Pesquisar este blog

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ASPECTOS DA ÉTICA PÚBLICA NO PENSAMENTO DE ALEXIS DE TOCQUEVILLE (1805-1859)


Talvez Alexis de Tocqueville tenha sido um dos pensadores sociais e homens de ação que realizou, de forma mais completa, a dupla feição da ética estudada por Max Weber (ética de convicção e de responsabilidade) [cf. Weber, 1972]. O pensador francês, efetivamente, ancorou tanto numa quanto noutra. Tocqueville cultua o ideal da ética de convicção quando reflete acerca do seu compromisso como intelectual. Mas desenvolve, outrossim,  interessante conceito de ética de responsabilidade em relação à problemática da pobreza. É meu propósito, neste breve trabalho, abordar ambos os aspectos mencionados para caracterizar as suas linhas gerais, destacando que os dois integram o conceito tocquevilliano de ética pública.. Desenvolverei, portanto, dois itens: 1) A ética intelectual de Tocqueville, atrelada à defesa incondicional da liberdade; 2) A ética política de Tocqueville, alicerçada no princípio da benevolência. Concluirei destacando a íntima relação existente entre as duas éticas concebidas pelo pensador francês.

1) A ética intelectual de Tocqueville, atrelada à defesa incondicional da liberdade.- O pensador francês considerava que o seu primeiro compromisso como intelectual consistia no esclarecimento e na divulgação da verdade histórica, que conduzisse à conquista da liberdade para todos os franceses. Neste seu empenho não admitia negociação. Daí as suas fortes críticas aos socialistas, aos bonapartistas, aos seus pares, os nobres (que tinham ancorado numa proposta de volta ao Ancien Régime), e aos próprios doutrinários, seus mestres, que tinham fechado as conquistas liberais na gaiola de ouro do formalismo jurídico e do elitismo burguês. Destaquemos, de entrada, a forma toda peculiar em que Tocqueville entende a democracia, como conquista da liberdade por parte de todos.

Três pontos saltam à vista na ética intelectual tocquevilliana: em primeiro lugar, a fundamentação das suas convicções morais no cristianismo, do qual o nosso autor tira o princípio fundamental de que todos os seres humanos possuem a mesma dignidade e, portanto, podem aspirar aos benefícios da liberdade. Em segundo lugar,  a solidariedade com os seus concidadãos, que correm perigo de cair nas mãos do despotismo, em lugar de conquistar a almejada liberdade. Em terceiro lugar, o dever de testemunhar a verdade histórica que o nosso autor descobriu na sua viagem à América. Essa verdade histórica resume-se na seguinte afirmação: a liberdade democrática é possível!.

No tocante ao primeiro ponto, Tocqueville [1977: 329] escreve o seguinte:  "Todos os grandes escritores da Antigüidade faziam parte da aristocracia dos senhores, ou pelo menos viam essa aristocracia estabelecida sem contestação ante os seus olhos; o seu espírito, depois de se haver expandido em várias direções, achou-se, pois, limitado por aquela, e foi preciso que Jesus Cristo viesse à terra para fazer compreender que todos os membros da espécie humana eram naturalmente semelhantes e iguais".

Em relação ao segundo ponto, assim escrevia Tocqueville (em carta inédita a Orglandes, de 24/11/1834) [apud Mélonio, 1993: 30]: "Eu creio que cada um de nós deve prestar contas à sociedade, tanto dos seus pensamentos quanto das suas forças. Quando vemos os nossos semelhantes em perigo, é obrigação de cada um ir em socorro deles".

Em relação ao terceiro ponto, o dever de testemunhar a verdade histórica descoberta na América, Françoise Mélonio [1993: 30-31] escreve: "Tocqueville regressa, pois, da América, investido do dever de testemunhar. O primeiro volume da Démocratie, que publica em 1835, recebe desse objetivo apologético os traços que fazem dele o breviário da democracia moderna. A Démocratie é uma obra de auxílio ao povo em perigo (...). Ora, há urgência. Na Europa, os tempos se aproximam do triunfo da democracia. Tocqueville assume a postura de um São João Batista da democracia clamando no deserto: acordai antes que seja tarde demais!; o movimento democrático não é, ainda, suficientemente rápido como para desistir de dirigi-lo. A sorte [das nações européias] está nas suas mãos, mas bem cedo lhes escapa. E que não se diga que é tarde demais para tentar. Contra os pregoeiros de desgraças, os resignados, Tocqueville faz um apelo aos franceses para que, sem delongas, tomem o seu destino nas próprias mãos, a exemplo da América. Como os profetas e os pregadores, Tocqueville argumenta com os riscos que representa uma conversão tardia".

2) A ética política de Tocqueville, alicerçada no princípio da benevolência.-  O pensador francês elaborou a sua concepção de uma ética política, ao discutir a problemática da pobreza na sociedade européia da sua época. As suas reflexões a respeito estão contidas em dois escritos de 1835, intitulados "Memória sobre a pobreza" e "Segundo artigo sobre a pobreza", que foram redigidos  para a Sociedade Acadêmica de Cherbourg e que integram os seus "Escritos Acadêmicos".  Na edição das Obras de Tocqueville [primeiro volume, 1991], preparada por André Jardin, Françoise Mélonio e Lise Queffélec, outros dois ensaios de Tocqueville foram escolhidos: o "Discurso à Academia Francesa" de 1842 sobre a história da França e o "Discurso à Academia de Ciências morais e políticas" de 1852, sobre a ciência política. A finalidade desses "Escritos Acadêmicos" era, segundo aponta Françoise Mélonio [1991: I, 1626] discutir "como estruturar a sociedade moderna, aglutinando os cidadãos desunidos, que a hierarquia de privilégios do Antigo Regime não organizava mais".

Tocqueville analisa a problemática da pobreza no contexto mais amplo da ciência social da época, inspirada na fisiologia social de Cabanis, Bichat, Pinel, Vicq d'Azyr, Saint-Simon, etc. [cf. Rosanvallon, 1985: 22; Mélonio, 1993: 33 seg.; Vélez-Rodríguez, 1997c: 22-45]. É bem verdade que o nosso autor supera qualquer pretensão  cientificista, deixando de render tributo, portanto, ao vício do historicismo. Mas utiliza o símil do corpo enfermo, para se referir à problemática social. Em relação ao mencionado fenômeno na Inglaterra, por exemplo, o nosso autor escreve: "(...) o pauperismo, esta enorme e horrível chaga em um corpo vigoroso e saudável" [Tocqueville, 1991: I, 1174].

Fiel ao arquétipo epistemológico mencionado,  Tocqueville analisa a problemática da pobreza em três etapas: sintomatologia, tratamento errado e tratamento certo. Em relação à primeira etapa, o pensador francês destaca um fato paradoxal: essa doença somente é visível em organismos fortes. As nações que caminham rumo à modernidade, como a Inglaterra e a França, apresentam o contraste entre geração da riqueza e pobreza, contraste que não é visível onde a pobreza é a norma e a riqueza a exceção, como na Espanha ou em Portugal. O nosso autor dedica especial atenção ao estudo da doença na Inglaterra, país que conseguiu desenvolver os recursos econômicos de forma a permitir à maioria dos seus cidadãos a conquista de  uma vida confortável e segura. Um sexto da população britânica, no sentir de Tocqueville, é marginalizada pela pobreza. Mas justamente por estar a maioria dos cidadãos em situação de conforto econômico, a marginalização do proletário é mais visível entre os ingleses do que na própria França.

No que tange à França da sua época, Tocqueville destaca que acontece algo semelhante: percebe-se mais a pobreza ali onde houve maior desenvolvimento. A respeito, o nosso autor escreve: "A média dos indigentes na França (...) é de um pobre para vinte habitantes. Mas grandes diferenças são observáveis entre as diferentes partes do mesmo reino. O departamento du Nord, que é com certeza o mais rico, o mais populoso e o mais desenvolvido, sob todos os pontos de vista, tem cerca de um sexto de sua população como dependente da caridade. Em Creuse, o mais pobre e menos industrial de nossos departamentos, existe apenas um indigente para cada cinqüenta e oito habitantes. Ainda de acordo com esta estatística, La Manche está listado como tendo um indigente para cada vinte e seis habitantes".  [Tocqueville, 1991: I, 1156].

