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domingo, 24 de maio de 2020

Pensadores Brasileiros - JOSÉ MAURÍCIO DE CARVALHO (1957)



Dois itens desenvolverei neste artigo: Breve síntese biobibliográfica de José Maurício de Carvalho e II - O Pensador e o Historiador das ideias. 
I – BREVE SÍNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA
José Maurício de Carvalho nasceu em 13 de Julho de 1957, em São João Del-Rei (Minas Gerais). Formou-se, ali, em Psicologia (1980), Filosofia (1983) e Pedagogia (1984), na Faculdade Dom Bosco, que foi, posteriormente, integrada à Universidade Federal local. Cursou mestrado em Filosofia (área de Pensamento Brasileiro) na Universidade Federal de Juiz de Fora. Completou os estudos de doutorado em Filosofia Luso-Brasileira na Universidade Gama Filho (1990), do Rio de Janeiro, tendo cursado, a seguir, os estudos de pós-doutorado na Universidade Nova de Lisboa (1994) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001).
Na atualidade, é professor titular aposentado da Universidade Federal de São João Del-Rei, tendo exercido funções administrativas na mesma Instituição. Leciona no Centro Universitário Tancredo Neves, em São João del Rei. É estudioso da vertente denominada de “Filosofia Clínica” e integra o Conselho Editorial dos periódicos: Educação e Filosofia, Saberes Interdisciplinares, Thaumazein,  Anais de Filosofia e Vertentes (da Universidade Federal de São João Del-Rei), Educação e Saúde, etc.). É membro do Instituto Brasileiro de Filosofia (São Paulo), do Instituto de Filosofia Luso-brasileira (Lisboa), da Academia São-Joanense de Letras e da Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos (Barbacena, MG). Atua como profissional liberal, na área de Psicologia Clínica, em São João del-Rei.
Como pesquisador de história das idéias, a sua obra se especializou no estudo do pensamento filosófico luso-brasileiro, com destacada atuação nos Encontros de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira, que se desenvolveram, em Londrina, sob a coordenação do saudoso Leonardo Prota (1930-2016) e com apoio da Universidade Estadual, entre 1989 e 2003. No período compreendido entre 1997 e 2019, na condição de membro do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, tem participado, regularmente, como organizador, dos Colóquios Antero de Quental (destinados a estudar, no Brasil, o pensamento filosófico português), bem como dos similares Colóquios Tobias Barreto (direcionados ao estudo, em Portugal, dos autores brasileiros). José Maurício de Carvalho participou do Proyecto Ensayo Hispánico (www.ensayistas.org) que o professor José Luis Gómez Martínez desenvolveu na Universidade de Georgia (USA).
Pelos estudos publicados e pelo exercício docente, José Maurício de Carvalho firmou-se, no panorama cultural brasileiro, como um dos mais importantes representantes da nova geração de historiadores das idéias filosóficas no Brasil.
 II - O PENSADOR E O HISTORIADOR DAS IDÉIAS
Para José Maurício de Carvalho, consoante a sua obra O Homem e a Filosofia (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. 224 p.), o ponto de partida para uma reflexão filosófica é constituído pela meditação em torno a dois eixos: a Existência e a Cultura. A primeira é a categoria fundamental para falar do homem de hoje. A Cultura é o ponto de partida da Existência, - o a priori cultural de Miguel Reale (1910-2006) - e o produto das ações humanas. Ela se forma com os valores que o homem criou na sua história. A Existência, entendida como roteiro único e temporal, apenas é fecunda quando se volta para o horizonte cultural, do qual emerge e que, por sua vez, é modificado pela ação humana. Quando o autor aproxima Existência e Cultura não o faz na expectativa de estabelecer uma equivalência entre elas, mas reconhecendo ser a Liberdade um dado ontológico fundamental para entender o homem. Ela, contudo, só é tal, se se realiza num espaço específico de valores e na História (ou na Cultura). A Liberdade do homem não é uma possibilidade absoluta ou indeterminação infinita, é o exercício de escolhas contra a natureza bruta e sua lógica, num certo tempo. Mesmo sem tratar a vida como indeterminação absoluta, como fez Jean Paul Sartre (1905-1982), Carvalho não acredita que a existência perca o caráter dramático, pelo fato de inseri-la no universo cultural. A dor continua conosco, os riscos nos acompanham, a degradação da humanidade é uma possibilidade real, nossos limites estão aí. A vida do homem se realiza numa certa circunstância. Neste ponto, o nosso autor revela-se tributário do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955).
Além do pensador espanhol, Carvalho se reconhece como seguidor de Miguel Reale (1910-2006) e Djacir Menezes (1907-1966), herdeiros do legado culturalista de Tobias Barreto (1839-1889). À luz desse legado, Carvalho entende que os valores culturais, tecidos no decorrer da história, estão na base da Existência concreta dos homens. Esses valores, com o passar do tempo, acabam assumindo objetividade universal e se manifestam na tessitura existencial, como se inatos fossem.
O nosso pensador se considera, outrossim, tributário da meditação de Antônio Paim (1927), Roque Spencer Maciel de Barros (1927-1999) e Ricardo Vélez Rodríguez (1943). Com Paim e Vélez, Carvalho considera que o Culturalismo consiste numa filosofia voltada para esclarecer o modo de ser do homem. À luz da meditação de Roque Spencer, o nosso autor conclui que a Existência humana, ainda que vista de modo predicativo, e mesmo quando se objetiva em criações magníficas, não deixa de ser marcada pela dramaticidade. Roque Spencer, considera Carvalho, ocupou-se da existência concreta e a tratou como tal. Acabou deixando o Culturalismo, mas legou à posteridade uma das obras filosóficas mais significativas da filosofia brasileira.
É com base nessa herança que o nosso autor desenvolve o cerne do seu pensamento, que se alicerça no princípio de que o modo de ser do homem se manifesta, no interminável processo de renovar o que já foi experimentado. O sentido da Existência se revela no drama que brota da vida pessoal, que é projetado no mundo e passa a valer por si só. Esta questão foi desenvolvida, com amplitude, na obra intitulada: Ética [São João Del-Rei: UFSJ, 2010. 240 p.], em cuja primeira parte, Carvalho mostra a forma em que esta disciplina filosófica ingressou no panorama cultural brasileiro; na segunda parte, o autor faz uma análise acerca da questão da responsabilidade pessoal, considerada como complemento necessário à vida humana, pensada como Liberdade.
Para o nosso pensador, os costumes e as regras de convivência são históricos, embora possam ficar consagrados em normas com reconhecimento coletivo. Princípios aceitos pela sociedade ocidental como verdadeiros, acabaram adquirindo um sentido de permanência e se manifestam na formulação de normas verdadeiras de orientação, seguras e eternas. A cultura, considera Carvalho, nasce como intencionalidade objetivada. O mundo social aparece como uma hierarquia de valores e constitui a casa do homem. Neste lugar artificial em que se sente mais à vontade, ele se move com maior naturalidade do que no espaço natural, ao expressar algo do seu modo de ser e dos ideais que projeta. Em decorrência destas teses, assiste razão a Antônio Paim, ao enquadrar o nosso autor no seio da terceira corrente de culturalistas brasileiros.
José Maurício de Carvalho insere, na concepção antropológica que acaba de ser resumida, a sua tarefa como historiador das idéias. Segundo ele, o registro do andamento das pesquisas na filosofia brasileira (e portuguesa) permite observar como, do interior da grande tradição filosófica ocidental, as filosofias nacionais emergiram e são suscetíveis de um adequado entendimento. Este se concretiza quando as diferentes filosofias são interpretadas como registro de teses intelectuais, nascidas da vida e da tradição de um povo.
Essas filosofias, frisa Carvalho, são respostas desse grupo humano, numa determinada época, aos questionamentos dos seus integrantes acerca do sentido da sua presença no mundo. As respostas efetivadas pelos pensadores contribuem para burilar os contornos da cultura desse determinado povo, no contexto da vasta história das civilizações. A meu ver, neste ponto José Maurício de Carvalho recebeu a influência de Leonardo Prota, no que tange, especificamente, à caracterização da filosofia moderna, como meditação sobre problemas específicos das várias nações.  
Explicitando a sua inspiração em Ortega, Carvalho conclui que somente quando se capta a historiografia filosófica como um diálogo do pensador com as circunstâncias, chega-se, com mais fidelidade, ao material por ele produzido. As criações filosóficas pressupõem o contato com a tradição nacional, que para os filósofos aparece como a realidade mesma a ser explicada. Os estudiosos da filosofia luso-brasileira de nossos dias perceberam que os movimentos filosóficos, em todo o mundo, não se orientam para a criação de um único sistema capaz de englobar toda a filosofia ocidental. Essa noção, que prevaleceu até meados do século XIX, hoje está abandonada, abrindo margem para o exame das tradições nacionais e, no interior delas, dos problemas que elas privilegiam. A tarefa de historiador das idéias não se circunscreve, na obra de José Maurício de Carvalho, à análise dos pensadores luso-brasileiros. Ele tem estudado, com igual afinco, a obra de dois destacados filósofos do século XX: Karl Jaspers (1883/1969), com a obra intitulada: Filosofia e Psicologia - O pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers (Lisboa: Imprensa Nacional, 2006, 265 p.) e Ortega y Gasset, cujo pensamento filosófico analisou no livro: Introdução à filosofia da razão vital de Ortega y Gasset (Londrina: CEFIL, 2002, 499 p.).
BIBLIOGRAFIA
CARVALHO, José Maurício de. A idéia de filosofia em Delfim Santos. Londrina: UEL, 1996. 226 p.
CARVALHO, José Maurício de. Antologia do culturalismo brasileiro - Um século de filosofia.  Londrina: CEFIL,     1998. 300 p.
CARVALHO, José Maurício de. As idéias filosóficas e políticas de Tancredo Neves. Belo Horizonte: Itatiaia, 1994. 198 p.
CARVALHO, José Maurício de. A vida é um mistério, contribuição de José Severiano de Rezende para a doutrina tradicionalista. Londrina: CEFIL, 1999.  212 p.
CARVALHO, José Maurício de. Contribuições contemporâneas à história da filosofia brasileira. Londrina: UEL, 1998. 379 p.; 2a edição revista e ampliada, Londrina: CEFIL, 1999. 452 p.; 3a  edição revista e ampliada, Londrina: CEFIL, 2001. 630 p.
CARVALHO, José Maurício de. Curso de introdução à História da Filosofia Brasileira. Londrina: UEL, 2000. 446 p.
CARVALHO, José Maurício de. Estudos de filosofia clínica, uma abordagem fenomenológica. Curitiba: Ibpex, 2008. 284 p.
CARVALHO, José Maurício de. Ética. São João Del-Rei: UFSJ, 2010, 240 p.
CARVALHO, José Maurício de. Filosofia Clínica, estudos de fundamentação. São João Del-Rei: UFSJ, 2005. 321 p.
CARVALHO, José Maurício de. Filosofia Clínica e Humanismo. Aparecida: Ideias e Letras, 2012.
CARVALHO, José Maurício de. Filosofia da cultura - Delfim Santos e o pensamento contemporâneo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. 150 p.
CARVALHO, José Maurício de. Filosofia e Psicologia - O pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers. Lisboa: Imprensa Nacional, 2006, 265 p.
CARVALHO, José Maurício de. História da filosofia e tradições culturais. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. 436 p.
CARVALHO, José Maurício de. Introdução à filosofia da razão vital de Ortega y Gasset. Londrina: CEFIL, 2002. 499 p.
CARVALHO, José Maurício de. Mauá e a ética saint-simoniana. Londrina: UEL, 1997. 293 p.
CARVALHO, José Maurício de. Miguel Reale, ética e filosofia do direito. Porto Alegre: Edipucrs, 2011.
CARVALHO, José Maurício de. O homem e a filosofia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. 224 p.; 2ª edição revista e ampliada, Porto Alegre: EDIPCURS, 2007.  236 p.
CARVALHO, José Maurício de (Organizador e autor de dois capítulos). Poder e moralidade. São Paulo: Annablume, 2012.
CARVALHO, José Maurício de. Os caminhos da moral moderna; a experiência luso-brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1995. 342 p.
CARVALHO, José Maurício de. Situação e Perspectivas da Pesquisa da Filosofia Brasileira. Londrina: UEL/CEFIL, 1995. 81 p.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

