1 - Quem são os intelectuais que pensaram o Brasil? Poderia citar nomes e obras?
Ricardo Vélez.- Ao longo da nossa história houve, em cada época, intérpretes do Brasil. No período colonial, por exemplo, temos a obra de Nuno Marques Pereira intitulada: Peregrino da América, que circulou ao longo do século XVIII. Nuno era um intérprete do Brasil colonial, preocupado com o que eram os principais problemas da época para os habitantes deste país: a exploração dos índios pelos portugueses, de um lado, e, de outro, as questões relativas à outra vida. Explico-me: assim como hoje todo mundo se preocupa em ter plano de saúde, no século XVIII era essencial, para as pessoas, ter garantida a salvação da sua alma. Daí a importância da assistência dos sacerdotes à população, notadamente na hora de partir desta para a outra vida. Todo mundo queria garantido o cantinho no céu, tendo pessoas que rezassem por ele na hora da morte e após. As irmandades eram espécies de “planos de saúde para a vida eterna”, garantindo aos seus membros enterro cristão pertinho da Igreja matriz, missas e orações freqüentes, etc. Minas Gerais conservou esse espírito: o Dr. Tancredo foi sepultado na Igreja da Irmandade a que ele pertencia, perto da Igreja de S. Francisco, em São João Del Rei.
Bom: em todas as épocas houve quem pensasse nos problemas existenciais do homem brasileiro. No século XIX, temos, no início, pouco antes da Independência, o grande pensador e homem público Silvestre Pinheiro Ferreira, que pensou as bases da nacionalidade nas suas Cartas sobre a revolução brasileira, bem como no seu Manual do cidadão num governo representativo. Ambas as obras debruçavam-se sobre o que deveria ser o pacto político da jovem nação que nascia à sombra da Coroa Portuguesa.
Em meados do século XIX aparece a obra do maior filósofo do Império, Domingos Gonçalves de Magalhães, que deitou as bases do que Hegel denominou de “Espírito do Povo” (Volkgeist). Duas obras foram representativas da meditação de Gonçalves de Magalhães, uma no terreno da filosofia, outra no campo da literatura, mas com um definido perfil de “paidéia” (educação para a cidadania): Fatos do espírito humano (ensaio filosófico), na qual traçava as linhas mestras do que seria uma antropologia do homem brasileiro, destacando os seus valores espirituais, e A confederação dos Tamoios (de teor literário), em que o autor, que foi professor de filosofia no Colégio Pedro II, ensinava, ao longo da narrativa que contava a organização de uma nação de indígenas, que não podia haver segurança para os indivíduos isolados, sem possuirem instituições políticas organizadas ao redor do Estado. Esta última obra formava parte, aliás, do conjunto de peças de teatro popular, em que o autor tratava de disseminar entre os brasileiros a idéia de Nação e de Estado.
Já para o final do século XIX, temos os Ensaios filosóficos do grande Tobias Barreto, um liberal republicano que criticava fortemente as instituições imperiais e a sua filosofia eclética. Tobias Barreto era um estranho kantiano, que viveu no interior nordestino e que escrevia um jornal em alemão, Brasilianische Zeitung (para cutucar com vara curta a nobreza pesudo-parisiense que vivia na capital imitando os salões da Cidade Luz). Ele foi o fundador da mais importante corrente de pensamento do século XIX, denominada de Escola do Recife, que deitou os alicerces para a nossa meditação do século XX, nos terrenos da Filosofia, do Direito e da Sociologia. Essa corrente, denominada pelos estudiosos de Culturalismo, tinha como base a meditação de Kant, bem como a crítica ao espiritualismo do século XIX, num contexto que valorizava a pesquisa científica da realidade social.
No século XX, destacaria duas figuras importantes: Miguel Reale (1910-2006) e Vicente Ferreira da Silva (1916-1963). Reale, continuador da meditação de Tobias Barreto, com a obra intitulada Experiência e Cultura deu embasamento filosófico à sua meditação jurídica (teoria tridimensional do direito), bem como a uma abordagem ampla do homem, num contexto teórico de base neokantiana, mas aberto, também, à dimensão do historicismo hegeliano, à filosofia dos valores (na trilha de Max Scheler), à problemática da experiência (incorporando a meditação de John Dewey), à questão das filosofias nacionais e à dimensão problemática da Filosofia (seguindo as pegadas de Nicolai Hartmann e Rodolfo Mondolfo). Reale é, segundo estudiosos brasileiros e estrangeiros, a máxima manifestação do Culturalismo, bem como o maior pensador em língua portuguesa do século XX.
Vicente Ferreira da Silva foi, no sentir de Reale, “a maior vocação metafísica do Brasil”. Os seus diálogos filosóficos, bem como os seus ensaios são, hoje, referenciais para pensarmos o homem brasileiro no contexto da existência aberta ao mistério do Ser, relativizando as propostas puramente factuais daqueles que, de forma um tanto trêfega, pretendem que o ser humano seja apenas índice de desenvolvimento, ficha de militância política ou de produtividade, lhe negando qualquer outra dimensão. O filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002) tinha como uma das suas fontes para a Filosofia Hermenêutica a obra de Ferreira da Silva, conforme testemunho de um dos seus assistentes na Universidade de Heidelberg, o filósofo colombiano Carlos Bernardo Gutiérrez.
2. Essa linha de pensamento, dos chamados intérpretes do Brasil, surgiu na década de 1930? Por quê? Por que eles queriam entender quem somos, que país é esse?
R. V.- A linha dos denominados “intérpretes do Brasil” surge um pouco antes, na década de vinte. É fruto da tendência aberta pelos nossos pioneiros da reflexão social, no final do século XIX, Euclides da Cunha e Sílvio Romero. Nos anos vinte do século passado, acompanhando a crise que se instala a nível global com a Primeira Guerra Mundial, a sociologia vai ganhar força renovada com dois pensadores: Oliveira Vianna (Populações meridionais do Brasil) e Gilberto Freyre (Casa grande e senzala). A pergunta que esses autores se fazem é a seguinte: neste mundo do após-guerra tão conturbado, quem somos? Vem, a seguir, a plêiade de escritores que acompanha a Semana de Arte Moderna, que busca decodificar o Brasil do século XX, a fim de fazê-lo encontrar os caminhos da modernidade. Oliveira Vianna firma o método monográfico no estudo da nossa realidade, enquanto Gilberto Freyre parte para uma visão holística da sociedade rural brasileira em Casa grande e senzala, que complementa com uma obra posterior, Sobrados e Mucambos, em que aborda a sociedade urbana. São eles autores muito originais, que criaram os tipos ideais da nossa sociologia. Como não lembrar, por exemplo, uma tipologia tão brasileira como o “complexo de clã” (Oliveira Vianna)?
3. Por que hoje não há mais sujeitos que empreendem estudos amplos e complexos sobre o Brasil? Por que hoje os estudos se voltam para temas específicos? Poderia comentar?
