça pública, ou nas ordens do “coletivo”, seja ele o partido, o aparelho de agitação revolucionária, uma ONG ou a patota. Em segundo lugar, a senhora Eleonora Menicucci apresenta-se como praticante do aborto sem ser médica, tendo feito, na Colômbia, curso de AMIU (aspiração manual intra-uterina). Na longa entrevista, ela diz que o ideal seria que as pessoas leigas se capacitassem, no nosso país, para praticar o aborto em casa, mediante o citado método. Posição que fere a ordem legal existente no Brasil, onde o aborto é crime, fora os casos previstos em lei e quando praticado em hospitais por médicos credenciados (mediante autorização explícita da Justiça). O que não é o caso do aborto pregado e praticado pela senhora Menicucci e pela sua ONG “Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde”. Ao praticar o aborto nas condições confessadas por ela, simplesmente cometeu um crime, agravado pelo fato de incentivar publicamente, na sua ONG, a prática criminosa. Em terceiro lugar, a senhora Menicucci feriu os sentimentos de moralidade das famílias brasileiras, ao confessar aos quatro ventos que pratica uma sexualidade tresloucada com homens e mulheres, frisando que saiu de Belo Horizonte justamente porque os seus companheiros de ação política a achavam excessivamente “libertária”. Não se trata de censurar aqui a opção sexual dessa senhora. Trata-se, sim, de criticar a forma arrogante e inapropriada em que ela coloca as suas opções de vida privada, manifestando claramente a intenção de que se tornem normas de comportamento “revolucionário” no seio da sociedade. Explica-se, assim, certamente, a reação de setores evangélicos e do bispo católico de Assis, D. José Benedito Simão (Presidente da Comissão Pela Vida, no Estado de São Paulo) que enquadraram as declarações da senhora Menicucci como algo ofensivo às suas convicções religiosas. Mais do que uma proletária atitude de “épater le bourgeois” (“escandalizar a burguesia careta”), prevalece, nas declarações da mencionada senhora, o sofisma gramsciano de praticar a “revolução passiva” mediante a desconstrução dos valores burgueses, entre os quais a ordem familiar aparece como o primeiro empecilho para a hegemonia dos “intelectuais orgânicos”. Maluquice ideológica que somente pode ser sustentada por quem fez da ideologia marxista-leninista o seu credo particular. Opção que, certamente, não é a da maioria dos brasileiros. Por último, a senhora Menicucci diz professar um tipo de feminismo radical no qual a defesa dos direitos das mulheres está associada a uma proposta de “sexualidade revolucionária”, quando afirma: “E eu digo que a questão feminista é tão dentro de mim, e a questão dos Direitos Reprodutivos também, que eu sou avó de uma criança que foi gerada por inseminação artificial na mãe lésbica”. Ora, essa é uma versão de “feminismo” que não se compagina com os usos e costumes da nossa sociedade, onde ainda prevalece a prática da união entre um homem e uma mulher, como a forma básica de família. O que não significa, de forma alguma, negar os direitos das minorias sexuais. Trata-se, simplesmente, de reconhecer que esse respeito às minorias não se deve traduzir na aberração de que todo mundo vire minoria. A maioria conta! O direito das minorias sexuais tem um limite: ali onde começa o direito da maioria dos cidadãos que não pertencem a essa minoria. As convicções destes não podem ser desconhecidas e achincalhadas publicamente pelos que dizem pertencer à minoria.



A anomalia de que a moralidade não é questão de responsabilidade das pessoas, mas uma unanimidade a ser implantada, a ferro e fogo, pelo “coletivo” foi inventada, na modernidade, pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau (que, diga-se de passagem, não era nenhum exemplo de moralidade familiar, tendo abandonado os cinco filhos que teve com uma humilde lavadeira). Para o mencionado pensador, deveria ser varrido do mapa o indivíduo que defendesse os seus interesses particulares, a fim de substituí-lo pelo “homem novo”, aquele unicamente identificado com o “bem público”, que seria formatado pelos “puros” (aqueles que renunciaram à defesa dos seus interesses particulares, para se identificarem com o bem coletivo, raiz da felicidade geral da nação).



Conhecemos a linhagem desses “puros”: em primeiro lugar os jacobinos, na Revolução Francesa, que semearam o Terror com a guilhotina como corolário (que terminou por cortar as suas próprias cabeças). Em segundo lugar, os revolucionários de 1848 e 1870, na França, com as primeiras tentativas de um “governo popular” exercido por operários. O clima de terror implantado pelos agitadores profissionais foi genialmente descrito por Tocqueville na sua obra intitulada: Lembranças de 1848 (tradução de Modesto Florenzano, São Paulo: Penguin / Companhia das Letras, 2011). Em terceiro lugar, os bolcheviques, na Revolução Comunista de 1917, na Rússia, que ensejaram um dos mais sanguinolentos regimes totalitários de que se tem notícia, com milhões de vítimas. Em quarto lugar, os nazistas e fascistas, que pretendiam criar o “homem novo” ao ensejo do culto ao líder superior, à raça e ao estatismo. Em quinto lugar, os comunistas das várias nacionalidades, que seguiram, ao longo do tumultuado século XX, as diretrizes do comunismo internacional pregado por Moscou. Duzentos milhões de vítimas foi o saldo trágico dos que, pelo mundo afora, foram eliminados na implantação desse ideal de “homem novo”. Em sexto lugar, os comunistas latino-americanos da hora presente, que estimulados por Fidel Castro, Lula, frei Betto, as FARC, etc. no Foro de São Paulo, tentam reviver, hodiernamente, o cadáver insepulto do comunismo, numa anacrônica aventura que faz mergulhar muitos países da região nas sombras de um Patrimonialismo predatório capaz de empobrecer todo um continente. Entre eles, certamente se situam os nossos bravos militantes petistas e coligados, dos quais é expressão a senhora Ministra das Mulheres.

Estava informando aos meus leitores, no final desta matéria, que podiam consultar a íntegra da entrevista de Eleonora Menicucci no seguinte portal da Universidade Federal de Santa Catarina:

http://www.ieg.ufsc.br/admin/downloads/entrevistas/29092009-111002menicucci.pdf

Acabo de ver que o mencionado site tirou do ar a entrevista da senhora Menicucci, num ato de autocensura provocada evidentemente pela petralhada. Felizmente Reinaldo Azevedo tinha colocado no ar, dias atrás, no seu blog, a íntegra da matéria censurada. Palmas para o bom jornalismo que enfrenta com coragem a pressão do PT e coligados!