Em relação à segunda etapa na discussão da problemática da pobreza (o tratamento errado da mesma), Tocqueville chama a atenção para a confusão que a cultura humana termina estabelecendo entre necessidades artificiais e essenciais. O nosso pensador considera que o progresso da civilização leva, também, a que a sociedade busque aliviar as necessidades dos que se sentem carentes. "O progresso da civilização - frisa a respeito [Tocqueville, 1991: I, 1164] - não apenas expõe os homens a muitas infelicidades inéditas: ele também faz com que a sociedade amenize as misérias que são totalmente desconhecidas nas sociedades menos civilizadas. Em um país onde a maioria tem vestimentas ruins, habitações de má qualidade, pouco alimento, quem pensaria em dar roupas limpas, comida saudável e habitação confortável aos pobres? A maioria dos ingleses, tendo todas essas coisas, considera a ausência delas um problema terrível; a sociedade crê estar destinada a ajudar aqueles que não possuem tais confortos, e a curar os males que não são sequer reconhecidos como tais em outros lugares".

Essa tendência encontrou expressão na Inglaterra, pela primeira vez, na lei de Elizabeth I que dispunha a nomeação, em cada paróquia, de inspetores dos pobres (1601). Essa medida vinha responder à supressão, por Henrique VIII, de todas as comunidades dedicadas à caridade. Essa foi a remota origem da preocupação do governo inglês com a questão da pobreza, que nos países protestantes passou a ser responsabilidade do Estado, enquanto que no universo católico tradicionalmente foi incumbência da caridade privada [Tocqueville, 1991: I, 1164-1165].

Tocqueville é claro na sua crítica à forma estatal da caridade: para ele, toda medida contra a pobreza, alicerçada numa estrutura burocrática permanente, produz a preguiça social. O nosso autor se antecipava profeticamente das dificuldades encontradas pelo Welfare State na erradicação da pobreza. Eis as palavras de Tocqueville em relação ao tópico em apreço: "Qualquer medida que estabeleça a caridade legal de forma permanente e lhe dá uma forma administrativa cria, com isto, uma classe ociosa e preguiçosa, que vive às custas da classe trabalhadora e industrial. Isto, pelo menos, é a conseqüência inevitável, senão o resultado imediato. Ela reproduz todos os vícios do sistema monástico, mas não os altos ideais de moralidade e religião que em geral estavam associados a eles. Tal lei é uma semente ruim plantada no solo da estrutura legal. Assim como na América, as circunstâncias podem prevenir que a semente tenha um rápido desenvolvimento, mas não podem destrui-la, e se a geração atual escapar à sua influência, o bem-estar das gerações seguintes será devorado " [Tocqueville 1991: I, 1170].

Tocqueville formula os elementos básicos do que poderíamos chamar de princípio da beneficência na ética pública, quando apresenta as suas soluções, na terceira etapa da discussão da problemática  da pobreza. O nosso pensador parte da definição moral do princípio da beneficência. Esse princípio alicerça-se numa espécie de imperativo categórico: deve poder se aplicar universalmente e as suas conseqüências devem estar de acordo com a moral.. Eis as suas palavras a respeito: "Obviamente não quero pôr em julgamento a beneficência, que é uma das virtudes mais naturais, belas e sagradas. Mas penso que não existe nenhum princípio, por melhor que seja, cujas conseqüências possam ser todas consideradas boas. Ela deveria ser uma virtude humana e sensata, não uma inclinação fraca e irresponsável. É necessário fazer o que for mais útil a quem recebe, e não o que mais agrada ao doador; fazer o que melhor atende as necessidades da maioria, e não o que é a salvação de poucos. Apenas desta forma posso conceber a benevolência. Qualquer outra forma seria a representação de um instinto ainda sublime, mas não mais me parece digna de receber o nome de virtude" [Tocqueville, 1991: I, 1177-1178].

A seguir, o nosso autor discute se a solução da problemática da pobreza mediante a aplicação do princípio da beneficência, pode-se dar pelo caminho da caridade veiculada pela iniciativa individual. Tocqueville não duvida em reconhecer a utilidade dessa modalidade de ação social; mas pensa que é insuficiente para equacionar o problema da pobreza.. Em relação a este ponto, o nosso autor escreve: "Resta-nos, então, a caridade individual. Ela produz apenas bons resultados. Sua fraqueza mesma é uma garantia quanto a conseqüências perigosas. Ela atenua a miséria, mas não produz nenhuma outra. No entanto, quando contemplada à luz do desenvolvimento progressivo das classes industriais, bem como de todos os males que a civilização traz junto com o bem inestimável que produz, a caridade individual parece bastante ineficaz. Ela era suficiente na Idade Média, quando o entusiasmo religioso deu-lhe uma enorme energia, e quando era mais fácil de ser realizada; mas seria ela hoje insuficiente, estando tão enfraquecida e carregando um fardo tão pesado? A caridade privada é um poderoso agente que não deve ser desprezado, mas seria imprudente depender dela. Ela é apenas um dos meios" [Tocqueville, 1991,: I, 1179].

O pensador francês examina, a seguir, se o caminho para o equacionamento da problemática da pobreza seria o da associação das pessoas caridosas. Esse tipo de solução, ao regularizar os auxílios, poderia dar à beneficência individual mais atividade e maior poder. Tocqueville não deixa de reconhecer a enorme utilidade da colaboração entre este tipo de ação e a "caridade pública", ministrada pelo Estado. Mas, além de reconhecer a fragilidade de soluções necessariamente temporárias, que se organizam nos momentos das grandes calamidades, considera que a "esmola do Estado" deve ser tão passageira, tão instantânea e tão imprevisível quanto as calamidades que busca remediar [Tocqueville, 1991: I, 1178].

O nosso pensador enxerga uma solução mais larga. Trata-se da formulação de uma política social que abarque três grandes aspectos: educação dos pobres, estímulo à propriedade fundiária dos camponeses e estímulo à poupança dos operários das indústrias. A finalidade dessa política social consistiria em estabelecer um equilíbrio entre a produção de bens e o seu consumo, a fim de evitar as distorções causadas no mundo moderno pelo sistema produtivo.

A propósito deste ponto, escreve Tocqueville [1991: I, 1180]: "Depois de considerar curar males, não seria útil tentar preveni-los? Existiria uma maneira de impedir o deslocamento da população, de forma que os homens não deixem o campo e venham para a indústria na cidade antes que tenha esta a capacidade de suprir suas necessidades? Poderia a riqueza total de uma nação continuar a crescer sem que uma parte dos trabalhadores amaldiçoe a prosperidade que eles mesmos produzem? Seria possível estabelecer uma relação mais exata entre a produção e o consumo de bens manufaturados? Seria possível ajudar as classes trabalhadoras a poupar o fruto de seu trabalho, o que lhes permitiria esperar uma reviravolta em sua sorte em épocas de calamidade pública, sem que morram?"

No fundo da proposta tocquevilliana há três convicções de profunda fé liberal: em primeiro lugar, é possível, mediante uma inteligente legislação, criar os mecanismos institucionais que permitam corrigir os desvios do sistema produtivo, a fim de torná-lo mais justo, de acordo com o ideal democrático; em segundo lugar, a legislação deve atender à educação do homem, que é o meio adequado para lhe permitir desenvolver a sua inteligência; em terceiro lugar, a legislação deve-se voltar, também, para a democratização da propriedade, que é o meio através do qual os pobres podem recuperar a dignidade perdida, a sua liberdade, a fim de que se integrem produtivamente à sociedade moderna.

Em relação à educação, frisa Tocqueville: "Entendo (...) a caridade pública como abrir escolas para os filhos dos pobres a fim de fornecer gratuitamente à inteligência os meios de adquirir, mediante o trabalho, os bens do corpo". Já no que tange à legislação que democratize a propriedade, o nosso pensador destaca dois tipos de medidas: umas, dirigidas ao homem do campo, a fim de evitar o êxodo rural; outras, dirigidas ao operariado urbano, a fim de estimular, nele, o sentido de responsabilidade, mediante o desenvolvimento da poupança.