R. V.- Em primeiro lugar, o nosso panorama cultural tornou-se complexo. Hoje ninguém arriscaria uma generalização, em face da sofisticação que alcançaram as ciências sociais e humanas, no terreno metodológico. Hoje, certamente, encontramos, no terreno destas, mais estudos monográficos sobre a nossa realidade. Mas, no campo da reflexão filosófica e da crítica cultural, encontramos obras de fôlego que pretendem dar uma olhada sobre a totalidade da nossa formação social. Cito três livros: O homem e os seus horizontes (Miguel Reale), Momentos decisivos da história do Brasil (Antônio Paim) e Em berço esplêndido (José Osvaldo de Meira Penna).
4. Há algum ponto em comum entre esses sujeitos que pensaram o Brasil? Por exemplo, teriam eles, quase todos, pensado o Brasil por meio da escravidão? Ou outro assunto em comum?
R. V.- Acho que o ponto comum entre todos esses pensadores é a abertura de perspectivas, seguindo o ensinamento de Sílvio Romero: em matéria de reflexão, em ciências humanas, não há monocausalismos. A temática da escravidão é própria de alguns estudiosos, que sob esse viés analisam o nosso século XIX, como faz Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Mas o fazem sem esquecer que há outras perspectivas através das quais podem ser estudados os fenômenos sociais. Já foi superada, felizmente, a tendência dos marxistas enragés, que tudo queriam analisar à luz do conceito monocórdio de luta de classes.
5. Qual desses pensadores é o seu predileto e por quê?
R. V.- Professo grande admiração por Miguel Reale. Concordo com a opinião dos estudiosos que o consideram como o maior filósofo em língua portuguesa do século XX. O grande mérito de Reale consiste em ter dado uma fundamentação firme, sob o ângulo da filosofia, às pesquisas no terreno da história das idéias. Ele firmou, num opúsculo intitulado A Filosofia de Kant no Brasil um método que hoje é valorizado pelo mundo afora. O método é simples: a filosofia, antes do que sistema, é discussão de um problema que preocupa ao pensador. Conseqüentemente, o método para estudar os autores consiste, primeiro, em averiguar qual era o problema que os preocupava para, em seguida, ver a forma em que o mencionado problema foi equacionado nas suas respectivas obras. A partir daí pode-se estabelecer elos e comparações entre os vários autores. É, como se pode ver, uma metodologia simples e que não prejulga acerca da obra de nenhum autor. Posso ser simpático ou não com as suas idéias. Mas, se aplico esse método, vou escutá-lo, deixá-lo falar, mesmo que eu não concorde com ele, ou mesmo que eu seja o seu fã.
6. Já ouvi dizer que há mais intelectuais que dizem o que não somos, do que aquilo que somos. Isso procede? Por quê?
R. V.- Bom, se a afirmação for interpretada como Ortega y Gasset fazia, entendendo “o que somos” como “eu e as minhas circunstâncias”, e, entre estas, elencarmos tudo quanto nos afeta física, psíquica e culturalmente, posso concordar com essa afirmação, no seguinte sentido: somos o que somos; mas, naquilo que somos, carregamos todas as nossas circunstâncias, incluindo aí a nossa carga genética, bem como a cultura que herdamos dos nossos ancestrais. Ora, é impossível alguém, ao falar de nós, dar conta de tudo quanto somos. Assim, quem fala de nós, diz algo de nós, mas não esgota o que somos. Nesse sentido, os intelectuais dizem o que não somos, ao não dizerem totalmente o que somos. A história é outra quando os intelectuais ficam imaginando o que não somos, por estarem interessados mais em outra realidade diferente na nossa, como aquele autor que escreveu um livro, dedicado ao estudo de um departamento de filosofia numa importante universidade, intitulado: Um departamento francês no ultramar. Como se fossemos apenas um apêndice cultural da França...Isso seria, pura e simplesmente, um caso explícito de colonialismo cultural...
7. Como o senhor pensa e entende o Brasil? Qual a sua visão de mundo do Brasil? Quais nossos problemas? E quais nossas soluções?
R. V.- Difícil dar uma resposta sucinta a essa pergunta. Talvez poderíamos perguntar: qual seria o problema que hoje afeta mais ao nosso projeto democrático? Aí eu responderia com Oliveira Vianna: o nosso complexo de clã. No Brasil, o patotismo sufocou o patriotismo. Temos mentalidade de torcida. A Cabeça do brasileiro (para citar a obra de um jovem pesquisador na área da antropologia, Alberto Carlos de Almeida) está voltada para os seus interesses familísticos. Ruim? Não. O problema é que as pessoas, neste país, só pensam nisso, excluindo a dimensão comunitária. O que o brasileiro não pode privatizar, levando para a sua casa, depreda: orelhão, ônibus, banco da pracinha... Precisamos mudar essa cabeça, mediante a educação para a cidadania e a formação humanística, que devem acontecer, a primeira, nas quatro primeiras séries do primeiro grau e, a segunda, no ensino secundário e na Universidade. O Brasil, no contexto dos BRICs (os emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China) é o que está mais atrasado em matéria de educação para a cidadania. Entra governo, sai governo e o panorama é sempre o mesmo: descaso para com a dimensão cultural da educação básica. Não seremos nada no mundo globalizado de hoje se não formarmos a cabeça dos nossos cidadãos. E isso acontece na infância e na adolescência. Depois é tratar de corrigir o que já está deformado.
8. O brasileiro se interessa em pensar o Brasil? Por que? Poderia dar exemplos?
R. V.- Vou lhe contar uma história: sou o primeiro mestre formado em pensamento brasileiro, em 1974. E sou também o primeiro doutor formado em pensamento luso-brasileiro, em 1982. Os cursos em que me formei, o Mestrado em Pensamento Brasileiro da PUC do Rio (que tinha sido criado em 1972), e o doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro da Universidade Gama Filho (criado em 1979) foram, ambos, fechados por pressão da CAPES. Hoje, se você quiser estudar o Brasil no terreno das idéias e da história do pensamento, não tem, no país, onde estudar. Tem que ir para Portugal (onde há cursos de mestrado e doutorado que estudam a nossa cultura), ou para os Estados Unidos (onde, nos 150 centros existentes de estudos latino-americanos, há vários que se interessam pela cultura brasileira). Os nossos burocratas do MEC não se interessam. A CAPES não se interessa. Isso tem que mudar!Há, evidentemente, pessoas interessadas no estudo do pensamento filosófico brasileiro e nas questões relativas à cultura nacional. Mas essas pessoas, geralmente jovens que entram pela primeira vez na Universidade, logo são desestimulados pelos burocratas a serviço do colonialismo cultural. Nos 14 cursos de mestrado e doutorado em filosofia existentes no país estuda-se, hoje, com profundidade, a obra de autores estrangeiros: Kant, Hegel, Escola de Frankfurt, Pragmatismo norte-americano, etc. Mas não diga que você vai estudar um pensador brasileiro. O pessoal que dá bolsas, ou os burocratas que aprovam cursos torcem o nariz. Não gostam do Brasil!
Um espaço para defesa da Liberdade, da forma incondicional em que Dom Quixote fazia nas suas heroicas empreitadas!
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domingo, 29 de março de 2009
domingo, 22 de fevereiro de 2009
QUEM TEM MEDO DA FILOSOFIA BRASILEIRA?
