Pesquisar este blog

sábado, 19 de fevereiro de 2011

FARAÓS, CALIFAS, MULÁS, SOVIETES E MANDARINS

Manifestantes protestam na praça Lulu em Bahrein (Reuters)

A revolta que assombra os países islâmicos coloca uma questão: as respectivas sociedades, na Tunísia, no Egito, no Iêmen, no Irã, na Líbia buscam uma coisa: melhores condições de vida, liberdade e participação. Tudo isso comunicado, em rede, pelas pessoas, driblando controles policiais e censuras. Um primeiro capítulo dessa onda libertária aconteceu, no final do século passado, quando desabaram as ditaduras da União Soviética e do Leste europeu e quando os cubanos fugiram em massa para Miami, no episódio conhecido como os “Marielitos”. Terremoto semelhante ocorreu na China, com a ocupação da Praza da Paz Celestial, pelos estudantes, primeiro, e, depois, pelos tanques.

Uma conclusão salta à vista: o que os revoltosos de ontem e de hoje procuram é o que sempre foi apregoado pelas democracias liberais: Liberdade de ir e vir, liberdade para empreender negócios, liberdade de pensamento e expressão, liberdade para as mulheres e para as minorias, controle da sociedade civil sobre o aparelho do Estado, conquista do conforto como expressão do desenvolvimento econômico, tolerância, pluralismo, enfim, tudo aquilo que as elites corruptas dos países sacudidos pela onda de insatisfação negam aos seus cidadãos.

Palmas para o liberalismo que consegue, em pleno século XXI, seduzir com os seus ideais as grandes massas dos países que ficaram por fora das reformas ensejadas no Ocidente pelos seguidores de Locke, Tocqueville e Adam Smith. Os ideais liberais superaram a prova da história, não ocorrendo assim com os ideais totalitários de Marx e quejandos.

No final da primeira década do século XXI encontramos, consolidada pela opinião pública mundial, a modalidade de Estado contratualista estudado pelos liberais doutrinários e por Max Weber. Segundo o pensador alemão e os seus precursores franceses (Benjamin Constant, Guizot, Tocqueville, etc.), ali onde houve uma experiência feudal completa, as respectivas sociedades se diversificaram em ordens diferentes de interesses, que ensejaram o surgimento das classes sociais, sendo o jogo político uma luta entre elas. Esse processo ensejou o moderno parlamentarismo, civilizada arena onde se realiza o confronto entre interesses diversos, abandonando o campo da guerra civil. A alternativa a esse modelo liberal ficou por conta do pensamento de Rousseau, ao longo dos três últimos séculos, que consolidou o ideal da democracia totalitária, alicerçada na unanimidade construída mediante a eliminação da dissidência.

Ora, a luta que observamos presentemente é uma reação de sociedades dominadas por ditaduras, que se constituíram em herdeiras do velho despotismo oriental. O que egípcios, tunisianos, iemenitas, iranianos, chineses dissidentes buscam, é a substituição do modelo do patrimonialismo hidráulico, por arquétipos inspirados na prática da representação política e de respeito aos direitos individuais. As ditaduras somente são aceitáveis para aqueles que dominam, jamais para os dominados. Como dizia Talleyrand, a raposa aristocrática, a Napoleão: “Sire, as baionetas servem para muitas coisas, menos para se sentar encima delas”. Ou seja: você, governante, quer estabilidade? Construa a livre participação dos seus cidadãos! Essa, aliás, foi a genial lição que o nosso precursor liberal, Silvestre Pinheiro Ferreira, passou ao seu chefe, Dom João VI, no final da primeira década do século XIX, nas suas famosas “Cartas sobre a Revolução Brasileira”.

Faraós, califas, sovietes, mulás e mandarins jamais conseguiram – nem conseguirão – satisfazer às suas respectivas sociedades porque está viciado, ab origine, o modelo de patrimonialismo oriental em que se inspiram e que se define como a organização do Estado como se fosse propriedade familiar de uma casta, de um czar ou de uma oligarquia.

Chamou-me a atenção uma reportagem que li num jornal canadense ano passado: o maior grupo étnico de milionários que busca residência no Canadá é constituído pelas famílias de altos dirigentes chineses. O repórter indagava acerca das razões dessa preferência. O motivo alegado por eles era bem curioso: a China, sim, é uma grande potência econômica e política. Mas ninguém tem certeza de que as conquistas de bem-estar atingidas pela elite – calculada em 400 milhões de pessoas – serão garantidas para as próximas gerações. Assim sendo, os mandarins cuidam para que as suas famílias passem a gozar das benesses do desenvolvimento, não na terrinha (pátria do despotismo hidráulico), mas ali onde estão garantidas, por uma longa tradição liberal, as conquistas dos indivíduos. Ou seja: a China pode ser uma grande potência, mas não é o paraíso, mesmo para as famílias dos seus dirigentes, que preferem um país desenvolvido do Ocidente, para ali gozarem as benesses do progresso e do conforto, com a certeza de que esses direitos serão garantidos num clima de liberdade.  

A América Latina, na trilha do populismo da última década, abjura justamente o liberalismo e fica presa à manutenção de odiosos privilégios oligárquicos (vide os pactos realistas do partido governante no Brasil com ícones da oligarquia nordestina, que ainda conseguem manter sob censura o mais importante diário do país, justamente por ter sido denunciada nas suas páginas a prática de arcaico patrimonialismo). Nesse ponto, o nosso país consegue ser ainda mais retardatário que o Egito, onde caiu o faraó de plantão, enquanto nós mantemos, felás pagadores de impostos, os privilégios de odiosa nomenclatura em que se converteu a nossa classe política.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A SAGA DO PENSAMENTO BRASILEIRO