A respeito do primeiro aspecto, escreve Tocqueville [1991: I, 1183-1184]: "Considero que entre os meios de dar aos homens os sentimentos da ordem da atividade e da economia, não conheço um mais poderoso que o de lhes facilitar o acesso à propriedade fundiária (...). O meio mais eficaz de prevenir a pobreza nas  classes agrícolas é, pois, com certeza, a divisão da propriedade fundiária. Essa divisão existe entre nós, na França, e não devemos temer, pois, que se instalem, aqui, grandes e permanentes misérias. Mas pode-se ainda melhorar muito o conforto dessas classes e tornar os males individuais menos cruéis e mais raros. É dever do governo e das gentes de bem  trabalhar para que isso aconteça".

O nosso pensador considerava que, no que tange à divisão fundiária, o problema era muito grande na Inglaterra, devido à concentração de terras em poucas mãos. Os camponeses despojados das suas pequenas propriedades iam para as cidades engrossar o exército de proletários. A expansão da pequena propriedade fundiária na França, de outro lado, não foi obra da Revolução de 1789, mas ocorreu paulatinamente ao longo dos séculos XVII e XVIII, como paradoxal efeito do desmantelamento centralizador das instituições feudais. O nosso autor dedicou uma longa análise ao fenômeno, na sua obra O Antigo Regime e a Revolução [Tocqueville, 1988: 117-127; 211-227; 259-269]. 

No que tange à legislação que deveria estimular no operariado urbano o sentimento de responsabilidade, Tocqueville [1991: I, 1187] escreve: "A meu modo de ver, o problema a ser resolvido é este: como encontrar um meio de dar ao operariado industrial, bem como ao pequeno agricultor, o espírito e os hábitos da propriedade. Dois meios principais apresentam-se: o primeiro (e a primeira vista o mais eficaz), consistiria em estimular no operariado o surgimento de um interesse pessoal na sua fábrica. Isso produziria, nas classes industriais, efeitos semelhantes aos que enseja a divisão da propriedade fundiária na classe agrícola".

O nosso autor examina detalhadamente como se poderia dar essa solução na França da sua época. Considera que, embora ideal, a participação do operariado na gestão e nos lucros das empresas é uma medida que, pela excessiva politização dos sindicatos, não tem sido possível instaurar. Mas acha que, no futuro,  mediante o amadurecimento da classe operária, graças a um sindicalismo mais evoluído e ao desenvolvimento da instrução, será possível chegar a esse tipo de participação, que tornaria o operário efetivamente proprietário no seio das indústrias. Por enquanto, Tocqueville considera que a solução é estimular a poupança, mediante uma adequada política salarial e a criação de mecanismos financeiros que a tornem segura e atraente aos trabalhadores. A respeito, o nosso autor frisa: "Posto que não é possível dar aos operários um interesse de propriedade na fábrica, pode-se, ao menos, facilitar-lhes, à sombra dos salários que retiram da fábrica, a criação de uma propriedade independente. Favorecer a poupança sobre os salários e oferecer aos operários um método fácil e seguro de capitalizar as suas poupanças e de fazê-las produzir lucros, tais, são, pois, os únicos meios de que a sociedade pode se servir, nos nossos dias, no esforço de combater os maus efeitos da concentração das propriedades mobiliárias nas mesmas mãos, a fim de dar à classe industrial o espírito e os hábitos da propriedade, que uma grande porção da classe agrícola já possui. Toda a questão reduz-se, pois, a buscar os meios que possam permitir ao pobre capitalizar e tornar produtivas as suas poupanças" [Tocqueville, 1991: I, 1188].

Qual seria o mecanismo financeiro ideal, na França, para estimular e gerir a poupança dos trabalhadores? O nosso autor é cético quanto à possibilidade de o Estado desempenhar a contento essa função, devido aos seus incontroláveis gastos e às desgraças que a imprevidência do Leviatã tem causado na história do país. A respeito, escreve: "Depois de cem anos, o Estado somente produziu, mais de uma vez, a falência: o Antigo Regime a produziu, a Convenção também. Durante os últimos cinqüenta anos o governo da França mudou radicalmente sete vezes e foi reformado em muitas outras oportunidades. Durante esse período, os franceses experimentaram 23 anos de guerra terrível e duas invasões quase totais do seu território. É triste recordar esses fatos, mas a prudência exige que eles não sejam esquecidos. Seria prudente, justamente num século de transição como o nosso, num século polarizado, pela sua conjuntura histórica, por grandes agitações (...) entregar nas mãos do governo, quaisquer que sejam a sua forma e o seu representante atual, toda a fortuna de um tão grande número de homens?"[Tocqueville, 1991: I, 1191].

O nosso autor apela para uma solução original: reformar as caixas de poupança então existentes, de maneira que fossem instituições de crédito descentralizadas, que possibilitassem a aplicação do dinheiro arrecadado pela poupança dos trabalhadores, em obras que beneficiassem as várias regiões [Tocqueville, 1991: I, 1194]. De outro lado, o pensador francês propõe a criação de uma espécie de "banco dos pobres" que substituísse os montepios, considerados por ele como estabelecimentos graças aos quais o pobre é arruinado a fim de lhe garantir um refúgio na sua miséria" [Tocqueville, 1991: I, 1195].

O perfil da instituição bancária imaginada pelo nosso autor seria o seguinte: "Nesse sistema, a administração receberia de um lado as poupanças e, de outro, dar-lhes-ia aplicação. Os pobres que possuem dinheiro para emprestar o depositariam nas mãos de uma administração que, mediante contrato garantido por penhor, remetê-lo-ia aos pobres que teriam necessidade de empréstimo. A administração não seria mais do que  um intermediário entre esses dois grupos. Na realidade, seria o pobre capitalizado ou momentaneamente favorecido pela fortuna, quem emprestaria com juros a sua poupança ao pobre pródigo ou em situação precária. Nada de mais simples, de mais prático nem de mais moral do que tal sistema: as poupanças dos pobres, administradas dessa forma, não poriam em risco nem o Estado nem os pobres mesmos, pois nada há de mais seguro no mundo do que um empréstimo garantido por penhor. Além do mais, esse seria um verdadeiro banco dos pobres, cujo capital seria fornecido pelos próprios pobres" [Tocqueville, 1991: I, 1195].

Castelo de Tocqueville, na Normandia. (Fotografia do jornalista José Carlos de Lery Guimarães, janeiro de 1996. Álbum de família),


Conclusão.- As duas dimensões da ética no pensamento de Alexis de Tocqueville, a intelectual e a política, embora tematizadas em contextos diferentes da sua obra, estão, contudo, profundamente relacionadas. Diríamos que o ideal da ética política, materializado no princípio da beneficência, torna-se possível unicamente mediante o cumprimento do imperativo da defesa incondicional da liberdade para todos. O nosso pensador, efetivamente, caracteriza o princípio da beneficência da seguinte forma: fazer o bem mais verdadeiramente útil àquele que o recebe, de forma que sirva ao bem-estar do maior número. Ora, no pensamento tocquevilliano o bem mais radicalmente útil que se pode conceber para alguém na sociedade consiste na conquista da liberdade. O completo desenvolvimento do imperativo categórico da beneficência aponta, em última instância, para essa finalidade. Trata-se de fazer aos excluídos da sociedade da sua época, os proletários, o bem mais útil. Esse bem consiste, no pensamento do nosso autor, em dotá-los dos meios que lhes possibilitem reconquistar a dignidade perdida, alicerçada na liberdade. O proletário deve ser estimulado, nas empresas, a ter algum interesse material, assim como o homem do campo deve preservar as suas pequenas posses. Isso, basicamente, porque a partir daí eles poderão reconstruir o ideal de luta pela liberdade. O pensamento ético de Alexis de Tocqueville ancora, destarte, na mais pura tradição liberal de Locke, Montesquieu, Jefferson e dos federalistas americanos.

BIBLIOGRAFIA

MÉLONIO, Françoise [1991]. "Écrits académiques -- notice". In:Alexis de Tocqueville, Oeuvres, I. (Organizador, André Jardin, com a colaboração de F. Mélonio e L. Queffélec). Paris: Gallimard, La Pléiade, pgs. 1626-1634.

MÉLONIO, Françoise [1993]. Tocqueville et les Français. Paris: Aubier.

ROSANVALLON, Pierre [1985].Le moment Guizot. Paris: Gallimard.

TOCQUEVILLE, Alexis de [1977]. A democracia na América. (Tradução, prefácio e notas de N. Ribeiro da Silva). 2ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia.

