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domingo, 1 de novembro de 2009

CRÔNICA BRACARENSE III – O ESPÍRITO BARROCO E A ESCOLA DE BRAGA


Faculdade de Filosofia de Braga, vinculada à Universidade Católica Portuguesa, onde se realizou o Colóquio sobre "A Escola de Braga e a Formação Humanística", nos dias 16 e 17 de Outubro de 2009


O Padre Augusto Hortal, da Universidade de Comillas, na Conferência de Encerramento do Colóquio sobre "A Escola de Braga e a Formação Humanística"


Este blogueiro no Colóquio "A Escola de Braga e a Tradição Humanística"


Braga barroca: Palácio dos Biscainhos, Jardins


Braga barroca: Palácio dos Biscainhos

Nos dias 16 e 17 de Outubro de 2009 realizou-se, na Faculdade de Filosofia de Braga, vinculada à Universidade Católica Portuguesa, o Colóquio A Escola de Braga e a Formação Humanística, tradição e inovação. O evento foi presidido pelo professor doutor José Gonçalves da Gama, da Faculdade de Filosofia de Braga, sendo que os trabalhos administrativos estiveram sob a coordenação do Dr. José António Alves, da mesma Faculdade. As principais conferências pronunciadas no evento foram as seguintes: “A matriz inspiradora da Escola de Braga” (Roque Cabral), “A Escola de Braga e os seus antecedentes” (J. Pinharanda Gomes), “A Escola de Braga e a renovação filosófica contemporânea em Portugal” (António Braz Teixeira), “A Escola de Braga e os estudos gramatológicos e histórico-lingüísticos” (Amadeu Torres), “A Escola de Braga na tradição humanística portuguesa” (Margarida Miranda), “A Escola de Braga e os seus mestres em Filosofia” (Acílio Rocha), “A Escola de Braga e os seus mestres em Humanidades” (Mário Garcia), “J. Bacelar e Oliveira e o neotomismo na Escola de Braga” (Manuel Cândido Pimentel), “A Escola de Braga no contexto do pensamento pedagógico português contemporâneo” (Manuel Ferreira Patrício).

Tive a grata oportunidade de participar desse evento com a conferência intitulada: “A Escola de Braga no contexto do pensamento luso-brasileiro”, cujo texto, resumido, insiro a seguir:


RESUMO
Não se pode falar, em sentido estrito, de uma influência direta da Escola de Braga sobre o pensamento filosófico brasileiro, embora essa influência seja visível em Portugal. No entanto, a importância conferida pela mencionada Escola ao tema do “Humanismo Cristão”, encontra manifestação semelhante no contexto brasileiro. Deve ser tributada essa característica ao fato de, tanto a Escola de Braga quanto os pensadores brasileiros de inspiração neotomista, terem sido inspirados por fontes semelhantes, que poderiam ser identificadas com as seguintes variáveis: 1) inspiração comum em vertentes próximas ao “Humanismo Integral” de Jacques Maritain; 2) longínqua inspiração de ambas as correntes de pensamento na denominada “segunda escolástica” ibérica, notadamente nas idéias do padre Francisco Suárez, que tendeu liames sistemáticos entre o legado da filosofia tomista e a ciência moderna; 3) situação semelhante enfrentada pela Igreja Católica no Brasil e em Portugal, na primeira metade do século XX, ao ensejo do confronto entre a doutrina católica com as filosofias que se contrapunham à vivência cristã; desse fato emergiria, pela mão dos pensadores de Braga e da corrente neotomista no Brasil, uma tentativa de avaliação crítica das mencionadas filosofias, num clima de abertura em face do pensamento moderno e o universo da ciência, superando os extremos apologético e de simples claudicação perante as concepções imanentistas vigentes, mas reformulando as próprias idéias com a fecunda influência de conceitos e perspectivas provenientes do pensamento contemporâneo. Na comunicação serão desenvolvidos os seguintes itens:

I - O neotomismo da Escola de Braga e as manifestações neotomistas no Brasil.

