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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

LIBERDADE, TRADIÇÃO, FELICIDADE - ASPECTOS EXISTENCIAIS DO LIBERALISMO CONSERVADOR


Ao longo da minha vida dei uma guinada da esquerda para a direita. Qual a razão que me levou a isso? O que significa, nesse processo de mudança de rumo, a opção liberal-conservadora?

Sem liberdade, como ensina John Locke, a vida corre perigo. Se eu não tiver a possibilidade, enquanto indivíduo, de defender a minha própria vida, corro risco para a sobrevivência. Afinal de contas, só quem luta por sobreviver sabe o que é essencial à existência. E a liberdade aparece como a condição fundamental.

A defesa da vida é algo que aprendemos desde crianças. A nossa inteligência foi se desenvolvendo no meio dessa luta. Justamente a passagem da infância à juventude e à idade adulta, corresponde à evolução da pessoa, enquanto ser dependente dos pais, para um estágio em que o indivíduo se firma como alguém que é capaz de zelar pela própria vida. Isso vale para o indivíduo e para a sociedade. Qual é a sociedade mais feliz? Certamente é aquela na qual os indivíduos podem lutar livremente pela sua sobrevivência. Poderíamos afirmar que o estado mais adequado à natureza humana é o de liberdade e que a ausência dela corresponde a momentos de não plenitude.

Ao longo da minha vida percorri esses estágios de busca da liberdade para sobreviver. A opção que fiz, pela esquerda, ao longo da minha juventude, decorreu de um erro de apreciação daquilo que seria a liberdade. Imaginava que ser livre era descartar as tradições religiosas e os valores familiares que me tinham sido incutidos ao longo da infância, a fim de substituí-los pela ideologia da luta de classes que o marxismo me apresentava. Abandonei a vivência religiosa da infância e tentei trocá-la pela crença, presente na Teologia da Libertação, num ideal de salvação à sombra do pensamento de Marx, que apregoava a necessidade de consolidar, primeiro que tudo, a libertação econômica da classe dos explorados com sacrifício dos próprios interesses, a fim de aniquilar a classe burguesa e conseguir a materialização de uma sociedade totalmente igualitária.

Duas vivências foram importantes na minha mudança do marxismo para uma concepção liberal-conservadora do mundo: em primeiro lugar, a observação que fiz, como militante da Teologia da Libertação, do caminho percorrido, na Colômbia, pelo principal divulgador dessa ideologia no seio do clero e da universidade: o padre Camilo Torres, que tinha formulado os conceitos básicos da Teologia da Libertação. Camilo terminou sendo manipulado pelos grupos guerrilheiros na luta armada. Foi essa, exatamente, a saga percorrida pelo intelectual guerrilheiro: entrou na luta armada, passou a obedecer cegamente às ordens dos chefes e foi por estes colocado em situação de enorme risco, tendo virado alvo fácil da contraofensiva do exército colombiano. Virou, à semelhança do Che Guevara na Bolívia, o mártir revolucionário almejado pela esquerda radical.

Algo semelhante aconteceu com os jovens que o Partido Comunista manipulou para que, no Brasil, participassem da guerrilha do Araguaia. Foram abandonados pelos seus chefes e morreram no confronto que o Exército desfraldou para impedir a organização, no nosso país, de uma “República Socialista.

Ao redor de todos esses casos, fui percebendo que a opção pela luta armada era uma opção que colidia existencialmente com a vida intelectual e com a tendência da própria razão em prol do conhecimento do mundo, sem apagar perguntas incômodas, mas lhes dando sequência na livre indagação. Camilo Torres teve de silenciar a razão que pulsava forte, nele, a fim de se submeter à tática explicitada pelos chefes armados, que eram ativistas grosseiros. Algo semelhante ao que, posteriormente, vivenciei no meu contato com a esquerda universitária no Brasil, iludida com o ideal de formar “intelectuais orgânicos” que nada indaguem nem questionem. A “pedagogia libertadora” de Paulo Freire é um treinamento para a servidão!