Passada já uma década deste novo milênio, nada mais conveniente do que fazer uma rápida resenha dos progressos atingidos no estudo da filosofia brasileira ao longo dos últimos 40 anos. Não se trata, evidentemente, de um estudo abrangente. Trata-se, melhor, de uma rápida olhada sobre os tópicos mais importantes. Para cumprir com essa finalidade, dividirei a minha exposição em dois itens: 1) o estudo acadêmico da filosofia brasileira, no período compreendido entre 1970 e 2008; 2) aspectos básicos da divulgação do pensamento brasileiro no exterior.
1) O estudo acadêmico da filosofia brasileira, no período compreendido entre 1970 e 2008
O período apontado representa a etapa de organização e consolidação dos estudos acadêmicos da filosofia brasileira, em nível de graduação e pós-graduação. Os primeiros a serem consolidados foram os cursos de pós-graduação (em nível de mestrado e doutorado, bem como de especialização).
A experiência pioneira coube ao Curso de Mestrado em Pensamento Brasileiro na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, sob a coordenação de Antônio Paim e com a colaboração, na mesma Universidade, de Celina Junqueira e Vicente Barretto. No plano internacional, o Curso contou com o apoio de Armando Correia Pacheco, na sub-secretaria de assuntos culturais da Organização dos Estados Americanos, em Washignton. O Curso de Mestrado da PUC do Rio de Janeiro funcionou entre 1972 e 1979 (foram defendidas, ao todo, 17 Dissertações). Formou-se assim uma primeira geração de mestres em Pensamento Brasileiro, que se espalharam por várias Universidades do país e da América Latina.
A segunda experiência, em nível de pós-graduação stricto sensu, coube à Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, que em 1979 organizou, sob a coordenação de Antônio Paim e Eduardo Abranches de Soveral, os Cursos de Mestrado e Doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro. O mencionado programa funcionou até 1996. Foram defendidas, ao todo, 32 Teses de Doutorado e 12 Dissertações de Mestrado. Esta iniciativa permitiu a formação de um grupo bastante expressivo de mestres e doutores, que passaram a espalhar a pesquisa e o ensino das Filosofias Portuguesa e Brasileira em vários Estados, notadamente em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Paraná e Rio Grande do Sul. Vinculado ao estudo sistemático do pensamento brasileiro, foi criado em Salvador, em 1982, por Antônio Paim, o Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, que constitui hoje, a nível nacional, o mais importante acervo existente acerca do pensamento brasileiro, nas áreas da filosofia, sociologia, política e antropologia. O acervo conta hoje com aproximadamente 17 mil exemplares. O Centro tem desenvolvido estudos sobre autores brasileiros representativos e a mais importante contribuição bibliográfica consiste no Dicionário Biobibliográfico de Autores Brasileiros – Filosofia, Pensamento Político, Sociologia, Antropologia (Salvador: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro; Brasília: Senado Federal, 1999, coleção “Biblioteca Básica Brasileira”).
A terceira realização, em nível de pós-graduação stricto sensu, correspondeu ao Curso de Mestrado em Pensamento Brasileiro, organizado na Universidade Federal de Juiz de Fora por José Carlos Rodrigues, Aristóteles Ladeira Rocha e Joel Neves, com a colaboração de Antônio Paim e Ricardo Vélez Rodríguez. Este Curso funcionou entre julho de 1984 e dezembro de 1997. Foram defendidas 32 Dissertações. Os mestres formados neste Programa espalharam-se por várias Faculdades e Universidades de Minas Gerais e do Espírito Santo e organizaram, em 1991, o Centro de Estudos Filosóficos de Juiz de Fora, que desenvolveu atividades de extensão até o seu encerramento, em dezembro de 1993.
No terreno de realizações acadêmicas em âmbito diferente da pós-graduação stricto sensu, cabe mencionar as seguintes iniciativas:
Em 2003 foi organizado, na Universidade Federal de Juiz de Fora e com reconhecimento do CNPq, o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos, com a finalidade de dar prosseguimento aos estudos de história das idéias filosóficas no Brasil, num contexto mais amplo, que abarca os demais países latino-americanos. Como resultado das pesquisas realizadas pelo Núcleo, os alunos que participam do mesmo fundaram, em 2007, a Revista eletrônica Ibérica, que já se encontra na sua 8º. Edição (www.estudosibericos.com). O coordenador do Núcleo é Ricardo Vélez Rodríguez, sendo que a Revista tem à frente do Comitê de redação os mestrandos em ciência da Religião da UFJF, Alexandro Ferreira de Souza e Marco Antônio Barroso. O grupo de alunos pertencente ao Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos tem realizado vários encontros (em 2006, 2007 e 2008), sendo que o mais importante deles foi o Colóquio intitulado 1808-2008 – Horizontes de Compreensão da vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil – A questão da governança e as repercussões sócio-culturais da vinda da Corte Portuguesa. O evento mencionado (ao qual assistiram mais de 300 pessoas, entre os dias 8 e 12 de setembro de 2008) contou com o apoio da Fapemig, da Fadepe e do Banco do Brasil e foi organizado por iniciativa de Leonardo Rosa e coordenado por alunos do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos, em parceria com os alunos do Curso de História da UFJF.
Ainda na Universidade Federal de Juiz de Fora, Ricardo Vélez Rodríguez, em parceria com Expedito Bastos, criou, em 2005, o Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, com a finalidade de estimular pesquisas, na comunidade acadêmica local e em nível nacional, no terreno da história do pensamento estratégico brasileiro. Os trabalhos desenvolvidos pelo Centro são divulgados pelo Portal Defesa da UFJF (www.defesa.ufjf.br) , que foi criado por Expedito Bastos em 2003, para divulgar pesquisas sobre história da tecnologia militar. O Portal Defesa consolidou-se como o mais importante veículo de divulgação, em nível nacional, no terreno dos estudos estratégicos, contando hoje com aproximadamente 900 artigos e ensaios publicados. As consultas ao mesmo chegam aproximadamente a 50 mil por mês.
No que tange às atividades de pós-graduação lato sensu, pode-se mencionar as seguintes: em 1982 foi criado na Universidade Estadual de Londrina, por iniciativa de Ricardo Vélez Rodríguez e com o decidido apoio do então reitor José Carlos Pinotti, o Curso de Especialização em História do Pensamento Político Brasileiro, que a partir de 1983 passou a ser coordenado por Leonardo Prota. Esta iniciativa constituiu a experiência mais duradoura no país (20 anos ininterruptos) de ensino acadêmico do Pensamento Brasileiro. Professores e alunos do Curso criaram, em 1990, o Centro de Estudos Filosóficos de Londrina. A partir desse centro, e com a efetiva colaboração da Universidade Estadual de Londrina, Leonardo Prota realizou, entre 1989 e 2001, sete Encontros Nacionais de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira, com a finalidade de fazer um confronto, no terreno das Filosofias Nacionais, entre a meditação brasileira e a filosofia emergente em outros contextos culturais. Os Anais desses Encontros constituem, hoje, fonte importante para a pesquisa do pensamento brasileiro em diálogo com outras tradições filosóficas nacionais. Paralelamente, Leonardo Prota, à frente da Editora da Universidade Estadual de Londrina (entre 1998 e 2002), criou uma autêntica editora universitária (com mais de 200 títulos novos publicados por ano), tendo dado ensejo a um canal de divulgação, no meio acadêmico, de obras representativas do pensamento brasileiro, ao lado de trabalhos de outras áreas do conhecimento. Inúmeras teses e dissertações relativas ao pensamento brasileiro foram publicadas nesse empreendimento editorial.
Ainda em 1982 foi criado, por iniciativa de Antônio Paim e de Carlos Henrique Cardim, Decano de Extensão da Universidade de Brasília, o primeiro Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro, que passou a ser oferecido na modalidade de ensino à distância (segundo os parâmetros da Open University inglesa), até 1984. Para dar apoio à mencionada iniciativa, a UNB criou o “Clube do Livro”, que divulgou amplamente, na comunidade acadêmica, os clássicos do pensamento político ocidental. Outra realização cultural da maior importância, nesse período, foi a Revista Humanidades, concebida e dirigida por Carlos Henrique Cardim. Chegados os militantes do PT à administração dessa Universidade, em 1984, a experiência foi sumariamente interrompida.
Em 1984, foi criado por Selvino Malfatti e Tarcísio Anacleto Moro, na Universidade Federal de Santa Maria, o Curso de Especialização em Pensamento Político Brasileiro, que funcionou até 1993.
No ano de 1994 foi criado por Antônio Paim e Ricardo Vélez Rodríguez, com o eficiente apoio do então vice-reitor acadêmico da Universidade Gama Filho, Manuel Tubino, o Curso de Especialização em Pensamento Político Brasileiro, que foi ministrado até dezembro de 1998, sob a modalidade de Ensino à Distância. O curso mencionado contou com a colaboração técnico-pedagógica da professora Maria Clutilde de Abreu, que adaptou os conteúdos acadêmicos à modalidade de ensino à distância, seguindo a tecnologia desenvolvida pela Universidade de Ensino à Distância de Madri. Ainda dentro dessaa modalidade de ensino foram criados, por Antônio Paim e Ricardo Vélez Rodríguez, os Cursos de Introdução Histórica ao Liberalismo e de Social Democracia, contando este último com a coordenação de conhecido estudioso, o diplomata Carlos Henrique Cardim. Ambos os Cursos foram oferecidos até 1998.
Em 1994 foi criado, por iniciativa de José Maurício de Carvalho e Marilúze Ferreira de Andrada e Silva, na Fundação de Ensino Superior de São João del Rei, o Programa de Especialização em Filosofia Moderna. Este Curso, que ainda se encontra em funcionamento, tem abordado o Pensamento Filosófico Brasileiro em duas das suas edições, tendo concentrado as restantes no estudo da ética.
O resultado mais importante de todo esse esforço é claro: formou-se no Brasil, ao longo dos últimos quarenta anos, uma geração de professores e estudiosos da filosofia brasileira (com um total de 93 Teses e Dissertações defendidas), que ensinam a disciplina em aproximadamente 30 Centros de Estudos Superiores. O grande repto que fica em aberto é como dinamizar a formação de mais docentes de Filosofia Brasileira e como garantir o aperfeiçoamento do professores já formados. O ideal seria a criação de alguma instância de ensino permanente à distância, que tornasse viáveis esses objetivos.
Realização significativa, no terreno da pesquisa e da divulgação do pensamento brasileiro, tem sido feita pela Academia Brasileira de Filosofia, cujo fundador, Jorge Jaime, escreveu alentada obra intitulada: História da Filosofia no Brasil (4 volumes, São Paulo / Petrópolis: Faculdades Salesianas / Vozes, 2002). O atual presidente, João Ricardo Moderno, tem promovido, ao longo dos últimos anos, inúmeros eventos de divulgação e aprofundamento acerca da meditação brasileira.
Outra realização digna de menção é a empreendida pelos alunos do Curso de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais e da Faculdade dos Jesuítas, em Belo Horizonte, sob a coordenação de. Paulo Margutti, que publicam a Revista Fibra, dedicada aos estudos sobre filosofia brasileira. Esse grupo consolidou-se, de forma interdisciplinar, ao longo dos três últimos anos, valendo a pena registrar os esforços feitos pelo seu coordenador para entrar em contato com outros grupos similares em Minas Gerais.
Anotemos que todo esse trabalho tem sido realizado praticamente sem ajuda oficial das agências financiadoras do Governo (Capes e CNPq). O tradicional patotismo e o anacrônico patrulhamento ideológico têm impedido, ao longo de todos estes anos, que os recursos das mencionadas agências, em que pese o fato de serem provenientes dos tributos pagos pelos cidadãos deste país, beneficiem a recuperação da memória nacional no terreno do pensamento filosófico, em Cursos de Pós-graduação stricto sensu. Mais uma vez, fica clara a tendência secular do Estado patrimonial brasileiro a privatizar os recursos públicos para benefício exclusivo de determinadas corporações e estamentos. Os programas de mestrado e doutorado em pensamento brasileiro, desenvolvidos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, na Gama Filho e na Universidade Federal de Juiz de Fora foram, sem exceção, ferrenhamente combatidos pelos burocratas da Capes. Desde o final dos Governos Militares até os dias que correm, de forma estranha, a coordenação do Comitê de Filosofia da Capes e do CNPq ficou sob controle rigoroso dos antigos discípulos (ex-militantes da Ação Popular Marxista-Leninista) do padre Henrique Cláudio de Lima Vaz. A torneira dos recursos públicos e o reconhecimento acadêmico foram deliberadamente bloqueados por esses ativistas para qualquer iniciativa que no Brasil aparecesse, em termos de organização de pós-graduações stricto sensu, na área do pensamento brasileiro. A produção acadêmica mencionada acima constitui, assim, ostensiva vitória da iniciativa privada de professores e pesquisadores sobre o cartorialismo e o atraso.
2) Aspectos básicos da divulgação do pensamento brasileiro no exterior, nos últimos 30 anos
Seis iniciativas têm dado ensejo à divulgação sistemática, no plano internacional, da meditação filosófica brasileira: em primeiro lugar, a realização (entre 1989 e 1994) dos Colóquios luso-brasileiros de Filosofia, que ocorreram alternadamente, em número de onze, em Portugal (sob o nome de "Colóquio Tobias Barreto") e no Brasil (sob a designação de "Colóquio Antero de Quental"). Duas importantes figuras do pensamento português foram importantes no planejamento e na realização destes Colóquios: António Braz Teixeira e José Esteves Pereira. Do lado brasileiro, ressaltam as figuras de Antônio Paim e Luiz Antônio Barreto. Os Colóquios realizados em Portugal permitiram a ampla divulgação de pensadores brasileiros como Tobias Barreto, Miguel Reale, Domingos Gonçalves de Magalhães, Sylvio Romero, Vicente Ferreira da Silva, etc. A publicação dos Anuários correspondentes constitui hoje informação de primeira mão sobre a meditação brasileira. Essa iniciativa é comparável ao trabalho desenvolvido, no âmbito do pensamento espanhol, pelos Cadernos de Salamanca, editados por Francisco Heredia Soriano. Os dois últimos colóquios contaram com a valiosa colaboração da Universidade Federal de São João del Rei, através do Departamento de Filosofias e Métodos, sob a coordenação de José Maurício de Carvalho, jovem pesquisador e eficiente gestor desses empreendimentos. Do lado português, é importante lembrar que, no último ano, vinculou-se ao projeto de estudos do diálogo filosófico entre Brasil e Portugal, a Universidade Católica do Porto, com a realização do Primeiro Congresso Luso-Galaico-Brasileiro de Filosofia, sob a coordenação do Reitor dessa Universidade, o catedrático António de Pinho.
Ao ensejo dos Colóquios Luso-Brasileiros de Filosofia foi criado em Lisboa, em 1991, o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. É por todos conhecido o grupo de intelectuais que, em Portugal e no Brasil, tornaram possível a realização deste importante empreendimento. Não quero correr o risco de, tratando de enumerá-los, deixar de mencionar involuntariamente o nome de algum deles. Recordo aqui somente a memória dos que se foram, os saudosos Antônio Quadros, Francisco da Gama Caeiro, Afonso Botelho e Eduardo Abranches de Soveral.
A segunda iniciativa consiste na publicação, entre 1989 e 1992, da Lógos, Enciclopédia Luso Brasileira de Filosofia, realizada sob o patrocínio da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa. A Direção da mencionada publicação foi integrada por Roque Cabral, Francisco da Gama Caeiro, Manuel da Costa Freitas, Alexandre Fradique Morujão, José do Patrocínio Bacelar e Oliveira e Antônio Paim, tendo estado a Secretaria Geral a cargo do Departamento de Enciclopédias da Editorial Verbo, sob a direção de João Bigotte Chorão. Numerosos verbetes divulgaram a obra de pensadores brasileiros dos séculos XIX e XX.
A terceira iniciativa consiste no trabalho de divulgação do pensamento filosófico luso-brasileiro no contexto ibérico e ibero-americano, desenvolvido no Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa, sob a orientação de José Esteves Pereira. O Mencionado Centro tem colaborado estreitamente com o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no desenvolvimento dos Colóquios "Tobias Barreto" e tem contribuído, de forma significativa, a tender uma ponte com o pensamento filosófico espanhol. Prova desse esforço foi a realização, em 1998, do Colóquio "A geração de 98 e o pensamento finissecular na Península Ibérica".
A quarta iniciativa consiste na divulgação sistemática da meditação brasileira no mundo hispano-americano, que tem ocorrido graças à participação de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Filosofia no Projeto Ensayo, desenvolvido pela Universidade da Georgia (nos Estados Unidos), sob a direção do pesquisador espanhol José Luis Gómez Martínez. Entre 1986 e 1993 foram publicados cinco volumes do Anuario Bibliográfico de Historia del Pensamiento Ibérico e Iberoamericano. Esta publicação tem permitido estabelecer uma quantificação da produção dos países ibéricos e ibero-americanos, no que tange à história das idéias. A colocação do Brasil nesse contexto corresponde ao segundo lugar em número de títulos resenhados, correspondendo à Espanha o primeiro lugar. Essa visão comparativa, para o ano de 1989, é a seguinte: 1) Espanha (1336 entradas), 2) Brasil (454 entradas), 3) Mexico (260 entradas), 4) Argentina (166 entradas). Os dados correspondentes às publicações do ano 1990 são os seguintes: 1) Espanha (1104 entradas), 2) Brasil (690 entradas), 3) Mexico (210 entradas), 4) Argentina (185 entradas). José Luis Gómez-Martínez mantém, outrossim, homepage atualizada, na Internet (http://www.ensayistas.org), onde são divulgados dados acerca das caraterísticas fundamentais da meditação brasileira no contexto ibero-americano, bem como sobre a vida e obra de pensadores brasileiros. Convém salientar que o mencionado Portal é um dos mais consultados na Rede, no que tange a assuntos culturais ibéricos e ibero-americanos (as consultas chegam, hoje, a 30.000 por mês).
Em quinto lugar, cabe mencionar o trabalho de divulgação das idéias filosóficas brasileiras realizado por Juan Carlos Torchia Estrada no Handbook of Latin American Thought, incorporado à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Quando da sua passagem pela direção da Inter-American Review of Bibliography o mencionado pesquisador publicou, outrossim, ao longo das décadas de 70 e 80, ensaios de membros do Instituto Brasileiro de Filosofia acerca da historiografia das idéias filosóficas no Brasil.
Mencionemos em sexto lugar, para terminar, o diuturno trabalho de divulgação do pensamento filosófico brasileiro, que realiza na França Zdenek Kourim. Ao longo dos últimos trinta anos o citado pesquisador fez várias traduções de textos de pensadores brasileiros, como Vicente Ferreira da Silva, e publicou acuradas análises acerca de alguns deles. Vale a pena mencionar o ensaio intitulado La obra filosófica de Miguel Reale, impulsora de la emancipación intelectual de Brasil, que constitui um dos mais sérios estudos já realizados sobre o culturalismo brasileiro.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A GUERRA CARIOCA E AS SUAS LIÇÕES PARA O BRASIL


