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sábado, 20 de maio de 2017

LULA, DILMA, TEMER E OS PECADOS DA CARNE NO FINAL DOS TEMPOS




Vou me acolher à imagem bíblica de Patmos, que deu nome ao mais recente capítulo da Operação Lava-Jato. Patmos, como sabemos, é o nome da ilha onde morou o quarto evangelista, onde escreveu o Apocalipse, aquela obra magnífica que dá fecho à Bíblia. Na visão apocalíptica de São João, as desgraças do povo de Deus correriam por conta da Grande Prostituta, Roma, com o seu poder imperial que tinha se tornado uma instância absoluta, fazendo dos Imperadores seres divinos, portanto inapeláveis pelos simples mortais. Pois bem: o pecado da Grande Rameira é o poder absoluto, descontrolado, que julga sem limites de lei e sem dar satisfações à opinião pública. O quarto evangelista prenunciava, assim, as desgraças que se abateriam sobre os Judeus, primeiro, e, depois, sobre os Cristãos, por obra desse poder leviatânico. 

No nosso caso, a imagem tem tudo a ver com as desgraças que a sociedade brasileira enfrenta a partir do Leviatã tupiniquim, tornado posse de família da casta que nos governa e que esperneia para não largar o osso. 

O grande pecado de Lula, Dilma e Temer consistiu em ter enxergado o poder como algo que não poderiam abandonar em nenhum momento. Convenhamos, claro, que na prática desse pecado houve gradações. Nem se compara em desfaçatez e enormidade o pecado de Temer, de fazer tramoias à margem da lei para garantir a governabilidade e as reformas, em face da verdadeira operação de engenharia política tramada por Lula e Dilma e os seus asseclas, de se apropriarem do Estado para no poder permanecerem indefinidamente, se enriquecendo sem limites com o dinheiro público ardilosamente desviado por empresários corruptos, em obras corruptas aprovadas pelos governantes com procedimentos corruptos e colocando as instituições republicanas no escanteio.

Bom: se é para acabar de vez com essa prática danosa de governar à margem das instituições, e se o atual presidente é considerado pelas autoridades da Magistratura e do Ministério Público como responsável por ter ultrapassado os limites assinalados pela lei nas conversas pouco republicanas com  o Joesley Batista, que o gravou no bate-papo noturno tido com o Presidente no Palácio do Jaburu e que foi identificado pelo próprio Joesley, no depoimento prestado ao Ministério Público, como beneficiário de uma doação fraudulenta de 4,6 milhões de dólares pagos pela JBS, que a lei seja cumprida. A melhor coisa que o presidente Temer poderia fazer seria renunciar, como já aconselhou, entre outras vozes republicanas, o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Convenhamos que o presentinho recebido por Temer é trocado comparado com o montante recebido da mesma empresa pelo Lula (70 milhões de dólares) e pela Dilma (80 milhões de verdinhas)...Mas delito é delito, não importando para configurar a prática do recebimento de propina o tamanho do presente indevido. A lei é a lei e a Magistratura saberá dosar a pena de cada um de acordo com a quantia do dinheiro do crime praticado.

Mas que a lei seja cumprida para valer e que as dúvidas que ora emergem também sejam dilucidadas, para uma opinião pública perplexa que não aceita meias-verdades. Primeira dúvida: os irmãos Batista ficarão soltinhos da Silva, viajando alegremente entre São Paulo e Nova Iorque, como se não tivessem cometido falcatrua alguma? Como se não tivessem sido os beneficiários mores dos indevidos empréstimos do BNDES aprovados por Lula? Como se não tivessem lucrado bilhões com a desvalorização do Real causada pela bomba que o jornalista Lauro Jardim de O Globo despejou sobre as nossas salas de jantar no horário nobre do noticiário na semana finda (sempre as Organizações Globo como privilegiadas para saberem desse furo que não aconteceria sem a mediação oficial, que deve também ser investigada). Quem, de dentro do Ministério Público, da Polícia Federal ou da Magistratura, passou ao jornalista as informações bombásticas? 

Tudo bem que os felizardos irmãos empresários da carne se acolham à delação premiada e às outras figuras legais que cobrem a colaboração de empresas suspeitas. Mas a opinião pública fica com a pulga atrás da orelha, quando vê os grandes empreiteiros que transgrediram pagando pesadas condenas no xilindró e observa a dupla Batista num ir e vir saltitante e produtivo entre o Brasil e os Estados Unidos, como se nada de irregular tivessem feito nestas terras. Outra dúvida: como foi possível aos irmãos Batista costurar em dias uma delação premiada que outros empresários corruptos gastaram meses a fio para ver aprovada? Não somos bobos e toda essa operação não aconteceria sem o nosso dinheiro. Logo temos direito a saber, tintim por tintim, como os nossos suados reais foram gastos.

A sociedade brasileira é paciente e está pagando um preço caro pelos desmandos dos criminosos que a Operação Lava-Jato tem identificado e está punindo. Mas esperamos que os atuais passos sejam transparentes e não contem meias-verdades. Estamos cansados de sermos uma republiqueta com donos do poder. Não queremos trocar de donos. Queremos, simplesmente, que eles desapareçam e que as tramoias soturnas sejam substituídas simplesmente pelo império forte, transparente e democrático da Lei. Não queremos que surjam guardiões salvadores nem novos messias como já andam pedindo a gritos os militantes da petralhada em ruas e avenidas. Queremos, simplesmente, nos governarmos à sombra da Lei. Isso é democracia.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

DE NOVO O CAMINHO DAS REFORMAS (Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 17/05/2017)


Em face da magna tarefa de reestruturar as instituições brasileiras após o tsunami do desgoverno lulopetista, abrem-se duas alternativas: o caminho das reformas ou a da convocação de uma nova constituinte. A maior parte dos intelectuais e homens públicos que pensam o Brasil acolheu-se à primeira alternativa. Uma parcela menor elegeu a segunda.

