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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O EMPIRISMO INGLÊS


Universidade de Oxford, a mais antiga da Grã Bretanha e onde repercutiu, mais do que em outras Universidades européias, a tradição do empirismo
A meditação filosófica inglesa pode ser caracterizada, como propôs Hegel (1770-1831), do ponto de vista da idéia ou leit-motiv que lhe é característico: a valorização da experiência. Desenvolverei, aqui, os seguintes pontos: Num primeiro bloco, que intitularei “Conceituação”, fixarei os aspectos básicos dessa idéia, que confere personalidade à filosofia inglesa. A seguir, em cinco blocos, analisarei o processo constitutivo da mesma, percorrendo várias etapas, desde a Idade Média até o século XIX. 

1 – Conceituação.
 
Não há dúvida quanto à valorização do conceito de experiência no pensamento inglês, já a partir da Idade Média. Hegel, nas suas Lições sobre a filosofia da história universal, frisava que “(...) os princípios abstratos e universais nada representam para os Ingleses, nem lhes dizem nada” [1]

Comentando a apreciação do pensador alemão, especificamente em relação ao campo do direito, escreve Martin Laclau: “Referindo-se à Idade Moderna, (...) Hegel não pode deixar de realçar, com certa admiração, o caso da Inglaterra, país dotado de uma forte singularidade, que apresenta características que o diferenciam das restantes nações européias que engloba sob a denominação genérica de mundo germânico. Assim, diz que a partir do momento em que foi conquistado por Guilherme da Normandia[2], este país beneficiou-se do singular privilégio de estar ocupado exclusivamente consigo próprio. E adiante, referindo-se ao direito inglês, nota que nele não há nenhum princípio universal, nem nenhum pensamento determinante. A Inglaterra, para ele, é o país da particularidade, dos direitos totalmente concretos. Evidentemente, este apego da mentalidade inglesa às singularidades da experiência e esta consideração não sistemática da realidade, não poderiam deixar de suscitar, num pensador como Hegel, atraído pelas altas abstrações da metafísica, um sentimento em que coexistem o interesse e certo sentido crítico, que o levava a falar do atraso em que se encontrava o direito privado inglês” [3]

Esse apego à particularidade leva o espírito inglês à valorização da experiência do singular para, a partir daí, pela via indutiva, chegar à generalidade. A respeito frisa Laclau:  “O pensamento inglês tem uma raiz empírica e indutiva. O Inglês é um povo que ama as suas tradições, especialmente apto para captar as facetas individuais e peculiares que apresentam os diversos fenômenos, com certo desdém pelas abstrações, que tendem a ser evitadas. Maitland[4], o grande representante da escola histórica do século passado [XIX], dotado de fina sensibilidade literária, que lhe permitia formular sínteses que se tornaram lugares comuns, dizia, referindo-se ao comportamento inglês, que este se caracterizava por continuar a esbarrar no modo empírico para, por fim, através de sucessivos enganos alcançar a sabedoria: stumbling forward in our empirical fashion, blundering into wisdom” [5].

À singularidade histórica apontada veio se somar, sem dúvida, a valorização da experiência por parte da ciência árabe, que difundiu no Ocidente a tradição experimental dos Gregos, bem como os conhecimentos matemáticos da Índia e da Pérsia, junto com uma forma de entender a religião que não atrelava a razão à fé. Foi notável, na emergência da ciência moderna, a retomada do saber antigo por parte dos estudiosos medievais, possibilitada pelas traduções das obras mais representativas, efetivadas por homens que freqüentaram as universidades espanholas (Toledo e Cordova). Entre esses estudiosos cabe mencionar Michael Scott[6] (1175-1232), Guilherme de Moerbecke (1215-1286), Geraldo de Cremona (morto em 1187), etc. A grande era das traduções, como lembra Edward Grant (nasc. 1926), “foi precedida pelo retrocesso dos muçulmanos na Espanha e a sua total derrota na Sicília ao longo do século XI. Com a queda de Toledo em 1085 e a captura da Sicília em 1091, uma Europa cristã dinâmica tomou posse de grandes centros de erudição arábica” [7]. Não podemos esquecer, aliás, outra janela de igual importância, por onde entrou o saber da ciência antiga na Europa: a Abadia do Mont Saint-Michel, na Normandia (França), que tinha ligações diretas com Bizâncio, sendo este mais um caminho para a elaboração de traduções das obras de Aristóteles e dos escritos remanescentes da Biblioteca de Alexandria [8].

2 – A valorização da experiência na obra de Robert de Grosseteste (1168-1253) e Roger Bacon (1220-1292) [9].
 
A Universidade de Oxford, surgida no final do século XII das escolas fundadas no século IX pelo rei Alfredo o Grande (849-899) constituiu, junto com a de Paris, o arquétipo da Universidade da Europa ocidental. Oxford se converteu rapidamente na caixa de ressonância mais importante na valorização da ciência experimental. Retomando a tradição da espiritualidade inglesa expressa na obra de Veda o Venerável (673-735), monge de Jarrou, norte da Inglaterra, que conciliava a fé com a observação científica num contexto de agostinismo mitigado[10], Roberto de Grosseteste, sagrado bispo de Lincoln em 1253, desenvolveu, na Universidade de Oxford, importante trabalho de valorização da ciência experimental. Como lembra Colin Ronan (1920-1995), Grosseteste ensinava que a ciência “começou pela experiência dos fenômenos pelo homem”, sendo que a sua finalidade consistia em: “(...) descobrir as razões para a experiência, encontrar suas causas. Então tendo descoberto as causas – os agentes causais - o próximo passo seria analisá-las, selecionando-as em suas partes ou princípios componentes. Depois disso, o fenômeno observado deveria ser reconstruído a partir desses princípios, com base numa hipótese, e finalmente a própria hipótese teria de ser testada e verificada – ou invalidada – pela observação. Esses eram pontos de vista importantes, e o procedimento recomendado era valioso, pois continha a base essencial de toda a ciência experimental” [11]

O mais importante discípulo de Grosseteste, o igualmente franciscano Roger Bacon prosseguiu na trilha da valorização da experiência científica, bem como da sua conciliação com a fé. Empolgado pelas observações de Euclides (330-275 aC.), Claudio Ptolomeu (90-168), Al-Haytham (965-1040) e do próprio Grosseteste, sintetizou as suas próprias conclusões no terreno da óptica, no livro intitulado Opus Majus (1267). Eis o teor evidentemente empirista de Bacon nesse trabalho, ao descrever a utilidade das lentes: “(...) Então podemos dar forma a corpos transparentes e arranjá-los de tal maneira com respeito à nossa vista e objetos de visão que os raios se curvarão do modo que desejarmos e no ângulo que quisermos; poderemos ver o objeto perto ou à distância. Assim poderemos ler as menores letras a uma incrível distância (...). Poderíamos também fazer, aparentemente, com que o Sol, a Lua e as estrelas descessem até aqui embaixo” [12].

Ao mesmo tempo em que Roger Bacon valorizava a experiência externa como ponto de partida da ciência, chamava a atenção para os obstáculos que se opunham a esta (autoridade fraca e inepta, hábitos antigos, opinião popular sem instrução, encobrimento da ignorância de alguém por uma aparência de sabedoria). O pensador atendia, também, à defesa da experiência mística interior, tão objetiva e válida quanto a externa [13]. Nessa remota origem deita raízes a valorização da experiência interna, que será retomada por John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776), bem como pela Escola Escocesa do Senso Comum e que chegará a influenciar os românticos franceses, notadamente Madame de Staël (1766-1817) e Benjamin Constant de Rebecque (1767-1830) e o nosso primeiro pensador pátrio, Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846), na defesa que faz da experiência da fé cristã [14].

3 – A valorização da experiência na crítica nominalista à Escolástica. 

Este momento da meditação filosófica inglesa esteve representado pela obra de Duns Scot (1270-1308) e de William Ockham (1280-1349). O primeiro firma a independência da razão em relação à fé – contrariando, nesse ponto a convicção escolástica da philosophia ancilla theologiae – e desenvolve a teoria da bipolaridade das essências, que não seriam apenas universais, mas também individuais. Como frisa Carlos Lopes de Mattos (1910-1993), esta teoria (chamada da haecceitas ou da estidade) “(...) afasta da filosofia a preocupação exclusiva com as essências universais e transcendentes e formula o início de uma concepção que atribui estatuto de ciência ao aqui e agora. Essa legitimação racional do individual e do imediato parece continuar a tradição inglesa, já evidenciada em Roger Bacon, de valorização da experiência” [15].

William Ockham, discípulo de Duns Scot, levou até as últimas conseqüências o processo de crítica à Escolástica, deflagrado com a teoria da estidade. Retirou dos universais todo fundamento ontológico, identificando-os somente com signos que serviriam apenas para designar um conjunto de semelhanças abstraídas das coisas. López de Mattos caracteriza, assim, as conseqüências que o nominalismo de Ockham trouxe para a filosofia ocidental: “A primeira era a transformação de toda ciência em conhecimento empírico dos indivíduos, posto que, por um lado, só eles constituiriam a verdadeira realidade e, por outro, porque os indivíduos são conhecidos principalmente no plano da experiência. Para Ockham, o conhecimento conceitual ou abstrativo é confuso e indeterminado, pois apreende apenas os caracteres comuns a vários objetos e deixa escapar o que eles têm de particular e que os distingue dos demais. Outra conseqüência do nominalismo consistiu no abismo criado entre o conhecimento científico (dos seres individuais, concretos, encontrados na natureza) e os domínios do pensamento religioso” [16].
Mont Saint-Michel, na Normandia (França), em cuja Abadia foram acolhidos e traduzidos para o Latim, textos antigos de Aristóteles e de pensadores da Escola de Alexandria

4 – A valorização da experiência na obra de Francis Bacon (1561-1626).
 
A tradição empirista inglesa ganhou uma primeira sistematização na obra de Sir Francis Bacon intitulada: Novum Organon (1620). A significação deste escrito do chanceler do Reino foi instrumental ou lógica, a julgar pela apreciação de Voltaire (1694-1778) que, nas suas Cartas filosóficas, escrevia referindo-se a Bacon: “A mais singular e a melhor das suas obras é hoje a menos lida e a mais inútil: refiro-me ao seu Novum Scientiarum Organon. É o andaime com que se construiu a nova filosofia; e quando esse edifício foi levantado, ao menos em parte, o andaime não serviu para mais nada” [17]

Se bem é certo que o conceito de natureza com que Bacon trabalha é bastante nebuloso, coube-lhe, no entanto, um duplo mérito: em primeiro lugar, ter assinalado o caráter concreto e observável das formas naturais (corrigindo, nesse ponto, a física aristotélica, que considerava a forma algo metafísico) e, em segundo lugar, ter formulado os procedimentos metodológicos a serem seguidos, com vistas a uma observação rigorosa e experimental das formas naturais. Bacon recolhia, assim, a melhor tradição britânica de valorização da experiência, presente no pensamento de Grosseteste, Roger Bacon e os nominalistas.

