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sábado, 11 de outubro de 2014

ELEIÇÕES E VIRGINDADE POLÍTICA

A fundadora do movimento político Rede de Sustentabilidade, Marina Silva



O Movimento Rede de Sustentabilidade pronunciou-se repetindo o erro da Marina Silva nas passadas eleições: não sair do alto do muro, muito pelo contrário... Permanecer num estado de castidade total, sem se contaminar com as práticas políticas dos partidos. A nota da executiva do Movimento, publicada em 10 de Outubro, foi clara nessa indefinição: 

"Ser parte da polarização PT X PSDB é sepultar a luta por uma nova política. É também o sepultamento do projeto original da Rede Sustentabilidade, que nasceu com o propósito maior de estimular a emergência dos sujeitos autorais, dos indivíduos livres e conscientes, que não se dispõem a realizar suas mais legitimas aspirações e interesses no âmbito da velha, estagnada e conservadora política que tanto PT quanto PSDB representam e praticam".

Parte dos seguidores da Marina Silva, que aderiram a essa nota, voltam a praticar o mesmo erro da candidata nas eleições presidenciais de 2010. Como se fosse possível reformular a política sem entrar nela. Ora, o primeiro passo para alguém que se preocupa com a renovação da política, consiste em aderir a uma determinada sigla, ou em fundar um novo partido político, elaborar uma proposta que se contraponha à velha política e tentar atrair eleitores. Não adianta pretender se manter num estado de "virgindade política", como se definir interesses a serem defendidos pela sigla partidária fosse algo ignóbil. 

Na evolução política do Ocidente, sedimentaram-se, no contexto dos estudos sobre a realidade concreta, duas concepções de política. Em primeiro lugar, a tradicional, que foi formulada no século XIII por S. Tomás de Aquino e que é definida assim: "Administração desinteressada da res publica para o bem comum". 

Em segundo lugar, Nicolau Maquiavel, no século XVI, propôs a definição moderna de política, que reza assim: "Luta pelo poder, ou pela distribuição dos seus benefícios, entre Estados ou no interior de um Estado".

Max Weber, o maior estudioso da política ocidental no século XX, se perguntava se seria necessário escolher entre as duas concepções da política, ou se, pelo contrário, seria possível estabelecer um convívio entre as duas. O mestre alemão considerava que seria possível conciliar ambas as formas de entender a política. Só quem entrou na luta pelo poder e pela distribuição dos seus benefícios, conforme o receituário de Maquiavel, habilita-se para, se conquistado o governo, realizar o ideal tradicional da política de servir desinteressadamente aos concidadãos buscando o bem comum. De nada adianta ter idéias muito belas acerca da política, se não conseguirmos entrar nela para modificá-la. Como dizia, em termos um tanto chulos, lá pelos anos vinte do século passado, o general Setembrino de Carvalho, interventor Federal no Rio Grande do Sul para intermediar nas crônicas guerras civis entre pica-paus e maragatos: "político sem mandato é como puta sem cama".

Ora, na atual quadra da política brasileira nestas renhidas eleições, encontramos os dois posicionamentos identificados por Weber. O maquiavélico, ligado ao que os alemães chamam de Realpolitik e o tradicional, formulado por S. Tomás. 

O comportamento petista seria típico da atitude maquiavélica, que poderíamos sintetizar em poucas linhas com as palavras da minha amiga Maria Lúcia Victor Barbosa, que no seu mais recente artigo escreve assim: "No caso do PT, além de se orientar pelo seu marqueteiro que funciona com seu próprio modo de ser e sempre utilizou as seguintes táticas: a mentira, a intimidação, a repetição como mantras de certas ideias como aquelas que denigrem o oponente, a atribuição aos outros dos próprios erros, o incitamento ao ódio entre ricos e pobres e entre negros e brancos, o posicionamento petista como o único capaz de proteger e salvar os pobres e oprimidos. Enfim, petistas são maniqueístas: nós somos os bons, os demais são os ruins" (Maria Lúcia Victor Barbosa, "Deem ovos ao povo" – 10-10-14).