Passada a intervenção policial e militar que pôs fim ao império do tráfico no Complexo do Alemão e nas favelas que integram a comunidade de Vila Cruzeiro, na Penha, vale a pena refletir acerca do que do episódio se pode tirar a limpo, em termos de políticas de segurança pública, a fim de que, em outras oportunidades, não se repitam erros do passado e a população se beneficie com ações melhor planejadas no combate à criminalidade.

A primeira lição que se depreende é que não existe, verdadeiramente, crime organizado, mas Estado desorganizado. A imagem da fuga atordoada dos meliantes pela mata que separa os dois conjuntos de favelas, repassada por duas cadeias de TV ao mundo todo, está a provar essa assertiva. Um “exército” medianamente treinado não debanda dessa forma. Os bandidos, fortemente armados, não tinham um “plano B”, para a eventualidade de a Vila Cruzeiro ser invadida. Ponto positivo para a cidade do Rio de Janeiro, cujo pior inimigo não constitui propriamente um “exército”, mas um bando de meliantes que fogem quando as autoridades decidem pôr a polícia no seu encalço, com o apóio das Forças Armadas. Diferente foi a situação enfrentada pelo exército e pelas forças policiais colombianas, no início desta década, em Bogotá e Medellín, quando da invasão aos santuários do crime: defrontaram-se com forças fortemente treinadas em táticas de guerrilha urbana que, conseqüentemente, trouxeram sérias baixas à população e aos soldados.

A segunda lição é que o apóio das Forças Armadas no combate ao narcotráfico é importante. O elemento diferenciador das duas intervenções da semana passada em relação às anteriores está justamente aí: quando se dá o apóio das Forças Armadas, no cerco aos bandidos e na logística militar, a ação repressiva é dissuasória e eficaz. Muitas pessoas criticam o fato de que a aviação militar não tenha aproveitado a fuga desordenada dos meliantes para metralhá-los desde os helicópteros. Imaginam os leitores a grita que estaria sendo feita, neste momento, pelos defensores dos direitos humanos? O uso dos equipamentos das Forças Armadas restringiu-se ao cerco e à tática intimidátoria que os tanques, os veículos blindados da Marinha e do Exército e os soldados das duas corporações exerceram, em apóio ao BOPE e à polícia civil. Claro que houve falhas no que tange a ter impedido a fuga dos meliantes do Complexo do Alemão, “disfarçados” de operários do PAC, como foi alegado. Falha que vai dar dores de cabeça à polícia e à cidadania nos próximos meses, pois esses bandidos, livres, voltarão a se aglutinar em algum outro conjunto de favelas, possivelmente na Baixada Fluminense. O cordão de isolamento tendido ao redor do Complexo do Alemão teve esse furo. É importante que os responsáveis analisem essa falha para que não se repita em episódios futuros.

A terceira lição consiste na constatação de que é perfeitamente possível uma ação de grande envergadura, que abarque Polícia Civil e Militar e Forças Armadas, sem que seja quebrada a unidade de comando e garantindo a eficiência e rapidez das decisões. O acompanhamento dos fatos pelas autoridades ocorreu em tempo real e utilizando modernos aparelhos de vídeo-comunicação com as diversas unidades envolvidas na ação. O comando da operação ficou por conta da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, sem que isso significasse atrito com os quadros das Forças Armadas. Ponto positivo. Vale a pena lembrar que, nas cidades colombianas, já tinha se posto em prática um mecanismo semelhante. O comando das ações policiais de combate ao narcotráfico é do prefeito metropolitano. Para que isso se tornasse possível foi feita, em 1993, uma reforma no texto da Constituição de 1991.

