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terça-feira, 19 de maio de 2015

O PT POTENCIALIZOU O PATRIMONIALISMO - Entrevista à Revista Veja



Professor de Filosofia e especialista na formação intelectual do Brasil, Ricardo Vélez Rodriguez afirma que a sigla usou a prática para construir hegemonia partidária

Por: Gabriel Castro, de Brasília - Atualizado em 



Ricardo Vélez Rodríguez
Ricardo Vélez Rodríguez: "Fernando Collor foi posto na rua porque PC Farias tinha uma certa ideia de engenharia da corrupção, mas era ladrão de galinha comparado com o que o PT fez".(Google +/Reprodução)
O professor Ricardo Vélez Rodriguez é uma figura peculiar no meio acadêmico: nascido na Colômbia, ele coordenou um dos primeiros centros de pós-graduação dedicados exclusivamente ao pensamento brasileiro, na Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de obras sobre o patrimonialismo e o Castilhismo - regime autoritário que nasceu no Rio Grande do Sul e teve influência decisiva sobre a República brasileira -, Rodriguez vive no Brasil desde 1979 e especializou-se em identificar as raízes históricas e culturais das mazelas que assolam a política brasileira. Aos 72 anos, ele vive em Londrina (PR) e continua lecionando. Rodriguez analisa o cenário político atual e afirma: o Partido dos Trabalhadores elevou as práticas patrimonialistas a um nível sistêmico. Leia a entrevista ao site de VEJA.
A corrupção no governo do PT tem algo de inédito? A ciência política tem o conceito de patrimonialismo, que consiste na utilização do Estado como instrumento de enriquecimento. Ele é tão velho quanto a história do Brasil. Há momentos na história republicana em que esse senso de patrimonialismo fica evidente. Um deles foi no governo Sarney. Mas o PT realmente piorou as coisas em relação aos períodos anteriores, porque tornou a corrupção sistêmica. Elaborou uma espécie de grande proposta estratégica de garantir a roubalheira continuada utilizando para isso as empresas e os bancos estatais. Nunca se viu algo tão sistemático. Fernando Collor foi posto na rua porque Paulo César Farias tinha uma certa ideia de engenharia da corrupção, mas era ladrão de galinha comparado com o que o PT fez. Nos dez anos antes de chegar ao poder, o PT já tinha aparelhado o segundo escalão de ministérios da área social, como Saúde e Educação. Depois foi só colocar a colocar a culpa e sistematizar a coisa, porque já estava feito o trabalho de penetração. Eu digo que com o PT houve o seguinte fenômeno: a engenharia da corrupção conseguiu realizar a corrupção da engenharia. As grandes empresas que faziam obras de vulto para o Estado todas entraram no beco da corrupção com o PT.
O PT usa o patrimonialismo para fins diferentes? Não tenha dúvida. Há uma proposta hegemônica no PT, aliada a um populismo que desmancha as instituições. Lula se encarregou de desprestigiar todas as instituições republicanas, começando pelo Executivo, que ficou cheio de podridão. O Legislativo, com o mensalão e o petrolão, tentou-se comprar. E o Judiciário foi aparelhado. Havia marxistas-leninistas no meio pensando a coisa. É o caso de José Dirceu. O PT tinha na cúpula um elemento estratégico que pensava uma perpetuação hegemônica do poder, de tipo gramsciano, e buscava garantir o financiamento disso. Foi um momento de potencialização dessa tendência privatista do poder econômico através do Estado para garantir uma hegemonia partidária em direção a um modelo totalitário, não há dúvida. O desaguadouro disso é a Venezuela. O modelo venezuelano é um modelo já mais avançado.
Mas a postura do PT nem sempre coaduna com os ideais socialistas. O que acho que se deve compreender é o seguinte: qual é a carta que o PT e os bolivarianos compraram? O pensamento de Chávez, o líder dos bolivarianos, qual era? Chegar ao poder utilizando o voto e as estruturas existentes. A proposta da revolução cultural gramsciana é esta. Visto que a revolução do proletariado no modelo clássico leninista sai muito cara e é muito pouco realizável devido à conjuntura internacional, é muito mais prático tomar por dentro. Como? Fazendo cair os valores da chamada sociedade burguesa. Então atacam a família, atacam a religião e tomam conta do sistema de ensino para rebaixá-lo. Paralelamente aparelham o Estado para financiar o partido no poder, que era a ideia de Gramsci. O "novo príncipe" de Gramsci era o partido hegemônico. O que o PT queria é isso.
O surgimento de uma oposição mais forte ao PT é algo temporário ou o cenário realmente mudou? Acho que é algo diferente, porque passam meses e meses e os panelaços continuam. Querem tirar o PT de todas as formas. Eu acho que a oposição formal brasileira não entendeu direito o espírito da coisa. Os cardeais tucanos voaram todos em bando para Nova York no dia em que Fachin iria ser sabatinado no Senado. A oposição dá refresco demais ao PT. Era o papel da oposição formal, fundamentalmente do senador Aécio Neves, dar as caras e fazer o combate. E as ruas entendem isso. O próprio PSDB vai sentir nas próximas manifestações um pouco essa cobrança.
Uma eventual guinada ideológica no Brasil poderia influenciar o restante da América do Sul?Acredito que sim. A crise é do PT e é da esquerda brasileira, que não tem proposta. Ficou restrita a essa missão estatizante maluca e não há uma visão clara. Falta quem veicule em programa político-partidário uma proposta conservadora que certamente teria muitos seguidores. É necessário que exista um partido conservador, que defenda causas que a esquerda esqueceu. Por exemplo: a defesa da família. Isso virou uma espécie de coisa careta que político nenhum quer mencionar. Hoje alguns evangélicos começam a colocar isso na rua. Mas eu acho que é uma proposta a ser defendida. O eleitor não encontra um partido conservador que seja uma opção clara. A própria Igreja Católica terminou perdendo muito do poder de comunicação. A CNBB tem ficado escondida feito uma ostra em face de todas essas coisas. Eu não vejo um pronunciamento da CNBB contra a imoralidade reinante, porque eles ficaram muito atrelados à política do PT. A bem da verdade o PT é filho do movimento sindical e da Igreja progressista. Então a Igreja progressista ficou calada e está perdendo espaço para outras vertentes mais conservadoras e perdendo capacidade de análise politica desse momento.
A tendência autoritária dos governos brasileiros tem raízes históricas? O problema é esse. A nossa República já nasceu sob o signo da hipertrofia do Executivo. O modelo republicano que progrediu foi o praticado por Júlio de Castilhos. Esse modelo germinou lá no Rio Grande do Sul e em 1930 assumiu o protagonismo nacional com a segunda geração castilhista, por meio de Getúlio Vargas. É um regime de concentração de poderes no Executivo e de desvalorização no Legislativo. Para Getúlio valia o mesmo principio que valia para os castilhistas: O regime parlamentar é um regime para lamentar. Tira poderes do Legislativo, centraliza tudo o Executivo. Essa hipertrofia do Executivo é o que mais tem prevalecido.
Os militares também foram influenciados por essas ideias? A volta dos gaúchos ao poder no regime militar é uma volta do castilhismo, sem dúvida nenhuma. Tanto do castilhismo da primeira geração, com hipertrofia do Executivo, quanto do castilhismo da segunda geração, com essa figura do autoritarismo instrumental.
Leonel Brizola também se dizia influenciado por Júlio de Castilhos e, por sua vez, influenciou a presidente Dilma Rousseff. O Brizola era castilhista de coração. Acreditava na hipertrofia do Executivo e adotava um discurso estatizante. É um sujeito que pegou os ideais castilhistas e os plantou do lado da esquerda. No Rio Grande do Sul houve um laboratório em que PT fez os ensaios iniciais para a tomada do poder. Os governadores petistas eles colocaram em andamento uma hipertrofia do Executivo, uma ingerência do Executivo muito dentro da linha castilhista.
O vício autoritário de governos de esquerda e direita no Brasil se deve, então, a equívocos na formação intelectual do país? Uma das causas é que a intelectualidade brasileira da área de ciências sociais terminou sendo encampada por uma proposta estatizante. Há um livro do professor Antonio Paim que é muito interessante porque mostra como surge, na esteira da herança das ciências sociais francesas, uma proposta de intelectualidade da esquerda brasileira que é totalmente comprometida com a implantação de um vago socialismo. Esse vago socialismo termina encampando propostas estatizantes. A crise hoje é uma crise da esquerda, da intelectualidade da esquerda que entrou nesse beco sem saída, e é necessário um arejamento cultural para poder sair dessa crise.
A militância que tem ido às ruas já se descolou dessa mentalidade predominantemente de esquerda? Eu acho que há uma volta de ideias liberais. Há muitos jovens libertários, muita gente que transita pelas redes sociais, estudiosos do liberalismo que estão redescobrindo o caminho das pedras, e acho que essa geração que está alimentando esses movimentos de rua tem muito de inspiração liberal. Falta, ao meu ver, um estudo mais sistemático do liberalismo porque isso virou uma espécie de grande maldição no Brasil. É necessário dar a essas novas gerações elementos de conhecimento sistemático do pensamento liberal, do pensamento conservador, para poder arejar o ambiente e realizar algo que tenha raízes profundas
Esse esforço não é pequeno. É tarefa para uma geração? É uma coisa é uma coisa de longo prazo que será tanto mais rápida quanto mais rápido for organizado um partido conservador, de direita que tenha um ideal liberal-conservador e o coloque em prática. Acho que o país está carente disso. A sociedade brasileira tem aspectos conservadores que foram esquecidos por todo esse discurso de esquerda e precisam ser resgatados.
Os partidos não percebem isso? O problema é que os partidos terminaram vítimas do açodamento. Todos pensam na próxima eleição, não na próxima geração. Não há uma perspectiva estratégica dos partidos. O único que tinha uma perspectiva estratégica, é bom reconhecer, é o PT. Mas é uma perspectiva estratégica destruidora. O grande problema é que nossos partidos ficaram reféns dessa visão imediatista e personalista. Nossos partidos são como blocos de carnaval, que têm batucada mas não têm enredo. Nós precisamos de escolas de samba, com batucada e com enredo.
A crise no governo Dilma é reversível? Eu acho que o PT vai terminar se esvaziando como detentor do poder. É bem provável que, se os empresários que estão fazendo delação premiada disserem tudo, oimpeachment se torne uma realidade. Mas isso não vai mudar as coisas da noite para o dia. Seria necessária a uma proposta governamental diferente.
A saída, então, é pela via cultural? Não tenha dúvida. Toda mudança profunda num país tem como, dizia Benjamnin Constant de Rebecque, de levar em conta as três variáveis clássicas: econômica, política e cultural. Econômica abrindo espaço para a livre inciativa, a produtividade que no Brasil há muitas amarras que atrapalham. Política mediante uma melhora da representação. Acho que adoção do voto distrital seria um caminho. E, na parte cultural, acabar com esse endeusamento do pensamento de esquerda que conduz ao nada. Arejar nossas ideias e possibilitar que as novas gerações conheçam as ideias liberais e conservadoras, que têm muito a dizer no mundo contemporâneo.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