Entre os defensores desta última, aparecem vozes autorizadas como a do economista Roberto Giannetti da Fonseca, presidente da Kaduna Consultoria e vice-chairman do Lide (Líderes Empresariais). A propósito da proposta de fazer tudo de novo no que tange às nossas instituições, mediante a convocação de uma Constituinte específica para isso, escreve Giannetti da Fonseca: "A falência de um sistema político, assim como de uma empresa, pressupõe a imediata mudança de sua administração e a responsabilidade de seus acionistas. No caso do atual sistema político, significa a imediata convocação, ainda em 2017, de uma Assembleia Constituinte independente, com mandato parcial específico para promover a tão esperada reforma política e a correção de erros históricos que todos sabemos existirem de longa data, mas que até hoje fomos incapazes de corrigir. Torna-se imperativo, na atual conjuntura, que seja uma Constituinte independente, com os integrantes eleitos diretamente e impedidos de participar das eleições e de ocupar cargos públicos até 2022, para se evitarem conflitos de interesses. E que essa revisão seja de fato profunda e abrangente, a começar pela reforma da estrutura político-partidária, de forma a reduzir o absurdo número de partidos que hoje proliferam pelo País (...)". Incumbências dessa Assembleia também seriam a redução da onerosa estrutura do Legislativo, a eliminação do foro privilegiado, a adoção de um sistema de representação mais acorde com o nosso modelo demográfico, a alteração da forma de nomeação dos integrantes dos tribunais superiores, etc.

Entre os defensores da primeira alternativa, identificada com o prosseguimento das reformas em curso no seio do Congresso Nacional, está a grande maioria dos intelectuais e homens públicos alheios ao messianismo lulopetista, que acreditam nos caminhos das reformas efetivadas pelas instituições atuais, se alinhando a uma solução moderada típica da nossa estrutura cultural. Já se manifestaram sobre isso o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o atual presidente Michel Temer e altos funcionários do Estado como o Comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Vilas Bôas. Manifestaram-se nesse sentido também intelectuais como Luiz Werneck Viana, Bolívar Lamounier, Denis Rosenfeld e muitos outros entre os quais me incluo, bem como jornalistas da talha de José Nêumanne, Eliane Cantanhêde, Vera Magalhães, Míriam Leitão, Dora Kramer, etc. Considero honestamente que esse é o caminho a prosseguir por várias razões: em primeiro lugar, porque nem tudo está contaminado pelo vírus das práticas corruptas, tanto no seio do Parlamento quanto no interior da Magistratura ou dos quadros administrativos que cercam o Executivo. Quando têm sido detectados e devidamente denunciados pelo Ministério Público, na forma da lei, atores marcados pelas práticas corruptas, têm sido postos de lado sem contemplações. Reconheçamos que se trata de um caminho difícil que exige muita negociação e paciência, com os altos e baixos dos debates parlamentares e das manifestações da opinião pública. Mas essa saída tem dado testemunho de que as instituições republicanas funcionam. Destaque-se o papel de negociador com o Congresso que tem sido desempenhado a contento pelo Presidente Temer, profundo conhecedor do meio parlamentar.

A respeito da premência das reformas que estão sendo efetivadas, o general Vilas Bôas destacou a importância da variável ética a ser preservada, como motor daquelas. A respeito, o alto oficial frisou na sua entrevista à Revista Veja (26 de abril): “Considero importante que se dê a celeridade possível ao julgamento dos casos, porque acho perigoso que as pessoas de bem comecem a ficar descrentes, e às vezes até descrentes da democracia. Aí você começa a abrir espaços para atalhos. O Brasil vai ter de se repactuar. E o único parâmetro universal para que se faça isso é o princípio ético e moral. O que me preocupa é que acho que não apareceu uma base de pensamento alternativa nem uma base que propicie o surgimento de uma liderança”.

A respeito da confiança na democracia brasileira e das expectativas com que são esperadas as reformas que estão em andamento, escreveu a jornalista Eliane Cantanhêde: "Conforme dizem empresários do campo e da cidade e confirmam embaixadores estrangeiros em Brasília, a reforma da Previdência e os próximos três meses serão cruciais para saber o que vai acontecer e o mundo apostar ou não suas fichas e investimentos no Brasil. Aliás, esses embaixadores estão perplexos com a corrupção descomunal, mas também com a força da democracia brasileira. Apesar de dois anos de recessão, mais de 14 milhões de desempregados, a Lava Jato atingindo oito ministros e dezenas de parlamentares e um dia inteiro de protestos e fogo na TV, as instituições funcionam normalmente: o Executivo governa, o Legislativo vota, o MP investiga, o Judiciário julga. Que país do mundo enfrentaria todas essas crises simultâneas sem risco de ruptura, golpe, implosão?"

Que as reformas em curso prossigam, notadamente aquela que foi preconizada pelo Debate Estadão e que foi sintetizada nestes termos por editorial deste jornal: “(...) a chamada cláusula de barreira, ou de desempenho, destinada a restringir o acesso a recursos públicos diretos, como os do Fundo Partidário, ou indiretos, como aqueles que patrocinam na mídia eletrônica o horário eleitoral dito gratuito (...)”.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

A DANÇA MACABRA DA TIA IOLANDA COM "PAVAROTTI"


Este poderia se o título da ópera bufa à qual estamos assistindo, de camarote e pagando ingresso salgado, nós, cidadãos e contribuintes brasileiros! De arrepiar a criatividade dos meliantes, bem como a capacidade artística desses comediantes. Não é à toa que, em grego, ator se diz: Hypocrités. Porque a petralhada fez, da representação política, hipocrisia pura a mais deslavada possível. 

Com os depoimentos do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura estamos sabendo, agora, quem são os golpistas que tentavam dar mais um golpe na boa fé dos brasileiros e nas instituições republicanas. Incrível a desfaçatez dos meliantes, que após terem sido surpreendidos com a boca na botija no Mensalão, continuaram a surrupiar dinheiro público no Petrolão como se nada de ruim tivesse acontecido. Lula e Dilma devem ser julgados e presos o mais rapidamente possível, para bem do Brasil. As provas são contundentes. Esperamos que a Justiça faça o dever de casa com presteza, antes de que os indigitados fujam. E que sejam julgados e presos, também, todos os seus colaboradores. Pelo andar da carruagem, as celas especiais vão ficar escassas.

Não é de hoje a capacidade falsamente representativa dos Estados Patrimoniais. Como a sua essência é uma falsidade (pois é falso um Estado que se constrói em base à privatização do poder por uma minoria, que enxerga as instituições como patrimônio da família), os atos que mantêm vivo o mostrengo são uma encenação descarada, cujo conteúdo consiste numa farsa grosseira. Na antiga Rússia dos czares foi encenação a pomposa inauguração da nova capital, São Petersburgo, construída por ordem do czar Pedro o Grande numa zona pantanosa, ao longo do rio Neva e na entrada do Golfo da Finlândia. Na véspera da inauguração, em 27 de maio de 1703, como não havia prédios suntuosos suficientes, foram providenciados, para agradar ao Czar de Todas as Rússias, tapumes de madeira com réplicas de fachadas de palácios.

