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domingo, 20 de novembro de 2016

CRÔNICA DE UM DESASTRE ANUNCIADO: LULA E DILMA PREMEDITARAM TUDO


Lula, do alto da empáfia típica do messianismo político que o inspira, teve o topete de mandar os seus advogados para que processassem o honrado juiz Sérgio Moro. Não é a primeira vez que o líder da corrupção republicana tenta desmoralizar aqueles que se insurgem contra a sua bazófia. Em outras oportunidades, o Lularápio conseguia adesões. Hoje, quase todo mundo fica calado, ou batendo palmas para aqueles que o apontam como um dos maiores ladrões da história brasileira.


As artimanhas de Lula são variadas. Confesso que, nisso, ele é bastante criativo. Mas, como diziam os críticos de Keynes após os "30 gloriosos anos", o receituário do intervencionismo não deu certo por uma simples razão: o honorável público matou a charada.


Mutatis mutandis (afinal, Keynes não era ladrão, mas um conceituado economista cuja fórmula salvacionista do desgastado capitalismo laissezferista de início do século XX tinha se desgastado também), o público brasileiro, e o internacional também, já mataram a charada do Lula: ora se finge de humilde retirante nordestino, ora veste a roupagem agressiva da Jararaca pronta para o ataque. A panóplia lulista é variada e os seus causídicos sabem usá-la conforme as circunstâncias exigem. O livro de Romeu Tuma Jr. Assassinato de reputações um crime de Estado, publicado em 2014 pela editora Topbooks, ilustra detalhadamente o modus operandi de Lula quando se trata de atacar quem o critica. Detonar a imagem de quem tem a coragem de criticá-lo. Essa é a tática empregada. Mas vamos convir que o honorável público já matou a charada da Jararaca. Não adianta ameaçar. De nada vale levantar falsas acusações contra os detratores do lulismo. As pessoas, no Brasil e pelo mundo afora, já sabem que esse é seu estilo.

Falei no início deste comentário que, em face das artimanhas lulistas (intimidatórias ou piegas), "quase todo mundo" fica calado ou aprova entusiasticamente. Sim, porque algumas figuras públicas falam impropriedades pelo temor de desagradar o molusco. Já foi o Fernando Henrique que, líder evidente da oposição ao lulismo, na época do mensalão, preferiu "deixa-lo sangrar" a dar força ao impeachment, que teria definitivamente sepultado o mito antes da quebradeira do Brasil. Outra figura de prol da República, Michel Temer, atual presidente, no programa Roda Viva, no decorrer da semana passada, declarou que a eventual prisão de Lula traria "sérios problemas" ao país.

Ora, ora, panos quentes em nada ajudam ao Brasil nesta situação de desastre generalizado de que tentamos nos reerguer, após os treze anos de desgovernos de Lula e Dilma. Se há alguém que terá problemas com a ida de Lula para o xilindró é ele mesmo, assim como as suas viúvas, a começar pela Dilma, bem como os "movimentos sociais" e a militância partidária que perderá de vez o fôlego. Perderá igualmente espaço na vida pública a esquerda que se ergue na trilha do ocaso lulista, como herdeira do maluco populismo que nos atrapalhou a vida.

Thais Herédia, comentarista de economia da Globonews, no seu blog resenha brevemente importante livro que acaba de ser publicado com o título de: Anatomia de um Desastre, São Paulo: Portfolio-Penguin (da Companhia das Letras), 264 pgs. [http://g1.globo.com/economia/blog/thais-heredia/post/anatomia-de-um-desastre-o-livro.html, consultado em 18/11/2016]. A resenha foi a base para a breve apresentação que da obra faz Eliane Cantanhede na sua coluna ("Questão de vida ou morte", Estadão, 20/11/2016, p. A8). Os autores da obra que certamente ganhará a atenção dos leitores nas próximas semanas, são os jornalistas João Borges (editor de economia da Globonews), Claudia Safatle e Ribamar Oliveira (da revista Valor Econômico). O prefácio é do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga.

O cerne da narrativa do livro, escrito do ângulo da pesquisa jornalística, destacando portanto os fatos marcantes, consiste nas discussões que houve nas altas esferas econômicas em 2005, terceiro ano do governo Lula, acerca do "choque de austeridade" que deveria ser efetivado no país, a fim de pavimentar o futuro mediante a conquista do déficit nominal zero, num período de cinco ou dez anos, que garantiria, ulteriormente, o crescimento econômico sem sobressaltos. O projeto tinha sido articulado por Delfim Netto, Antônio Palocci e Paulo Bernardo. Tratava-se, sem dúvida, de uma versão precursora da atual PEC do gasto público que o governo Temer luta para ver aprovada.