No trabalho em prol de assinalar a contribuição baconiana ao método experimental, destaquemos o seu ponto de partida e o ponto de chegada. Em relação ao primeiro, Bacon chama a atenção para os ídolos ou erros do espírito: idola tribus (ídolos da tribo, consistentes na preguiça mental que nos leva a tecermos generalizações sem prova empírica); idola especus (ídolos da caverna, erros originados pela inércia do costume): idola fori (ídolos da praça pública, palavras que contribuem a falsear o nosso conceito das coisas) e idola theatri (ídolos do teatro, procedentes do argumento dos grandes sofistas) [18].

Em relação ao ponto de chegada do seu método, Bacon destaca os socorros com que ajuda a razão a chegar a um resultado definitivo. Esses socorros consistem nas prerrogativae instantiarum (ou prerrogativas dos fatos), nas instantiae migrantes (ou fatos translatícios), nas instantiae ostensivae et clandestinae (ou casos em que a natureza está no seu máximo de revelação ou no seu mínimo), nas instantiae monodicae et deviantes (ou casos em que a natureza se revela de forma excepcional), nas instantiae divortii (ou casos que nos revelam, desunidas, duas naturezas ordinariamente unidas), nas instantiae crucis (ou fatos cruciais), nas instantiae lampadis (ou simples meios para alargar a nossa informação), etc. [19]
 
O fundamental da contribuição de Francis Bacon reside, portanto, na valorização do método experimental, que seria largamente valorizado na Inglaterra ao longo do século XVII, notadamente por parte de Robert Boyle (1627-1691), Isaac Newton (1642-1727) e em geral todos os cientistas que colaboraram no empenho da Royal Society de Londres (fundada em 1645), no sentido de elaborar o catálogo dos fenômenos da natureza. Essa circunstância, como diz Émile Bréhier (1876-1952), constituiu “um ensaio para realizar a primeira exigência da ciência baconiana: a história” [20]. A tradição de dar valor à experimentação, impulsionada e sistematizada metodologicamente por Francis Bacon, influiu decisivamente no abandono da perspectiva dinâmica na cosmologia, tendência que se firma a partir de Galileu (1564-1642) e Newton, em prol da adoção da perspectiva cinemática [21]. Já não se tratava de indagar pelas causas ocultas da natureza, mas de observar e mensurar os fenômenos, com a utilização do método experimental.

5 – A valorização da experiência na filosofia inglesa dos séculos XVII e XVIII: Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704), David Hume (1711-1776) e Thomas Reid (1710-1796). 

Os mais destacados pensadores ingleses do período compartilham este leitmotiv: a importância fundamental que atribuem à experiência como fonte de certeza. Isso aparece claro na antropologia de teor mecanicista que inspira o Leviatã (1651) de Thomas Hobbes (1588-1679). Na primeira parte do livro, o homem é apresentado como aparece para quem o observa com critério empírico: ele é dotado de uma dupla tendência a se apropriar aquilo que lhe convém e a rejeitar o que não lhe convém. O Estado, que na filosofia política antiga e medieval era concebido como decorrente de uma tendência natural do homem, é apresentado por Hobbes como ente artificial a ser construído pelos próprios homens. 

Já na introdução ao Leviatã afirma o filósofo: “Do mesmo modo que tantas outras coisas, a natureza (a arte mediante a qual Deus fez e governa o mundo) é imitada pela arte dos homens também nisto: que lhe é possível fazer um animal artificial (...). E a arte vai mais longe ainda, imitando aquela criatura racional, a mais excelente obra da natureza, o Homem. Porque pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado, ou Cidade (em latim civitas), que não é senão um homem artificial, embora de maior estatura e força do que o homem natural para cuja proteção e defesa foi projetado (...). Por último, os pactos e convenções mediante os quais as partes deste Corpo Político foram criadas, reunidas e unificadas assemelham-se àquele Fiat, ao Façamos o homem por Deus na criação” [22].

Fica evidente, assim, o caráter experimental (artificial, diz Hobbes), da política, tanto no plano de construir o Estado, como no que tange ao se conhecimento. Embora John Locke tivesse haurido inspiração em fontes medievais do pensamento político inglês e, através delas, tivesse recebido a influência aristotélica [23], não é menos certo o decisivo influxo que sobre o seu pensamento teve a tradição empirista de Francis Bacon, Robert Boyle e Isaac Newton. Nos seus estudos e trabalhos de medicina, outrossim,  o filósofo do liberalismo recebeu a influência do empirismo que animava a Thomas Sydenham (1624-1689) com quem, em 1668 e 1669, escreveu alguns opúsculos médicos [24].  

Podemos estabelecer um paralelismo de cunho empirista entre as duas grandes obras de Locke, O Ensaio sobre o entendimento humano [25] e os Dois tratados sobre o governo [26]. Assim como, a partir da experiência, podemos concluir que não há idéias inatas, a experiência igualmente nos mostra que não há soberanos inatos. Assim como os nossos conhecimentos devem ser construídos a partir de idéias simples, originadas da experiência (externa ou interna), o Estado deve ser efeito de uma ação humana. E essa ação é o pacto social, efetivado pelos cidadãos. Coube a Locke o mérito de ter deitado os alicerces epistemológicos e políticos para a nova sociedade inglesa que emergiu da Revolução Gloriosa de 1688. E esses fundamentos são calcados numa epistemologia empirista e numa filosofia política acorde com essa forma de conhecimento.
Abadia do Mont Saint-Michel - foto de 1865.



Claustro da Abadia do Mont Saint-Michel

No pensamento de David Hume, expresso fundamentalmente na sua Investigação sobre o entendimento humano [27], também aparece clara a valorização da experiência. Hume critica os dois extremos em que pode cair a filosofia: o da teoria abstrata desligada da vida, e o do espírito prático que somente olha para o dia-a-dia, menosprezando a teoria. A verdadeira filosofia, considera Hume, deve ser, como ele diz, uma “geografia moral” que nos permita classificar, com rigor científico todos, os elementos que integram a nossa faculdade cognitiva. Na busca de objetividade nesse tipo de reflexão, o filósofo formula a perspectiva transcendental: tudo quanto temos no nosso conhecimento é representação da realidade, não a realidade mesma. Portanto, o estudo que deve ser empreendido pela filosofia não é o da coisa em si, mas o da nossa faculdade cognitiva, no ato de construir as representações a partir de instâncias apriori chamadas por Hume de “hábitos”, que nos permitem associar idéias e elaborar juízos. Embora o nosso conhecimento possa se elevar até representações abstratas, para Hume não há dúvida de que todo ele provém da experiência (interna ou externa).

No caso de Thomas Reid (1710-1796), o mais importante pensador da denominada Escola Escocesa do Senso Comum, a fidelidade à experiência é uma constante, embora o seu pensamento tenha sido formulado no contexto de uma crítica abrangente à obra de David Hume. Reid, que ocupou a vaga que Adam Smith (1723-1790) tinha deixado em Glasgow como professor de Moral, escreveu três obras importantes: Investigação sobre o pensamento humano, acerca dos princípios do senso comum (1764) e Ensaio sobre os poderes intelectuais do homem (1788). Parte de uma crítica frontal à teoria de Locke, Berkeley (1685-1753) e Hume acerca das idéias. Eles aceitavam o pressuposto de que o objeto imediato do conhecimento é algo que está na alma e que recebe o nome de idéia, ou (como dizia Hume), de impressão. Por esse motivo, no sentir do pensador escocês, eles não conseguiram afirmar a existência de alguma realidade exterior à alma, da alma mesma, ou das relações entre as coisas. “As idéias – frisava Reid – parece que possuem na sua natureza algo que é hostil a outras existências” [28]. O filósofo de Glasgow coloca em dúvida a existência da idéia como objeto. “As idéias de cuja existência exijo a prova, não são as operações da alma, mas os objetos supostos dessas operações” [29]. Reid nega, a seguir, a existência dessas “imagens de objetos exteriores” na alma. 

O pensador escocês identificou, no contexto da experiência, certos princípios decorrentes da própria constituição da nossa natureza, aos quais dá o nome de “princípios do senso comum”. Por esse caminho, nitidamente experimental, Reid afirma a existência real da alma e dos objetos exteriores que Hume negava, no seu entender. Trata-se de uma espécie de vivência da nossa alma, que nos leva a aceitar a sua existência e a afirmar a dos objetos externos. O filósofo escocês retoma, sem dúvida, a trilha da “experiência interna”, aberta séculos atrás por pensadores de inspiração agostiniana como Beda, o Venerável e Roger Bacon.
 
6 – A valorização da experiência na filosofia inglesa do século XIX: Thomas Hill Green (1836-1882), Francis Herbert Bradley (1846-1924) e Bernard Bosanquet (1848-1923).
 
Nada mais adequado para mostrar o peso que a valorização da experiência tem na meditação inglesa do século XIX, do que expor, aqui, as idéias fundamentais dos idealistas britânicos. O contraste seria evidentemente menor se tivéssemos decidido, por exemplo, analisar o pensamento do teórico do utilitarismo, Jeremy Bentham (1748-1832) ou de um liberal que sofreu a influência do positivismo como John Stuart Mill (1806-1873). Eles, evidentemente, recolheram o legado empirista de Locke e Hume. 

Thomas Hill Green [30] foi o primeiro, em Oxford, a se consagrar exclusivamente ao ensino da filosofia. Tinha estudado a obra de Kant (1724-1804) e conhecia as idéias de Hegel. As suas principais obras foram a Introdução ao tratado da natureza humana de Hume (1874), os Prolegómenos à ética (1883) e as Lições sobre os princípios da obrigação política (1866), sendo que estes dois últimos livros passaram a integrar o currículo das Universidades inglesas alo longo dos cinqüenta anos seguintes.

Em que pese o fato da inspiração de Green em Kant e Hegel, o pensador inglês ultrapassa o ponto de vista estritamente crítico dos filósofos alemães. Isto se dá em função dos pressupostos de típico sabor empirista (herdeiros das teses da Escola Escocesa do Senso Comum), em que se alicerça. Valorizando a experiência do eu interno, ao criticar a modalidade do empirismo de Locke e de Hume, Green considera que: “(...) não poderíamos ter nenhuma experiência da continuidade e do desenvolvimento de nossas idéias e de nossas impressões, se não houvesse, em nós, um eu suscetível de efetivar a unidade que estabeleça a ligação entre o que se produziu antes com o que vem a seguir. Nada pode ser objeto da experiência fora da atividade coordenadora da mente” [31].