TOCQUEVILLE, Alexis de [1988].L'Ancien Régime et la Révolution. (Prefácio, notas, cronologia e bibliografia a cargo de F. Mélonio). Paris: Flammarion.

TOCQUEVILLE, Alexis de [1991]. Oeuvres, I. (Organizador, André Jardin, com a colaboração de F. Mélonio e L. Queffélec). Paris: Gallimard, Pléiade.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo [1997a] "A problemática da pobreza segundo Alexis de Tocqueville". In  Carta Mensal, Rio de Janeiro, vol. 43, no. 508, pgs.3-16.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo [1997b]. "O liberalismo democrático segundo Alexis de Tocqueville (1805-1859)". In:  Cultura, Revista de história e teoria das idéias. Lisboa, vol.  X, segunda série, pgs. 437-460.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo [1997c]. Socialismo moral e socialismo doutrinário. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho; Londrina: Instituto de Humanidades; Brasília: Instituto Teotônio Vilela. Volume I da coleção A Social Democracia.

WEBER, Max  [1972]. Ciência e política: duas vocações. (Prefácio de M. T. Berlinck; tradução de L. Hegenberg e O. Silveira da Mota). São Paulo: Cultrix.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O IMPERATIVO DAS LUZES NO SÉCULO XXI (UM TEXTO DE 2007)




O texto a seguir é a Conclusão da minha obra, lançada em 2007, com o seguinte título: Luz nas trevas - Ensaios sobre o Iluminismo (Guarapari ES: Editora Ex-Libris, 2007, 260 p.). Pela atualidade do tema tratado, reproduzo esse texto agora, na esperança de iluminar o atual momento, uma de cujas caraterísticas marcantes é a descrença nas Luzes da Razão, para equacionar os grandes problemas com que o Brasil se defronta.
Ao longo desta obra destaquei o importante papel das Luzes na Modernidade. O processo de ilustração no Brasil ficou a meio caminho, em decorrência das nossas decisões erradas. A estrutura patrimonial do Estado, ligada à mentalidade contra-reformista, terminou polarizando a dinâmica da nossa história, pelo torto caminho da privatização do poder por grupos e estamentos e da execração do lucro, da riqueza e do progresso como se fossem realidades contrárias à moral e à reta razão. Terminamos cativos de uma idéia deformada de modernidade, como a realização de uma ordem doméstica que nos daria mesada a todos, sem precisarmos trabalhar. E ficamos presos aos chavões politicamente corretos, que não nos deixam sacudir a poeira do passado, a fim de enveredarmos por caminhos novos. Hoje o gramscismo está na ordem do dia e ai de quem esboçar opiniões contrárias ao populismo em voga, às bolsas-família, às cotas raciais, aos estatutos legais que fazem dos adolescentes e jovens eternos irresponsáveis perante a lei. Ai de quem criticar a conivência das autoridades para com os mal chamados movimentos sociais, que fazem tabula rasa da lei e dos princípios morais, inspirados no pressuposto totalitário de que “os fins justificam os meios”.
Intelectuais e mestres são ameaçados, na sua integridade física, por militantes que simplesmente procuram impor, a qualquer preço, os slogans oficiais, sem que se possa duvidar da conveniência dos mesmos. Racismo proveniente dos antigos discriminados, pode! Já foi ouvida essa barbaridade, de boca de alta funcionária governamental, que tem, entre as suas incumbências, a de lutar contra a discriminação. O fascismo entrou pela porta da frente na já combalida vida pública brasileira. Hoje, mais do que nunca, é preciso ter coragem para pensar, neste país! A Imprensa, amordaçada pela autocensura e premida pelas ajudas oficiais, é vítima de uma legislação autoritária que ameaça com pesadíssimas multas aqueles que ousarem criticar os novos donos do poder. Operações policiais para amedrontar as denominadas “elites” são deflagradas com estardalhaço, sem que se observem, em não poucos casos, as normas prescritas nos códigos de processo. Enquanto isso, a criminalidade corre solta pelas nossas cidades, eliminando os indefesos cidadãos que caem vítimas do fogo cruzado entre os meliantes e a polícia. E os corruptos de sempre, os do mensalão, os dos sanguessugas, os da patifaria do momento que é focalizada pelos noticiários mas que logo é esquecida, saem de cara lavada pregando moralidade e civismo. Cínica encenação que causa asco aos cidadãos de bem, já cansados com tanta irracionalidade e com a quebra dos valores morais.
Mas podemos mudar as coisas. O esforço da Ilustração é algo que pode ser retomado. Precisamos de coragem para isso. Gostaria de lembrar, aqui, o “Imperativo das Luzes” formulado por Immanuel Kant em 1783: “O que é a Ilustração? É a saída do homem da sua menoridade, da qual ele mesmo é responsável. (...) Sapere aude! Tem coragem para te servir do teu próprio entendimento! Essa é a divisa das Luzes!”. Com a coragem de ousarmos ver o que se passa diante de nós, poderemos, abertos ao legado da Filosofia Ocidental e da Tradição Humanística, identificarmos as soluções para superarmos o abismo de mediocridade que ameaça engolir as nossas instituições e a paz social.
Confio nas novas gerações. Sinto que elas se cansaram da desfaçatez dos políticos e dos burocratas carreiristas, e almejam uma sociedade nova. Vejo ressurgir o interesse pelo estudo da Filosofia Brasileira, após uma década de indiferença do meio acadêmico em face do conhecimento aprofundado da nossa realidade cultural. Ao longo dos anos 80 e 90 do século passado, foram sendo fechados, por pressão da Capes, os Cursos de Mestrado e Doutorado em Filosofia Brasileira, existentes no Brasil, primeiro na PUC do Rio de Janeiro e, depois, na Universidade Gama Filho e na Federal de Juiz de Fora. Isso num momento em que as exigências da Globalização estavam levando outros países a iniciarem ou a retomarem pesquisas acerca das respectivas filosofias nacionais, como aconteceu em Portugal, na Espanha, no México, no Peru, na Colômbia, etc.
Felizmente para nós, a nova geração de alunos que cursa Filosofia e Ciências Humanas, tanto na UFJF como em outras Universidades brasileiras, está dando ensejo a iniciativas em prol da pesquisa das nossas origens filosóficas e culturais. Por pressão dos meus alunos de graduação vi-me obrigado a voltar aos empoeirados livros e documentos do pensamento nacional, a fim de retomar os estudos que, com desesperança, tinha deixado para mais tarde, apenas para a minha curiosidade intelectual, ou para manter vivo o intercâmbio que continuei a fazer com Universidades e centros de pesquisa de outros países, interessados no estudo sistemático dos nossos pensadores. Para canalizar as iniciativas dos meus alunos criei, em 2003, o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da UFJF, que já deu os seus primeiros resultados na publicação regular da Revista Ibérica e que acaba de realizar o primeiro Colóquio para a comunidade acadêmica da UFJF, acerca do tema: “Filosofia, Estado Patrimonial e Imaginação Literária na América Latina”.