Quarta lição: foi muito eficaz a mobilização de funcionários públicos civis da área da saúde, para garantir o apóio logístico às duas operações, colocando à disposição da Secretaria de Segurança do Estado os leitos hospitalares necessários, bem como o serviço de ambulâncias. Felizmente não foi necessário fazer uso desses dispositivos, em decorrência da rapidez e da eficácia da ação repressiva.

Quinta lição: o apóio decidido da cidadania às duas ações desenvolvidas pela Secretaria de Segurança Pública, que se manifestou notadamente na utilização, por parte dos cidadãos, do disque-denúncia para identificar os meliantes. Causou emoção entre os telespectadores assistir aos testemunhos de humildes cidadãos e donas de casa, que expressavam a sua alegria por se verem livres do jugo do narcotráfico, imposto a ferro e fogo sobre populações à margem da vida cidadã. A conquista da liberdade, certamente, foi o fator mais importante do ângulo humano para essas populações da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão. E nessa conquista a rápida ação dos policiais e dos soldados das Forças Armadas foi decisiva.

A sexta lição fica por conta do importante papel desempenhado pela imprensa em todos esses episódios, informando passo a passo aos cidadãos acerca do que se estava passando e ajudando a orientar os habitantes das comunidades concernidas acerca do que deveriam fazer, para entrar e sair com segurança.

A democracia ganhou com esse triunfo das autoridades. O efeito positivo certamente será potencializado com a efetivação das políticas de inclusão social que os governos estadual e municipal desenvolverão, no decorrer das próximas semanas, elevando a auto-estima dos cidadãos outrora reféns do narcotráfico. Esse efeito positivo já se observa naquelas comunidades onde foram instaladas as UPPs.  

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

CULTURA X ESTATISMO NA ARGENTINA CONTEMORÂNEA

Enquanto se passam estes modorrentos meses do final do governo Lula e do início da sua continuidade pela mão da Dilma, com as costumeiras ameaças de estatização da inteligência pelo espírito estalinista do Franklin Martins et caterva, nada melhor do que ter aceitado o convite que me foi formulado pela Universidade Católica Argentina, de Buenos Aires, através do professor Doutor Luis Baliña, da Faculdade de Teologia (com a intermediação do meu amigo do Centro de Estudos de Economia Personalista, Alex Catarino, do Rio de Janeiro), para vir a esta belíssima cidade fazer três conferências: a primeira, sobre o Panorama da Filosofia Brasileira (no longo período que se estende do século XVIII até o presente), a segunda sobre Políticas culturais e erradicação da violência nas áreas carentes de Bogotá e Medellín e a terceira sobre A questão da originalidade na meditação filosófica na América Latina. Aproveitei, também, para divulgar, junto ao público docente e discente da mencionada Universidade, ao ensejo desses eventos, o meu mais recente livro, intitulado: Da guerra à pacificação: a escolha colombiana (Campinas: Vide Editorial, 2010).

Estas atividades foram desenvolvidas no período compreendido entre 9 e 13 de Novembro de 2010, mais ou menos ao mesmo tempo em que, em Lisboa, três membros do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da Universidade Federal de Juiz de Fora participavam do Colóquio Tobias Barreto, promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-brasileira, em homenagem à vida e pensamento de Miguel Reale, falecido em 2006. Eles são: Alexandre Ferreira de Souza, Marco Antônio Barroso e Bruno Maciel. Eles serão convidados para dar aqui notícia do que se passou neste último evento.

 Fiquei surpreendido com a beleza do campus da Universidade Católica Argentina, situado na beira do Rio de la Plata, na região de Puerto Madero; a Universidade, há já vários anos, passou a ocupar alguns dos galpões do antigo porto, que foram postos à venda pela prefeitura de Buenos Aires. Foi feita magnífica obra arquitetônica que, mantendo a aparência externa dos prédios, em tijolo vermelho, acondicionou o interior para as várias unidades acadêmicas da Universidade (com exceção da Faculdade de Teologia e da Escola de Veterinária). Lembro-me de que, em 1987, eu tinha estado em Buenos Aires e visitei a região do porto, então tremendamente degredada. A recuperação da área, efetivada nos anos 90 do século passado, deu vida nova a esta parte da cidade.

Fiquei impressionado, especialmente, com a vitalidade da Universidade Católica Argentina. A partir da decisão dos seus dirigentes, a Universidade passou a olhar para o seu entorno e a querer dar uma contribuição, do ângulo acadêmico, à solução dos graves problemas sociais que apresenta a cidade de Buenos Aires, notadamente os decorrentes do tráfico de drogas e da violência por ele desencadeada. Ora, essa preocupação humanística passou a se tornar concreta em três núcleos acadêmicos: a Faculdade de Filosofia (cujo decano é o professor Doutor Néstor A. Corona), a Faculdade de Teologia (sendo um dos responsáveis por esse projeto o prof. Doutor Luis Baliña) e a Coordenação de Compromisso Social e Extensão (sob a direção do prof. Juan Cruz Hermida).  Achei muito interessante o fato de que, no contexto do compromisso social mencionado, os dirigentes da Universidade contemplaram a institucionalização do estudo da Filosofia Latino-americana, como forma de melhor compreender a identidade do país. Isso contrasta com as dificuldades que experimentamos, no Brasil, os estudiosos da filosofia brasileira, ainda banida dos currículos da graduação e da pós-graduação por obra e graça do patrulhamento exercido, a partir do MEC, pelos seguidores do Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, que dedicou os seus últimos anos a efetivar um acirrado combate em prol da supressão dos cursos de Filosofia Brasileira. Foram fechados, por pressão da CAPES, onde pontificava o padre Vaz no Comitê de Filosofia, os programas de pós-graduação em Pensamento Brasileiro existentes: extinguiram-se, um a um, numa implacável maré cartorial, o programa de mestrado da PUC, no Rio, em 1979; os de mestrado e doutorado em Pensamento Luso-brasileiro da Universidade Gama Filho, em 1995; e o de mestrado em Filosofia Brasileira da Universidade Federal de Juiz de Fora, em 1996.

Do contato com professores e alunos da Universidade Católica Argentina, tirei uma conclusão semelhante à que tenho tirado da minha experiência com a filosofia autóctone, na Universidade Federal de Juiz de Fora: os que se interessam – salvo algumas exceções que confirmam a regra e que estão constituídas pelos docentes mais antigos e por alguns dirigentes lúcidos – são jovens universitários que querem conhecer melhor o país no qual vivem e a sua formação cultural, a fim de mais efetivamente encarar aos reptos do mundo globalizado.

Impressionou-me muito positivamente a seriedade com que os docentes e dirigentes encaram esse repto, garantindo aos seus alunos uma extraordinária infra-estrutura nas salas de aula (maravilhosamente equipadas com tudo que há de mais moderno em novas tecnologias da comunicação) e com o suporte de uma biblioteca de grandes dimensões, situada na Faculdade de Teologia (com as obras primas dos clássicos da Filosofia Universal, desde os pré-socráticos, passando pelas edições críticas da obra integral de Platão e Aristóteles, dos Santos Padres, com a coleção Migne completa, da Filosofia Medieval e dos principais autores dos períodos moderno e contemporâneo). Integra a biblioteca, também, um elenco bastante representativo das mais importantes publicações periódicas, da Europa, dos Estados Unidos, Canadá e da América Latina, nos terrenos da Filosofia e da Teologia. Essa tradição de seriedade acadêmica e bibliográfica nós precisamos aprender, no Brasil, com os nossos vizinhos argentinos. Afinal de contas, os hispano-americanos contam com Universidades desde o século XVI e nós, no Brasil, vimos surgir as primeiras instituições do gênero apenas no século XX, a partir da criação da Universidade do Distrito Federal, no Rio, e da USP, nos anos trinta.

Como seria importante que, nas nossas Universidades, os dirigentes, mestres e funcionários cuidassem com mais carinho de dois aspectos deixados em segundo plano: a modernização das salas de aula e a organização de bibliotecas com critério de aprofundamento nas raízes da cultura ocidental. Um fato chocante me chacoalhou recentemente na Universidade Federal de Juiz de Fora: tinha para doar uma coleção de cem volumes, magnificamente editados (entre 1996 e 1999), pela Presidência da República da Colômbia, acerca das fontes da formação do Estado colombiano, ao ensejo da magna obra administrativa e legislativa de Francisco de Paula Santander e Simon Bolívar, os fundadores das instituições do vizinho país. Não consegui efetivar a doação ao acervo do Centro de Estudos Ibéricos da UFJF, por força de um estúpido critério: somente são aceitas, como doação, pela Biblioteca Central da Universidade, obras editadas depois do ano 2000, segundo me explicou a funcionária, “porque as anteriores estão na Internet”. Caberia perguntar se está na Internet a coleção Migne, por exemplo, que os nossos amigos argentinos se orgulham de ter para consulta de seus alunos na Biblioteca da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Argentina, em Buenos Aires... Para os interessados na coleção de obras colombianas que ia doar à UFJF: ela repousa, muito bem organizada, na biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora, que de braços abertos aceitou a minha doação....