A versão do que então se passou é digna de uma narrativa de "realismo mágico". Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, que presidia a reunião, escorraçou, com a gentileza de praxe, os autores da proposta e deu por encerrada a discussão destacando que "despesa é vida", que limita-la iria criar problemas para o governo petista e que não se falaria mais no assunto. Pelo que se vê, a Ministra-Chefe falava em nome do chefe, Lula, que queria a todo custo a reeleição e que precisava das torneiras abertas, a fim de garantir o sucesso do seu desejo.

Armínio Fraga, no prefácio, escreve: "Se o texto que vem a seguir em algum momento lhe parecer ficção, a culpa é dos fatos, não dos autores". João Borges, um deles, por sua vez frisa: "O nosso livro não é escrito sob a perspectiva do historiador e sim do jornalista, que testemunha o que vai acontecendo e analisa os fatos numa perspectiva jornalística. Nós temos que dar uma contribuição e esclarecer o por que dos problemas".

O Brasil já sabe, portanto, que a desgraceira da economia não foi um acidente da história: foi planejada friamente pela dupla Lula e Dilma, com a finalidade de reeleger o molusco, que pretendia perpetuar o PT no poder. Panos quentes com essa patota, portanto, nada resolvem. Deixemos que o juiz Sérgio Moro cuide do caso Lula. E que Dilma, mais adiante, seja chamada às falas. O verdadeiro risco para o Brasil é que a Justiça não consiga realizar a sua missão de pôr a casa em ordem.

quinta-feira, 29 de março de 2012

RECUPERAR A MEMÓRIA PARA VENCER O RESSENTIMENTO


A presidente Dilma deverá nomear nas próximas semanas os integrantes da “Comissão da Verdade”. Em face disso, gostaria de externar algumas reflexões sobre o sentido de tal iniciativa. Considero um erro crasso a instituição dessa Comissão. Explicarei a seguir por que.

Os indivíduos, como as nações, buscam ter uma memória acerca do seu passado.  No caso das pessoas individuais, essa memória ocorre por uma rememoração dos momentos fundamentais. Ou quando há um trauma, pelo mecanismo da psicanálise, que permite ao indivíduo se remontar até a vivência que o gerou, a fim de, com a claridade da razão projetada sobre ela, identificá-la, aceitá-la e começar a gerir em paz essa “marca” da trajetória pessoal. No caso das nações, a memória do passado é mantida pelas pesquisas históricas e pela continuada reflexão sobre elas.  Entre os Gregos antigos, era o teatro que ajudava a manter vivas essas raízes da própria identidade, que se perdiam na cinzenta estela dos mitos. Quando, no século V a. C., surgiram os primeiros filósofos, estes começaram a elaborar uma visão racional desse passado. Os historiadores logo apareceram, compilando os documentos que testemunhavam os fatos da Polis. Momentos houve, na longa história do Ocidente, em que se perderam esses elos, quando os racionalistas, nos séculos XVII e XVIII, passaram a menosprezar o reconto dos fatos passados, por considerá-los pouco objetivos. A conseqüência foi a perda da própria identidade e o incremento das inovações sem sentido, (como lembrou com propriedade Alexis de Tocqueville nas suas obras A Democracia na América e O Antigo Regime e a Revolução), fato que conduziu a Revolução Francesa ao negro ciclo conhecido como Terror. A intelligentsia, literalmente, perdeu a cabeça. Foi necessária a reação romântica para voltar a colocar a narrativa do passado nos trilhos e instituir novamente, com François Guizot, a disciplina da historiografia.

No Brasil, precisamos ter memória do nosso passado nacional. Essa recuperação da identidade é feita, fundamentalmente, pelos historiadores. A melhor forma de tomarmos consciência do que se passou consiste no exercício livre e diuturno da historiografia. Quantas mais pesquisas houver nesse terreno, melhor para todos nós. Quanta maior liberdade houver no debate entre as diversas interpretações históricas, melhor para todos. Porque o critério de verdade, em história, não é categórico, no sentido aristotélico, como se somente houvesse uma única interpretação, indiscutível, do que aconteceu. As certezas, em historiografia, situam-se no terreno móvel do que o Estagirita denominava de afirmações “dialéticas”, aquelas que podem ocorrer ou não ocorrer, em decorrência da liberdade humana. O critério de verdade, em história, é a “credibilidade”. Aquele que reconstituir a história mais “crível”, esse será tido como portador da verdade. Explicações incríveis são descartadas como pouco explicativas.