Já o grupo de Marina enquadra-se no contexto da visão tradicional de política, que a idealiza como algo que não pode ser realizado dentro de um determinado partido concreto, mas que será objeto da ação dos puros, que não se contaminaram com a sujeira da política cotidiana. Essa visão puramente ideal, angelical, diríamos, se conduzida aos últimos extremos, desaguará nos Comitês de Salvação Pública da Revolução Francesa, cortando cabeças de dissidentes e oponentes, como aconteceu na França ao longo da Revolução de 1789 e na década do denominado "Terror Jacobino". Cabeças rolaram na tentativa dos Jacobinos de fazer nascer o "homem novo", sem interesses materiais a defender. Consequência do receituário purista: a insegurança e o temor da morte violenta instalaram-se no seio da sociedade e os franceses só conseguiriam ver a paz, guiados pelo líder que os conduziu ao passado: o poder imperial de Napoleão Bonaparte, que instaurou um regime rigorosamente conservador, muito mais centralizador que a antiga monarquia, atualizando a definição de Luís XIV no século XVII: "L´Etat c´est moi" (Eu sou o Estado), numa nova concepção unipessoal de poder em nome das massas. 

O PT, paradoxalmente, que pretendeu encarnar a nova política, termina, nos seus momentos de grande confronto, acenando com essa visão unipessoal e maniqueísta de que os seguidores de Marina - e ela própria, pelo menos enquanto não se decide pelo apoio a um partido concreto - pretendem ser os porta-vozes. Os "sujeitos autorais", os "indivíduos limpos da velha e estagnada política" parece que só participariam se eles fossem os chamados, sem ter de passar pela luta político-partidária. Como salvadores vindos do céu.

Seria mais salutar para o Brasil, se os cidadãos que se organizaram na Rede de Sustentabilidade tivessem a humildade de se juntarem aos partidos que, nestas eleições, querem se contrapor à práticas nada republicanas de petistas e aliados, que conquistaram o poder em eleições, ao longo dos últimos doze anos, mas que não souberam se abrir a uma visão patriótica, que os levasse a gerir a res publica para o bem comum. Os petistas e os seus aliados só pensaram neles próprios e nos negócios espúrios que lhes garantiriam a hegemonia partidária. É contra isso que Aécio, o seu partido, o PSDB e os partidos que a ele se vincularam, tentam reagir nesta campanha.





domingo, 5 de outubro de 2014

SEGUNDO TURNO: PATRIOTISMO E BOM SENSO CONTRA NEOPOPULISMO

O Brasil desenvolvido que votou em Aécio Neves (em azul).
Felizmente Aécio Neves, do PSDB, elegeu-se, no final deste primeiro turno, como o candidato das oposições, para enfrentar, no segundo, dia 26 deste mês, a candidata oficialista Dilma Rousseff, representante da proposta neopopulista defendida pelo PT e demais partidos da base aliada. Aécio firmou-se, nesta primeira rodada, justamente nos Estados mais desenvolvidos da Federação, em São Paulo, no Centro-Oeste e na Região Sul. O Brasil desenvolvido aposta nele, por considerá-lo o melhor defensor de uma proposta democrática e modernizadora, com uma plataforma política e econômica responsável que porá freio aos desmandos cometidos pela petralhada, nestes doze anos de desgoverno e de populismo irresponsável. 

Ainda a opinião pública brasileira terá oportunidade de ficar estarrecida com a plena revelação dos meandros do Segundo Mensalão, o da Petrobrás, que irrigou o campo dos corruptos empresários e políticos comandados desde o Planalto e que conseguiu desviar dos cofres públicos uma soma que, a cada dia, sobe mais, sendo que hoje está calculada em mais de vinte bilhões de reais. Nunca se roubou tanto na história deste país! Se realmente a Justiça eleitoral funcionasse a contento, a candidatura da Dilma já teria sindo impugnada por abuso de poder econômico. Mas seria demais esperar que esse ramo da Justiça brasileira chegasse a tanto, presidida como está, para estas eleições, por magistrado que defende, antes de tudo, os interesses do PT.

Pelas frestas da estrutura patrimonialista do Estado falou mais alto, contudo, nas urnas, a opinião pública deste país, que ainda não está plenamente cooptada pelos donos do poder. Aécio denunciou claramente, ao ensejo dos debates para o primeiro turno, o estado lamentável em que o PT deixou a economia do Brasil, em decorrência do mau uso dos dinheiros públicos na prática da corrupção, do péssimo planejamento econômico carcomido pelas despesas desnecessárias causadas por um clientelismo irresponsável e da quase nula gestão pública que gastou mal as somas destinadas no orçamento para atender as demandas sociais de educação, segurança, saneamento básico e  saúde. 