É interessante anotar, à margem da inspiração empirista de Green, a importância por ele atribuída ao Estado no controle da vida econômica. Certamente aí encontramos a influência hegeliana. Para Green, como frisa Harry Burrows Acton (1908-1974) [32], “(...) a ação governamental não pode tornar os homens moralmente melhores, mas pode dar-lhes os meios para conseguir isso por si mesmos”. Green sentou, assim, as bases, na tradição política inglesa, da crítica ao laissez-fairismo, que John Maynard Keynes (1883-1946) desenvolveu a partir da década de vinte do século passado.
Francis Herbert Bradley chegou a ser, no sentir de Harry B. Acton. “(...) o filósofo mais conhecido e mais discutido dos países de fala inglesa” [33]. As suas principais obras foram: Os pressupostos da crítica histórica (1874), Estudos éticos (1876), Princípios de lógica (1883) e Aparência e realidade (1893). Muito influenciado por Thomas Green, o seu pensamento representa uma original interpretação da filosofia hegeliana, do ponto de vista da valorização da experiência. Na sua última obra, o pensador inglês salienta os laços que unem o pensamento à realidade. Ao analisar a questão da aparência, Bradley examina conceitos como os de coisas, qualidades, relações, espaço e tempo, causalidade, eu e atividade. Esses conceitos, no sentir dele, implicam imposição de contradição entre si e não devem ser aceitos. O conceito de realidade, que abarca a noção de coerência, exclui esses conceitos situados no terreno da aparência. “Nosso critério – frisa Bradley – exclui a incoerência e postula (...) a existência de uma coerência” [34].

Como apreender a realidade que é, fundamentalmente, harmonia? Para Bradley não há dúvida: mediante a experiência sensível. Harry B. Acton sintetizou assim o pensamento de Bradley a respeito: “A realidade não pode estar feita de uma pluralidade de objetos reais desprovidos de qualquer relação entre eles, mas deve ser um todo cujas diferenças se baseiam na harmonia. Além disso, deve ser experiência e, mais ainda, experiência sensível. Para provar que a realidade deve ser experiência, Bradley recorre ao argumento idealista bem conhecido, segundo o qual é impossível conceber qualquer coisa fora de toda experiência. E para provar que deve tratar-se de experiência sensível, afirma que somente a sensibilidade permite distinguir as diferenças sem que, por isso, possam ser separadas do conjunto que as contém. Quase veladas pela nossa experiência cotidiana, encontram-se experiências ao mesmo tempo diferentes e ligadas, que nos antecipam o que deve ser a realidade última ou o Absoluto” [35].

Em relação a este ponto, afirma o próprio Bradley: “Isso nos sugere a idéia de uma experiência total em que a vontade, o pensamento e a sensibilidade não formassem já mais do que um só conjunto” [36]. Harry B. Acton considera que Bradley se alicerça em Hegel ao afirmar que quanto mais espiritual é uma coisa, mais real é; no entanto, o nosso autor entende “(...) a palavra espiritual num sentido menos intelectual que o filósofo alemão. Nosso hegeliano inglês – conclui Acton – está influenciado pela tradição empirista como para não desejar se converter num metafísico racionalista”.

Contemporâneo e debatedor das idéias de Bradley, Bernard Bosanquet situa-se mais perto de Hegel do que o seu concorrente. Foi autor de várias obras, entre as quais Conhecimento e realidade (1885), Lógica ou morfologia do conhecimento (1888), Teoria filosófica acerca do Estado (1889), Princípios da individualidade e do valor (1912) e Valor e destino do individual (1913). Para Bosanquet, o mundo é um todo integrado por elementos estreitamente inter-relacionados uns com os outros no conjunto do sistema. Cada elemento, conseqüentemente, possui em si indícios dos outros elementos existentes no sistema, de forma tal que o conhecimento do particular leva implícito o do geral, em decorrência da inter-relação existente. A história, para Bosanquet, não é uma disciplina muito rigorosa do ponto de vista da razão, que se prende ao conhecimento científico do contingente. A experiência vivencial do todo, no entanto, supera os limites da razão, e transcende em formas de conhecimento supra-científico, através da arte, da religião e da filosofia. O idealismo de Bosanquet entronca de novo com a tradição empirista inglesa, notadamente com a herança da Escola Escocesa do Senso Comum, ao relacionar diretamente a apreensão do todo com o conhecimento, pela experiência, das suas manifestações concretas. Estas somente se podem dar nela. No terreno da filosofia política, Bosanquet reforçou a tendência hegeliana à valorização da intervenção do Estado na vida social, que já tinha sido defendida por Bradley [37].

Conclusão.
 
Alicercei-me, neste artigo, no insofismável testemunho de Hegel, para quem as filosofias nacionais integram momento fundamental da dialética da razão, porquanto captam “o espírito da época”. Procurei ilustrar, à luz da análise feita pelo filósofo alemão, a idéia ou leit-motiv que serviu de pano de fundo à meditação inglesa, desde as suas origens medievais até o momento da sua consolidação no século XIX. Essa idéia, vimos, é a da experiência. Ela aparece como fio condutor da filosofia, em que pese a variedade de autores e tendências.

Se, por um lado, a análise das filosofias nacionais deve ser objeto de estudo da história da filosofia, no sentir de Hegel, a inquirição, contudo, não pode parar aí. Momento fundamental da dialética da razão constitui também a busca da identidade dela consigo mesma, ao que só se pode chegar a partir da integração das várias filosofias nacionais e dos vários sistemas, numa visão de conjunto. Tal visão, revelando as diferenças históricas, deve explicitar, também, o fundo comum que as une, a força do espírito humano na busca da sua identidade. Para utilizar a bela imagem criada por António Braz Teixeira (nasc. 1936), o fato de ter pernas que repousam sobre a terra, não tira à ave a capacidade de voar até os céus.


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[1] HEGEL, Wilhelm Friedrich. Lecciones sobre la filosofia de la historia universal. Madrid: Alianza, 1982, p. 699.
[2] Guilherme da Normandia, o Conquistador (1028-1087), que submeteu a Inglaterra após a batalha de Hastings (1066).
[3] LACLAU, Martin. “Os pressupostos do pensamento jurídico inglês”. In: Nomos – Revista Portuguesa de Filosofia do Direito e do Estado. Amadora, Nº. 3 – 4 (janeiro / dezembro 1987): p. 83.
[4] Frederic William Maitland (1850-1906).
[5] LACLAU, Martin. “Os pressupostos do pensamento jurídico inglês”. Art. Cit., p. 83.
[6] Cf. DUNCAN, Archibald A. M., “Michael Scott”, in: BENTON, William (Publisher), Encyclopaedia Britannica, Chicago – London: Encyclopaedia Britannica Inc., 1972, vol. 20, p. 30-31. Quanto aos outros tradutores medievais, cf. DUNCAN, Archibald A. M., “Michael Scott”, in: BENTON, William (Publisher), Encyclopaedia Britannica, Chicago – London: Encyclopaedia Britannica Inc., 1972, vol. 20, p. 30-31, p. 103-104; 122-125; 127-165; 205.
[7] GRANT, Edward. La ciencia física en la Edad Media, ob. cit., p. 40.
[8] Cf. GOUGENHEIM, Sylvain. Aristote au Mont Saint-Michel – Les racines grecques de l’ Europe Chrétienne. Paris: Seuil, 2008.
[9] Cf. CROWLEY, T. “Rev. Roger Bacon”, in: BENTON, William (Publisher), Encyclopaedia Britannica, ob. cit., vol. 2, p. 1000-1001. GRANT, Edward, La ciencia física en la Edad Media, ob. cit., p. 103-104.
[10] Cf. RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência. (Tradução de José Enéas Fortes), Rio de Janeiro: Zahar, 1987, vol. II, p. 136-137.
[11] RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência. Ob. cit., vol. II, p. 139.
[12] RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência. Ob. cit., vol. II, p. 142.
[13] Cf. RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência. Ob. cit.,vol. II, p. 141.
[14] No seu exílio em Paris Silvestre Pinheiro Ferreira escreveu o livro intitulado: Theodicée ou traité de la religion revelée, cujo original, inédito, foi preservado pela Academia de Ciências de Lisboa, segundo informa Antônio PAIM em História das idéias filosóficas no Brasil, 3ª edição: Convívio; Brasília: INL – Fundação Pró-Memória, 1984, Prêmio Jabuti 1985, p. 16.
[15] MATTOS, Carlos Lopes de. “Duns Scot – Ockham: vida e obra”. In: SCOTUS, João Duns, Escritos filosóficos, (tradução de Carlos Lopes de Mattos), São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. IX. Cf. BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, Buenos Aires: Sudamericana, s/d, vol. II, p. 439 seg. .
[16] MATTOS, Carlos Lopes de. “Duns Scot – Ockham”, art. cit., p. IX.
[17] Apud BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, ob cit., vol. II, p. 537.
[18] BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, ob. cit., v. II, p. 528 seg. ADAMSON, Robert e MITCHELL, John Malcolm. “Francis Bacon”, in: BENTON, William (Publisher),  Encyclopaedia Britannica, ob. cit., v. 2, p. 993-999.
[19] Cf. BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, ob. cit., vol. II, p. 534-535. ADAMSON, Robert e MITCHELL, John Malcolm, “Francis Bacon”, art. cit.
[20] BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, ob. cit., vol. II, p. 537.
[21] Cf. LADRIÈRE, Jean, Éléments de critique des sciences et de cosmologie, Louvain: Université de Louvain, 1967, p. 140 seg.
[22] HOBBES, Thomas. Leviatã, ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. (Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva), 4ª edição, São Paulo: Nova Cultural, 1988, coleção “Nova Cultural”, p. 5.
[23] A influência de Aristóteles revela-se no conceito, utilizado por Locke, de que o homem busca naturalmente o convívio social (lembrando o princípio aristotélico de que o homem é um “animal político”), para ver garantidos os seus direitos inalienáveis à vida, à liberdade e às posses, que lhe garantem a felicidade (eudemonía).
[24] Cf. BRÉHIER, Émile. Historia de la filosofia, ob. cit., vol. II, p. 722.
[25] LOCKE, John. Ensayo sobre el entendimiento humano. 1ª edição em espanhol (segunda reimpressão). (Tradução de Edmundo O’ Gorman). México: Fondo de Cultura Económica, 1986.
[26] LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. (Prefácio e introdução de Peter LASLETT, tradução de Julio Fischer), São Paulo: Martins Fontes, 1998.
[27] HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. (Tradução de Leonel Vallandro). 1ª edição. São Paulo: Abril Cu8ltural, 1973, coleção “Os Pensadores”. Cf. JESSOP, Thomas Edmund. “David Hume”, in: BENTON, William (Publisher), Encyclopaedia Britannica, ob. cit., vol. 2, p. 833-837.
[28] SORLEY, W. R., Historia de la filosofia inglesa. (Tradução ao espanhol de Teodora Efrón e Julieta Gómez Paz), Buenos Aires: Losada, 1951, p. 226-227.
[29] SORLEY, W. R., Historia de la filosofia inglesa. Ob cit., p. 228.
[30] Cf. ACTON, Harry Burrows. “La filosofia anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon, (coord). Las filosofias nacionales: siglos XIX y XX. (Tradução de José Miguel Marinas e Eduardo Bustos). 3ª edição em espanhol. México: Siglo XXI Editores, 1984. WRIGTH, Muriel H. “Thomas Hill Green”, in: BENTON, William (editor), Encyclopaedia Britannica, ob. cit., vol. 10, p. 890.
[31] ACTON, Harry Burrows. “La filosofia anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon (coord.), Historia de la filosofia: las filosofías nacionales – Siglos XIX y XX, ob. cit., p. 5.
[32] ACTON, Harry Burrows. “La filosofia anglosajona”. In: BELAVAL, Yvon (coord.), Historia de la filosofia: las filosofias nacionales – siglos XIX y XX, ob. cit., p. 9.
[33] ACTON, Harry Burrows. “La filosofia anglosajona”. In: BELAVAL, Yvon (coord.), Historia de la filosofía: las filosofias nacionales – Siglos XIX y XX. Ob. cit., p. 17.
[34] BRADLEY, Francis Herbert. Appearence and Reality, cit. por ACTON, Harry Burrows, La filosofia anglosajona. In: BELAVAL, Yvon (oord.), Historia de la filosofia: Las filosofías nacionales – Siglos XIX y XX.
[35] ACTON, Harry Burrows. “La filosofía anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon, (coord.), Historia de la filosofía: las filosofías nacionales – Siglos XIX y XX, ob. cit., p. 17-18.      
[36] BRADLEY, Francis Herbert. Appearence and Reality, cit. por ACTON, Harry Burrows, “La filosofia anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon, Historia de la filosofia: las filosofias nacionales – Siglos XIX y XX, ob. cit., p. 18.
[37] Cf. ACTON, Harry Burrows, “La filosofia anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon, (coord.), Historia de la filosofia: las filosofias nacionales – Siglos XIX y XX, ob. cit., p. 21-23.