II – O papel desempenhado, em Portugal, pela Revista Portuguesa de Filosofia e pelas Revistas Brasileira de Filosofia e Convívio, no Brasil, no esforço em prol de reconstituir o passado filosófico nacional.

III – O significado do 1º Congresso Luso-Brasileiro de Filosofia, reunido em Braga, em 1981.

IV – A iniciativa editorial mais importante inspirada pela Escola de Braga: a Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia (1989-1992).

PALAVRAS-CHAVE: Escola de Braga – Filosofia Portuguesa – Filosofia Brasileira – Filosofia neotomista em Portugal – Filosofia neotomista no Brasil – Humanismo cristão


ABSTRACT - THE BRAGA SCHOOL IN PORTUGUESE-BRAZILIAN CONTEXT
Although visible in Portugal, it is not possible to identify a direct influence of Braga School on brazilian philosophical thought in a scrict sense. However, the emphasis that such school gives to Christian Humanism can be found on brazilian context. The reason is that either Braga School or brazilian thinkers from neo-tomist strain found inspiration in similar sources, which can be identified as follows: 1) they were both inspired by Integral Humanism by Jacques Maritain; 2) both strain thoughts were distantly inspired by the so-called iberian‘second scholastic’, mainly on father Francisco Suarez’s ideas, who established systematic links between tomist philosophy legacy and modern science; 3) in the first half of the 20th century both brazilian and portuguese Catholic churches faced similar situations of confrontation between catholic doctrine and the philosophy strains that were antagonic to the Christian living. From this confrontation would emmerge, by the hands of Braga thinkers and neo-tomist strain in Brazil, an attempt to make a critical evaluation of such strains in an open way, based on modern and scientific thoughts, overcoming the effective apologetic and hesitating approach of imanentist views, and reviewing their own ideas on the influence of concepts and perspectives taken from contemporary thought. The following subjects will be delevoped during the lecture:

I – Braga School neotomism and neotomist manifestation in Brazil.

II – The role, in Portugal, of Revista Portuguesa de Filosofia (Portuguese Philosophy magazine) and in Brazil, of Revista Brasileira de Filosofia (Brazilian Philosophy magazine) and Convívio magazine, in the effort to rebuild the national philosophical past.

III – The importance of the 1st Brazilian-Portuguese Philosophy Congress, held in 1981, in Braga.

IV – The most important editorial initiative inspired by Braga School: the Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia [Logos - Brazilian-Portuguese Encyclopedia] (1989-1992).

KEY WORDS: Braga School – Portuguese Phìlosophy – Brazilian Philosophy – Neo-tomist Philosophy in Portugal – Neo-tomist Philosophy in Brazil – Christian Humanism


Introdução. - A Escola de Braga, no contexto português, constitui tendência cultural da maior importância, que encontrou, do outro lado do Atlântico, no Brasil, não propriamente um prolongamento direto, mas uma tendência de semelhante valor teórico, centrada, de um lado, ao redor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e, de outro (e principalmente), ao redor do Instituto Brasileiro de Filosofia, criado por Miguel Reale (1910-2006) em 1949, em São Paulo. É meu propósito destacar, aqui, os principais aspectos de ambas as manifestações culturais, me somando, assim, às comemorações que a Universidade Católica Portuguesa realiza ao redor da temática da herança humanística da Escola de Braga.

Quero registrar aqui, em primeiro lugar, o meu agradecimento aos organizadores deste evento, que tiveram a gentileza de me convidar para expor o tema que me foi encomendado e que dá título a esta conferência. Gostaria de agradecer, outrossim, ao amigo António Braz Teixeira, pelas oportunas diretrizes que me deu para a elaboração do meu texto. Agradeço, também, ao mestre e amigo Antônio Paim, que indicou o meu nome aos organizadores do Colóquio.

Desenvolverei quatro itens: I - O neotomismo da Escola de Braga e as manifestações neotomistas no Brasil. II – O papel desempenhado, em Portugal, pela Revista Portuguesa de Filosofia e pelas Revistas Brasileira de Filosofia e Convívio, no Brasil, no esforço em prol de reconstituir o passado filosófico nacional. III – O significado do 1º Congresso Luso-Brasileiro de Filosofia, reunido em Braga, em 1981. IV – A iniciativa editorial mais importante inspirada pela Escola de Braga: a Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia (1989-1992).