Utilizo, para este comentário, título que o mestre Antônio Paim pôs em circulação lembrando Virgínia Woolf, para identificar as mazelas que, no final do século passado, infernizavam a vida de quem se dedicasse ao estudo da nossa cultura filosófica. A situação, como os leitores poderão observar, não mudou muito de 1990 para cá.
Aconteceu, na seara da filosofia, estranho fenômeno de colonialismo cultural que foi, progressivamente, extinguindo tudo quanto, no nosso país, cheirasse a estudo do pensamento brasileiro ou à consolidação de uma filosofia nacional. Os artífices dessa façanha (ocorrida nas três últimas décadas do século passado) foram os burocratas da Capes no setor da filosofia, comandados pelo padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz. Os fatos são simples: no período em que o general Ruben Ludwig foi ministro da educação, ainda no ciclo militar, os antigos ativistas da Ação Popular Marxista-Leninista receberam, à sombra do padre Vaz, a diretoria dos conselhos da Capes e do CNPq, na área mencionada. Especula-se que o motivo da concessão fosse uma negociação política: eles prometiam abandonar a luta armada. A preocupação dos militares residia no fato de que foi esse o único agrupamento da extrema esquerda que não se organizou explicitamente em partido político.
Os grupos da denominada "direita" (conservadores, ultra-conservadores, liberais, liberais-sociais, etc.), toda essa imensa gama, ficou do lado de fora dos favores oficiais, no período militar e após.
De um lado, os militares, de uma forma bastante imprecisa, identificavam como perigosos não apenas os ativistas da extrema-esquerda, mas também todos aqueles que se apresentassem como liberais (lembrar as referências do general Golbery à ideologia liberal, como contrária aos interesses do país, o que explica as cassações de liberais linha-dura como Carlos Lacerda, ou os preconceitos contra social-democratas como Juscelino).
Os restantes grupos da denominada "direita" terminaram sendo exorcizados das benesses oficiais, em decorrência do patrulhamento dos ativistas de esquerda, que foram beneficiados pelo regime. Prova documental importante é constituída pelo artigo de Aramis Millarch [“Délcio explica quem são os senhores da direita”, O Estado do Paraná, 28/12/1980, p. 10], que resenha livro publicado em 1980, do jornalista Délcio Monteiro de Lima, intitulado: Os senhores da direita [Rio de Janeiro: Editora Antares, 168 p.]. O saco de gatos é grande: vão para o mesmo balaio ativistas da TFP, antigos integralistas, conservadores e até os membros do staff da Revista Convivium e a entidade que lhe dava sustentação, Convívio - Sociedade Brasileira de Cultura.
A discriminação foi feita, notadamente, pelo pessoal da Ação Popular, através da Capes e do CNPq. Um exemplo: quem tiver produção científica publicada na Revista Convivium, não pode (ainda nos dias que correm) registrar, no Lattes, essa publicação como "artigo científico publicado em revista com corpo editorial". Embora a mencionada revista possua ISSN (0102-2636), o sistema Lattes simplesmente ignora a tal revista, e a produção tem de ser classificada como publicada em magazine. Pequena retaliação, mas que mostra a que ponto chegou o patrulhamento ideológico (e, evidentemente, orçamentário). Isso sem falar na perseguição da CAPES, explícita e atual, contra os cursos de mestrado e doutorado em filosofia brasileira, que foram sendo extintos, um a um, por pressão do MEC, entre 1979 e 1999. Caíram, sucessivamente, na guilhotina ideológica oficial, o programa de mestrado em Filosofia Brasileira da PUC do Rio, o programa de mestrado e doutorado em Filosofia Luso-Brasileira da Universidade Gama Filho, bem como o programa de mestrado em Filosofia Brasileira da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Sorte semelhante tiveram programas considerados “de direita”, como o mestrado em Estudo de Problemas Brasileiros da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Mackenzie, em São Paulo. Isso aconteceu numa conjuntura internacional em que outros países como Espanha, Portugal, México, Argentina e Colômbia passaram a valorizar de forma muito clara o estudo das respectivas filosofias nacionais, como forma de ocupar um lugar no mundo globalizado. Portugal, que não tinha cursos para o estudo da filosofia autóctone, criou esses programas em 1986, com apoio do Curso de Mestrado e Doutorado em Filosofia Luso-Brasileira da Universidade Gama Filho (extinto em meados dos anos 90).
Outra retaliação contra os estudiosos da filosofia brasileira: a Revista Brasileira de Filosofia, fundada por Miguel Reale em 1949, que recebia uma pequena verba do Ministério da Cultura, para custear postagem dos exemplares destinados a bibliotecas e universidades, teve esse auxílio sumariamente cortado pelo ministro Francisco Weffort (no segundo governo de FHC). Detalhe: as revistas Brasileira de Filosofia e Convivium foram, no século passado, as duas mais importantes publicações brasileiras na área da filosofia e das humanidades (a Revista Brasileira de Filosofia completa, em 2009, os seus 60 anos, e a Convivium chegou pertinho dos quarenta, pois foi publicada, ininterruptamente, com periodicidade bi-mensal, entre 1962 e 2000).
A retaliação dos burocratas contra quem queira estudar filosofia brasileira não conseguiu, contudo, desestimular as novas gerações. São inúmeras as iniciativas empreendidas por estudantes e professores, em prol do estudo da cultura nacional no terreno das idéias filosóficas. Sem mencionar projetos consolidados no século passado (como a criação, pelo professor Antônio Paim, do Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro em Salvador, Bahia, na década de 1980), seria grande a lista das iniciativas em curso. Menciono apenas quatro: o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da Universidade Federal de Juiz de Fora, que publica a revista eletrônica Ibérica [www.estudosibericos.com]; o Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, que publica, nessa mesma Universidade, o portal Defesa, dedicado ao estudo e à divulgação do pensamento estratégico brasileiro [www.defesa.ufjf.br], o Núcleo de Estudos de Filosofia Brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenado pelo professor Paulo Margutti e o Centro de Estudos Filosóficos de Londrina, criado em 1989 pelo professor Leonardo Prota e que, ao longo dos anos 90 do século passado, realizou os Encontros Nacionais de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira, com apoio da UEL.
Aconteceu, na seara da filosofia, estranho fenômeno de colonialismo cultural que foi, progressivamente, extinguindo tudo quanto, no nosso país, cheirasse a estudo do pensamento brasileiro ou à consolidação de uma filosofia nacional. Os artífices dessa façanha (ocorrida nas três últimas décadas do século passado) foram os burocratas da Capes no setor da filosofia, comandados pelo padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz. Os fatos são simples: no período em que o general Ruben Ludwig foi ministro da educação, ainda no ciclo militar, os antigos ativistas da Ação Popular Marxista-Leninista receberam, à sombra do padre Vaz, a diretoria dos conselhos da Capes e do CNPq, na área mencionada. Especula-se que o motivo da concessão fosse uma negociação política: eles prometiam abandonar a luta armada. A preocupação dos militares residia no fato de que foi esse o único agrupamento da extrema esquerda que não se organizou explicitamente em partido político.
Os grupos da denominada "direita" (conservadores, ultra-conservadores, liberais, liberais-sociais, etc.), toda essa imensa gama, ficou do lado de fora dos favores oficiais, no período militar e após.