UM VELHO MODO DE DOMINAÇÃO POLÍTICA: O PATRIMONIALISMO OU O DESPOTISMO HIDRÁULICO

Pirâmide de Quéfren - Egito Antigo (Foto: Wikipédia).


Joseph Stalin, modelo de déspota oriental, "Pai do Povo"

O Século XXI está se revelando muito fecundo, no que tange à revivescência de antigos modelos políticos. Quando todo mundo achava que o velho "despotismo oriental" estava morto com a queda da União Soviética, eis que o "patrimonialismo bolivariano" expande o seu modelito até na Europa. Parece que o movimento "podemos", na Espanha, foi financiado pelos bolivarianos. E ressurge a modalidade mais brutal de despotismo hidráulico, com o Estado Islâmico, que gerou uma nova onda de terror e desestabilização política no Oriente Médio e na África. Em virtude disso, vale a pena lembrar o conjunto de conceitos que foram desenvolvidos pela sociologia weberiana a respeito do Patrimonialismo e do Despotismo Hidráulico.

Os conceitos sociológicos fundamentais para entender o Estado Patrimonial foram desenvolvidos basicamente por dois grandes pensadores alemães do século XX: Max Weber (1846-1920) e Karl Wittfogel (1896-1988). Para entendermos o que se passa na América Latina no plano político, com a presença diuturna de Estados autoritários que tentam aberturas democráticas, mas que, volta e meia derrapam novamente no autoritarismo, torna-se necessário lembrarmos alguns conceitos básicos desses autores. É o que tentarei fazer nas próximas páginas, tendo como ponto referencial a exposição sumária do pensamento de ambos os sociólogos.

O Patrimonialismo contraposto ao Feudalismo, segundo Max Weber.

Max Weber entende o Estado como “uma comunidade humana que pretende, com êxito, o monopólio do uso legítimo da força dentro de um determinado território”.[1]

Portanto, a noção básica de Estado, para ele, é a de violência legalizada. A política, nesse contexto, pode ser definida como o conjunto de esforços feitos com vistas a participar do poder ou a influenciar na divisão do mesmo, seja entre Estados, seja no interior de um único Estado. O poder, para Weber, pode ser valorizado em si mesmo, sem que necessariamente tenha que estar referido a outros fatores, por exemplo, os econômicos. O Estado, suposta essa concepção da política e do poder, só pode existir sob a condição de que os homens dominados se submetam à autoridade continuamente reivindicada pelos que exercem a dominação. Surgem, aí, estas questões: em que condições se submetem aqueles e por que? Em que justificativas internas e em que meios externos se apóia essa dominação?

Weber distingue três tipos puros de dominação legítima, que não se materializam, enquanto tais, mas que podem caracterizar, em maior ou em menor grau, misturando-se, as concreções históricas do Estado. Esses três tipos de dominação são: a racional, a tradicional e a carismática. Na primeira, a autoridade de quem exerce a dominação alicerça-se na crença da comunidade respectiva na legitimidade da ordem estabelecida. Na dominação tradicional, a autoridade alicerça-se na crença da comunidade em certas tradições que a consagram. Na dominação carismática, a autoridade alicerça-se na crença da comunidade no valor excepcional que para ela encarna uma determinada personalidade.

No seio da dominação tradicional, Weber distinguiu dois tipos básicos: o Patrimonialismo e o Feudalismo. No contexto deste último, prevalece o “feudalismo de vassalagem ocidental”, cujo caráter fundamental reside no fato de que o poder do nobre proprietário da terra (ou barão) não procede diretamente do soberano, ensejando, assim, relações não de subordinação pura e simples, mas de caráter contratual, que implicavam, evidentemente, numa limitação do poder deste último. O exemplo mais puro deste tipo de feudalismo é encontrado por Weber na Inglaterra, onde vários fenômenos concomitantes contribuíram para a limitação do poder do monarca, entre os quais cabe mencionar: a - a conservação da grande propriedade fundiária em mãos dos barões; b - o papel desempenhado pela gentry (classe média rural), que não se deixou burocratizar pelo príncipe; c - o poder desenvolvido pelos juízes de paz; d - a participação dos notáveis no governo, graças à instituição parlamentar; e - a redução, ao mínimo, da administração burocrática, etc.

O Patrimonialismo é caracterizado por Weber como aquela forma de dominação tradicional em que o soberano organiza o poder político de forma análoga ao seu poder doméstico. Ao lado da organização do poder político segundo o modelo doméstico, é igualmente essencial ao Patrimonialismo a estruturação do quadro administrativo, através do qual se exerce a dominação. Quando esse quadro recebe do soberano, ou conserva, com o consentimento dele, determinados poderes de mando e as suas correspondentes vantagens econômicas, temos o que Weber chama de dominação estamental.

A expressão mais extremada da dominação patrimonial é, para Weber, a patriarcal, que é caracterizada como pré-burocrática.  Nela, a autoridade não se baseia no dever de servir a uma “finalidade impessoal e objetiva” (como acontece na dominação racional), obedecendo a normas abstratas, mas justamente no contrário: na submissão ao pater-famílias, em virtude de uma devoção rigorosamente pessoal. A expressão original do patriarcalismo é a autoridade paterna no seio da comunidade doméstica. O Patrimonialismo é uma extensão dessa autoridade tradicional para além das fronteiras do lar, conservando o aspecto doméstico de uma administração não racional e os traços privatizantes da autoridade unipessoal e do direito costumeiro, sendo que no âmbito patrimonial, como frisa Weber, a submissão pessoal ao senhor “garante como legítimas as normas procedentes do mesmo”.[2]

Weber encontra no Antigo Egito, no Império Chinês e na Rússia Czarista três casos típicos de dominação patrimonial. O Antigo Egito foi o primeiro regime burocrático-patrimonial. Desenvolveu-se originariamente a base da clientela real. A necessidade de uma política unitária, em decorrência das condições físicas, levou a um aprimoramento burocrático mediante a ascensão da casta dos escribas e a institucionalização do trabalho compulsório da população livre nas obras públicas. O resultado desse modelo de dominação patrimonial é assim caracterizado por Weber:

Todo o território pareceu ser um só e único oikos (domicílio) real, junto ao qual, como entidades aproximadamente equivalentes, existiam unicamente os oikos (domicílios) dos sacerdotes do templo. E assim foi tratado, do ponto de vista jurídico, pelos romanos. [3]

Além dos trabalhos hidráulicos, feitos na China mediante um sistema de serviço compulsório dos habitantes livres, Weber salienta a presença de um fator que reforçou o Estado Patrimonial: a religião oficial. Esse papel foi desempenhado pelo confucionismo, que dava base à virtude cardeal da piedade filial, não só no meio doméstico, mas também no âmbito das relações de subordinação dos funcionários em relação ao soberano, dos funcionários inferiores em relação aos superiores e, principalmente, dos súditos perante o estamento burocrático e o monarca. Em relação ao outro caso-tipo de dominação patrimonial, o Estado russo, Weber salienta a supremacia do Czar, mediante a atomização da nobreza, graças ao sistema de sinecuras criadas pelo soberano ao redor dos cargos tschin, que estavam à testa do estamento burocrático e do exército.