TIAGO ADÃO LARA (1930-2019, IN MEMORIAM)


Faleceu recentemente, em Juiz de Fora, o amigo e pensador Tiago Adão Lara.  Tiago, ex-sacerdote salesiano, dedicou-se ao estudo do Pensamento Brasileiro. Nasceu na cidade de São Tiago, em Minas Gerais. Entre  1942 e 1950 cursou estudos no Seminário Salesiano de São João del Rei. Fez o curso de Teologia em Turim, na Itália (entre 1953 e 1957), tendo cursado, ulteriormente, a especialização em Filosofia na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica (1971). 

Cursou o Mestrado em Pensamento Brasileiro na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1976-1977) e, depois, fez o Curso de Doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro na Universidade Gama Filho (entre 1982 e 1983). Ao ensejo desse Curso, o conheci no Rio de Janeiro. Tiago foi membro do corpo docente da Faculdade de Filosofia, Ciências de Letras de São João del Rei, dirigida pelos padres salesianos. Foi professor, também, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (em Belo Horizonte). No início dos anos 80 entrou, por concurso público, como professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia, onde se aposentou em 1991.

Dedicou-se, nas últimas décadas, à pesquisa da História da Filosofia, com apoio das Universidades Federais de Uberlândia e de Juiz de Fora. Um dos temas mais caros ao pensamento de Tiago Adão Lara relacionou-se com a questão da Justiça, à luz da Teologia da Libertação, tema pelo qual passou a se interessar após a sua especialização em Filosofia na Universidade Católica de Louvain, um centro importante na divulgação e aprofundamento desse tipo de reflexão teológica, levando em consideração que dali surgiram vários dos grandes teóricos da mencionada Teologia, como o ex-padre Camilo Torres, na Colômbia. 

No Brasil, Tiago acompanhou de perto o Movimento dos Sem Terra, tendo dedicado ao mesmo vários dos seus ensaios no terreno da ética e da teologia. Embora simpatizante do MST, Tiago Adão Lara professou, sempre, um ideal de tolerância para com os que pensavam diferente dele. Assim, integrou-se, construtivamente e sem dificuldades, no grupo maior de pesquisadores e professores da Filosofia Brasileira, reunido pelos professores Antônio Paim, Leonardo Prota e José Maurício de Carvalho ao redor da temática das Filosofias Nacionais, em diálogo com a Filosofia Portuguesa contemporânea. Participou dos vários Colóquios Antero de Quental reunidos no Brasil pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, bem como de alguns dos Colóquios Tobias Barreto patrocinados pelo mesmo Instituto, em algumas Universidades portuguesas. Participou, outrossim, em Londrina, dos vários encontros de professores e pesquisadores da Filosofia Brasileira, organizados pelo saudoso Leonardo Prota, entre 1989 e 2003. 

Meus sentimentos para sua esposa, Maria Helena.

Bibliografia de Thiago Adão Lara.

As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo. São João del Rei: Faculdade Dom Bosco de Filosofia, 1977, 345 p.

Pombal e a cultura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Brasil-Portugal, Editora Tempo Brasileiro, 1982, 137 p. (Organizador, em colaboração com Antônio Paim).

História da Filosofia, do Renascimento aos nossos dias. 5ª edição. Petrópolis: Vozes, 175 p. (Coleção Caminhos da Razão no Ocidente).

Tradicionalismo católico em Pernambuco. Recife: Fundação Joaquim Nabuco / Editora Massangana, 1988, 161 p.

A filosofia nas suas origens gregas. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 1992, 231 p. (Coleção Caminhos da Razão no Ocidente).

A escola que não tive, o professor que não fui.  São Paulo: Cortez; Uberlândia: Editora da Universidade Federal de Uberlândia, 1996, 246 p.

A filosofia nos tempos e contratempos da Cristandade Ocidental. Petrópolis: Vozes, 1999.

Estudos sobre o Autor.

PAIM, Antônio. O estudo do pensamento filosófico brasileiro. 2ª edição. São Paulo: Convívio, 1986, p. 54-72.

PAIM, Antônio. "LARA, Tiago Adão".  In: Dicionário biobibliográfico de autores brasileiros. Brasília: Senado Federal; Salvador - Bahia: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, 1999, p. 264-265.

sábado, 6 de junho de 2015

BALANÇO DOS COLÓQUIOS "ANTERO DE QUENTAL" REALIZADOS EM SÃO JOÃO DEL REI, SEGUNDO ANTÔNIO PAIM

Na segunda semana de Maio deste ano realizou-se, em São João del Rei, a mais recente versão dos Colóquios "Antero de Quental", dedicados ao estudo das relações entre as filosofias portuguesa e brasileira. Divulgo, a seguir, o  texto da avaliação desses eventos feita por Antônio Paim.