Uma última observação, esta de caráter político, para encerrar o meu comentário: fui acordado no hotel onde fiquei hospedado, no centro de Buenos Aires, ao longo da semana ali passada, por barulho ensurdecedor de tambores e surdos tocados, desde o amanhecer, por militantes das centrais sindicais, que fazem as suas reivindicações infernizando a vida dos cidadãos comuns, dos turistas e dos que viajam a trabalho. Ao logo do dia, as manifestações (“piquetes”, como os argentinos as chamam) continuam, fechando vias e tornando caótico o já difícil trânsito da capital portenha. A polícia de Buenos Aires garante a livre circulação de militantes, não o direito de ir e vir dos outros cidadãos! É uma polícia a serviço dos novos “donos do poder”. Está a Argentina, como o Brasil, sofrendo com as desgraças do populismo sindical. No nosso país, o suplício dos cidadãos fica por conta de militantes do MST, dos funcionários públicos em greve crônica e, também, dos sequazes marginais do patrimonialismo, os bandidos e narcotraficantes. Tristes momentos estamos a viver na América Latina com esse populismo irresponsável, que eleva tributos sem limite, coopta massas de militantes para mostrar força e desestimula a vida civil organizada das odiadas classes médias. Estamos pagando, com certeza, a conta pelas nossas escolhas erradas.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

UM PAÍS CINDIDO AO MEIO

Se houvesse uma imagem para resumir o que se passa no Brasil nestes últimos meses, acudiria, sem dúvida, à metáfora do rio, utilizada por Royer Collard, no início do século XIX, para simbolizar as desgraças e a dinâmica ensejadas pela Revolução Francesa: “A democracia – dizia o grande precursor dos doutrinários – é um rio que corre a margens cheias”. Essa é a nossa “democracia de massas”, acelerada, ao longo dos últimos oito anos, pelo fenômeno do lulo-petismo. Torrente verbal de linguajar chulo e de eterno palanque, de iniciativas mal costuradas (o tal de PAC, que literalmente empacotou o andamento do país na esfera econômica, com gastança descontrolada jamais vista), de propostas sensatas no terreno macroeconômico (que vieram do passado recente ao ensejo das reformas social-democratas ensejadas notadamente pelos anteriores governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, se destacando nesse contexto o Plano Real), de pregação messiânica que pretendeu fazer do retirante nordestino ocupante do Planalto o novo salvador da pátria, de favores oficiais distribuídos a esmo com a única finalidade de consolidar um eleitorado subserviente, de jacobinismo em alta por parte da coorte safada de “mata-mosquitos” do presidente populista, de corrupção generalizada justificada pela revanche ideológica que tem embalado o discurso dos novos “donos do poder” contra as odiadas “elites”, de surgimento e consolidação de uma nova-velha elite de peleguismo sindical inspirada no pior dos populismos, de clérigos e bispos da “teologia da libertação” que seguem as pegadas espertas de frei Boff e de frei Betto para canonizar as falcatruas petistas em nome da justiça social, de orgiástica farra do setor do empresariado que se alinhou desavergonhadamente do lado do poder para garantir as benesses do BNDS e os lucros subsidiados com o dinheiro do contribuinte, de louvação oportunista dos intelectuais amamentados com as benesses oficiais, enfim, de reificação ectoplasmática dessa entidade mítica genialmente prevista por Mario de Andrade, identificada com o “herói sem nenhum caráter” que, proveniente das obscuras florestas percorre o país com a sua oralidade falaciosa enganando todo mundo para voltar, após a farra escatológica, a sumir nas sombras de onde veio deixando para trás um nunca visto cenário de terra arrasada em matéria de princípios e instituições.

Essa seria a imagem que melhor simbolizaria, a meu ver, a representação destes paradoxais momentos que estamos vivendo, de um país literalmente dividido ao meio pelos que se entregaram ao embalo dos sonhos da democracia fácil e do tudo pode porque “os que estão mandando são os representantes da alma popular”, materializando, assim, a pior das éticas, a totalitária, que sagrou o princípio de que “os fins justificam os meios”.

Sairemos ilesos dessa tsunami de “retórica utópico-democrática” (como diria Jefferson)? Ou sucumbiremos, num chavismo à la brasileira, aos cantos de sereia do núcleo marxista-leninista do petismo que considera ensejada a etapa definitiva de deflagração da “revolução do proletariado”? O tempo dirá. Talvez, para fazer ainda eco à imagem macunaímica, haverá uma acomodação geológica de interesses, movida unicamente pela lei da gravidade do menor esforço, essa lei que explica as planícies de que está cheia a história política das Nações. Pois temos um dos maiores partidos do nosso universo político como fiel da balança, justamente aquela agremiação que, desde a fundação da Nova República, canalizou os interesses miúdos das oligarquias regionais e do caciquismo de sempre, solidamente ancorada no espírito patrimonialista de privatização do poder e do espaço público para benefício de amigos e apaniguados. Se vivo fosse, o iconoclasta Heráclito de Éfeso, exclamaria: “tanto barulho para nada”. Porque saímos oito anos atrás de uma etapa em que parecia que o velho patrimonialismo tinha começado a recuar, ao ensejo da lei de responsabilidade fiscal, do enxugamento da máquina pública e das privatizações e a ele voltamos temerosos e triunfantes, chorosos e risonhos, ébrios e sóbrios, que essa é a imagem cindida da sociedade brasileira nestes momentos de ressaca eleitoral.

Do que estou seguro é de que o Brasil continuará com o seu “vôo de galinha”, com decolagens mirabolantes e quedas desajeitadas, porque não fizemos o dever de casa. Não cuidamos a contento da educação para a cidadania, que deve ocorrer nas quatro primeiras séries do primeiro grau. Os esforços da última década foram envidados para que dinheiro não faltasse às escolas públicas, para compra da merenda escolar e para distribuição do material didático (em boa medida preparado para destruir qualquer sentimento de brasilidade, pois foi viciado pelos ativistas gramscianos com o vírus que destrói os valores tradicionais para “tomar a sopa pelas beiradas”, fazendo ruir de podre a odiada “sociedade burguesa”). Essa é a nossa realidade. Um país que, na era lulista, mostrou os músculos ao mundo, numa política externa desastrada que conspirou contra os interesses dos nossos amigos de fora e dos nossos empresários e contribuintes, dando força aos que nos desacreditam no cenário internacional, pois saímos na foto das nossas preferências alinhados com ditadores e facínoras como os irmãos Castro, Amadinejad, Chávez e quejandos. O Brasil não conseguiu emplacar, com a diplomacia lulista, nem a direção da Unesco, nem a coordenação da Organização Mundial do Comércio, nem a vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