O país está mal das pernas, com um crescimento econômico pífio e com a reputação internacional arranhada pela aventura gramsciana de aparelhamento ideológico do Itamaraty, para servir aos interesses tacanhos dos petralhas. Lula, Dilma e demais altos dirigentes do PT só pensam neles mesmos e acham que podem colocar ao seu serviço a tribuna da ONU, que a tradição diplomática franqueia aos Presidentes brasileiros, para que representem o nosso país na abertura oficial das sessões. 

Dilma simplesmente fez discurso de campanha eleitoral no respeitadíssimo recinto das Nações Unidas. Pior: alinhou-se com a escória mundial representada hoje pelos assassinos do Estado Islâmico, criticando o fato de as nações do mundo civilizado terem iniciado uma pressão armada contra eles, em decorrência dos crimes de lesa-humanidade que estão perpetrando. Os petralhas não têm educação cívica suficiente para entender que um momento como o do discurso do primeiro mandatário brasileiro no recinto da ONU era para representar o país, não para fazer arenga sindical de autoelogio partidário e muito menos para defender terroristas.

Nesta segunda fase da campanha presidencial, os cidadãos brasileiros de bem devemos cerrar fileiras ao redor do nosso candidato Aécio Neves, sem fazer concessões à grosseria e à truculência dos petralhas que, com certeza, estão dispostos a "fazer o diabo" para se manterem no poder. 

Se os partidários de Marina Silva querem efetivamente uma nova política para o Brasil, acompanharão Aécio Neves na segunda etapa da campanha, que levará o jovem candidato mineiro ao Planalto, para percorrer um roteiro sério e patriótico de reconstrução nacional.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

LIÇÕES DE UMA CAMPANHA CHOCHA

Aécio Neves, o meu candidato.
A primeira fase da campanha presidencial chega languidamente ao seu fim, envolta no nevoeiro das chuvas desta primavera incipiente. A característica marcante foi, a meu ver, a escassa empolgação que produziu na opinião pública brasileira, em decorrência, principalmente, dos tapumes que a legislação eleitoral vigente coloca à análise e discussão de propostas de governo. Seria necessário revê-la para que, futuramente, a campanha seja o que em realidade deveria ser: um debate livre entre os cidadãos e os candidatos, tendo como fulcro os programas de governo.

Considerada do ângulo dos vários candidatos, poderíamos frisar que a campanha não foi satisfatória, em decorrência do fato de que estes não expuseram, de forma clara, desde o início, programas de governo elaborados previamente. Consistiu, mais, numa briga de palanque, desenvolvida ao ensejo das conveniências de momento, ao sabor das circunstâncias e tendo como norte as pesquisas de intenção de voto.

A candidata oficial, Dilma, pecou por fazer da campanha simples espaço de propaganda, sem nenhum compromisso com a verdade e sem mostrar o mínimo respeito para com a inteligência dos eleitores, tratando-os como se fossem simples fichas manipuláveis pelos marqueteiros de plantão. Nada de expor, de forma clara e honesta, um programa mínimo de governo. Nos vários debates havidos ao longo destas semanas, Dilma foi grossa, mentirosa, chata e chegou até o desplante de utilizar o espaço tradicionalmente concedido na ONU ao primeiro mandatário brasileiro, ao ensejo da abertura oficial das sessões, para fazer da tribuna desse colegiado internacional simples palanque a serviço do seu partido. A maior parte do tempo da intervenção de Dilma girou ao redor da propaganda político-partidária, tendo-se dedicado a falar, para uma plateia que escutava com desinteresse, das façanhas e realizações que o PT teria consolidado em doze anos de desgoverno. 