A encenação petista que foi planejada e dirigida desde a capital, Brasília, está sendo desmontada, passo a passo, pela disciplinada labuta dos procuradores do Ministério Público, pelas enérgicas providências do juiz Sérgio Moro à frente da Operação Lava-Jato, pelo apoio dos Tribunais Superiores, pelo incansável trabalho da imprensa e pela vontade dos cidadãos manifesta nas múltiplas manifestações massivas dos últimos anos, bem como pela pressão que, através das redes sociais, setores os mais diversos da sociedade brasileira realizam sobre a burocracia do Estado, especialmente sobre o Legislativo e o Executivo, bem como sobre o Supremo Tribunal Federal. Esperamos que as autoridades competentes façam o dever de casa neste enorme esforço de saneamento das instituições republicanas. O trabalho é grande, o repto é enorme, mas enfrentar o desmonte do patrimonialismo é tarefa patriótica que não pode parar.

Por enquanto, as delações premiadas dos colaboradores da farsa lulopetista, notadamente dos marqueteiros João Santana e Mônica Moura, alimentam a nossa imaginação com o ultimo baile da ilha fiscal da fantasia lulista, cujo ato mais importante é a dança macabra da tia Iolanda com "Pavarotti", vulgo "Barba", que antecede à derrubada final da mentira institucionalizada. O chefe, é lógico, vai dizer que "não sabia de nada". E a Tia Iolanda, com certeza, alegará que as novas providências da Justiça não passam de um "golpe". Haja criatividade!

quinta-feira, 11 de maio de 2017

LULA NO TRIBUNAL


Chegou por fim a data de apresentação do réu Lula perante o tribunal presidido, em Curitiba, pelo juiz Sérgio Moro. Segui a divulgação, feita pela TV, dos vários blocos do depoimento de Lula. A conclusão que tirei é de que não adiantou o teatrinho de palanque para se furtar a cumprir com o que a lei manda. Lula teve de se submeter ao rito do processo. Durante 5 horas Lula prestou depoimento, perante o juiz Moro e, depois, perante os procuradores do Ministério Público. 

O mundo não desabou sobre as nossas cabeças como faziam temer os vociferantes agentes do Lularápio, especialistas na ruidosa propaganda das ruas e nos tumultos que desencadeiam, corriqueiramente, onde quer que o chefete os conclame. Desta vez não deu certo a estratégia lulopetralha. Tiveram os áulicos de se conformarem com as ruas bloqueadas. A mortadela não foi suficiente para levar a Curitiba cem mil apoiadores do réu, como tinham programado os organizadores da claque. Contados grosso modo, chegaram, no máximo, a 10 mil pessoas cansadas após horas e horas de viagem paga pelo imposto sindical e tiveram de se manter distantes do cenário, forçados pelo dispositivo montado pela polícia militar do Paraná.

A impressão geral que tive após ouvir as declarações de Lula é a que sempre tive dele: um mau caráter que não vacila em jogar a água suja sobre os outros, sejam eles a sua finada mulher, os seus amigos sindicalistas, os seus parceiros de partido, os seus mais próximos colaboradores. Na hora do "pega para capar" o Lularápio se escafede e pendura a conta não paga no pescoço dos outros. Foi assim desde o início, desde quando o "agente boi", que serviu ao regime militar, se dispôs a ajudar a desmontar a estrutura do peleguismo varguista, gerando um novo tipo de pelego, o petista. Como dizia Brizola com a sua língua ferina, "Lula é a esquerda que a direita gosta".

Um mau caráter juramentado: nunca me enganei a respeito do indigitado. Lembro-me de que quando vim ao Brasil para fixar residência neste belo país, no início de 1979, em São Paulo, onde arranjei o meu primeiro emprego como pesquisador da Sociedade Brasileira de Cultura Convívio, na TV do hotelzinho "Nápoles", onde morei provisoriamente nos primeiros meses no bairro Santa Cecília, aparecia, no noticiário da noite, a figura do líder barbudo que comandou a famosa greve dos metalúrgicos, com aquele seu discurso repetitivo de língua presa, com o magnetismo que o fazia ser vitoriado enardecidamente pelas multidões. Eu pensava para mim: "Esse é um enganador". Trazia comigo a experiência das lutas sindicais das quais eu tinha participado em Medellín, como fundador do sindicato dos professores da Universidade Pontifícia Bolivariana. 

Lula, desde o início, foi um delator sem-vergonha que odeia delatores. Ele quer a exclusividade da missão de entregar conhecidos e amigos. Ponto positivo para a Justiça e para a ordem pública no Brasil. O mito caiu por terra e a apresentação de Lula no tribunal é mais um capítulo da desconstrução do mito. Como diz Ortega, os mitos morrem de dentro para fora, não de fora para dentro. Lula desconstruiu-se a si próprio. 

Lembrava nestes dias César Maia, no seu ex-blog, que Lula perdeu credibilidade ao mudar o discurso. De líder moralizador que encarnou a defesa incondicional do reino da virtude, o palanqueiro vestiu a personagem do político pragmático que se aproxima dos seus antigos inimigos, os odiados empresários, para lucrar com eles. Esse foi o início do fim. A sociedade não perdoa a mudança radical de personagem. Essa é a lição dada por François Guizot, o fundador da historiografia moderna na França na primeira metade do século XIX. Para esse autor, a chave do sucesso político consiste na fidelidade à personagem escolhida por parte do líder. Lula definha quando o que a sociedade busca é identidade de propósitos nos atores políticos. Ao pular fora do discurso moralizante para vestir a elástica camiseta do vendedor pragmático, o ator se descaracterizou.

Em boa hora. Porque o Brasil está cansado do discurso lulista e da sem-vergonhice que fez afundar a maior estatal brasileira, que sufocou o nosso dia-a-dia com a volta da inflação, que não aguenta mais a desconstrução sem-vergonha das instituições republicanas num churrasco de fim de tarde de sindicalistas bêbados. 