LA FILOSOFÍA EN LATINOAMÉRICA Y LOS PROBLEMAS DE LA ORIGINALIDAD Y DEL MÉTODO


La problemática de la originalidad constituye la primera indagación, cuando se trata acerca de la filosofía en la América Latina. Representa la meditación filosófica latinoamericana algo nuevo, en el terreno más amplio de la filosofia occidental? Frente a esta pregunta, surgen dos respuestas radicales: no hay ninguna originalidad o, por el contrario, es posible una originalidad total. Ejemplo de la primera alternativa es la opinión del brasileño C. Bevilacqua, para quien "la especulación filosófica presupone una amplia y profunda base de meditación acerca de los variados dominios del saber humano, apareciendo ella como una flor misteriosa (...) de esta vegetación mental, así como la poesía es la flor de la emotividad" [Bevilacqua, 1899: 16]. En efecto, destaca Bevilacqua, si bien es cierto que la poesía florece en el Brasil, como consecuencia del hecho de enraizarse en el sentimiento, no ocurre lo mismo, empero, com la filosofía, terreno en el cual los brasileños se limitan a copiar el pensamiento de los europeos, sin que exista una escuela propia, o un conceito original de vulto. Opinión igualmente radical es defendida por el pensador colombiano F. González Ochoa, para quien es imposible hablar de filosofía latinoamericana, por el hecho de que tenemos nosotros, los latinoamericanos, un espírito de colonizados. "Quien es colonia por dentro - escribe González Ochoa [1986: 761] - concibe la libertad como cambio de dueño".
Ejemplo de la segunda alternativa es la opinión del brasileño R. Gomes, para quien sería posible la elaboración de un pensamiento latinoamericano ciento por ciento original, surgido de la meditación sobre la propia realidad y del olvido de la filosofía europea, que se convirtió en una simple cultura ornamental en la América Latina. Al respecto, concluye el mencionado autor: "desde el punto de vista de un pensar brasileño, Noel Rosa (compositor popular) tiene más para enseñarnos que el señor Immanuel Kant, toda vez que la filosofía, como la samba, no se aprende en el colegio" [Gomes, 1980: 107]. Opinión semejante es defendida por el peruano A. Palacios quien, en su "Mensaje a la juventud universitaria de Iberoamérica", considera que hasta ahora la cultura filosófica latinoamericana fué tributaria del pensamiento europeo. Esta circunstancia mudó a partir del final de la primera Guerra Mundial, que desenmascaró la decadencia de Europa. La América Latina, según Palacios, se siente en la inminencia de dar a luz una nueva filosofía, perfectamente original. En la senda de esta absoluta novedad, la revista peruana Valoraciones llegó a proponer lo siguiente: "Liquidemos cuentas com los tópicos en uso, expresiones agónicas del alma decrépita de Europa" [apud Mariátegui, J. C., 1986: 62]. A este respecto, Palacios escribe: "Somos pueblos nacientes, libres de amarras y atavismos, com inmensas posibilidades y amplios horizontes delante de nosotros. El cruzamiento de razas nos dió un alma nueva. Al interior de nuestras fronteras acampa la humanidad. Nosotros y nuestros hijos somos síntesis de razas" [apud Mariátegui, J. C., 1986: 64].
Entre estas dos posiciones extremadas se sitúan las opiniones de varios pensadores latinoamericanos, que se dedicaron al estudio de la problemática de la originalidad filosófica. Así, por ejemplo, para el peruano A. Salazar Bondy [1968], a pesar de que las condiciones de subdesarrollo hayan impedido hasta el presente la formulación de una filosofía latinoamericana, será no obstante posible llegar a ella, en la medida en que sean superadas las causas del atraso. Criticarlas a éstas es ya dar comienzo a la mencionada filosofía. Para el argentino A. Korn [1940], es posible hablar de filosofía autóctona toda vez que hay en Latinoamérica una colectividad humana unificada por sentimientos, intereses e ideales comunes, que desarrolla, a la luz de éstos, su acción histórica. La explicitación racional de este conjunto original, con la ayuda de la tradición filosófica occidental, constituye lo que se puede llamar filosofía argentina.
El pensador mexicano J. Vasconcelos [1927 y 1986] considera que los latinoamericanos no pueden hurtarse a la elaboración de una filosofía propia, que constituye "una manera renovada y sincera de contemplar el universo" [Vasconcelos, 1986: 50] y que es formulada a partir de la asimilación crítica de los valores y de los conceptos heredados de la cultura occidental. Este proceso constructivo debe tener presente la aprehensión emocional del mundo, que ocurre en la vivencia estética. Este aspecto es fundamental para la interpretación del mundo por parte de los latinoamericanos que son, en el sentir de Vasconcelos [1986: 58], una "raza emotiva".
Ya el pensador peruano J. C. Mariátegui [1978 y 1986] destaca que no existe un pensamiento característicamente latinoamericano. "Me parece evidente  - escribe Mariátegui [1986: 63] -  la existencia de un pensamiento francés, de un pensamiento alemán, etc., en la cultura de Occidente. No me parece igualmente evidente, en el mismo sentido, la existencia de un pensamiento hispanoamericano. Todos los pensadores de nuestra América se han educado en la escuela europea. No se siente en su obra el espíritu de la raza". Sin embargo, esto no significa que sea imposible la aparición, en el futuro, de una filosofía típicamente latinoamericana, en la medida en que vayan siendo incorporadas a la meditación filosófica las culturas indígenas. Por esto Mariátegui concluye con esperanza: "El espíritu hispanoamericano está en formación". Por outra parte, el pensador peruano reconoce que la filosofía europea entró en crisis, porque está en declinio la expresión capitalista de esta cultura. Con todo, él considera que Europa se renovará. "El pensamiento europeo se sumerge en los más profundos misterios, en las más viejas civilizaciones. Por esto mismo demuestra su posibilidad de convalecer y renacer". Cabe a los pensadores latinoamericanos saber asimilar la savia del pensamiento universal, que circula en las venas de la filosofía europea" [Mariátegui, 1986: 62].
El pensador argentino F. Romero [1944, 1952 y 1986] considera que, para discutir la cuestión acerca de si hay una filosofía latinoamericana se debe, en primer lugar, descartar las dos posiciones extremadas que fueron mencionadas al comienzo. Éstas son sintetizadas así por él: la que sostiene "que todo ya fué dicho y no resta sino repetir devotamente los esquemas ilustres" y la que "espera revelaciones portentosas, novedades inauditas, creaciones ex nihilo". Romero [1986: 69] refuta así una y outra posiciones: "La primera implica decretar la radical esterilidad del presente y del futuro, negarles, sin razones válidas, la virtud innovadora que palpita en toda época, y acogerse a una plácida contemplación de la riqueza amasada por los antepasados. Es la cómoda actitud del heredero, que cuando llega al extremo, culmina en la rápida dilapidación del legado. En cuanto a la espera y la exigencia de portentosas revelaciones  - residuo de la actitud mítica - acusa ignorancia, porque la historia de la filosofía da testimonio, en cada uno de sus instantes, de la continuidad y de la articulación del pensamiento filosófico, que hasta en sus menores pliegues e inflexiones cuenta com las adquisiciones obtenidas y en ellas se apoya para perfeccionarlas y aún para contradecirlas". Romero destaca, en seguida, el fenómeno de la "normalidad filosófica", que constituye el clima actual de la filosofía en la América Latina y que es definido así: "el ejercicio de la filosofía como función ordinaria de la cultura, al lado de las otras preocupaciones de la inteligencia" [Romero, 1986: 68]. Este clima abre la puerta para la maduración de la conciencia de sí y la formulación, en un futuro próximo, de una auténtica filosofía latinoamericana. Al respecto, Romero [1986: 71] escribe: "Lo que existe es mucho más modesto, pero también mucho más sólido y autoriza qualquier esperanza, ya que es el presupuesto indispensable para que surja y prospere a su tiempo una filosofía original. La vena filosófica florece por todas partes; sería estupidez o maldad exigir que las aguas brotasen, desde el comienzo, abundantes y cristalinas, cuando en países de muy madura civilidad hubo apenas arroyuelos precarios. La naciente filosofía todavía tiene que ir mucho a la escuela; y aún debe ser estimulada a prolongar la escolaridad, porque todas las precocidades, y aún más las de la inteligencia, son peligrosas y, en los casos menos graves, desembocan en lamentables pérdidas de tiempo. Lo esencial, definitivamente, es esto: que en nuestra espiritualidad la vocación filosófica llegó a adquirir conciencia de sí y busca sua expresión".
El pensador venezolano E. Mayz Vallenilla [1959 y 1986] considera que es posible una filosofía latinoamericana en la medida en que, siguiendo el método heideggeriano de la hermenéutica existencial (de clara inspiración fenomenológica), el hombre iberoamericano descubra su origen, o sea, su aprehensión primordial del ser. La originalidad, en filosofía, presupone dos cosas basicamente: por una parte, conocimiento profundo del patrimonio filosófico de la humanidad y, por outra, explicación de la forma peculiar en que, en el transcurso de la historia, el hombre latinoamericano ha vivido su experiencia de ser, la cual, por ser limitada, se caracteriza por algunas notas particulares. Estas características expresarían la originalidad (la originariedad, dice Vallenilla) de la filosofía latinoamericana. "La experiencia de ser del hombre latinoamericano  - destaca el pensador venezolano [1986: 80] - se halla emparentada con la historia de la experiencia de ser realizada por la Humanidad en su totalidad y, sin embargo, en ella se acusa la presencia de una original originariedad. La originariedad consiste en la diversa forma de comprender el ser y, por lo tanto, de objetivar su sentido y hasta sus significaciones categoriales". Estan originariedad de la filosofía en la América Latina es expresada así: un aprehenderse el hombre de esta parte del mundo como un "no-ser-siempre-aún", que pone al desnudo el inacabamiento existencial del universo histórico latinoamericano.
Para el pensador peruano F. Miró Quesada [1974 y 1986] es indiscutible que se está formulando, hoy en día, una auténtica filosofía latinoamericana, que recorre dos caminos: el de los que piensan, a partir de la América Latina, los problemas universales de la filosofía y el de aquéllos que piensan, a la luz de la filosofía universal, los problemas del hombre latinoamericano. Esta tarea está siendo realizada por la "tercera generación" de pensadores latinoamericanos del siglo XX y comienzos del XXI, siendo que la primera fué la de los "patriarcas" o "fundadores" (que hablaron por primera vez de "filosofía americana", como J. B. Alberdi, A. Korn, J. E. Rodó, C. Vaz Ferreira, E. Molina, A. Deustua, R. de Farias Brito, J. Vasconcelos y A. Caso) y la segunda  fué la de los "consolidadores" o "forjadores" (que formularon la problemática de la autenticidad de esta filosofia como, por ejemplo, F. Romero, C. Astrada, N. de Anquín, J. de Figueiredo, A. Amoroso Lima, J. C. Mariátegui, S. Ramos, etc.).
La tercera generación realiza este ideal recorriendo los dos caminos mencionados. G. Marquínez Argote [1986b: 13] sintetizó así las características de esta generación, que es llamada técnica: sus miembros "nacen en la segunda década del siglo XX aproximadamente. Asumen y dan continuidad al proyecto de la generación anterior, pero con la ventaja de que ya la filosofía ha llegado a una primera madurez de disciplina normalizada, sobre cuyas bases se puede pensar en la creación de una filosofía auténtica". (Se situarían dentro de esta generación, además del propio Miró Quesada, autores como R. Frondizi, V. Fatone, C. Cosio, J. A. Vásquez, E. Pucciarelli, A. Vasallo, M. Reale, O. N. Derisi, M. A. Virasoro, A. W. de Reyna, A. Ardao, J. Llambias de Azebedo, V. Ferreira da Silva, J. Cruz Costa, G. Francovich, L. E. Nieto Arteta, C. Betancur, D. Cruz Vélez, J. Jaramillo Uribe, E. Mayz Vallenilla, L. Zea, R. Soler, E. García Maynez, F. Larroyo, E. de Gortari, L. Villoro, A. Sánchez Vásquez, L. Recasens Siches, E. Nicol, J. Gaos, J. Xirau, J. D. García Bacca, E. Imaz, M. Granel,, J. Ferrater Mora, M. Zambrano, etc. A pesar de no mencionados por Miró Quesada ni por Marquínez Argote, también estarían en esta generación, a nuestro modo de ver, importantes pensadores como R. Uribe Ferrer, A. Restrepo Arbeláez, A. Paim, C. B. Gutiérrez, D. Menezes, J. P. Galvão de Sousa, A. Correia, L. Van Acker, U. Zilles, A. Crippa, U. Borges de Macedo y otros).