De um lado, os militares, de uma forma bastante imprecisa, identificavam como perigosos não apenas os ativistas da extrema-esquerda, mas também todos aqueles que se apresentassem como liberais (lembrar as referências do general Golbery à ideologia liberal, como contrária aos interesses do país, o que explica as cassações de liberais linha-dura como Carlos Lacerda, ou os preconceitos contra social-democratas como Juscelino).
Os restantes grupos da denominada "direita" terminaram sendo exorcizados das benesses oficiais, em decorrência do patrulhamento dos ativistas de esquerda, que foram beneficiados pelo regime. Prova documental importante é constituída pelo artigo de Aramis Millarch [“Délcio explica quem são os senhores da direita”, O Estado do Paraná, 28/12/1980, p. 10], que resenha livro publicado em 1980, do jornalista Délcio Monteiro de Lima, intitulado: Os senhores da direita [Rio de Janeiro: Editora Antares, 168 p.]. O saco de gatos é grande: vão para o mesmo balaio ativistas da TFP, antigos integralistas, conservadores e até os membros do staff da Revista Convivium e a entidade que lhe dava sustentação, Convívio - Sociedade Brasileira de Cultura.
A discriminação foi feita, notadamente, pelo pessoal da Ação Popular, através da Capes e do CNPq. Um exemplo: quem tiver produção científica publicada na Revista Convivium, não pode (ainda nos dias que correm) registrar, no Lattes, essa publicação como "artigo científico publicado em revista com corpo editorial". Embora a mencionada revista possua ISSN (0102-2636), o sistema Lattes simplesmente ignora a tal revista, e a produção tem de ser classificada como publicada em magazine. Pequena retaliação, mas que mostra a que ponto chegou o patrulhamento ideológico (e, evidentemente, orçamentário). Isso sem falar na perseguição da CAPES, explícita e atual, contra os cursos de mestrado e doutorado em filosofia brasileira, que foram sendo extintos, um a um, por pressão do MEC, entre 1979 e 1999. Caíram, sucessivamente, na guilhotina ideológica oficial, o programa de mestrado em Filosofia Brasileira da PUC do Rio, o programa de mestrado e doutorado em Filosofia Luso-Brasileira da Universidade Gama Filho, bem como o programa de mestrado em Filosofia Brasileira da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Sorte semelhante tiveram programas considerados “de direita”, como o mestrado em Estudo de Problemas Brasileiros da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Mackenzie, em São Paulo. Isso aconteceu numa conjuntura internacional em que outros países como Espanha, Portugal, México, Argentina e Colômbia passaram a valorizar de forma muito clara o estudo das respectivas filosofias nacionais, como forma de ocupar um lugar no mundo globalizado. Portugal, que não tinha cursos para o estudo da filosofia autóctone, criou esses programas em 1986, com apoio do Curso de Mestrado e Doutorado em Filosofia Luso-Brasileira da Universidade Gama Filho (extinto em meados dos anos 90).
Outra retaliação contra os estudiosos da filosofia brasileira: a Revista Brasileira de Filosofia, fundada por Miguel Reale em 1949, que recebia uma pequena verba do Ministério da Cultura, para custear postagem dos exemplares destinados a bibliotecas e universidades, teve esse auxílio sumariamente cortado pelo ministro Francisco Weffort (no segundo governo de FHC). Detalhe: as revistas Brasileira de Filosofia e Convivium foram, no século passado, as duas mais importantes publicações brasileiras na área da filosofia e das humanidades (a Revista Brasileira de Filosofia completa, em 2009, os seus 60 anos, e a Convivium chegou pertinho dos quarenta, pois foi publicada, ininterruptamente, com periodicidade bi-mensal, entre 1962 e 2000).
A retaliação dos burocratas contra quem queira estudar filosofia brasileira não conseguiu, contudo, desestimular as novas gerações. São inúmeras as iniciativas empreendidas por estudantes e professores, em prol do estudo da cultura nacional no terreno das idéias filosóficas. Sem mencionar projetos consolidados no século passado (como a criação, pelo professor Antônio Paim, do Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro em Salvador, Bahia, na década de 1980), seria grande a lista das iniciativas em curso. Menciono apenas quatro: o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da Universidade Federal de Juiz de Fora, que publica a revista eletrônica Ibérica [www.estudosibericos.com]; o Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, que publica, nessa mesma Universidade, o portal Defesa, dedicado ao estudo e à divulgação do pensamento estratégico brasileiro [www.defesa.ufjf.br], o Núcleo de Estudos de Filosofia Brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenado pelo professor Paulo Margutti e o Centro de Estudos Filosóficos de Londrina, criado em 1989 pelo professor Leonardo Prota e que, ao longo dos anos 90 do século passado, realizou os Encontros Nacionais de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira, com apoio da UEL.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
MIRABEAU E O SENADOR
Há pessoas que intuem a natureza das coisas, como o astuto parlamentar francês Mirabeau, que dirigiu a Luís XVI as seguintes palavras, no início da Revolução Francesa: “Comparemos o novo estado de coisas com o Antigo Regime; aí encontrareis motivo para consolos e esperanças. Uma parte dos atos da Assembléia Nacional, a mais considerável, é evidentemente favorável ao governo monárquico. Não significará nada, por acaso, ter um país sem parlamento, sem governo de Estado, sem corporação de clérigos, de privilegiados, de nobreza? A idéia de constituir uma única classe de cidadãos teria agradado a Richelieu, pois esta superfície igual facilita o exercício do poder. Alguns reinos de governo absoluto não teriam feito tanto em prol da autoridade real, quanto este único ano de Revolução”.
A entrevista concedida pelo Senador Jarbas Vasconcelos à revista Veja (18/02/2009), é um fato revelador da natureza da política brasileira. Nada do que o parlamentar falou era desconhecido do grande público. Que Sarney é uma raposa que manterá as coisas como estão no Senado, atendendo aos seus compromissos clientelísticos, todo mundo sabe disso; que o PMDB é uma agremiação fisiológica, não há como negá-lo; que a corrupção não foi inventada pelo atual governo, mas que é prática consolidada na vida pública do nosso país, é lição que até as criancinhas sabem; que o PT rasgou a túnica da virgindade política, logo após o início do primeiro mandato lulista, com o festival de falcatruas que deu ensejo ao mensalão, é meridiano como a luz do meio-dia; que o Brasil perdeu a oportunidade de, tendo um governo com amplo apoio popular, efetivar as reformas necessárias, não há como negá-lo; que o legislativo foi emasculado por um executivo hipertrofiado e dono da bola da iniciativa legiferante, isso já todos sabíamos; que a política brasileira tornou-se um festival de safadezas, em que os seus protagonistas cuidam, em geral, unicamente do seu, sem olhar para o bem do país, era coisa conhecida. Então, por que tanta celeuma em face da entrevista do Senador?