Pretende-se instaurar, no Brasil, a “Comissão da Verdade”, integrada por pessoas nomeadas pelo Executivo, a fim de reconstituir um período da vida nacional, que o governo atual acha necessário desvendar, entre 1945 e o fim do ciclo militar. Os arautos da iniciativa inspiraram-se, sem dúvida, na "Comissão da Verdade" que funcionou na África do Sul na transição entre o regime segregacionista e a atual quadra de funcionamento das instituições republicanas. Essa Comissão, criada no país africano nos anos 90 do século passado, foi presidida pelo bispo Desdond Tutu e teve grande utilidade para superar o conflito civil que tinha esgarçado o tecido social.

A "Comissão da Verdade" brasileira, da forma em que foi planejada, soa mais como uma espécie de Comitê da Presidência da República para oferecer à opinião pública uma versão diferente dos fatos ocorridos, de acordo aos interesses ideológicos do Partido ora no poder. Não tivemos, aqui, ao contrário do que tinha ocorrido na África do Sul, nem um regime odioso de Apartheid, nem o correspondente conflito civil que contrapôs, de forma total, a minoria branca (que correspondia a 30% dos habitantes do país) e a maioria negra (constituída por 70% da população). As nossas circunstâncias históricas, na abertura democrática dos anos 80, não partiram da tentativa de superar uma guerra civil que tivesse cindido a sociedade brasileira. A abertura foi decidida pelo governo militar em diálogo negociado e democrático com a sociedade civil (representada no Congresso).

Já se tornou bordão, nos governos petistas, a frase: “nunca antes na história deste país”, como se o fato de os dois últimos presidentes pertencerem ao PT os transformasse, ipso facto, em entidades mediúnicas capazes de auscultar com claridade metafísica a alma da nação. No caso da mencionada Comissão, trata-se de um grupo de pessoas que apresentarão uma versão do confronto entre a esquerda radical e as forças da ordem (no ciclo militar), acorde com os interesses ideológicos do PT, no sentido de desmoralizar, perante a opinião pública, aqueles que exerceram funções repressivas entre 1964 e 1985. Trata-se, também, de apresentar como vítimas inocentes todos aqueles que empunharam as armas para derrubar a ordem estabelecida e instaurar, no nosso país, uma ditadura comunista. A “Comissão da Verdade” foi instituída, outrossim, por um partido que já deu provas de parcialidade na reconstituição dos fatos históricos. (Lembremos o esdrúxulo projeto apresentado, no final do segundo governo Lula, com apoio da Casa Civil da Presidência, para instaurar uma nova política de direitos humanos, numa versão distorcida que terminou sendo engavetada por pressão da opinião pública). 

A proposta do governo, no caso da “Comissão da Verdade”, constitui, assim, mais um expediente ideológico para dar vazão ao ressentimento da esquerda radical, que conspirou contra as instituições republicanas e que foi vencida pelas Forças Armadas, que cumpriram com o seu papel de defender a soberania e a ordem constitucional. Não tivesse o Exército cumprido com a sua missão à época, teríamos visto surgir, em território brasileiro, uma “República independente” do tipo que as FARC consolidaram na Colômbia na região de El Caguán, com toda a carga de violência que isso implicou para a nação do vizinho país. Na sanguinolenta guerra que as FARC declararam ao Estado colombiano, entre 1979 e 2002, morreram 450 mil pessoas. Se o PC do B tivesse instaurado a sua República do Araguaia entre nós, teríamos tido milhares de vítimas que hoje clamariam por justiça.

A atual quadra da vida democrática brasileira teve como porta de entrada a Lei da Anistia, que foi aprovada pelo Congresso e que trouxe de volta os exilados. Pretender esvaziá-la mediante a instauração de uma “Comissão da Verdade” constitui um desserviço ao país. Que a memória nacional seja reconstituída de forma isenta pelos historiadores. Que a sociedade debata, livremente, entre as versões apresentadas por estes e que fique com a mais “crível”. Sem falsas verdades ideologicamente montadas para dar vazão ao ressentimento dos vencidos.