Weber enfatiza o caráter centrípeto do Patrimonialismo, que conduz a pôr em prática medidas tendentes à concentração e à perpetuação do poder unipessoal do monarca. Isso leva à valorização, no contexto patrimonialista, das funções administrativas apropriadas ou controladas pelo soberano, como instrumentos que garantem o seu poder. Por isso, sob esse ângulo, o Patrimonialismo colide frontalmente com o Feudalismo, que promove a redução das funções burocráticas. A fim de controlar qualquer surto de dignidade (de autoridade baseada nos sentimentos de independência e honra das camadas nobres), a dominação patrimonial manipula as massas desprotegidas mediante o paternalismo de Estado, ensejando assim o ideal do “pai do povo”, tão comum em contextos patrimoniais, como o russo. Essa idéia associou-se à permanência do Patrimonialismo na época moderna, pelo menos no Ocidente.

Outras práticas patrimonialistas dirigidas ao fortalecimento do poder central do monarca são as cargas tributárias, a concessão de sinecuras aos servidores fiéis, o desmembramento da propriedade fundiária a fim de impedir o fortalecimento da nobreza, a divisão de competências entre os funcionários locais para que não acumulem poder excessivo, o emprego de funcionários totalmente dependentes, a organização de exércitos armados e mantidos pelo soberano (exércitos patrimoniais), a utilização, por parte do senhor patrimonial, dos serviços de intermediação por delegação aos senhores territoriais locais (no caso em que tivesse sido impossível a eliminação total da autoridade deles), etc.

O caráter de intermediação por delegação conferida pelo soberano patrimonial aos senhores territoriais locais, bem como a feição dinâmica do seu relacionamento com eles, são explicados por Weber nestes termos:

A camada dos senhores territoriais locais exige, sempre (...), que o príncipe patrimonial não atente contra o seu próprio poder patrimonial sobre os súditos, ou o garanta diretamente. Por conseguinte, exige, sobretudo, a supressão de qualquer intervenção dos funcionários administrativos do príncipe na esfera de seu domínio, quer dizer, exige imunidade. Pela sua natureza, o senhor territorial pretende ser a autoridade por meio da qual o soberano deva entrar em relação com os súditos. À sua autoridade deve subordinar-se a responsabilidade criminal e tributária dos mesmos. A ela deve ser confiado o recrutamento militar, a arrecadação e a aplicação dos impostos. E como o senhor territorial deseja aproveitar para si mesmo a capacidade de prestação (de serviços) dos súditos (...), reduz, no possível, ou determina a parte que deve corresponder ao soberano patrimonial.[4]

Exemplo desse relacionamento – magnificamente ilustrado, aliás, por Oliveira Vianna[5] em Populações meridionais do Brasil e em Instituições políticas brasileiras – foi a administração colonial do Brasil.

A utilização da força armada por parte do soberano patrimonial, é colocada por Weber em estreita relação com os serviços extraordinários que podem ser exigidos aos súditos, sendo, de outro lado, como já frisamos, um meio eficaz para garantir a dominação. O “exército patrimonial” pode ser de muito diversa procedência; essa tropa poderá compor-se de escravos dominados patrimonialmente, arrendatários, colonos, jovens recrutados dos povos submetidos, súditos recrutados por conscrição entre as massas camponesas, etc.  Oliveira Vianna faz uma detalhada análise da forma em que o patronato rural brasileiro organizou verdadeiros exércitos patrimoniais de mulatos, índios e mamelucos, para proteger o latifúndio e ampliar os seus domínios.

Frisávamos que a dominação tradicional, para Weber, abrange dois tipos fundamentais: o Patrimonialismo e o Feudalismo. A distinção entre ambos, no entanto, não é estática, mas dinâmica. Quer dizer: o trânsito das formas patrimoniais de dominação às feudais realiza-se, através da presença de elementos que se contrapõem ao poder unipessoal do príncipe, de forma que, historicamente, organizações sociais como a inglesa que, em determinados períodos, estiveram submetidas a uma dominação com fortes tendências patrimoniais podem, graças ao desenvolvimento de forças sociais novas, evoluir até formas de caráter feudal. É de capital importância salientar a importância da descoberta ensejada pelos estudos de Weber: o moderno constitucionalismo europeu veio do Feudalismo que, em alguns casos, conseguiu superar o Patrimonialismo. Assim explicaríamos as democracias sociais do continente europeu e, logicamente, a primeira materialização da democracia representativa na Inglaterra, após a Revolução Gloriosa de 1688 e o advento da Monarquia Constitucional.  Em outros países, no entanto, como na Península Ibérica e no leste europeu, a história do Patrimonialismo seria mais longa, projetando-se até os nossos dias.
Segundo o próprio Weber[6] salientou, a adoção do sistema representativo deve ser valorizada, como modalidade de fixação dos limites em que se pode exercer a violência. Em outros termos, o sociólogo alemão remete ao conceito de legitimação-dominação no contexto do governo representativo, o único que permite passar de um Obrigkeitsstaat (Estado das autoridades) de inspiração patrimonial, a um Volksstaat (Estado do povo), que revive a tradição feudal de controle moral ao poder. Mas, para isso, reconhece a necessidade de ser fortalecido o Parlamento, incumbindo-o de funções de governo e de controle sobre o aparelho burocrático do Estado, e colocando-o a salvo de vícios que poderiam esvazia-lo como, por exemplo, a adoção de uma modalidade exclusivamente corporativa de representação.

O Patrimonialismo é, portanto, passível de superação, se chegando até formas de governo que adotem a democracia representativa. Podem surgir, no entanto, elementos modernizadores que visem, apenas, aprimorar “de forma planejada a capacidade tributária” do Estado, bem como criar monopólios que funcionem racionalmente. Nesses casos, a atuação racionalizadora do Estado Patrimonial torna-se semelhante à administração burocrática, sem chegar, contudo, à superação do Patrimonialismo. O único motivo (que leva o soberano patrimonial a aceitar esse tipo de atuação racional) é o perigo representado pela concorrência de vários poderes patrimoniais inferiores. Nesse contexto, o poder patrimonial busca se apoiar nos estamentos profissionais, a fim de conjurar o risco de desestabilização do seu poder unipessoal.[7] Essa parte da doutrina weberiana ensejou, no seio da sociologia brasileira, a significativa contribuição representada pelo conceito de patrimonialismo modernizador.

Patrimonialismo e Despotismo Oriental, segundo Karl Wittfogel.

Este autor ensejou, no seio do marxismo, uma ampla discussão ao redor do conceito de despotismo oriental com a publicação, em 1957, de sua obra que leva o mesmo título[8] e que foi considerada, no mundo comunista, como assaz provocadora.[9] Marxista alemão, no primeiro pós-guerra escreveu obras teatrais, bem como estudos de sociologia geral e realizou pesquisas de história econômica e social da China (campo no qual é considerado um dos pioneiros). Durante vários anos Wittfogel foi disciplinado membro do Partido Comunista, tendo recebido de Trotsky, em 1923, a incumbência de estudar as características despóticas da Rússia czarista. No entanto, Wittfogel preferiu pesquisar, diretamente na China, o modelo asiático assinalado por Karl Marx e que foi denominado, posteriormente, de “despotismo oriental”.

Durante alguns anos, Wittfogel foi um dos especialistas do Komintern para assuntos do Extremo-Oriente, tendo colaborado em importantes revistas. Como o próprio autor confessa, desde 1920 as suas pesquisas sobre o despotismo oriental eram mal vistas por Josef Stalin, que temia ver desmascarada, pelos próprios intelectuais do Partido Comunista, a feição despótico-oriental que empolgara a Revolução Bolchevique e o regime instaurado em 1917. Em 1931, após a publicação da obra intitulada Economia e sociedade na China, Wittfogel foi censurado pelo PC, no debate realizado em Leningrado sobre o modo de produção asiático. Em 1933, o sociólogo alemão foi internado pelos nazistas num campo de concentração. Libertado, empreendeu nova viagem de estudos na China (1935-1937). Em 1938, quando Stalin condenou oficialmente a chamada “tese geográfica”, que visava censurar a teoria asiática de Marx, Wittfogel teve de se refugiar nos Estados Unidos, onde ensinou história chinesa na Universidade de Washington (em Seattle), a partir de 1945 até sua morte, ocorrida em 1988.

Wittfogel, como marxista, interessou-se pela análise acerca do modelo de produção asiática, que sempre constituiu motivo de grande perplexidade para os partidários daquela doutrina, porquanto sugere que o modelo desses modos de produção (em que se baseavam para afirmar a substituição do capitalismo pelo socialismo), somente poderia ser aplicado à Europa. Se a doutrina da seqüência histórica dos modos de produção (escravagismo, feudalismo, capitalismo, socialismo) não se revestisse de universalidade, então as famosas previsões marxistas quanto à marcha inexorável da humanidade para o socialismo ver-se-iam minadas pela base. Além disto, sendo o Estado uma criação da sociedade, como poderia dar-se o fato – expresso precisamente no modelo asiático – de que se tenha criado um Estado mais forte do que a sociedade? Radicalizando dessa forma a questão, Wittfogel iria identificar a origem do Estado mais forte do que a sociedade, nos grupos sociais que se formaram em torno das áreas irrigadas.