Segundo vários analistas destacaram, a candidata do PT mostrou, mais uma vez, por que o Brasil da era lulopetralha é considerado, no espaço internacional, como um “anão diplomático”, ao ensejo do alinhamento da primeira mandatária brasileira ao lado dos terroristas do Estado Islâmico e contra os países que organizaram a reação armada, liderados pelos Estados Unidos. Dilma, em matéria de diplomacia e política internacional, segue as pegadas do seu mestre, Lula, que se alinhou célere, durante os seus dois governos, ao lado de ditadores e genocidas e iniciou a criminosa política de desmonte das tradições republicanas no Itamaraty. Vergonha internacional! A petralhada poderia ter-nos poupado dessa humilhação perante a Organização das Nações Unidas!

O candidato do PSDB, Aécio Neves foi, disparado, o melhor nos debates. Educado, objetivo, claro, respondeu às indagações dos seus interlocutores, sem cair na lengalenga propagandística cozinhada no fogão dos marqueteiros. Largou os punhos de renda costumeiros dos tucanos, nas oportunas e duras críticas que desferiu contra Dilma e o seu partido. Criticou a candidata do PSB pela forma açodada em que elaborou o seu programa de governo, costurando propostas socialdemocratas do PSDB com itens da cartilha socialista. Aécio revelou-se à altura da tradição mineira, como digno rebento do legado de Tancredo Neves.  Agradou aos seus seguidores, entre os quais eu me incluo. Mas não agradou o suficiente. Teve uma falha séria: deixou para os últimos dias da campanha a apresentação completa do seu programa de governo, dando a impressão de esperteza para não ser criticado e abrindo o flanco para que a candidata Marina Silva tomasse carona oportunista nas propostas tucanas. Ora, Aécio tinha meios de fazer, desde o início, uma apresentação objetiva de um programa de governo que o PSDB tem. Não bastava dizer, como frisou, que já era conhecido o receituário tucano. Era necessário, na campanha, apresentar o programa integral e explica-lo progressivamente, ao ensejo das circunstâncias propiciadas pelos debates. O PSDB tem excelentes economistas, cientistas políticos e sociólogos de renome internacional, a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Aécio pecou exatamente por mineirice, ou seja, por ter confiado demais na política de pé de ouvido, descuidando o debate aberto. Costurar alianças como fez o candidato Aécio claro que é importante. Mas as circunstâncias pediam coisas novas.

E a novidade consistia, certamente, nas várias propostas que o PSDB elaborou, ao longo das últimas décadas, nos terrenos econômico, das políticas sociais, das relações internacionais e das políticas culturais e que, atualizadas na aplicação oportuna às atuais circunstâncias, teriam elevado o tônus dos debates e satisfeito ainda mais o eleitorado. Como destacou a jornalista Dora Kramer, Aécio, enquanto senador, não entrou em cena oportunamente como verdadeiro oposicionista. Poupou o PT de críticas necessárias na tribuna parlamentar. Entrou em campanha como político respeitador do sistema, sem que a opinião pública o tivesse registrado, na sua memória, como opção crítica de oposição verdadeira e forte aos desmandos petralhas. A sua queda nas intenções de voto para Marina Silva decorreu, certamente, dessa falha.

A candidata Marina Silva foi guindada aos céus dos altos índices de intenção de voto pelo inesperado desaparecimento trágico de Eduardo Campos. O messianismo político é combustível de fácil ignição no cenário político. Não é necessário exagerar, contudo. Versões conspiracionistas tentaram potencializar os fatos, como se o candidato do PSB tivesse sido vítima de um plano diabólico da CIA, para colocar em destaque uma candidata que teria as bênçãos dos poderosos do planeta. Por essa trilha esotérica, poder-se-ia pensar que a agência americana teria treinado, no serpentário de Baal, o astuto réptil que induziu Adão e Eva a comer da fruta proibida, com a finalidade de instaurar a guerra entre os homens, a fim de favorecer, na trágica história humana, os fabricantes de armas. Marina não se explica por essas fantasiosas análises de pseudociência. Ela foi considerada pela opinião pública, sob os holofotes da campanha, como opção viável diferente da inescrupulosa petralhada. E, de forma inteligente e oportunista, pinçou elementos aproveitáveis da proposta tucana, no terreno macroeconômico e nas políticas sociais. Acertou em cheio. Mas, é pena, de forma temporária, como tudo que acontece sob o calor da emoção messiânica. Conseguirá, ao ensejo desse élan, chegar como a opção das oposições no final da campanha e nas urnas? Os fatos dirão.