Ponto para o juiz Sérgio Moro - que deu, aliás, na sessão presidida por ele, uma bela lição de isenção da Magistratura - e para os procuradores do Ministério Público. Nem o juiz nem os procuradores se deixaram intimidar pelos delírios do réu nem pelos gritos da militância. Ponto para o atual governo que faz as reformas esperadas, em que pese os solavancos do clientelismo e da corrupção que teima em se esgueirar pelas frestas do compadrio sindical e político. Ponto para o Supremo Tribunal Federal que, na pessoa do ministro Fachin principalmente, abre a porta para a continuação da Operação Lava Jato. Esperamos dias melhores.

sábado, 6 de maio de 2017

A RENOVAÇÃO DA DEMOCRACIA BRASILEIRA A PARTIR DOS MUNICÍPIOS

Este escriva na sua palestra na Câmara Municipal de Londrina em 05-05-2017 (Foto: Câmara Municipal de Londrina)

No dia 5 de maio, convidado pelo amigo vereador Filipe Barros (PRB), pronunciei uma palestra na Câmara de Vereadores de Londrina, no seio da Comissão Especial de Desburocratização, criada por esse colegiado a fim de dar celeridade aos trabalhos do mesmo para atender melhor às demandas dos cidadãos, removendo o "entulho burocrático e cartorial" que atrapalha a rápida tomada de decisões. Estavam presentes alguns vereadores, bem como representantes do setor produtivo, alguns líderes sindicais, profissionais liberais, professores e cidadãos comuns.

Não querida deixar passar em branco esta circunstância, sem compartir os pontos fundamentais da minha exposição com os leitores do meu blog. A seguir, reproduzo os elementos básicos da minha fala.

Sempre considerei que a solução dos problemas sociopolíticos do Brasil começa pelo município onde moramos. Afinal, como frisava o grande Alexis de Tocqueville, "o município é a escola primária da democracia". Se a representação em nível municipal anda bem, a tendência é que andem bem as outras instâncias da mesma, nos planos estadual e federal. Inversamente, os vícios enraizados na representação municipal tendem a se estender aos outros colegiados.

O grande problema brasileiro, do ângulo do atendimento às reivindicações dos cidadãos, passa hoje pela revisão do nosso Pacto Federativo, como alertava, com propriedade, há alguns anos atrás, o senador Jorge Bornhausen (do DEM). Afinal de contas, a Constituição de 88 que, em teoria, conferiu mais poder a Estados e Municípios, terminou sendo "revisada" pela pesada burocracia a serviço dos "donos do poder", conferindo mais força à União sobre os entes políticos menores. Isso para não falar nas "pedaladas fiscais e tributárias" feitas pelos governos petistas, no sentido de centralizar ainda mais os recursos amealhados com os impostos, aumentando, claro, estes. Afinal de contas, o PT virou uma organização criminosa de roubo continuado aos Cofres da União, presidida pelo chefete que todos conhecemos com o codinome de "Barba".

Em consequência, hoje, os prefeitos são pedintes do governo federal. A romaria é triste, mas consuetudinária, nesta República Centralista do Brasil, que de Federativa somente tem o nome. A primeira providência que deveria ser tomada seria a reformulação do nosso Pacto Federativo. Porque, sem ela, não teremos espaço para a vida cidadã livre e dinâmica. Se os impostos que o município de Londrina recolhe ficassem por aqui, sem ir previamente para o saco sem fundo do Tesouro Nacional, teríamos muitos mais recursos para investir em obras como saneamento básico, saúde, transportes, segurança e educação municipal.

Além da revisão do nosso "Pacto Federativo", que outras medidas poderiam ser implementadas para melhorar a vida nos Municípios, neste Brasil imenso, herdeiro da tradição Patrimonialista, segundo a qual, como frisava Raimundo Faoro, "O poder tem donos"?

Antes, porém, de enunciar as medidas que poderiam ser tomadas, vou contar uma breve história. Os cidadãos brasileiros temos medo do Estado. O procuramos, mas trememos nas bases quando este nos procura. Geralmente é para nos anunciar uma revisão da declaração de renda, a fim de aumentar o imposto que devemos pagar, claro. Temos medo da malha fina! Um exemplo desse medo testemunhei em Juiz de Fora, a acolhedora cidade mineira (do tamanho mais ou menos de Londrina, com aproximadamente 600 mil habitantes). Nela residi durante 20 anos. Decidi, nos anos 80, prestar a minha colaboração à prefeitura local, convidado por um dos assessores do então prefeito. O assessor era um odontólogo e tinha sido meu aluno na pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora. O prefeito, que acabava de chegar de um longo périplo pelas capitais europeias, queria fazer uma reunião com o setor produtivo para explorar as possibilidades de parcerias publico-privadas em projetos de interesse social, à maneira como essas parcerias funcionavam na França. Fiquei chocado quando vi que não compareceu à mencionada reunião nenhum dos empresários convidados. Algum tempo depois, tive oportunidade de conversar sobre o tema com um aluno meu da pós, que era empresário da área de serviços. Então ele me contou o seguinte: alguns meses atrás, a organização que agrupa os empresários locais promoveu um seminário para debater a possibilidade de a prefeitura elaborar um plano de desenvolvimento da cidade e região, com participação do setor privado. O prefeito esteve presente no evento, com alguns dos seus secretários. Duas semanas depois, os empresários que organizaram o seminário começaram a ser visitados por fiscais da prefeitura, com a alegação de que precisavam fazer uma investigação em busca de possível sonegação de impostos. Moral da história: os empresários ficaram na defensiva em face do poder local. Afinal, a prefeitura somente os enxergava como possíveis inadimplentes ou sonegadores de tributos!

Vamos à questão das medidas concretas que poderiam ser tomadas para melhorar a relação entre Poder Municipal e Sociedade, no terreno da Desburocratização. Esclareçamos, de início, que formamos parte, no Brasil, de uma organização política de tipo patrimonialista, em que o poder é enxergado pelos políticos como bem de família, a ser gerido em benefício dos próprios governantes, dos seus amigos e familiares. O que a Operação Lava-Jato está revelando constitui um capítulo a mais nessa trama de criminosa privatização de recursos públicos, à sombra da mentalidade familística e orçamentívora. Convenhamos que a legislação, nesse contexto, é deliberadamente confusa, a fim de que os donos do poder possam costurar as saídas "legais" mais apropriadas para benefício deles próprios e das suas patotas. É a mentalidade à luz da qual foram cunhadas frases como: "Aos amigos marmelada; aos inimigos bordoada"; "Aos amigos os cargos; aos inimigos a lei"; "É dando que se recebe"; "Não fazer inimigos que não se possa converter em amigos"; "Governar é nomear, demitir e prender"; "Oferecer dificuldades para vender facilidades", etc.