No detalhado estudo que o sociólogo alemão dedicou à questão, o essencial consiste no fato de que a agricultura irrigada estabelece um tipo de propriedade que não se pode transmitir por herança ou, em outros termos, que não se pode fracionar. Esse tipo de propriedade exigiu um sistema defensivo contra as populações circunvizinhas sujeitas às intempéries naturais, bem como trabalhos regulares de conservação e toda uma administração centralizada. Esses fatores ensejaram instituições políticas extremamente estatizadas e submetidas a um poder central de tipo patrimonial e absolutista. Ao fazer essa identificação, Wittfogel automaticamente ultrapassava a camisa de força em que o marxismo pretendera enquadrar a realidade, retomando a melhor tradição da sociologia alemã, iniciada por Weber.

As mais representativas manifestações das sociedades hidráulicas apareceram, segundo Wittfogel, na Índia, na China, no Meio Oriente e, no continente americano pré-colombiano, na América Central, no México e no Peru. Além disto, tais formas de organização social foram transplantadas a outras civilizações. Exemplo ilustrativo dessa incorporação de estilos governamentais despóticos (áreas geográficas que Wittfogel denomina de zonas marginais ou submarginais, em relação aos centros de economia hidráulica) são os traços encontradiços na Rússia pré-mongol e o processo ulterior de introdução do despotismo oriental naquela região do mundo, independentemente do desenvolvimento da agricultura irrigada. Tal foi o caso, também, de Bizâncio, dos califados árabes (incluída a Península Ibérica durante os oito séculos de dominação muçulmana), da Turquia otomana, etc.

Essas influências, no entanto, bem como a que, no decorrer do século XVI, proveio da Turquia otomana, não foram as responsáveis pela perda de identidade feudal da Rússia de Kiev. A influência decisiva, que destruiu a fidelidade kieviana e deitou os alicerces do Estado despótico de Moscóvia e da Rússia pós-moscovita, foi ensejada pela dominação tártara, no decorrer do século XIII até 1480, quando Ivã III tornou o Principado de Moscou independente da dominação da Horda Dourada. Embora vencidos pelos russos no século XV, os tártaros imprimiram à sociedade da Rússia fortes tendências centralizadoras e estatizantes, num contexto despótico, como os recenseamentos para fins tributários, a tendência a diminuir o poder dos nobres tornando-os funcionários públicos, a diminuição da propriedade fundiária em poder daqueles e o aumento das propriedades territoriais do Estado. Para Wittfogel, é claro que o desenvolvimento cada vez mais estatizante seguido pelo Estado russo ao longo dos séculos XIV, XV e XVI, foi conseqüência da longa dominação oriental que tinha sofrido e que o tornava “pelas suas instituições organizativas e aquisitivas, comprometido com o caminho do estatismo despótico, baseado no serviço ao Estado”.[10] Tudo isso aconteceu na Rússia de uma forma submarginal, sem que fosse necessário o desenvolvimento de uma economia hidráulica e conservando, durante vários séculos, muitas aparências feudais.

No decorrer do século XX, as mais completas materializações do despotismo asiático foram, sem sombra de dúvida, a Rússia e a China, as duas maiores expressões do Estado Patrimonial. A temida “restauração asiática” foi, para Wittfogel, o traço marcante que encarnou o totalitarismo russo, e que esvaziou de qualquer conteúdo democrático o regime instaurado a partir da Revolução de 1917. A respeito, o sociólogo alemão escreve:

Eis o terrível segredo da revolução que Lenine concebeu e realizou. Para inúmeros intelectuais e operários em muitos países, essa revolução era um chamado à pregação do Socialismo na Rússia: um chamado a lutar por esse Socialismo e, se fosse necessário, a morrer por ele. O que acontece quando essa revolução perde a sua bandeira, o seu poder unificador? O que acontece se se comprova, segundo as próprias palavras de Lenine, que essa revolução conduz, não ao Socialismo, mas a uma nova forma de despotismo oriental? Quem, com exceção dos privilegiados, aceitaria morrer pela restauração asiática?[11]

Referindo-se ao quadro natural da sociedade hidráulica, Wittfogel salienta que as relações entre homem e natureza nunca foram estáticas. Muito pelo contrário, o homem sempre transformou a natureza que o rodeava. Ele, frisa Wittfogel,
Não deixa jamais de agir sobre o meio natural. Ele o transforma constantemente. E utiliza forças novas todas as vezes que os seus esforços o fazem ter acesso a empresas de nível superior. (...) Em condições institucionais iguais, a diferença do meio sugere e permite – ou exclui – o desenvolvimento de formas novas de tecnologia, de subsistência, de poder social.[12]

O potencial hidráulico das regiões da terra pobres ou carentes de água atualiza-se em condições históricas bem específicas. Tais condições dão-se no momento em que o homem aprende a utilizar os processos de reprodução do mundo vegetal, materializando a possibilidade da agricultura, em regiões dotadas de recursos hídricos independentes das chuvas. É assim como surge a hidro-agricultura, ou uma agricultura de irrigação de grande escala. Semelhante atividade iria exigir administração centralizada, mais precisamente, a direção estatal. É então quando aparecem, no sentir de Wittfogel, “reunidas as condições favoráveis a formas despóticas de governo e sociedade”. Os registros históricos, por ele compulsados, evidenciam que o homem tende a um modo de vida especificamente hidráulico como reação a um meio pobre em água, num contexto em que se ache suficientemente desenvolvida a propriedade privada, longe da influência dos centros poderosos de agricultura pluvial.

Para Wittfogel é claro o seguinte princípio: em condições históricas iguais, diferenças naturais fundamentais causam, eventualmente, fortes diferenças institucionais. Esse princípio aplica-se aos casos em que o trabalho humano se desenvolve num meio de agricultura pré-industrial, com recursos hídricos diferentes das chuvas. Levando em consideração que, para a produção agrícola, são necessários elementos como plantas úteis, terra arável, umidade conveniente, temperatura apropriada e uma configuração adequada do terreno, a ação humana deve remediar a ausência de um desses fatores essenciais. Quando falta o fator umidade, a única solução é o trabalho coletivo, a fim de fazer frente à falta de água.
Apesar da importância atribuída aos fatores naturais, a aparição da economia hidráulica não é algo que acontece de maneira determinística. Pois a história, frisa Wittfogel, ofereceu sempre “uma escolha autêntica e o homem nunca foi o instrumento passivo de uma forma irresistível e unilinear, mas um ser que pensa, que participa ativamente da criação do seu futuro”.[13] Pressuposta essa liberdade humana fundamental, o autor salienta que os modelos de agricultura hidráulica consolidam-se quando uma comunidade de pioneiros descobre importantes reservas de água numa região fértil, mas carente de irrigação. Em decorrência das exigências técnicas para o controle da água, esses grupos humanos ensejam um processo institucional que conduz muito além do ponto de partida. Os seus sucessores organizam colossais estruturas políticas e sociais. E fazem isso com o sacrifício de inúmeras liberdades. Essa é a remota origem do Estado hidráulico.

Wittfogel considera que, nas sociedades regidas por um Estado hidráulico, encontram-se estas características: uma divisão específica do trabalho, intensificação da agricultura e desenvolvimento da cooperação em larga escala. A divisão do trabalho abrange vários tipos de atividade, como trabalhos preparatórios e de proteção para garantir a irrigação, bem como trabalhos pesados e indústria pesada que visam garantir a distribuição de água, mediante a construção de reservatórios e canais em grande escala. A divisão do trabalho, nas sociedades hidráulicas, abarca também outras atividades como o estabelecimento do calendário e o desenvolvimento da astronomia, ligada ao controle das águas. Encontra-se, também, uma série de trabalhos não hidráulicos (enormes estruturas defensivas, caminhos, palácios, capitais, túmulos e templos), cujas características essenciais são o estilo monumental (Grande Muralha chinesa, Pirâmides Astecas ou do Antigo Egito, etc.) e a significação estratégica para a defesa do Estado.