I –O Neotomismo da Escola de Braga e as Manifestações Neotomistas no Brasil.
Característica fundamental da Escola de Braga de pensamento foi, por um lado, a sua fidelidade ao que poderíamos denominar de Humanismo Cristão, ou seja, a defesa clara do ideal de pessoa humana, de acordo à visão transcendente herdada do Tomismo; de outro lado, a corajosa abertura ao mundo contemporâneo, traduzida na simpatia e rigor intelectual com que esta escola acolheu a problemática filosófica em face do homem hodierno, bem como diante dos grandes avanços científicos que têm caracterizado esta quadra da história humana. Ambas as notas que acabo de destacar em relação à Escola de Braga, já as tinha eu vivenciado, quando da minha formação filosófica na Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá, no início dos anos sessenta do século passado. Lembro, com admiração, a seriedade intelectual e a abertura dos meus saudosos mestres da Companhia de Jesus.

Mencionarei, a seguir, de forma sucinta, os mais destacados representantes da Escola de Braga, todos eles sacerdotes da Companhia de Jesus: Cassiano dos Santos Abranches (1896-1983).- Júlio Moreira Fragata (1920-1985).- Diamantino Martins (1910-1979), José do Patrocínio Bacelar e Oliveira (1916-1999) e Victorino de Sousa Alves (1915-2002).

Dois temas sobressaem na investigação filosófica e nos escritos de Bacelar e Oliveira: em primeiro lugar, no terreno da Antropologia Filosófica, o autor segue uma linha de inspiração neoplatónico-tomista e conimbricense. O homem é entendido, frisa Roque Cabral, como síntese do universo, “centro de convergência e articulação dos corpos com o espírito, do tempo com a eternidade, do indivíduo e da pessoa”. Esta concepção antropológica encontra-se na Tese de Doutoramento de Bacelar e Oliveira, intitulada: O homem como antinomia e harmonia, na concepção metafísica de São Tomás de Aquino (1949). Síntese da mencionada tese foi publicada na Revista Portuguesa de Filosofia, com o título: “No horizonte da eternidade e do tempo. Antinomia da duração humana”. Em segundo lugar, no terreno da inter-relação entre a Crítica e a Ontologia, Bacelar e Oliveira ensaia um ponto de partida para a fundamentação sistemática dos tratados de filosofia teorética. O autor parte para a “interpretação da noção de metafísica como núcleo de actividade constituinte e constituída, no processo de afirmação transcendental do ser”. Em dois artigos publicados, em 1954 e 1957, na Revista Portuguesa de Filosofia, Bacelar e Oliveira deixou exposta esta parte do seu pensamento.

A fenomenologia husserliana foi o tema central da meditação de Júlio Fragata, a partir da elaboração de sua tese de doutoramento, intitulada: A Fenomenologia de Husserl como fundamento da Filosofia (1959). O autor dá prosseguimento aos estudos fenomenológicos até o final de seus dias, sendo a obra intitulada: Fenomenologia e Gnoseologia (1983) um dos seus últimos escritos. Á maneira de Husserl, Fragata considera a filosofia como um saber que exige fundamentação radical, na busca de uma “universalis sapientia”, o que obriga a uma superação de quaisquer pressupostos, a fim de atingir as coisas mesmas, numa evidência intuitiva originária. A evidência direta do mundo natural deve ser abandonada e substituída por uma evidência reflexa, que revele o objeto numa relação intencional com o sujeito. O filósofo não deve ficar preso, portanto, à realidade objectiva, mas precisa buscar a realidade no fenômeno, no seio da consciência. A evidência apodítica do fenômeno liberta ao filósofo da coisa em si, dando ensejo a um idealismo transcendental. Um dos pontos mais originais da fenomenologia de Júlio Fragata reside em mostrar que o fenômeno puro não abandona o sujeito no solipsismo, mas o abre ao mundo transcendente. Este, portanto, não é negado pela fenomenologia do nosso autor, apenas posto entre parêntese. Analisando o fenômeno em profundidade, essa realidade transcendente aparece ao sujeito como dada, ao mesmo tempo com a vivência interna do fenômeno. Este é o ponto alto da sua doutrina filosófica.