Por dois motivos, a meu entender. Primeiro: se Lula não inventou a corrupção, à luz da entrevista de Jarbas Vasconcelos fica claro que a democratizou. O presidente, no sentir do Senador, com a sua retórica de banalização desse mal, decretou um “liberou geral” para a leviandade política. A instituição da presidência tem, na história da República brasileira, um peso enorme, herdado da desastrosa progênie do castilhismo-getulismo. Lula não inventou a hipertrofia do executivo na vida da nação. Mas colocou toda essa influência a serviço da banalização dos deslizes na gestão da coisa pública. Ser corrupto virou coisa normal, se colocarmos a infinita compreensão do presidente para com os seus subordinados, em face dos inúmeros episódios de corrupção da vida pública patrocinados por eles (as escabrosas histórias do mensalão, dos sanguessugas, dos cartões corporativos, dos grampos das agências oficiais, da intimidação da imprensa, dos inquéritos e CPIs abafados pela base aliada, do terrorista anistiado pelo ministro da Justiça, dos esportistas cubanos que pediam asilo, entregues ao ditador do Caribe pelo mesmo ministro, etc.). Valha aqui repetir as palavras do Senador: “A corrupção sempre existiu, ninguém pode dizer que foi inventada por Lula ou pelo PT. Mas é fato que o comportamento do governo Lula contribui para essa banalização. Ele só afasta as pessoas depois de condenadas, todo mundo é inocente até prova em contrário. Está aí o Obama dando o exemplo do que deve ser feito. Aqui, esperava-se que um operário ajudasse a mudar a política, com seu partido que era o guardião da ética. O PT denunciava todos os desvios, prometia ser diferente ao chegar ao poder. Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção. O pensamento típico do servidor desonesto é: Se o PT, que é o PT, mete a mão, por que eu não vou roubar?”
Segundo motivo da celeuma causada pela entrevista: Lula, para manter o alto grau de popularidade, terminou corrompendo os eleitores de baixa renda, mediante uma política assistencialista escancarada, corporificada nos programas da Bolsa Família. “O marketing e o assistencialismo de Lula – frisa Jarbas Vasconcelos – conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo (...) Há um benefício imediato e uma conseqüência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho”. E para ilustrar esse caráter nefasto do mencionado programa, o Senador conta uma história que se passou na terra dele, Pernambuco: “Há um restaurante que eu freqüento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada, cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa, para ele e outra para o filho, e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece”.
Lula conseguiu a façanha de unificar o país numa única classe, a dos dependentes do favor oficial.
A entrevista concedida pelo Senador Jarbas Vasconcelos à revista Veja (18/02/2009), é um fato revelador da natureza da política brasileira. Nada do que o parlamentar falou era desconhecido do grande público. Que Sarney é uma raposa que manterá as coisas como estão no Senado, atendendo aos seus compromissos clientelísticos, todo mundo sabe disso; que o PMDB é uma agremiação fisiológica, não há como negá-lo; que a corrupção não foi inventada pelo atual governo, mas que é prática consolidada na vida pública do nosso país, é lição que até as criancinhas sabem; que o PT rasgou a túnica da virgindade política, logo após o início do primeiro mandato lulista, com o festival de falcatruas que deu ensejo ao mensalão, é meridiano como a luz do meio-dia; que o Brasil perdeu a oportunidade de, tendo um governo com amplo apoio popular, efetivar as reformas necessárias, não há como negá-lo; que o legislativo foi emasculado por um executivo hipertrofiado e dono da bola da iniciativa legiferante, isso já todos sabíamos; que a política brasileira tornou-se um festival de safadezas, em que os seus protagonistas cuidam, em geral, unicamente do seu, sem olhar para o bem do país, era coisa conhecida. Então, por que tanta celeuma em face da entrevista do Senador?
Por dois motivos, a meu entender. Primeiro: se Lula não inventou a corrupção, à luz da entrevista de Jarbas Vasconcelos fica claro que a democratizou. O presidente, no sentir do Senador, com a sua retórica de banalização desse mal, decretou um “liberou geral” para a leviandade política. A instituição da presidência tem, na história da República brasileira, um peso enorme, herdado da desastrosa progênie do castilhismo-getulismo. Lula não inventou a hipertrofia do executivo na vida da nação. Mas colocou toda essa influência a serviço da banalização dos deslizes na gestão da coisa pública. Ser corrupto virou coisa normal, se colocarmos a infinita compreensão do presidente para com os seus subordinados, em face dos inúmeros episódios de corrupção da vida pública patrocinados por eles (as escabrosas histórias do mensalão, dos sanguessugas, dos cartões corporativos, dos grampos das agências oficiais, da intimidação da imprensa, dos inquéritos e CPIs abafados pela base aliada, do terrorista anistiado pelo ministro da Justiça, dos esportistas cubanos que pediam asilo, entregues ao ditador do Caribe pelo mesmo ministro, etc.). Valha aqui repetir as palavras do Senador: “A corrupção sempre existiu, ninguém pode dizer que foi inventada por Lula ou pelo PT. Mas é fato que o comportamento do governo Lula contribui para essa banalização. Ele só afasta as pessoas depois de condenadas, todo mundo é inocente até prova em contrário. Está aí o Obama dando o exemplo do que deve ser feito. Aqui, esperava-se que um operário ajudasse a mudar a política, com seu partido que era o guardião da ética. O PT denunciava todos os desvios, prometia ser diferente ao chegar ao poder. Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção. O pensamento típico do servidor desonesto é: Se o PT, que é o PT, mete a mão, por que eu não vou roubar?”
Segundo motivo da celeuma causada pela entrevista: Lula, para manter o alto grau de popularidade, terminou corrompendo os eleitores de baixa renda, mediante uma política assistencialista escancarada, corporificada nos programas da Bolsa Família. “O marketing e o assistencialismo de Lula – frisa Jarbas Vasconcelos – conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo (...) Há um benefício imediato e uma conseqüência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho”. E para ilustrar esse caráter nefasto do mencionado programa, o Senador conta uma história que se passou na terra dele, Pernambuco: “Há um restaurante que eu freqüento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada, cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa, para ele e outra para o filho, e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece”.
Lula conseguiu a façanha de unificar o país numa única classe, a dos dependentes do favor oficial.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
ENSALADA TROPICAL
El presidente Lula acaba de lanzar la campaña para las elecciones presidenciales del año que viene. No puede hacerlo legalmente. Pero Lula es un populista que no le para muchas bolas a la legalidad de sus decisiones. Son ya innumerables los casos de actitudes y decretos presidenciales que ignoran la ley. Lula se apoya en el índice de 84% de aprobación popular, que lo mantiene en un eterno comicio. Aunque tengo mis dudas acerca de la objetividad de estos números (debido a la clara manipulación de datos estadísticos por parte del gobierno, tanto en Institutos oficiales que hasta el comienzo de la era Lula eran confiables, como el IPEA, cuanto por parte de los órganos de telecomunicación, que fueron mexicanizados, o sea, sometidos a la espada de Democles de generosos empréstitos oficiales para subvencionar sus deudas, con intereses bajos).