Países que, como o Brasil, sofreram com a organização patrimonialista do poder, conseguiram, ao longo das últimas décadas, efetivar reformas que lhes permitiram colocar o poder a serviço de todos, não apenas do grupo governante e dos seus amigos e apaniguados. Cito, em primeiro lugar, o caso de Portugal. Há quarenta e poucos anos, os portugueses saíam da ditadura salazarista (que durava já mais de três décadas), para caírem na armadilha de outra ditadura, desta vez de esquerda, pelas mãos dos capitães que desataram a "Revolução dos Cravos" e criaram o novo governo, de tendência comunista, que substituiu ao chefiado por Américo Thomás e Marcelo Caetano. Prevaleceu, nesse primeiro intento de gestão marxista, um enorme ciclo de estatizações de propriedades privadas, que foram entregues aos sindicatos de trabalhadores simpatizantes dos comunistas. A resultante foi a perda total da competitividade no terreno econômico e a reação de setores empresariais e liberais da sociedade que se organizaram na denominada "Revolução do Porto" que, sob a direção do socialista democrático Mário Soares, tirou do poder os comunistas e restabeleceu a ordem num contexto de respeito à propriedade, ao pluralismo partidário, à obediência aos tratados internacionais e à preservação das liberdades dos cidadãos. 

O que de mais interessante aconteceu em Portugal, nessa virada liberal, foi que as Câmaras Municipais recuperaram as funções de gestoras do poder local, colocando-o a serviço dos cidadãos. Houve uma revitalização da vida cidadã a partir das Câmaras, que passaram a priorizar a prestação de serviços aos contribuintes, tirando o poder local da força centralizadora que tinha se apossado da gestão pública durante o longo ciclo salazarista e na etapa, menor, da dominação dos comunistas. A democracia portuguesa assumiu um caráter nitidamente municipalista. Quem visitar Portugal percebe essa vitalidade imensa dos Municípios, não apenas nas cidades maiores como Lisboa ou Porto, mas também em cidades menores como Évora, Braga ou Viana do Castelo. É notável o o zelo dos governantes locais para responder às exigências dos cidadãos. Nesse clima ocorreu a Reforma da Administração Local que assenta em quatro vetores estratégicos: a descentralização e a reforma administrativa, o aprofundamento do municipalismo, o reforço do associativismo municipal e a promoção da coesão e da competitividade territorial através do poder local.

Herdeiros que somos, no Brasil, do municipalismo português que deita raízes nas tradições medievais, poderíamos retomar esse fio de identidade, a fim de conferir às nossas Municipalidades a vitalidade de que hoje carecem. A negociação do um novo Pacto Federativo seria o ponto de partida.

Na Espanha da era pós-franquista vamos encontrar também uma revitalização da vida municipal, desta vez aliada à utilização intensiva da tecnologia de comunicações via internet. Nesse item, tanto a Espanha quanto Portugal gozam de uma invejável disseminação da utilização da Banda Larga por camadas cada vez mais extensas da população. Os índices de utilização de Banda Larga por 100 habitantes são, em Espanha e Portugal, da ordem de 26,29, enquanto no Brasil esse índice é apenas de 10,05. Na Espanha funciona, nos municípios, a denominada "Banda Ciudadana", um software que permite ao cidadão comum se comunicar instantaneamente com a sua respectiva municipalidade para assuntos de segurança e demais serviços públicos, ou para estabelecer contatos com outras redes de comunicação vigentes entre os habitantes das localidades. As propostas para os governos municipais correm por este caminho. A aplicação da experiência espanhola da "Banda Cidadã" em Londrina seria perfeitamente possível, levando em consideração que, em primeiro lugar, do ângulo técnico, a cidade já conta com uma rede sub-utilizada de cabos de fibra ótica e, em segundo lugar, que as políticas traçadas pelo município contemplam a criação, nele, de um pólo high-tech de informática. 

Algo semelhante foi adotado nas cidades colombianas, após a disseminação, entre os principais municípios do país, do movimento social não-governamental "Como Vamos", que elabora, em cada município, mensalmente, um quadro do funcionamento dos serviços nas áreas de saúde, segurança, transportes, educação e prestação de serviços de comunicações e bancários. Esses índices são publicados mensalmente pela imprensa, isso já há quinze anos. Hoje os resultados da pesquisa mensal são distribuídos também pelas redes sociais via Smartfones. O funcionamento diuturno desse mecanismo renovou a vida política, isolando os partidos tradicionais e obrigando-os a se renovarem, dando lugar também à participação de siglas novas que emergiram das reivindicações municipais. Foram adotados elementos do voto distrital, complementando-o com a tradicional figura do voto proporcional em lista, à maneira como se pratica na Alemanha. A democracia colombiana firmou-se, assim, retomando a prática das antigas municipalidades ibéricas de origem medieval e consagradas pelo Direito Filipino, tendo sido abandonadas depois nos surtos de absolutismo e autoritarismo que percorreram os séculos XVIII a XX. 

É bom lembrar que o despertar dessa valorização da vida municipal ocorreu, primeiro, nas pequenas cidades situadas em áreas indígenas, que partiram para uma estratégia de não-violência face às arremetidas terroristas das FARC ao longo dos anos 80 e 90 do século passado. Dos pequenos municípios indígenas, esse despertar do municipalismo passou aos grandes e médios municípios do país, tendo sido, em Medellín, por exemplo (uma cidade com 3 milhões de habitantes), a pedra angular das políticas de segurança pública e de intervenções sociais permanentes mediante parcerias publico-privadas. O movimento cívico "Como Vamos", que como foi frisado é não-governamental e que aglutina empresários, educadores, estudantes e cidadãos comuns foi o instrumento hodierno de renovação da vida municipal. Um exemplo que foi copiado, de forma parcial, por algumas cidades brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e que poderia ser implantado, de forma integral, em Londrina, onde foi copiado um elemento importante da revitalização municipal de Bogotá, os ônibus integrados em via expressa (experiência que foi curiosamente copiada, pelos colombianos, de Curitiba e trazida de Bogotá pela prefeitura de Londrina). As boas ideias circulam!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DÚVIDAS DE PESO: O ARRAZOADO DE PERCIVAL PUGGINA EM RELAÇÃO À 2ª TURMA DO SUPREMO