No contexto da visão metafísica anteriormente exposta, Júlio Fragata desenvolve a concepção acerca da pessoa e da sua dinâmica. À luz da teoria dos três princípios mencionados (interioridade, exterioridade e totalidade), o autor coloca a pessoa humana numa perspectiva evolutiva visando à unidade. A pessoa desenvolve-se como identidade do eu (que se apreende como ele mesmo), superando as condições biológicas do universo físico-químico, incluindo aí a morte. A pessoa perpassa essas circunstâncias, preservando sempre a identidade do seu eu. Júlio Fragata expõe as conseqüências que, do ângulo teológico, decorrem de sua concepção antropológico-metafísica, na obra intitulada Morte e perenidade (1984).

As Manifestações Neotomistas no Brasil. - No terreno das idéias filosóficas, duas personalidades deram impulso definitivo à corrente neotomista, estabelecendo o diálogo entre o legado do Doctor Angelicus e as correntes de pensamento em que se traduziu a angustiosa problemática do homem do século XX.

Essas duas personalidades foram Alceu Amoroso Lima (pseudônimo Tristão de Athaíde, 1893-1983) e Dom Irineu Penna (1916-2008). Quanto ao primeiro, frisa Antônio Paim: “O surto tomista suscitou, através da obra de Alceu Amoroso Lima, uma temática de grande significação – o valor da pessoa e a herança representada pela moral judaico-cristã -, apta a estabelecer um diálogo profícuo entre a meditação católica e a filosofia brasileira de inspiração laica. Assim, despojada de imposições extrafilosóficas, a filosofia católica revelou-se capaz de expressar suas virtualidades no plano próprio, notadamente na sua relação com a intelectualidade que não comunga das mesmas crenças fundamentais”. Dom Irineu Penna (monge da Ordem Beneditina), tendo recebido rigorosa formação matemática e científica na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, deu uma contribuição fundamental ao diálogo entre a filosofia neotomista e a ciência moderna. A propósito, frisa Paim: “D. Irineu ocupou-se, sobretudo, da difusão e do aprofundamento do conceito contemporâneo de ciência, com o propósito de correlacioná-lo à possibilidade da inquirição metafísica, superando a interdição positivista. Neste particular, cabe ter presente que um dos grandes feitos do movimento neoescolástico reside na adequada conceituação da ciência e, por essa via, no estabelecimento das regras de sua coexistência com a filosofia cristã. (...) O mérito de D. Irineu consiste em haver destacado essa contribuição, evidenciando a possibilidade de fixar-se um patamar comum entre as principais correntes da contemporânea filosofia brasileira, no que se refere à conceituação da ciência, já que a partir daí é que se definem as divergências”.

Além das duas personalidades precursoras que acabo de mencionar, três figuras apresentam-se como representativas da corrente neotomista no Brasil: Leonel Franca, Leonardo Van Acker e Henrique Cláudio de Lima Vaz.

Leonel Franca (1893-1948).- Sacerdote Jesuíta, foi uma das figuras-chave no renascimento do Catolicismo no Brasil, movimento presidido pelo Cardeal Dom Leme. Fundou, em 1940, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, tendo sido o seu Reitor até o falecimento. Em 1921 publicou, como Apêndice ao seu Compêndio de Filosofia (o livro de texto mais seguido no Brasil, ao longo de várias décadas) o suplemento intitulado A Filosofia no Brasil. Nele, frisa Antônio Paim, “não cuidou de estudar o pensamento brasileiro em sua validade intrínseca, estando mais preocupado em demonstrar a necessidade do retorno ao tomismo, o que dá à sua obra um cunho apologético. Não obstante isto, deixou-nos observações valiosas sobre as teorias filosóficas na história do Brasil, com dados que serviram de base à reapreciação da história das idéias de maneira mais objectiva”.