Aceptando que sea verdadero, ese índice se explicaría gracias a las políticas de distribución de recursos directos, por parte de la Presidencia, a la población más carente. Se trata de una especie de “beca-familia”, que les da ayuda pecuniaria a las personas, la mayor parte de las veces sin controlar la efectividad de esa ayuda, lo que la ha convertido en una medida puramente asistencialista. Las familias inscritas reciben un valor mensual que oscila entre 60 y 120 reales (26 a 52 dólares), con un complemento de aproximadamente 30 reales (13 dólares) por cada hijo menor de 18 años. Evidentemente que la popularidad de Lula se alimenta también con la política financiera del gobierno, que hasta ahora ha transformado a los banqueros en los reyes de la economía, con lucros exorbitantes, provenientes de las tasas de interés más altas del mundo. Con esas tasas el gobierno financia su gasto público, que se ha salido de madre en la administración petista. Lula creó diez ministerios más, pasando de 25 para 35, a fin de darle guarida a sus compañeros de Partido. Clientelismo puro. No se sabe cómo el gobierno va a continuar con este festival de gastos, frente a la crisis internacional que ya ha golpeado a las puertas del Brasil, produciendo innumerables despidos en las fábricas y en el comercio. El presidente dijo, en días pasados, que cortaría otros gastos, pero no los relativos a los programas sociales.
Recientemente, Lula tomó dos decisiones, cuestionables jurídicamente, pero que le abrirán el paso a su candidata, la ex-guerrillera Dilma Youssef, ministra de la Casa Civil, el cargo más cercano al presidente. Primera decisión: invitó a Brasilia a los 5.500 prefectos (alcaldes) del país. Sólo pudieron hacerse presentes 3.500 (con sus respectivas comitivas), pero la fiesta les salió cara a los contribuyentes: 5 millones de reales (equivalentes a 2 millones 173 mil dólares). Lula los recibió en un gimnasio, en donde, además de pronunciar emocionado discurso quejándose de la prensa escrita, el exlíder metalúrgico dijo que puede perder la compostura pero no la dignidad (contorsión política difícil de realizar). Lula les anunció a los prefectos que les quedaban dilatadas las deudas actuales con la Unión, pudiendo pagarlas en 20 años. O sea, el actual presidente legisla para los gobiernos futuros, que van a tener que aguantar el peso de su decisión populista, que simplemente premia a todos aquéllos que hayan echado por tierra la Ley de Responsabilidad Fiscal, que les impide a los mandatarios municipales que gastaron más de lo que tenían en caja, recibir financiamentos federales. Segunda decisión: un decreto presidencial torna legales las emisoras piratas. Es evidente que el mandatario busca, con ésto, ganarse el apoyo de comunidades carentes, en morros y favelas de este inmenso país. Pero los directamente beneficiados serán, sin duda alguna, los narcotraficantes, que son los que generalmente financian estas radios y que deben estar frotándose las manos de alegría. Serán beneficiadas también las funerarias, pues las radios piratas van a hacer aumentar los accidentes de aviación.
Las soluciones populistas les cuestan caro a las Naciones. En Colombia, todos sabemos cómo el país sufrió las consecuencias de las políticas populistas de las décadas de 70 y 80 del siglo pasado, que sólo produjeron el efecto nocivo de abrirles camino a los narcotraficantes y a los guerrilleros, para que penetraran definitivamente en la política nacional. En Brasil, los electores se han olvidado ya de cómo le salió cara a la ciudad de Rio de Janeiro la política populista de Leonel Brizola, en los años 80, cuando él se eligió dos veces gobernador del Estado, con un demagógico programa que el lider populista denominaba “socialismo moreno” y que bien podría haberse bautizado como “bandidaje moreno”. Para ganarse el apoyo de los habitantes de las favelas, Brizola les concedió a éstas el beneficio de ser territorios libres de la presencia policial. Consecuencia: Brizola transformó los morros cariocas en santuarios del crimen organizado, en los que se tornaron fuertes verdaderos ejércitos de criminales (Comando Vermelho, Segundo Comando da Capital, Amigos dos Amigos), que cuentan hoy con mayor poder de fuego que la policía y que reúnen una fuerza armada calculada en más de siete mil hombres. Ni hablar de los índices de violencia que la narcoguerrilla urbana ha producido en Rio y que se han extendido a otras ciudades del Brasil, siendo São Paulo, hoy en día, rehén de las bandas de asesinos, organizadas con el apoyo del narcotráfico carioca.
Una perla para terminar esta ensalada tropical: terminó ayer en Rio la reunión de expresidentes e intelectuales latinoamericanos que discuten las políticas que deberían ser desarrolladas, a nivel continental, para hacer frente al problema del narcotráfico. La reunión era para ser realizada en Ciudad de México que, por las duras circunstancias impuestas por los narcoterroristas, dejó de ser sede del conclave de exmandatarios. Ellos se reunieron en Rio de Janeiro, que tampoco es una maravilla de seguridad pero que, al parecer, está mejor en ese iten que la capital mexicana. Me pareció muy equilibrada la posición del exalcalde de Bogotá, Antanas Mockus, que dijo que las políticas antidrogas no deberían ser apenas represivas, sino también educativas. La represión pura ha fallado. Es necesario hacer fuerte inversión en educación y en cultura, a fin de que la sociedad civil compre la idea de que la droga es mala y, así, desestimular el consumo de la misma por parte de las nuevas generaciones. Ciertamente Bogotá y Medellín tendrían en este particular mucho para enseñarle a las otras ciudades del Continente latinoamericano, en materia de políticas educativas para erradicar la violencia.
Aceptando que sea verdadero, ese índice se explicaría gracias a las políticas de distribución de recursos directos, por parte de la Presidencia, a la población más carente. Se trata de una especie de “beca-familia”, que les da ayuda pecuniaria a las personas, la mayor parte de las veces sin controlar la efectividad de esa ayuda, lo que la ha convertido en una medida puramente asistencialista. Las familias inscritas reciben un valor mensual que oscila entre 60 y 120 reales (26 a 52 dólares), con un complemento de aproximadamente 30 reales (13 dólares) por cada hijo menor de 18 años. Evidentemente que la popularidad de Lula se alimenta también con la política financiera del gobierno, que hasta ahora ha transformado a los banqueros en los reyes de la economía, con lucros exorbitantes, provenientes de las tasas de interés más altas del mundo. Con esas tasas el gobierno financia su gasto público, que se ha salido de madre en la administración petista. Lula creó diez ministerios más, pasando de 25 para 35, a fin de darle guarida a sus compañeros de Partido. Clientelismo puro. No se sabe cómo el gobierno va a continuar con este festival de gastos, frente a la crisis internacional que ya ha golpeado a las puertas del Brasil, produciendo innumerables despidos en las fábricas y en el comercio. El presidente dijo, en días pasados, que cortaría otros gastos, pero no los relativos a los programas sociales.