Dentre as iniciativas estrangeiras vigentes em prol do estudo da Filosofia Brasileira, vale a pena mencionar o Projeto Ensayo, iniciado em 1986 por José Luis Gómez Martinez, na Universidade de Georgia, nos Estados Unidos, bem como as pesquisas que, na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, desenvolve Juan Carlos Torchía Estrada, ou os estudos realizados pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em Lisboa, sob a direção de José Esteves Pereira, António Braz Teixeira, Antônio Paim e o saudoso Eduardo Soveral, que frutificaram nos Colóquios Luso-Brasileiros de Filosofia, realizados ininterruptamente, a cada dois anos, em Portugal e no Brasil (ao longo dos últimos quinze anos). Vale a pena mencionar, também, as pesquisas sobre pensamento brasileiro que Zdenek Kourim realiza, na França, sob os auspícios do Centre National de la Recherche Scientifique; os estudos sobre filosofia jurídica brasileira, efetivados na Universidade de Milão por Mário Losano e Marcela Varejão, assim como os projetos dedicados à pesquisa da Filosofia Latino-Americana, adiantados pelo Institut de Philosophie, de Paris, vinculado à Unesco. Dignos de menção são, também, os estudos das idéias políticas luso-brasileiras realizados no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de Lisboa, sob a direção de João Carlos Espada, bem como o Primeiro Congresso Luso-Galaico-Brasileiro, que será realizado pela Universidade Católica Portuguesa, na sua sede do Porto, no final de 2007, sob a coordenação de Arnaldo de Pinho.
Teimosos e destemidos pesquisadores brasileiros continuaram o trabalho esquecido pelas pós-graduações stricto sensu das Universidades, programando eventos, publicando revistas, aglutinando os remanescentes dos antigos cursos de mestrado e doutorado em Filosofia Brasileira. Os nomes de alguns desses quixotes: o recentemente falecido Miguel Reale, o maior filósofo brasileiro do século XX, à frente do Instituto Brasileiro de Filosofia; Antônio Paim, do IBF, que doou a sua biblioteca pessoal para organizar o maior acervo existente de pensamento filosófico e social brasileiro, no Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, criado por ele em Salvador, na Bahia, em 1982; Leonardo Prota, do Instituto de Humanidades, em Londrina, que realizou, ao longo dos últimos quinze anos, os famosos Encontros Nacionais de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira; Jorge Jaime, Ricardo Moderno, Aquiles Côrtes Guimarães, Francisco Martins de Souza, Anna Maria Moog e Luís Antônio Barreto, da Academia Brasileira de Filosofia, no Rio de Janeiro; José Maurício de Carvalho, da UFSJ; Tiago Adão Lara e José Carlos Rodrigues, da UFJF; Constança Marcondes César, da PUC-Campinas; Selvino Malfatti, das Faculdades Franciscanas de Santa Maria, no Rio Grande do Sul; monsenhor Urbano Zilles, da PUC de Porto Alegre, etc.
As iniciativas da nova geração em prol dos estudos da Filosofia Brasileira deram continuidade, sem dúvida nenhuma, a essa fonte de luz que não se apagou, apesar dos preconceitos neocolonialistas dos burocratas. É nessa nova geração que aposto e para quem dedico as últimas palavras da minha obra. Lembro a esses jovens as palavras do filósofo alemão: Sapere aude!

domingo, 26 de janeiro de 2020

ALFONSO VÉLEZ RODRÍGUEZ (1947-2019) - IN MEMORIAM





Alfonso y su familia, en Medellín. Album de familia, 2015.


Alfonso y Ricardo en Bogotá, Iglesia de Lourdes, julio de 2017. (Álbum de familia),
      Revivo aqui varios recuerdos comunes a mí y a mis hermanos. Tal vez la vivencia más arraigada en la memoria de mis orígenes sea la de la doble circunstancia campo-ciudad. Comencé mis días en esta última. Me acuerdo de mi hogar, en la Calle 63B, número 25-25 del barrio Muequetá, vecino del tradicional barrio de Chapinero, al norte de Bogotá. Mis primeiros recuerdos son los de la casa paterna, de estilo español, construída por mi papá con la ayuda de un arquitecto ruso, cuyo nombre (Boris Sigoronov) él borró de la placa de piedra en que estaba escrito. Este arquitecto se había asilado en Colombia y lloró con amargura la muerte del “papacito”, cuando el cruel dictador Stalin murió, em 1953. Esta bella casa de dos pisos fué el escenario de mis primeiros años de vida.
Recuerdo aún el terror de las noches al comienzo de la guerra civil, después del asesinato del líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, ocurrida el 9 de abril de 1948, cuando yo tenía 4 años de edad, (iría a completar los 5 solamente en noviembre). El cuarto que yo compartía con mi hermano Alberto, en esos días violentos, quedaba al frente de la calle. Me acuerdo de mi papá empuñando la carabina Winchester y empujando el viejo armario de madera, colocándolo frente a la ventana, para bloquear, con él,  la entrada de las balas y los reflejos rojos, provocados por el incendio del Colegio Mayor de Nuestra Señora del Rosario, en la Quinta Mutis, situada frente a nuestra residencia. Mi viejo pasó la noche postado en una ventana entreabierta del cuarto vecino, que servía de oratorio, para disparar contra los  milicianos que tentaban arrojar trapos empapados en gasolina contra las ventanas de madera, con la finalidad de provocar un incendio. A partir de esa noche de valiente vigilancia, mi papá comenzó con una ciática que lo atormentó por el resto de la vida. Me acuerdo del pavor que sentí con el incendio y el tiroteo en la calle. Recuerdo a mis hermanos Alberto, María Victoria, Alfonso (aún de brazos) y yo,  refugiados con mamá debajo de la cama, para protegernos de las balas perdidas. Me acuerdo de ella rezando esa vieja oración que comenzaba así: “Señor Dios, Rey omnipotente, en vuestras manos están puestas todas las cosas, si quereis salvar a vuestro Pueblo nada podrá oponerse a vuestra voluntad...”. Nuestra casa era considerada un blanco por los revolucionarios “gaitanistas”, porque mi mamá era hija del general Amadeo Rodríguez, uno de los principales líderes conservadores. Nuestra residencia era vecina de la que fué casa de mi abuelo y estaba separada de ésta apenas por un lote.
Para huír de la guerra, nos fuimos a vivir a la casa de la vieja hacienda “El Carmen”, situada a pocos kilómetros del pueblo de La Calera, al oriente de Bogotá, que mi abuelo Amadeo había heredado de sus padres. Allí, en el viejo caserón español de quince cuartos, que databa de la segunda mitad del siglo XIX, nos refugiamos después de la sangrienta semana que siguió al asesinato de Gaitán, y que se conoció como “El Bogotazo”. Vivimos, mis hermanos y yo, días de plena libertad en el campo. Corríamos como cabritos sueltos por las verdes praderas que circundaban la enorme casa.
Observo hoy, al ver las fotografias de la época, dos escenas: cuando llegamos y algunos meses después. En las primeras, aparecemos tomados de la mano, con sombreritos bien colocados, vestidos deportivamente como galanes de telenovela que posan para sus fans. En las segundas, aparecemos con el rostro quemado por los aires andinos y por el sol de las lindas mañanas pasadas al aire libre en los trigales y los montes, con aire de chinitos montañeros y traviesos.
“El Carmen” fué nuestro refugio para la violência que se vivía en Bogotá. Allí conocimos otra dimensión de la vida, con las vacas lecheras del rebaño que mi papá tenía, con el establo, con las instalaciones para la refrigeración de la leche, con la quesera, en donde los trabajadores preparaban los quesos y las mantequillas, con el mercadito dominical en la plaza de La Calera, después de la misa, con mi pavor por los voladores domingueros que producían, para mí, un ruido ensordecedor. Me acuerdo de las noches de fiesta de Navidad y Año Nuevo, yo refugiado, debajo de la cama, para protegerme del ruido de los voladores, con la compañía fiel y temblorosa del perrito negro “Temerón”, miedoso como yo...


Los cuatro hermanos: Ricardo, Alfonso, Marisa y Gabriel.
Bogotá, julio de 2017.