terça-feira, 24 de julho de 2012

ANOTAÇÕES ACERCA DA VIDA E OBRA DE JOHN LOCKE (1632-1704)


Retrato de John Locke por Kneller (Galeria Nacional de Retratos, Londres)


Retrato de Anthony Ashley Cooper, 1º conde de Shaftesbury - 1673
A filosofia de Locke é, indiscutivelmente, ponto importante na sistematização do empirismo, bem como do nexo dessa corrente com o liberalismo, do qual é a figura mais importante, tanto no pensamento inglês quanto em nível mundial. O nosso autor sistematizou os princípios básicos do que passaria a ser denominado de “filosofia liberal”. Fê-lo não como teórico distante do acontecer histórico, mas como ator que tomou parte decisiva na “Revolução Gloriosa” (1688) que, na Inglaterra, derrubou o absolutismo e deu ensejo às instituições do governo representativo e da monarquia parlamentar. Não é de estranhar que gerações de filósofos e políticos engajados na construção das instituições da democracia representativa passaram a se inspirar, doravante, em Locke. Ele próprio, como mostraremos nestas páginas, foi um doutrinário, no sentido conferido mais tarde por Royer-Collard (1763-1845) a esta expressão. Alguém que, com um pé na filosofia, encarou o compromisso histórico de pensar as instituições que garantiram, à Nação Inglesa, o exercício da liberdade.

Na retomada da tradição lockeana de lutar contra o absolutismo, pensadores posteriores partiram para efetivar a tarefa de desenhar, alicerçar teoricamente e pôr em funcionamento instituições liberais, num meio ameaçado pelo despotismo como era a França de início do século XIX. Tal foi o caso, certamente, de Benjamin Constant de Rebecque (1767-1830), de Madame de Staël (1766-1817), mas especialmente de estadistas do cunho de François Guizot (1787-1846) e Alexis de Tocqueville (1805-1859). Essa saga foi retomada, no contexto luso-brasileiro, por homens como Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846), dom Pedro de Souza Holstein, duque de Palmela (1781-1850), Domingos Gonçalves de Magalhães (1811-1882), Hipólito da Costa (1774-1823), Paulino Soares de Sousa (1807-1866), etc.

Isso sem esquecer, claro, a influência decisiva de Locke no pensamento libertário dos “Patriarcas” construtores da independência americana, George Washington (1732-1799), Thomas Jefferson (1743-1826), James Madison (1751-1836), Alexander Hamilton (1755-1804), John Jay (1745-1829), Benjamin Franklin (1706-1790), Thomas Paine (1737-1809), etc. No terreno da filosofia política e do incipiente pensamento sociológico, a geração dos Iluministas franceses como Voltaire (1694-1778), Montesquieu (1689-1755) e Rousseau (1712-1778) encontrou, na obra de Locke, farto material de inspiração. Algo semelhante aconteceu no seio do Iluminismo alemão, sendo Immanuel Kant (1724-1804) a figura cimeira.

No contexto do pensamento político inglês que adotou o ideário liberal, Locke, certamente, foi a fonte de inspiração para filósofos como Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873). A luz libertária de Locke ins pirou, também, a ação reformista de William Gladstone (1809-1898) que garantiu a democratização do sufrágio.

A opção intelectual e existencial em prol da liberdade contra o despotismo teve, para Locke, um alto preço: o julgamento dos acadêmicos do seu tempo, que na trilha do culto ao absolutismo de Jaime II (1633-1701) o excluíram da Universidade. Mas a opção doutrinária produziu, na crítica à filosofia lockeana, um efeito curioso: passou a exigir uma hermenêutica não apenas do discurso teórico, mas pressupôs, também, uma interpretação deste a partir da dinâmica histórica de construção das instituições. Isto colocou o pensamento de Locke muito mais na trilha dos juízos dialéticos que Aristóteles (384-322 a.C.) considerava os únicos aptos a exprimir o comportamento humano no terreno político, bem como no caminho da realpolitik aberto por Maquiavel (1469-1527), no contexto do realismo aristotélico. Esse realismo, efetivamente, parte da necessidade de pensar as instituições possíveis do Estado e o seu funcionamento para garantir os direitos dos cidadãos. Locke, por sua vez, afastou-se, com essa posição, de Thomas Hobbes (1588-1679) e da sua teoria da lei natural, que imaginava não a política possível, mas a ideal.

Ilustrando essa feição teórico-prática do pensamento lockeano, frisou um dos seus mais importantes biógrafos contemporâneos, Peter Laslett (1915-2001): “(...) Locke não era um homem capaz de perder-se no ato dos feitos políticos ou mesmo da criação intelectual. Sua eficácia situava-se em outro patamar, num poder de fascinar os homens de ação; em seus últimos anos, ele usufruiu plenamente a influência diretora que tal eficiência lhe conferira” [1].

Nesta exposição, serão desenvolvidos nove itens: 1 – Origens familiares. 2 – Estudos e vida acadêmica em Oxford. 3 – Personalidade. 4 – Vida pública como assessor do 1º conde de Shaftesbury. 5 – Vida pública sob a proteção do conde de Pembroke. 6 – Vida pública como assessor de lorde Somers. 7 – Posição sócio-econômica. 8 – Últimos anos. 9 – Escritos de Locke.
Wrington - Somerset. A cidade onde nasceu John Locke

1 – Origens familiares.

O nosso autor nasceu em Wrington (Somerset, perto de Bristol), em 1632 e faleceu em Otes (na região de Essex), em seu gabinete de trabalho, em 1704. Os seus ancestrais, radicados no distrito de Somerset, no oeste da Inglaterra, filiavam-se a uma rede puritana de famílias vinculadas à tradição legalista que defendia a realeza. John Locke pai, cavalheiro de Belluton, advogado e escrivão do Tribunal de Justiça de Somerset, pertencia à pequena nobreza; tinha sido capitão das forças do Parlamento, alinhadas com os denominados “Cabeças Redondas”, seguidores de Oliver Cromwell (1599-1658) contra as tendências absolutistas do monarca Carlos I (1600-1649), de formação católica e pertencente à dinastia dos Estuardos. John Locke pai era, portanto, um defensor dos representantes dos proprietários no Parlamento, ao mesmo tempo em que reconhecia a tradição real inglesa. Essa tradição teria sido deformada por Carlos I e os seus cortesãos ou Cavaliers. Em 1661, o nosso autor herdou do pai a condição de fidalgo de Somerset, se tornando, por direito próprio, proprietário de terras, casas de fazenda e até mesmo de uma pequena mina em Mendip. Peter Laslett escreve a respeito da posição sócio-econômica do filósofo: “Embora jamais abandonasse a sua condição de acadêmico e homem independente, é muito importante o fato de John Locke ter sido sempre o representante titular de uma família inglesa terratenente” [2]. Mais adiante ampliaremos este aspecto.

2 - Estudos e vida acadêmica em Oxford.

Seguindo o costume das famílias fidalgas da época, o nosso autor ingressou, inicialmente, na Westminster School, onde passou seis anos e, depois, no Christ Church College da Universidade de Oxford, cujo diretor era John Owen (1616-1683), puritano independente à maneira de Cromwell que, ao contestar o stablishment anglicano, também se negava a endossar o autoritarismo presbiteriano, adotando, em matéria religiosa, uma atitude de tolerância para com as denominadas seitas. O nosso autor recebeu formação eclética, com destaque para a tendência empirista, característica da tradição filosófica inglesa.

Em Oxford, Locke galgou as etapas acadêmicas com desempenho satisfatório. Foi, nessa Universidade, sucessivamente, scholar (aluno subvencionado), student (aluno não-subvencionado), fellow (graduado que recebe subvenção para o desenvolvimento de estudos e pesquisas) e titular dos cargos docentes habituais. No final dos estudos humanísticos no College, apresentava-se ao jovem professor a possibilidade de optar pela função eclesiástica, a fim de permanecer na Universidade; no entanto, Locke não optou por essa alternativa, tendo escolhido a carreira de Medicina. Plenamente dedicado à vida acadêmica, às pesquisas e aos compromissos das funções públicas, o nosso autor permaneceu solteiro.