Recientemente, Lula tomó dos decisiones, cuestionables jurídicamente, pero que le abrirán el paso a su candidata, la ex-guerrillera Dilma Youssef, ministra de la Casa Civil, el cargo más cercano al presidente. Primera decisión: invitó a Brasilia a los 5.500 prefectos (alcaldes) del país. Sólo pudieron hacerse presentes 3.500 (con sus respectivas comitivas), pero la fiesta les salió cara a los contribuyentes: 5 millones de reales (equivalentes a 2 millones 173 mil dólares). Lula los recibió en un gimnasio, en donde, además de pronunciar emocionado discurso quejándose de la prensa escrita, el exlíder metalúrgico dijo que puede perder la compostura pero no la dignidad (contorsión política difícil de realizar). Lula les anunció a los prefectos que les quedaban dilatadas las deudas actuales con la Unión, pudiendo pagarlas en 20 años. O sea, el actual presidente legisla para los gobiernos futuros, que van a tener que aguantar el peso de su decisión populista, que simplemente premia a todos aquéllos que hayan echado por tierra la Ley de Responsabilidad Fiscal, que les impide a los mandatarios municipales que gastaron más de lo que tenían en caja, recibir financiamentos federales. Segunda decisión: un decreto presidencial torna legales las emisoras piratas. Es evidente que el mandatario busca, con ésto, ganarse el apoyo de comunidades carentes, en morros y favelas de este inmenso país. Pero los directamente beneficiados serán, sin duda alguna, los narcotraficantes, que son los que generalmente financian estas radios y que deben estar frotándose las manos de alegría. Serán beneficiadas también las funerarias, pues las radios piratas van a hacer aumentar los accidentes de aviación.
Las soluciones populistas les cuestan caro a las Naciones. En Colombia, todos sabemos cómo el país sufrió las consecuencias de las políticas populistas de las décadas de 70 y 80 del siglo pasado, que sólo produjeron el efecto nocivo de abrirles camino a los narcotraficantes y a los guerrilleros, para que penetraran definitivamente en la política nacional. En Brasil, los electores se han olvidado ya de cómo le salió cara a la ciudad de Rio de Janeiro la política populista de Leonel Brizola, en los años 80, cuando él se eligió dos veces gobernador del Estado, con un demagógico programa que el lider populista denominaba “socialismo moreno” y que bien podría haberse bautizado como “bandidaje moreno”. Para ganarse el apoyo de los habitantes de las favelas, Brizola les concedió a éstas el beneficio de ser territorios libres de la presencia policial. Consecuencia: Brizola transformó los morros cariocas en santuarios del crimen organizado, en los que se tornaron fuertes verdaderos ejércitos de criminales (Comando Vermelho, Segundo Comando da Capital, Amigos dos Amigos), que cuentan hoy con mayor poder de fuego que la policía y que reúnen una fuerza armada calculada en más de siete mil hombres. Ni hablar de los índices de violencia que la narcoguerrilla urbana ha producido en Rio y que se han extendido a otras ciudades del Brasil, siendo São Paulo, hoy en día, rehén de las bandas de asesinos, organizadas con el apoyo del narcotráfico carioca.
Una perla para terminar esta ensalada tropical: terminó ayer en Rio la reunión de expresidentes e intelectuales latinoamericanos que discuten las políticas que deberían ser desarrolladas, a nivel continental, para hacer frente al problema del narcotráfico. La reunión era para ser realizada en Ciudad de México que, por las duras circunstancias impuestas por los narcoterroristas, dejó de ser sede del conclave de exmandatarios. Ellos se reunieron en Rio de Janeiro, que tampoco es una maravilla de seguridad pero que, al parecer, está mejor en ese iten que la capital mexicana. Me pareció muy equilibrada la posición del exalcalde de Bogotá, Antanas Mockus, que dijo que las políticas antidrogas no deberían ser apenas represivas, sino también educativas. La represión pura ha fallado. Es necesario hacer fuerte inversión en educación y en cultura, a fin de que la sociedad civil compre la idea de que la droga es mala y, así, desestimular el consumo de la misma por parte de las nuevas generaciones. Ciertamente Bogotá y Medellín tendrían en este particular mucho para enseñarle a las otras ciudades del Continente latinoamericano, en materia de políticas educativas para erradicar la violencia.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
CONFUSÕES, TROVÕES E NEVASCAS
Começou 2009 com turbulências, tanto no Hemisfério Norte, com nevascas de arrepiar, quanto no Sul, com trovões mil. A crise do sistema financeiro internacional, longe de ficar restrita ao Primeiro Mundo – como era o desejo de líderes populistas – alastrou-se por todas partes, contaminando a economia real. E produzindo os efeitos que conhecemos, de desemprego, desaceleração da economia, incerteza quanto ao futuro. Os profetas de desgraças retomaram a sua ladainha: “o capitalismo está morto!” Essa foi a pregação do arauto dos populistas latino-americanos, no Foro Social Mundial, em Belém. Para o coronel Chávez, tudo está claro: a crise atual marca o fim do capitalismo (que, aliás, lhe garante a sobrevivência, comprando o petróleo venezuelano). O país bolivariano comandado por ele está a salvo, pois se converteu em reino da economia socialista. Esquecem-se os profetas do coletivismo de que, antes do capitalismo entrar na crise sistêmica atual, o socialismo já tinha afundado estrepitosamente com a queda do Império Soviético, que foi motivada, inicialmente, pela quebradeira geral das economias do leste europeu.
A China foi salva pelo pragmatismo do confucionismo, que é a ideologia que a anima e que lhe inspirou os horizontes de uma nova forma de capitalismo, o chinês. Dizia Bonaparte: “arranhai um russo, encontrareis um tártaro”. Parafraseando-o, poderíamos dizer: “arranhai um chinês, encontrareis um confuciano”. Mão, na milenar história chinesa, não passa de um arranhão. O fundamental é o senso de trabalho, de disciplina e de busca do progresso material, herdado das tradicionais mitologias desse imenso país. Isso ficou explícito, aliás, na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim, nas quais nada foi apresentado do líder da “longa marcha”, nem da sua “revolução cultural”. Tudo fluiu para mostrar que a China hoje ancora diretamente em antiqüíssimas tradições que exaltam a disciplina e a produtividade. É claro que, por entre os panos de fundo da apresentação multimídia, esconde-se o dragão do despotismo hidráulico. Mas os chineses apresentam essa circunstância como parte de sua cultura, não como algo que se contraponha à produção capitalista, ou à versão oriental de democracia, pautada pela eficiência do mandarinato, não pelo número dos votantes ou pela representação política.
Na retórica de eterno-palanque que caracteriza os discursos de Lula, tudo no Brasil vai muito bem, com a realização do PAC, à cuja testa está o Estado-empresário e o seu carro-chefe, o Executivo. Ora, é necessário deixar bem claro que a presença do Estado, nos atuais solavancos que minam a confiança dos investidores no sistema financeiro, é necessária, sim, mas com medida, apenas para garantir o reerguimento do sistema, não para substituir os empresários pelos burocratas, ou o capitalismo de mercado pela camelotagem africana. A propósito disto, o ex-ministro Malan alertava, em artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo (“Respostas à crise: o uso de Keynes”, 8 de fevereiro de 2009) para o uso abusivo que normalmente se faz das idéias do economista inglês, em contextos comandados pelo clientelismo político. O keynesianismo, certamente, perdeu muito da sua essência no meio latino-americano, por força das versões estatizantes que não poucas vezes inspiraram as cabeças dos economistas cepalinos, brindado aos países latino-americanos com surtos inflacionários indesejáveis, nas últimas décadas do século passado.