Singelo registro da contribuição
de José Maurício de Carvalho
para a continuidade dos estudos
luso-brasileiros


Devemos a Eduardo Soveral (1927/2003) o mérito de nos haver despertado para a importância de nos darmos conta de que a adequada compreensão do processo de formação da cultura brasileira somente poderá ocorrer se a aproximarmos da fonte originária: a cultura portuguesa. É certo que estamos todos sob o manto protetor da cultura ocidental e o seu conhecimento será sempre o ponto de partida. Mas aqui se trata de especificidades.

Soveral concebeu um método para a efetivarmos a pretendida aproximação. Resumidamente: tomar ciclos históricos curtos; nomear e estudar os pensadores destacados em Portugal e no Brasil, isoladamente. Somente depois disto confronta-los com vistas a identificar o que haveria de comum e precisamente o que seria específico. Pacientemente, na Universidade Gama Filho, desde fins dos anos setenta e ao longo da década seguinte, instruiu-nos em tal procedimento. Os Colóquios surgiram (1991) como forma de dar continuidade a esse trabalho, tendo em vista que, como fruto da normalidade democrática introduzida na vida portuguesa nos anos subsequentes à Revolução dos Cravos, os professores portugueses que aqui se haviam exilado regressaram a Portugal, Soveral entre eles.

Soveral faleceu em 2003 e, cumpre reconhece-lo, não tem sido fácil dar continuidade à investigação luso-brasileira. Compreensivamente,  alguns professores portugueses, com destaque para Antonio Braz Teixeira, têm preferido produzir novas interpretações do pensamento brasileiro. Se vivo fosse, nosso saudoso mestre Miguel Reale certamente aplaudiria essa iniciativa, em decorrência do seu entendimento de que a filosofia nutria-se da diversidade de pontos de vista. Posso testemunhar o empenho e a solicitude com que estimulou  Aquiles Cortes Guimarães a produzir uma interpretação do curso da filosofia brasileira do ângulo da fenomenologia. Basicamente, consistiria em tomar a consciência como referência desde o ciclo colonial e não intercala-la com a liberdade, segundo o ponto de vista culturalista. Só que isto não tem muito a ver com a investigação luso-brasileira.

Essa dificuldade patenteou-se quando propusemos dar continuidade ao trabalho liderado por Soveral que, segundo nosso entendimento, havia concluído o confronto em matéria de filosofia. Em conformidade com o programa que estabelecera, deveríamos nos ocuparmos do pensamento político, segundo o seu método No sétimo Colóquio (2006), o primeiro a realizar-se em São João del Rei, sob a direção de José Maurício de Carvalho, tivemos nós mesmos que nos ocuparmos do estudo dos autores portugueses, para confronta-lo ao brasileiro, mais ou menos a mesma coisa ocorrendo com o colóquio seguinte (oitavo; 2009). Entendo que terá sido muito produtivo o trabalho então desenvolvido. Pudemos constatar que, nesse particular, a experiência brasileira terá influído em Portugal, no caso do Regresso, entre nós, e da Regeneração, em Portugal, o que somente vinha sendo reconhecido no caso da República, quando essa influência tornar-se-ia notória. Se embargo da prevalência da influência portuguesa sobre nós, no século passado, notadamente nos casos do Estado Novo e da Constituição brasileira de 88, onde a presença da Constituição saída da Revolução dos Cravos marcaria a sua presença.

A escolha do tema da ética para os Colóquios seguintes não me parece que tenha sido uma escolha adequada. Notadamente porque, em relação a esse tema, não houve o paciente trabalho de estudo de ciclos curtos, agravada pelo fato de que, conforme Ubiratan Macedo e Mário Vieira de Melo, que se detiveram no tema, o país tangenciou as questões nucleares graças, de um lado à sobrevivência da moral contra reformista, sem ser devidamente enfrentada, seguida da simbiose marxista positivista. Não tivemos oportunidade de estudar, nesse plano, a presença marxista em Portugal. Disciplinadamente, José Maurício de Carvalho organizou em São João del Rei o Nono Colóquio (2013), dedicado ao tema.  Assinalo apenas que manifestei a minha opinião sobre essa opção no texto incluído nos Anais do IX Colóquio (páginas 418-427). A meu ver, cumpria-nos aventar hipóteses acerca das razões pelas quais a cultura luso-brasileira recusou  a moral e a ética modernas.

Os quatro volumes dos Anais dos mencionados Colóquios ficam como testemunho do monumental trabalho desenvolvido por José Maurício de Carvalho no cumprimento do programa herdado de Soveral para estudo do pensamento luso-brasileiro. Ricardo Vélez costuma dizer que, no Brasil, a organização de estudos sobre questões determinadas tem, geralmente, um ciclo curto de existência. Andaria, quando muito, à volta de um decênio (2006/2015), justamente o que ora se completa, com o décimo primeiro Colóquio, convocado para maio deste ano (2015), em seguida ao qual terá lugar a aposentadoria de José Maurício de Carvalho.  Assim, não seria exceção à regra se estivermos presenciando o término do período em que São João del Rei os capitaneou.


São Paulo, abril, 2015.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A FILOSOFIA JURÍDICA LUSO-BRASILEIRA DO SÉCULO XIX

Sessão de abertura do X Colóquio Tobias Barreto, na sede do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira (no Palácio da Independência, em Lisboa). Da esquerda para a direita: José Maurício de Carvalho, José Esteves Pereira e António Braz Teixeira. (Foto: Ricardo Vélez Rodríguez)
Teve lugar em Lisboa, de 17 a 21 de novembro, o X Colóquio Tobias Barreto promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com o Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa e a Universidade Federal de São João del Rei. As sessões desenvolveram-se na Universidade Nova de Lisboa, sendo que a abertura deu-se no Palácio da Independência (sede do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira), no belo casarão que foi doado pela colônia do Brasil à metrópole portuguesa, no século XVIII, e que está situado ao lado do Teatro Dona Maria I, no centro de Lisboa. O secretariado do Colóquio esteve sob os eficientes cuidados de Renato Epifánio, do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira.

Participantes do Colóquio Tobias Barreto. (Foto: António Braz Teixeira).

A sessão de abertura, realizada na tarde do dia 17 de novembro, foi presidida por Antônio Braz Teixeira, acompanhado na mesa diretiva por José Esteves Pereira e José Maurício de Carvalho. A seguir, José Esteves Pereira apresentou o seu trabalho sobre J. J. Rodrigues de Brito. Rodrigo Cabral Cunha falou, depois, sobre Silvestre Pinheiro Ferreira.


Ana Paula Loureiro faz a sua apresentação sobre o jurista brasileiro Pedro Autran de Albuquerque. Preside a mesa José Maurício de Carvalho.

Nas sessões da manhã do dia 18 de novembro, dedicadas ao Jusnaturalismo Sensista, foram feitas as seguintes apresentações: Jorge Teixeira da Cunha, “Montalverne” e Pedro Barbas Homem, “António Luís de Seabra”. As sessões da tarde foram dedicadas ao tema do “Racionalismo e krausismo jurídicos”, com as seguintes apresentações: Ana Paula Loureiro, “Pedro Autran de Albuquerque”; Clara Calheiros, “Vicente Ferrer Neto Paiva”: Mário Reis Marques, “J. Dias Ferreira”; António Paulo Oliveira, “J. M. Rodrigues de Brito”; António Braz Teixeira, “Galvão Bueno”; Arsênio Eduardo Corrêa, “Teodoro Xavier de Matos” e Joaquim Domingues, “Cunha Seixas”.
Arsênio Eduardo Correa faz a sua apresentação sobre o jurista brasileiro Teodoro Xavier de Matos. Preside a mesa Antônio Braz Teixeira. (Foto: Ricardo Vélez Rodríguez)
No centro, Renato Epifánio, discreto e eficiente Secretário do Colóquio Tobias Barreto. (Foto: Ricardo Vélez Rodríguez)

No dia 20 de Novembro, nas sessões da parte da manhã, dedicadas ao tema do “Monismo culturalista da Escola do Recife”, foram feitas as seguintes comunicações: José Maurício de Carvalho, “Tobias Barreto”; Constança Marcondes César, “Sílvio Romero” e Rogério Garcia de Lima: “Clóvis Beviláqua”. A parte da tarde foi dedicada ao seguinte tema: “Cientismo, naturalismo e positivismo na concepção do Direito”, com as seguintes comunicações: Manuel Cândido Pimentel, “F. Faria e Maia”; Afonso Rocha, “Teófilo Braga”; Ricardo Vélez Rodríguez, “Alberto Salles” e Adelmo José da Silva, “Pedro Lessa”. Fábio Abreu Passos abordou o tema: "José Soriano de Sousa", numa sessão dedicada ao estudo da "Tradição Escolástica".