Referindo-se ao caráter estatal da economia hidráulica, frisa Wittfogel: “O poder do Estado hidráulico sobre os trabalhadores é maior do que o poder das empresas capitalistas”.[14] Isso porque o funcionamento das obras exigidas pela economia hidráulica necessitava de um fundo de organização que (abarcasse) o conjunto, ou, pelo menos, os nódulos dinâmicos da população do país. Em conseqüência, os administradores desse modo de organização preparam-se de uma forma excepcional para a administração do poder supremo.[15]

Assim, o Estado hidráulico desempenha numerosas funções organizativas e produtivas, sendo o único motor dos grandes empreendimentos de preparação e de proteção e dirigindo grandes empresas industriais não hidráulicas. No entanto, Wittfogel salienta que o Estado hidráulico difere dos Estados totalitários modernos, pelo fato de que ele se baseia na agricultura e só dirige uma parte da economia do país. Difere, outrossim, dos Estados liberais baseados na propriedade privada industrial pelo fato de que, sob a forma original, cumpre funções econômicas no contexto do trabalho servil. Trata-se de um Estado mais forte do que a sociedade. Tal fato afeta a esta de forma profunda, pois ao controlar não só as construções hidráulicas, mas também as relações de trabalho, esse Estado desenvolve um controle social que termina por impedir a iniciativa e o poder da sociedade, impedindo às forças não governamentais de contrabalançarem o poder hidráulico centralizado. A respeito, o sociólogo alemão frisa:

A essas forças rivais faltam os direitos à propriedade e a força organizacional que, na Antiguidade grega e romana, bem como na Europa medieval, estiveram na base do poder das forças não governamentais. Nas civilizações hidráulicas, os detentores do poder impediram o fortalecimento organizacional de todos os grupos não governamentais. O Estado chegou a ser mais forte do que a sociedade.[16]

Bibliografia

PAIM, Antônio. A querela do estatismo. 1ª edição. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.

SOFRI, Gianni.O modo de produção asiático. História de uma controvérsia marxista. (Tradução de Nice Rissone). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 109.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. Patrimonialismo e a realidade latino-americana. Rio de Janeiro: Documenta História, 2006.

VIANNA, Francisco José de Oliveira. Populações meridionais do Brasil e Instituições políticas brasileiras. 1a. Edição num único volume. (Antônio Paim, organizador). Brasília: Câmara dos Deputados, 1982.

WEBER, Max. “A política como vocação”. In: Ensaios de Sociologia. (Tradução de Waltensir Dutra).  4a. Edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 98 e seguintes.

WEBER, Max. Economía y sociedad. (Tradução ao espanhol a cargo de José Medina Echavarría, et alii). 1a. Edição em espanhol. México: Fondo de Cultura Económica, 1944,  4 volumes.

WEBER, Max. “Parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída. Uma contribuição à crítica política do funcionalismo e da política partidária”. In: Weber, Max, Textos selecionados. (Tradução de Maurício Tragtenberg).  2a. Edição. São Paulo: Abril Cultural, 1980, pg. 1-85. Coleção Os Pensadores.

WITTFOGEL, Karl. Oriental despotism. A comparative study of total power. Chicago University Press, 1957, 2a. Edição, 1959. Foi consultada a edição francesa intitulada: Le despotisme oriental. Étude comparative du pouvoir total.  (Versão de Micheline Pouteau). Paris: Minuit, 1977.





[1] Weber, Max. “A política como vocação”. In: Ensaios de Sociologia. (Tradução de Waltensir Dutra).  4a. Edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 98.
[2] Weber, Max. Economía y sociedad. (Tradução ao espanhol a cargo de José Medina Echavarría, et alii). 1a. Edição em espanhol. México: Fondo de Cultura Económica, 1944,  vol. IV, p. 131.
[3] Weber, Max. Economía y sociedad. Ob. cit., vol. IV, p. 175-178. É interessante observar como Weber já assinalava um aspecto que posteriormente foi desenvolvido por Karl Wittfogel: o dos condicionamentos geográfico-hidráulicos da dominação patrimonial. Contudo, Weber não chegou a analisar em profundidade essas variáveis, salientando, unicamente, a sua concorrência junto aos outros elementos que integram a tipologia ideal da dominação estatal-patrimonial.
[4] Weber, Max. Economía y sociedad. Ob. cit., vol. IV,  p. 188-189.
[5] Cf. Vianna, Francisco José de Oliveira. Populações meridionais do Brasil e Instituições políticas brasileiras. 1a. Edição num único volume. (Antônio Paim, organizador). Brasília: Câmara dos Deputados, 1982.
[6] Weber, Max. “Parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída. Uma contribuição à crítica política do funcionalismo e da política partidária”. In: Weber, Max, Textos selecionados. (Tradução de Maurício Tragtenberg).  2a. Edição. São Paulo: Abril Cultural, 1980, pg. 1-85. Coleção Os Pensadores.
[7] Cf. Weber, Max. Economía y sociedad, ob. cit., vol. I, p. 249-252.
[8] Wittfogel, Karl. Oriental despotism. A comparative study of total power. Chicago University Press, 1957, 2a. Edição, 1959. Foi consultada a edição francesa intitulada: Le despotisme oriental. Étude comparative du pouvoir total.  (Versão de Micheline Pouteau). Paris: Minuit, 1977.
[9] Cf. Sofri, Gianni.O modo de produção asiático. História de uma controvérsia marxista. (Tradução de Nice Rissone). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 109.
[10] Wittfogel, ob. cit., p. 269.
[11] Wittfogel, ob. cit., Introdução. P. IV.
[12] Wittfogel, ob. cit., p. 24.
[13] Wittfogel, ob. cit., p. 31.
[14] Wittfogel, ob. cit., p. 66.
[15] Wittfogel, ob. cit., p. 42.
[16] Wittfogel, ob. cit., p. 69.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A OPOSIÇÃO QUE NÃO SE OPÕE



Na terça-feira 12 de Maio de 2015, a Comissão do Senado que trata das relações com o Judiciário fará a sabatina do magistrado Luiz Fachin, indicado pela presidente Dilma como substituto de Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal. É apenas óbvio que uma militante petista como a presidente Dilma indique alguém polarizado pelos interesses do PT e dos ditos “Movimentos Sociais”, notadamente o MST. O que não era de se esperar é que o principal partido da oposição, o PSDB, não desse nenhuma importância a esse fato. Fachin, seguidor dos ensinamentos do constitucionalista português José Gomes Canotilho, se empossado na vaga no STF, fará, com certeza, o “dever de casa”. Como pregava Canotilho, a revolução socialista pode dar uma acelerada mediante a judiciarização da política, proclamando o “socialismo por decreto”. É só dar uma chance a advogados como Fachin.

Na data marcada para o debate, senadores importantes do PSDB não estarão presentes na Comissão que sabatinará o candidato. Estarão em Nova Iorque, participando de uma comemoração internacional que exalta o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Isso é dar muito mole para a petralhada. O PSDB, aliás, já deu mole quando Fernando Henrique, na época do Mensalão, desistiu de incentivar o processo de impeachment contra Lula, preferindo “deixa-lo sangrar”. Aconteceu o que era de se esperar. O sapo barbudo deu a volta por cima, se reelegeu e elegeu (e reelegeu) o seu poste, com toda a série de desgraças que se abateram sobre o Brasil, deixando-nos prostrados do jeito que todo mundo conhece.

Acho que o artigo que ora divulgo sobre a oposição que não se opõe, publicado no primeiro número da Revista Nabuco (Agosto-Outubro de 2014), pode contribuir ao debate que deve se abrir em torno à fraqueza da atitude dos senadores tucanos.

A oposição brasileira não propõe porque não se opõe. E não se opõe porque foi cooptada pelo Estado Patrimonial. Essa é a triste realidade que pretendo ilustrar nas seguintes páginas.

Dividirei a minha exposição em três partes: 1 – A tradição patrimonialista. 2 – Doze anos de lulopetismo: a oposição cooptada pelo Executivo. 3 – Condições necessárias para o funcionamento de uma verdadeira oposição.

1 – A tradição patrimonialista.

O Brasil herdou de Portugal a estrutura patrimonial do Estado. Isso aconteceu mediante a junção, em original simbiose, da tradição cartorial com a inédita realidade das novas terras apropriadas pelos Capitães Mores e os Sesmeiros e, depois, pelos Senhores de Engenho.

A primeira experiência brasileira no mundo da política, nos períodos que correspondem às Capitanias Hereditárias e às Sesmarias, que ensejaram o latifúndio, não foi a luta de classes, nem a organização do Estado contratualista. A primeira vivência tipicamente brasileira do exercício do poder consolidou-se ao redor da Casa Grande [1]. Tratou-se, portanto, de uma experiência de privatização do poder, em que se confundia público com privado, na liturgia dos Senhores de Engenho.  Eis a questão fundamental: a defesa dos interesses do clã patriarcal.

Quem não se acolhesse a essa premissa, não sobreviveria. Por isso, a arraia miúda do povo precisava se arregimentar, sem discussão, na serventia de um Senhor de Engenho, para ver respeitados os seus direitos à vida, às escassas posses e à precária liberdade do latifúndio. Consolidou-se, na história do nosso Patrimonialismo, a crença de que quem manda não pode ter oposição. Esta era considerada, desde o início, como atentado contra a autoridade. Somente era concebível uma atitude de total submissão do povo em face dos donos do poder. [2]

Quando, no século XVIII, foram descobertas, nas Minas Gerais, as jazidas de ouro e diamantes, a Coroa portuguesa passou a exercer forte ação centralizadora. A partir da criação do “Distrito Diamantino”, a Metrópole tentou organizar a dispersão dos senhores patrimoniais locais, colocando sobre eles a autoridade dos Governadores Gerais das antigas Províncias. Esse processo foi, aos poucos, aglutinando os poderes familísticos dispersos na imensidão territorial do Vice Reinado.

