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sexta-feira, 18 de abril de 2014

O OUTONO DO PATRIARCA

Extinguiu-se a vida do Patriarca da Literatura Ibero-americana: Gabriel García Márquez (1927-2014). Considero ele, depois de Cervantes e ao lado de Borges e Astúrias, uma das cimeiras da língua castelhana. Em sua homenagem, publico aqui ensaio que apareceu no meu livro intitulado: A análise do Patrimonialismo através da Literatura Latino-americana - O Estado gerido como bem familiar (Rio de Janeiro: Documenta Histórica / Instituto Liberal, 2008, 263 p.

A história, na vida das Nações, possui uma lógica interna, uma espécie de DNA que a caracteriza, que é como que a sua marca registrada. Tentar compreender esses fios escondidos na evolução dos povos não é tarefa fácil. Geralmente encontramos grosseiras generalizações, que não levam em consideração essas raízes ocultas. É de François Guizot (1787-1874) a idéia de que escrever a história de uma Nação implica num esforço adicional para compreender os seus valores essenciais. É isso que ele denomina de “História da Civilização”, sendo um exemplo primoroso dessa tarefa a sua obra clássica intitulada História da civilização européia desde a queda do Império Romano até a Revolução Francesa. [1] Quem quiser estudar em profundidade as características identificadoras do papel da França na Europa, não pode se furtar ao estudo dessa obra. Aliás, pensadores sociais os mais variados desse século, de Tocqueville (1805-1859) a Karl Marx (1818-1883), inspiraram-se nas categorias com que Guizot identificou os traços essenciais da história francesa.
À luz desse princípio filosófico poderíamos nos perguntar, hoje, pelo DNA da onda populista que assoberba à América Latina. Sem dúvida que deveríamos mergulhar nas raízes históricas da formação destes países. Ora, nesse contexto, o estudo da forma patrimonialista em que na América Latina vingaram os Estados Nacionais, ao longo do século XIX, é de capital importância para compreender a atual evolução destes povos. Particularmente, no caso venezuelano, a tentativa de compreender o fenômeno Hugo Chávez situa-se nesse contexto, mais especificamente no conhecimento do modo ditatorial de fazer política, que os antepassados políticos formataram nesse país. Não há dúvida de que a figura que deu ensejo à forma particular de exercício unipessoal do poder, num contexto despótico em que o General-Presidente era uma espécie de “dono da Nação”, fanfarrão, loquaz, irreverente, foi Juan Vicente Gómez (1857-1935).
Dois caminhos apresentam-se, hoje, ao estudioso dos costumes políticos: observar a prática destes na biografia das pessoas ou nos ensaios sobre comportamento político, ou ilustra-los no contexto dos valores que animam a essa “antropologia das antropologias”, [2] que é a literatura. Sem pretender negar o valor do primeiro tipo de abordagem, que muito valorizo em autores como o próprio Guizot ou Tocqueville, tentarei, nestas páginas, de ilustrar a figura do Ditador venezuelano à luz da narrativa contemporânea, levando em consideração que importante obra foi nele inspirada. Trata-se de O Outono do Patriarca (1975) de García Márquez que se refere, em primeira instância, a este Ditador venezuelano, mas que é, paralelamente também, uma metáfora aplicável a outros Ditadores ibéricos e ibero-americanos. O seu alcance simbólico é universal. O que não inviabiliza a original inspiração do Prêmio Nobel colombiano no mencionado governante. Boa parte da confusão neste terreno foi ensejada pelo próprio García Márquez que, em sucessivas entrevistas logo após a primeira edição da obra, referiu-se às pesquisas que fez na Espanha franquista, na procura da imagem ideal do Ditador. Mas, em 1982, sete anos após a publicação do romance, o escritor revelou, em entrevista ao ensaísta Plínio Apuleyo Mendoza, o peso que a figura de Juan Vicente Gómez exerceu na criação do personagem central da obra. Eis as palavras do escritor colombiano:
A minha intenção foi, sempre, de fazer uma síntese de todos os ditadores latino-americanos, mas especialmente do Caribe. Contudo, a personalidade de Juan Vicente Gómez era tão importante e, além disso, exercia sobre mim uma fascinação tão intensa que, sem dúvida, o Patriarca tem dele muito mais do que de qualquer outro. De qualquer forma, a imagem mental que tenho de ambos é a mesma. O que não quer dizer, evidentemente, que ele seja o personagem do livro, mas uma idealização de sua imagem.[3]
Em decorrência deste fato, vale a pena identificar, mesmo que sumariamente, alguns traços biográficos do Ditador venezuelano. Juan Vicente Gómez nasceu na fazenda La Mulera (Estado Táchira, nos Andes venezuelanos) no dia 24 de julho de 1857 e morreu em Maracay (Estado Arauca), em 17 de dezembro de 1935. Foi chefe militar, homem de Estado e Presidente da República durante 27 anos, entre 1908 e 1935. Coube a general Juan Vicente Gómez superar, à maneira de Juan Manuel Rosas (1793-1877), na Argentina, ou de Getúlio Vargas (1883-1954), no Brasil, a longa série de Presidentes representantes das oligarquias liberal e conservadora, que na Venezuela tinham abocanhado o poder após as guerras de Independência, ao longo do século XIX. Gómez realizou a unidade venezuelana, se sobrepondo aos demais caudilhos. A forma de efetivar essa unidade foi a da privatização total do poder por parte dele, mediante a intimidação pelas armas, pois Gómez utilizou, na sua tentativa unitarista, a profissionalização das Forças Armadas, postas a serviço da sua proposta reformadora.
Juan Vicente realizou a unificação física do país mediante a construção de estradas que passaram a unir as dispersas e incomunicáveis províncias. O sociólogo Ramón J. Velásquez identificou assim essa situação, do ângulo econômico:
As características dessa economia, bem como o isolamento entre as diversas regiões, mantinham uma espécie de realidade geoeconômica que se refletia no político e no cultural, a divisão da Venezuela em quatro regiões realmente autárquicas: a região centro-ocidental (antiga Província de Caracas ou primitiva Província de Venezuela), a região ocidental integrada pelos Estados andinos, Barinas e El Zulia; a região oriental ou antiga Província de Nueva Andalucía (Sucre, Monagas, Anzoátegui e Nueva Esparta) e a Província de Guayana, cuja economia era essencialmente diferente da praticada nas três zonas assinaladas anteriormente. As cidades e povoados de cada uma dessas Províncias estavam também isolados entre si, pois os caminhos eram os mesmos do período colonial e montanhas abruptas, rios caudalosos, florestas impenetráveis e desertas planícies sem fim marcavam a separação das quatro Venezuelas. (...) As Províncias (...) foram consideradas pela Metrópole até 1777 como corpos independentes uns dos outros e viveram abandonadas da mão do Governo, dispersos os seus habitantes nas solidões de um imenso território, sem nenhuma espécie de comunicação entre si, alheios à influência do ouro e do luxo, diferentemente do que ocorria nos Vice-reinados (...). O sentimento regionalista ganhou, por essas razões, mais força na alma popular, e para isso contribuía, também, a débil autoridade conferida pelas leis ao Capitão Geral e aos Governadores Provinciais (...).[4]
Parece, ao ler estas linhas, como se estivéssemos seguindo as páginas de Oliveira Vianna acerca da dispersão humana na hinterlândia brasileira, descrita em Populações Meridionais do Brasil.[5] É evidente que nesse contexto de atomização física e populacional só uma grande figura conseguiria liderar um processo de integração nacional. A personalidade de líder de Juan Vicente Gómez certamente adequou-se a essa exigência histórica. Gómez foi um definido soberano patrimonialista, aquele que alargou a sua dominação doméstica sobre territórios e gentes fora do seu domínio familiar, e passou a administra-lo tudo como se fosse a sua propriedade patrimonial. Típico processo de privatização do poder por uma autoridade patriarcal. Não precisou tomar emprestado esse modelo de ninguém: era o que se praticava nas dispersas Províncias venezuelanas, notadamente no conservador Estado del Táchira, sua terra natal. A diferença residia em que Gómez tinha uma proposta modernizadora em face do familismo reinante: queria fazer da Venezuela um país unitário, inspirado, sem dúvida, nas idéias do Libertador Simon Bolívar, que morreu sem conseguir consolidar a unidade da Pátria por ele almejada, a Grã Colômbia. O líder não deixava de recordar, a propósito do Libertador, que ele nasceu no dia e no mês do seu nascimento; os fiéis seguidores de Gómez cuidaram, de outro lado, de que a morte do líder fosse registrada como tendo ocorrido no mesmo dia e mês do falecimento de Bolívar... 
Ramón J. Velásquez traça um quadro bastante claro dessas circunstâncias sociopolíticas que rodearam a formação e a ação política de Juan Vicente Gómez:
Dentro desse sistema de vida caracterizado pela estabilidade das hierarquias econômicas e sociais, a condição de dono da terra mantida e acrescentada ao longo de lustros criava, na comunidade, um sentimento preponderante de respeito e obediência ao grupo privilegiado dos proprietários. Atitude coletiva que se refletia na norma inquebrantável de obedecer sem réplica às ordens do clérigo, ao conselho do ancião rico (espécie de sacerdote leigo) e ao mandato inapelável da autoridade local. Dentro desse tradicional sistema de vida era poderosa a influência da Igreja Católica, diferentemente do que ocorreu no Oriente e nas Planícies. De outro lado, a escola primária, de forma semelhante ao que ocorreu no resto da Venezuela, não existiu nas aldeias do Táchira. Como também acontecia em terras de Coro e de Guayana, permaneciam, no meio camponês, velhas crendices e lendas de fantasmas e feitiços, e imperavam o curandeiro e o bruxo que, am aliança com os santos e santas da Igreja salvavam o corpo e a alma dos aldeões. Expressão desse mundo é Juan Vicente Gómez que, pelo seu nascimento, inseriu-se na classe dos latifundiários tachirenses, pois a fazenda La Mulera pertenceu à sua família paterna (...) desde oitenta anos antes do seu nascimento. Gómez conservou, nos seus tempos de ditador, os hábitos da época de fazendeiro e, da mesma forma que manteve inalterada até o final da vida a sua dieta alimentícia, também aplicou ao governo da República simples métodos de administração rural, que conhecia e utilizava de forma eficiente. A comparação do governo da República com o manejo de uma fazenda é sua e a expôs no Congresso Nacional, reunido na sua fazenda El Trompillo, na oportunidade da crise política de 1929 e, no contexto desse sistema, encontrou normas elementares que aplicou como fórmulas permanentes na política fiscal, nas relações internacionais e no controle dos passos dos seus colaboradores nas tarefas de governo. Produto de uma época em que o rigor e a ameaça presidiam a caminhada do homem a partir dos seus primeiros anos, tanto no lar como na escola, não estranha que Juan Vicente Gómez considerasse o castigo como parte essencial na arte do governo. [6]
Embora Juan Vicente Gómez tivesse conseguido realizar a unificação política e administrativa da Venezuela, como ficou salientado nas páginas anteriores, fê-lo, contudo, no marco do mais rigoroso patrimonialismo. Efetivamente, o general transformou-se, no seu longo ciclo à frente do poder, no maior latifundiário da Venezuela, abrigou a inúmeros familiares seus, muito bem remunerados, na burocracia estatal, pôs todo o seu empenho em destruir quaisquer concorrentes, utilizando os meios mais brutais, como assassinatos, torturas e seqüestros, inviabilizou, de modo sistemático, o papel da imprensa livre e fez girar a próspera economia (que começava a lucrar com os benéficos preços da exploração petroleira), ao redor da sua figura, que se constituiu numa espécie de alfândega personalizada, tendo tido ganhos imensos em decorrência desse sistema de privatização dos tributos em benefício próprio.
Como não se trata, aqui, de realizar uma análise historiográfica detalhada da gestão de Juan Vicente Gómez, mas de ressaltar, apenas, as suas características mais marcantes como governante patrimonialista, completarei esta descrição com mais um dado, já do ângulo da sua cultura pessoal. Ramón J. Velásquez insiste na característica de monólogo de que se revestiam todas as entrevistas dadas pelo Ditador. Uma característica que não foi privativa dele, mas que é encontradiça, também, em outros caudilhos latino-americanos. Lembremos rapidamente da figura de Leonel Brizola (1922-2004), cujo estilo personalista o levava a intermináveis monólogos com os seus mais variados interlocutores, utilizando o seu grande poder de comunicador. Lembremos, outrossim, a figura de Fidel Castro, ou a do próprio Hugo Chávez, com essa tendência narcisista a pronunciar discursos pantagruêlicos. García Márquez representou genialmente essa feição do caráter caudilhista de Juan Vicente Gómez, adotando no seu romance o estilo joyciano de corrente de consciência, que dá a sensação de uma torrente de palavras. Não é essa, aliás, a feição marcante do estilo de Juan Vicente? Apenas um parágrafo de uma das suas intermináveis entrevistas em que, para variar, falava de si. Preservarei a citação em espanhol, para que se aprecie melhor a força das palavras, que apelam, sempre, para um estoicismo telúrico, fonte de vitalidade e de poder:
(...) Yo me levantaba antes que los pajaritos allá en “La Mulera”.  Me levantaba cuando todo estaba oscuro y cuando ya amanecía había revisado los potreros, había visto el ganado y los peones habían tomado el café y se habían ido para las sementeras. Después de esa madrugada, cuando comienza a calentar el sol, uno tiene hambre. Y yo me iba a desayunar, porque nunca me ha gustado el aguardiente porque el aguardiente es la perdición, vea lo que le pasó a Eustaquio el año 7 en Caracas que por andar con Isaías Nieto, con Milton y con Tarazona bebiendo aquardiente en los botiquines de Puente Hierro mató al Gobernador Mata Illas. Pues sí señor, como le decía antes, después de la primera jornada que empezaba con la madrugada me iba a desayunar. Usted conoce esos desayunos, esos que los del Centro que los centranos llaman desayunos andinos que son como un almuerzo. Pero es que yo he creído que para poder seguir enfrentando el trabajo toda la mañana hay que estar fuerte y que uno no come por gula sino para estar fuerte. Yo he llegado a donde he llegado he sido militar de campañas, Presidente de la República, Jefe del Ejército y Dictador como dicen mis enemigos y nunca he dejado esas costumbres de la comida, del sueño, de la vigilancia de los hijos, de los hermanos y de los subalternos como lo aprendí en el Táchira desde muy tierno cuando no me había salido todavía el bozo. Y el trabajo y la disciplina, estar siempre sobre el burro es lo que da mando y después se preguntan por qué manda uno y por qué dura uno en el mando. Pues por eso mismo porque está sobre el burro y no anda probando comidas raras ni licores peligrosos ni enredado a toda hora con mujeres, sino que las pone en su puesto. Sí señor todo esto que le digo es la verdad y  ninguno de mis amigos ni de mis enemigos que antes fueron mis amigos me puede desdecir (...).[7]
