Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador ESTADOS UNIDOS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ESTADOS UNIDOS. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de março de 2018

NEOPOPULISMOS NA CONTEMPORANEIDADE: ESTADOS UNIDOS, RÚSSIA E CHINA


Que estamos vivendo em nível mundial, desde finais do século passado, uma onda populista, todo mundo já sabe. Parece que os populismos são resfriados que, volta e meia, afetam aos países quando emergem ondas de incerteza ou de desgaste dos modelos antigos.

No final do século passado, com a crise global que terminou se revelando  totalmente no terremoto financeiro de 2008, que varreu todos os mercados, o populismo, que parecia ter morrido com as lendárias figuras de Nasser, Getúlio Vargas e Perón, renasceu das cinzas do esquecimento. Apareceram, ao longo da América Latina, os neopopulismos salvacionistas de Chávez, de Evo Morales, Lugo, Lula-Dilma, o casal Kirchner, López Obrador, Torrijos e Noriega, Ortega, etc. Foi um verdadeiro samba do crioulo doido que tomou conta da América Latina, mas que se apresentou também em outros continentes, na Europa Ocidental com Berlusconi (a Liga do Norte) e o movimento Cinco Estrelas da Itália, com o populismo de Tsipras na Grécia, com o movimento do "Podemos" da jovem esquerda espanhola que anima também o separatismo de Puigdemont na Catalunha, com os populismos de direita na França (com Marine Le Penn)  e  de esquerda com Anne Hidalgo em Paris, com o populismo do ex-primeiro ministro português José Sócrates, com a Primavera Árabe que varreu o mundo islâmico no Médio Oriente, sendo Erdogan na Turquia a figura mais proeminente, ao lado dos militares egípcios e dos três últimos presidentes iranianos (com o pano de fundo da autoridade teocrática dos Aiatolás) . O próprio Vaticano deu ensejo à ascensão de uma figura mais para neopopulista (com o papa argentino Francisco, renovador da já esquecida "Teologia da Libertação), em contraste com a sisudez pontifical e ortodoxa do Papa emérito Bento XVI.

Estão em andamento, também, os neopopulismos dos Estados Unidos da era Trump, da Rússia com o reeleito Putin e da China com a coroação do novo "Imperador" (porque se trata de Império e não mais de República, num país que acabou por lei com a rotatividade no poder, centralizando o mando da grande potência oriental na figura do atual líder chinês).  Xi-Jinping, efetivamente, voltou a envergar o traje messiânico que tinha vestido Mao Tse Tung como "grande timoneiro" da Revolução Comunista, que manda até morrer. Deter-me-ei na análise destes três movimentos neopopulistas, em decorrência do peso que os respectivos países representam na complicada trama do xadrez mundial.

1 - O neopopulista Trump.

Não há dúvida de que Trump é um neopopulista que ocupou o vazio deixado pelo modelo socialdemocrata dos Clinton e do Obama. Estes centraram todo o seu esforço na globalização e no surgimento de um novo mercado transnacional. O nacionalismo passou a conta e Trump a faturou ganhando a eleição presidencial. Mas em que pese o personalismo e o viés trapalhão do novo presidente, um empresário bem-sucedido da área da construção civil e das finanças que parece não ter tempo para discutir minúcias, o governo americano funciona em decorrência do complicado mecanismo de freios e contrapesos tradicional desde a criação da República Americana pelos Pais Fundadores no final do século XVIII.

Prova da vigência de princípios que valem desde as origens foi o episódio do jornalista Michael Wolff que entrou na Casa Branca com a anuência do dono, entrevistou muita gente e publicou tudo quanto viu e ouviu no explosivo livro intitulado: Fire and Fury: Inside the Trump White House, que acaba de ser publicado no Brasil pela editora Objetiva com o título: Fogo e fúria - Por dentro da Casa Branca de Trump. De nada adiantaram os chiliques de Trump e a ameaça de que barraria a distribuição do livro.  O contestado ensaio de Wolff já vendeu mais de 2 milhões de exemplares e venderá ainda mais.