Nos seus estudos universitários, Locke recebeu várias influências doutrinárias, sendo as mais importantes: A - de John Owen que, como foi frisado, defendia a idéia da tolerância religiosa; B - de Descartes (1569-1650), que lhe abriu as portas da filosofia moderna na versão dominante no Continente Europeu; C - de Robert Boyle (1627-1691), que propunha o moderno conceito de elementos químicos, criticando a tradicional teoria dos quatro elementos; D - de Richard Hooker (1554-1600), cuja obra intitulada: The Laws of Ecclesiastical Polity (As Leis da Política Eclesiástica) sintetizava a tradição medieval inglesa ao redor da idéia de “controle moral ao poder”; E - de Thomas Hobbes, autor do clássico livro Leviatã, ou matéria, forma e poder de uma República eclesiástica e civil (1661) que o familiarizou com o conceito de “estado de natureza” e F - de Thomas Sydenham (1624-1689), que revolucionou o método de estudo da medicina, alicerçando-o na observação empírica dos pacientes, abandonando os dogmas de Galeno (130-200).

Ao ensejo das pesquisas em Oxford (ligadas ao estudo do que se denominava, então, de “filosofia natural”), Locke associou-se a Robert Boyle, tendo-se dedicado à botânica, o lado herbóreo dos estudos médicos, até obter o grau de Bacharel em Medicina. O nosso autor, no entanto, nunca chegou a se tornar doutor nessa especialidade. Mas continuou, dentro e fora da Universidade, dedicado às suas pesquisas em botânica médica. Em 1668 recebeu uma bolsa da Royal Society e trabalhou, em Londres, com Thomas Sydenham no estudo da varíola.

Locke permaneceu vinculado à Universidade de Oxford entre 1652 e 1684, ao longo de 32 anos. A vida acadêmica, enquadrada na velha tradição escolástica, frustrou-o. A respeito, frisa Peter Laslett: “Ele dava um nome aos debates nas escolas, o método então estabelecido de instrução e sabatinagem: chamava-o interrogatório de porcos, o corte laborioso de minúsculos pêlos da pele de animais vociferantes, que aparentemente não eram suínos, mas pequenos cordeiros. Locke odiava aquilo e fazia-o de mau grau; em certo sentido, todo o trabalho que desenvolveu na sua vida constituiu um protesto contra aquilo. Esta, afirmaria mais tarde, foi outra razão para se lançar ao estudo da medicina, que lhe facultava ficar à distância das escolas, e o mais longe possível de qualquer questão pública. (...)” [3].

O nosso autor relativizava, portanto, o tédio escolástico com as suas pesquisas médicas e com algumas incursões, também, no terreno da política, discutindo questões relativas à lei natural (nos primeiros escritos deixa transparecer a influência de Hobbes). Mas os seus interesses intelectuais eram bem mais amplos e o jovem professor ocupou-se, também, de estudos clássicos e refinados, incluindo a literatura francesa da época e as questões ligadas à política internacional. Neste terreno, teve algum sucesso. Foi convidado para participar de uma missão diplomática do governo britânico em Cleves, capital de Brandenburgo, em 1665. O sucesso que teve como secretário da missão, fez com que o ministério das relações exteriores lhe oferecesse missão semelhante em Madri. Mas o nosso autor declinou o convite e preferiu voltar às suas atividades acadêmicas. A respeito, escreve Peter Laslett: “(...) Aquele seria um bafejo do mundo de Maquiavel e poderia tê-lo convencido de ser dotado dos talentos e personalidade para outras atividades além do ensino, a prensagem de flores do Jardim Botânico da Universidade e o sistemático preenchimento de uma longa série de cadernos de anotações” [4].

Duas circunstâncias influíram definitivamente nos rumos da vida acadêmica de Locke: de um lado, o absolutismo de Jaime II (1633-1701) que passou a perseguir todos aqueles que apresentassem independência de pensamento na Universidade, por sentir que daí poderia provir um ataque ao poder pessoal; de outro lado, a antiquada burocracia que tomara conta dos destinos da Universidade e que se sentia ameaçada diante dos vôos intelectuais do ousado professor.

A respeito da perseguição real, que conduziu dramaticamente ao afastamento do nosso autor da Universidade, Peter Laslett descreve, da seguinte forma, o tenso ambiente inquisitorial que se apossou dos claustros acadêmicos: “A ordem régia para afastar Locke de sua carreira acadêmica, expedida em 1684, foi o primeiro passo contra as universidades no lance final dos Stuart em favor do governo pessoal (...). É terrível ver aqueles que se sentavam com ele à mesa agirem como agents provocateurs, mas é típico de Locke que nem sequer um piscar de olho pudesse ser usado contra ele. Meia geração mais tarde, os professores de Oxford causariam dano ainda maior à sua universidade ao recusarem admitir os livros de Locke em seu programa de ensino. Bem pouco podem Oxford e Christ Church reivindicá-lo com justiça como um dos seus, pois Locke já era uma autoridade em todo o mundo erudito quando essas instituições o reconheceram. Os últimos dias que passou entre eles ilustram, de forma dramática, o seu modo de portar-se. Em 21 de julho de 1683, a Universidade de Oxford ordenou, através de Convocação, a realização, no Pátio das Escolas, atualmente o Quadrilátero Bodleiano, da última queima de livros na história da Inglaterra. O decreto, afixado nas salas e bibliotecas das faculdades, anatematizava doutrina após doutrina já escrita nos Dois Tratados. Entre os autores condenados à fogueira estavam alguns cujos livros tinham lugar então nas prateleiras do aposento de Locke em Christ Church. Aparentemente, ele compareceu ao ato em pessoa, para assistir à acre fumaça elevando-se entre as torres, calado como sempre, e ocupado em despachar sua biblioteca para o campo. Algumas semanas mais tarde, com certeza havia partido de Oxford para a região campestre em que nascera, e no outono estava exilado na Holanda. Locke jamais pisaria novamente em Oxford” [5].

Quanto à perseguição de que Locke foi vítima por parte da própria burocracia universitária, Laslett frisa: “(...) Oxford o rejeitou. Na qualidade de instituição tradicionalista, desconfiava das posições políticas de Locke, e a originalidade que este imprimira a seu pensamento passou a ameaçar o currículo universitário. (...) Mas embora a pequena e fechada sociedade dos clérigos de Christ Church da década de 1680 não tenha sido efetivamente responsável pela expulsão da mais respeitada figura de seu seio, tampouco foi isenta de culpa na questão. O bom e erudito Dr. Fell [6], diretor da casa desde 1660 e alguém em quem Locke confiava, escreveu o seguinte para o Secretário de Estado: Sendo o dr. Locke um estudante desta casa (...) e suspeito de más intenções para com o governo, tenho-o, há vários anos, mantido sob vigilância (...)[7].

3 - Personalidade.

Longe estava o nosso autor de ser uma personalidade exclusivamente acadêmica. De outro lado, distava muito, também, do puro ativista político. Tímido por natureza e hipocondríaco, Locke estava possuído por uma ansiedade interior constante que o levara à convicção de que não chegaria à velhice. Quando partiu para a França em 1675, em missão oficial do Parlamento, tinha a certeza de que morreria de tuberculose pulmonar. Essa sua fraqueza interior, no entanto, não lhe impedia de descortinar novos caminhos, tanto no campo do conhecimento, quanto no terreno da ação, quando julgasse que isso seria necessário. A sua inteligência, aberta para a compreensão do mundo e das instituições políticas, pulsava mais alto que as limitações psicológicas e temperamentais.

Os traços pessoais apontados manifestaram-se, nos seus escritos, no seio de uma constante busca da perfeição. Estes deveriam, no sentir do nosso pensador, se ajustar completamente à realidade por ele experimentada e, no terreno político, às instituições por ele concebidas. Jamais estava contente com a última versão da sua obra, buscando, sempre, uma feição mais completa e alimentando, em relação aos livreiros e editores, uma costumeira animosidade. Completa-se este quadro com a tendência do nosso autor a manter anônima a parte central da sua produção, O Ensaio sobre o entendimento humano (1690) e os Dois tratados sobre o governo (1689-1690). Essa tendência enquadrava-se dentro dos traços de ansiedade que acabamos de mencionar: Locke temia, por motivos válidos, uma volta do absolutismo de Jaime II. Mas, de outro lado, buscava, como foi destacado, uma expressão o mais perfeita possível do seu pensamento.

Peter Laslett escreve a respeito das idas e vindas dos editores para atender às exigências do autor dos Dois tratados sobre o governo: “A segunda edição, de 1694, de fato um livrinho barato e grosseiro, vendido a um preço mínimo, resistiu por quatro anos, quando também se esgotou. Foi lançada então a reimpressão de qualidade superior, tal como exigira Locke, a terceira edição, de 1698. (...) Mas nem isso satisfez Locke, cujo padrão de perfeição aparentemente se situava acima dos recursos dos impressores de sua época. Essa terceira edição, de 1698, tinha seus defeitos, mas é difícil não perceber que o desespero manifestado em seu testamento acerca de todas as edições dessa obra se originava, na verdade, numa ansiedade interior acerca do que ele escrevera, ao se evidenciar que nenhuma versão correta o bastante para satisfazer sua meticulosidade seria impressa durante sua vida. Locke fez planos no sentido de garanti-lo para depois de sua morte. Corrigiu um exemplar da versão impressa nos mínimos detalhes, verificando minuciosamente palavra por palavra (...)” [8].

Timidez, ansiedades hipocondríacas, busca neurótica pela perfeição na obra escrita, nada disso, no entanto, fez do nosso autor uma personalidade agressiva ou alheia aos seus semelhantes. Numa feliz mistura de todas essas características, prevaleceu, no filósofo, o amor apaixonado pela verdade e a atitude de homem afável. Como frisa o crítico espanhol Luis Rodríguez Aranda, “(...) John Locke fué un hombre dulce, modesto y de buen sentido, cualidad esta última que, según algunos de sus contemporáneos, ganaba la simpatia de las personas a quienes trataba. En el retrato que hay de él en Christ Church, uno de los colegios más venerables de Oxford, aparece con un rostro enfermizo y delicado. Y, en efecto, su salud no fué nunca buena a lo largo de su vida” [9]
    
4 - Vida pública de Locke como assessor do primeiro conde de Shaftesbury (1666 a 1683).

Como personalidade pública, o nosso autor percorreu três etapas: de um lado, entre 1666 e 1683, como assessor e amigo de Anthony Ashley Cooper (1621-1683), primeiro conde de Shaftesbury. Em segundo lugar, entre 1683 e 1688, durante o exílio na Holanda, sob a proteção do conde Thomas Herbert Pembroke (1656-1733). Em terceiro lugar, entre 1694 e 1700, como confidente e assessor de John Somers (1651-1716), Lorde Chanceler e principal figura do governo.