Antes de terminar este preâmbulo, demos uma rápida olhada para os elementos fundamentais do Patrimonialismo, a fim de identifica-los na leitura do romance de García Márquez. Dentre as características essenciais dessa forma de organização política, estudada por Max Weber (1846-1920) em Economia e Sociedade[8] e por Karl Wittfogel (1896-1988) em O despotismo oriental, [9] sobressaem:
a)      Trata-se de Estados mais fortes do que a Sociedade.
b)      O Estado configura-se não a partir da negociação entre as classes em pugna pela posse do poder (porquanto essas Sociedades não se diversificaram em núcleos de interesses claramente diferenciados, ao contrário das provenientes do mundo feudal).  
c)      O Estado surge a partir da hipertrofia de um poder patriarcal original, que alarga a sua dominação doméstica sobre territórios, pessoas e coisas extrapatrimoniais, passando a administrá-los como propriedade familiar (patrimonial).
d)     O Estado não constitui, propriamente, uma instância pública, projetada para o bem-estar dos cidadãos. O aparelho estatal tende a ser privatizado em benefício dos governantes, do estamento burocrático e dos segmentos sociais cooptados por eles.
e)      Os indivíduos e as classes sociais são afetados pelo “complexo de clã”, que restringe a solidariedade social aos membros do clã parental ou político. As práticas do nepotismo e do clientelismo constituem o principal caminho por meio do qual se efetiva a privatização do Estado.
f)       A lei e as instituições jurídicas não exprimem normas impessoais a partir de um consenso social, mas constituem, fundamentalmente, aparelho casuísta a ser administrado de acordo com os interesses particulares ou clânicos de quem governa.
g)      Esse ordenamento político alicerçou-se, no contexto ibérico e ibero-americano, numa versão de ética do não-trabalho, decorrente dos valores heróicos cultuados pela guerra de oito séculos contra o invasor muçulmano (em Espanha e em Portugal), valores que foram continuados na conquista do Novo Mundo. Esse pano de fundo axiológico encontrou marco teórico definido na reação da Contra-Reforma católica patrocinada por Espanha e Portugal, nos séculos XVI e XVII. Esses valores continuaram a inspirar as elites ibero-americanas que deflagraram, no decorrer do século XIX, os processos de independência das metrópoles espanhola e portuguesa. Emergiu, ao ensejo do ciclo do “despotismo ilustrado”, com Pombal em Portugal, e com Carlos III, na Espanha, a idéia do “Estado Empresário” que garante a riqueza da Nação. Para vingar economicamente, os súditos deveriam “encostar-se no Estado”, surgindo daí essa velha tendência ibérica e ibero-americana a considerar a posse do poder político como fonte de enriquecimento.
No estudo da obra de García Márquez, desenvolverei os seguintes itens: I – Feição trágica do Ditador. II – O Ditador, dono do poder, dono de tudo. III – Estrutura patrimonial do Estado. IV – Natureza edipiana do Ditador.
I -Feição Trágica do Ditador
A figura do Ditador em García Márquez é trágica. É trágica porque é ciclicamente prevista: aparece desenhada nos irregulares traços da mão despótica, nas premonições das pitonisas e nas cartas de adivinhação. É trágica porque é engendro e projeto do desamor. É trágica porque termina em morte. A convicção de que nunca saberá amar produz no Ditador uma amargura ontológica, que se traduz na sua empresa particular de ódio, com que identificará sua vida, e que culmina com o exercício cego do poder pelo poder.
Esse poder total, na mão do déspota, é simbolizado pela bolinha de gude, espécie de amuleto que o Ditador sempre carrega consigo: é como se tivesse o globo terráqueo, feito joguete, na palma da mão. Contudo, paradoxalmente, embora esse poder seja exercido de forma despótica e somente olhando para o benefício do seu portador (bem como dos que se lhe aproximam), no entanto, tal poder termina por virar ficção, ao passo que vai destruindo, um a um, todo aquele que se beneficiou dele. Tragicamente sucumbem os caudatários do poder total: a esposa do tirano, Letícia Nazareno e o seu filho Emanuel, o único que foi reconhecido como herdeiro legítimo dentre os múltiplos filhos nascidos das relações entre o Ditador e as suas concubinas. Tragicamente desaparecem, outrossim, os colaboradores próximos do tirano. Parece como se o Ditador se alimentasse do sangue dos que o rodeiam. É uma espécie de grande vampiro, que suga a vida ao seu redor. Letícia Nazareno e o filho Emmanuel são vítimas de uma trama dos militares que perderam espaço na corte do tirano, que beneficia primeiro (lei do patrimonialismo) aos seus familiares, deixando em segundo lugar o estamento burocrático. A vingança deste é brutal: a mulher e o filho legítimo do Ditador são devorados vivos por uma matilha de cachorros ferozes, especialmente treinados para isso.
Não é menos pior a sorte do sósia do Ditador, cuja tarefa é substituí-lo ali onde houver risco de vida para o tirano. O escolhido para essa desastrada missão é Patrício Aragonés, que deve sofrer uma brutal transformação, que motiva um ódio profundo deste em relação ao seu chefe. A propósito, García Márquez escreve:
(...) Jamais o quis como você imagina mas desde os remotos tempos dos filibusteiros em que tive a desgraça de cair nos seus domínios estou suplicando para que o matem mesmo que seja de boa forma para que me pague esta vida de órfão que me deu, primeiro me aplainando os pés de pilão para que se me convertessem de sonâmbulo como os seus, depois me perfurando o escroto com agulhas de sapateiro para que se me formasse a hérnia, depois fazendo-me beber trementina para que desaprendesse a ler e escrever com tanto trabalho que custou à minha mãe me ensinar, e sempre me obrigando a fazer os ofícios públicos que você não consegue encarar, e não porque a pátria precise de você vivo como diz mas porque ao mais corajoso congela-se-lhe o cu coroando uma puta da beleza sem saber por onde vai aparecer a morte, dito seja isto sem muito respeito meu general, mas a ele não importava a insolência mas a ingratidão de Patrício Aragonés a quem pus a viver como um rei (...).[10]
A trágica desaparição do sósia do Ditador é precedida por um calvário de sofrimentos decorrentes da crescente impopularidade do tirano. Patrício Aragonés é envenenado após um comício em que ficam à luz do dia as falcatruas dos donos do poder. O destino do sósia é trágico porque é iniludível e está previsto desde sempre: tanto ele quanto o seu original devem morrer. Isso é simbolizado nas moedas da sorte, que foram cunhadas com a cara do Ditador e do sósia, como para indicar a identidade dos dois nas fatalidades do poder:
(...) porque todo mundo estava na roubalheira dos papéis dos globos meu general (...) gritavam das sacadas, repetiam de cor abaixo a opressão, gritavam, morra o tirano, e até as sentinelas da casa presidencial apregoavam em voz alta pelos corredores a união de todos sem distinção de classes contra o despotismo de séculos, a reconciliação patriótica contra a corrupção e a arrogância dos militares, não mais sangue, gritavam, não mais roubalheira, o país inteiro acordava do torpor milenário no momento em que ele entrou pela porta da cocheira e encontrou-se com a terrível novidade meu general de que tinham ferido a Patrício Aragonés com um dardo envenenado. Anos atrás, numa noite de maus humores, ele tinha proposto a Patrício Aragonés que jogassem a vida na cara e coroa, se sair cara morres tu, se sair coroa morro eu, mas Patrício Aragonés fez-lhe ver que morreriam empatados porque todas as moedas tinham a cara dos dois por ambos os lados (...).[11]
A morte do sósia do Ditador é, portanto, algo que deve acontecer porque está escrito. Essa certeza da inevitabilidade do destino faz com que personagem e sósia acabem aceitando estoicamente os fatos, sendo que a morte do segundo é uma espécie de anúncio da fatalidade da destruição do tirano. Tão rigorosa é a roda do destino que o próprio dono do poder, em que pese a sua prepotência que o faz exclamar como Yahvé no Antigo Testamento “eu sou o que sou”, é capaz de um ato humanitário quando vê que o seu clone enfrenta as incertezas da morte. Tudo se torna relativo nessa hora suprema. Não há superior nem inferior. A morte a todos iguala:
(...) ele também não tinha por que morrer na mesa do dominó mas na sua hora e no seu lugar de morte natural durante o sono como tinham predito desde o início as bacias divinatórias das pitonisas, e nem sequer assim, pensando bem, porque Bendición Alvarado não me pariu para prestar atenção às bacias mas para mandar e no final das tantas eu sou o que sou eu, e não tu, de forma que agradece a Deus de que isto não era mais do que um jogo, disse-lhe rindo, sem ter imaginado então nem nunca que aquela piada terrível haveria de ser verdade na noite em que entrou no quarto de Patrício Aragonés e o encontrou enfrentado com as urgências da morte, sem remédio, sem nenhuma esperança de sobreviver ao veneno, e ele saudou-o desde a porta com a mão estendida, Deus te guarde, macho, grande honra é morrer pela pátria. Acompanhou-o na lenta agonia, os dois sozinhos no quarto, dando-lhe com a sua mão as colheradas de alívio para a dor, e Patrício Aragonés as tomava sem gratidão dizendo-lhe entre uma e outra colherada que aí o deixo por pouco tempo com o seu mundo de merda meu general porque o coração me diz que vamos a nos ver bem rápido no profundo dos infernos, eu mais torto que um galho com este veneno e vosmercê com a cabeça na mão buscando onde coloca-la (...).[12]
O Ditador acaba sendo enganado pela própria mídia mentirosa que cria para não ser incomodado, convertendo-se ele, de forma irônica, em mais uma mentira. A consciência dessa mentira universal produz no Ditador um vazio de morte. A ficção do seu poder total será a grande mentira em que o Ditador acredita, ao passo que a verdade está do lado da vida de todos os dias, limitada, escorregadia, pobre, mas final vida que foi esquecida na liturgia vazia e brutal da dominação. A propósito, encontramos este trecho da obra:
(...) tinha conhecido a sua incapacidade de amor no enigma da palma de suas mãos mudas e nas cifras invisíveis dos baralhos e tinha tratado de compensar aquele destino infame com o culto abrasador do vício solitário do poder, tinha-se tornado vítima de sua seita para se imolar nas chamas daquele holocausto infinito, tinha-se nutrido na falácia e no crime, tinha vingado na impiedade e no opróbrio e tinha-se superposto à sua avareza febril e ao medo congênito só para conservar até o fim dos tempos a sua bolinha de gude na mão fechada sem saber que era um vício sem termino cuja saciedade gerava o seu próprio apetite até o fim de todos os tempos meu general, tinha sabido desde as suas origens que o enganavam para agrada-lo, que lhe cobravam para adula-lo, que recrutavam pela força das armas as multidões concentradas ao seu passo com gritos de júbilo e letreiros venais de vida eterna ao magnífico que é mais antigo que a sua idade, mas aprendeu a viver com essas e com todas as misérias da glória na medida em que descobria no decorrer dos seus anos incontáveis que a mentira é mais cômoda do que a dúvida, mais útil do que o amor, mais perdurável do que a verdade, tinha chegado sem assombro à ficção de ignomínia de mandar sem poder, de ser exaltado sem glória e de ser obedecido sem autoridade quando convenceu-se no regueiro de folhas amarelas de seu outono que nunca tinha de ser o dono de todo o seu poder, que estava condenado a não conhecer a vida senão pelo reverso, condenado a decifrar as costuras e a corrigir os fios da trama e os nós da urdidura do gobelino de ilusões da realidade sem suspeitar sequer tarde demais que a única vida visível era a de mostrar, a que nós víamos deste lado que não era o seu meu general, este lado de pobres onde estava o regueiro de folhas amarelas de nossos incontáveis anos de infortúnio e nossos instantes intangíveis de felicidade, onde o amor estava contaminado pelos germes da morte mas era todo o amor meu general, onde vosmercê mesmo era apenas uma visão incerta de uns olhos de lástima através das cortinas empoeiradas da janela de um trem (...).[13]
A vida do Ditador é, como reza o título de uma das obras de García Márquez, “crônica de uma morte anunciada”. É a grande certeza, sempre temida e que o próprio dono do poder tentou esconjurar construindo uma grande empresa de “duplipensar”, que o apresenta como “eterno guia do nosso sofrido povo”. Uma vez que não consegue se passar por imortal perante a própria consciência, o hábil prestidigitador do poder trata de mostrar que morrerá como herói, e para isto faz com que as pitonisas sejam “interpretadas” pelos artífices da verdade oficial: o Ditador deverá morrer dignamente, no seu escritório, paramentado com o seu uniforme de linho. Mas não: a morte apresenta-se de sopetão na alta madrugada, flagra-o rudemente vestido como mendigo, descalço e deitado no duro chão de um humilde quarto; entra gatunamente no dormitório do ilustre freguês, atravessando as paredes, sem precisar se tomar o trabalho de destravar as aldravas e os ferrolhos com que o velho sátrapa tentava proteger os seus sonhos. A morte a todos iguala: chama-os indistintamente de Nicanor (nome de um obscuro gramático grego do século II). E com esse nome acorda ao Ditador para lhe anunciar que a sua hora já chegou. Eis o decisivo relato:
(...) jogou-se no chão puro com a calça de tecido grosseiro que usava para estar em casa desde que aboliu as audiências, com a camisa de listras sem o colarinho postiço e as pantufas de inválido, jogou-se de bruços, com o braço direito dobrado sob a cabeça para que lhe servisse de travesseiro, e dormiu no ato, mas às duas e dez acordou com a mente encalhada e um suor pálido e morno de véspera de ciclone, quem vive, perguntou estremecido pela certeza de que alguém o tinha chamado no sonho com um nome que não era o seu, Nicanor, e outra vez, Nicanor, alguém que tinha a virtude de se introduzir no seu quarto sem tirar as aldravas porque entrava e saía quando queria atravessando as paredes, e então a viu, era a morte meu general, a sua, vestida com uma túnica de farrapos de sisal de penitente, com o garabato de pau na mão e o crânio semeado de rebentos de algas sepulcrais e flores de terra na fissura dos ossos e os olhos arcaicos e atônitos nas órbitas descarnadas, e somente quando a viu de corpo inteiro compreendeu que o tivesse chamado de Nicanor Nicanor que é o nome com que a morte nos conhece a todos os homens no instante de morrer, mas ele disse que não, morte, que ainda não era a sua hora, que tinha de ser durante o sono na penumbra do escritório como estava comunicado desde sempre nas águas premonitórias das bacias, mas ela retrucou que não, general, tem sido aqui, descalço e com a roupa de mendigo que levava posta, embora os que acharam o corpo deveriam afirmar que foi no chão do escritório com o uniforme de linho sem insígnias e a espora de ouro no talão esquerdo para não contrariar os augúrios de suas pitonisas (...).[14]   
O destino trágico do Ditador está inscrito ontologicamente na sua natureza. Nasceu da morte e o vazio será a sua descendência. Ambos os extremos dessa cruel epopéia são simbolizados na placenta materna que é jogada aos porcos, e na vacuidade da sua capacidade reprodutiva: o Ditador é um monstro gerado às pressas no fundo de um barracão imundo, numa copulação acidental da mãe, “em pé e sem tirar o chapéu”, com um retirante anônimo e leva em si uma ferida niilista símbolo de sua capacidade autodestrutiva, uma hérnia escrotal que faz com que um testículo tenha sido preenchido pelo ar, lhe conferindo a aparência monstruosa de gaita de fole que assobia um assobio de funeral. Todo esse destino trágico é-lhe revelado pela mãe moribunda:
(...) mas Bendición Alvarado era consciente de ser a única que estava morrendo e tratava de revelar ao filho os segredos de família que não queria levar para o túmulo, contava-lhe como jogaram a sua placenta aos porcos, senhor, como foi que nunca pude deixar claro qual de tantos fugitivos de vereda tinha sido o teu pai, tratava de lhe dizer para a história que o tinha gerado em pé e sem tirar o chapéu pela tormenta das moscas metálicas dos resíduos de melaço fermentado dos fundos de cantina, tinha-o parido mal num amanhecer de agosto no saguão de um mosteiro, tinha-o reconhecido à luz das harpas melancólicas dos gerânios e tinha o testículo direito do tamanho de um figo e esvaziava-se como um fole e exalava um suspiro de gaita com a respiração, desembrulhava-o dos panos que lhe deram as novicias e o mostrava nas praças de feira para ver se achava alguém que conhecesse um remédio melhor e sobretudo mais barato que o mel de abelhas que era o único que lhe recomendavam para a sua má-formação (...).[15]
A sina trágica do Ditador foi prevista pelas pitonisas. Abandonado pela ex-rainha de beleza Manuela Sánchez, ele vê o seu destino traçado nas bacias divinatórias, destino que gira fundamentalmente ao redor da sua incapacidade de amar. Incapacidade tanto mais dolorosa, na medida em que o dono do poder está condenado a envelhecer mais que os seus semelhantes, chegando até a se achar imortal na sua absurda solidão, “com uma idade indefinida”:
(...) sabia que estava condenado sem remédio a não morrer de amor, sabia isso a partir de uma tarde dos começos do seu império em que acudiu a uma pitonisa para que lhe lesse nas águas de uma bacia as chaves do destino que não estavam escritas na palma de sua mão, nem na borra de café nem em nenhum outro meio de adivinhação, somente naquele espelho de águas premonitórias onde se viu a si mesmo morto natural durante o sono no escritório vizinho da sala de audiências, e viu-se esticado de bruços no chão como tinha dormido todas as noites da vida a partir do seu nascimento, com o uniforme de linho sem insígnias, com as polainas, a espora de ouro, o braço direito dobrado sob a cabeça para que lhe servisse de travesseiro, e a uma idade indefinida entre 107 e 232 anos (...).[16]
O tirano chega ao extremo de assassinar com as próprias mãos a pitonisa aleijada que desvenda o segredo da sua sorte. Comete esse crime sem nenhum remorso, por razões de Estado, para que ninguém tome conhecimento das circunstâncias em que ocorrerá a sua morte, mas também para dar vazão à raiva que sente ao ter sido abandonado pela amante:
(...) e então assassinou a velha doente na rede para que mais ninguém conhecesse as circunstâncias de sua morte, estrangulou-a com o cinto da espora de ouro, sem dor, sem um suspiro, como um carrasco profissional, apesar de que foi o único ser deste mundo, humano ou animal, a quem fez a honra de mata-lo com a sua própria mão na paz ou na guerra, pobre mulher. Essas evocações de suas façanhas de infâmia não lhe pesavam na consciência nas noites do outono, pelo contrário, serviam-lhe como fábulas exemplares do que deveria ter sido e não foi sobretudo quando Manuela Sánchez esfumou-se nas sombras do eclipse e ele queria se sentir de novo na flor de sua barbárie para arrancar-se a raiva da burla que lhe consumia as entranhas, deitava-se na rede sob os guizos do vento das tâmaras a pensar em Manuela Sánchez com um rancor que lhe perturbava o sono enquanto as forças da terra, mar e ar buscavam sem achar pegadas até os confins dos desconhecidos desertos de salitre (...).[17]
Mas a morte do tirano não se anuncia apenas através das pitonisas. Ela antecipa-se, também, no fantasma da amante traidora que penetra no seu bunker na alta madrugada, esgueirando-se por entre as sombras e perpassando as paredes. A visão de Manuela Sánchez, mais do que apenas a visão, a presença da amante que queima com a sua rosa, é momento premonitório do encontro definitivo e fatal com a própria morte. Eis o relato dessa antecipação:
(...) eram as três menos quarto quando acordou empapado de suor, estremecido pela certeza de que alguém o tinha olhado enquanto dormia, alguém que tinha tido a virtude de se enfiar na casa sem abrir as aldravas, quem vive, perguntou, fechou os olhos, voltou a sentir que o olhavam, abriu os olhos para enxergar, assustado, e então viu, caralho, era Manuela Sánchez que andava pelo quarto sem destravar os ferrolhos porque entrava e saía à vontade atravessando os muros, Manuela Sánchez da minha má hora com o vestido de musselina e a brasa da rosa na mão e o cheiro natural de alcaçuz de sua respiração, diga-me que não é verdade este delírio, dizia, diga-me que não és tu, diga-me que esta vertigem de morte não é o marasmo de alcaçuz de tua respiração, mas era ela, era a sua rosa, era seu alento morno que perfumava o clima do dormitório como um baixo obstinado com mais domínio e mais antigüidade que a respiração ofegante do mar, Manuela Sánchez do meu desastre que não estavas escrita na palma de minha mão, nem no fundo da minha xícara de café, nem sequer nas águas da minha morte das bacias, não gastes o meu ar de respirar, meu sonho de dormir, o âmbito da escuridão deste quarto onde nunca tinha entrado nem tinha de entrar uma mulher, apaga-me essa rosa, gemia enquanto engatinhava à procura da chave da luz e achava a Manuela Sánchez de minha loucura em lugar da luz (...).[18]
O tema da morte do tirano e das antecipações proféticas do seu destino trágico está cruzado por um outro leitmotiv: o do esquecimento. Sina aniquiladora que começa pelo simples esquecimento das crueldades dos seus colaboradores, para manter incólume o poder total do Ditador, que, à maneira de Stalin perante as barbaridades praticadas por Beria, “não sabia de nada”. Destino de progressiva desaparição da realidade na mentira oficial que, hipostasiada, termina engolindo tudo, a começar pela própria memória que o tirano tem de si mesmo, compelido a escrever os dados das suas façanhas em papeizinhos que distribui pela mansão presidencial afora, para não esquecer quem ele é. Maré de olvido ontológico que se torna Nada metafísico na própria desaparição do Ditador, cuja morte marca “o tempo incontável da eternidade (que) tinha finalmente terminado”. 
O tirano não “sabia de nada” em relação às truculências e crimes dos seus colaboradores. O bajulador de plantão tranqüiliza o chefe, a fim de que não se amedronte com as barbaridades praticadas pelo premiê de plantão, o inescrupuloso José Ignacio Sáenz de la Barra, que faz qualquer coisa para destruir quem ousar opor obstáculos aos planos de poder total do Ditador, ou a conspirar contra o corpo social definido como “armatoste do progresso dentro da ordem” (que começa a cheirar a carniça). Eis as palavras do obscuro funcionário:
(...) mas vosmercê pode dormir tranqüilo meu general pois os bons patriotas da pátria dizem que vosmercê não sabe de nada que tudo isto acontece sem o seu consentimento, que se meu general soubesse teria mandado a Sáenz de la Barra a empurrar margaridas no cemitério de renegados da fortaleza do porto, que cada vez que ficavam sabendo de um novo ato de barbárie suspiravam se o general o soubesse, se pudéssemos fazer com que soubesse, se houvesse uma forma de vê-lo, e ele ordenou a quem tinha contado isso que não esquecesse nunca que verdadeiramente eu não sei de nada, nem vi nada, nem falei dessas coisas com ninguém e assim recobrava o sossego (...) e desde então já não sei quem é quem, nem quem está com quem nem contra quem neste armatoste do progresso dentro da ordem que começa a me cheirar a carniça (...).[19]
O cão de guarda e braço direito do Ditador tem uma função essencial: construir uma máquina intimidatória, a fim de garantir o poder total. Mas o chefe faz questão de “não saber de nada” em face dessa engenhoca de morte que pratica a tortura sistemática, inclusive de crianças, sendo que uma outra atribuição do premiê consiste em provar perante a opinião pública que o tirano “jamais esteve nesse lugar”, na hipótese de que alguma informação transpirasse:
(...) José Ignacio Sáenz de la Barra regressava uma vez mais com os seus poderes intactos à fábrica de suplícios que tinha instalado a menos de quinhentos metros da casa presidencial no inofensivo prédio de alvenaria onde tinha funcionado o manicômio dos holandeses, numa casa tão grande como a sua, meu general, escondida num bosque de amendoeiras e rodeada por um prado de violetas silvestres, cuja primeira planta estava destinada aos serviços de identificação e registro do estado civil e no resto estavam instaladas as máquinas de tortura mais engenhosas e bárbaras que podia conceber a imaginação, tanto que ele não tinha querido conhece-las mas advertiu a Sáenz de la Barra que você continue cumprindo com o seu dever como melhor convenha aos interesses da pátria com a única condição de que eu não sei nada nem vi nada nem jamais estive nesse lugar, e Sáenz de la Barra deu a sua palavra de honra para servir a vosmercê, general, e tinha cumprido, da mesma forma que cumpriu a ordem de não voltar a martirizar as crianças menores de cinco anos (...).[20]
A estratégia de esquecimento estende-se a tudo aquilo que seja conveniente ignorar para manter incólume a estrutura do poder patrimonial. Forma parte da mesma, passar em brancas nuvens a corrupção doméstica da esposa e do filho do tirano, que às quartas-feiras tinham o costume de descer ao mercado da cidade, para encherem as burras por conta do governo:
(...) ele deixava prosperar a crença que ele mesmo tinha inventado de que era alheio a tudo quanto ocorria no mundo que não estivesse à altura de sua grandeza mesmo que se tratasse dos desplantes públicos do único filho que tinha reconhecido como seu dentre os incontáveis que tinha gerado, ou as atribuições desmedidas da minha única e legítima esposa Leticia Nazareno que chegava ao mercado às quartas-feiras ao amanhecer conduzindo pela mão o seu general de brinquedo em meio à escolta barulhenta das serventes de quartel (...).[21]
O esquecimento premeditado e sistematicamente praticado torna-se, no entanto, arma fatal para o Ditador. Ele próprio termina perdendo a memória da sua própria história, num dramático prenúncio do que será o seu banimento, para sempre, do terreno do conhecimento e do ser. Não adianta a infantil solução presidencial para a perda da memória: invocar o nome protetor da mãe defunta e escrever em papeizinhos enrolados os fastos da gestão tirânica, que terminará escorregando como água suja por entre os buracos do ralo do esquecimento:
(...) enquanto eu deambulava por esta casa de sombras pensando minha mãe Bendición Alvarado de meus bons tempos, me acuda, olha como estou sem o amparo do teu manto, clamando sozinho que não valia a pena ter vivido tantos fastos de glória se não podia evoca-los para alegrar-se com eles se alimentar deles e continuar sobrevivendo graças a eles nos pântanos da velhice porque até as dores mais intensas e os instantes mais felizes de seus tempos grandes tinham escorregado sem remédio pelos buracos da memória apesar de suas tentativas cândidas de impedi-lo com tampões de papeizinhos enrolados (...).[22]
A última etapa desse processo de esquecimento é a culminância da tragédia: o mergulho definitivo no desconhecimento de tudo, definido como “pátria de trevas da verdade do esquecimento”. A opção pelo poder total está do lado de lá das margens do rio da vida, cuja verdadeira dimensão se apreende do lado de cá da cotidianidade, que é a perspectiva do cidadão comum que paga impostos, que ama de paixão a vidinha que leva e que morre, mas que encontra fissuras de felicidade nessa intranscendência, nos modestos prazeres do dia-a-dia. Nada melhor para definir esse cataclismo ontológico, que é a porta de entrada para o Nada metafísico (caracterizado como o término do “tempo incontável da eternidade”), do que as próprias palavras com que García Márquez termina a sua magnífica narrativa:
(...) a única vida visível era a de mostrar (...), este lado de pobres (...), onde vosmercê mesmo era apenas uma visão incerta de uns olhos de lástima (...), um tirano de burlas que nunca soube onde estava o reverso e onde estava o lado verdadeiro desta vida que amávamos com uma paixão insaciável que vosmercê não se atreveu nem sequer a imaginar por medo de saber o que nós sabíamos de sobra que era árdua e efêmera mas que não havia outra, general, porque nós sabíamos quem éramos enquanto ele ficou sem sabe-lo para sempre com o doce assobio de sua hérnia escrotal de morto velho truncado de raiz pelo golpe da morte, voando entre o rumor escuro das últimas folhas geadas de seu outono em direção à pátria de trevas da verdade do esquecimento, agarrado de medo aos farrapos de fios podres da batina da morte e alheio aos clamores das multidões frenéticas que se jogavam nas ruas cantando os hinos de júbilo da notícia jubilosa de sua morte e alheio para sempre jamais às músicas de libertação e aos foguetes de alegria e aos sinos de glória que anunciaram ao mundo a boa nova de que o tempo incontável da eternidade tinha finalmente terminado.[23]