De outro lado, graças às bandeiras iniciadas pelos senhores patrimoniais vicentistas, a Coroa portuguesa abocanhou generosas extensões territoriais, ao oeste e ao sul, para lá do Tratado de Tordesilhas, fazendo encolher, astutamente, os restos do Império Espanhol nos limites da bacia do Rio da Prata e dos contrafortes dos Andes. Os novos territórios ocupados foram dotados pela administração pombalina de uma rede de fortes. Paralelamente, o primeiro ministro de Dom José desenvolveu uma ousada estratégia de ocupação do centro do vasto território, consistente no projeto de construção de uma capital no Planalto Central que se comunicasse, mediante vias radiais, com as várias Províncias. Esta proposta, como se sabe, foi posta em execução, primeiro na construção da cidade de Goiás Velha, ainda no ciclo colonial, e depois, em meados do século XX, na construção de Brasília por Juscelino Kubitschek.

O efeito central da luta da Monarquia com os poderes locais seria este: consolidou-se, entre nós, um Estado mais forte do que a sociedade.  O poder centrípeto do Rei, no período colonial, bem como o do Imperador, ao longo do século XIX, e o do Executivo, no período republicano, criaram forte aparelho burocrático alicerçado no sentimento de fidelidade pessoal.

No entanto, continuaram vivos, no seio da sociedade, os antigos hábitos de privatização do poder pelos clãs, à maneira do ocorrido nos Engenhos. A res publica foi vivenciada, pelos cidadãos da jovem República que emergia da retórica positivista no final do século XIX, como res privata ou coisa nossa, a ser administrada domesticamente, ensejando, assim, as conhecidas práticas do empreguismo e da corrupção, sob as suas várias manifestações.

Em que pese o fato do caráter tradicional assinalado por Raimundo Faoro para o Patrimonialismo no Brasil, Simon Schwartzman e Antônio Paim destacaram um componente modernizador, que deu lugar a nova tradição, identificada por eles como patrimonialismo modernizador ou neopatrimonialismo. Consiste este, segundo Paim, na incorporação da ciência moderna pelo Estado centralizador, fato que se realizou em Portugal a partir das reformas pombalinas, e que se projetou no Brasil na geração de homens públicos que fizeram a Independência (formados na nova Universidade aberta às ciências e às técnicas). Essa elite organizou os primeiros institutos superiores, entre os quais cabe destacar a Real Academia Militar criada, em 1810, pelo Conde de Linhares, dom Rodrigo de Souza Coutinho.

A tendência modernizadora, vinculada ao cientificismo a serviço do Estado, ensejou ampla prática centralizadora, já a partir do período pombalino. O ministro de Dom José I pôs em execução o modelo de Estado empresário, produtor da riqueza da Nação e equacionador da ordem política e moral, mediante a incorporação da ciência moderna e da técnica. [3]

Longe de ensejar a participação da sociedade, o modelo pombalino submetia os cidadãos à tutoria do soberano. Inseriram-se no contexto do Estado tutelar e modernizador as reformas empreendidas por Getúlio Vargas, ao longo das décadas de 30 e de 40 do século passado, inspiradas diretamente na filosofia política castilhista. Partindo do princípio de que o regime parlamentar é um regime para lamentar, foram banidos o debate político e a representação, sendo substituídas essas práticas pelo “equacionamento técnico dos problemas”. [4]

Segundo Oliveira Vianna, não se desenvolveu, no Brasil, a consciência do bem público, pelo fato de estarmos, sempre, sob o império do interesse particular ou familiar. Esse individualismo, que impede entender o que é a solidariedade social ou o interesse público, passou das elites para o povo. A escola prática da vida política, que foi a fazenda ou o engenho, formou o brasileiro na submissão incondicional ao senhor, na defesa exclusiva dos interesses familiares dos clãs. [5]

De acordo com o sociólogo fluminense, a construção do Estado Nacional, no Brasil, foi obra da geração de estadistas do Segundo Reinado que, reunidos ao redor de Dom Pedro II, conseguiram cooptar, mediante a Guarda Nacional, os senhores patrimoniais locais (os senhores de engenho), ao redor de uma proposta de unificação do país. Dom Pedro II situou-se na cúpula do poder, distribuindo benesses entre aqueles que o reconhecessem como soberano de todos. Uma vez consolidada a autoridade do soberano, ele disciplinou a autoridade dos senhores de engenho para fazer emergir os Partidos Liberal e Conservador, ao redor dos quais se concretizou a representação dos interesses mudáveis da sociedade.

A representação dos interesses permanentes da Nação ficaria centralizada no Poder Moderador, exercido pelo Soberano e pelo seu Conselho de Estado. Dessa forma, foi possível unificar o país ao redor de um centro de poder, ao passo que se consolidava a possibilidade da representação. Essa complexa obra de engenharia política foi obra de grandes estadistas da talha de Silvestre Pinheiro Ferreira (o precursor das instituições imperiais, no início da nossa vida independente) e da denominada por Oliveira Vianna de “elite de homens de mil”, integrada por incondicionais colaboradores do Imperador como o visconde de Araguaia, Domingos Gonçalves de Magalhães, o duque de Caxias, ou o visconde de Uruguai, Paulino Soares de Sousa, cujo Ensaio de Direito Administrativo [6] testemunha a clarividência dessa geração.

A República Velha constituiu, no Brasil, uma privatização do poder pelos clãs políticos, identificados com as oligarquias estaduais. A essas oligarquias reagiu fortemente o estamento militar, nos movimentos insurrecionais protagonizados pelo Tenentismo, ao longo da década de 20. Getúlio Vargas e as elites mineira e paraibana reagiram contra a hegemonia das oligarquias, na denominada campanha da Aliança Liberal que depôs Washington Luiz em 1930. Getúlio, rodeado pelos tenentes e pela Segunda Geração Castilhista, deu ensejo a uma completa reforma do Estado. O getulismo correspondeu à aplicação, no plano nacional, do modelo castilhista de “equacionamento técnico dos problemas”.

O Estado presidido por Vargas submeteu as oligarquias estaduais e consolidou amplo processo centralizador e autoritário ao redor do Executivo hipertrofiado, auxiliado pelos Conselhos Técnicos Integrados à Administração. O Estado já não seria mais o mesmo após o longo ciclo getuliano, que se estendeu de 1930 até 1945 e de 1951 até 1954. Getúlio, como lembra Oliveira Vianna, acumulou em suas mãos tal grau de poder como nunca se tinha observado na história brasileira, desde Dom Pedro II. O Estado getuliano e as reformas ensejadas correspondem, portanto, a novo ciclo da política brasileira, identificado com um modelo de Patrimonialismo Estamental. Tudo passou a girar ao redor do Executivo e do seu Estamento burocrático presidido pelos Conselhos Técnicos. Trata-se, sem dúvida, de uma tardia manifestação da “ditadura científica”, inaugurada na França, no início do século XIX, por Napoleão Bonaparte.

Três princípios autoritários inspiraram Vargas no tratamento da oposição: o primeiro, de origem castilhista, rezava assim: “O regime parlamentar é um regime para lamentar”, destacando-se, nele, a ideia de que o verdadeiro poder é o Executivo, sendo a representação parlamentar simples expediente oligárquico para garantir privilégios. A representação, na sua origem, era desmoralizada pela retórica oficial.

O segundo princípio, de origem igualmente castilhista, dizia assim: “Aos nossos adversários o único que resta é uma sincera penitência”, destacando a ideia de que qualquer oposição é indesejável, confundido o esforço em prol de organiza-la como atentado contra o poder do Estado.

O terceiro princípio, elaborado por Vargas à luz do saint-simonismo que, paralelamente ao positivismo castilhista o inspirava, rezava assim: “Não fazer inimigos que não se possa transformar em amigos”, explicitando a ideia de que qualquer oposição deve ser diluída na cooptação dos adversários pelo Executivo, mediante o oferecimento de cargos e favores.

Em que pese o fato de a nossa sociedade ter-se transformado radicalmente ao longo do século XX, notadamente a partir do processo de industrialização e de urbanização, fortemente acelerados nos últimos cinquenta anos, não podemos negar que uma das características marcantes da vida social é o insolidarismo. O país cresceu em termos demográficos, econômicos e políticos. As velhas estruturas rurais deram lugar à sociedade industrial e urbana. Mas não foram modificados os valores. O secular espírito de patota e o insolidarismo, que é o seu corolário, estão presentes em todas partes. No Brasil, o patotismo sufocou o patriotismo.