En la cena oferecida en julio de 2017 por el primo Joaquín, en su apartamento situado en el bello barrio residencial de Rosales, al nordeste de Bogotá, al borde de los cerros, estuvimos presentes los cuatro hermanos aún vivos: Marisa, Alfonso, Gabriel y yo. Fué una cena maravillosa en la que pudimos recordar viejos tiempos de cuando vivíamos en Medellín, en los años 60 del siglo passado, o de cuando vivíamos en la hacienda “El Carmen”, al final de los años 40. Gabriel aún no había nacido, pues, siendo el más joven, su fecha de nacimiento es 21 de noviembre de 1953. Revivimos, también, los años que pasamos en nuestra casa de Muequetá, en Bogotá.
Fué maravilloso encontrar a mis hermanos. Este, certamente, constituyó el principal motivo que me llevó a programar la ida a Colombia. Doy gracias a Dios por haber logrado encontrarlos y convivir con ellos, a pesar de que fueron pocos días. Es curioso cómo, cuando nos encontramos después de tantos años, parece que la última vez fué el día de ayer. Es una vivencia emocional que nos enriquece y que se yergue sobre el fluir del tiempo.
Después de ese encuentro con los hermanos, enriquecido por la convivencia con Joaquín y los otros primos, salí renovado. Fué como si hubiera cargado las pilas del corazón! Mi amigo Thiago, sicólogo em Londrina, me decía que le encantaba verme tan animado, después del viaje a Colombia. Sólo me hizo falta la compañía de mi hijito Pedro y de mi querida Paula. La compañía de mi hija Victoria fué muy gratificante y ella también le sacó mucho jugo al viaje, al haber encontrado a sus primos y tíos.
Me alegro de ver a todos los hermanos realizados en las escogencias profesionales que hicieron. Alfonso, quien se graduó em Filosofía, como yo, pero que se encaminó por el área del Desarrollo Organizacional en sus estudios de postgrado, especialidad que ejerció en sus asesorías en la Universidad EAFIT, de Medellín. Marisa, abogada por vocación, quien trabajó muy duro para organizar su clientela cuando aún era professional del Derecho en Cali, antes de irse para los Estados Unidos en los años 2.000 y que, en el Canadá, revalidó su título de abogada para trabajar en Derecho Inmobiliario, que pero que le saca jugo, especialmente, a su creatividad artística, realizando trabajos de artesanato fino. Gabriel, quien escogió el área de la Ingeniería Electrónica, habiéndose graduado en la Universidad de Antioquia y quien, cuando era un joven profesional, dió pruebas de gran capacidad para la producción de aparatos de precisión en el área de la biomedicina. Desempaña actualmente, con éxito, su profesión como ingeniero, en el Canadá.
Admiro a mis queridos hermanos y me siento feliz por sus realizaciones familiares. Alfonso, con sus cuatro lindos hijos y abuelo de varios nietecitos. Marisa, con sus dos hijas maravillosas, Lina y Anita, cada una con sus proyectos muy bien definidos: Lina, en el Canadá, en una gran empresa de produtos químicos y Anita, en el sur de Francia, como productora de vinos en ese pequeno paraíso que es Quarante, el pueblo medieval fundado por Carlomagno más o menos en el año 800. Gabriel, con sus hijos ya profesionales: Ricardo, ingeniero espacial, que trabaja en una seccional de la empresa Bombardier, en México, y Esteban, administrador, que trabaja en la Universidad de Toronto. Me encantó encontrar, junto con Alfonso y Gabriel, a sus esposas, Eugenia y Beatriz. Recuerdo a los lindos nietecitos de Gabriel y Beatriz, hijos de Juliana, la hija mayor, que vive en Estados Unidos. Me alegró volver a ver a Alejandro, el marido de Marisa, ingeniero con muchos éxitos en el Canadá. Todos ellos, maridos y mujeres, aún con apariencia joven, a pesar de la edad que no podemos negar.
Regreso en el tiempo para recordar a los hermanos que ya partieron: Ricardito, mi tocayo, falecido em 1942, un año antes de que yo naciera; María Victoria, muerta prematuramente em 1982, con 37 años. Alberto el hermano mayor, fallecido en 2004, con 64 años y Alfonso, que murió recientemente en Medellín, el día 28 de diciembre de 2019, con 72 años.
La Medellín de los años 60 y 70 fué la ciudad de mi bohemia tardía. Viví las aventuras juveniles en compañía de mi querido hermano Alfonso, cuatro años más joven que yo, y del primo Joaquín, dos años más joven, que vivió con nosotros a lo largo de esos años, pues adelantaba el curso de piloto en la empresa SAM (Sociedad Aeronáutica de Medellín), para pilotar los famosos Electras, aquellos turbohélices cuatrimotores para 98 pasajeros y tres tripulantes que tenían, en la parte de atrás, uma holliwoodiana sala para fumadores. Eran los famosos Lockeheed L-188. Joaquín se integró a nuestras aventuras bohemio-académicas.
Alfonso había salido del Instituto Tihamer Toth algunos años después de mí y, como era graduado em Filosofía, trató de conseguir clases en la Universidad. Tardó en realizar su sueño académico y comenzó la vida professional como vendedor, tal vez influído por mi experiencia en la Editora Aguilar.
Entre mis hermanos, Alfonso tocaba guitarra y Gabriel aún practica esa habilidad artística. María Victoria fué pianista profesional y concertista. Alberto tenía talento para el piano; habiendo comenzado clases en la Academia de Luisa Maniguetti, las abandonó por presión de mi papá, que argumentaba que si se dedicara al piano se volvería marica. La verdad era que don Alfonso había escogido las profesiones para los hijos mayores. Alberto, como cabeza de família, seria su sucessor al frente de los negocios. Yo iría para el seminario, pues debería haber un hijo cura. Como el escogido para la profesión religiosa había muerto poco después de su nacimiento, yo, que le seguía, recibí esa responsabilidad, además del nombre: Ricardo. La compulsión vocacional de mi papá desapareció con los hijos menores: Alfonso, Marisa y Gabriel fueron dejados en paz.



Casas del abuelo Amadeo en Bogotá\; Arriba, en el  Barrio La Candelaria; abajo: en Chapinero (Fotos: álbum de familia),

Marisa dió un bello testimonio de la complicidad de la infancia que vivió con Alfonso. Ambos se volvían gamines que hacían de las suyas constantemente. Hace poco, con motivo de la enfermedad que consumió la vida de mi querido hermano, Marisa escribió en un post de Whatzapp dirigido a él: “Mi querido Poncho: hoy hablé con Ricardo, quien me contó que acababa de hablar contigo. Yo no quiero molestarte, pues sé que te da trabajo hablar. Te quiero desear ausencia de dolor y de molestias. Sé que estás muy sereno, cosa ésta que te ayuda mucho en esta difícil situación. Afortunadamente, estás en casa, rodeado de toda tu família. Lo único que quisiera es estar cerca de tí, para poder hablar de todo. De cómo, gracias a tí, tuve uma infancia muy, muy feliz. Hiciste que mi adolescência, a pesar de haberte tenido lejos unos años, fuera alegre como tú. Cómo fuiste de solidario conmigo, al ayudarme a pintar la casa para mi matrimonio. Igual de solidario en la época, cuando salíamos a gastarnos la plata de mi ajuar en onces deliciosas y películas maravillosas. Gracias a tí tuve la gran oportunidad de disfrutar la vida, ya que en tu compañía, nos íbamos a conquistar montañas y a que nos atacaran los chivos en nuestras largas caminatas. A escribir teatro del absurdo donde nos burlábamos de papi y mami, de sus vidas y desfortunas. Mi gran diversión fué tu complicidad con mis Pilatunas, cómo inventábamos canciones remedando las que papi cantaba, pero con letras nuestras donde intercalábamos una que outra palabrota prohibida. Cómo jugábamos a los vaqueiros malos del oeste. Tú me salvaste de que me trataram como a uma niña, lo cual contribuyó a mi felicidad de entonces y de ahora, ya que siempre he sido más cercana a um gamín que a uma niña, gracias a tu cercania. Parte de esta historia la he vivido con mis  hijas, a las cuales las salvé de ser tratadas como niñas y han podido pensar y ser ellas mismas, pues como  les conté muchas veces, contigo tuve la posibilidad de tener un amigo cercano que me aceptó incondicionalmente. Has dejado em mí maravillosos momentos de alegría, risas, aceptación y amor. Te quiero infinitamente, mi querido hermano, compañero de andanzas infantiles y juveniles. Gracias por ser quien eres”.
Victoria, nuestra mamá, trató de vivir con cada uno de nosotros, después de la muerte de mi hermana María Victoria, en 1982, quien pasó a vivir con ella desde la muerte de mi padre, em 1977, en Medellín. La cosa no funcionó ni con Alberto, ni con Gabriel, ni con Marisa, ni con Alfonso, ni conmigo. Ella, con mano diplomática, pero con aquella voluntad de hierro entre bambalinas, trataba de organizar la vida a su manera. Y a las nueras, o a la hija, logicamente, no les gustaba esa política. Hasta que, haciéndole frente a la verdad, mi viejita decidió, con coraje, cuando aún vivía con Marisa en Cali, en los años 90, irse para Medellín, al Hogar Vizcaya, en el Poblado, a una casa para personas de edad administrada por monjas. Ella misma negoció con ellas, hizo la inscripción, fué aceptada y, un bello día, con la maleta en la mano, le comunicó a Marisa su decisión, tomada sin dramatismo y sin reproches. “Mijita, decidí que voy a vivir sola, en Medellín, en el Hogar Vizcaya. Ya todo está negociado. Puedes visitarme, cuando quieras”.