II - O Ditador, Dono do poder, Dono de Tudo
A feição do poder é, para o Ditador, única e unipessoal. Não pode compartilha-lo com ninguém, só admitindo a cooptação daqueles que lhe forem úteis. O Ditador é a Pátria. Ele controla homens e elementos, numa espécie de eterno presente de marasmo ou entropia cósmica que antecipa a morte. Mesmo tendo controle total sobre tudo, o Ditador tem medo: ao ouvir as badaladas do relógio, inimigo fugaz da eternidade, fecha-se no seu dormitório com três séries de fechaduras, mas apesar dessas providências ainda escuta os “assobios tênues” da hérnia escrotal, prenúncio trágico de sua finitude:
(...) ia deixando o rastro de poeira do regueiro de estrelas da espora de ouro nas madrugadas fugazes de ráfagas verdes das aspas de luz das voltas do farol, viu entre dois instantes de luz um leproso sem rumo que caminhava dormido, fechou-lhe a passagem, conduziu-o pela sombra sem tocá-lo iluminando-lhe o caminho com as luzes de sua vigília, colocou-o nos roseirais, voltou a contar as sentinelas na escuridão, regressou ao dormitório, viu ao passar diante das janelas um mar igual em cada janela, o Caribe em abril, contemplou-o vinte e três vezes sem se deter e era sempre como sempre em abril como um lamaçal dourado, ouviu as doze, com o último golpe dos martelos da catedral sentiu a torção dos assobios tênues do horror da hérnia, não havia mais ruído no mundo, ele só era a pátria, passou as três aldravas, os três ferrolhos, os três pestilos do dormitório, urinou sentado na latrina portátil (...).[24]
O Ditador é uma espécie de ave-fênix que recobra a sua força sempre que os inimigos tentam derruba-lo. Após debelar, com o auxílio da gard-de-corp, uma conjuração em que os inimigos anunciaram a sua morte, o déspota comemora com amplos festejos populares a sua “ressurreição dentre os mortos”, se colocando assim como novo messias imune aos perigos da finitude; o que não impede que novas preocupações surjam, provenientes da sua gard-de-corp que foi agraciada e cooptada com generosas promoções, mas que não tardará em voltar à carga de intrigas e insatisfações. De qualquer forma, as coisas estão na santa paz de Deus, de momento, pois tudo marcha nos eixos, em decorrência do fato de que o Ditador “é o governo”, sem oposição que o faça balançar:
(...) Havia uma manifestação permanente na Praça de Armas com gritos de adesão eterna e grandes letreiros de Deus guarde o magnífico que ressuscitou ao terceiro dia dentre os mortos, uma festa sem término que ele não teve de prolongar com manobras secretas como fez em outros tempos, pois os assuntos do estado arrumavam-se sozinhos, a pátria marchava, ele só era o governo, e ninguém atrapalhava nem de palavra nem de obra os recursos de sua vontade, porque estava tão só na sua glória que já não restavam nem inimigos, e estava tão agradecido com o meu compadre de toda a vida o general Rodrigo de Aguilar que não voltou a se inquietar com o gasto de leite mas fez formar no pátio os soldados rasos que tinham-se distinguido pela sua ferocidade e o seu sentido do dever, e assinalando-os com o dedo segundo os impulsos de sua inspiração ascendeu-os aos graus mais altos sabendo que estava restaurando as forças armadas que iam cuspir na mão que lhes tinha dado de comer, tu a capitão, tu a maior, tu a coronel, que digo, tu a general, e todos os demais a tenentes (...).[25]
A oposição que outrora liberais e conservadores exerciam (e que era reforçada pelas intrigas da Igreja, das forças armadas e dos próprios ministros, bem como pelas maquinações do embaixador americano), simplesmente foi banida. É muito significativa a cena em que o tirano aparece redivivo, após um dos numerosos atentados que ensejou rumores acerca da sua morte, justamente no momento em que os conjurados se reuniram na sede do governo para negociar a nova estrutura do poder:
(...) Empurrou a porta da sala do conselho de ministros, ouviu através do ar de fumaça as vozes cansadas em torno à longa mesa de cedro, e viu através da fumaça que ali estavam todos quantos ele tinha querido que estivessem, os liberais que tinham vendido a guerra federal, os conservadores que a tinham comprado, os generais do alto comando, três de seus ministros, o arcebispo primaz e o embaixador Schotner, todos juntos numa só arapuca invocando a união de todos contra o despotismo de séculos para se repartirem entre todos o botim da sua morte, tão absorvidos nos abismos da ambição que ninguém percebeu a aparição do presidente insepulto que deu um só golpe com a palma da mão, e gritou, ará! E não teve de fazer mais nada, pois quando tirou a mão da mesa já tinha passado o arrastão de pânico e só ficavam no salão vazio os cinzeiros cheios, as xícaras de café, as cadeiras derrubadas no chão, e o meu compadre de toda a vida o general Rodrigo de Aguilar em uniforme de campanha (...).[26]
Quando um outro atentado coloca pelo chão a casa dos próceres, visando novamente à eliminação do tirano, o velho general promete, como Jesus, reconstruir o templo republicano e aproveita a oportunidade para “liquidar o aparelho legislativo e judicial da velha república” (remember Hugo Chávez), utilizando mecanismos conhecidos: uma espécie de “mensalão” para os congressistas e embaixadas remotas para os magistrados, ficando apenas em companhia do índio do facão, o seu fiel guarda-costas:
(...) arrancaram de raiz a casa augusta de nossos próceres originais cujas chamas viram-se até muito tarde na noite desde a sacada presidencial, mas ele não se impressionou com a novidade (...) de que não tinham deixado nem as pedras das fundações, prometeu-nos um castigo exemplar para os autores do atentado que nunca apareceram, prometeu-nos reconstruir uma replica exata da casa dos próceres cujas ruínas carbonizadas permaneceram até os nossos dias, não fez nada para dissimular o terrível exorcismo do sonho ruim mas aproveitou a ocasião para liquidar o aparelho legislativo e judicial da velha república, cumulou de honras e dinheiro aos senadores e deputados e magistrados de cortes das que já não precisava para salvar as aparências das origens do seu regime, desterrou-os em embaixadas felizes e remotas e ficou sem mais séqüito que a sombra solitária do índio do facão que não o abandonava por um instante, provava a sua comida e a sua água, guardava a distância, vigiava a porta (...). [27]
Com os traidores, o Ditador não tem nenhuma transigência. O general Rodrigo de Aguilar, ministro da defesa e um dos seus mais próximos colaboradores que tentou derruba-lo num “golpe de Estado perfeito” (fazendo-o trancafiar no manicômio), recebeu um castigo brutal, planejado na medida exata do ódio que despertou no chefe a audácia do súdito: foi servido assado, com pompa e circunstância, num elegante banquete, na casa presidencial:
(...) saúde, disse, a mão inapelável de lírio lânguido voltou a levantar a taça com que tinha brindado a noite toda sem beber, ouviram-se os ruídos viscerais das máquinas dos relógios no silêncio de um abismo final, eram doze horas, mas o general Rodrigo de Aguilar não chegava, alguém tratou de se levantar, por favor, disse, ele o petrificou com o olhar mortal de que ninguém se mexe, ninguém respira, ninguém vive sem a minha permissão até que terminaram de soar as doze, e então abriram-se as cortinas e entrou o egrégio general de divisão Rodrigo de Aguilar em bandeixa de prata esticado do tamanho que era sobre um enfeite de couves-flores e louros, condimentado com especiarias, dourado ao forno, paramentado com o uniforme de cinco amêndoas de ouro das ocasiões solenes e as presilhas de valor sem limites na manga do médio braço, quatorze libras de medalhas no peito e um raminho de perrexil na boca, pronto para ser servido em banquete de companheiros pelos esquartejadores oficiais diante da petrificação de horror dos convidados que assistimos sem respirar à estranha cerimônia do esquartejamento e à distribuição, e quando cada um teve uma porção igual de ministro da defesa com recheio de pinhões e ervas aromáticas, ele deu a ordem para começar, bom proveito senhores (...).[28]
Nenhuma transigência, também, para com os que pratiquem a oposição contra o Ditador, notadamente para com os que divulguem, pela sociedade afora, notícias ou opiniões que visem a colocar a nu os crimes do governo ou a ridicularizar a figura do tirano. Como ele tinha-se tomado de amores por uma jovem rapariga que morava nos infectos subúrbios, e saísse na calada da noite para visitá-la, os poetas populares divulgaram, aos quatro ventos, incômoda sátira que o ridicularizava. Na onda repressiva que o tirano desatou foram vitimados até os papagaios e os periquitos, que aprenderam a recitar as subversivas estrofes que a multidão cantava:
(...) em todos os céus da pátria ouviu-se, ao entardecer, aquela voz unânime de multidões fugitivas que cantavam que aí vem o general dos meus amores expelindo cocô pela boca e leis pelo traseiro, uma canção sem termino à qual todo mundo e até os papagaios adicionavam estrofes para burlar os serviços de segurança que tratavam de confisca-la, as patrulhas militares preparadas para a guerra quebraram postigos nos pátios e fuzilaram os papagaios subversivos nos poleiros, jogavam bandos de periquitos vivos aos cães, declaravam o estado de sítio tratando de extirpar a canção inimiga para que ninguém descobrisse o que todo mundo sabia que era ele quem se esgueirava como um prófugo ao entardecer pelas portas de serviço da casa presidencial, passava pelas cozinhas e desaparecia na fumaça das bostas das habitações privadas até amanhã às quatro, rainha, até todos os dias à mesma hora em que chegava à casa de Manuela Sánchez carregado com tantos presentes insólitos que teve de se apoderar das casas vizinhas e derrubar paredes intermediárias para ter onde coloca-los (...).[29]
O Ditador tudo controla, até o tempo. A sua presença, escondida por trás de uma aparência rude é, no entanto, uma espécie de estigma, que marca as pessoas que com ele convivem em algum momento das suas vidas. Já nos últimos anos do déspota, um dos seus colaboradores fazia as seguintes reflexões, destacando como o tirano controlava o tempo dos relógios e dos calendários:
(...) Era difícil admitir que aquele velho irrecuperável fosse o único saldo de um homem cujo poder tinha sido tão grande que alguma vez perguntou que horas são e lhe tinham respondido as que vosmercê ordene meu general, e era assim, pois não só alterava os tempos do dia como melhor conviesse aos seus negócios mas também mudava os dias festivos de acordo com os seus planos para percorrer o país de feira em feira (...), andava por todo o país com o seu raro caminhar de tatu, com o seu rastro de suor bravo, com a barba sem fazer, aparecia sem nenhum anúncio numa cozinha qualquer com aquele ar de vovô inútil que fazia tremer de pavor as pessoas da casa, bebia água da bacia com a cabaça de servir, comia na mesma panela de cozinhar pegando os pedaços de carne com os dedos, demasiadamente jovial, demasiadamente simples, sem suspeitar que aquela casa ficava marcada para sempre com o estigma da sua visita, e não se comportava dessa maneira por cálculo político nem por necessidade de amor como aconteceu em outros tempos mas porque esse era o seu modo natural de ser quando o poder não era ainda o mar de lama sem beira da plenitude do outono (...).[30]
Mais do que ser eterno, o Ditador é um hábil propagandista que consegue vender a idéia da sua imortalidade. A opinião pública está convicta de que o seu ciclo vital perpassa as épocas, sobrevivendo às idas e vindas do cometa. O povo humilde fica com medo de que essa imortalidade seja verdadeira, e termina convivendo com uma espécie de temor reverencial, que busca tornar menos perigosa a longevidade sem limites do tirano com algumas piadas sobre a velhice:
(...) Não somente tínhamos terminado por acreditar verdadeiramente que ele tinha sido concebido para sobreviver ao terceiro cometa, mas essa convicção tinha-nos infundido uma segurança e um sossego que tentávamos dissimular com toda classe de piadas sobre a velhice, atribuíamos-lhe as virtudes senis das tartarugas e os hábitos dos elefantes, contávamos nos botequins que alguém tinha informado ao conselho de governo que ele tinha morrido e que todos os ministros entreolharam-se assustados e perguntaram-se assustados agora quem vai comunicar a notícia a ele, ra, ra, ra, quando na verdade a ele não teria se interessado em sabe-lo nem estaria muito seguro ele mesmo de se aquela piada de rua era certa ou falsa (...).[31]
O controle que o Ditador diz ter sobre o tempo dos calendários, dos relógios e da própria vida estende-se, também, ao tempo livre, o grande aliado da perversa imaginação dos cidadãos, que começam a pensar besteiras como liberdade e outras coisas desagradáveis. Como outrora os soberanos absolutos do século XVII, o Ditador preenche o tempo livre dos seus súditos, mediante uma vigorosa programação de eventos aparentemente lúdicos, mas que possuem como finalidade única o reforço ao poder total. O Ditador decide substituir as torturas que amedrontam aos cidadãos para que não se revoltem contra a opressão, pelo controle do tempo livre dos mesmos, numa jogada estratégica de mestre. Nessa maquiavélica providência, o futebol ocupa lugar de destaque na política de “panem et circenses” agora adotada, embora esteja presente, também, a idéia de uma “pedagogia” para educar meninas através do trabalho (entendido não como livre iniciativa para ganhar dinheiro, mas como serviço prestado ao Estado):
(...) Resolvido a dissipar até as últimas fagulhas das inquietações que Patrício Aragonés tinha plantado no seu coração, decidiu que aquelas torturas fossem as últimas do seu regime, mataram os jacarés, desmantelaram as câmaras de suplício onde era possível triturar osso por osso até todos os ossos sem matar, proclamou a anistia geral, antecipou-se ao futuro com a idéia mágica de que o problema deste país é que sobra demasiado tempo às pessoas para pensar e buscando a forma de mantê-las ocupadas instaurou novamente os jogos florais de março e os concursos anuais de rainhas da beleza, construiu o maior estádio de futebol do Caribe e passou à nossa equipe a consigna de vitória ou morte, e ordenou estabelecer em cada província uma escola gratuita para ensinar a varrer cujas alunas fanatizadas pelo estímulo presidencial seguiram varrendo as ruas depois de ter varrido as casas e logo as estradas e os caminhos vizinhais, de forma que os montes de lixo eram levados e trazidos de uma província para outra sem saber o que fazer com elas em procissões oficiais com bandeiras da pátria e grandes letreiros de Deus guarde ao puríssimo que zela pela limpeza da nação (...).[32]
Qual é a força metafísica que faz com que o Ditador deseje tudo controlar? De imediato, podemos responder que essa pulsão de domínio sem limites provém da sua vontade de se perpetuar no tempo: o tirano é um animal político que teme a morte. Mas essa sua natureza dominadora revela uma outra força mais arcaica: ele quer controlar o cosmo para arrancar, à amada, um suspiro de assombro perante o mistério da imensidão galáctica. Essa obscura força que o leva a praticar loucuras aparece clara no seguinte texto:
(...) ele chegou em casa se sufocando com a notícia de que hoje te trago o presente mais grande do universo, um prodígio do céu que vai acontecer esta noite às onze zero seis para que tu o vejas, rainha, só para que tu o vejas, e era o cometa. Foi uma de nossas grandes datas de desilusão, pois já fazia tempo tinha-se divulgado um factoide como tantos outros de que o horário de sua vida não estava submetido às normas do tempo humano mas aos ciclos do cometa, que ele tinha sido concebido para vê-lo uma vez mas que não deveria vê-lo numa segunda apesar dos augúrios arrogantes de seus aduladores, assim que tínhamos esperado como quem esperava a data de nascer na noite secular de novembro em que se prepararam as músicas de regozijo, os sinos de júbilo, os foguetes de festa que por primeira vez num século não explodiam para exaltar a sua glória nem para esperar as onze badaladas das onze que deveriam assinalar o término dos seus anos, para celebrar um acontecimento providencial que ele esperou no terraço da casa de Manuela Sánchez, sentado entre ela e sua mãe, respirando com força para que não lhe descobrissem os apertos do coração sob um céu enrijecido de maus presságios, aspirando por última vez o hálito noturno de Manuela Sánchez (...).[33]
Na narrativa que dá continuação ao texto que acabamos de citar aparece clara a razão que leva o Ditador a oferecer à amada um espetáculo cósmico de índole apocalíptica: o déspota quer faze-la intuir, por um instante, em numinoso êxtase, o abismo insondável da eternidade, a fim de ele se apresentar como o Ser, como o Incondicionado. O tirano quer ser Deus. Supremo pecado de Hybris! Suprema mentira metafísica. Porque o Ditador é apenas uma substância corrompida e dissecada pelo fogo lento do poder. Quão longe está o Ditador do verdadeiro êxtase que, através da beleza da amada, abre-se, como na meditação de Leão Hebreu nos seus Diálogos de Amor[34], à insondável imensidão da entrega total ao Um. Quão distante está a personagem central de o Outono do Patriarca da entrega cavalheiresca à amada, que constitui a síndrome romântica de dom Quixote, entrega que Sancho compara à incondicionalidade do sim, sim, não, não da opção evangélica.
O Ditador aproxima-se do herói tanático moderno encarnado pelo doutor Fausto, ou do latin lower antecipado pelo amante encarnado na figura de Don Juan. Tanto um quanto outro querem possuir a amada para, uma vez possuída, conduzi-la à aniquilação, ou simplesmente para relatar em praça pública que ela forma parte da coorte de seduzidas, ela é apenas mais uma conquista do amante empedernido. Eis o texto que põe a nu a figura do amante que propicia uma pirotecnia celeste à amada, com a finalidade canhestra de torna-la apenas posse sua:
Ouviram o zunido de tiras de papel de estanho, viram o seu rosto atribulado, os seus olhos cheios de lágrimas, o rastro de venenos gelados de sua cabeleira desarrumada pelos ventos do espaço que iam deixando no mundo uma cauda de poeira brilhante de escombros siderais e amanheceres retrasados por luas de alcatrão e cinzas de crateras de oceanos anteriores às origens do tempo da terra, aí está, rainha, murmurou, olha-lo bem, que não voltaremos a vê-lo até daqui a um século, e ela fez aterrorizada o sinal da cruz, mais bela do que nunca sob o resplendor de fósforo do cometa e com a cabeça nevada pelo chuvisco tênue de escombros astrais e sedimentos celestes, e então foi quando ocorreu, minha mãe Bendición Alvarado, ocorreu que Manuela Sánchez tinha visto no céu o abismo da eternidade e tratando de se agarrar à vida estendeu a mão no vazio e a única coisa que encontrou foi a mão indesejável com o anel presidencial, a sua cálida e suave mão de rapina cozida no rescaldo do fogo lento do poder (...).[35]
O Ditador busca desesperadamente oferecer à amada uma outra experiência que beirasse a insondável presença do Ser. Deixou-o saudoso aquela noite do cometa em que, num centésimo de segundo, presenciou o êxtase da bela mulher perante o desconhecido da imensidão sideral. Gostaria de repetir essa circunstância, para tentar de novo se aproximar desse orgasmo cósmico de que ele não participara, embora tivesse tentado seduzi-la com a sua presença mesquinha de Ditador caribenho. Saudades da experiência do Absoluto, que jamais ele conseguiu vivenciar. Saudades da experiência sublime do Amor (simbolizado na rosa na mão quente da amada no encontro envolvente dela com o Absolutamente Outro), que lhe estava definitivamente vedada pela sua estrutura ontológica de filho do Nada e do ódio. Porque o Ser, que é a fonte do Amor, somente se revela aos que se esvaziaram da pretensão prometeica de se tornarem donos dele e o escutam, humildes, em silêncio, na intangível relva da contemplação pura. Ora, a sua vontade de dominação falava alto demais! Eis o texto que nos relata a segunda tentativa de oferecer à amada um espetáculo cósmico que, planejado pelos técnicos oficiais, degenera em prosaica pirotecnia astronômica. Resultado: a amada desaparece nas trevas do eclipse oficial, como fogem os sonhos primaveris dos quais não gostaríamos de acordar, ao serem feridos os nossos olhos pela luz da manhã de segunda-feira:
(...) delegava a sua autoridade em funcionários menores atormentado pela lembrança da brasa na mão de Manuela Sánchez em sua mão, sonhando com viver de novo aquele instante feliz mesmo que se torcesse o rumo da natureza e se estropiasse o universo, desejando-o com tanta intensidade que terminou por suplicar aos seus astrônomos que lhe inventassem um cometa de pirotecnia, um luzeiro fugaz, um dragão de fogo, qualquer engenhoca sideral que fosse o suficientemente aterrorizadora como para causar uma vertigem de eternidade a uma bela mulher, mas o único que puderam encontrar nos seus cálculos foi um eclipse total de sol para a quarta-feira da próxima semana às quatro da tarde meu general, e ele aceitou, de acordo,  e foi uma noite tão verídica em plena luz do dia que se iluminaram as estrelas, murcharam as flores, as galinhas recolheram-se e sobressaltaram-se os animais de melhor instinto premonitório, enquanto ele aspirava o hálito crepuscular de Manuela Sánchez que ia se lhe tornando noturno à medida que a rosa languidescia na sua mão pelo engenho das sombras, aí está, rainha, disse-lhe, é o teu eclipse, mas Manuela Sánchez não respondeu, nem tocou-lhe a mão, não respirava, parecia tão irreal que ele não pôde suportar o desejo e estendeu a mão na escuridão para tocar a sua mão mas não a encontrou, procurou-a com a ponta dos dedos no lugar onde tinha estado o seu cheiro, mas tampouco encontrou-a, continuou a procura-la com as duas mãos pela casa enorme, dando braçadas com os olhos abertos de sonâmbulo nas trevas, perguntando-se dolorido onde estarás Manuela Sánchez de minha desgraça que eu te procuro e não te encontro na noite desgraçada do teu eclipse, onde estará a tua mão impiedosa, onde a tua rosa, nadava como um mergulhador perdido num estanque de águas invisíveis em cujos aposentos encontrava flutuando as lagostas pré-históricas dos galvanômetros (...).[36]
Morto para o Amor, cego perante a luz do Ser, resta ao tirano se refugiar no nada do seu projeto mesquinho de poder, não sem deixar de ser perturbado pela recordação da proximidade da presença calorosa da amada, ou pelas notas estranhas dessa música celestial que é a poesia. Quando o poeta nicaragüense Rubén Darío visita a capital e pronuncia memorável recital no teatro da cidade, o rabugento tirano está presente, escondido num canto, mas não consegue impedir que o verbo mágico do épico das letras castelhanas o deixe “flutuando sem a sua permissão”:
(...) não vimos mais ninguém no palco presidencial, mas durante as duas horas do recital suportamos a certeza de que ele estava aí, sentíamos a presença invisível que vigiava nosso destino para que não fosse alterado pela desordem da poesia, ele regulava o amor, decidia a intensidade e o término da morte num canto do palco na penumbra de onde viu sem ser visto o minotauro espesso cuja voz de centelha marinha tirou-o em cheio de seu lugar e de seu instante e o deixou flutuando sem a sua permissão no trovão de ouro dos claros clarins dos arcos triunfais de Martes e Minervas de uma glória que não era a sua, meu general (...).[37]  
Perturbado com a beleza da poesia, o general tenta decorar as arrebatadoras estrofes do poeta nicaragüense, mexe o corpo embalado pelos acordes imperceptíveis dos dísticos épicos e se pergunta, desde o fundo do seu ceticismo pragmático de caudilho andino:
(...) caralho, como é possível que este índio possa escrever uma coisa tão bela com a mesma mão com que limpa o cu, dizia para si, tão excitado pela revelação da beleza escrita que arrastava as suas grandes patas de elefante cativo ao compasso das batidas marciais dos timbaleiros, adormecia ao ritmo das vozes de glória do canto sonoro do cálido coro que Letícia Nazareno recitava para ele à sombra dos arcos triunfais da árvore do pátio, escrevia os versos nas paredes dos banheiros, estava tratando de recitar de cor o poema completo no Olimpio temperado de bosta de vaca nos estábulos de ordenho (...).[38]

