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sábado, 31 de janeiro de 2015

TANGO IRANIANO E SAMBA PETROLEIRO

O Promotor Alberto Nisman, morto em Buenos Aires: pedra no sapato do governo populista de Cristina Kirchner.
A “Dança macabra” do compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921) encontra repercussões nas trapalhadas nada estéticas dos governos do Brasil e da Argentina. Para começar com os “irmãos”, lembremos o rumoroso caso do “suicídio assistido” do promotor Alberto Nisman (1963-2015), ocorrido em dias passados na sua residência no exclusivo bairro de Puerto Madero, em Buenos Aires. Nisman tinha se convertido numa pedra no sapato do debilitado governo de Cristina Kirchner, ao denunciá-la como cúmplice na tentativa de encobrimento dos iranianos responsáveis pelo atentado contra a sede da AMIA (Associação Mutualista Israelense-argentina), ocorrido em Buenos Aires em 1994, e que vitimou 85 pessoas, tendo deixado 300 feridos.

O atentado, ao que tudo consta, foi uma vingança do governo dos aiatolás, pelo fato de a Argentina ter suspendido na época o acordo de transferência de tecnologia nuclear ao Irã. Nisman e a sua equipe investigaram durante dez anos esse ato terrorista e chegaram à seguinte conclusão: o governo de Cristina Kirchner decidiu acobertar os terroristas iranianos responsáveis pelo crime, em decorrência de um pacto negociado com o Irã, que traria benefícios econômicos para a Argentina. O governo dos aiatolás ofereceria petróleo em troca de cereais que a Argentina exportaria para aquele país. A opinião pública argentina não engoliu as esfarrapadas razões da presidente divulgadas pelas redes sociais, segundo as quais Nisman teria sido assassinado por membros descontentes do serviço secreto argentino, que estariam interessados em desestabilizar o governo da presidente. Isso após ela ter afirmado, imediatamente depois de ter aparecido o cadáver de Nisman, que o promotor tinha se suicidado.

As vítimas imediatas das trapalhadas do governo argentino foram duas: a verdade e a democracia. Ficou claro o descontento da opinião pública no comovido discurso que um amigo do promotor, o filósofo Santiago Kovadloff, pronunciou durante o enterro de Nisman e que foi publicado pelo jornal La Nación: “Não podemos estar bem porque ser testemunha e participante, ao mesmo tempo, desta atmosfera e desta tragédia e ter 72 anos, como tenho eu, é estar abrumado por uma eternidade neste dia em que a Argentina vive à mercê do delito, com instituições frágeis e que nos impedem sentir que o país tenha aprendido com a experiência. A sensação de insegurança, não apenas do risco da individualidade, mas a orfandade de um país, e a incapacidade que temos de aprender com a experiência. Tudo isso gera uma atmosfera que vai unida à persistência que temos e que devemos ter e que a dignidade nos exige. Mas ficamos entregues a uma sensação de perda, de repetição infinita. Não me sinto bem. A Argentina não tem rumo”.

Gozado como as palavras de Kovadloff poderiam ser repetidas, ipsis litteris, pelos brasileiros que assistimos, inermes, aos desdobramentos do samba do Petrolão, nessas idas e vindas de delações premiadas e de prisões de empresários e funcionários públicos corruptos. Após o Mensalão, pensávamos que já tínhamos visto os capítulos mais fortes desse BBB de safadezas em que se converteu a política do nosso país, desgovernado nestes doze anos de domínio petralha. Mas não. Sempre tem uma nova história cabeluda a ser revelada, num crescendo macabro que aumenta de cadência, como a batucada de caveiras e esqueletos que genialmente Saint-Saëns conseguiu inserir na sua magnífica composição.

O ritmo é de tirar o fôlego. Foram primeiro os assassinatos de Celso Daniel e de Toninho do PT, nunca esclarecidos a contento, mas que, no decorrer da história, aparecem hoje como os alertas do que estava por vir, nesse clima de permissividade com o dinheiro da Nação para financiar os planos petralhas. Foram, a seguir, as confabulações de Dirceu et caterva para dominar completamente o Legislativo, no conhecido Mensalão. Foi, paralelamente, a eficaz ocupação dos cargos-chave do Judiciário, na tentativa de aparelhar o STF. Foram as obras feitas sem licitação para garantir a realização da Copa do Mundo de Futebol, obras que em muitos Estados mal saíram do papel. Foram as generosidades incontidas de Lula e Dilma para com os “movimentos sociais” e organizações não governamentais favoráveis ao PT, que receberam bilhões e bilhões do tesouro, para que fizessem a vontade dos donos do poder. Foram as “bolsas” de todos os calibres, distribuídas pelo país afora, para angariar votos e sem que houvesse um mínimo de transparência. Foram as embaixadas abertas por Lula a toque de caixa, notadamente nos países africanos, e que estão quase fechando as portas por falta de recursos essenciais para pagar água e telefone. Foram as obras internacionais mirabolantes via BNDES, como o porto de Mariel, em Cuba, feitas com dinheiro dos brasileiros e sem que mediassem os controles legais. Ainda está por ser aberta essa caixa de pandora, que revelará como os petralhas não somente conseguiram fazer quebrar a Petrobrás, como também esvaziar os cofres da Nação, fazendo bondades com governos amigos, na África e na América Latina. As generosidades oficiais fizeram com que, pela primeira vez na história, o governo conseguisse gastar em 2014 mais do que tinha, deixando um saldo negativo que chega à incrível soma de mais de 20 bilhões de reais.


Nem tudo está perdido. Temos, como na Argentina, funcionários públicos irreprocháveis que cumprem a contento com a sua missão. Lembro dois dignos magistrados: o ministro Joaquim Barbosa, que conseguiu levar o julgamento do Mensalão a bom termo e o juiz Sérgio Moro que, em Curitiba, brilha na sua luta por desvendar todos os segredos do Petrolão, em que pese as ameaças de que tem sido objeto. São estrelas que se alçam nesse breu de incertezas e de sordidez em que os populismos fizeram chafurdar a democracia no Brasil e na Argentina. No país vizinho, em que pese as frustrações e as angústias do momento, brilham as luzes do promotor Nisman e dos seus colaboradores. Pelo menos, contrastando com o crescendo agoniante da “Dança Macabra” do patrimonialismo, se alçam, aqui e lá, essas vozes de dignidade e patriotismo.

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