Los cinco hermanos Rodríguez Téllez (Foto: álbum de familia, cedida por Clara Eugenia Mosquera).

En el restringido mercado antioqueño de entonces, al salir del Instituto Tihamer Toth, Alfonso solamente consiguió lugar en una compañía de seguros, en el sector de venta de tumbas y servicios fúnebres. Era muy divertido escuchar a mi hermano contando sus aventuras de vendedor de produtos macabros. Él tenía, con certeza, más aptitudes que yo para las ventas: le gustaba conversar con todo el mundo, las personas lo consideraban simpático y les parecia divertida su forma de contar las cosas, sin problemas para enfrentar  ambientes desconocidos. Alfonso tenía, en fin, el feeling del buen vendedor. Un final de tarde, en el barrio de Belén, cerca a la Universidad de Medellín, llegó a una casa ofreciendo sus servicios fúnebres y, al contrario de lo que se imaginaba (pues las personas daban por terminada la conversación cuando oían hablar de tumbas y entierros), el dueño de la casa, un padre de familia con una prole inquieta y numerosa, lo hizo entrar y sentarse a la mesa, pues la família iba a comer.
El patriarca hizo el siguiente discurso: “Mis hijos, vean a este muchacho que podría estar, a esta hora, bebiendo aguardente en el bar de la esquina o vagando por ahí, sin hacer nada. Tiene casi la edad de ustedes. Y vean lo que hace: trabaja en un empleo difícil, pues tumbas o servicios fúnebres nadie quiere comprar con esta vida tan cara. Pero él no se da por vencido. Felicitaciones, mi joven vendedor. Usted es un ejemplo de disciplina y dedicación para esta manada de vagos que no quieren hacer nada en la vida”. Con este discurso animador, Alfonso salió sin que el patriarca diera muestras de querer comprar tumbas o servicios fúnebres...
La poca suerte de Alfonso en la venta de tumbas no lo hizo desanimarse. Dueño de un temperamento alegre y divertido, mi querido Poncho no le daba importancia a las desgracias del mercado. Por el contrario, hacía de esos pequeños fracasos, motivo de chiste. Muy sociable y un comunicador nato, el querido hermano encontró su “nicho de mercado”. Mi amigo René Uribe Ferrer, que había sido decano de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Bolivariana y a quien conocí en esa posición, fué nombrado, por el gobernador del Departamento de Antioquia, como Secretario de Educación. Me llamó para colaborar con él, como rector de un gran gimnasio departamental situado en Sabaneta, un municipio perteneciente al área metropolitana de Medellín. Yo estaba organizado en el cargo de profesor de la Universidad Bolivariana y no queria cambiar de trabajo por una función de administración escolar, perspectiva que consideraba poco interessante para mí, pues carecía de experiencia en ese ramo y prefería dar clases. Conversé entonces con Alfonso, ponderando que, por su modo de ser y por el hecho de ya estar trabajando en el importante colegio Mary Mount, para niñas, en funciones docentes y administrativas, tal vez tuviera éxito dirigiendo un establecimiento de enseñanza oficial de gran porte. Al fin y al cabo, él sabía muy bien lidiar con las personas. Alfonso aceptó la oferta y fué nombrado, entonces, rector del Gimnasio Departamental de Sabaneta. Su trabajo al frente de ese establecimiento fué um completo éxito, según me manifestó, algún tiempo después, el próprio Secretario de Educación departamental.
Alfonso se encaminó, después, por los estudios del desarrollo organizacional, habiendo cursado, con brillo académico, la maestria en la Universidad de Siracusa, en Champagne, Urbana, Estados Unidos. Poco antes de viajar, había recibido invitación  de la Universidad EAFIT, para dar clases de Humanidades en la Facultad de Administración de Empresas, justamente en la misma Institución en que yo, en 68, había iniciado mi carrera docente. Enseñé Humanidades en EAFIT hasta el final de 1970, justamente en la época en que Alfonso se vinculó a esa Universidad.

Los tres tenores (Medellín, 2003). (Foto: álbum de familia).


Según me decía Alfonso cuando conversábamos sobre los rumbos de la docencia de la Filosofía en uma Facultad de Administración, solamente tendría sentido hablar de Humanidades, si se partiera para uma humanización de las relaciones interpersonales en el terreno de la gestión, haciendo que los conceptos filosóficos fueran siendo assimilados en el plano concreto de la vida y de la tomada de decisiones. Alfonso consideraba que el cultivo de las Artes y de la Filosofía deberían ir juntos con la Ciencia de la Administración de Empresas, anticipando un concepto nuevo de gestión integral, que terminó siendo implantado en esa Universidad, cuando fué creada, en décadas posteriores, la Orquesta Sinfónica de EAFIT, no como un cuerpo extraño a la enseñanza de la Administración, sino como una privilegiada ventana para aprehender, vivencialmente, los nexos entre valores artísticos y funcionamiento de la inteligencia emocional, en las relaciones empresariales. Alfonso estaba muy adelantado, para su época, en la comprensión del papel de las Humanidades y de la Filosofía para la formación empresarial!
Sentí profundamente el fallecimiento de mi querido Alfonso (Poncho), después de que un fulminante cáncer terminal lo acometió, a lo largo del segundo semestre de 2019. Enfrentó las largas temporadas de hospital y sus últimos días con espírito cristiano y gran coraje, nunca perdiendo su buen humor y aquella “politesse du coeur” que siempre lo caracterizó. Me queda el recuerdo del hermano jovial, siempre optimista y dispuesto a extraer de la vida lo que hubiera de bueno, sin detenerse en las minucias del día a día. Poco antes de falecer, en la última charla que tuve con él por el Whatzapp, la noche de Navidad, me dijo, con la voz debilitada por la enfermedad, pero con la tranquilidad de siempre: “Hermano, parece que de esta aventura no salgo vivo. El cáncer se extendió a todo el organismo. Bueno, hermano, que se haga la voluntad de Dios. En sus manos estamos. Estoy tranquilo”. Recuerdo a mi papá cuando me recomendaba imitar el “bello temperamento” de Alfonso, a fin de superar los malos recuerdos de mis años de seminario. Su lección de vida y de coraje quedará, para siempre, en mi alma.
Alfonso tenía una especial capacidad para le gestión académica de nivel superior, habiendo dejado pruebas de esto en la magnífica obra de docencia y de consultoria en el área empresarial, por él desempeñada durante más de treinta años, en la Universidad EAFIT, de Medellín, una de las más sobresalientes en Colombia y en la América Latina. Da testimonio de esta realización la nota de pesar con motivo de su fallecimiento, emitida por las autoridades, directivas y la comunidad académica de la mencionada Universidad, en los siguientes términos: “Alfonso Vélez Rodríguez, un maestro, consejero, estratega, negociador y un ser humano con cualidades excepcionales, quien con un espíritu siempre alegre y positivo, realizó importantes contribuciones para la transformación de la Institución y sus áreas misionales de docencia, investigación y proyección social”. La nota fué firmada por los integrantes del Consejo Superior de la Universidad EAFIT, juntamente con el Rector, los diretores, los profesores, los funcionarios administrativos y los estudiantes, que expresaron su pesar por el fallecimiento de quien fué Director de la Escuela de Administración, profesor y asesor de innovación. Asistí emocionado a la bella presentación de slides con que la Universidad rindió homenaje a mi querido hermano y a su familia, el día 15 de enero de 2020. Fué reconocida, allí, su bella inspiración humanística, con la que supo renovar la enseñanza de la Administración y la práctica del emprendedorismo en la Universidad EAFIT.
Aún recuerdo, emocionado, las palavras de su esposa Eugenia, en post encaminhado a mí (em 4 de enero), poco después del fallecimiento de Alfonso: “ Su vacío es enorme. Qué difícil es este paso. Pareciera que nos sale al encuentro, en cada detalle, y en cada hijo encuentro un pedacito de él. También hay tantas cosas lindas que nos dejó y nos enseñó, que quisiera gritarlas al mundo entero. Él siempre te tuvo presente y te siguió los pasos. No era muy expresivo para comunicártelo, pero me lo dijo varias veces”.  Yo también siempre lo tuve muy presente y admiraba, con sana envidia, su capacidad de llegarle a las personas, con esa su simplicidad inigualable y la simpatia natural, que abría puertas y corazones. En fin, creo que mi querido hermano Alfonso y yo quedamos sin deudas en materia de valorización personal y cariño fraterno, a pesar de que, por la educación tradicional que recibimos, poco nos comunicáramos la mutua admiración y el amor recíproco.
Buena suerte tuvimos, Alfonso y yo, en las empresas bohemias. Como él tocaba guitarra, formamos un dueto popular, imitando a los conocidos cantantes “Los Tolimenses”, Emeterio y Felipe. Yo representaba al primero y Alfonso al segundo. Imitábamos el hablado guasca de nuestros personajes (que tenían inmensa audiencia en los programas de radio y televisión) y contábamos historias mezcladas con canciones campesinas que cantábamos en dueto, yo haciendo la primera voz y Alfonso la segunda. El éxito fué enorme. Nos convidaban para fiestas de cumpleaños y hasta para matrimonios. Yo escribí, con paciencia benedictina, un cuadernito con los chistes de “Los Tolimenses”, que evidentemente fueron siendo completados. Nuestros oyentes nos pasaban chistes nuevos, a fin de que enriqueciéramos el repertorio.
La empresa humorística no tenía empresario. Ahí, e ese detalle, radicaba nuestra falla. Era necessário que alguien cuidara, financeira y administrativamente, de la empresa. A pesar de no ganhar dinero y cantar sólo por diversión, sobrevivimos dos años, hasta la fecha en que fuí expulsado del cuerpo docente de la Universidad Bolivariana, por causa de mi militancia sindical y política. Desempleado, tuve que buscar trabajo en Bogotá.