As revelações de Michael Wolf são bombásticas. Como frisou na entrevista dada à revista Veja (edição 2573 de 14 de março de 2018), de Trump pode-se esperar o oferecimento de qualquer produto midiático. A respeito, disse Wolf: "(...) Trump não lê absolutamente nada, nunca. E ele não escuta. Eis a questão: ele não gosta de pensar. É o pacote completo. Depois de um ano na Presidência, continuo certo de que ele não tem condições de ser presidente. Minha impressão, aliás, só piorou nesse período (...). Eu penso em Trump como um vendedor nato. Ele está tentando vender o governo dele à população, porém ninguém está querendo comprar até agora. Inclusive no trato com os membros da equipe ele é assim: se você não é mais útil, acaba virando apenas um produto em liquidação na prateleira do Trump. Mas o homem é profundamente enervante. Não é inteligente o bastante, não tem o conhecimento necessário para o cargo, nem é minimamente estável. Tudo é possível com Trump no poder. Ele é uma pessoa maluca. O presidente não confia em ninguém, é autodestrutivo e também não é confiável".

Em relação à vida privada do Presidente americano, o jornalista frisa na entrevista: "Um dos traços centrais da vida de Trump é ser muito mulherengo e obsessivo. Uma das coisas que fazem a vida valer a pena para o presidente é levar mulheres de amigos para a cama".

Ora, nesse contexto de dissolução privada e de mediocridade política, saltam à vista no diálogo de Wolf duas coisas: de um lado, o autor, como jornalista, não teme pela sua vida porque se sente amparado pela legislação, a justiça e a tradição de liberdade de imprensa vigente nos Estados Unidos. Em segundo lugar, o jornalista, como americano, não teme pelo seu país, pois está seguro do funcionamento das instituições.

Em relação ao primeiro ponto, quando Eduardo L. Filho, o entrevistador da revista Veja lhe pergunta: "As ameaças legais o amedrontaram?" responde: "Nem por um milésimo de segundo. Nunca senti medo de ser processado por Trump. Ao contrário, eu me senti agraciado e abençoado por Deus. O único efeito disso foi o aumento significativo das vendas do meu livro ao redor do mundo. Eu e meus editores chegamos a responder às cartas enviadas por Trump e seus advogados. Categoricamente, dissemos que não iriamos parar a publicação (...)".

Em relação ao segundo ponto (o funcionamento das instituições nos Estados Unidos), assim caracteriza o autor o próximo ato da política americana, ao ensejo das trapalhadas tumpianas: "Veremos, O segundo ato vai começar provavelmente em novembro, com as eleições para o Congresso. E eu aposto que será um segundo ato muito sangrento. Se os democratas conquistarem a maioria, é provável que o presidente sofra um impeachment. E. pelo que estamos vendo hoje, os democratas sem dúvida conseguirão isso. Mas, até lá, Trump fará tudo o que estiver ao seu alcance para inverter o cenário negativo, incluindo a demissão de promotores e de quem quer que lhe seja uma pedra no sapato. Ele é capaz de tudo para não perder o poder. Mas, mesmo que os democratas percam a eleição e Trump faça o que se espera dele, as chances de sofrer um impeachment continuarão sendo grandes. As acusações contra o presidente a respeito da ingerência russa nas eleições são poderosas. Novembro será um momento histórico".

E quanto à ameaça de uma guerra com os norte-coreanos, aos quais Trump têm ameaçado repetidas vezes na pessoa do "homem bomba", o Presidente Kim-Jong-Un, o jornalista diz: "Não acredito que ele esteja interessado em começar uma guerra. Ele só pensa em coisas que seriam benéficas para ele, e uma guerra com a Coreia do Norte não seria vantajosa. Essa é a única boa notícia sobre o presidente, eu suponho. Trump não é como George W. Bush, um homem ansioso para provar sua vontade de ir à guerra. Guerras são muito complicadas, e Trump detesta complicações".

Imaginemos, por um segundo, qual seria a sorte do jornalista Wolff na Rússia ou na China de hoje. Seria eliminado rapidamente, como assassinada foi a jornalista Ana Potitovskaia por ter denunciado as tramoias do homem forte de sempre, Putin. Na China, muito provavelmente Wolff desapareceria sem deixar rastro, se sabendo vinte anos depois que tinha morrido "de morte natural" numa prisão do Estado. E, no contexto das tramoias de Trump reveladas pelo jornalista Wolff, as instituições americanas continuam funcionando democraticamente, inclusive com a possibilidade de aplicação de uma das medidas legais previstas, o impeachment do Presidente americano.