Clara Calheiros faz a sua apresentação sobre o jurista português Vicente Ferrer Neto Paiva. Preside a mesa José Esteves Pereira, Vice-Reitor da Universidade Nova de Lisboa. (Foto: Ricardo Vélez Rodríguez)

No dia 21 de Novembro, na sessão de encerramento, Antônio Braz Teixeira fez uma evocação de Lúcio Craveiro da Silva; Constança Marcondes César, por sua vez, lembrou a memória de Milton Vargas; ambas as apresentações tiveram como objetivo homenagear as personalidades citadas, já falecidas, com motivo do seu centenário. Logo depois foi feita a apresentação de obras de António Braz Teixeira e de Maria Celeste Natário (do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e Editora da Revista Nova Águia). A seguir, Antônio Braz Teixeira e José Esteves Pereira clausuraram o colóquio.


Uma das sessões do Colóquio Tobias Barreto, nas dependências da Universidade Nova de Lisboa. (Foto: Ricardo Vélez Rodríguez)
António Braz Teixeira e José Esteves Pereira, na sessão de encerramento do Colóquio. (Foto: Ricardo Vélez Rodríguez).
Este escriba lendo a sua comunicação. À esquerda, os palestrantes Adelmo José da Silva e Joaquim Domingues. (Foto: Renato Epifánio).

Como tem sido praxe tanto nos Colóquios Tobias Barreto (que se desenvolvem em Portugal, a cada dois anos, desde 1991), quanto nos Colóquios Antero de Quental, (que se realizam alternadamente e também com frequência bianual no Brasil), esperamos que a publicação dos Anais nos traga os textos completos das apresentações do X Colóquio Tobias Barreto que acaba de ser resenhado. Os Anais de todos esses Colóquios constituem, hoje, fonte de inestimável valor para o estudo do pensamento luso-brasileiro. 
À esquerda, Maria Celeste Natário (Do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e Editora da Revista Nova Águia), com António Braz Teixeira e Constança Marcondes César, na sessão de lançamento de obras, no final do Colóquio. (Foto: Ricardo Vélez Rodríguez).




sexta-feira, 12 de abril de 2013

NÚCLEO DE ESTUDOS IBÉRICOS E IBERO-AMERICANOS: PANORAMA DAS ATIVIDADES REALIZADAS NESTES 10 ANOS



Este cronista em São João Del Rei, durante o IX Colóquio Antero de Quental (2011)


Da esq. para a dir.: Alexandre Ferreira de Souza, Marco Antônio Barroso, Bernardo Goytacazes de Araújo, Ernesto Castro Leal (da Universidade de Lisboa) e Humberto Schubert Coelho, durante o VIII Colóquio Antero de Quental, em S. João del Rei (2009)

Da esq. para a dir.: Leonardo Prota (Instituto de Humanidades), José Maurício de Carvalho (UFSJR), Arsênio Eduardo Corrêa (Instituto de Humanidades) e Antônio Paim (Instituto de Humanidades), durante o VIII Colóquio Antero de Quental, em S. João del Rei (2009) 
No início de 2003 foi criado, no Departamento de Filosofia da UFJF, o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos. Surgiu em decorrência do interesse de estudantes do Curso de Filosofia pelo estudo do pensamento filosófico brasileiro, bem como do pensamento ibérico e ibero-americano, de forma geral. Considerei que a preocupação dos meus alunos com o estudo da filosofia brasileira estava fora de contexto, depois dos affaires de patrulhamento ideológico que tinham sido protagonizados, entre 1975 e 1985, pelo padre Henrique Cláudio de Lima Vaz e os seus discípulos, da Universidade Federal de Minas Gerais e da Faculdade de Filosofia dos Jesuítas em Belo Horizonte, que tinham tomado conta da comissão de filosofia da CAPES. Efetivamente, à sombra desse patrulhamento ideológico, tinham definhado os vários cursos de pós-graduação em pensamento brasileiro criados, entre 1972 e 1984, na PUC do Rio de Janeiro, na Universidade Gama Filho e na Universidade Federal de Juiz de Fora. Pessoalmente, depois de todos esses fracassos, não cogitava dedicar mais tempo às atividades de pesquisa e estudo sistemático do pensamento brasileiro no seio da Universidade, deixando para uma perspectiva puramente pessoal o aprofundamento nesses temas, ao ensejo da minha participação no Projeto “Ensaio Hispânico”, que o amigo José Luis Gómez Martinez tinha criado e dirigia na Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos. Mas os meus alunos do curso de graduação em filosofia da UFJF, em 2003, não estavam preocupados com o desânimo reinante em face das condições negativas para o estudo da filosofia brasileira. Queriam saber, mesmo, o que havia para ser estudado nessa seara e desejavam enveredar pelo caminho da pesquisa.



Para concretizar esse propósito, programei, contrariando as minhas expectativas pessoais negativas, uma primeira atividade. Foi desenvolvido, no período acadêmico desse ano, o seminário de introdução ao estudo da filosofia brasileira, que teve como fonte para as leituras a coletânea organizada pelo professor José Maurício de Carvalho, da Universidade Federal de São João Del Rei, sob o título: Filosofia brasileira. [1] Em 2004, por sugestão dos meus alunos, foi programado o seminário sobre a filosofia dos mitos indígenas.[2] No seio de uma tendência que se revelaria mais tarde de grande valor heurístico, presente em vários deles, acolhi a sugestão de enveredar pelo estudo das mitologias ameríndias.



De entrada, deixei claro que não queria dar feição burocrática ao grupo de estudos, preferindo que se sedimentasse numa agenda de atividades que efetivamente fossem realizadas, de maneira consensual, pelos seus integrantes. Surgiu, assim, o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da UFJF. Os alunos fundadores foram: Alexandro Ferreira de Souza, Marco Antônio Barroso, César Rafael Pitt, Humberto Schubert Coelho, Camila dos Santos, Bernardo Goytacazes de Araújo, Júlia Junqueira e Jefferson Silveira Teodoro. Após a fundação do Núcleo, passaram a integrá-lo também o professor Fabrício Oliveira, mestre e pesquisador da Faculdade de Direito da UFJF, Flavio Carlos Octaviano, Paulo Roberto Machado Tostes, Rosilene de Oliveira Pereira (Doutora e docente da Faculdade de Educação), Regina Coeli Barbosa Pereira (Doutora e docente da mesma Faculdade) e os alunos do curso de Filosofia da UFJF: Bruno Maciel, Heloana Cardoso, Leonardo Rosa Maricato dos Santos, Eloiza Mara da Silva, Rosa Maria Marangon, Myriam Toledo Augusto, Sérgio Luna Couto e Sandra Rodrigues Eiterer.



Ao longo dos anos 2005 e 2006, efetivaram-se diversos seminários sobre as mitologias ameríndias, que deram ensejo à inclusão, no currículo do Curso de Filosofia da UFJF, de uma série de “Seminários sobre Temas Especiais de História da Filosofia”, que passaram a ser por mim oferecidos aos alunos da graduação, de forma ininterrupta, entre 2005 e 2010. Os trabalhos ali apresentados pelos alunos passaram a ser publicados na revista eletrônica Ibérica, criada por iniciativa de Alexandro Ferreira de Souza e Marco Antônio Barroso.



Tomei carona na iniciativa editorial dos meus alunos e ajudei a consolidar o Conselho Consultivo da mencionada publicação, convidando figuras exponenciais da pesquisa de história das idéias, no contexto luso-brasileiro e ibérico e ibero-americano. Passaram, assim, a formar parte do mencionado Conselho, Antônio Paim (do Instituto Brasileiro de Filosofia e do Instituto de Humanidades), Leonardo Prota (do Instituto de Humanidades), José Esteves Pereira (da Universidade Nova de Lisboa), Juan Carlos Torchía Estrada (da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e editor do Handbook of Latin American Thought), José Luis Gómez Martinez (criador e coordenador do Projeto Ensayo Hispánico na Universidade da Geórgia em Athens, Estados Unidos), Zdenek Kourim (do Centre de Recherches Scientifiques da França e um dos principais pesquisadores da Filosofia Brasileira nesse país), João Ricardo Moderno (presidente da Academia Brasileira de Filosofia, no Rio de Janeiro), Enrique Menéndez Ureña (da Universidade de Comillas, em Madri), etc.