Leonardo Van Acker (1896-1986).- Na trilha da formação recebida na Universidade de Louvain, Van Acker desenvolveu um pensamento tomista aberto às hodiernas correntes e à discussão dos mais prementes problemas do mundo atual. São suas as seguintes palavras: “É pela via altruísta do conhecimento e da estima do outro que o tomismo deve chegar ao conhecimento e à justa apreciação de si mesmo”. A atuação de Van Acker, no meio intelectual brasileiro, traduziu-se em um ambiente de abertura compreensiva e crítica do pensamento filosófico contemporâneo, superando definitivamente o clima de polêmica ensejado pela atitude apologética. Segundo Paim, Van Acker “estudou as principais correntes da filosofia contemporânea, consagrando no Brasil o entendimento do tomismo como uma perspectiva filosófica, aberta ao diálogo, e não como um corpo rígido de doutrinas a que se devem enquadrar os problemas teóricos emergentes. No esforço de aproximação compreensiva que praticou em relação aos mais importantes filósofos de seu tempo, considerava como contribuição original o estudo que dedicou à epistemologia e ao método de Bergson”.

Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921-2002).- Sacerdote jesuíta, discípulo de Leonel Franca. Lima Vaz procurou conferir ao neotomismo um sentido social e histórico, o que, na visão de alguns de seus críticos, o torna vizinho do marxismo, com as conseqüentes decorrências no plano político. Embora o historicismo hegeliano exerça grande inspiração no autor, ele consegue superá-lo, no entanto, em decorrência do seu enraizamento no existencialismo cristão, bem como na filosofia tomista. Se bem é certo que o pensamento de Lima Vaz se situa no contexto do pensamento neotomista, a sua atuação à frente dos Conselhos da CAPES e do CNPq (órgãos, respectivamente, do Ministério de Educação e do Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil) foi de todo nociva para a continuidade dos Cursos de Mestrado e Doutorado em Filosofia Brasileira e Luso-Brasileira, que surgiram nas décadas de 70 e 80 do século passado. Efetivamente, os discípulos de Lima Vaz, vinculados à Ação Popular, que foram guindados ao papel de Conselheiros de ambos os organismos, sob a coordenação dele próprio, não só obstaculizaram, como também conseguiram que fossem extintos, sucessivamente, o Curso de Mestrado em Pensamento Brasileiro da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (criado em 1972 e extinto em 1979), o Curso de Mestrado e Doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro da Universidade Gama Filho (criado em 1978 e extinto em 1993) e o Curso de Mestrado em Filosofia Brasileira da Universidade Federal de Juiz de Fora (criado em 1984 e extinto em 1996).

II – O papel desempenhado, em Portugal, pela Revista Portuguesa de Filosofia e pelas Revistas Brasileira de Filosofia e Convívio, no Brasil, no esforço em prol de reconstituir o passado filosófico nacional.