A segunda vivência que motivou a minha mudança, foi a que se deu ao ensejo do Curso de Mestrado em Pensamento Brasileiro que fiz na PUC do Rio, entre 1973 e 1974. O meu orientador, Antônio Paim, que estudou os clássicos do Marxismo-Leninismo na Universidade Lomonosov de Moscou e conhece os meandros da manipulação ideológica, me colocou na trilha iluminista da mudança pelo conhecimento. Obrigou-me a ler os clássicos do liberalismo conservador: Locke, Tocqueville, Kant, Silvestre Pinheiro Ferreira, os Federalistas americanos. Tive de estudar também, sob a sua batuta, os clássicos liberais brasileiros de início do ciclo republicano: Rui Barbosa, Joaquim Francisco de Assis Brasil, Gaspar da Silveira Martins, o Visconde de Uruguai, etc. Com a sua orientação li, também, os liberais da década de 60 e 70 do século passado, como Miguel Reale, Merquior, Roque Spencer Maciel de Barros, Ubiratan Macedo, Milton Campos, Carlos Lacerda, etc. Modestamente, o meu orientador não me indicou os seus livros. Descobri que ele era, também, um dos grandes do pensamento liberal-conservador.

Essas leituras e a experiência de pesquisa realizada na PUC do Rio, permitiram-me aprofundar nas fontes do autoritarismo brasileiro, o tema por mim escolhido para a dissertação, num clima de seriedade acadêmica e tolerância. Essas circunstâncias fizeram com que eu passasse a valorizar a atitude liberal-conservadora, de defesa da liberdade preservando as tradições. Essa benfazeja influência completou-se, na Colômbia, com a orientação que recebi de dois pensadores liberais: o ex-presidente Carlos Lleras Restrepo (em cujo Partido “Novo Liberalismo” passei a militar) e o historiador e amigo Otto Morales Benítez. Convidado por eles, colaborei durante duas décadas com artigos para a Revista Nueva Frontera, publicada em Bogotá.

Do ângulo vivencial, a minha passagem do marxismo para o liberalismo conservador foi como uma libertação das cadeias do dogmatismo e de rejeição à vida, para uma aventura que me abria novos horizontes, ligados à defesa dos interesses individuais e à tentativa de construir, a partir deles, o pacto político. Passei a tratar com os meus alunos individualmente, indagando, como ponto de partida, o que cada um deles sentia ao ler um determinado texto nas disciplinas que eu oferecia, ou o que cada um desejava da disciplina que estava cursando. Passei a respeitar mais a individualidade daqueles que eram os meus orientandos. E descobri que, sem falar com as pessoas daquilo que lhes interessa, é vã a aventura intelectual.

Passei a valorizar sobremaneira a atitude dos liberais doutrinários na França, interessados em corrigir os desvios da Revolução Francesa, que fez mudanças radicais negando a história. Com a consequência trágica, como aponta Tocqueville, de que fizeram reviver os fantasmas do passado, ligados ao absolutismo e à servidão feudal. Essa correção de rumos, redescobrindo o indivíduo e as suas tradições, possibilitou que os liberais doutrinários pensassem a democracia fora do despotismo iluminista (como fez Tocqueville), se abrindo ao mundo da literatura e valorizando a experiência religiosa (como fizeram Benjamin Constant de Rebecque e Madame de Staël), ou definindo pacientemente as instituições que garantiriam o exercício da liberdade (como fizeram Guizot, Tocqueville e Constant). De grande valor foi, para mim, a possibilidade que a minha orientadora, Françoise Mélonio, me abriu para entrar em diálogo com pesquisadores interessados nos pontos que me atraíam, no Japão, nos Estados Unidos e na Argentina.

Voltei paulatinamente à valorização da fé na vida cotidiana, na aventura intelectual e na reunião com os meus semelhantes que querem comungar, na comunidade eclesial, nessa vivência do Transcendente. Fiquei sensível à análise e aprofundamento daqueles aspectos que foram relegados ao esquecimento pela pregação ideológica, ao longo do século XX. Essa época foi batizada, corretamente, como a “idade da ideologia”, que conduziu a um resultado trágico: a morte de Deus e o menosprezo pela existência humana.  Não é à toa que muitos intelectuais identificam o “curto século XX” como aquele em que a existência humana perdeu o sentido da sua caminhada pelo mundo.

Resumindo: ao abandonar o marxismo e me abrir às ideias do liberalismo conservador, descobri novamente a luz e a alegria de viver, de mãos dadas com a valorização do estudo das ideias e das sociedades, para servir à Humanidade que indaga pelo sentido da existência, tendo como pano de fundo, sempre, o ideal de pessoa humana, “feita à imagem e semelhança de Deus”. Descobri que, no amor que sedimenta a família, ao redor da fé, é onde podemos vivenciar, primeiro, todas essas coisas e transmiti-las às novas gerações, na pessoa dos nossos filhos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

DAVOS E AS EXPECTATIVAS DO POBRES: SOCIALISMO OU LIBERALISMO?