Tanto pelo estímulo recebido dos membros do Conselho Consultivo quanto pelo empenho dos redatores, a Revista Ibérica consolidou-se, desde a sua fundação em 2005, como publicação de alto nível no terreno da história das idéias, tendo sido inclusive reconhecida pela CAPES como referência para os cursos de pós-graduação da área de ciências humanas. Num país onde as iniciativas culturais morrem rápido, o fato de uma publicação como Ibérica ter atingido mais de cinco anos de existência, é um feito notável. A esta iniciativa bem-sucedida, os meus alunos vieram somar outra: a revista eletrônica Cogitationes, destinada a discutir temas da história da cultura, que atingiu também o reconhecimento da CAPES como revista referencial na área de ciências humanas. Ambas as publicações passaram a ser acolhidas no Portal Sofia, criado e gerido por Alexandre Ferreira de Souza e Marco Antônio Barroso.



Outras realizações importantes do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos (que passou a formar parte, em 2007, do elenco de Núcleos de iniciação científica da UFJF apoiados pelo CNPQ) foram as seguintes: a conferência sobre a significação cultural e histórica da figura de Simón Bolívar no contexto ibero-americano, pronunciada, em Junho de 2003, por José Luis Gómez Martinez, da Universidade de Geórgia; a realização, em Setembro de 2006, do Colóquio de Pesquisadores da Filosofia Brasileira em Minas Gerais (no decorrer do qual lancei o meu livro intitulado: Luz nas trevas: ensaios sobre o Iluminismo, publicado pela editora Ex-Libris de Guarapari-ES); a participação de vários membros do Núcleo no Primeiro Congresso Luso-galaico-brasileiro, realizado na Universidade Católica Portuguesa, no Porto, em Outubro de 2007 (nessa oportunidade, o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da UFJF passou a formar parte, oficialmente, das entidades organizadoras dos Colóquios “Antero de Quental”); a realização da Semana de Estudos sobre os duzentos anos da vinda da Corte Portuguesa para o Brasil (em Outubro de 2008), a participação de pesquisadores do Núcleo no Colóquio em Homenagem a Miguel Reale, realizado em Outubro de 2009, em Lisboa, pelo Instituto de Filosofia Luso-brasileira, bem como a participação regular dos membros do Núcleo nos Colóquios Luso-brasileiros de Filosofia, realizados pelo mesmo Instituto na Universidade Federal de São João del Rei, entre 2008 e 2011.



Mencionava anteriormente que o estudo dos mitos ameríndios revelou-se idéia de grande valor heurístico entre os membros do núcleo. Pensei, inicialmente, que se tratava de simples curiosidade intelectual que não teria maior continuidade. Estava enganado. Os meus alunos queriam aprofundar mesmo nas raízes pré-racionais da cultura. Descobri isto quando vários deles foram aceitos no programa de pós-graduação em Ciência da Religião da UFJF.



Cursaram, ali, os seus estudos de mestrado e/ou doutorado: César Rafael Pitt, Jefferson Silveira Teodoro, Marco Antônio Barroso (com pesquisas sobre o pensamento de Henri Bergson e sobre a Filosofia da Religião em Benjamin Constant de Rebecque), Alexandro Ferreira de Souza (com pesquisa acerca dos fundamentos filosóficos do conceito de “sagrado” em Rudolf Otto) e Humberto Schubert Coelho (com pesquisa sobre a influência da mística de Jacob Böeme no idealismo transcendental de Kant). Estimulei o trabalho deles com orientação formal (no caso de Marco Antônio Barroso), com indicações temáticas e com ajuda bibliográfica (para o qual foi criada a Biblioteca “Sílvio Romero”). Tentei, em vão, que Marco Antônio Barroso, Alexandro Ferreira de Souza e Humberto Schubert Coelho, os mais destacados entre os meus alunos, fossem integrados ao Departamento de Filosofia, quando, em 2009, foram abertas vagas para contratação de docentes. Mas a falta de uma linha clara de desenvolvimento acadêmico do Departamento terminou impedindo que esses valiosos alunos passassem a integrar, como pós-graduados, o corpo docente.



No que tange às indicações temáticas, estas passaram a girar em torno a itens que eram do interesse dos meus alunos. Mencionarei, apenas para ilustrar, alguns dos temas que foram tratados em leituras e seminários realizados ao longo dos últimos quatro anos: a – Análise dos escritos políticos de Silvestre Pinheiro Ferreira; b – Estudo da concepção ética em autores luso-brasileiros, no decorrer do século XIX; c – Estudo dos conceitos fundamentais presentes nas obras de Alexis de Tocqueville: O Antigo Regime e a Revolução e Lembranças de 1848; d – Análise da literatura ibero-americana, do ângulo da idéia de poder patrimonial presente no universo construído pelos vários autores. Como fruto das reflexões desenvolvidas ao ensejo deste último tema, escrevi o livro intitulado: Análise do patrimonialismo através da literatura latino-americana: o Estado gerido como bem familiar (Rio de Janeiro: Documenta Histórica / Instituto Liberal, 2008). Os trabalhos escritos pelos meus alunos, ao ensejo das atividades descritas, foram publicados nas Revistas Ibérica e Cogitationes, bem como no Portal Defesa, órgão do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, que criei, na UFJF, em 2005.





[1] CARVALHO, José Maurício de (organizador). Filosofia brasileira. Londrina: Edições Humanidades, 2003.


[2] As leituras para este seminário estavam contidas na seguinte antologia: VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo (organizador). Seminário sobre a filosofia dos mitos indígenas. Universidade Federal de Juiz de Fora – Departamento de Filosofia – Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos, 2004, 54 páginas.

domingo, 30 de setembro de 2012

AS FILOSOFIAS NACIONAIS SEGUNDO LEONARDO PROTA



O Mestre Antônio Paim (terceiro, da esquerda à direita) e alguns dos seus discípulos: Leonardo Prota, José Maurício de Carvalho, este cronista e Rosa Mendonça de Brito (Universidade do Porto, 1º Congresso Luso-galaico-brasileiro, 2007)

Não há dúvida de que Leonardo Prota é, hoje, um dos mais destacados representantes da corrente culturalista que, ancorada no neokantismo, deita as bases para um estudo detalhado da filosofia moderna, tentando destacar os aspectos diferenciadores entre as várias meditações nacionais. O seu livro As Filosofias Nacionais e a questão da universalidade da Filosofia [Londrina: Edições CEFIL / UEL, 2000] é prova suficiente da sua profundidade e da maneira adequada em que o pensador brasileiro incorporou os conceitos fundamentais da reflexão neokantiana, notadamente da proveniente da obra de Hartmann e Mondolfo.

A contribuição de Leonardo Prota apareceu num momento em que a meditação filosófica brasileira achava-se, do ângulo da produção acadêmica, presa ainda ao modismo intelectual representado pela filosofia analítica, que já foi superado na Europa e nos Estados Unidos, mas que no Brasil constitui, ainda hoje, a moda filosófica predominante. O vício analítico poder-se-ia identificar com o que Ortega y Gasset [1984: 147-149] chamava de "a barbárie do especialismo", que sacrifica o sentido profundo dos textos filosóficos à análise lingüística, revestida de pseudocientificidade. Só é filosófica, para a mencionada moda, a análise asséptica dos textos, com pontos, vírgulas e firulas hermenêuticas, não a sua situação no contexto histórico da civilização ocidental, muito menos ainda o significado que deles se possa deduzir para as nossas perplexidades históricas.

Ainda menos filosófica será, para os ditadores da moda filosófica analítica, o estudo dos autores brasileiros, da forma em que eles traduziram em reflexões originais a ilustração das nossas inéditas condições históricas, à luz da tradição filosófica ocidental. É desolador o panorama dos programas de pós-graduação stricto sensu existentes no nosso país. A CAPES conseguiu a façanha de castrá-los de toda criatividade, tornando-os apenas repetição do que se diz na Europa ou alhures, no contexto do complexo neocolonial típico da nossa cultura. Previamente já tinham sido exorcizados aqueles programas que, como os da PUC do Rio de Janeiro (entre 1972 e 1978), da Universidade Gama Filho (entre 1979 e 1989) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (entre 1984 e 1994), dedicavam-se a estudar o pensamento dos filósofos brasileiros e portugueses. Os "consultores" da CAPES baixaram com toda fúria encima deles, obrigando as respectivas Universidades a cancelá-los, por não se ajustarem às diretrizes analíticas dominantes.

A meditação de Leonardo Prota tem, outrossim, o inegável mérito de ter identificado os Leitmotivs que inspiram as principais correntes filosóficas na época moderna, dando ensejo às filosofias nacionais. Retoma o pensador brasileiro, assim, o profícuo trabalho de identificação das raízes filosóficas da modernidade, que no Brasil já tinha sido iniciado por Miguel Reale, Antônio Paim, Luís Washington Vita, João Cruz Costa, etc., e que no seio da meditação portuguesa contemporânea encontrou contribuições de grande valor na obra de pensadores como Eduardo Soveral ou António Braz Teixeira.