Amigos. Tenho a minha posição firmada no sentido de apostar nas instituições brasileiras e na responsabilidade dos seus condutores. Mas os fatos das últimas semanas levantam sérios questionamentos que não podemos abafar. 
A atitude da maioria dos ministros do STF da 2ª Turma, notadamente de Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandovski no sentido de, céleres, terem aprovado o relaxamento da prisão do peso-pesado do crime organizado José Dirceu, causou impacto negativo na sociedade brasileira. A razão de peso é, a meu ver, a seguinte: A cúpula petista associou-se para delinquir. Na cúspide da pirâmide há duas figuras: Lula e Dirceu. Claro que há outras também, a começar pela Dilma que, como seu chefe, Lula, pelas delações feitas, sabe-se que "sabia de tudo". Ora, ora. Tudo bem que a Justiça ande devagar na colheita de provas. Os ritos precisam ser preservados. Mas ritos e atitudes éticas não podem brigar ao ponto de, num determinado momento, os primeiros passarem à sociedade a mensagem de que não há mais sentido de Justiça neste país. 
Dentre as muitas reações dos brasileiros em face desses fatos, ressaltam as razões apontadas, ontem, pelo general Augusto Heleno, ex-comandante militar da Amazônia. Elas situam-se neste contexto e é necessário que sejam levadas em consideração, dada a inquestionável autoridade moral desse eminente oficial perante a tropa e a opinião pública brasileira.
Parecem mais convincentes, hoje, as razões expostas pelo juiz Sérgio Moro, no sentido da necessidade de manter Dirceu na prisão, visto que, como um dos chefes da organização criminosa, poder vir a tumultuar as investigações em curso, tendo ficado fora da prisão graças à decisão da 2ª Turma do Supremo. Não podemos admitir, nesta altura dos acontecimentos, "pedaladas togadas". E sabemos que Lewandoski é mestre nelas (à luz do acontecido no julgamento da Dilma e da generosa interpretação de que ela poderia ser afastada da Presidência da República sem perder os seus direitos políticos). 
No atual embate entre a Segunda Turma do STF e os integrantes vencidos da mesma, os ministros Fachin e Celso de Melo, de um lado, de outro, entre a maioria da Segunda Turma e o Plenário do colegiado (evento que que está por vir) e, para complicar as coisas, entre o juiz Sérgio Moro e o Ministério Público, de um lado, e de outro a maioria dos ministros da 2ª Turma do STF, a resultante é a dúvida crescente, no seio da sociedade brasileira, no sentido de que a Suprema Corte represente a última instância jurídica em que todos podemos acreditar.
Que os eminentes Ministros do STF levem em consideração a perplexidade que ora paira na sociedade brasileira. Como eco equilibrado das dúvidas de peso que ora se levantam, reproduzo, neste espaço, o artigo que, hoje, divulga o jornalista gaúcho Percival Puggina.
OS HABEAS CORPUS DO STF: TERÁ A ÁGUA BATIDO EM QUEIXOS IMPRÓPRIOS?
Percival Puggina
           Ao mandar de volta ao aconchego do lar João Claudio Genu, José Carlos Bumlai, Eike Batista e José Dirceu, a segunda turma do STF abriu a porteira nos dois sentidos. Saem os presos e as suspeitas invadem o topo do judiciário nacional.
          Chega às raias do inadmissível que, conforme denunciou o procurador Deltan Dallagnol, o mesmo grupo de ministros tenha mantido na cadeia delinquentes em situação análoga aos que agora manda soltar. Como costumava dizer um amigo meu, já falecido: "É a diferença entre pano de chão e toalha felpuda".
          Como pode proporcionar segurança à sociedade um poder "supremo" da República que faz esse tipo de diferenciação? Que se conduz de modo ziguezagueante, para não dizer trôpego? Que decide e logo volta atrás? Onde alguns de seus membros se consideram em condições de julgar casos ante os quais se deveriam declarar impedidos? Que mantêm uma vida social comum e  conversações tão frequentes quanto pouco recomendáveis com figuras da cena política e econômica de quem nós guardaríamos prudente distância?  Os membros da Suprema Corte dos EUA, tão logo assumem suas funções, se recolhem a uma vida quase monástica, evitando toda atividade social que os exponha a situações de convívio inconveniente.
          Sinto muito. A desejável saída da crise política, pela qual tanto ansiamos como nação, pressupõe credibilidade no Poder Judiciário. E o STF vem se esforçando por cair em descrédito. É essa a conclusão inevitável de uma deliberação por 3 x 2 em matéria de tamanha sensibilidade social, onde isso parece não haver merecido qualquer consideração por parte da posição vencedora.
          Proliferam, então, as suspeitas. Como não associar esse surto de habeas corpus e as palavras arrogantes, duras e desrespeitosas do ministro Gilmar Mendes contra os promotores da Lava Jato, com a ruptura do contrato entre Antonio Palocci e os advogados que tratariam de sua delação premiada? Um dia o "Italiano" anuncia estar em condições de disponibilizar a Sérgio Moro atividades ilícitas com nomes, endereços e anotações que poderiam demandar mais um ano de investigações. Dia seguinte, recado dado, sabe-se da contratação, por ele, de advogados especializados em delações. Qual a consequência? Liberdade ainda que tardia para as toalhas felpudas! Só faltou ser dito: "Ai de quem falar em delação premiada daqui para a frente!". E Palocci dispensou seus advogados.
          Terá a água batido em queixos impróprios? A declaração da ministra presidente em entrevista ao programa "Conversa com Bial" da Rede Globo, na madrugada desta quarta-feira, 3, é uma clara expressão de insegurança quanto a isso. Disse ela: "A Lava Jato não está ameaçada, não estará. Eu espero que aquilo que cantei como hino nacional a vida inteira, nós do Supremo saibamos garantir aos senhores cidadãos brasileiros, de quem somos servidores: verás que um filho teu não foge à luta". Veremos?
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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

Área de anexos

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ANTÔNIO PAIM: "Se minha experiência valesse ninguém seria comuna ou se casaria" (Entrevista à jornalista Eliana de Castro)

Amigos, reproduzo entrevista que a jornalista Eliana de Castro fez ao Mestre Antônio Paim, em São Paulo, na residência do grande pensador, (no blog faustomag.com), ao ensejo da celebração dos seus 90 anos. Um documento tocante e que certamente interessará a todos os que estudamos a obra de Antônio Paim e reconhecemos o grande valor que ele representa para a cultura brasileira. O link original da matéria é este: 
http://faustomag.com/antonio-paim-se-minha-experiencia-valesse-ninguem-seria-comuna-ou-se-casaria/
A jornalista Eliana de Castro e o Mestre Antônio Paim (Foto de Alex Catharino).