Papel pioneiro representou, em Portugal, a Revista Portuguesa de Filosofia, na reconstituição do passado filosófico nacional. Não me deterei na análise da mencionada publicação quanto ao diálogo da filosofia neotomista com o mundo moderno, aspecto que é evidente. Pretendo, melhor, reivindicar o pioneirismo da Revista no estímulo ao estudo sistemático dos pensadores portugueses. A publicação de números especiais, para aprofundar no conhecimento de autores portugueses é um dos pontos-chave do grande labor de pesquisa desenvolvido pela publicação em apreço. Vale a pena mencionar esses títulos, que abarcam praticamente todos os períodos da mencionada publicação. Eis a enumeração dos mesmos: Suárez e Balmes, 1948; Francisco Sanches, 1951; Pedro Hispano, 1952; Pedro da Fonseca, 1953; Perspectivas do Curso Bracarense, 1954; I Congresso Nacional de Filosofia (Actas), 1955; Leonardo Coimbra. Inéditos, 1956; Filosofia Portuguesa Actual, 1960; Teixeira de Pascoaes, 1973; Inácio Monteiro (1724-1812), 1973; Homenagem ao Professor Cassiano Abranches, 1978; Contribuição para a Filosofia em Portugal, 1980; I Congresso Luso-Brasileiro de Filosofia, 1982; Leonardo Coimbra (Centenário do nascimento), 1983; II Colóquio Português de Fenomenologia, 1985; Homenagem ao Professor Júlio Fragata, 1986; Filosofia Portuguesa Contemporânea, 1987; Homenagem ao Professor Diamantino Martins, 1988; Filosofia em Portugal - IV, 1989; Filosofia em Portugal - V, 1990; Antero de Quental (Centenário da morte), 1991; Dom Duarte (6º centenário do nascimento), 1991; 450 anos da Companhia de Jesus, 1991; Filosofia em Portugal - VII, 1992; Homenagem ao Professor José Bacelar e Oliveira, 1994; 50 anos da Revista Portuguesa de Filosofia, 1995; Filosofia em Portugal - VIII, 1995; Homenagem Professor Lúcio Craveiro da Silva, 1996; Padre António Vieira, 1997; Os Jesuítas e a Ciência, 1998; Ratio Studiorum da Companhia de Jesus, 1999.

O Instituto Brasileiro de Filosofia foi criado em São Paulo, em 1949, pelo saudoso jurista e filósofo Miguel Reale (1910-2006). O órgão de divulgação do Instituto, a Revista Brasileira de Filosofia, tem sido editada sem interrupção desde 1951, e é uma das mais antigas publicações periódicas de caráter filosófico da América Latina. Segundo destacava o professor Reale em 2005, “A grande missão do IBF foi estabelecer um contato permanente entre os pensadores brasileiros, devido à Revista Brasileira de Filosofia e a periódicos congressos nacionais e internacionais. Com isso, o Brasil passou a ter o seu lugar no mundo filosófico universal, não ficando, porém, limitado à exegese do pensamento estrangeiro”.

O mais importante significado do Instituto Brasileiro de Filosofia consiste em que estimulou, no Brasil, a consolidação e a expansão dos estudos acerca da filosofia nacional. No que tange a este item, Miguel Reale formulou a metodologia que tornou possível o estudo isento dos diversos pensadores. O método histórico-interpretativo de Reale inspira-se em Hegel, Kant, Husserl, Nicolai Hartmann e Mondolfo. Não se fecha perante nenhuma contribuição por modesta que seja. Parte da tentativa de compreender com honestidade a posição do autor a ser estudado, tentando identificar qual é o problema ou os problemas a que tentava responder, para fixar, a partir desse contexto, as linhas essenciais do seu pensamento e o seu entroncamento com correntes filosóficas e com sistemas.

No que tange à divulgação do Pensamento Brasileiro, além da realização de vários Congressos nacionais e internacionais, o IBF desenvolveu ampla tarefa de edição de textos, de que surgiram as coleções: Estante do Pensamento Brasileiro (com apoio da editora da USP) e Biblioteca do Pensamento Brasileiro (em convênio com a Editora Convívio). Este trabalho editorial foi precedido pela publicação da parte intitulada “Documentário de Filosofia no Brasil”, em alguns números da Revista Brasileira de Filosofia. Assim, foram publicadas “páginas destacadas” de pensadores brasileiros, a saber: Clovis Bevilaqua (volumes I e V), Farias Brito (Volume II), Jackson de Figueiredo (volume IV), Pedro Lessa (volume III), etc.

A Revista Convivium, publicada em São Paulo entre 1962 e 1993, sob a direção de Adolpho Crippa (1929-2000) constituiu, junto com a Revista Brasileira de Filosofia, importante espaço para a pesquisa do pensamento filosófico nacional. Nos quase dois mil artigos que foram publicados na Revista, encontra-se significativo cabedal de contribuições que visam a estudar os pensadores brasileiros e portugueses. Os trabalhos de Adolpho Crippa projetaram-se especialmente sobre os autores da denominada “Escola de São Paulo”, cujos principais representantes foram Miguel Reale (1910-2006), Vicente Ferreira da Silva (1916-1963), Eudoro de Sousa (1911-1987) e Agostinho da Silva (1906-1994).