Ilustremos, por enquanto, a relação entre Locke e Shaftesbury. A dedicação de Locke à medicina experimental colocou-o em contato com importante figura política, Anthony Ashley Cooper, lorde e primeiro conde de Shaftesbury que chefiava a reação parlamentar do Partido Whig contra o absolutismo de Jaime II. Em 1666, o conde, doente do fígado, procurou tratamento com ervas medicinais na Universidade de Oxford e Locke foi indicado para acompanhá-lo pelo médico do ilustre enfermo, o doutor David Thomas. Shaftesbury já tinha notícias do jovem professor de Oxford através de Bennet de Shaftesbury (representante do burgo no Parlamento e administrador dos bens do conde) e buscava entrar em contato com ele, pois precisava da ajuda de alguém familiarizado com o meio acadêmico. O tratamento herbóreo foi, a bem da verdade, o pretexto para efetivar o contato com o tímido professor, através do Doutor Thomas. Os cuidados do jovem praticante aliviaram o mal-estar do paciente. Numa recaída quase fatal, ele teve a presença de espírito de orientar uma cirurgia que salvou, de forma considerada miraculosa, a vida do conde. A partir daí, Locke passou a residir na residência oficial daquele em Londres, em Exeter House, mantendo, no entanto, o seu vínculo com a Universidade de Oxford.

Como Ministro das Finanças do Rei, o conde de Shaftesbury tornou Locke o seu secretário particular. Acerca desses fatos, escreve Peter Laslett: “A operação granjeou fama a Locke e mudou por completo o rumo de sua vida. Ashley estava convencido, e tinha boas razões para tal, de que devia a vida a Locke. Uma ligação iniciada de maneira casual e conduzida nos moldes convencionais da época - uma vez que não era incomum os grandes homens introduzirem figuras do calibre de Locke em suas famílias - converteu-se numa relação de trabalho que, para ambos os homens, englobava todos os propósitos. Tudo quanto estava ao alcance da influência política foi mobilizado para a promoção profissional de Locke no campo da medicina acadêmica; também foi provido financeiramente, muito embora sua obstinada independência obviamente impedisse Ashley de ir tão longe quanto desejaria. Locke ocupou diversos cargos como o de secretário da associação dos proprietários da colônia da Carolina, secretário da Junta comercial de Ashley, secretário do padroado eclesiástico quando Ashley, agora conde de Shaftesbury, tornou-se lorde chanceler, e nenhum deles conduziu à grande carreira política que poderia ter resultado dessa ligação” [10].

Como assessor de Shaftesbury e membro do Partido Whig o nosso autor passou, no exterior, dois importantes períodos da sua vida: na França, entre 1675 e 1679 e na Holanda, entre 1683 e 1689. No primeiro dos períodos mencionados, Locke teve oportunidade de se familiarizar com as linhas mestras do absolutismo que, em opúsculo escrito na época, denominou de “mal francês” (De morbo gallico, 1675), fazendo um irônico trocadilho, pois com essa denominação era conhecida a sífilis, na literatura médica da época. No segundo período, na Holanda, Locke acompanhou, no exílio, o seu mentor e protetor político, Shaftesbury, que faleceu em 1683, após ser libertado da arbitrária prisão a que Jaime II o condenara na Torre de Londres.

 Locke, de fato, passou a desenvolver os elementos teóricos que o seu protetor considerava necessários para o adequado encaminhamento das reformas que poriam fim ao absolutismo na Inglaterra, tanto no terreno do conhecimento, quanto no econômico, no educacional, no religioso e no político. A obra de John Locke praticamente foi escrita ao ensejo dessa parceria. As linhas mestras que compõem as duas principais obras do filósofo, o Ensaio sobre o entendimento humano e os Dois tratados sobre o governo, foram escritas ao longo do período de convivência dele com Shaftesbury. Ambas as obras seriam publicadas posteriormente, após a Gloriosa Revolução de 1688. Mas os delineamentos básicos delas consolidaram-se anteriormente, como frisamos, ao longo da década de 1670. A associação Shaftesbury-Locke constituiu uma dessas circunstâncias extraordinárias da história da cultura em que um talento teórico, de posse de sólida formação filosófica como Locke, foi motivado para altos vôos intelectuais por alguém, como lorde Shaftesbury, que tinha a atenção centrada na compreensão do processo histórico e na luta em prol de encetar na tradicional política inglesa, reformas essenciais que abririam os horizontes da sociedade britânica rumo à modernidade. Uma associação semelhante entre o gênio teórico e o prático, em terreno diferente porquanto circunscrita à cosmologia, encontramos na relação de Kepler (1571-1630) com Tycho Brahe (1546-1601).

Influiu Shaftesbury intelectualmente no nosso pensador? – É evidente que sim. Laslett deixa claro isso, mostrando a amplitude de horizontes de pensamento que se abriram para Locke ao ensejo dessa convivência: “(...) O relacionamento intelectual entre Locke e Shaftesbury na esfera da teoria política era, como se poderia esperar, exatamente o mesmo que existia em questões como a economia, a tolerância e assim por diante. O relacionamento com o conde voltou a atenção de Locke para as obras de Milton, Campanella, Adam Contzen, bem como para os defensores ingleses da não-resistência, como Heilen, Dudley Digges e Filmer. Alguns desses autores já eram de seu conhecimento e podemos acreditar que tenha lido, e louvado, a obra de Filmer já em 1659, embora fosse esta a primeira ocasião em que lhe informaram ser Filmer o autor. É patente que a companhia de Shaftesbury o levava a defrontar-se com questões que havia deliberadamente deixado de lado em Oxford. Quais eram as origens do poder político? Como deve ser analisado? Quais os seus limites? Quais são os direitos do povo?” [11].

Testemunho elucidativo da estreita colaboração entre Locke e Shaftesbury foi dado por um criado do segundo: “Sua Senhoria confiava-lhe regularmente todas as questões mais secretas que então se agitavam e, por meio dos freqüentes discursos de Sua Senhoria acerca de questões de Estado, religião, tolerância e comércio, o Sr. Locke adquiriu um prodigioso conhecimento dessas matérias. (...) Escreveu o seu Livro sobre o Entendimento Humano enquanto vivia com Sua Senhoria. (...)” [12]. Depoimento semelhante foi dado pelo neto de Shaftesbury, cuja educação foi confiada ao filósofo: “(...) O Sr. Locke cresceu de tal forma na estima do meu avô que, por mais apreço que lhe tivesse em medicina, não enxergava ele nisso senão a menor de suas habilidades. Encorajou-o, assim, a voltar suas faculdades intelectuais em outra direção. (...) Fez com que se dedicasse ao estudo das questões religiosas e civis do país em tudo o que se relacionasse às atividades de um ministro de Estado, tarefa na qual logrou tanto êxito que meu avô não tardou em empregá-lo como amigo ao qual consultava em todas as ocasiões dessa natureza (...). Quando meu avô abandonou a Corte e passou a correr perigo por essa razão, o Sr. Locke compartilhou com ele os riscos, tal como compartilhara antes as honras e as vantagens. Confiou a ele suas negociações mais secretas” [13].

Em que pese a influência recebida de Shaftesbury, Locke era perfeitamente consciente acerca da novidade que representava a sua filosofia, tanto no seio da tradição inglesa como em escala universal. Em carta escrita pouco antes de falecer, em 1703, dirigida a um parente, o reverendo Richard King, o nosso autor frisava: “Em parte alguma encontrei uma descrição mais clara da propriedade do que em um livro intitulado Dois tratados sobre o governo[14].

A respeito desta inusitada referência feita pelo autor à sua própria obra, Laslett escreve: “Esta observação foi feita por John Locke em 1703 (...). Deve ser raro um autor recomendar uma de suas próprias obras a um jovem cavalheiro ávido por adquirir um entendimento da constituição do governo e do real interesse do seu país. Mais raro ainda deve ser que um homem disposto a tanto – a incluir o seu próprio livro no panteão em que figuram a Política de Aristóteles e a Ecclesiastical Polity de Hooker – escreva como se a obra fosse de autoria de outra pessoa, de um desconhecido. Talvez seja algo ímpar na história, tratando-se de uma carta a um parente. Qual poderia ser o propósito de mascarar esse fato para um homem que provavelmente já o conhecia? Por estranho que possa parecer, tal declaração de Locke antecipa o julgamento da posteridade. Pouco tardaria para o reconhecimento universal de que os escritos de Locke acerca do Governo de fato pertenciam à mesma categoria que a Política de Aristóteles, e ainda o consideramos um livro que trata da propriedade, sobretudo nos últimos anos. Foi impresso mais de cem vezes desde que apareceu sua primeira edição, que traz no frontispício a data de 1690. Foi traduzido para o francês, alemão, italiano, russo, espanhol, sueco, norueguês, hebraico, árabe, japonês, hindi e provavelmente para outros idiomas também. É um clássico consagrado da teoria política e social; talvez não figure entre os mais proeminentes de todos, mas mostrou-se familiar a oito gerações de estudiosos da política no mundo todo e foi objeto de um extenso cânone de literatura crítica” [15].

Uma última observação acerca da relação Locke – Shaftesbury: ao ensejo do convívio com o seu protetor e amigo, o filósofo terminou consolidando o que seria o conjunto de praxes do gentil-homem na cultura britânica. Forma evidentemente nova de serem consagradas essas práticas em relação a uma cultura diferente, como a francesa. Ao passo que, no reino de Luís XIV, a liturgia do poder foi formatada no convívio entre nobres dependentes do favor real e o centro do poder em Versalhes, no caso inglês essas práticas foram consolidadas a partir da obra política de um nobre forte contestador do absolutismo, como Shaftesbury, e de um educador independente como Locke. Duas variantes bem diferentes da relação entre a nobreza e o centro do poder, como muito bem teve oportunidade de observar François Guizot na sua clássica obra História da civilização européia.[16]

5 - Vida pública de Locke sob a proteção do conde Thomas Herbert Pembroke (1656-1733), entre 1683 e 1688.