A finalidade deste trabalho é simples: mostrar a base sobre a qual se alicerça, do ângulo epistemológico, o trabalho de historiador da filosofia de Leonardo Prota. Como frisei anteriormente, o nosso autor louva-se das contribuições de Nicolai Hartmann e Rodolfo Mondolfo. Resumirei a seguir a posição de ambos os autores europeus, a fim de mostrar de que maneira foi justificada no século XX a concepção da filosofia como discussão de problemas.

Nicolai Hartmann foi quem primeiro assinalou o papel dos problemas na meditação filosófica. O seu pensamento estruturou-se a partir dos postulados da Escola de Marburgo, mas acabou por se separar do idealismo lógico daquela Escola, bem como do neo-kantismo, por influência imediata de Husserl e Scheler, mas também, segundo o próprio filósofo destaca, graças à retomada, por ele, da antiga tradição metafísica presente na obra de Aristóteles. Hartmann destaca que na elaboração da sua proposta filosófica influiu a leitura das obras de Kant e de Hegel, notadamente no que tange à discussão das raízes ontológicas que são pressupostas no pensamento desses filósofos.

A formulação de uma nova ontologia amadurece, no pensamento de Hartmann, por volta de 1919. As primeiras obras nas quais o autor expôs essa teoria são Metaphysik der Erkenntnis (1921) e Ethik (1925). Nos anos seguintes, Nicolai Hartmann publicou a sua obra dedicada  à lógica, sob o título de Studien zur Logik (1931 a 1944), cujo manuscrito terminou se perdendo no meio à agitação vivida na Alemanha, no final da II Guerra Mundial.

Não há dúvida de que Hartmann é um dos autores que mais têm influído na filosofia do século XX. Possuía o que denominaríamos hoje de ética da responsabilidade intelectual, num meio em que pairavam as idéias do totalitarismo e da despersonalização. Dessa inspiração ética, profundamente enraizada na tradição kantiana, dão testemunho as suas palavras: "não há nenhuma consciência acima da pessoa singular". Ou estas outras: "só o espírito pessoal é dotado de intuição, de capacidade de assinalar fins e de orientação". Essa sua enraizada convicção intelectual levou-o a não ceder nunca às modas intelectuais, se norteando unicamente pela procura sempre renovada da verdade.

A essência da posição de Hartmann, no que tange à teoria do conhecimento, consiste na afirmação do caráter histórico dos grandes problemas da Filosofia, que constituem problemas-limite, comuns a todas as ciências, e que são, no fundo, problemas metafísicos atrelados a um núcleo irracional e insolúvel. Hartmann utilizou na sua meditação o método fenomenológico, mas desatrelando-o da redução transcendental, tendo unicamente adotado a redução ao eidos. Graças a isso, para Hartmann, o fenômeno não exclui a aporética, mas ao contrário torna possível o acesso à Filosofia. À descrição fenomenológica segue-se, em primeiro lugar, para Hartmann, a prática dos métodos analítico e dialético, que constituem uma perspectiva de caráter horizontal dos fenômenos (livre da dimensão triádica da dialética hegeliana); em segundo lugar vem o método sintético que, no nível mais alto da intuição, possibilita a unificação das categorias, dando ensejo à descoberta de todos os atos alicerçados em outros de nível inferior. Nicolai Hartmann conferiu tal grau de importância  ao método eidético, que terminou confundido redução ao eidos com a própria epoché fenomenológica. A respeito dessa confusão, afirma o autor na sua obra Der Aufbau der realen Welt: "só por isso pode a intuição das essências, abstraindo do acidental, ganhar a essência a partir do singular; este processo é a redução fenomenológica" [cf. Fraga, 1990: 2, 1010-1014].

Contrariando a doutrina husserliana, Hartmann retoma o conceito de coisa em si e, ao contrário da Escola de Marburgo, afirma um ponto de vista realista, no sentido de que o objeto descrito no conhecimento transcende à própria consciência. A sua teoria do conhecimento abria a porta, destarte, à ontologia, cujos aspectos essenciais são os seguintes: o ente em si mesmo, apreendido no processo do conhecimento, dá-se-nos diretamente no fenômeno do ser. A metafísica, pensa Hartmann, já não pode ser uma doutrina de sistemas; nisso o pensador alemão recolhe a crítica efetivada por Hume e Kant. A metafísica somente pode ser possível como uma ontologia crítica. Na sua obra intitulada Zur Grundlegung der Ontologie (1935), o autor propõe as quatro investigações básicas da sua ontologia. Destaquemos apenas as duas mais caraterísticas, que tratam da relação de essência e existência e do problema do ser ideal e da sua relação com o ser real.

No que tange à pesquisa da relação da essência com a existência, Hartmann dá destaque à apreensão da existência sobre a afirmação da essência. A respeito, afirma: "A existência da árvore no seu lugar é uma essência da floresta, a floresta seria outra sem ela; a existência do ramo na árvore é uma essência da árvore (...) a existência de uma coisa é simultaneamente essência de outra". De outro lado, "a essência da folha é a existência da nervura, a essência do ramo é a existência da folha, etc." O realismo de Hartmann, chamado pelos seus críticos de voluntarista (e que recebe a influência de Scheler e de Dilthey) destaca a experiência do próprio eu: a afirmação mais clara do ser-em-si, é-nos dada pela existência dos nossos atos emocionais-transcendentes, notadamente aqueles que "se deixam isolar e analisar" (que são os receptivos, os prospectivos e os espontâneos).

No que tange à investigação de Hartmann acerca do problema do ser ideal e da sua relação com o ser real, o pensador alemão destaca que o ser ideal não é o ser do pensamento, mas é o das essências, das formações ideais da matemática e dos valores. O caminho pelo qual pode ser provada a idealidade do ser ideal é o da essência do a-priori, observável na relação da matemática pura à aplicada, bem como na indiferença das essências para com os casos reais.

O cerne da ontologia de Harmann é a sua teoria dos modos de ser ou análise modal, que o pensador alemão expõe na obra intitulada Mögichkeit und Wirklichkeit (1938). Nesta obra, o pensador explica as leis fundamentais que regulam as relações de possibilidade e realidade, necessidade e acidentalidade, impossibilidade e não realidade. A lei real da necessidade é formulada nos seguintes termos: "o que é realmente possível também é realmente necessário". Essa lei deriva do antigo princípio metafísico de que o ser não pode provir do não ser ou, em outros termos,  de que a possibilidade do ser não é simultaneamente possibilidade do não ser. Hartmann formula, ademais, a lei ou fórmula "de identidade", que reza assim: "as condições de possibilidade real de uma coisa são simultaneamente as condições da sua necessidade real". Esta lei exprime uma convicção contrária ao conceito popular de possibilidade, que foi aceito pela ontologia tradicional, desconhecendo o rigor que os pre-socráticos (de Megara) conferiam ao conceito de possibilidade. A lei real da necessidade não implica, no entanto, para Hartmann, um determinismo total do mundo, mas apenas o que ele denomina de uma sobreposição de várias formas de determinação [cf. Fraga, 1990: 2, 1010-1014].

Em que pese o fato da concessão que Hartmann faz à perspectiva realista na sua ontologia (difícil de justificar teoricamente, uma vez aceitos os princípios do neo-kantismo), um aspecto contudo deve ser ressaltado: em face da complexidade do mundo, é necessário reconhecer que o pensamento moldado em sistemas está fora de jogo. A respeito, escreve o filósofo alemão em Autoexposição sistemática [Hartmann, 1989: 4]: "Explicar o espírito a partir da matéria ou entender a matéria a partir do espírito, o ser a partir da consciência; reduzir o organismo ao mecanismo ou fazer passar o acontecer mecânico por uma vitalidade encoberta, tudo isso e muito mais é hoje uma coisa impossível de se realizar. Isso contradiz já nos primeiros passos o que com segurança sabemos nos domínios especiais. O pensamento construtivo ficou fora de jogo".

Embora os pensadores contemporâneos não renunciem a uma busca de nexo sistemático entre os fenômenos, Hartmann considera, no entanto, que essa pressuposição deve ser abandonada como ponto de partida. O que a meditação filosófica faz, no seu início, é tomar consciência de uma complexidade do mundo, que o autor alemão não duvida em identificar como perspectiva problemática do pensar.