2 - O neopopulista Putin.


O pano de fundo sobre o qual se desenha o neo-populismo do homem forte da Rússia é o velho "despotismo oriental", tão bem estudado por Karl Wittfogel no seu clássico ensaio intitulado: Oriental Despotism. A Comparative Study of Total Power (1957). Putin repete a forma de imposição unipessoal sobre a sociedade, à maneira como se firmou a autoridade czarista, e à semelhança da forma em que os "Czares vermelhos", desde Lenine até Stalin e os outros líderes do PC Soviético, fizeram do Estado russo uma máquina de guerra mais forte do que a sociedade. Wittfogel caracterizou da seguinte forma o poder total do czarismo vermelho: "Eis o terrível segredo da revolução que Lenine concebeu e realizou. Para inúmeros intelectuais e operários em muitos países, essa revolução era um chamado à pregação do Socialismo na Rússia: um chamado para lutar por esse Socialismo e, se fosse necessário, a morrer por ele. O que acontece quando essa revolução perde a sua bandeira, o seu poder unificador? O que acontece se se comprova, segundo as próprias palavras de Lenine, que essa revolução conduz, não ao Socialismo, mas a uma nova forma de despotismo oriental? Quem, com exceção dos privilegiados, aceitaria morrer pela restauração asiática?"


As progressivas medidas de concentração do poder que Putin foi tomando ao longo dos seus mandatos, com a única finalidade de se perpetuar no poder, repetem a velha liturgia despótica dos czares, segundo a descrição de Wittfogel: "O soberano que exerce uma autoridade completa,, administrativa, institucional, judiciária, militar e fiscal pode empregar o seu poder para impor qualquer lei que ele mesmo e seus auxiliares julgarem oportuna. De um lado, a maior parte dessas leis é útil ao soberano; de outro, a inércia dos sujeitos favorece a sua perpetuação. Mas o regime absolutista é livre para modificar as suas próprias normas em qualquer momento (...). Impostas unilateralmente, as regras constitucionais são modificadas da mesma forma".

O resultado de todo esse processo é a revivescência dos traços totalitários do Estado russo que é definitivamente mais forte do que a sociedade, impedindo o funcionamento de qualquer oposição que faça sombra ao poder ilimitado do novo Chefe. As recentes aparições de Putin, ao longo da campanha pela sua reeleição, centraram a atenção num ponto específico: a Rússia tem hoje uma das maiores máquinas de guerra do Planeta, capaz de borrar do mapa qualquer país que ousar se opor às suas políticas externas. Transfere-se, assim, do plano interno para as relações internacionais, o projeto de poder total, com as negativas consequências que fazem com que tenhamos entrado, pela mão de Putin, num novo estágio da Guerra Fria. Os affaires de ex-agentes russos assassinados a mando de Putin no Ocidente, notadamente na Grã Bretanha, repetem ad nauseam a velha política vermelha de perseguir os desafetos do Kremlim onde quer que estejam. Lembremos o assassinato de Trotski planejado e executado no México a mando de Stalin. E as intervenções russas via Internet para tumultuar os processos eleitorais de países ocidentais vão pelo mesmo caminho. A antiga máquina de guerra soviética evoluiu, sob Putin, para se converter em máquina de fakes favoráveis ao regime russo na mídia ocidental. Tudo dentro do preceito dado por Pedro o Grande no seu Testamento Político, no século XVII: "plantar mentiras no Ocidente, que atrapalhem as Potências inimigas".

3 - O neopopulista Xi Jinping.


A China acaba de dar uma prova de que a sua velha estratégia de "Espaço Murado", concebida pelo Imperador Chin há milênios, repete-se na atualidade. A mudança de rumo dada pelo novo Imperador Chinês caminha no sentido de garantir a hegemonia da China num mundo complexo e globalizado. O "Capitalismo ao Modo Chinês" que foi pregado nas últimas décadas por Li Xiao Ping e seus sucessores, sabemos hoje de que se trata: o velho despotismo hidráulico, que se torna mais agressivo e concentrado em tempos de incerteza como os que estamos vivendo.