III - Estrutura Patrimonial do Estado
Na narrativa de García Márquez, aparece claramente desenhado o Estado Patrimonial na melhor forma definida por Weber, como aquele segundo o qual um poder patriarcal original alarga a sua dominação doméstica sobre territórios, pessoas e coisas extrapatrimoniais, passando a administra-los como propriedade familiar ou patrimonial. Ora, a estrutura do poder em O outono do patriarca é familística. Nela não se distingue o que é público do que é privado; todas as funções reduzem-se a incumbências ditadas pelo interesse de família ou de clã, sem que exista racionalidade, nem um critério de comportamento ético, antes, pelo contrário, tudo se desenrola em meio a uma grande balbúrdia, com os bichos da granja invadindo o espaço que deveria ser público. Digamos que a estrutura de poder é familística, mas de uma família primitiva. Uma espécie de convívio caótico entre casa grande e senzala. A descrição do escritor colombiano em relação a essa forma de dominação é clara:
(...) E tudo aquilo em meio ao escândalo dos funcionários vitalícios que encontravam galinhas pondo ovos nas gavetas das escrivaninhas, e tráfico de putas e soldados nas privadas, e alvoroço de pássaros, e brigas de cachorros vira-latas em meio às audiências, porque ninguém sabia quem era quem nem vindo de parte de quem naquele palácio de portas abertas em cuja desordem monumental era impossível estabelecer onde estava o governo. O homem da casa não só participava daquele desastre de féria como ele próprio o promovia e comandava (...).[39]
A estrutura do Estado é a mínima possível, não obviamente na trilha do “Estado mínimo” de inspiração neoliberal (pequeno, mas eficiente), mas no contexto já apontado, de uma organização rudimentar em que o que prevalece é o interesse do patriarca, salvaguardado por uma espécie de estamento pré-burocrático, constituído pelos servidores mais fiéis. A propósito, encontramos este trecho:
(...) Não teve de tomar nenhuma das determinações previstas, pois o exército dissolveu-se sozinho, as tropas dispersaram-se, os poucos oficiais que resistiram até última hora nos quartéis da cidade e em outros seis do país foram aniquilados pelos guardas presidenciais com a ajuda de voluntários civis, os ministros sobreviventes exilaram-se ao amanhecer e só restaram os dois mais fiéis, um que também era o seu médico particular e outro que era o melhor calígrafo da nação (...).[40]
O caudilho bárbaro que preside essa espécie de republiqueta de baixo meretrício, gaba-se de ter posto fim a uma federação de mentira, em que cada chefete privatizou para si uma parte do Estado. A conquista da unidade não é, porém, garantia alguma de racionalidade nem de democracia. Os tiranetes de ontem, chefiados pelo general-poeta Lautaro Muñoz, foram substituídos pelo único tirano, que constituiu, ao redor de si, um Estado familístico e clientelista [41]. A propósito escreve o romancista, reconstruindo o que era a federação de senhores patrimoniais locais, antes que o patriarca tomasse com mão de ferro o poder, eliminando os seus concorrentes:
(...) era um peixe fugitivo que nadava sem deus nem lei, num palácio de vizinhança, perseguido pela turva voraz dos últimos caudilhos da guerra federal que tinham me ajudado a derrubar o general poeta Lautaro Muñoz, um déspota ilustrado que Deus tenha na sua santa glória com os seus missais de Suetónio em latim e os seus quarenta e dois cavalos de sangue azul, mas em troca dos seus serviços de armas tinham se apoderado das fazendas e gados dos antigos senhores proscritos e tinham se repartido o país em províncias autônomas com o argumento inapelável de que isso é o federalismo, meu general, por isso temos derramado o sangue das nossas veias, e eram reis absolutos nas suas terras, com as suas próprias leis, as suas festas pátrias pessoais, o seu papel moeda assinado por eles mesmos, os seus uniformes de gala (...) copiados de antigos desenhos de vice-reis da pátria antes dele, e eram broncos e sentimentais, senhor, entravam na casa presidencial pela porta grande sem licença de ninguém pois a pátria é de todos meu general, por isso temos-lhe sacrificado a vida, acampavam na sala de festas com seus filhos de harém paridos e os animais de granja dos tributos de paz que exigiam na sua passagem por todas partes para que nunca lhes faltasse o que comer, levavam uma escolta pessoal de mercenários bárbaros que em lugar de botas envolviam os pés em farrapos e apenas sabiam se expressar em língua cristã, mas eram sábios em matéria de fraudes de dados e ferozes e destros no manejo das armas de guerra, de forma que a casa do poder parecia um acampamento de ciganos, senhor,  tinha um cheiro denso de crescente de rio, os oficiais do estado maior tinham levado para as suas fazendas os móveis da república, sorteavam no jogo de dominô os privilégios do governo indiferentes às súplicas de sua mãe Bendición Alvarado que não tinha um instante de repouso tratando de varrer tanto lixo de feira, tentando pôr nem que fosse um pouco de ordem no naufrágio, pois ela era a única que tinha tentado resistir ao aviltamento irremediável da gesta liberal (...).[42]
O próprio tirano reconhece que a bagunça corria por conta não apenas dessa fajuta federação de sátrapas, mas ela estava instalada na própria casa do poder:
 (...) aquilo não parecia então uma casa presidencial, mas um mercado, onde tinha de se abrir caminho entre ordenanças descalços que descarregavam burros com hortaliças e balaios de galinhas nos corredores, saltando por cima de comadres com afilhados famintos que dormiam amontoadas nas escadas para esperar o milagre da caridade oficial (...).[43]
O Ditador tentará pôr ordem nessa bagunça familística. O caminho para a finalidade colimada é simples: as forças armadas, postas incondicionalmente ao seu serviço, permitir-lhe-ão se colocar por cima dos senhores patrimoniais locais, a fim de enfeixar na sua única mão o poder supremo, sem esses incômodos e corruptos concorrentes. No entanto, o tirano deverá pagar o preço da fidelidade dos seus homens de armas e do seu gabinete, desviando para eles os recursos públicos de que antes se apropriavam os tiranetes locais, num processo de corrupção sistêmica muito semelhante aos nossos affaires de sanguessugas e quejandos. A propósito desse processo de cooptação do estamento militar, escreve García Márquez:
(...) para que ninguém ficasse sem comprovar que ele era de novo o dono de todo o seu poder com o apoio feroz de umas forças armadas que tinham voltado a ser as de antigamente a partir do momento em que ele distribuiu entre os membros do comando supremo os carregamentos de alimentos e remédios e os materiais de assistência pública da ajuda externa, a partir do momento em que as famílias de seus ministros desfrutavam domingos de praia nos hospitais portáteis e nas barracas de lona da Cruz Vermelha, vendiam ao ministério da saúde os carregamentos de plasma sangüíneo, as toneladas de leite em pó que o ministério da saúde revendia aos hospitais de pobres, os oficiais do estado-maior direcionaram as suas ambições para os contratos de obras públicas e os programas de reabilitação empreendidos com o empréstimo de emergência que concedeu o embaixador Warren em troca do direito de pesca sem limites dos barcos de seu país em nossas águas territoriais (...).[44]   
Já na maturidade da sua vida de Ditador, o patriarca tentará voltar à simplicidade perdida, dissolvendo as forças armadas, diminuindo o ministério até o mínimo possível e centrando toda a racionalidade da administração no funcionamento da sua casa. O poder volta à sua forma essencial: a domus do Senhor Patrimonial, que não pretende morrer como os outros mortais:
(...) compra-se duas ou três coisas mais e já está, nem pratos nem colheres nem nada, tudo isso eu trago dos quartéis porque já não vou ter mais gente de tropa, nem oficiais, que caralho, somente servem para aumentar os gastos com leite e na hora das definições, já vimos isso, cospem na mão que lhes serve a comida, fico sozinho com a guarda presidencial que é gente direita e brava e não volto a nomear nem gabinete de governo, que caralho, só um bom ministro da saúde que é o único necessário na vida, e talvez outro com boa caligrafia para o que seja necessário escrever e assim pode-se alugar os ministérios e os quartéis e destina-se esse dinheiro ao serviço, consegue-se duas boas domésticas, uma para a faxina e a cozinha e outra para lavar e passar e eu mesmo posso me encarregar das vacas e dos pássaros quando houver, e não mais bagunça de putas nas privadas nem pedintes nos jardins de rosas nem doutores de letras que tudo sabem nem políticos sábios que tudo vêm, que no final das contas isto é uma casa presidencial e não um bordel de negros como disse Patrício Aragonés que disseram os gringos, e eu só me basto com fartura para seguir mandando até que volte a passar o cometa, e não uma vez mas dez, porque sou o que sou e eu não penso morrer mais, que caralho, que morram os outros (...).[45]
O bem público é o bem privado do Ditador e da sua família. A mãe do déspota, Bendición Alvarado, assemelha-se a Letícia, a progenitora de Napoleão Bonaparte, que, embora instalada no palácio que o filho lhe deu em Paris e vivendo rodeada da pompa do Império, ainda fazia economias na expectativa temerosa de “tempos difíceis”. Apesar das aparências de modéstia financeira, a mãe do tirano era a principal “laranja” dele, sem sabe-lo:
(...) Bendición Alvarado teria de viver muitos anos se lamuriando da pobreza, brigando com as empregadas pelas contas do mercado e até esquecendo almoços para economizar, sem que ninguém se atrevesse a lhe revelar que era uma das mulheres mais ricas da Terra, que tudo quanto ele acumulava com os negócios do governo registrava-o em nome dela, que não só era dona de terras sem medida e gados incontáveis mas também dos bondes locais, do correio e do telégrafo e das águas da nação, de modo que cada barco que navegava pelos afluentes amazônicos ou pelos mares territoriais tinha de lhe pagar um direito de passagem que ela ignorou até a sua morte (...).[46]
Já a esposa do Ditador, Letícia Nazareno, à maneira da mulher de Bonaparte, Josefina, não tinha limites nem escrúpulos para os seus gastos. Diferentemente, porém, da Imperatriz da França que era adicta ao consumo de luxo, a ex-noviça, no entanto, mandava para o governo a pesada conta dos inúteis gastos com bugigangas da mais variada natureza:
(...) Letícia Nazareno tinha esvaziado os bazares dos hindus de seus terríveis cisnes de vidro e espelhos com marcos de caracóis e cinzeiros de coral, despojava de tafetás mortuários as tendas dos sírios e levava a mãos cheias os sartais de peixinhos de ouro e as figas de proteção dos prateiros ambulantes da rua do comércio que lhe gritavam na cara que és mais zorra que as zorras azuis que levava penduradas no pescoço carregava com tudo quanto encontrava no seu caminho para satisfazer o único que lhe restava da sua antiga condição de noviça que era o seu mau gosto infantil e o vício de pedir sem necessidade, só que então não tinha que mendigar pelo amor de Deus nos saguões perfumados de jasmins do bairro dos vice-reis mas carregava em furgões militares quanto agradava à sua vontade sem mais sacrifícios de sua parte que a ordem peremptória de que mandem a conta ao governo. Era tanto como dizer que cobrassem a Deus, porque ninguém sabia desde então se ele existia de verdade, tinha-se tornado invisível, víamos os muros fortificados na colina da Praça de Armas, a casa do poder com a sacada dos discursos lendários (...).[47]
A legislação, que nos Estados modernos ocidentais emergentes do Contrato Social consistia numa formulação clara e impessoal das normas, no contexto patrimonialista da casa-grande-governo presidida pelo Ditador era fruto do conchavo familístico, geralmente ditada por interesses de alcova. É o que acontece com a lei que restabeleceu o culto católico, que tinha sido banido pelo tirano quando o enviado papal pôs em dúvida a santidade da mãe do dono do poder, recentemente falecida. A propósito, encontramos o seguinte trecho:
(...) tinham sido abertos de novo os templos fechados e os conventos e cemitérios tinham sido devolvidos às suas antigas congregações por outra ordem sua que tampouco tinha dado mas aprovou, tinham sido restabelecidas as antigas festas religiosas e os usos da quaresma e entravam pelas sacadas abertas os hinos de júbilo das multidões que antes cantavam para exaltar a sua glória e agora cantavam ajoelhadas sob o sol ardente para celebrar a boa nova de que tinham trazido Deus num navio meu general, de verdade, tinham-no trazido por ordem tua, Letícia, por uma lei de alcova como tantas outras  que ela promulgava em segredo sem consultar com ninguém e que ele aprovava em público para que não parecesse perante os olhos de ninguém que tinha perdido os oráculos de sua autoridade pois eras tu a potência oculta daquelas procissões sem término que ele contemplava assombrado da janela de seu dormitório (...).[48]
O nepotismo sem limites é outra das características que marcam esse reino familístico, estruturado ao redor da alcova presidencial. Basta ser parente da esposa do Ditador, para ter garantido o seu quinhão na generosa burocracia e nos negócios do Estado. Como lembra Simon Schwartzman, ao passo que para outras culturas a política é um meio para favorecer os negócios, para os latino-americanos é o grande negócio, um negócio que é, antes de tudo, empreendimento familiar:
(Letícia Nazareno) regressava após o ordenho ao teu quarto cheiroso a besta de escuridão para te seguir dando quanto quiseres, muito mais que a herança sem medidas de sua mãe Bendición Alvarado, muito mais do que nenhum ser humano teria sonhado sobre a terra, não só para ela mas também para os seus parentes inúmeros que chegavam desde as ilhotas incógnitas das Antilhas sem outra fortuna que a pele que carregavam  nem mais títulos que os de sua identidade de Nazarenos, uma família áspera de homens intrépidos e mulheres abrasadas pela febre da ambição que tinham tomado de assalto os estancos do sal, o tabaco, a água potável, os antigos privilégios com que ele tinha favorecido os comandantes das diferentes armas para mantê-los afastados de outra classe de ambições e que Letícia Nazareno tinha-lhes arrebatado aos poucos por ordens suas que ele não dava mas aprovou (...). [49]