Diante de uma oportunidade única, resta apenas se entregar? Sem artifícios, sem medo de errar sobre o que deseja guardar como memória? De forma desajeitada, transformo a entrevista a seguir em um pequeno poema sobre o amor: ao Saber, aos livros, a qualquer alguém capaz de marcar profundamente nossa vida. Quem emana essa centelha é Antônio Paim, um dos mais importantes filósofos e historiadores brasileiros. Aos 90 anos, é responsável por uma trajetória que jamais deverá ser esquecida na história da filosofia brasileira e do pensamento político brasileiro. É ele um dos grandes responsáveis por nossa memória – ou o que deveria ser nossa memória. Seria Paim a caixa preta desse voo que fazemos pela História, como participantes ou meros espectadores? Não sei o que você, leitor, conversaria com ele: se sobre fatos jamais contados ou sobre os últimos 50 anos de nossa política. Escolhi, contudo, falar sobre o que fez um homem que desejou não ter alma mudar de ideia.
Filósofo e historiador Antônio Paim.
Eliana de Castro (blog Fausto) – Aos 90 anos, creio que o entendimento que o senhor tem sobre a vida, a família, a religião, o amor e o amor romântico seja muito diferente do que eu possa ter… Se o senhor pudesse voltar atrás e mudar alguma coisa, o que seria?


Antônio Paim: Difícil de responder… Não me arrependo de nada. Fui comunista de verdade, não como os que ficavam tomando whisky e falando besteira na zona sul do Rio de Janeiro, como era comum entre os intelectuais. Fui comuna mesmo. Fui para a Rússia para me transformar em um bolchevique sem alma, sem amigos. Era o meu projeto. E só fui salvo pela paixão por aquela russa… [Emociona-se]
O amor…


Antônio Paim. Até fico comovido. Eu me apaixonei por ela no curso. Ela era tradutora, dava aulas. Eu levava textos para ela traduzir e quando tinha uma palavra que ela não sabia eu ensinava. Aprendi russo com uma facilidade enorme. E ficou naquilo… Éramos em 20 homens, 20 brasileiros comunistas. A matrícula era na Escola Superior do Partido Comunista, mas a maior parte das aulas acontecia na Universidade Lomonosov. Eram aulas introdutórias, então, quando acabei, fui para a Lomonosov direto. O amor foi um processo de humanização para mim. Eu estava em um caminho e, depois que nasceu a minha filha, tudo aquilo acabou para mim.
Kant foi uma grande influencia para o senhor?

Antônio Paim. Kant inventou uma solução que considero adequada para medir se o nosso comportamento é moral, que é fazer o que todo mundo pode fazer. Se em um momento de aperto você mente, Kant disse que não pode. Porque se você mente, você inviabiliza as relações. E ele tem razão. Mas… Às vezes na vida você precisa fazer violações. E eu fiz muitas violações. Não sabia essa regra kantiana direito. Estudei Kant depois que saí do Partido Comunista. Foi quando conheci um alemão, engenheiro meteorologista, Leandro Ratisbona. Ele conhecia Kant. Tive uma sorte danada de encontrar Kant. Fiz terapia kantiana. Passei quase 20 anos estudando com ele, todo sábado, página por página. Então, as coisas que fiz, procurei fazer até o fim. [Emociona-se]
Podemos considerar o amor e a paternidade assuntos mais importantes do que política?


Antônio Paim. Podemos.
E os livros! Três coisas: amor, paternidade e os livros.


Antônio Paim. Pode ser. [Emociona-se]
Nota: no momento que Paim se emociona, o historiador Alex Catharino, que intermediou o encontro, dá o seguinte depoimento.


Uma experiência que posso dizer, desses anos todos não só acompanhando o professor Antonio Paim, mas vários dos discípulos dele, é que o professor Paim foi um “painho”, um pai para os alunos. A paternidade intelectual do professor Paim foi a de cuidar de todos nós, eu mesmo um garoto naquela época. Ele sempre teve o cuidado de guiar, ajudar, orientar, dar uma trilha. Ele é um pai intelectual que pega pelas mãos e vai guiando, ajudando a descobrir novas áreas de pesquisa, mostrando as necessidades que o pensamento político brasileiro, a ética, tinham e tem. O trabalho que ele fez, não só com os alunos, mas também ajudando a abrir cursos de pós-graduação por todo o Brasil, além dos cursos de humanidades juntamente com o saudoso Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez. Tudo isso é material que precisa ser recuperado, é material da paternidade intelectual que revela um cuidado com a nova geração.


Alex Catharino, historiador, autor de Russell Kirk – O peregrino na terra desolada, foi aluno de Antônio Paim.



Nota - Paim prossegue: Não atribuo importância à paternidade intelectual. Creio que o que a nossa geração fez foi criar, pela primeira vez – e posso estar exagerando – uma alternativa, bem organizada, para esse bestialógico que virou a cultura brasileira, principalmente nas humanidades. Ninguém lê nada! E não é resultado da Internet não. Isso vem de muito antes. O Ricardo [Vélez Rodríguez], professor na Universidade Estadual de Londrina [e hoje, na Faculdade Arthur Thomas - nota do blog "Rocinante"], dá 200 páginas para os alunos lerem e eles reclamam! É claro que a Internet contribui. Isso de conversar em apenas 250 caracteres é uma idiotice completa. O Vargas Llosa diz que perdemos a guerra, que a cultura ocidental foi liquidada. [A Civilização do Espetáculo] Foi, mas tem os focos de resistência.
Quais são eles?