Está claro que o tema da pobreza no mundo é o grande convidado de Davos. Quando se discute a pobreza, hoje em dia, os primeiros a pôr a cabeça do lado de fora são os que lucram com ela: os socialistas de todos os matizes. Dilma se fez presente, tentando convencer os investidores internacionais que há bom clima para eles colocarem por aqui o seu prezado dinheiro. Mais uma performance eleitoreira da presidente, em função do que os petistas e coligados sempre acham essencial: ganhar as próximas eleições. Pouco estão se lixando com os pobres do planeta. Tampouco se preocupam com os ricos e com os critérios que eles empregam para investirem o seu dinheirama. 

Certamente, na América Latina, os países da Aliança do Pacífico, México, Colômbia, Peru e Chile têm mais coisas a oferecer aos investidores, a começar pela segurança jurídica de que não serão mudadas as regras do jogo. Clima muito diferente daquele que oferecem os países da "área bolivariana" das Américas (Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador, Argentina, Nicarágua, Brasil). Se pudessem, todos se juntariam no Mercosul (que de "merco" não tem quase nada, tendo sido banido o mercado, e de "sul" só resta o nome, pois está tentando se confundir com a "Alba" do finado Chávez).

A sorte dos pobres do mundo de hoje será assinalada pelo capitalismo. Falo em "sorte" no sentido de redenção das cadeias da pobreza. Foi assim no século XX e não será diferente no XXI. Claro que quando falo em capitalismo refiro-me à produção capitalista aberta ao livre mercado pensada pelos liberais, desde John Locke até os tempos atuais. Capitalismo não liberal é um contrassenso, que produz riqueza para alguns. O verdadeiro capitalismo produz riquezas para todos, graças à mediação dos mercados e da liberdade de empreendimento.

Como tudo na vida, para resgatar a originalidade do capitalismo liberal, devemos nos remontar até as fontes clássicas do mesmo. As principais: Locke, Adam Smith, Benjamin Constant de Rebecque, Tocqueville, os Patriarcas da Independência americana, os Doutrinários franceses. Esses são os clássicos. No século XX, menciono duas fontes importantes: Raymond Aron e os pensadores econômicos da Escola Austríaca. 

Na tradição luso-brasileira, os clássicos do liberalismo são: Silvestre Pinheiro Ferreira, Paulino Soares de Sousa (visconde de Uruguai), Rui Barbosa, Assis Brasil e Gaspar da Silveira Martins.Seria difícil elaborar uma lista que englobe todos os pensadores liberais destacados do século passado. Mas arrisco o meu palpite: pensadores liberais clássicos no século XX, no meu entender, são: Miguel Reale, Roque Spencer Maciel de Barros, Antônio Paim, Eugênio Gudin, Ubiratan Macedo, José Guilherme Merquior, Meira Penna, Roberto Campos, Og Leme. Sobre o legado deles, a nova geração liberal que leciona nas Universidades e nas instituições de ensino médio, e que desponta nas redes sociais está, certamente, modificando o panorama político brasileiro.

Capitalismo liberal é a solução para o problema da pobreza. Isso desde as mais remotas origens, com John Locke. Acaba de ser publicado na França o breve ensaio dedicado pelo filósofo à problemática mencionada, sob o título de: Que faire des pauvres? [O que fazer com os pobres? - Tradução do inglês de Laurent Bury, apresentação de Serge Milano, Paris: Presses Universitaires de France, 2013, 63 p.]. É a versão do pequeno ensaio lockeano intitulado: On the Poor Law and Working Schools (1697), que constituiu uma memória dirigida ao rei acerca do problema da pobreza no Reino Unido e de como superá-la. Recordemos que Locke ocupava, nesse tempo, o alto cargo de Comissário Real do Comércio e das Colônias e que o seu escrito constituía uma análise muito direta, endereçada ao Rei, acerca de como tirar os pobres da sua situação de penúria.

A fórmula? A questão da pobreza, considerava Locke, deveria ser resolvida pelo sistema produtivo, ou seja, pelas forças econômicas mediante a produção de riquezas, de um lado e, de outro, mediante a prática dos deveres por parte de todos os cidadãos. Locke não duvidava em afirmar, no contexto da sua visão jusnaturalista, o seguinte: "Penso que cada um, em função da vida na qual a Providência o colocou, é obrigado a trabalhar pelo bem de todos, sem o que não tem direito a comer". O filósofo deixava claro, também,  que "Cada um deve ter alimento, bebida, roupas e calefação". De graça não: trabalhando. Locke era um calvinista e acreditava que a solução para os problemas de sobrevivência humana viriam pela via do trabalho. 