Apesar da adoção do ideal democrático como um dos Objetivos Nacionais Permanentes pela Escola Superior de Guerra, na década de cinquenta do século passado, as reformas modernizadoras deflagradas no ciclo militar, entre 1964 e 1985, retomaram a tendência estatizante do período getuliano. A hipertrofia do Executivo e o crescimento exagerado do setor estatal da economia seriam dois elementos fundamentais desse processo. As empresas estatais passaram de 90, em 1964, para cerca de 490, no fim do ciclo mencionado. Tornou-se necessário, como frisou o general Golbery do Couto e Silva, na sua memorável palestra na ESG, em 1980, [7] um processo de descentralização administrativa e de abertura política, a fim de contornar o excessivo centralismo de inspiração autoritária, que ameaçava a sobrevivência do sistema.

O curioso é que, hoje, após os esforços para retomar a vida democrática, através da valorização da representação política no Congresso e do controle da sociedade sobre o setor estatal, mediante as privatizações e a Lei de Responsabilidade Fiscal, (medidas efetivadas entre 1986 e 2002), com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, foi deflagrado novo ciclo patrimonialista, de forte caráter estatizante e centralizador.

2 – Doze anos de lulopetismo: a oposição cooptada pelo Executivo.

Antônio Paim, na sua obra Para entender o PT, [8] frisou que a característica fundamental do Partido dos Trabalhadores consiste em ser uma agremiação afinada com o Patrimonialismo, sem possuir uma proposta claramente democrática e modernizadora. Nesse contexto, o papel da oposição foi se diluindo paulatinamente, ao longo destes últimos doze anos. Isso aconteceu em decorrência da hipertrofia que sofreu o Executivo, que terminou cooptando o Legislativo e atrapalhando o Judiciário no exercício das suas funções, como se observou no caso do julgamento do Mensalão. O ex-presidente Lula, com a maior cara de pau, sempre falou que “Mensalão nunca existiu”, atribuindo esse fato à imprensa.

Dois fatores, a meu ver, contribuíram para que essa hipertrofia se consolidasse e se tornasse, sob a égide dos governos petistas, um perigo para a normalidade institucional do país: em primeiro lugar, a fraca representatividade dos eleitos para a Câmara e o Senado, em decorrência do viciado sistema proporcional existente; em segundo lugar, a prática das “emendas parlamentares”, que passaram a ser administradas pelo Executivo de forma a tornar os deputados, amigos do rei, beneficiários desses recursos.

Em cinco itens identificarei as principais características que levaram o Partido do Governo a se tornar um empecilho para a independência da oposição no seio do Congresso: A – Consolidação da entropia administrativa. B – Corrupção desenfreada. C – Gasto público incontrolado. D – Supremacia do Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário.  E - Ideologização da política externa.

A – Consolidação da entropia administrativa. Este mal decorre, a meu modo de ver, da esquizofrênica gestão pública implantada pelo Partido dos Trabalhadores, que se pautou por duas cartas de navegação: uma, para “inglês ver” e ganhar as eleições de 2002, identificada com uma plataforma socialdemocrata semelhante à desenvolvida por Fernando Henrique Cardoso nos seus dois governos. Tal plataforma foi adotada pelo candidato Lula na denominada “Carta ao Povo brasileiro”, com a finalidade de desfazer os temores de que, se eleito, implantaria no Brasil um modelo socialista.
A outra carta de navegação identificava-se com as tradicionais propostas socialistas do PT, inspiradas no modelo posto em funcionamento em Cuba pelos irmãos Castro ao longo dos últimos cinquenta anos. Esse modelo, aliás, inspirou a criação, nos anos 90, do Foro de São Paulo, a partir da proposta apresentada por Lula e Fidel Castro, com a finalidade de dar sobrevida ao comunismo na América Latina.

A simultaneidade dessas duas cartas de navegação na agenda do PT é responsável pela incoerência da gestão pública petista. Enquanto que a proposta socialdemocrata da “Carta ao Povo brasileiro” defendia o respeito aos contratos internacionais, bem como o funcionamento da livre empresa capitalista e o regime de liberdades civis, a “carta do peito” dos petistas defendia a instauração de um modelo de socialismo estatizante, autoritário e distributivista.

Ora, o que se tem visto nesta década é o desgoverno causado pela mistura contraditória das duas propostas, que terminou redundando na implantação de um distributivismo irresponsável em benefício dos denominados “movimentos sociais” e dos mais carentes, nas inúmeras “bolsas” concedidas a torto e a direito, sem assinalar responsabilidades por parte dos beneficiários e sem fazer um balanço transparente, perante a opinião pública, dos resultados obtidos.

Essa política distributivista tornou-se, assim, como frisava o senador Jarbas Vasconcelos, o maior programa de compra de votos do Hemisfério Ocidental. Essas bondades indiscriminadas terminaram ensejando o enfraquecimento da oposição, bem como o desequilíbrio nas contas públicas. 

No terreno empresarial, a exigência de transparência nos créditos que beneficiariam o setor, simplesmente ficou para as calendas gregas. A política oficial terminou consolidando a surrada praxe de cooptação de empresários que seriam apresentados como “campeões de bilheteria”, simplesmente pelo fato de que se colocaram do lado certo, a serviço dos donos do poder. Os restantes empresários, a grande maioria, ficaram do lado de fora do festival de bondades do BNDES. Esta instituição terminou sendo convertida em guichê de favorecimento a empresários e a governos estrangeiros amigos. O Brasil está pagando a pesada conta dessas “bondades” oficiais.

A entropia administrativa ficou garantida, portanto, pelas opções contraditórias do Partido do governo. As administrações petistas simplesmente prescindiram dos instrumentos de navegação no tumultuado mar da conjuntura internacional, ao jogarem pela borda os dados outrora confiáveis do IPEA e ao tentarem aparelhar o IBGE. A nau do Estado passou, assim, a navegar em águas incertas e a transmitir essa falta de rumo à sociedade.

b – Corrupção desenfreada e “assassinato de reputações”. Esta mazela foi tomando conta da gestão pública ao ser criminosamente estimulada pelo Executivo, mediante a prática da cooptação dos Partidos políticos no Congresso, no seio do esquema de distribuição sistemática de dinheiros públicos para comprar o apoio do Legislativo. Outro expediente igualmente importante do autoritarismo petista tem sido aquele que foi denominado de “assassinato de reputações”. [9]

O primeiro esquema, denominado de “Mensalão”, foi investigado pelo Ministério Público e terminou dando ensejo ao conhecido julgamento desses crimes pelo Supremo Tribunal Federal, ao longo de 2012 e 2013. Longe de criticar a cúpula partidária que foi condenada e que se encontra pagando pena em presídios de várias cidades, o PT simplesmente passou a vociferar contra a Magistratura, declarando que “Mensalão não houve”, sob o comando vergonhoso do ex-presidente Lula.

No segundo esquema, o governo passou a desviar recursos para financiar o aniquilamento de qualquer oposição, mediante a prática totalitária do crime que Romeu Tuma Jr. identificou como “assassinato de reputações”, sendo peça fundamental dessa operação corrupta a partidarização da Polícia Federal, que passou a ser considerada pelo PT como força armada ao seu serviço, com a finalidade de montar falsos dossiês a serem utilizados para neutralizar membros do parlamento ou do próprio governo, quando assim conviesse ao Partido, corrompendo, destarte, setores importantes não só da polícia como também da magistratura. [10]

O Partido do governo, de outro lado, como retaliação contra os juízes da mais alta corte brasileira pelo julgamento do Mensalão, apresentou ao Congresso duas propostas de emenda constitucional que tinham como finalidade diminuir os poderes do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal. Isso sem esquecer as ameaças de morte que contra o Presidente desta alta corte tem sido feitas por militantes do Partido pelas redes sociais, o que contribuiu para aumentar o clima de desconforto da sociedade em face da corrupção apoiada pelo próprio governo.

c – Gasto público incontrolado. Este mal se instalou em decorrência do debilitamento das instâncias institucionais que exerciam controle sobre o gasto público. Tais instâncias, de fato, estavam representadas pelo Tribunal de Contas da União e pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Ora, segundo decisão tomada pelo presidente Lula, o Tribunal de Contas não poderia mais tomar conhecimento do destino dos dinheiros públicos colocados à disposição dos sindicatos, sem importar o montante recebido. Tal medida conferiu às organizações sindicais um poder extraordinário, até o ponto de convertê-las num “Estado dentro do Estado”, configurando assim aquilo que Fernando Henrique Cardoso denominou, com propriedade, de um tipo de “peronismo à brasileira”. De outro lado, a Lei de Responsabilidade Fiscal foi derrogada na prática por Lula, ao ignorar a sua aplicação naqueles municípios administrados por prefeitos do Partido dos Trabalhadores.

d – Supremacia do Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário. Esta tendência, que já se encontrava presente na história republicana brasileira (como, por exemplo, no longo ciclo getuliano e no regime militar) voltou a ganhar força na Nova República devido ao abuso na prática das “medidas provisórias” (legislação por decreto presidencial que deve ser ratificado pelo Congresso).