El pensador mexicano L. Zea [1974, 1976 y 1986] considera que es posible hablar de una "filosofía latinoamericana como filosofía sin más", o auténtica filosofía [Zea, 1974]. Inspirado en conceptos provenientes de la dialéctica hegeliana, Zea destaca que, por el hecho de que los latinoamericanos son seres humanos, están dotados de la capacidad de pensar filosóficamente. Sólo que la meditación filosófica ocurrió en América Latina de forma diferente a como ocurrió la filosofía en Europa. Afincados en los pensadores europeos, los latinoamericanos partieron para la discusión del problema fundamental que siempre los preocupó: la libertad. En la realización de esta empresa interpretaron a los autores europeos, tratando de solucionar, a la luz de sus pensamientos, la problemática que los preocupaba. Ahora bien, esta solución apunta para un camino: superar el pasado de colonialismo y el presente de neocolonialismo. Pero la toma de conciencia de este reto ocurrió, para los pensadores latinoamericanos, en el seno del estudio de la historia de las ideas, o sea, de la forma en que las varias generaciones trataron, a la luz del pensamiento europeo, de solucionar la problemática básica de la libertad. Racionalismo, positivismo, liberalismo, etc., las varias tendencias del pensamiento europeo, fueron puestas en confrontación por los pensadores latinoamericanos con el gran reto que los movía: la cuestión de la libertad. En este esfuerzo de negación de la servidumbre, surgieron relámpagos de lo que se podría llamar una auténtica filosofia de la historia latinoamericana, que fué la forma predominante adoptada por la filosofía en nuestro continente. Forma que es, en el sentir de Zea, "filosofía sin más", por cuanto responde a la pregunta fundamental del ser humano por el sentido de su existencia.
Zea sintetiza de la siguiente manera su concepción acerca de la filosofía latinoamericana: "Resumiendo, podríamos decir que nuestra filosofía, innegable filosofía, partió y parte de la conciencia de la servidumbre y de la dependencia impuestas por los intereses de otros hombres. Pero servidumbre y dependencia que no podrán ser anuladas si simplemente se pretende ser eco de otros hombres, aunque sean hombres libres, olvidando la experiencia de las propias servidumbre y dependencia. Porque no se puede ser outro diferente de sí mismo: y es de sí mismo que se tendrá que partir para ser libre. Es el mismo hombre el que, sin dejar de serlo, toma conciencia de su servidumbre para transformarla en libertad, sin dejar por eso de ser el mismo hombre concreto que aspira a ser libre. Todo esto proviene de una filosofía de la historia expresada en esta historia de la filosofía latinoamericana. Filosofía de la historia que, al tomar conciencia de la servidumbre y de la dependencia, se transforma en una filosofía sin más, que proyecta ponerle fin a la servidumbre y a la dependencia impuestas a lo largo de esta nuestra historia. Filosofía de la liberación que es, al fin de cuentas, la preocupación de toda filosofía, pero que en esta nuestra América se presenta como preocupación central. Una filosofía que, para ser tal, no debe esperar que los hombres de nuestra América sean libres. En una sociedad de hombres plenamente libres, otras serán las preocupaciones filosóficas de sus individuos. En una sociedad en la que la libertad continúa siendo puesta en riesgo, la preocupación central de tal filosofía debe ser la conquista de la libertad" [Zea, 1986: 127].
Para el pensador argentino E. Dussel [1980 y 1986], es posible una filosofía latinoamericana como filosofía de la liberación. El pensamiento europeo-norteamericano se ontologizó, dejando de aprehender el auténtico punto de vista metafísico, que consiste en abarcar y comprender la realidad humana del mundo periférico, sometido a la dominación del centro. Se trata de elaborar un nuevo discurso filosófico, a partir de la perspectiva de los dominados. De forma semejante a como, en la teología de la liberación, se identifica el lugar teológico de la Revelación con la lucha histórica de los explotados contra los explotadores, así, en la filosofía de la liberación, el lugar de aprehensión de la verdadera dimensión metafísica es esta misma lucha. Este nuevo modo de filosofar, que surgió en la Argentina en 1972 y que rápidamente se extendió, en los años posteriores, al resto de la América Latina, "parte evidentemente de la periferia, pero aún usa el lenguaje del centro" [Dussel, 1980: 7]. Este lenguaje abarca algunas categorías provenientes de las filosofías hegeliana, heideggeriana, husserliana y marxista. El grupo de categorías que tiende a prevalecer es, al parecer, el proveniente del magterialismo histórico de Marx. Las cuestiones relativas a la temática de la liberación de los oprimidos son las fundamentales para la filosofía de la liberación. El punto central es el siguiente: "No hay liberación nacional frente a los imperios de turno, sin liberación social de las clases oprimidas. Adoptada esta tesis, la filosofía de la liberación clarea su definición histórica" [Dussel, 1986: 134], y pasa a identificarse con la praxis liberadora de los oprimidos.
Para el pensador brasileño A. Bezerra [1936: 72] no hay duda de que hubo, ya desde el período colonial, una filosofía autóctona en el Brasil, proveniente de la unión entre la meditación europea y la "filosofía de los Naturwölker". El también brasileño L. W. Vita [1964, 1969a y 1969b] considera, por su parte, fuera de discusión la existencia de la filosofía brasileña, "no como un organismo eidético, supratemporal, totalmente inmune a la contingencia histórica, sino alguna cosa que no es más que la elevación abstractiva de una situación vital historicamente dada. En el proceso de asimilación de las ideas ajenas, imprimimos nuestras características, de acuerdo con el viejo principio de que todo lo que se recibe toma la forma del recipiente, o como ciertos perfumes que, al contacto con la epidermis, sufren una alteración química que les muda la fragancia, y en esto consiste nuestra originalidad" [Vita, L. W., 1969b: 6].
Dos pensadores brasileños, M. Reale [1947, 1977, 1981a y 1981b] y A. Paim [1977, 1981, 1984 y 1986] formularon la metodología que le permite a la filosofía latinoamericana caracterizar su originalidad, sin con todo caer en el extremo de una originalidad total (reivindicada, según ya fué visto atrás, por autores como R. Gomes o A. Palacios). Partiendo del hecho de que la meditación filosófica contemporánea ocurre preferentemente bajo la forma de discusión de problemas y no como formulación de las grandes perspectivas transcendente y transcendental (que ya fueron fijadas por las filosofías de Platón y de Kant, respectivamente), ni como construcción de sistemas (que fué la modalidad adoptada por la meditación occidental hasta finales del siglo XIX), Reale y Paim parten para la formulación de un método que permita el análisis de la producción filosófica brasileña y latinoamericana como discusión de problemas, superando el vicio de la actitud apologética, que condena o hipervaloriza autores, de acuerdo con las preferencias axiológicas del estudioso y venciendo, por outra parte, la moda analítica, que reduce la filosofía al estudio del discurso de los clásicos, sin con todo reconocerles a los pensadores latinoamericanos la capacidad para meditar sobre su propia realidad. En relación con esta posición, A . Paim [1981: 92] escribió: "La filosofía es ciertamente un saber especulativo, que se se proyecta sobre una problemática que, a pesar de renovada a través de los tiempos, se ha revelado como perenne frente a la sucesión de los sistemas. Estos problemas, sin embargo, siempre están relacionados con las circunstancias culturales. De suerte que el carácter especulativo de la filosofía no puede ser considerado como simple diletantismo, como si la filosofía no tuviera ningún compromiso con la temporalidad y las angustias de determinado momento de la cultura de un pueblo".
A . Paim [1981:92], inspirado en la corriente culturalista brasileña (tributaria del neokantismo y de la fenomenología), sintetizó de la siguiente forma la propuesta metodológica en cuestión: "El método sugerido por Miguel Reale para la investigación de la filosofía brasileña se compone de los siguientes elementos: 1) identificar el problema (o los problemas) que preocupaban al pensador, prescindiendo de la búsqueda de filiaciones a corrientes que le sean contemporáneas en el exterior; 2) abandonar la preocupación de averiguar si el pensador brasileño interpretó adecuadamente las ideas de determinado autor extranjero, más expresamente, renunciar a la confrontación de interpretaciones y, por lo tanto, al cotejo de la interpretación del pensador brasileño estudiado con otras interpretaciones posibles, para escoger entre una u outra y 3) ocuparse de preferencia con la identificación de nexos y derivados, que permitan aprehender las líneas de continuidad real de nuestra meditación".
BIBLIOGRAFIA
BEVILACQUA, C. [1899]. Esboços e fragmentos. Rio de Janeiro: Laemmert.
BEZERRA, A. [1936].Achegas à história da filosofia. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional.
DUSSEL, E. [1980]. Filosofia da libertação na América Latina. São Paulo: Loyola; Piracicaba: Unimep.
DUSSEL, E. [1986]. "La filosofía de la liberación en Argentina: irrupción de una nueva generación filosófica".  In: G. Marquínez Argote (organizador). Qué es eso de filosofía latinoamericana?  Bogotá: El Buho, pgs. 129-136.
GOMES, R. [1980].  Crítica da razão tupiniquim. 4ª edición. São Paulo: Cortez.
GONZÁLEZ Ochoa, F. [1986]. "Filosofía colombiana?" In: G. Marquínez Argote (organizador). Qué es eso de filosofía latinoamericana? Bogotá: El Buho, pgs. 75-76.
KORN, A. [1940]. Obras. La Plata: Universidad Nacional de La Plata.
MARIÁTEGUI, J. C. [1978]. Obras Completas. 5ª edición. Lima: Amauta, volumen 12.
MARIÁTEGUI, J. C. [1986]. "Existe un pensamiento hispanoamericano?" In: G. Marquínez Argote (organizador). Qué es eso de filosofía latinoamericana? Bogotá: El Buho, pgs. 60-65.
MARQUÍNEZ Argote, G. [1986]. Qué es eso de filosofía latinoamericana? Bogotá: El Buho.
MAYZ Vallenilla, E. [1959]. El problema de América. Caracas: Universidad Central de Venezuela.
MAYZ Vallenilla, E. [1986]. "Programa de una filosofía original", in: G. Marquínez Argote (organizador). Qué es eso de filosofía latinoamericana? Bogotá: El Buho, pgs. 77-83.
MIRÓ Quesada, F. [1974]. Despertar y proyecto del filosofar latinoamericano. México: Fondo de Cultura Económica.
MIRÓ Quesada, F. [1986]. "El proyecto latinoamericano de filosofar como decisión de hacer filosofía auténtica". In: G. Marquínez Argote (organizador). Qué es eso de filosofía latinoamericana? Bogotá: El Buho, pgs. 95-115.
PAIM, A. [1977]. Problemática do culturalismo. 1ª edición.  Rio de Janeiro: Graficon.
PAIM, A. [1981]. "Miguel Reale e a filosofia brasialeira". In: J. C. Azevedo (organizador). Miguel Reale na Un. B. Brasília: Universidade de Brasília, pgs. 51-100.
PAIM, A. [1984].História das idéias filosóficas no Brasil. 3ª edición. São Paulo: Convivio; Brasília: Instituto Nacional do Livro / Fundação Pró-Memória.
Paim,A.[1986]O estudo do pensamento filosófico brasileiro. 2ª edición. São Paulo: Convivio.
REALE, M. [1949]. A doutrina de Kant no Brasil. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais.
REALE, M. [1977]. Experiência e cultura. São Paulo: Grijalbo / Edusp.
REALE, M. [1981a]. "Miguel Reale por ele mesmo". In:  J. C. Azevedo (organizador). Miguel Reale na Un. B. Brasília: Universidade de Brasília, pgs. 127-153.
REALE, M. [1981b].  "Minha trajetória filosófica". In: J. C. Azevedo (organizador). Miguel Reale na Un. B. Brasília: Universidade de Brasília, pgs. 161-184.
ROMERO, F. [1944]. Filosofía de la personalidad y otros ensayos de filosofía. Buenos Aires: Losada.
ROMERO, F. [1952]. Sobre la filosofía en América. Buenos Aires: Raigal.
ROMERO, F. [1986]. "Sobre la filosofía en Iberoamérica". In: G. Marquínez Argote (organizador). Qué es eso de filosofía laltinoamericana? Bogotá: El Buho, pgs. 66-74.
SALAZAR Bondy, A. [1968].  Existe una filosofía de nuestra América? México: Siglo XXI.
VASCONCELOS, J.[1926]. Indología: una interpretación de la cultura iberoamericana. Barcelona: Ariel.
VASCONCELOS, J. [1986]. "El pensamiento iberoamericano". In: G. Marquínez Argote (organizador). Qué es eso de filosofía laltinoamericana? Bogotá: El Buho, pgs. 49-59.
VITA, L. W. [1964]. Escorço de filosofia no Brasil. Coimbra: Atlântida.
VITA, L. W. [1969a]. A filosofia contemporânea em São Paulo. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia.
VITA, L. W. [1969b]. Panorama da filosofia no Brasil. Porto Alegre: Globo.
ZEA, L. [1974]. La filosofía latinoamericana como filosofía sin más. 2ª edición. México: Siglo XXI.
ZEA, L. [1976].El pensamiento latinoamericano. Barcelona: Ariel.
ZEA, L. [1986a]. América como autodescubrimiento. Bogotá: Universidad Central.
ZEA, L. [1986b]. "La historia de la filosofía latinoamericana". In: G. Marquínez Argote (organizador). Qué es eso de filosofía latinoamericana? Bogotá: El Buho, pgs. 116-128.