Torço sinceramente para que, nesta última semana de campanha, o meu candidato, Aécio Neves, continue recuperando o fôlego e consiga chegar, na reta final da eleição presidencial, como o preferido do eleitorado para suceder Dilma no comando do Brasil. É, sem dúvida, a opção mais lúcida e a que melhor conseguirá pacificar um país bastante dividido pelos desgovernos do patrimonialismo petralha e pela estúpida campanha ideológica desenvolvida pelo PT. É a melhor opção para, depois do final deste lamentável governo, refazer a nossa economia, já bastante golpeada pela burrice estatizante e corporativa de três mandatos que foram infelizmente escolhidos pelo povo brasileiro que, decerto, pagará a conta – como já a está pagando – de tantos abusos e da cleptocracia que se apossou do Estado. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O MENSALÃO II E AS ELEIÇÕES

Dizia recentemente o candidato do PSDB à presidência, Aécio Neves, que o seu era um programa de governo que pouparia ao Brasil surpresas desagradáveis, em decorrência do nível de transparência que o caracterizaria e pelo fato de que a sua proposta de exercício do poder se situaria na linha de fazer do Estado uma instituição a serviço da sociedade e não um instrumento de enriquecimento de uma minoria às custas da Nação. Estava certo o candidato peessedebista. Chega de surpresas negativas! Se há uma coisa que está faltando na onda política dos governos lulopetistas, ao longo da última década, é transparência, de um lado, e de outro, espírito público que lhes teria permitido entender o Estado e o governo como instituições a serviço dos brasileiros e não como um negócio das arábias para o PT e coligados. 

A mais recente surpresa foi, como tem sido fartamente noticiado nestas semanas, a protagonizada pelo partido do governo, o PT, nas declarações feitas pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa, ao ensejo da sua delação premiada, que colocou na linha de tiro importantes figuras do mundo da política, citando os nomes de mais de trinta altas autoridades que teriam se beneficiado com a dinheirama roubada do Tesouro brasileiro. O Mensalão II, o da Petrobrás, é muito mais grave que o primeiro, tanto pela soma do dinheiro desviado (calculada em mais de 10 bilhões de reais), quanto pela estrutura da engenharia de corrupção montada e a duração do achaque aos cofres públicos, entre 2004 e 2012. Tudo, evidentemente, sob o comando impune da cúpula petralha que, no decorrer dos últimos meses esvaziou a CPI mista no Congresso, tendo-a colocado sob o rígido controle dos petistas, que céleres impediram qualquer revelação danosa ao partido, bolando até uma farsa de declarações previamente montadas nos bastidores do poder, com a finalidade de poupar os figurões da Petrobrás e do PT.

A manobra criminosa é semelhante à do primeiro Mensalão: garantir uma fonte de dinheiro para tornar possível a perpetuação dos lulopetistas e aliados no poder. Tudo pago, evidentemente, pelo contribuinte, ocultando da sociedade as articulações, os gestores e os beneficiários, bem como o montante do dinheiro surrupiado dos cofres públicos e os beneficiários da farsa. Façanha macunaímica do Novo Príncipe, o PT, que é capaz de cooptar todo mundo! 

A estrutura da ladroagem e do projeto de corrupção continuada é forte demais para passar desapercebida. Os historiadores do futuro, certamente, compará-la-ão ao ciclo pombalino, em que, ao redor do Primeiro Ministro português, o Marquês de Pombal, organizou-se copiosa fronda burocrática integrada por espertalhões partidários do governante patrimonialista, invadindo todos os espaços da aparelhagem estatal, constituindo, segundo os críticos da época, um verdadeiro "cupinzeiro" que corroeu, de dentro para fora, as entranhas do Estado português, empobrecendo brutalmente a população. Ora, desmontar o Leviatã patrimonialista é tarefa de séculos, como o mostra a história portuguesa. Somente no século XX e com a entrada na Comunidade européia, é que foi possível estabelecer, em Portugal, controles institucionais continuados sobre o núcleo do poder, a fim de que servisse a todos os cidadãos.