A história do país caribenho presidido pelo Ditador é a gesta da privatização do espaço público e dos bens do Estado pelos titulares do poder, condição que torna a República uma empresa sempre falida. O princípio básico da economia patrimonialista é: “privatização de lucros, socialização de prejuízos”. É um negócio da China para quem está no andar de cima. É falência garantida para a sociedade que, com os seus impostos, paga as aventuras dos tiranetes. Essa situação revela-se simbolicamente na casa presidencial, praticamente vazia de mobília, que terminou sendo roubada pelos vários inquilinos da presidência da República. Escreve a respeito García Márquez:
(...) a própria Bendición Alvarado (...) evocava a lembrança do filho que não encontrava por onde começar a governar naquela desordem, não se achava nem uma erva de chá para a febre, naquela casa imensa e sem mobília na qual nada restava de valor apenas os quadros dos vice-reis comidos pelas traças bem como as telas com os retratos dos arcebispos da grandeza morta da Espanha, todo o resto tinha sido levado aos poucos pelos presidentes anteriores para os seus domínios privados, não deixaram nem rastro do papel de parede de episódios heróicos, os quartos estavam cheios de desperdícios de quartel (...).[50]
A sociedade patrimonialista presidida pelo caudilho volta a ser, no final, o que tinha sido no começo: a casa do tiranete, onde ele manda sem nenhuma liturgia, pessoalmente, de viva voz, porque o que interessa é o andamento da casa e mais nada. Restam o Ditador e a sua coorte de mendigos, pedintes e bajuladores, que nisso se converteu a outrora florescente República, tendo sido transformada a população em eterna dependente dos favores do caudilho, durante décadas de prática de políticas populistas. A lei não é mais o ordenamento jurídico emergente de uma longa tradição, que se sedimenta em práticas consagradas pelos juristas. A lei é a vontade do caudilho e mais nada. O tirano desfruta do ato de mandar pelo prazer de mandar, sem nenhuma objetividade que o obrigue a ter um mínimo de coerência. A sua residência é, assim, uma espécie de “casa da mãe Joana”, é o lugar onde a loucura imperante é fiel reflexo da mente doentia do Ditador:
(...) Mas, quando deixaram-no outra vez sozinho com sua pátria e o seu poder não voltou a envenenar o seu sangue com a cumplicidade da lei escrita, mas governava de viva voz e de corpo presente todas as horas e em todas partes com uma parcimônia rupestre mas também com uma diligência inconcebível na sua idade, assediado por uma multidão de leprosos, cegos e paralíticos que suplicavam de suas mãos o sal da saúde, e políticos letrados e aduladores impávidos que o proclamavam corregedor dos terremotos, dos eclipses, dos anos bissextos e outros erros de Deus, arrastando por toda a casa as suas grandes patas de elefante na neve enquanto resolvia problemas de estado e assuntos domésticos com a mesma simplicidade com que ordenava que tirem essa porta daí e a coloquem lá, a tiravam, que a voltem a colocar (...). [51]
Nessa República de mentira (pois não é res publica, mas res privata ou coisa nossa), a única possibilidade de alguém vingar consiste em se deixar cooptar pelo dono do poder que, para início de conversa, desconfia de todo mundo como de um potencial traidor. García Márquez insiste numa característica que também é destacada por Octavio Paz em El ogro filantrópico: [52] o caudilho patrimonial é uma figura ambígua, pai de um lado, ogre de outro. É pai, porque se deixa levar pela “confiança do coração” e guinda anônimos súditos do nada da sua miserável cotidianidade até as mais altas posições; é ogre porque exige fidelidade e está disposto a castigar severamente a todo aquele que ousar trai-lo. O déspota confessava, efetivamente, que
(...) o inimigo mais temível estava dentro de si próprio na confiança do coração, que os próprios homens que ele armava e fazia progredir para que sustentassem o seu regime acabam tarde ou cedo por cuspir na mão que lhes dava de comer, ele os aniquilava de um golpe, tirava outros do nada, elevava-os aos graus mais altos assinalando-os com o dedo segundo os impulsos de sua inspiração, tu a capitão, tu a coronel, tu a general, e todos os outros a tenentes, que caralho, via-os crescer dentro do uniforme até estourarem as costuras, perdia-os de vista e uma casualidade (...) permitia-lhe descobrir que não era só um homem que tinha falhado mas todo o alto comando de umas forças armadas que mais servem para aumentar as despesas com leite e que na hora decisiva sujam no prato em que acabam de comer (...).[53]
Do processo de cooptação não escapa nem a própria Igreja: para poder exercer a sua missão evangelizadora, tem de agradar ao déspota, fazendo tudo que ele espera para reforçar a sua proeminência, e a da sua família, em face da sociedade. O castigo é severo para com os prelados que se esquecerem dessa condição de subserviência ao dono do poder. O Ditador regula as relações dos seus súditos com Deus e não tem a menor hesitação quando a preservação da sua autoridade absoluta exige um castigo exemplar, mesmo que se trate do próprio representante do Papa, que cometeu o crime de duvidar da santidade da mãe do Ditador, recentemente falecida:
(...) e então deu a ordem de que colocassem o núncio numa balsa de náufragos com provisões para três dias e o deixassem ao léu na rota dos cruzeiros da Europa para que todo mundo saiba como terminam os forasteiros que levantam a mão contra a majestade da pátria, e que até o papa aprenda desde já e para sempre que poderá ser muito papa em Roma com o seu anel no dedo na sua poltrona de ouro, mas que aqui eu sou o que sou eu, caralho,  bundinhas de merda. Foi um recurso eficaz, pois antes do fim daquele ano foi instaurado o processo de canonização de sua mãe Bendición Alvarado cujo corpo incorrupto foi exposto à veneração pública na nave maior da basílica primaz, cantaram glória nos altares, derrogou-se o estado de guerra que ele tinha proclamado contra a Santa Sé, viva a paz, gritavam as multidões na praça de armas, viva Deus, gritavam, enquanto ele recebia em audiência solene o auditor da Sagrada Congregação do Rito e promotor e postulador da fé, monsenhor Demetrio Aldous, conhecido como o eritreno, a quem tinha sido encomendada a missão de esmiuçar a vida de Bendición Alvarado até que não ficasse nem o menor traço de dúvida na evidência de sua santidade (...). [54]
Como o déspota achasse lentos demais os procedimentos do Vaticano no que tangia ao processo de canonização de sua santa mãe, decidiu romper de novo com o Papa e promulgar, à la Rousseau, uma Religião Civil, da qual ele seria a cabeça. A primeira providência da recém nascida igreja seria a proclamação da santidade da mãe do novo pontífice:
(...) assumiu de viva voz e de corpo presente a responsabilidade solene de interpretar a vontade popular mediante um decreto que concebeu por inspiração própria e ditou sob sua responsabilidade sem prevenir as forças armadas nem consultar os seus ministros, e em cujo artigo primeiro proclamou a santidade civil de Bendición Alvarado por decisão suprema do povo livre e soberano, nomeou-a padroeira da nação, curadora dos doentes e mestra dos pássaros e declarou dia de festa nacional a data do seu nascimento, e no artigo segundo e a partir da promulgação do presente decreto foi declarado o estado de guerra entre esta nação e as potências da Santa Sé com todas as conseqüências que para esses casos estabelecem o direito de gentes e os tratados internacionais vigentes,  e no artigo terceiro ordenou-se a expulsão imediata, pública e solene do senhor arcebispo primaz e a conseqüente expulsão dos bispos, dos prefeitos apostólicos, dos padres e freiras e quantas gentes nativas ou forâneas tivessem algo a ver com os assuntos de Deus (...). [55]
Da dinâmica do patrimonialismo é próprio o controle sobre a mídia. Os auxiliares do déspota são ciosos no que tange à preservação da sua imagem. Numa espécie de “hora do Brasil” são repassadas à sociedade as informações diárias devidamente maquiadas, a fim de semear a tranqüilidade entre os felizardos cidadãos. As notícias são ilicitamente processadas por uma engenhoca que lê diretamente os pensamentos do dono do poder, e os formata devidamente e com grande rapidez, tudo para manter incólume “a nau do progresso dentro da ordem”. A respeito, confessa um dos subordinados do Ditador:
(...) tivemos de utilizar este recurso ilícito para preservar do naufrágio a nau do progresso dentro da ordem, foi uma inspiração divina, general, graças a ela tínhamos conseguido esconjurar a incerteza do povo num poder de carne e osso que na última quarta-feira de cada mês prestava um informe sedativo de sua gestão de governo através da rádio e a televisão do estado, eu assumo a responsabilidade, general, eu coloquei aqui este floreiro com seis microfones em forma de girassóis que registravam o seu pensamento ao vivo, era eu quem fazia as perguntas que ele respondia na audiência das sextas-feiras sem suspeitar que as suas respostas inocentes eram os fragmentos do discurso mensal dirigido à nação (...). [56]
Controle sobre a mídia, controle sobre as consciências. O Ditador é capaz de tolerar as falhas dos seus súditos depois de ter garantido a segurança do seu poder total. Mas não perdoa aos intelectuais. Esses põem em risco, a qualquer momento, a estabilidade das instituições. Daí por que, quando é proclamada a anistia “ampla, geral e irrestrita”, os únicos a ficar de fora são os “homens de letras”:
(...) nunca voltamos a ouvir aquela frase até depois do ciclone quando proclamou uma nova anistia para os presos políticos e autorizou o regresso de todos os banidos salvo os homens de letras, sem dúvida, esses jamais, têm febre à flor da pele como os galos finos quando estão emplumando de forma que não servem para nada senão quando servem para algo, disse, são piores do que os políticos, piores do que os padres, imagine, mas que venham todos os outros sem distinção de cor para que a reconstrução da pátria seja uma empresa de todos (...). [57]
O Ditador, rigoroso para com os auxiliares traidores ou relapsos, intolerante para com os intelectuais, é tremendamente compreensivo para com os déspotas destronados. É evidente que essa filantropia (= pilantropia) tem um preço para os que se acolhem ao asilo do caudilho: os protegidos devem deixar-se limpar os bolsos no cassino em que foi convertida casa presidencial:
(...) mas ele concedia-lhes asilo político sem prestar maior atenção nem revisar credenciais porque o único documento de identidade de um presidente deposto deve ser o atestado de óbito, dizia, e com o mesmo desprezo escutava o discursinho ilusório de que aceito por pouco tempo a sua nobre hospitalidade enquanto a justiça do povo chama o usurpador a prestar contas, a eterna fórmula de solenidade pueril que pouco depois escutava ao usurpador, e logo ao usurpador do usurpador como se não soubessem os muito tolos que nesse negócio de homens quem despencou despencou e hospedava a todos por uns meses na casa presidencial, obrigava-os a jogar dominô até despoja-los do último céntimo (...).[58] 
IV – Natureza Edipiana do Ditador
 O caudilho não nasceu para o amor. A grande paixão de sua vida, a bela Manuela Sánchez, esnoba-o sistematicamente. A formosa mulher encontra no decrépito Ditador “o ancião mais antigo da terra”, um homem triste, que busca uma resposta positiva da amada que, por sua vez, se mantém distante desse homem esquálido, que mais parecia um cadáver que um ser humano vivente. O general espalha ao seu redor, sem querer, o Nada que o consome. A amada, pelo contrário, é portadora da brasa da rosa da vida. É belo o contraste que o escritor consegue fazer entre a formosura juvenil de Manuela Sánchez e a sombria velhice do Ditador:
(...) esperou sem sequer pensar no seu próprio estado até que a mãe de Manuela Sánchez fê-lo entrar na fresca penumbra com cheiro de restos de peixe da sala ampla e simples de uma casa dormida que era maior por dentro que por fora, examinava o âmbito de sua frustração desde um tamborete de couro em que tinha sentado enquanto a mãe de Manuela Sánchez a acordava da sesta, viu as paredes salpicadas de goteiras de chuvas velhas, um sofá roto, outros dois tamboretes com fundos de couro, um piano sem cordas no canto, mais nada, caralho, tanto sofrer para esta contrariedade, suspirava, quando a mãe de Manuela Sánchez regressou com uma cesta de costura e sentou a tecer rendas enquanto Manuela Sánchez vestia-se, penteava-se, calçava os seus melhores sapatos para atender com a devida dignidade ao velho imprevisto que perguntou-se, perplexo, onde estarás Manuela Sánchez da minha desgraça que venho te buscar e não te encontro nesta casa de mendigos (...) me tira do calabouço destas dúvidas de cachorro, suspirava, quando a viu aparecer na porta interior como a imagem de um sonho refletida no espelho de outro sonho com um vestido de étamine (...) o cabelo recolhido às pressas com uma peineta, os sapatos rotos, mas era a mulher mais formosa e mais altiva da terra com a rosa acessa na mão, uma visão tão deslumbrante que ele apenas teve controle para se inclinar quando ela o cumprimentou com a cabeça erguida Deus guarde a sua excelência, e sentou-se no sofá (...) e então atrevi-me a fitá-lo de frente por primeira vez fazendo girar com os dedos a brasa da rosa para que não fosse visível o meu terror, perscrutei sem piedade os lábios de morcego, os olhos mudos que pareciam me olhar desde o fundo de um lago (...) o seu traje de linho esquálido como se dentro não estivesse ninguém, os seus enormes sapatos de morto, o seu pensamento invisível, o seu poder oculto, o ancião mais antigo da terra, o mais temível, o mais aborrecido e o menos compadecido da pátria que se abanava com o chapéu de capataz me olhando em silêncio desde a outra margem, meu Deus, que homem tão triste, pensei assustada, e perguntei sem compaixão em que posso lhe servir excelência, e ele respondeu com um ar solene que somente venho  lhe pedir um favor, majestade, que receba esta visita. Visitou-a sem descanso durante meses e meses, todos os dias nas horas mortas do calor em que costumava visitar a sua mãe para que os serviços de segurança acreditassem que estava na mansão dos subúrbios (...). [59]