Segundo o filósofo inglês, é dever de todos trabalhar. Dos pobres e dos ricos. Estes, mediante os seus empreendimentos, são obrigados a melhor geri-los de forma a oferecerem fontes de trabalho suficientes. Uma vida de nababo não pode ser admitida para os proprietários que acumularam riquezas. Se as acumularam, devem torná-las produtivas oferecendo empregos. 

Convenhamos que essa é a versão capitalista que vingou nos Estados Unidos. Um exemplo entre tantos: o miliardário dono da Microsoft, Bill Gates, que depois de ter se convertido no homem mais rico do mundo, devolve aos americanos e à humanidade em geral, em prestação de serviços humanitários e culturais, o enorme patrimônio que conseguiu amassar graças ao seu gênio e o seu trabalho. Não deixou por fora os seus filhos: deu, a cada um deles, um milhão de dólares para que o façam frutificar. Não lhes cortou as asas da livre iniciativa dando-lhes dinheiro demais. Deu-lhes o necessário para se tornarem empreendedores. Lembra-nos esse caso a parábola evangélica dos talentos.

E que pensava Locke daqueles que se acolhem sem mais à caridade pública, ou seja, às verbas do Estado para sobreviverem (diríamos hoje, à bolsa família)? Educação para o trabalho neles, pregava o pensador liberal! As Working-Schools deveriam preparar esses cidadãos carcomidos pelo assistencialismo, a fim de que, tanto eles quanto os seus descendentes, se integrassem ao mercado de trabalho. E quem financiava e administrava as Working-Schools? Essa era incumbência, pensava Locke, da nobreza fundiária. Esses cidadãos deveriam ser estimulados a se prepararem para o trabalho e a viverem dele, nas vagas oferecidas pela nobreza dona das terras. Somente assim ganhariam de novo a dignidade que o assistencialismo estatal lhes tinha arrebatado.

No foro de Davos, as Nações Unidas apresentaram dados alarmantes acerca da concentração de riquezas no mundo. E o Papa Francisco chamou a atenção para as desigualdades entre os seres humanos e entre as nações, clamando por iniciativas que efetivamente tirassem os pobres da sua penúria. Os jornais noticiam que os grandes capitalistas da China simplesmente levam para fora as suas riquezas, a fim de garantir o bom nível econômico das suas famílias. Capitalismo de Estado (eu prefiro dizer: capitalismo num contexto patrimonialista como o chinês ou o brasileiro) dá nisso: enriquecimento para poucos. 

As lições de Locke e os exemplos bem-sucedidos dos capitalistas americanos abertos à filantropia e à criação de novas formas de riqueza estão aí, para assinalar o caminho que o mundo de hoje pode seguir. Caminho que está iluminado pelo capitalismo liberal.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

NOVA GERAÇÃO LIBERAL - REFLEXÕES COM MOTIVO DO IV ENCONTRO ESTUDANTIL REGIONAL DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS



Prefeitura da cidade gaúcha de Pelotas. A antiga Faculdade de Ciências Agrárias, no campus da Universidade Federal de Pelotas, foi a sede do IV Encontro de Estudantes de Relações Internacionais, de 21 a 23 de Setembro de 2013.

Biblioteca Municipal da cidade de Pelotas, situada ao lado da Prefeitura, no belo parque Coronel Pedro Osório.
O Brasil, após 11 anos de lulopetismo no poder, poderia estar afundando no socialismo bolivariano. Isso, certamente, se Lula e a petralhada pautassem, eles sozinhos, os rumos da sociedade. Os lulopetistas ocuparam setores essenciais do Estado, numa ação progressiva que se desenvolveu ao longo das duas últimas décadas. Efetivamente, o aparelhamento petista da máquina pública começou antes da eleição de Lula, mediante a ocupação de cargos de chefia nos ministérios, nas Universidades, nas empresas estatais e nos sindicatos. Nisso os petistas foram muito disciplinados, como no fato de pagarem religiosamente o dízimo ao Partido, uma vez empossados em funções burocráticas. Mas eles estão longe, muito longe, de fazer com que o Brasil como um todo aceite esse modelito defasado, afinado com o que de mais atrasado há no mundo da política e consolidado, no nosso país, ao ensejo da pérfida colaboração entre militância partidária e políticos tradicionais corruptos. 