Morto Shaftesbury em 1683, compelido ao exílio na Holanda nesse mesmo ano e expulso da Universidade em 1684, o nosso autor teve de procurar outro protetor que lhe garantisse a segurança pessoal e a sobrevivência, ao longo desse incerto período que se estendeu até 1688. O seu patrono passou a ser o conde de Pembroke. Expressão dos temores de Locke em face da perseguição real e das acusações dos docentes de Oxford é a seguinte carta que dirigiu ao seu novo protetor, em dezembro de 1684: “Jamais pratiquei nenhum ato de insubordinação contra Sua Majestade ou o governo (...). Nunca pertenci a nenhum grupo de conspiradores ou de cabala. Fiz poucos conhecidos e com poucos convivi, numa residência a que tantos acorriam (...). Meu temperamento reservado (...) sempre buscou a tranqüilidade e não inspirou em mim outro desejo, outro anseio, que não o de passar silenciosamente por este mundo na companhia de alguns bons amigos e livros (...). Muitas vezes me espantei com o modo como vivi, e como, tendo eu a natureza que reconheço em mim, cheguei a tornar-me o autor de tantos panfletos; a única explicação que encontro é a de ter sido, entre toda a família de meu senhor, o que mais teve a oportunidade de haver sido crescido entre os livros (...). Afirmo solenemente aqui, na presença de Deus, que não sou o autor, não apenas de libelo algum, como tampouco de absolutamente nenhum panfleto ou tratado impressos, sejam estes bons, ruins ou indiferentes. A apreensão e as reservas que sempre nutri quanto a ter meus escritos publicados, mesmo em questões muito distantes de qualquer coisa difamatória ou sediciosa, é bastante conhecida por meus amigos” [17].

Ao amparo do conde Pembroke e com o falso nome de dr. Van der Linden o nosso autor passou, no seu exílio holandês, a tumultuada década de 1680. Foi um período de reflexão, de intensa atividade como divulgador de idéias e elaborador de esquemas governamentais, tudo feito à sombra do anonimato e em evidente contraste com as declarações feitas ao seu protetor, que acabam de ser citadas. As linhas mestras das suas duas principais obras, o Ensaio sobre o entendimento humano e os Dois tratados sobre o governo, foram ampliadas por Locke nesse período, tendo sido o esquema das mesmas traçado ainda em vida de Shaftesbury, na década anterior, como já foi frisado. O nosso autor redigiu no exílio, outrossim, no inverno de 1685-1686, a sua Carta sobre a tolerância, como refugiado clandestino na casa do doutor Egbert Veen [18]. A atitude aparentemente ambígua da carta citada do nosso pensador é explicável pelo seu temperamento tímido e reservado, pelos temores que o perseguiam e pela evidente agressividade do regime absolutista de Jaime II, que tinha posto a polícia política no encalço dos dissidentes refugiados na Holanda. Qualquer cuidado era pouco. Locke viveu, neste período, uma paradoxal vida pública clandestina.
Em que pese as dificuldades impostas pelo anonimato forçado na Holanda, o nosso autor não deixou de entrar em contato com os pensadores que, nesse país, tinham aprofundado acerca da tolerância, tema que, nesse período de intolerância de parte do absolutismo católico de Jaime II, lhe era caro demais. Na residência do doutor Veen o filósofo relacionou-se com os erasmistas e com os judeus refugiados. Consta que Locke leu as obras de Baruch Espinosa (1632-1706), em que pese as acusações de ateísmo levantadas contra este pensador, o que mostra a sua grande abertura mental. Entrou em contato, também, com os teólogos protestantes que aprofundaram no tema da tolerância religiosa, notadamente com Philippe de Limborch (1633-1712), professor de teologia no seminário dos Remonstrantes, que propugnavam, contra os calvinistas, por uma concepção aberta e tolerante do cristianismo. O nosso pensador já tinha, na França, conhecido o filósofo Pierre Bayle (1647-1706), sistemático defensor da tolerância religiosa e em matéria de opiniões científicas e filosóficas.

Locke terminou elaborando a sua própria versão moderada de tolerância, que excluía quatro tipos de pessoas e que respondia às necessidades de fundamentação das instituições inglesas. As pessoas a serem excluídas seriam, segundo frisa Raymond Kilibansky: “1 – As que professam um dogma oposto e contrário à sociedade humana ou aos bons costumes necessários para conservar a sociedade civil. 2 – As que atribuem aos fiéis, aos religiosos, aos ortodoxos, isto é, a si próprias, nos assuntos civis, algum privilégio e poder de que não goza o resto dos mortais, e que, por conseqüência, se arrogam o direito de ser intolerantes para com os que não partilham a sua fé. 3 – As que pertencem à igreja em que cada um passa ipso facto ao serviço e à obediência de um soberano estrangeiro; ao recusar-se assim a tolerar os católicos, Locke limita-se a seguir um argumento defendido antes dele por muitos escritores ingleses, como Milton[19] e Marvel[20]. 4 – Uma vez que a existência de Deus – verdade susceptível para ele de prova rigorosa – se considera como fundamento de toda conduta moral, segue-se que os que negam a existência de um poder divino não devem, de modo algum, ser tolerados; porque os ateus destroem necessariamente a base da permanência da sociedade humana” [21].
   
6 - Vida pública de Locke, como assessor de Lorde John Somers (1651-1716), no período compreendido entre 1688 e 1700.

Quanto em 1688 os Whigs conseguiram a almejada vitória contra Jaime II, o nosso autor emergiu da penumbra. A coroação de Guilherme III de Orange (1650-1702) e de sua esposa Maria (1662-1694), como monarcas constitucionais, abriu perspectivas alvissareiras para os defensores da liberdade. Aos poucos, a figura de Locke foi emergindo como a do filósofo da Gloriosa Revolução e o seu pensamento foi sendo considerado como a luz que iluminava os novos tempos. Locke assumiu o seu papel de animador da vida política inglesa como assessor de Somers.

A respeito da mudança na vida de Locke operada pela Revolução de 1688, escreve Laslett: “O ano de 1689 representou o grande climatério na vida de Locke. Em decorrência da Revolução, o obscuro exilado tornou-se um homem de influência política, com amigos poderosos em altas posições. A figura menor na República das Letras, espécie de jornalista na comunidade intelectual da Holanda, onde vivera, o multiplicador de notas e escritor de esboços, surgiu por fim como autor, inicialmente das Cartas sobre a tolerância e, mais tarde, dos Dois tratados sobre o governo, ambos impressos no outono daquele ano, porém ambos anônimos. Até que, em dezembro, o John Locke que assinava o prefácio do Ensaio sobre o entendimento humano se converteu, precisamente por aquele ato, no John Locke da história intelectual. Tornou-se, com isso, uma instituição nacional e uma influência internacional. Nos quinze anos que lhe restavam, tomou em suas mãos o eixo da vida intelectual inglesa, e com tal firmeza que terminaria por apontá-lo na direção por ele escolhida” [22].

Saído das sombras do anonimato, Locke foi de novo guindado às alturas do poder como outrora fizera Shaftesbury, agora pela mão de John Somers, Lorde Chanceler e a principal figura do governo de Guilherme III. Ao longo do período compreendido entre 1688 e 1700, o nosso autor ocupou altos cargos no governo britânico e se constituiu no eixo ao redor do qual Somers construiu a estrutura parlamentar que tornaria possíveis as amplas reformas empreendidas no interior do Estado.

Em 1689, Locke foi nomeado Comissário de Apelos. Em 1696, passou a integrar a Junta Comercial; nela, converteu-se no arquiteto do Sistema Colonial, bem como consultor em questões monetárias e no relativo à regulamentação de atividades civis como o exercício da imprensa livre. Mas a mais importante incumbência do nosso autor foi a de ter sedimentado uma maioria parlamentar identificada com a modernização do Estado, um grupo que, superando as conveniências puramente pessoais da política partidária, efetivava um grande consenso ao redor de temas vitais para a vida pública. Estudioso da vida parlamentar britânica do período, P. Kelly refere-se assim a esse grupo parlamentar, chamado de “O Colégio”, um clube que orbitava ao redor de Locke e de Somers e que se reunia regularmente em Londres: “O único exemplo conhecido de uma união entre políticos em nome de um conjunto de políticas racionalmente concebidas, um programa baseado não apenas no sentimento comum, mas em informações de caráter superior e em pensamento abstrato” [23]. Locke tinha conseguido a proeza de tornar realidade, pela primeira vez, um Partido moderno que não era bloco parlamentar, mas que se identificava programaticamente.

7 - Posição sócio-econômica de Locke.

Teria sido nosso autor um simples porta-voz da burguesia? Certamente não. Locke canalizou os ideais pelos quais lutava o Partido Whig, no sentido de ver desmontado o esquema do absolutismo dos Estuardos. Mas o nosso autor estava bem longe de ser um simples porta-voz dos burgueses. A sua atitude existencial era, fundamentalmente, a de um pensador que apresentava novos conceitos para compreender o processo histórico do seu tempo e que não se furtava a colaborar, como vimos, com os homens públicos, na tarefa de criar as instituições que garantissem o exercício da liberdade para os cidadãos.

Esclareçamos, contudo, que a sua situação econômica, ao longo dos anos de colaboração com Shaftesbury, melhorou significativamente. E que essa melhoria se deu sem que o nosso pensador abrisse mão das suas convicções calvinistas, numa valorização do ethos do trabalho que hoje nos impressionaria pela sua frieza e universalidade. Atitude que impressionou, de fato, aos detratores da pobreza que sofria, nas primeiras décadas do século XIX, a sexta parte da população britânica. Entre esses detratores encontravam-se, como é sabido, escritores como Charles Dickens (1812-1870) e pensadores sociais como Karl Marx (1818-1883). “(...) Quando se juntou a Shaftesbury - frisa Laslett - poder-se-ia dizer que passara da petite bourgeoisie para a haute bourgeoisie. Acompanhou seu próspero patrono em seus investimentos - na Companhia da África, na Companhia Lustring e, por fim, no Banco da Inglaterra -. Investia em hipotecas, emprestou dinheiro a juros aos amigos, para a conveniência destes, durante toda a sua vida, e, embora tenha declarado solenemente que nunca me atraiu a especulação na Bolsa, encontra-se, em suas cartas de 1700-1, um claro exemplo de especulação no mercado de valores da Antiga e da Nova Companhia das Índias Orientais. Em suas obras publicadas mostra-se um resoluto inimigo dos mendigos e dos indigentes ociosos, cuja existência se devia, considerava ele, ao afrouxamento da disciplina e à corrupção dos bons modos. Chegou mesmo a insinuar que uma família de trabalhadores não tinha o direito de admitir o ócio dos filhos após os três anos de idade” [24].

Mas, ao mesmo tempo, Locke professava uma acentuada desconfiança em face do comércio e dos comerciantes. Apoiou decididamente a recusa de Somers a permitir o controle da política econômica do país pelos comerciantes, quando estes fizeram a proposta de encetar nas mãos da Junta Comercial, em 1695, a formulação das políticas públicas no campo da economia. De outro lado, embora tivesse apoiado a criação do Banco da Inglaterra, tinha sérias desconfianças em face dos capitalistas que o haviam fundado. Embora fosse médico, não poderíamos identificar, nele, um representante da classe, pois fazia sérias críticas aos médicos que utilizavam a profissão como meio de enriquecimento. Compartilhava com Shaftesbury, de outro lado, o desdém pelos advogados. Locke, portanto, embora apreciasse os meios econômicos para viver com folga, estava muito distante de ser um membro do stablishment burocrático a serviço de mesquinhos interesses grupais. Agia, no espaço público, sem comprometer a sua inspiração básica: ser um homem de pensamento, definitivamente comprometido com a defesa da liberdade humana.