Ao pensamento sistemático construtivo Hartmann contrapõe o pensamento problemático investigador. Essas duas grandes linhas epistemológicas são claramente identificáveis na história da Filosofia ocidental. Embora encontremos pensadores mais afinados com a perspectiva sistemática (como  Plotino, Proclo, Tomás de Aquino, Duns Scot, Hobbes, Espinosa, Fichte, Schelling) e outros mais próximos da visão problemática (como Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Leibniz, Kant), em todos eles a meditação filosófica emerge a partir da base dos problemas metafísicos, que são os que acompanham a  perplexidade da mente humana diante do mistério do Ser. "Em geral, escreve Hartmann,  o morto e o simplesmente histórico pertencem ao pensar sistemático; pelo contrário, o  supra-histórico e o vital pertencem ao pensar problemático puro. Nele se encontram as aquisições da história do pensamento" [Hartmann, 1989: 7].

Os historiadores da filosofia e os comentaristas deformaram, infelizmente, o pensamento de Platão, apresentando-o como decorrente de uma visão sistemática pré-concebida. Ora, nada mais afastado do grande filósofo grego do que essa preguiçosa concepção sistemática. Nele era fundamental, antes de mais nada, a perplexidade em face do Ser, a dimensão da dúvida, que o levava a considerar como cosmogonias mitológicas as concepções herdadas dos seus antepassados. É necessário recuperar, frisa Hartmann, a dimensão problemática da filosofia platônica, para que saibamos valorar a sua criatividade. Platão, ao manter viva a perplexidade diante do real, deu vida à meditação filosófica, abrindo a porta para a interrogação e a elaboração de novos caminhos.

Hartmann considera necessário, de outro lado, recuperar a valoração problemática da meditação aristotélica, que parte da aporética e que se encaminha para a construção de um sistema de pensamento. Acontece que a sistematização escolástica empobreceu essa dimensão dinâmica da meditação do estagirita, ressaltando o momento sistemático e esquecendo o ponto de partida problemático. Três razões explicariam, nos historiadores da filosofia, essa pressa em valorar o sistema por cima dos problemas: em primeiro lugar, a impaciência para descobrir soluções custe o que custar; em segundo lugar, a pressuposição (falsa) de que problemas insolúveis são filosoficamente inúteis; em terceiro lugar, o menosprezo em face das perguntas irrecusáveis.

Em relação à primeira razão, Hartmann considera que é muito mais filosófico legar aos nossos discípulos perguntas sem responder, do que pretender construir, a qualquer preço, respostas sistemáticas para tudo. Em relação à segunda razão, o filósofo alemão considera que os problemas insolúveis são filosoficamente úteis. A história do pensamento ocidental mostra que o verdadeiro progresso advém da abertura à indagação e do questionamento às soluções já adquiridas. Ora, as ciências somente progridem em face do princípio da refutabilidade que nos leva a adotar, perante o  que recebemos dos nossos antepassados, uma atitude não de subserviência, mas de crítica.  O drama dos dogmatismos, estreitamente ligados aos totalitarismos no mundo contemporâneo, consiste justamente no fato de eliminarem a dúvida e o pensamento crítico. Em relação à terceira razão, Hartmann destaca que há problemas que foram colocados num determinado momento e que jamais seria possível colocá-los antes. A formulação de indagações está sempre ligada a determinadas condições históricas irrepetíveis, bem como a um determinado estado do saber. Enquanto os filósofos estiverem preocupados unicamente com a dimensão sistemática, não perceberão o sentido dos eternos e irrecusáveis conteúdos problemáticos, que ancoram na perplexidade diante da realidade. Assim, frisa Hartmann, "acontece que é necessária previamente uma reflexão especial sobre a linha histórica do pensamento problemático, que se oculta por trás da fachada dos sistemas, para garantirmos aqueles conteúdos" [Hartmann, 1989: 13]

Os eternos e irrecusáveis conteúdos problemáticos: esse constitui o ponto de partida do filosofar. Ora, destaca Hartmann, esses eternos e irrecusáveis conteúdos emergem da consciência perplexa pela complexidade do real, que constitui um fenômeno básico não impugnável. "Os fenômenos, escreve, são sempre mais fortes do que as teorias. O homem não pode mudar os fenômenos; o mundo permanece como é, qualquer que seja o pensamento do homem sobre ele. O homem pode somente apreendê-lo ou errar em relação a ele" [Hartmann, 1989: 14].

Hartmann propõe um método progressivo para a razão não se afastar da realidade e construir as suas teorias sem falsear a apreensão dos fenômenos. O primeiro passo é constituído pela descrição fiel dos fenômenos. O segundo consiste na aporética ou estudo dos problemas enquanto constituem o incompreendido dos fenômenos, explicitando com claridade as aporias naturais; este passo deve levar em consideração o estado da pesquisa respectiva. O terceiro passo, por fim, consiste na teoria, ou abordagem da solução das aporias.

Em relação à metodologia proposta, o filósofo alemão escreve: "Essa progressão: fenomenologia, aporética, teoria, não pode ser abreviada. Os dois primeiros graus, tomados cada um em si, constituem um amplo campo de trabalho, uma ciência inteira. E precisamente porque nenhum dos dois é o definitivo e verdadeiro, recai sobre eles a maior ênfase. O seu campo de trabalho é aquele onde os sistemas construtivos têm pecado. Estes precisamente ficaram curtos demais. E justamente por isso as teorias repousavam sobre bases frágeis. Aqui é preciso criar fundamentos sólidos -- não os fundamentos objetivos da teoria (que devem ser encontrados preferentemente só quando começa o estudo das aporias), mas os pontos de partida do conhecimento, enquanto deve ser algo mais do que simples descrição do encontrado anteriormente. No relativo ao terceiro grau, deve consistir num tratamento puro das aporias destacadas, e certamente com base no  mesmo resultado presente nos fenômenos. Esse tratamento ou estudo não é mais do que uma solução das aporias. Somente pode tender em direção a uma solução. De antemão não pode dizer nem como resultará a solução, nem se alguma é possível absolutamente. O estudo das aporias é algo muito diferente quando pode se alicerçar num limpo trabalho prévio, realizado sobre o fenômeno e o problema, e quando parte sem mais de algo supostamente dado. Os problemas vistos com ingenuidade foram colocados na maior parte das vezes de forma inadequada, e atingem a realidade só de forma periférica. Pois a colocação problemática condicionada toma-se possível graças ao conteúdo problemático objetivo. Dessa forma misturam-se muitas aporias artificiais e as naturais são encobertas. Mas, antes de mais nada, somente depois de efetivado o trabalho da aporética, resulta possível dar novamente à teoria mesma o seu valor e sentido original" [Hartmann, 1989: 16-17].

A radical inadequação entre o nosso pensamento e a realidade presente no mundo dos fenômenos, essa seria, no sentir de Hartmann, a metafísica dos problemas, a partir da qual tentamos, de várias formas, explicar a realidade (dando ensejo aos sistemas), sem que, contudo, consigamos nunca dar conta dela. Eis a raíz do que hoje denominamos de modéstia epistemológica, única atitude condizente com a busca diuturna da verdade.

Retomando os conceitos desenvolvidos por Hartmann, o pensador italiano Rodolfo Mondolfo tematizou, por sua vez, o papel da indagação dos problemas na criação filosófica. A consciência da insuficiência dos nossos conceitos, esse seria o ponto de partida de uma autêntica reflexão. A respeito, escreve Mondolfo: " (...) na aquisição de conhecimentos e na reflexão intelectual, sempre acontece tropeçarmos com dificuldades que se baseiam no reconhecimento de faltas e imperfeições em nossas noções, cuja insatisfação, portanto, nos suscita problemas. E daí surge a investigação, isto é,  pela consciência de um problema, cuja solução nos sentimos impelidos a procurar, estando justamente a indagação voltada para a solução do problema, que nos foi apresentado" [Mondolfo, 1969: 30].

O pensador italiano considera que o sucesso da investigação filosófica decorre, sem lugar a dúvidas, da clareza com que tenha sido colocado o respectivo problema. É o ponto que os escolásticos chamavam de status quaestionis, que era colocado antes da elaboração doutrinária, na tradicional Lectio. Em relação a esse aspecto, Mondolfo escreve: " (...) a fecundidade do esforço investigador é proporcional à clareza e à adequação da formulação do problema; de maneira que a primeira exigência imposta ao investigador é a de conseguir, da melhor maneira possível, uma consciência clara e distinta do problema, que constitui o objeto de sua indagação. Esta exigência é válida preliminarmente para qualquer espécie de investigação, porém o é,  sobretudo, na filosofia, sendo a filosofia antes de mais nada -- como já Sócrates o ressaltava--   consciência da própria ignorância, isto é,  da existência de problemas que exigem o esforço da mente na procura de uma saída dessa situação de mal-estar e de insatisfação" [Mondolfo, 1969: 30].