Como frisava o mestre e amigo Antônio Paim no seu livrinho Para entender o PT (Londrina: Editora Humanidades, 2001), o Partido dos Trabalhadores é a maior manifestação do espírito patrimonialista na cultura brasileira. Nos seus dez anos de mandato, o Partido tratou o Brasil como propriedade privada dos donos da legenda, Lula e amigos. Eles simplesmente cuidaram para que o Estado fosse o seu instrumento de privatização do espaço público em benefício da sigla partidária, com exclusão dos que se opusessem. Foi uma ação sistemática de ocupação e de aparelhamento, tendo utilizado a filosofia gramsciana como alicerce doutrinário para a empreitada. O PT não teve dúvidas em utilizar todas as táticas de intimidação, desde o patrulhamento e a calúnia até a eliminação dos militantes que ousassem se desviar dos interesses dos chefões. Os assassinatos de Celso Daniel e de Toninho do PT são prova disso. Esses atos de terrorismo lembram as conhecidas “purgas” com que os comunistas castigavam dissidentes, no reinado de Lenine e Stalin, na Rússia bolchevique. 


Paralelamente a essa maré montante da ocupação do Estado pela petralhada surgiu, no seio da sociedade brasileira, ao longo dos últimos vinte anos, uma sadia reação das novas gerações que não se conformavam com a retórica da “vulgata marxista”, habilmente alçada à categoria de filosofia educacional oficial. Nesse trabalho de doutrinação e de marxistização do ensino primário e secundário, foi de grande valia a ajuda de pedagogos socialistas como Paulo Freire. Ele, de fato, embora tivesse recebido a influência dos doutrinários da Escola Nova e da filosofia personalista de Emmanuel Mounier, terminou se afinando com o ideal de um marxismo revolucionário na América Latina e com a tentativa de implantar esse modelo no Brasil, com a ajuda da doutrinação de pedagogos e alunos. Nos anos setentas, em Paris, Paulo Freire dirigia o Instituto Ecuménico para o Desenvolvimento dos Povos (Institut Oecumenique pour le developement des peuples – INODEP), uma fundação que acolhia militantes de organizações guerrilheiras latino-americanas, com a finalidade de intercambiar experiências no combate ao capitalismo mediante a luta armada. 


Contra a tentativa hegemônica petista e reagindo, também, contra a farta divulgação do pensamento marxista no sistema de ensino, incluindo aí as Universidades, começaram a aparecer, ao longo dos últimos dez anos, organizações de jovens que buscavam ares menos contaminados. É particularmente visível, no meio universitário, essa reação. Embora o grosso do professorado esteja constituído por docentes afinados com o pensamento de esquerda, os jovens buscam outras alternativas ideológicas, se destacando, entre elas, o pensamento liberal. Na Universidade Federal de Juiz de Fora, onde lecionei até maio deste ano, notei isso. Para responder a essa preocupação da nova geração, criei ali vários espaços em que o pensamento liberal tinha lugar importante. Menciono-os: o Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, que ainda coordeno; o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos; o Núcleo de Estudos sobre o pensamento de Madame de Staël e o Liberalismo Doutrinário; o Núcleo Tocqueville-Aron para o estudo das Democracias Contemporâneas. Ao redor de todos esses pequenos centros de pensamento e pesquisa reuniram-se alunos da UFJF e de outras Universidades e centros de estudo do Brasil. 


Dessas iniciativas surgiu o Portal Defesa (www.ecsbdefesa.com.br sob a direção do professor Expedito Bastos e que divulga as pesquisas desenvolvidas pelos membros do Centro de Pesquisas Estratégicas), a revista eletrônica Ibérica (www.estudosibericos.com) e a revista eletrônica Cogitationes (www.cogitationes.org) ambas coordenadas por Alexandre Ferreira de Souza e Marco Antônio Barroso. Essas publicações arejam o ambiente rarefeito da cultura universitária discutindo propostas liberais e liberais-conservadoras, bem como analisando questões relativas à história da cultura ocidental.
Belo casarão no Parque Coronel Pedro Osório, no centro histórico de Pelotas.

Fonte das Nereidas (1873), no Parque Coronel Pedro Osório, Pelotas.

Catedral de São Francisco de Paula, na Praça José Bonifácio, em Pelotas.