III – O significado do 1º Congresso Luso-Brasileiro de Filosofia, reunido em Braga, em 1981.

O I Congresso Luso-Brasileiro de Filosofia reuniu-se em Braga, de 18 a 22 de fevereiro de 1981, tendo finalizado com uma sessão solene que teve lugar em Lisboa, em 23 de fevereiro, acerca do tema: “Aspectos do pensamento luso-brasileiro”. As Atas do Congresso foram publicadas em fascículo especial da Revista Portuguesa de Filosofia, em 1982. A iniciativa para a realização do Congresso foi da Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro e da Universidade Católica Portuguesa (que delegou à Faculdade de Filosofia de Braga a tarefa de organizar o evento). Lúcio Craveiro da Silva destacou o significado que o I Congresso Luso-Brasileiro de Filosofia teve para o estímulo ao estudo da filosofia portuguesa, na trilha da pesquisa sobre a história da filosofia em Portugal, aberta pelo I Congresso Nacional de Filosofia, realizado em março de 1955 pela Faculdade de Filosofia de Braga. O I Congresso Luso-Brasileiro de Filosofia contou com a participação de 230 congressistas do Brasil, Espanha e Portugal, tendo sido representadas 14 Universidades ou Faculdades do Brasil, 4 Universidades da Espanha e 10 de Portugal, num total de 28 instituições.

IV – A iniciativa editorial mais importante inspirada pela Escola de Braga: a Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia (1989-1992).

Esta Enciclopédia representa, hoje, a mais importante obra de referência na área da História da Filosofia, em língua portuguesa. Em relação ao termo “Logos” com que foi batizada a Enciclopédia, reza assim a Introdução à obra, destacando o seu significado, no contexto do filosofar, na história da cultura ocidental: “Logos é conceito que acompanha as vicissitudes da cultura do Ocidente. Razão universal no mundo clássico, lei de todas as coisas e nelas tornando possível uma ordem, princípio unificante do inteligível. (...). Se tal conceito se encontra, a todo momento, ligado à inteligibilidade do real e portanto à idéia do saber, é designação adequada para uma enciclopédia de Filosofia, uma enkyklios paideia, uma cultura totalizante no âmbito filosófico. Ou seja, de fundamentação de filosofemas, relacionamento entre os vários domínios noéticos, e de exposição de doutrinas, escolas e autores, em ordem a uma organização global. É a um resultado semelhante que aspira a Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. A sua intenção consiste em fornecer ao homem de hoje uma visão segura da problemática da Filosofia, na sua dimensão histórica e sistemática. Como Enciclopédia Luso-Brasileira, ao lado das dilucidações de ordem terminológica e da análise dos filosofemas universais, prestará atenção ao pensamento português e brasileiro, presente nos temas fundamentais, em suas correntes mais relevantes e nas figuras que particularmente se destacam no exercício filosófico”.

A Edição da magna obra, em cinco volumes, foi realizada sob o patrocínio da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa, cabendo a direção da mesma a seis importantes figuras do pensamento luso-brasileiro: Roque Cabral (da Universidade Católica Portuguesa), Francisco da Gama Caeiro (Universidade Clássica de Lisboa), Manuel da Costa Freitas (Universidade Católica Portuguesa), Alexandre Fradique Morujão (Universidade de Coimbra), José do Patrocínio Bacelar e Oliveira (Universidade Católica Portuguesa) e Antônio Paim (Instituto Brasileiro de Filosofia). A Secretaria-Geral da publicação esteve a cargo do Departamento de Enciclopédias da Editorial Verbo, sob a direção de João Bigotte Chorão. A obra foi publicada ao longo do período compreendido entre janeiro de 1989 e novembro de 1992. Constitui, junto com a História do Pensamento Filosófico Português (publicada em Lisboa, em cinco volumes, entre 1999 e 2000, sob a coordenação de Pedro Calafate) , o Dicionário Biobibliográfico de Autores Brasileiros (publicado em Salvador-Bahia em 1999, pelo Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro) e a História das Idéias Filosóficas no Brasil (de Antônio Paim) , marco fundamental, no que tange a obras de referência, no estudo da meditação luso-brasileira.