Antônio Paim. Nós temos tudo pronto para combater tudo isso, esse povo da USP que está na área de Filosofia – não para prender e perseguir, como eles fazem conosco. É difícil, vem de uma tradição muito louca. Eles incorporaram isso com o positivismo. [Muda de assunto]
Pensando aqui, a única coisa que eu gostaria de fazer, e não sei como resolver, é trazer a russa para cá. Porque a separação desorganizou minha cabeça completamente. Casei com uma moça durante a faculdade, que era uma moça muito bonita, e tive que fazer o curso de graduação sem ter lido muitos autores direito – e com uma mulher grávida dentro de casa, tendo que trabalhar para pagar as contas. Mas eu estava com a cabeça voltada para sair do marxismo. Eu tinha deixado de ser comunista, mas eu era marxista, o que eu sabia era marxismo. Mudei de assunto de novo? [Dá risada].
Pode falar o que o senhor quiser…

Antônio Paim. Se eu pudesse voltar atrás, e não sei como faria, eu resolveria minha vida com a russa. Naquela época, eu não estava disposto a morar na Rússia. Eu queria voltar de qualquer jeito. Eles têm sete meses de inverno! Nasci no sertão da Bahia. Até os 16 anos, eu não sabia o que era inverno. Quando vim para São Paulo fiquei um pouco mais afeiçoado ao clima. Mas fiquei tão destrambelhado quando a russa foi embora que casei com a pessoa errada. Durou um ano. Fomos irresponsáveis. A minha paixão pela russa foi um processo de humanização. O nascimento da minha filha russa foi também fundamental para eu sair daquele diabo que eu estava metido até o pescoço. Mas com a separação fiquei muito mal e tomei muitas decisões erradas. Quando eu era professor, eu costumava dizer: se minha experiência valesse, ninguém seria comuna ou se casaria. [Dá risada]
Quando o senhor fala do amor como um processo de humanização, é porque não temos controle sobre o amor e ficamos vulneráveis?

Antônio Paim. Se você tivesse ideia do que é o processo de bolchevização do sujeito… É brutal. Só de se propor a não ter família, amigos, já é um absurdo total.
Mas por que o senhor buscou isso?

Antônio Paim. Eu não queria ter alma. Aquele processo de construção do chamado comunismo na Rússia é de uma brutalidade inominável. É mais fácil explicar o comunismo do que o nazismo. O nazismo está misturado com nacionalismo, entre outros assuntos. O comunismo você não entende sem conhecer essa brutalidade. É importante dizer que Marx não tem nada a ver com o que houve na Rússia. Esse livro que escrevi sobre marxismo [Marxismo e Descendência], foi uma das coisas que eu tinha que fazer, foi um ajuste de contas com o marxismo.
Qual conselho o senhor deixaria para mim, ou para todos que desejam aprender mais, que apreciam a vida intelectual?

Antônio Paim. Procure ser autentica e fazer as coisas com seriedade.
***


Nota: Agradeço publicamente ao historiador Alex Catharino a oportunidade de viver instantes inesquecíveis e o incentivo de continuar escrevendo apenas sobre o que me toca.
Conheça os livros publicados por Antonio Paim:

·         1966 – A filosofia da Escola do Recife.
·         1967 – História das idéias filosóficas no Brasil.
·         1968 – Cairu e o liberalismo econômico.
·         1972 – Tobias Barreto na cultura brasileira: uma reavaliação.
·         1977 – A ciência na Universidade do Rio de Janeiro (1931-1945)
·         1977 – Evolução histórica do Liberalismo. Em colaboração com Francisco Martins de Souza, Ricardo Vélez Rodríguez e Ubiratan Borges de Macedo.
·         1978 – A querela do estatismo.
·         1979 – Bibliografia filosófica brasileira – Período contemporâneo (1931-1977).
·         1979 – Liberdade acadêmica e opção totalitária. Título organizado por Antonio Paim.
·         1981 – A questão do socialismo, hoje.
·         1981 – Os novos caminhos da Universidade.
·         1982 – Curso de Introdução ao pensamento político brasileiro.
·         1982 – Pombal na cultura brasileira. Título organizado por Antonio Paim.
·         1983 – Bibliografia filosófica brasileira (1808 -1930).
·         1983 – Para onde vai a Universidade brasileira?
·         1984 – História das idéias filosóficas no Brasil.
·         1986 – O estudo do pensamento filosófico brasileiro.
·         1987 – O modelo de desenvolvimento tecnológico implantado pela Aeronáutica.
·         1987 – Problemática do culturalismo.
·         1988 – Curso de Humanidades: História da Cultura. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1989 – Curso de Humanidades 2: Política. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1989 – Evolução do pensamento político brasileiro. Em colaboração com Vicente Barretto, Ricardo Vélez Rodríguez e Francisco Martins de Souza.
·         1989 – Oliveira Vianna de corpo inteiro.
·         1991 – A filosofia brasileira.
·         1992 – Modelos éticos: introdução ao estudo da moral.
·         1994 – Fundamentos da moral moderna.
·         1994 – Pensamento político brasileiro. Título organizado por Antonio Paim.
·         1995 – O liberalismo contemporâneo.
·         1996 – Curso de introdução histórica ao liberalismo. Título organizado por Antonio Paim em colaboração com Francisco Martins de Souza, Ricardo Vélez Rodríguez e Ubiratan Borges de Macedo.
·         1996 – Educação para a cidadania. Compêndio em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1996 – Roteiro para estudo e pesquisa da problemática moral na cultura brasileira.
·         1997 – A agenda teórica dos liberais brasileiros.
·         1997 – As filosofias nacionais.
·         1997 – Curso de Humanidades 3: Moral. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1997 – Curso de Humanidades 4: Religião. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1997 – Momentos decisivos de história do Brasil.
·         1998 – Etapas iniciais da Filosofia Brasileira.
·         1998 – História do Liberalismo brasileiro.
·         1998 – O Liberalismo social: uma visão histórica. Em colaboração com José Guilherme Merquior e Gilberto de Mello Kujawski.
·         1998 – Formação e perspectivas da social-democracia. Em colaboração com Carlos Henrique Cardim e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1999 – Curso de Humanidades 5: Filosofia. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
Fonte: Centro de Pesquisas Estratégicas Paulino Soares de Sousa – Universidade Federal de Juiz de Fora.

Nota da jornalista Eliana de Castro acerca da foto: Gostaria de dividir a foto especial que tirei com Antonio Paim. Não há produção, manipulações, apenas um momento especial, um registro simples. Como esta entrevista sai do padrão, pelo entrevistado e pela forma como decidi apresentar o conteúdo, quis compartilhá-la.