Passando das confusões econômicas para as turbulências políticas, o episódio do defenestramento do deputado Edmar Moreira da Corregedoria da Câmara dos Deputados está a mostrar, de forma maravilhosamente explícita, a natureza muitas vezes oculta, mas não por isso menos real, do “feudalismo achamboado”, típico do nosso patrimonialismo tupiniquim. Notem os amigos leitores que estou falando em “feudalismo achamboado”, e não simplesmente em “feudalismo”, para não cometer a falha em que a revista inglesa The Economist incorreu dias atrás, ao caracterizar tradicional chefe da oligarquia nordestina como “feudal”. O que temos, aqui, como alertava o grande mestre Oliveira Vianna (em Populações meridionais do Brasil), não é um modelo de poder feudal, submetido às tradições de negociação e aos controles da sociedade civil, mas um “feudalismo achamboado”, mais parecido com as satrapias persas, em que os “donos do poder” dispõem até da vida dos seus subordinados, não prestando contas a ninguém.
Nesse clima de “não prestar contas a ninguém”, o deputado Moreira decidiu dar vazão aos seus sonhos, e construir o castelo almejado. Tudo coincidindo com a possibilidade de um dia, talvez, ser legalizado o jogo no Brasil. Estrategicamente colocada a meio-caminho entre o Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, a pacata cidade de São João Nepomuceno poderia se tornar, com o castelo do deputado, uma fonte de riqueza espetacular da zona da Mata Mineira, a escassos 15 quilômetros do novo aeroporto regional, ainda em construção. Visão esperta de quem sabe que a aliança entre empresas de vigilância e jogos de azar pode dar muito dinheiro. Mas as circunstâncias estão a mostrar que o episódio do ex-Corregedor com castelo é um convite à criminosa tolerância com os desmandos dos membros do Legislativo. Sobretudo se levarmos em consideração as primeiras declarações do Corregedor defenestrado: “Nesta casa temos o vício da amizade”.
A China foi salva pelo pragmatismo do confucionismo, que é a ideologia que a anima e que lhe inspirou os horizontes de uma nova forma de capitalismo, o chinês. Dizia Bonaparte: “arranhai um russo, encontrareis um tártaro”. Parafraseando-o, poderíamos dizer: “arranhai um chinês, encontrareis um confuciano”. Mão, na milenar história chinesa, não passa de um arranhão. O fundamental é o senso de trabalho, de disciplina e de busca do progresso material, herdado das tradicionais mitologias desse imenso país. Isso ficou explícito, aliás, na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim, nas quais nada foi apresentado do líder da “longa marcha”, nem da sua “revolução cultural”. Tudo fluiu para mostrar que a China hoje ancora diretamente em antiqüíssimas tradições que exaltam a disciplina e a produtividade. É claro que, por entre os panos de fundo da apresentação multimídia, esconde-se o dragão do despotismo hidráulico. Mas os chineses apresentam essa circunstância como parte de sua cultura, não como algo que se contraponha à produção capitalista, ou à versão oriental de democracia, pautada pela eficiência do mandarinato, não pelo número dos votantes ou pela representação política.
Na retórica de eterno-palanque que caracteriza os discursos de Lula, tudo no Brasil vai muito bem, com a realização do PAC, à cuja testa está o Estado-empresário e o seu carro-chefe, o Executivo. Ora, é necessário deixar bem claro que a presença do Estado, nos atuais solavancos que minam a confiança dos investidores no sistema financeiro, é necessária, sim, mas com medida, apenas para garantir o reerguimento do sistema, não para substituir os empresários pelos burocratas, ou o capitalismo de mercado pela camelotagem africana. A propósito disto, o ex-ministro Malan alertava, em artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo (“Respostas à crise: o uso de Keynes”, 8 de fevereiro de 2009) para o uso abusivo que normalmente se faz das idéias do economista inglês, em contextos comandados pelo clientelismo político. O keynesianismo, certamente, perdeu muito da sua essência no meio latino-americano, por força das versões estatizantes que não poucas vezes inspiraram as cabeças dos economistas cepalinos, brindado aos países latino-americanos com surtos inflacionários indesejáveis, nas últimas décadas do século passado.
Passando das confusões econômicas para as turbulências políticas, o episódio do defenestramento do deputado Edmar Moreira da Corregedoria da Câmara dos Deputados está a mostrar, de forma maravilhosamente explícita, a natureza muitas vezes oculta, mas não por isso menos real, do “feudalismo achamboado”, típico do nosso patrimonialismo tupiniquim. Notem os amigos leitores que estou falando em “feudalismo achamboado”, e não simplesmente em “feudalismo”, para não cometer a falha em que a revista inglesa The Economist incorreu dias atrás, ao caracterizar tradicional chefe da oligarquia nordestina como “feudal”. O que temos, aqui, como alertava o grande mestre Oliveira Vianna (em Populações meridionais do Brasil), não é um modelo de poder feudal, submetido às tradições de negociação e aos controles da sociedade civil, mas um “feudalismo achamboado”, mais parecido com as satrapias persas, em que os “donos do poder” dispõem até da vida dos seus subordinados, não prestando contas a ninguém.
Nesse clima de “não prestar contas a ninguém”, o deputado Moreira decidiu dar vazão aos seus sonhos, e construir o castelo almejado. Tudo coincidindo com a possibilidade de um dia, talvez, ser legalizado o jogo no Brasil. Estrategicamente colocada a meio-caminho entre o Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, a pacata cidade de São João Nepomuceno poderia se tornar, com o castelo do deputado, uma fonte de riqueza espetacular da zona da Mata Mineira, a escassos 15 quilômetros do novo aeroporto regional, ainda em construção. Visão esperta de quem sabe que a aliança entre empresas de vigilância e jogos de azar pode dar muito dinheiro. Mas as circunstâncias estão a mostrar que o episódio do ex-Corregedor com castelo é um convite à criminosa tolerância com os desmandos dos membros do Legislativo. Sobretudo se levarmos em consideração as primeiras declarações do Corregedor defenestrado: “Nesta casa temos o vício da amizade”.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
POR QUE PENSADOR DE LA MANCHA?
Quise darle a mi blog un carácter crítico, como lo fué don Quijote de la Mancha. Contra la mediocridad, quijotismo! El ilustre manchego no tuvo miedo de mandar por los aires las convenciones ultrapasadas, a fin de hacer surgir nuevos modos de vida. Sin matar la capacidad de soñar. Sin pasar por encima de las personas. Rehaciendo un universo gastado, con la magia de la imaginación creadora y abriéndole las puertas a la aventura del pensamiento. El título general de este blog es "Rocinante", el fiel caballo de don Quijote que, junto con Sancho, fué su compañero de palizas, desgracias y glorias. Amigos lectores, blogueros de este mundo infinito, aquí estoy! Adelante, muchas aventuras y buenos combates!
Combatiré en español y portugués, las dos lenguas ibéricas, la de mi nacimiento y la de mi adopción. Ambas han estado hermanadas en mi existencia, para amar, para pelear, para dar mis clases, para pensar, en fin, para vivir. No podría dejar a la una para preferir la otra. Ambas son parte de mí mismo.
Combatiré en español y portugués, las dos lenguas ibéricas, la de mi nacimiento y la de mi adopción. Ambas han estado hermanadas en mi existencia, para amar, para pelear, para dar mis clases, para pensar, en fin, para vivir. No podría dejar a la una para preferir la otra. Ambas son parte de mí mismo.
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