O uso exagerado dessa forma de legislação pelos presidentes Lula e Dilma terminou entorpecendo os trabalhos normais do Legislativo e tem gerado constantes atritos com o Poder Judiciário, ao serem contempladas decisões que ferem a Constituição.

e - Ideologização da política externa. Ao longo dos governos petistas, a política externa brasileira foi desenhada não de acordo aos interesses da Nação, mas em consonância exclusiva com os interesses do PT, que buscava firmar a sua hegemonia no plano interno e desenvolver uma política favorável aos populismos socialistas na América Latina.

A partir dos dois governos de Lula e continuando com o mandado de Dilma Rousseff, a política externa brasileira passou a seguir as diretrizes do Foro de São Paulo. Assim, o governo passou a defender, de forma indiscriminada, a “revolução bolivariana” do coronel Chávez na Venezuela, a ditadura cubana dos irmãos Castro, bem como as reivindicações de grupos reconhecidamente terroristas como as FARC. Isso se tem traduzido numa confusa posição brasileira no panorama latino-americano, em prol das iniciativas venezuelanas (com o reforço à ALBA e à UNASUL) e contra outras políticas regionais diferentes destas, como as representadas pelas nações que se organizaram na Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile).

O resultado de tudo isso terminou sendo o encadeamento do Brasil aos consensos cada vez mais fechados do MERCOSUL (uma aliança que deixou de ser um pacto econômico para se transformar em organização político-ideológica) e o abandono da sadia prática de uma independência da nossa política externa para efetivar pactos bilaterais que abrissem novos mercados ao Brasil.

Essa política externa do PT, contrária, de forma sistemática, aos Estados Unidos e favorável a tudo quanto signifique combate ao denominado “imperialismo norte-americano”, terminou por colocar o Brasil em posição desfavorável no mundo globalizado. O Brasil relegou a segundo plano os interesses da indústria e do comércio ao se alinhar, por motivos ideológicos, com países que atacam os interesses econômicos brasileiros. Isso aconteceu, por exemplo, com a política de estatizações de empresas exploradoras de petróleo e gás na Bolívia e com a adesão brasileira às políticas comerciais aventureiras do presidente venezuelano.

Chávez simplesmente deixou de pagar a contribuição pactuada com o Brasil na empresa binacional criada por Lula, a Refinaria Abreu e Lima, no Recife. Os venezuelanos, até agora, não aportaram um único centavo para esse empreendimento, que produziu uma forte descapitalização da Petrobrás. Essa política, mais ideológica do que fundada em princípios pragmáticos, derrubou, de forma quase irreparável, a tradição de seriedade que tinha sido conquistada pela diplomacia brasileira ao longo do século XX.

3 – Condições necessárias para o funcionamento de uma verdadeira oposição.

Somente uma reforma política que adote uma relação direta entre eleitores e eleitos (o que implicaria na adoção do voto distrital) poderia pôr remédio ao mal da falta de oposição. Mas a reforma nunca sai. Ela não interessa nem ao Executivo, que se beneficia com o mecanismo de cooptação representado pelas mencionadas “emendas”, nem ao Legislativo, que se acomodou aos benefícios adquiridos ao longo das últimas décadas. 

Lembro-me de que durante a Constituinte, um grupo de parlamentares do velho PMDB, com José Richa à testa, optou por apresentar a adoção do voto distrital. Grande foi a agitação entre os Constituintes. O argumento brandido por eles, tanto no seio do PMDB quanto na Arena, era o seguinte: “se fomos eleitos pelo voto proporcional, para que mudar esse sistema?” Argumento cartorial que se acomodava às práticas patrimonialistas que consagraram o entendimento da representação como sesmaria a ser explorada em benefício próprio.

Uma reforma política para valer deve, certamente, provir do seio da própria sociedade. As massivas manifestações de Junho de 2013 tinham essa finalidade: mostrar a insatisfação da sociedade em face dos vícios institucionais em que mergulhou o Estado, notadamente diante da cooptação vergonhosa do Congresso pelo Executivo. A manifestação massiva dos jovens foi o primeiro passo e não deve ser descartado o aparecimento de novas iniciativas nesse sentido, em que pese os esforços feitos pelo governo petista para fazer “melar” as pacíficas reivindicações dos jovens, com a participação de ativistas a serviço de escusos interesses partidários. Têm sido visíveis as articulações do ministro Gilberto Carvalho, junto aos denominados “movimentos sociais”, no intento de tirar o foco do essencial nas manifestações populares, fomentando a baderna. Já ficou provada a participação, nesta, como agentes provocadores, de militantes partidários.

A sociedade brasileira vê com preocupação a presença, nas manifestações multitudinárias, ao lado dos agentes provocadores mencionados, de pessoas claramente vinculadas ao crime organizado. Isso tem sido observado nas badernas que têm agitado as noites da cidade de São Paulo e de outras cidades outrora pacíficas, como Florianópolis e Joinville. Membros do crime organizado (e o PCC já é uma gangue com projeção nacional) têm estado presentes nessas agitações. O governo não tem feito o trabalho que se esperava no sentido do restabelecimento da ordem, mediante a neutralização rápida e eficaz desses elementos. O próprio PT tem desenvolvido uma esquisita tolerância em face desses abusos, nas tresloucadas interpretações ideológicas dos distúrbios feitas pelo prefeito de São Paulo e outras autoridades ligadas ao PT, em importantes cidades como Porto Alegre.

Hoje, mais do que em qualquer outro tempo, é necessário um trabalho persistente da sociedade para conseguir resultados de médio e longo prazo. Uma sugestão concreta seria que os Partidos que integram a oposição formal ao governo partissem para um trabalho de planejamento conjunto, superando as diferenças ideológicas e os interesses conjunturais, com o propósito de buscar a governabilidade fortalecendo a representação política e, logicamente, o exercício legítimo da oposição. No entanto, o que até agora se vê são esforços isolados dos líderes partidários e dos potenciais candidatos das oposições. São tímidas e insulares iniciativas. É necessário algo mais.

Esse trabalho de construção de uma proposta conjunta das oposições deveria se abrir à participação dos jovens que se tem manifestado particularmente ativos nas redes sociais. São inúmeros os grupos dos que se arregimentam em portais e blogs de índole conservadora ou liberal, em prol de um saneamento das nossas políticas públicas. Essa é uma força importante de opinião, que precisa ser canalizada para uma participação mais completa. E, nesse terreno, as oposições deveriam atuar com maior afinco. Até agora, contudo, as iniciativas têm sido muito tênues. São poucos os políticos que se tem disposto a manter um diálogo sistemático com esses jovens nas redes sociais e em outras organizações. É um trabalho que pressupõe muito estudo desses fluxos de comunicação e muita disposição para o diálogo com os elementos jovens.

O governo tenta fazer a parte que corresponde aos interesses totalitários do PT, desenvolvendo, com dinheiro público, uma vergonhosa guerrilha virtual que visa a desmoralizar quem esboça oposição nas redes sociais. Que a sociedade brasileira não se deixa domesticar pelos donos do poder no terreno da circulação de ideias e de críticas aos desmandos petistas, fica claro nas respostas que, na hora, têm sido dadas pelas redes sociais diante dos pronunciamentos oficiais.





[1] Cf. FREYRE, Gilberto, Casa Grande & Senzala – Formação da Família Brasileira sob o regime de Economia Patriarcal. 25a edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.
[2] Cf. FAORO, Raimundo. Os donos do poder – Formação do patronato político brasileiro. 1ª edição. Porto Alegre: Globo, 1958, 2 vol.
[3] Cf. PAIM, Antônio (organizador). Pombal na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro / Fundação Cultural Brasil-Portugal, 1982.
[4] Cf. VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. Castilhismo: uma filosofia da República. 2a edição, ob. cit., p. 229-270.
[5] Cf. VIANNA, Francisco José de Oliveira. Populações meridionais do Brasil e Instituições políticas brasileiras. 1ª edição num único volume. Brasília: Câmara dos Deputados, 1983.
[6] Cf. SOUSA, Paulino Soares de. Ensaio sobre o Direito Administrativo, com referência ao Estado e Instituições peculiares ao Brasil. (Prefácio de T. Brandão Cavalcanti). 2ª edição, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1960.
[7] Cf. SILVA, Golbery do Couto e. Conjuntura Política Nacional: o Poder Executivo e Geopolítica do Brasil.  2a. Edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.
[8] Cf. PAIM, Antônio. Para entender o PT. Londrina: Edições Humanidades, 2002.
[9] Cf. TUMA JÚNIOR, Romeu. Assassinato de reputações – Um crime de Estado. (Com a colaboração de Claudio Tognolli). 1ª edição, Rio de Janeiro: Topbooks, 2013.

[10] Cf. TUMA JÚNIOR, Romeu. Assassinato de reputações – Um crime de Estado. Ob. cit., p. 129. A respeito dessa deletéria prática, escreve Romeu Tuma Jr.: “Quando constato um crime e parto em busca de seu autor, estou investigando. Quando escolho um alvo e parto em busca do que ele fez, ou anda fazendo, estou espionando. A Justiça não pode autorizar o uso das mesmas ferramentas legais em ambos os casos, mas leniente, tem o feito à exaustão!”.