Raimundo Faoro, no seu clássico livro de 1958, Os donos do poder, deixou clara essa característica quase sempiterna do patrimonialismo tupiniquim, em palavras que parecem mais o anúncio de uma exasperante escatologia da malandragem, do que uma luz de esperança. Escreveu o saudoso jurista de Bagé: "A longa caminhada dos séculos na história de Portugal e do Brasil mostra que a independência sobranceira do Estado sobre a nação não é a exceção de certos períodos, nem o estágio, o degrau para alcançar outro degrau previamente visualizado. O bonapartismo meteórico, o pré-capitalismo que supõe certo tipo de capitalismo, não negam que, no cerne, a chama consome as árvores que se aproximam de seu ardor. (...) O estamento burocrático, fundado no sistema patrimonial do capitalismo politicamente orientado, adquiriu o conteúdo aristocrático, da nobreza da toga e do título. A pressão da ideologia liberal e democrática não quebrou, nem diluiu, nem desfez o patronato político sobre a nação, impenetrável ao poder majoritário, mesmo na transação aristocrático-plebeia do elitismo moderno. (...) O poder - a soberania nominalmente popular - tem donos, que não emanam da nação, da sociedade, da plebe ignara e pobre. (...) O Estado, pela cooptação sempre que possível, pela violência se necessário, resiste a todos os assaltos, reduzido, nos seus conflitos, à conquista dos membros graduados de seu estado-maior. E o povo, palavra e não realidade dos contestatários, que quer ele? (...) A lei, retórica e elegante, não o interessa. A eleição, mesmo formalmente livre, reserva-lhe a escolha entre opções que ele não formulou".

Assino embaixo da caracterização que fez recentemente Reinaldo Azevedo, do Leviatã patrimonialista engordado pela petralhada há dez anos no poder. Eis como o notável jornalista caracterizou o centenário monstro, ao ensejo do arroto mais espantoso que já se ouviu sair de suas entranhas, o Segundo Mensalão:

"O esquema da Petrobras, que chamo aqui de Petrolão, em tudo reproduz o mensalão. Não é diferente nem mesmo a postura do Poder Executivo, da Presidência da República. Dilma repete, ainda que de modo um tanto oblíquo, o conteúdo da frase célebre de seu antecessor: Eu não sabia, ainda que, no comando da Petrobras, durante os oito anos de governo Lula e em quase dois da atual gestão, estivesse José Sérgio Gabrielli, um medalhão do PT, o principal responsável pela compra da refinaria de Pasadena. Nada, nada mesmo, lembra tanto a velha política como a gestão miserável que tomou conta da Petrobras. Infelizmente para o país, o nome de Eduardo Campos, antecessor de Marina Silva na chapa presidencial do PSB, aparece no centro do escândalo. As falas de petistas e peessebistas se igualavam na desconversa até ontem. Nesta segunda, Marina Silva mudou um pouco o tom (...). Para arremate da imoralidade, um ministro como Gilberto Carvalho (...) vem a público para atribuir a corrupção desavergonhada ao sistema de financiamento de campanha. Segundo ele, caso se acabem com as doações privadas, isso desaparecerá. Trata-se de uma falácia espantosa. Ao contrário: se e quando as doações de empresas forem extintas, mais as estatais estarão entregues à sanha dos partidos. Escreverei isto aqui pela enésima vez: é claro que o PT não inventou a corrupção. Os larápios já aparecem em textos bíblicos; surgem praticamente junto com a civilização. Mas nenhum outro partido na história da democracia (e até das ditaduras), que eu me lembre, buscou naturalizar a prática corrupta como mera necessidade, como uma imposição dos fatos, como tática de sobrevivência. Até quando?" [http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/os-desavergonhados/  08/09/2014].
Se me fosse dado indicar um caminho seguro, no seio desta campanha de sobressaltos e denúncias bombásticas, indicaria o seguinte: que somente fiquem no páreo da disputa presidencial aqueles candidatos que não aparecem vinculados aos desmandos petralhas, tanto no primeiro, quanto no segundo Mensalão. Essa seria uma solução que estaria atenta à dignidade nacional e à preservação da boa fé que deve acompanhar os pleitos eleitorais. Como vamos votar em alguém sobre quem pairem dúvidas acerca da sua honestidade no trato da coisa pública? Somente assim não teríamos surpresas desagradáveis depois de uma eleição que os cidadãos de bem encaramos como uma faxina da casa.