Particular interesse têm-me causado os Encontros de Estudantes de Relações Internacionais. Participei de dois desses encontros, o realizado em Ribeirão Preto, São Paulo, em 2009 (quando apresentei uma análise do fenômeno do neopopulismo na América Latina) e o promovido pelo Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul, e que teve lugar de 19 a 22 de Setembro deste ano, quando proferi palestra com o título: “Tocqueville e a agitação das ruas”. Em ambos os eventos, o primeiro de caráter nacional (com mais de dois mil participantes) e o segundo de alcance regional (com 400 participantes), fiquei impressionado com o interesse dos alunos pelos temas relacionados com a filosofia liberal. Imagino que os estudantes dos cursos de Relações Internacionais (que já passam da centena, cobrindo o Brasil de sul a norte) são especialmente sensíveis ao atraso representado pelo nosso Estado patrimonial, tacanhamente confinado nos limites ideológicos do Mercosul, afinado, na era lulopetista, com o chavismo bolivariano.
  

Duas tarefas inadiáveis vejo como necessárias para que frutifique o trabalho destes grupos de jovens liberais: em primeiro lugar, aprofundar no conhecimento sistemático dos clássicos do liberalismo, tanto dos iniciadores dessa corrente na Europa (Locke, Montesquieu, Kant, Tocqueville, Benjamin Constant, Madame de Staël e os Doutrinários franceses, etc.), quanto dos liberais americanos, os chamados Patriarcas fundadores das instituições republicanas nos Estados Unidos. O estudo dos clássicos deve, evidentemente, abranger também os pensadores da Escola Austríaca e as suas fontes ibéricas que se remontam às teses da soberania popular, especialmente no pensamento do maior filósofo espanhol do século XVII, o padre Francisco Suárez, cuja obra: De legibus ac de Deo legislatore (1613) deveria ser traduzida e publicada no Brasil. 

Esse esforço teórico teria de se alargar, no âmbito ibérico e iberoamericano, ao estudo dos pensadores que se debruçaram sobre as fontes liberais, projetando-as sobre a nossa realidade. Ressalta, aqui, a figura de José Ortega y Gasset, na Espanha e de Fidelino de Figueiredo, em Portugal. No caso latino-americano sobressaem nomes como os de Antonio Caso e Daniel Cosío Villegas, no México, Domingo Faustino Sarmiento, na Argentina, Daniel Samper, Rafael Núñez e Carlos Lleras Restrepo, na Colômbia e, no Peru, o prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa. No caso brasileiro, deveriam ser estudados Silvestre Pinheiro Ferreira, Paulino Soares de Sousa, Tavares Bastos, Rui Barbosa, Tobias Barreto, Assis Brasil e Silveira Martins (no século XIX) e, na realidade atual, Miguel Reale, Antônio Paim, Roque Spencer Maciel de Barros, José Osvaldo de Meira Penna, José Guilherme Merquior e Ubiratan Macedo (para citar apenas autores de grande porte).


Uma segunda linha de trabalho deveria ser abarcada pelos jovens liberais: projetar sobre a realidade brasileira contemporânea as luzes da luta em prol da liberdade, defendida com denodo pelos clássicos do pensamento filosófico e político que acabo de mencionar, a fim de enxergar soluções para os grandes problemas que afetam às nossas instituições republicanas. Sílvio Romero, o fundador da sociologia brasileira, afirmava que, em matéria de pensamento social e político, não há monocausalismos. A reflexão que proponho sobre a realidade brasileira deveria ser efetivada, portanto, de maneira monográfica, abarcando os três grandes aspectos que se entrecruzam na sociedade brasileira: o cultural, o político e o econômico. Cada um desses aspectos é essencial e não pode se sobrepor aos outros. Surgirá dessa reflexão, com certeza, uma agenda liberal para ser implementada na luta político-partidária, sem a qual não se consegue pôr em prática os nossos ideais para uma sociedade com instituições que defendam a liberdade e não a ameacem, como acontece atualmente.


Quanto aos acervos onde se podem encontrar as obras dos clássicos brasileiros, recomendo aos jovens estudiosos o Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro (www.cdpb.org.br), organizado em Salvador, na Bahia, pelo professor Antônio Paim. Esse acervo encontra-se na Universidade Católica de Salvador sob os cuidados da presidente do Centro, a professora Dinorah de Araújo Berbert de Castro. Recomendo igualmente o acervo digital do Instituto de Humanidades, para aqueles que buscam se familiarizar com as fontes do liberalismo clássico (www.institutodehumanidades.com.br).
Mercado Central de Pelotas, reconstruído (2013).

"A Pelota", rudimentar embarcação que terminou dando nome à cidade de Pelotas (exposição no Mercado Central).