Talvez a melhor forma de situar Locke no contexto sócio-econômico da época seja inserindo-o na nascente classe média inglesa, não como representante político da mesma, mas como formulador (na qualidade de livre-pensador) dos ideais de liberdade. É o que sugere Laslett: “Pode-se dizer, todavia, que o Locke individualista era um indivíduo, o que o coloca numa posição social mais excepcional do que parece à primeira vista. A coisa notável nele era a sua liberdade em face dos compromissos: família, igreja, sociedade política, localidades. A liberdade em todos esses sentidos colocava-o diante de um dilema, o qual se pode observar em suas relações com Oxford e mesmo com a família de Otes (...). Locke era tão livre, no que se refere à solidariedade com o grupo governante, quanto um homem o poderia ser na época e, no entanto, não pertencia ao grupo dos governados; esta é a única definição inteligível de classe média em que se pode enquadrá-lo, e deixa de fora vários aspectos que a expressão parece implicar. Em última análise, a possibilidade de viver dessa forma efetivamente surgiu em função de transformações econômicas, mas apenas se pode atribuir a Locke o papel de porta-voz de tais transformações mediante o uso de todo um aparato de motivações inconscientes e de racionalizações. Uma ordem de indivíduos livres não é um grupo harmônico, não é um estrato coeso a promover, de fato, alguma transformação; nenhuma concepção simples de ideologia conseguirá relacionar o pensamento de Locke com a dinâmica social” [25].

Assim, a posição sócio-econômica de Locke deve ser interpretada não como fator determinístico do seu pensamento mas, apenas, como mais uma circunstância do mesmo (no sentido orteguiano). Laslett traduziu muito bem essa feição do pensamento lockeano nos seguintes termos: “Trata-se, tudo leva a crer, de um espírito que se preparou de início na academia, depois no centro mesmo do poder político e, ao fim de dois importantes períodos no exterior, na França e na Holanda, finalmente respondeu à Revolução de 1688-9 com uma obra sobre o governo” [26].

8 - Últimos anos de Locke.

Em meados de 1691, o nosso autor estabeleceu-se nos domínios de Sir Francis Masham (1646-1723), no pequeno solar deste em Otes, Essex, circundado de fossos e sob os delicados cuidados da esposa de Masham, Damaris (1658-1708), a amiga mais próxima de Locke. Ela foi a primeira mulher britânica a escrever sobre temas filosóficos (de inspiração neoplatônica), sendo uma das correspondentes de Gottfired Leibniz (1646-1716). É da autoria de Damaris a primeira biografia de Locke, escrita pouco depois da morte do filósofo[27]. Damaris Masham era filha de Ralph Cudworth (1617-1688) de Somerset, pensador de orientação neoplatônica, professor no Christ Church College.

Em Otes, a vinte milhas de Londres, o filósofo passou seus últimos e gloriosos anos, ao lado da sua biblioteca, acompanhado do seu criado e com as comodidades básicas, sem luxos, dispondo do seu próprio cavalo. Ocupava o tempo escrevendo e corrigindo as suas obras, mas, sobretudo, escrevendo cartas aos intelectuais, aos editores, aos especuladores da bolsa, aos políticos e aos funcionários da Coroa. Exercia, assim, uma influência decisiva. Durante o verão, o nosso autor transladava-se a Londres e continuava com os seus contatos no meio intelectual e político desde a sua residência na capital, em Lincoln’s Inn Fields.
Peter Laslett traçou o seguinte quadro acerca da morte do filósofo: “Locke morreu em 29 de outubro de 1704, em seu gabinete em Otes, um cômodo de paredes castanho-escuras gordurosas e de melancólico branco, as cores dos livros que haviam sido parte tão grande de sua vida. Está sepultado a grande distância de Oxford e de seus ancestrais em Somerset, numa companhia um tanto estranha, pois os Masham, que jazem por toda a sua volta em High Laver, foram tories e cortesãos na geração seguinte” [28]. Simbólica companhia que revela o quanto o pensamento lockeano contribuiu para modernizar as estruturas do Estado inglês, convertido definitivamente em instrumento da sociedade civil para garantir a “vida, honra e bens” de todos os cidadãos, sem distinções de partidos políticos, religião ou classes sociais.  

9 - Escritos de Locke.

As principais obras de Locke são as seguintes: Constituições fundamentais da Carolina (1669), Quatro cartas sobre a tolerância (1692), Ensaios sobre educação (1693), Dois tratados sobre o governo civil (1689-1690), e Ensaio sobre o entendimento humano (1690). O pensador, entretanto, legou à posteridade inúmeras obras de menor fôlego, nos campos mais variados da reflexão, o que manifesta a sua ampla curiosidade, bem como a seriedade com que encarou as responsabilidades políticas como administrador público e conselheiro dos líderes mais destacados na Inglaterra da sua época. Mencionemos algumas delas: Ensaios sobre a Lei da Natureza (1664), Ensaio sobre a tolerância (1667), De Morbo Gallico (O Mal Francês, 1675), Lex Naturae (Lei Natural, 1678), O crescimento das vinhas e dos olivais (1680), Sobre o dinheiro (1692 e 1695), Polêmica com Stillingfleet em defesa do Ensaio sobre o entendimento humano (1697 e 1699), Racionalidade do Cristianismo (1695), Defesas (1697), etc.

BIBLIOGRAFIA

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POLIN, Raymond. “Introdução”. In: LOCKE, John. Carta sobre a tolerância. (Tradução de João da Silva Gama; prefácio de Raymond Klibansky; introdução de Raymond Polin; notas do Institut International de Philosophie e Presses Universitaires de France). Lisboa: Edições 70, 1996, p. 37-85.

SILVA, Saulo Henrique Souza. A exterioridade do político e a interioridade da fé: Os fundamentos da tolerância em John Locke. Salvador-Bahia: Universidade Federal da Bahia, 2008, (dissertação de mestrado).






[1] LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. (Tradução de Julio Fischer). São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 60.
[2] LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Ob. cit., p. 25.
[3] LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 31.
[4] LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 31-32.
[5] LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 33.
[6] John Fell (1625-1686), clérigo decano do Christ Church College, na época em que Locke ali estudou. Posteriormente foi sagrado bispo de Oxford.
[7] LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 32.
[8] LASLETT, Peter. “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 10.
[9] RODRÍGUEZ Aranda, Luis. “Introducción”. In: LOCKE, John, Ensayo sobre el gobierno civil, (tradução espanhola de Amando Lázaro Ros; introdução de Luis Rodríguez Aranda), Madrid: Aguilar, 1973, p. XI.
[10] LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 35-36.
[11] LASLETT, Peter. “Introdução”, in: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 47-48. Concluindo em relação à influência de Shaftesbury no pensamento de Locke, Laslett frisa: “(...) Temos aqui os dois, o estadista e o seu íntimo amigo médico e letrado, estimulando-se reciprocamente no tema mais abstrato de todos. Não foi o Locke catedrático de Oxford que se converteu em filósofo, mas o Locke confidente de um político eminente, mediante o contato com a vida política, social e intelectual de Londres à época da restauração” [LASLETT, Peter, “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 38].
[12] Cit. por LASLETT, Peter. “Introdução”, In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 36.
[13] Apud LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 36-37. Destacando a novidade que representou o pensamento lockeano, situado na crista da onda da revolução burguesa inglesa, Laslett escreve: “No curso de seus setenta e dois anos, Locke viu o mundo em que vivia, seu mundo intelectual e científico, o mundo político e econômico se modificarem mais radical e velozmente do que qualquer um dos seus antepassados jamais presenciara, e, na Inglaterra, de forma mais marcante do que em qualquer outra parte” [LASLETT, “Introdução”, ob. cit., p. 21].
[14] Apud LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 1.
[15] LASLETT, Peter.  “Introdução”. In: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 1-2.
[16] Cf. GUIZOT, François. Histoire de la civilisation européenne. 8ª edição. Paris: Didier, 1864, capítulos XIII e XIV. Em relação à forma concreta em que se deu a consolidação das práticas do gentil-homem no contexto inglês, Peter Laslett escreve: “Locke sentava-se à mesa do capelão no salão de jantar meticulosamente regulamentado de Shaftesbury, lorde chanceler; era obrigado a caminhar penosamente pela lama para segurar aquele megalomaníaco endiabrado, quando saía de carruagem para alguma solenidade. Mas também tinha voz na decoração de suas residências, no desenho de seus jardins; educava os netos de seu amo nos moldes da aristocracia inglesa, aquela precisa e madura combinação do homem prático com a virtude estóica, moderação no expressar-se e um profundo respeito pela erudição. O ideal do gentil-homem inglês se mantém até hoje e é, em parte, uma invenção de Locke. Medrou de sua afeição por Shaftesbury” [LASLETT, Peter, “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 54].
[17] Cit. por LASLETT, in: “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 58-59.
[18] Cf. KLIBANSKY, Raymond. “Prefácio”, in: LOCKE, John. Carta sobre a tolerância. (Tradução de João da Silva Gama; prefácio de R. Klibansky; introdução de Raymond Polin; notas do Institut International de Philosophie – Paris e PUF), Lisboa: Edições 70, 1996, p. 11-35. Cf. a dissertação de mestrado Saulo Henrique Souza Silva, intitulada: A exterioridade do político e a interioridade da fé: os fundamentos da tolerância em John Locke. Salvador-Bahia: Universidade Federal da Bahia, 2008; trata-se de um dos estudos mais completos, feitos no Brasil, sobre o tema da tolerância em Locke.
[19] John Milton (1608-1674), autor do clássico Paraíso Perdido [edição eletrônica, em português, tradução de António José de Lima Leitão, in: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/paraisoperdido.html ].
[20] Andrew Marvell (1621-1678), poeta.
[21] KILIBANSKY, Raymond. “Prefácio”, in: LOCKE, John. Carta sobre a tolerância. Ob. cit., p. 33-34.
[22] LASLETT, Peter. “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p.53-53.
[23] KELLY, P. The Economic Writings of John Locke, Dissertação, University of Cambridge, 1969, cit. por LASLETT, Peter, “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 56.
[24] LASLETT, Peter. “Introdução”. In: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 61-62.
[25] LASLETT, Peter. “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 63.
[26] LASLETT, Peter. “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 54.
[27] Cf. MASHAM, Damaris. Memoir of Locke. Amsterdam University Library, 1705.
[28] LASLETT, Peter. “Introdução”, in: LOCKE, John, Dois tratados sobre o governo, ob. cit., p. 60.