Arriba: con el primo Joaquín, en Bogotá, Julio 2017.
Abajo: con mamá en La Calera, 1950. De izquierda para derecha: Ricardo, Alfonso, Mamá con Marisa en su regazo,
María Victoria y Alberto. (Álbum de familia).

Nuestra vida de adolescentes tardíos fué generosamente ayudada por el primo Joaquín, que tenía más experiencia de mundo. A pesar de que él pasó sólo un año interno en el Instituto Tihamer Toth, logró verse libre del seminario. Uno de los motivos de su liberación de ese ambiente clerical fué su perrito “Tony”, que no se separaba de él. Era um gozque con todas las de la ley, de esos de tiempo integral y dedicación exclusiva. Cuando Joaquín fué matriculado en el internado, aún niño, el perrito lo acompañó el día en que mis tíos, Juan Félix y Solita, lo llevaron al seminario y regresaron a casa con el perrito. Pero, cosa extraordinaria, el animalito apareció de noche, aullando, en el patio interior del seminario. Había recorrido más de 10 kilómetros entre la casa de mis tíos y el barrio Prado Veraniego, en donde quedaba el internado. Los porteiros persiguieron al animalito corriendo y gritando. En donde se refugió “Tony”? – Justamente debajo de la cama de mi primo, que quedaba en el ala de los alunos menores, un salón inmenso, lleno de camas de dos pisos y que albergaba a más de 60 niños. “Tony” montó guardia debajo de la cama de Joaquín. Y se convertía en una fiera cuando trataban de sacarlo de ahí.
“Tony” logicamente acompañaba a mi primo en todas las actividades, desde el baño, pasando por la capilla para la misa matinal y, luego, yendo al comedor para el desayuno. Después iba a la sala de clase, para diversión de los alumnos, pues había profesores que no le gustaban al perrito y recibían de regalo gruñidos aterradores. Las cocineras en poco tiempo habían sido cautivadas por “Tony” y le garantizaban, regularmente, platicos con las sobras del comedor. Después de una semana, el rector del seminario llamó a los padres de Joaquín y les explicó que “Tony” estaba transformando la disciplina en un carnaval y que era necesario que la familia tomara alguna medida. El tío Juan Félix, oficial de la policía, propuso una solución conciliadora y eficaz. “Tony” sería albergado en la Escuela de Sargentos de la Policía, que estaba situada cerca al lugar en donde quedaba el seminario, en una pequeña finca llamada “La Pequeña Victoria”, al borde de la carretera que iba en dirección al pueblo de Suba. Los curas prometieron que Joaquín podría visitar quincenalmente a “Tony” y, de este modo, el perrito conquistó “la pequeña victoria” de no perder de vista a su dueño... Pasado el primer año, el rector del seminario explicó a mis tíos que Joaquín, tal vez, no tenía el perfil para permanecer en el internado y aconsejó que lo matricularan en outro colegio. “Tony”, sin duda, pesó en el consejo de los curas... Como habría sido bueno si Alfonso, Gabriel y yo hubiéramos tenido un “Tony” a nuestro lado!
Volvamos a las aventuras académico-bohemias de Medellín. Joaquín, después de las clases en la Escuela de Aviación de SAM, pasaba las tardes con nosotros. Nos ayudaba a corregir exámenes (oh irresponsabilidad!). Preguntaba si la alumna fulana era bonita o fea. Conforme a nuestra evaluación estética, él daba la nota. Felizmente las alumnas feas eran pocas en esa Medellín de la eterna primavera. La verdad es que no hubo protestas de parte de ellas. Joaquín nos acompañaba a las fiestas de la Facultad, a la cual, ya en el año 70, se había incorporado mi hermano Alfonso, como profesor auxiliar de Literatura y Filosofía de la Universidad Pontificia Bolivariana.
En cierta ocasión, fuimos invitados a un almuerzo de las alumnas de la Facultad de Servicio Social, en una finca. La condición era llevar un pollo asado. Nos olvidamos de la exigencia y solamente compramos las bebidas. Pero Joaquín dió la solución: él sería el pollo. Flaco y muy ágil, él lograba encogerse como un pollo de fiambre y piaba razonablemente. Lo colocamos en el banco de atrás de nuestro Dodge 53 y nos fuimos para el sitio del almuerzo. Con pompa y circunstancia desembarcamos las bebidas y a Joaquín, encogido como un pollo piando. Las alumnas se murieron de la risa, aceptaron nuestra contribución y pasamos una tarde muy divertida, oyendo los chistes de nuestro primo y las carcajadas de ellas. Mi papá, que sabía de nuestras tramas, nos regañaba, diciéndonos: “No lleven a su primo a las fiestas de la Facultad, que él ya es piloto y termina cayendo en la borracheira, teniendo que pilotar al día siguiente!”
Joaquín también nos acompañaba a las fiestecitas que nuestras amigas de barrio organizaban, los fines de semana. Eran comunes, en la Medellín de la época, las tardes danzantes, organizadas por las familias para diversión de los jóvenes y adolescentes. Yo tenía una amiguita, Beatriz, que me invitaba. Iba a los bailes en compañía de Alfonso, Joaquín y de mi hermano menor, Gabriel. A las niñas les encantaba la compañía de mi primo y de Alfonso, dueños de un temperamento divertido. Por la noche, contándole a mi mamá las aventuras danzantes, nos reíamos a gusto, tomando tinto, fumando y comiendo sánduches.
En 69, fuí parejo de una prima distante, Olga Cecília, en su fiesta de 18 años, celebrada en Ibagué, la “capital musical de Colombia” y capital del Departamento del Tolima. Ibagué tenía en esa época aproximadamente 300 mil habitantes. La fiesta de 18 era, en la Colombia de la época, la fecha de presentación de la aniversariante en sociedad y la conmemoración daba lugar a un baile de gala. Alquilé black tie y tomé el avión para Ibagué, en donde fuí recibido por los padres de Olga Cecilia, que me alojaron en su casa. Danzarín mediocre, logré sobrevivir a la noche de valses y ritmos caribeños.
Olga Cecilia me gustaba mucho. La había conocido en una fiesta familiar, en la casa de mi prima Eugenia, casada con mi hermano Alfonso. Olga Cecilia hacía el curso de Pedagogía en la Universidad Bolivariana y allí nos encontrábamos con frecuencia. Le ayudaba en sus trabajos de filosofía y conversábamos largamente en la cafetería de la Facultad. Vivía cerca a la Universidad y ella me invitaba a su casa para reuniones con amigos. Era una niña dulce, bonita, muy familiar. Años después, en 75, radicado nuevamente en Medellín, la encontré en la Escuela “República del Brasil”, en donde mi primera esposa daba clases de “cultura brasileña”, con apoyo del Consulado.