A bela Manuela é coroada rainha da beleza por indicação do Ditador. Mas a jovem não quer corresponder à corte do velho caudilho, que espalha a morte na ânsia de se tornar dono da vida da amada, considerado por ela como um “pretendente abominável”:
(Manuela Sánchez) não queria saber nada da vida desde o sábado negro em que me aconteceu a desgraça de ser rainha, naquela tarde acabou o mundo, os seus antigos pretendentes tinham morrido um após outro fulminados por colapsos impunes e doenças inverossímeis, as suas amigas desapareciam sem deixar rastro, tinham-na levado sem tira-la de sua casa para um bairro de estranhos, estava sozinha, vigiada nas suas intenções mais íntimas, cativa numa cilada do destino em que não tinha coragem para dizer não nem tinha suficiente coragem para dizer que sim a um pretendente abominável que a vigiava com um amor de asilo, que a contemplava com uma espécie de estupefação reverencial abanando-se com o chapéu branco, empapado de suor, tão longe de si mesmo que ela tinha-se perguntado se de verdade a enxergava ou se era apenas uma visão de espanto (...).[60]
O seu relacionamento com Letícia Nazareno, a mulher que lhe dá o único filho que reconhecerá como legítimo, não é pautado pela igualdade que faz os amantes parceiros das suas vidas, mas somente se torna possível no seio de uma “piedade materna”, que lembra a figura tutelar de Bendición Alvarado (figura que, aliás, prolonga a grande lista de mulheres fecundas e fortes de que está povoada a narrativa de García Márquez). O Ditador é monstruoso demais para suscitar paixão. Suscita compaixão. Somente recebe atenção da mulher no contexto “do auxílio de sua misericórdia” (maternal), no primeiro encontro que tiveram, no meio das águas do rio:
(...) e ele fazia o que ela (Letícia Nazareno) lhe ordenava com uma obediência infantil pensando minha mãe Bendición Alvarado como caralho farão as mulheres para fazer as coisas como se as estivessem inventando, como farão para ser tão homens, pensava, na medida em que ela o ia despojando da parafernália inútil de outras guerras menos temíveis e desoladas do que aquela guerra solitária com a água no pescoço, tinha morrido de terror ao abrigo daquele corpo cheiroso a sabão de pinho quando ela terminou de lhe tirar as fivelas dos dois cintos e lhe soltei os botões da barriguilha e fiquei crispada de horror porque não encontrei o que procurava mas o testículo enorme nadando como um sapo na escuridão, largou-o assustada, afastou-se, anda com a tua mãe que te troque por outro, disse-lhe, tu não serves, pois o tinha derrotado o mesmo medo ancestral que o manteve imóvel diante da nudez de Letícia Nazareno em cujo rio de águas imprevisíveis não haveria de entrar (...) enquanto ela não lhe prestasse o auxílio de sua misericórdia (...).[61]
A relação de Letícia Nazareno com o Ditador tem como marca o sentimento maternal. A eventual relação sexual com a sua mulher é algo de passageiro e, no quadro que o escritor pinta, ocupa um lugar de segundo plano. A figura que ocupa o espaço não é a amante correspondida com paixão avassaladora. A “felicidade senil” do caudilho consiste em ser cuidado como uma criança, posta nas mãos de uma mãe previdente, de seios totêmicos:
(...) consciente de que nas sombras de sua felicidade senil não havia mais tempo que o de Letícia Nazareno da minha vida no caldo de camarões nos descansos sufocantes da sesta, não havia mais anseios que os de estar nu contigo na esteira empapada de suor sob o morcego cativo do ventilador elétrico, não havia mais luz que a das tuas nádegas, Letícia, nada mais do que as tuas tetas totêmicas, os teus pés planos, o teu raminho de arruda para um remédio, os janeiros opressores da remota ilha de Antigua de onde vieste ao mundo numa madrugada de solidão sulcada por um vento ardente de lamaçais podres, tinham-se trancado no quarto dos convidados de honra com a ordem pessoal de que ninguém se aproxime a cinco metros dessa porta que vou estar muito ocupado aprendendo a ler e escrever (...) Letícia Nazareno apartava o testículo para lhe limpar os restos do cocô do último amor, submergia-o nas águas lustrais da banheira de peltre com patas de leão e o ensaboava com sabonete de reuter e o esfregava com esfregão de esparto (...) besuntava-lhe as bisagras das pernas com manteiga de cacau para lhe aliviar as escaldaduras do bragueiro, passava pó com ácido bórico na estrela murcha do cu e lhe dava tapinhas de mãe terna nas nádegas pelo teu mal comportamento com o ministro da Holanda, plas, plas, pediu-lhe como penitência que permitisse o regresso ao país das comunidades de pobres para que voltassem a se encarregar de orfanatos e hospitais (...).[62]
Essa figura maternal, “único e legítimo amor” do Ditador, termina se convertendo em realidade evanescente na perda acelerada de memória que precede à morte do caudilho, ficando apenas, como única lembrança, a presença da Mulher possuidora do arquétipo de todas as mulheres: Bendición Alvarado. A imagem materna tudo preenche com a sua presença arcaica, que se torna mais forte na medida em que se aproxima o seu fim:
(...) Letícia Nazareno, meu único e legítimo amor, suspirava, escrevia os suspiros nas tiras de memoriais amarelados que enrolava como cigarros para esconde-los nos cantos menos pensados da casa onde somente ele pudesse encontra-los para se lembrar de quem era ele mesmo quando já não pudesse se lembrar de nada, onde ninguém jamais os achou quando inclusive a imagem de Letícia Nazareno acabou de escorregar pelos deságües da memória e somente restou a lembrança indestrutível de sua mãe Bendición Alvarado nas tardes de adeuses da mansão dos subúrbios, sua mãe moribunda que chamava as galinhas fazendo soar os grãos de milho numa cabaça para que ele não advertisse que estava morrendo, que continuava a lhe trazer os sucos de frutas à rede pendurada entre as tamareiras para que ele não suspeitasse que apenas se conseguia respirar de dor, a sua mãe que o tinha concebido sozinha, que esteve apodrecendo sozinha até que o sofrimento solitário tornou-se tão intenso que foi mais forte que o orgulho e teve de pedir ao filho que olhes nas minhas costas para ver por que sinto este ardor de brasas que não me deixa viver (...).[63]
A lenta morte da mãe é, para o Ditador, um apagar geral de luzes, anúncio do seu próprio fim. Contrastando com a dureza do caudilho, o filho cuida carinhosamente do corpo adoentado da mãe, corpo que vai se consumindo num progressivo apodrecimento que se transforma em silêncio. A mãe moribunda é, ainda, a voz que se preocupa pela vida, encarnada nos bichos da casa. Não é à toa que, após o seu falecimento, será honrada com o título de “santa padroeira dos pássaros”. O filho come no mesmo prato da mãe moribunda, como que a antecipar o seu próprio fim. Mas, paradoxo da imaginação criadora do escritor, da mãe morta emerge, glorificado, o corpo incorruptível de Bendición Alvarado, imagem da vida que permanece e centro dos desejos edipianos do general. No corpo glorioso da mãe, o frustrado amante encontrará a satisfação que lhe foi negada pelas mulheres que passaram pela sua vida. Não satisfação passageira, mas a experiência da incorruptibilidade, da vitória sobre o Nada, do regresso glorioso ao Ser. A propósito, García Márquez escreve:
(...) ninguém voltou a vê-lo nos estábulos de ordenho nem nos quartos das concubinas onde sempre tinha sido visto ao amanhecer mesmo nos piores tempos, o próprio arcebispo primaz tinha se oferecido para administrar à moribunda os últimos sacramentos mas ele tinha-o deixado plantado na porta, ninguém está morrendo, padre, não acredite em rumores, disse-lhe, compartilhava a comida com a sua mãe no mesmo prato com a mesma colher apesar do ar de dispensário de peste que se respirava no quarto, dava-lhe banho antes de deita-la com sabão de cachorro agradecido enquanto o coração partia-se-lhe de pena pelas instruções que ela dava com os seus últimos fios de voz sobre o cuidado para com os animais depois de sua morte, que não depenassem os pavões reais para fazer chapéus, sim mãe, dizia ele, e passava-lhe creolina pelo corpo todo, que não obriguem os pássaros a cantar nas festas, sim mãe, e a envolvia no lençol de dormir, que tirem as galinhas dos ninhos quando houver trovoada para que não criem basiliscos, sim mãe, e a deitava com a mão no coração, sim mãe, durma devagar, beijava-a na testa, dormia as poucas horas que lhe restavam jogado de bruços perto da cama, pendente das derivas de seu sono, pendente dos delírios intermináveis que iam se tornando mais lúcidos na medida em que se aproximava a morte, aprendendo com as suas raivas acumuladas de cada noite a suportar a raiva imensa da segunda-feira de dor em que o acordou o silêncio horrível do mundo ao amanhecer e era que a sua mãe de minha vida Bendición Alvarado tinha parado de respirar, e então desembrulhou  o corpo nauseabundo e viu no resplendor tênue dos primeiros galos que havia outro corpo idêntico com a mão no coração impresso de perfil no lençol, e viu que o corpo impresso não tinha feridas de peste nem estragos de velhice mas que era robusto e terno como pintado na tela por ambos os lados do sudário (...).[64]
Considerações Finais
O Patriarca de García Márquez é o arquétipo do Ditador latino-americano. É um modelo que se encontra encarnado na lendária figura de Juan Vicente Gómez. Gerações e gerações de caudilhos encontram, nele, também, a sua identidade. O valor da narrativa do Prêmio Nobel colombiano radica justamente aí: em ter proposto um arquétipo identificador de um modo de ser: o correspondente aos nossos Ditadores, no contexto da tradição patrimonialista ibérica, transplantada para estas latitudes pelas nossas elites. É, outrossim, arquétipo que se concretiza em figuras contemporâneas, de carne e osso, fortes Ditadores que polarizam as atenções na América Latina, embora esse modelo esteja em declínio pelo mundo afora. Refiro-me a Fidel Castro e ao seu substituto no imaginário caribenho, o presidente Hugo Chávez. Outras personalidades tomam carona nessa liturgia de revivescência do caudilhismo, como os presidentes Morales, da Bolívia, e Lula, do Brasil. Mas, certamente, trata-se de imagens secundárias, na nova hagiografia da esquerda latino-americana.
Chávez/Fidel apresentam-se, hoje, como líderes ao redor dos quais gira o poder, são personalidades carismáticas que tudo concentram, a própria sociedade desloca-se na sua órbita. Poderiam dizer com Luís XIV: O Estado sou Eu. Retardamento cultural latino-americano que, em pleno século XXI, repete a fórmula do Iluminismo Absolutista dos séculos XVII e XVIII. Chávez/Fidel são a síntese dos dois momentos do absolutismo: o personalista de Luís XIV e o imperial de Napoleão Bonaparte. Com duas diferenças: em primeiro lugar, o barroquismo do Patrimonialismo ibérico impediu-os de construir, ao redor de si, uma burocracia racional, como as ensejadas pelos Intendentes do Monarca, na França do Rei Sol, ou pelo Conselho de Estado napoleônico, que constituiu a primeira versão da Ditadura Científica. Napoleão instaurou, em 1804, um governo tecnocrático e legiferante, em representação unipessoal das luzes da sociedade, concentradas nele próprio e no seu Conselho.[65] Foi o modelo que serviu de inspiração para as elucubrações acerca do Poder alicerçado na Ciência, de que se desincumbiram, sucessivamente, Henri-Claude de Saint-Simon (1760-1825) e Augusto Comte (1798-1857).
Em segundo lugar, Chávez e Fidel distanciam-se do modelo absolutista francês em decorrência do fato de que a estrutura patrimonialista do Estado, em Cuba e na Venezuela, derivou para um modelo totalitário. Esse processo encontra-se em andamento sob Chávez, tendo-se consolidado há mais de quatro décadas em Cuba, quando Fidel definiu que o seu modelo era o de uma revolução marxista-leninista no molde soviético. O Patrimonialismo é, em Cuba e na Venezuela, como foi na Rússia do início do século XX, o corredor de entrada para o totalitarismo.[66]
No caso brasileiro, é bom recordar que a Segunda Geração Castilhista, com Getúlio Vargas à testa, consolidou um modelo de Patrimonialismo Estamental (ou de Patrimonialismo Modernizador), [67] que ensejou o surgimento de uma burocracia racional em alguns itens da administração do Estado, embora não tivesse conseguido alargar esse processo a toda a máquina pública. Aí radica, a meu modo de ver, o elemento diferenciador fundamental entre o Patrimonialismo brasileiro e o que vingou nos países hispano-americanos, com exceção, talvez, do Chile e do México, onde a influência do capitalismo tem conduzido a uma progressiva superação das estruturas patrimoniais arcaicas. Lamentável é que, na atual conjuntura latino-americana, o governo Lula terminou esquecendo esse elemento diferenciador, para nivelar a sua política externa por caminhos que se aproximam, em não poucos elementos, da trilha caudilhista e terceiro-mundista de que Chávez é, sem dúvida alguma, o maior propagandista.
BIBLIOGRAFIA
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[1] Guizot, François. Histoire de la Civilisation en Europe depuis la chute de l’Empire Romain jusqu’a la Révolution Française. 8ª. Edição. Paris: Didier, 1864.