Conclusão
.- A Escola de Braga retoma, no contexto português do século XX, o espírito barroco de liberdade de pensamento presente nos grandes vultos da meditação jesuítica ibérica dos séculos XVI e XVII – notadamente Pedro da Fonseca (1528-1599) e Francisco Suárez (1548-1617) -. É bem verdade que esse espírito contrasta com o rigor cartorial da Ratio Studiorum (de 1599), que constituiu o código pedagógico dos jesuítas e que terminou por reforçar a tendência contra-reformista. Mas não se pode negar que houve essa tensão e que tanto Suárez como Fonseca correspondem a uma corajosa abertura humanística à modernidade, fazendo com que a meditação filosófica, bem como a reflexão no terreno da teologia se abrissem a novos horizontes, que levavam em consideração o surgimento da ciência moderna e a crítica precursora ao absolutismo, dando ensejo ao que tenho denominado de “liberalismo telúrico”, presente na Espanha e em Portugal no início do século XVII.

No Brasil, essa dimensão modernizadora do neotomismo foi potencializada, sem lugar a dúvidas, pelo Instituto Brasileiro de Filosofia. Embora inspirado no culturalismo que empolga a meditação de Miguel Reale, no entanto o IBF fez com que o neotomismo de Van Acker encontrasse, na seara de pensamento moderno aberta pelo grande mestre paulista, clima abonado para prosperar sem recortes nem dogmatismos. Essas características de abertura intelectual, como se pode deduzir da minha apresentação, certamente são difíceis de encontrar na vertente jesuítica brasileira, representada pelos padres Leonel Franca e Lima Vaz.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

Roque Cabral, “Oliveira (José do Patrocínio Bacelar e)”, in: Enciclopédia Logos, vol. III, Lisboa: Editorial Verbo, 1991, p. 1225-1226.

José do Patrocínio Bacelar e Oliveira, “No horizonte da eternidade e do tempo. Antinomia da duração humana”. In: Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, nº 10 (1954): p. 225-268.

José do Patrocínio Bacelar e Oliveira, “A crítica perante a ontologia no âmbito da metafísica”. In: Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, nº 10 (1954): p. 343-382. Do mesmo autor, “Bases para a construção de uma crítica”, in: Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, nº 13 (1957), p. 223-258.

Antônio Paim, “Neotomismo no Brasil”, in: Logos – Enciclopédia Luso-brasileira de Filosofia, vol. 3, Lisboa: Editorial Verbo, 1991, p. 1131.

Antônio Paim, “Franca (Leonel)”, in: Logos – Enciclopédia Luso-brasileira de Filosofia, vol. 2, Lisboa: Editorial Verbo, 1990p. 731.

Antônio Paim, “Van Acker (Leonardo)”, in: Logos – Enciclopédia luso-brasileira de Filosofia, vol.5, Lisboa: Editorial Verbo, 1992, p. 400.

Antônio Paim – organizador – Liberdade acadêmica e opção totalitária – Um debate memorável. (Introdução e compilação de A. Paim), Rio de Janeiro: Artenova, 1979.

Actas do I Congresso Luso-Brasileiro de Filosofia. Braga: Faculdade de Filosofia, 1982, 976 pgs. (Tomo XXXVIII da Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, volume II, fascículo 4, outubro/dezembro de 1982).

“Introdução”, in: Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Lisboa: Editorial Verbo, 1989, p. I.

Pedro Calafate (organizador). História do Pensamento Filosófico Português, Lisboa: Editorial Caminho, 1999-2000, 5 Volumes.

Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, Dicionário Biobibliográfico de Autores Brasileiros – Filosofia, Pensamento Político, Sociologia, Antropologia. Salvador-Bahia: CDPB / Brasília: Senado Federal, 1999. Colação “Biblioteca Básica Brasileira”.

Antônio Paim, História das Idéias Filosóficas no Brasil, 5ª Edição revisada, Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 1997.

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