Na trilha da perspectiva genética apontada por Vico  ("a natureza das coisas é o seu nascimento"),  Mondolfo escreve: "toda a investigação teórica que quiser encontrar seu caminho com maior segurança, supõe e exige, como condição prévia, uma investigação histórica referente ao problema,  a seu desenvolvimento e às soluções que foram tentadas para resolvê-lo" [Mondolfo, 1969: 30-31].

Mondolfo considera que a perspectiva problemática atrela-se à essência da pesquisa filosófica. Aparentemente haveria oposição entre a tarefa do historiador (inquiridor da verdade sub specie temporis) e a do filósofo, (perscrutador da alétheia sub specie aeterni). No entanto, a esta última só se chega pela porta estreita da historicidade, pois como frisa Karl Jaspers [1980: 34], "se saíssemos da História tombaríamos no nada"

A respeito deste ponto, escreve Mondolfo: "Com efeito, podemos distinguir um duplo aspecto na filosofia, conforme ela se apresente como problema ou como sistema. Como sistema, é evidente que o pensamento filosófico, apesar de sua pretensão, sempre asseverada, de uma contemplação sub specie aeterni, não consegue, na realidade, afirmar-se a não ser sub specie temporis, isto é, necessariamente vinculado à fase de desenvolvimento espiritual própria de sua época e de seu autor, e destinado a ser superado por outras épocas e outros autores sucessivos. Ao contrário, quanto aos problemas que suscita, o pensamento filosófico, ainda que esteja sempre subordinado ao tempo em sua geração e desenvolvimento progressivo, apresenta-se, no entanto,  como uma realização gradual de um processo eterno. Com efeito, os sistemas passam e caem; porém, os problemas formulados sempre permanecem como conquistas da consciência filosófica, conquistas imperecíveis, apesar da variedade das soluções tentadas e das formas pelas quais tais problemas são propostos, pois esta variação representa um aprofundamento progressivo da consciência filosófica. Dessa maneira, a reconstrução histórica do desenvolvimento da filosofia aparece como um reconhecimento do caminho percorrido pelo processo de formação progressiva da consciência filosófica, o que vale dizer, como uma conquista da autoconsciência" [Mondolfo, 1969: 33-34].

Há evidentemente para Mondolfo uma lógica da história da filosofia. Nesse aspecto, o pensador italiano assume as teses fundamentais de Hegel nas suas Lições de História da Filosofia. Há um fio condutor na história do pensamento humano. Ora, esse fio corresponde à estrutura lógica da razão que busca, no meio aos fatos e aos fenômenos, se manter idêntica a si mesma. Daí por que Mondolfo considera que "a história da filosofia não pode, de maneira alguma,  ser considerada como uma sucessão de criações contraditórias, que negam cada uma o que a outra afirmava,  ou constróem ao seu bel-prazer um edifício destinado a ser derrubado, a fim de deixar seu lugar para outra construção, que será igualmente demolida como produto arbitrário de uma fantasia caprichosa (...)" [Mondolfo, 1969: 57-58].

Em decorrência dessas observações no terreno da historiografia da filosofia, Mondolfo considera que se deve elaborar um método de pesquisa que respeite a essência da dimensão problemática da meditação ocidental. A respeito, Mondolfo [1969: 261] escreve: "Devemos reviver em nossa consciência a experiência filosófica da humanidade passada, tanto em seu conjunto, quanto na individualidade de cada pensador. E para viver de novo cada sistema temos que realizar o máximo esforço, a fim de colocarmo-nos na situação espiritual em que se encontrava o filósofo que o criou, isto é,  temos que reproduzir em nossa interioridade a consciência dos problemas que preocupavam a sua época, assim como as exigências particulares de sua personalidade, compenetrando-nos de seu processo de formação e de sua vida interior. E quando, nos filósofos que são objeto de nosso estudo, esta vida interior [tiver sido] muito intensa e ativa, deparamo-nos geralmente com um movimento contínuo de aprofundamento, renovação e evolução espirituais, que reúne, por assim dizer, múltiplas personalidades sucessivas numa única pessoa, o que complica e dificulta a tarefa do intérprete que procura a reconstrução histórica".

O pensador italiano frisa que no estudo historiográfico da filosofia deve-se reconhecer, como aspecto fundamental, o progresso contínuo do espírito humano. Mas esse fato não reduz a cinzas as conquistas dos nossos antecessores. Elas serão sempre importantes, como a escada que nos permitiu subir mais alto para enxergar, numa maior altura, o horizonte. Continua presente, aqui, a convicção filosófica de Hegel no progresso do espírito humano. A respeito, frisa Mondolfo [1969: 263]: "Naturalmente,  não ficam anulados ou destruídos os resultados das investigações e intuições de Hegel ou de Zeller, ou de outros grandes historiadores, por serem superados pelas indagações sucessivas, cuja realização foi condicionada e estimulada por eles próprios. O processo de superação, como pensava Hegel, sempre outorga uma verdade mais profunda ao que foi superado, o qual permanece vital e ativamente nas raízes dos novos resultados, cuja obtenção tornou possível, impulsionando-os para a sua realização. Neste aspecto, devemos expressar nosso respeito e reconhecimento para com os grandes historiadores do passado, cujo estudo será sempre ponto de partida e fonte de fecundas sugestões  -  positiva ou negativamente, por meio da aceitação ou da oposição que provoca, das soluções que indica ou dos problemas que formula  -  para os novos investigadores".

Os culturalistas brasileiros assumiram a herança de Hartmann e de Mondolfo, como se pode observar na obra Experiência e cultura de Miguel Reale [1977] ou na História das idéias filosóficas no Brasil de Antônio Paim [1974]. Pela trilha metodológica aberta por Reale e Paim para estudar a filosofia brasileira a partir dos problemas levantados pelos vários autores, novas gerações de estudiosos têm empreendido a marcha, sendo hoje as figuras de Leonardo Prota e José Maurício de Carvalho, duas importantes expressões dessa caminhada intelectual. O primeiro, como foi destacado no início deste trabalho, tem aprofundado na temática da meditação brasileira à luz dos problemas que surgiram no seio das várias filosofias nacionais e o segundo tem particularizado as análises acerca da corrente culturalista, no contexto de uma pesquisa historiográfica dos problemas no contexto da meditação luso-brasileira [cf. Prota, 2000 e Carvalho, 1998 e 2000]. Foi de iniciativa de Leonardo Prota a criação do Centro de Estudos Filosóficos de Londrina, CEFIL, desde o qual, entre 1989 e 2001, organizou e realizou os Encontros Nacionais de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira, que abriram a pesquisa da filosofia brasileira ao diálogo com as demais filosofias nacionais, notadamente com a meditação portuguesa e ibero-americana. Novas e fecundas contribuições esperamos que sejam dadas por esses autores nos anos vindouros.





BIBLIOGRAFIA

CARVALHO, José Maurício de [1998]. Antologia do culturalismo brasileiro: um século de filosofia. Londrina: Edições CEFIL.

CARVALHO, José Maurício de [2000]. Curso de Introdução à Filosofia Brasileira. Londrina: Edições CEFIL / UEL.

FRAGA, Gustavo de [1990]. "Hartmann (Nicolai)". In: Lógos - Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. (Edição organizada pela Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa, sob a coordenação de Roque Cabral et alii).  Lisboa/São Paulo: Verbo, vol. 2, p. 1010-1014.

HARTMANN, Nicolai [1989]. Autoexposición sistemática. (Estudo preliminar de Carlos Mínguez; tradução ao espanhol de Bernabé Navarro). Madrid: Tecnos.

JASPERS, Karl [1980]. Introdução ao pensamento filosófico. (Tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Motta). 4a. Edição. São Paulo: Cultrix.

MONDOLFO, Rodolfo [1969]. Problemas e métodos de investigação na história da Filosofia. (Tradução de Lívia Reale Ferrari). 1a. edição em português. São Paulo: Mestre Jou.

ORTEGA y Gasset, José [1984]. "A barbárie do especialismo". In: Humanidades, Brasília, vol. 2, no. 6: pgs. 147-149.

PAIM, Antônio [1974]. História das idéias filosóficas no Brasil. 2ªª edição. São Paulo: Grijalbo/Edusp.

PROTA, Leonardo [2000]. As Filosofias nacionais e a questão da universalidade da Filosofia. Londrina: Edições CEFIL / UEL.

REALE, Miguel [1977]. Experiência e cultura. 1ª edição. São Paulo: Saraiva.