[2] A expressão foi cunhada pelo professor Fernando Cristóvão, da Universidade de Lisboa.

[3] GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Entrevista concedida a Plinio Apuleyo Mendoza, in: APULEYO MENDOZA, El olor de la guayaba. Bogotá: La Oveja Negra, 1982, p. 86.

[4] VELÁSQUEZ,  Ramón J. Confidencias imaginarias de Juan Vicente Gómez. (Prólogo de Jesús Sanoja Hernández).  8ª. Edição. Caracas: Ediciones Centauro, 1981, p. 10-11.

[5] Cf. VIANNA, Francisco José de Oliveira. Populações Meridionais do Brasil e Instituições Políticas Brasileiras. (1a. Edição num único volume, organizada por Antônio Paim). Brasília: Câmara dos Deputados, 1982.

[6] VELÁSQUEZ, Ramón J. Ob cit., p. 7-8.

[7] Citado por VELÁSQUEZ, Ramón J. In: Confidencias imaginarias de Juan Vicente Gómez. Ob. cit., p. 44-46.

[8] WEBER, Max. Economía y Sociedad. (Tradução ao espanhol de José Medina Echavarría, et alii). 1a. Edição em espanhol. México: Fondo de Cultura Económica, 1944, vol. IV, p.  131-189.

[9] WITTFOGEL, Karl. Le despotisme oriental – Étude comparative du pouvoir total. (Tradução ao francês de Micheline Pouteau). Paris: Minuit, 1977, p. 66-269.

[10] GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. El otoño del patriarca. 4ª. Edição. Buenos Aires: Debolsillo, 2005, p. 32.

[11] Ob. cit., p. 30.

[12] Ob. cit., p. 31-32.

[13] Ob. cit. p. 297-298.

[14] Ob. cit., p. 296-297.

[15] Ob. cit., p.  150.

[16] Ob. cit., p. 96-97.

[17] Ob. cit., p. 107-109.

[18] Ob. cit., p. 78-79.

[19] Ob. cit., p. 256-257.

[20] Ob. cit., p. 254.

[21] Ob. cit., p. 202.

[22] Ob. cit.,  p. 288.

[23] Ob. cit., p. 298-299.

[24] Ob. cit., p. 78.

[25] Ob. cit., p. 43.

[26] Ob. cit., p. 39-40.

[27] Ob. cit., p. 105-106.

[28] Ob. cit., p. 140-141

[29] Ob. cit., p. 90-91.

[30] Ob. cit., p. 102-104.

[31] Ob. cit., p. 144-145.

[32] Ob. cit., p. 45-46.

[33] Ob. cit., p. 92-93.

[34] HEBREU, Leão (Jehuda Abravanel). Diálogos de amor. (Texto fixado, anotado e traduzido por G. Manupella). Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1983, v. I: texto italiano, notas, documentos; v. II: versão portuguesa, bibliografia.

[35] Ob. cit., p. 93-94.

[36] Ob. cit., p. 95-96.

[37] Ob. cit., p. 215.

[38] Ob. cit., p. 216.

[39] Ob. cit., p. 13.

[40] Ob. cit., p. 42.

[41] A respeito, vale a pena lembrar a quadrilha que o povinho recitava nas praças públicas da Nova Granada, logo após o processo de independência da metrópole espanhola: “Bolívar venció a los godos / Mas, desde ese infausto día / Por un tirano que había / Se hicieron tiranos todos”.

[42] Ob. cit., p. 63-64.

[43] Ob. cit., p. 13.

[44] Ob. cit., p. 120-121.

[45] Ob. cit., p. 41.

[46] Ob. cit., p. 73.

[47] Ob. cit., p. 204-205.

[48] Ob. cit., p. 197.

[49] Ob. cit., p. 211-212.

[50] Ob. cit., p. 280-281.

[51] Ob. cit., p. 14-15.

[52] Cf. PAZ, Octavio. El ogro filantrópico – Historia y Política 1971-1978. 4ª. Edição. Barcelona: Seix Barral, 1983.

[53] Ob. cit., p. 129.

[54] Ob. cit., p. 162-163.

[55] Ob. cit., p. 177-178.

[56] Ob. cit., p. 260.

[57] Ob. cit., p. 120.

[58] Ob. cit., p. 24-25.

[59] Ob. cit., p. 86-87.

[60] Ob. cit., p. 91-92.

[61] Ob. cit., p. 183.

[62] Ob. cit., p. 193-195.

[63] Ob. cit., p. 148-149.

[64] Ob. cit., p. 151-152.

[65] Cf. o meu ensaio “Napoleão I (1769-1821) Imperador dos Franceses: 200 anos”, in: Carta Mensal, Rio de Janeiro, vol. 50, no. 595 (outubro 2004): p. 15-90.

[66] Cf. PAIM, Antônio. A questão do socialismo, hoje. São Paulo: Convívio, 1981, p. 104 seg.


[67] Cf. PAIM, Antônio. A querela do estatismo. 1a. Edição. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978. SCHWARTZMAN, Simon. Bases do autoritarismo brasileiro. 1a. Edição. Rio de Janeiro: Campus, 1982.

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