################

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A NOSSA ERRÁTICA POLÍTICA EXTERNA

(Entrevista concedida ao professor Gutierres Siqueira, de São Paulo)

1. O Brasil sob o governo Lula exerce uma política externa proclamada como Sul-Sul, valorizando as relações com países pobres e emergentes. Quais são as vantagens e desvantagens dessa abordagem diplomática? – Bom, acho que a dimensão terceiro-mundista que o presidente Lula deu à nossa política externa é irreal e traduz mais anseios ideológicos. É uma burrice sem tamanho ter o governo petista hostilizado tradicional parceiro do Brasil, como são os Estados Unidos, em fala recente do presidente, ridicularizando, de forma chula, a secretária de Estado americana. Isso revela uma absoluta falta de cultura política e uma indesejada presença, nas idéias de política externa do atual governo, de chavões ideológicos, mais do que de princípios de sadio realismo político.

2. Quando o governo brasileiro é indagado sobre os direitos humanos em Cuba ou no Irã, os diplomatas invocam o princípio da não-intervenção em assuntos internos de outros países. Mas na ação em Honduras parece que houve uma forte intervenção brasileira nos problemas daquela nação centro-americana. Seria uma contradição? – Evidente contradição que só revela o despreparo da liderança do governo Lula em matéria de política externa. Os nossos diplomatas sempre foram, desde o século XIX, profundamente respeitados lá fora. O que se dizia até há pouco tempo, era que o Brasil não improvisava em matéria de política externa. Hoje, sob efeito da retórica populista (“nunca antes na história deste país”...), o que se diz é que o Brasil improvisa em matéria de política externa. Lula conseguiu desprestigiar o Itamaraty, uma tradição de dois séculos, um patrimônio que enobrecia a Nação brasileira. No caso de Honduras fomos colocados como matéria de chacota internacional. A nossa representação diplomática em Tegucigalpa virou literalmente a casa da mãe Joana, com ativistas dormindo nos gabinetes, gente amontoada, militantes chavistas fazendo o seu trabalho sujo, etc.

3. Como o senhor avalia a diplomacia brasileira nas crises entre Colômbia e Venezuela? O senhor acredita que o novo governo de Juan Manuel Santos conseguirá avanços com as ações impulsivas de Hugo Chávez? – Diferentemente do governo petista, a administração de Juan Manuel Santos não improvisa. A pauta da política externa colombiana é séria e os efeitos estão aí: revelou-se transparente, respeitada, eficiente. Tudo que a nossa diplomacia, hoje, não é. A posição brasileira em face do problema Colômbia-Venezuela foi ditada, ao longo dos últimos oito anos, pela preferência do governo Lula pela revolução bolivariana de Chávez. Ideologia absolutamente imatura. Porque Chávez se juntou ao Foro de São Paulo, tudo lhe é permitido. O governo brasileiro se parcializou e perdeu a capacidade de intermediação que antes tinha. Ninguém hoje, na Colômbia, acredita na isenção do governo brasileiro. Pior para os nossos interesses. O presidente Santos conseguiu uma jogada de mestre nas tensas relações com a Venezuela: simplesmente desmontou a retórica de Chávez, ao chamá-lo diretamente para dialogar. O que o governo colombiano queria, em primeira instância, era que os venezuelanos pagassem a dívida de 800 milhões de dólares que comerciantes do vizinho país tinham para com a Colômbia, por conta do comércio bilateral interrompido com a quebra das relações diplomáticas. Santos conseguiu que esse pagamento fosse feito. E, com a divulgação, pelo governo de Álvaro Uribe, no final da sua administração, dos vídeos que identificavam as FARC como protegidas do governo venezuelano em seu território, abriu espaço para que o novo presidente se apresentasse como o bom policial com o malandro, enquanto Uribe encenava a posição do policial truculento, que deixou as provas da interferência venezuelana no Tribunal Internacional de Haia. Os colombianos simplesmente deram um nó de forca no pescoço de Chávez. Se não paga e se persiste em apoiar os guerrilheiros das FARC, as provas já estão aí, nas mãos dos juízes de Haia. Chávez não teve mais remédio do que ficar quietinho e cumprir o prometido a Santos no encontro de Santa Marta.

4. E a democracia no Brasil? Estamos avançando na consolidação das instituições democráticas ou corremos perigo de uma “mexicanização” à la brasileira com a hegemonia de um partido? – O risco de uma mexicanização já está aí. É só ler o projeto de Direitos Humanos 3 que o governo assinou no final do ano passado. Ora, a equipe da Dilma não renunciou a essas idéias de crescente estatização da mídia e de abuso em matéria de direitos individuais e de ataque à liberdade de imprensa. Se Dilma for eleita, os petistas e coligados vão tratar de tornar realidade essas propostas malucas, que conspiram contra o Estado de Direito e contra a democracia. Não precisa ter bola de cristal para alguém prever essa desgraça. É a crônica de uma ditadura anunciada, parafraseando o livro de García Márquez (Crônica de uma morte anunciada). O PT, com as inúmeras quebras de sigilo fiscal de cidadãos, com finalidade eleitoreira, já mostrou do que é capaz, caso alguém tenha se esquecido dos inúmeros atentados à democracia perpetrados por Lula e sua equipe, ao longo dos últimos oito anos, desde o mensalão, até os aloprados 2. A posição de Lula como presidente de partido nestas eleições, nos palanques, o desqualificou por completo. Não é um governante isento. Governa para os seus militantes e para a sua patota.

5. Qual o maior desafio da política externa brasileira para os próximos anos? – Superar a sinuca de bico em que Lula colocou a nossa diplomacia e voltar às antigas tradições de pragmatismo responsável, amor ao Brasil e defesa dos interesses dos brasileiros no mundo globalizado.