Os chineses, certamente, se equiparam bem para surfar nas águas tormentosas da globalização no fim do milênio passado. Abriram os seus portos e fronteiras, de maneira controlada com mão de ferro pelos donos do poder. Uma prova disso: tolera-se o capitalismo ocidental sob vigorosa dominação do Partido Comunista Chinês. Qualquer empresa que se instalar no território murado da China precisa estar sob controle do PC. Políticas favoráveis às remessas de lucros e a novos investimentos percorrem esse caminho de submissão sem limitações aos donos do poder. A atração de um imenso mercado e as facilidades para fazer investimentos levaram milhares de empresários ocidentais, inclusive brasileiros, a cruzarem as fronteiras do antigo império para tentarem a sorte ali. Mas liberdade econômica tem limites. É o que Xi-Jimping está deixando claro com as novas medidas anunciadas: maiores controles sobre quem cruzar as fronteiras da China para fazer negócios e investimentos. Controle total sobre a internet e as comunicações. E maiores controles sobre os cidadãos chineses, que estão já enquadrados sob a férula de ferro das novas tecnologias informáticas que possibilitam, ao regime, uma classificação algorítmica dos comportamentos individuais, para favorecer aqueles que se ajustem, lhes concedendo benefícios de mobilidade interna e de viagens ao exterior. É a versão hodierna do Big Brother de Orwell.

Xi-Jinping, na última reunião do Congresso do Partido Comunista assumiu o poder de Imperador. Não será mais eleito um novo líder, enquanto o atual permanecer vivo. E se desenvolve nova pregação da ortodoxia chinesa, retomando alguns temas caros à antiga "Revolução Cultural" de Mao-Tse-Tung. Intolerância com o modo ocidental de viver. Valorização das antigas práticas sociais de obediência e de culto à personalidade dos líderes. Os mandarins do regime já tinham deixado claro que liberdade na China tem limites: os tanques que passaram sobre os corpos dos estudantes que protestavam por mudanças à maneira ocidental na Praça da Paz Celestial em 1989, deixaram na memória de todos uma clara mensagem. Quem ultrapassar os limites aceitáveis querendo implantar instituições políticas ocidentais será eliminado sem contemplações.

Nestes dias está de visita em Pequim o ditador norte-coreano. Como toda etiqueta oficial deixa o seu recado, as honrarias dispensadas ao visitante deixaram claro que é um dos aliados de Pequim. O Império Chinês não se incomoda com vizinhos totalitários: são seus amigos. A China do século XXI está montando os fundamentos de uma poderosa máquina de guerra com a sofisticação tecnológica da informática a serviço do controle total dos cidadãos pelo Estado e com a corrida armamentista dirigida a garantir ao Estado Chinês a supremacia em dois terrenos: o espacial e o dos mares.

Nestes dois campos é notório o progresso tecnológico dos chineses, bem como a sua decidida vontade de abrir espaço para a hegemonia do PC sobre a China e o mundo. No terreno que toca mais de perto ao Brasil, a estratégia chinesa pode ser observada na silenciosa ocupação, por pesqueiros chineses, do Atlântico Sul, que são como cabeças de ponte para garantir, logo mais, a hegemonia militar sobre esta parte do oceano que banha o Brasil. No terreno da corrida armamentista espacial, os chineses já deram o seu recado: eles possuem tecnologia suficiente para derrubar, desde o solo, qualquer satélite que eles quiserem colocar fora de circulação.

No que tange ao pensamento estratégico, a China não poupa esforços: hoje são mantidos pelo governo mais de 1.400 centros de estudos estratégicos nesse país, em claro confronto de superioridade com o que, no Brasil por exemplo, fazemos em termos de estudos estratégicos. Os governos da Nova República simplesmente desmontaram, de forma irresponsável, os poucos centros que tinham acumulado experiência ao longo do ciclo militar. Hoje o Brasil não possui um centro de estudos estratégicos que seja equiparável à rede que as grandes potências, a China notadamente, têm nessa área.

No terreno econômico, a China tem marcado avanços significativos com o financiamento e a execução de obras de integração logística, em regiões carentes dela, especialmente na América Latina e na África. Isso com a finalidade clara de manter garantidos os polos de produção de commodities nas áreas da alimentação e da energia. O Brasil, de parceiro dos Estados Unidos, converteu-se hoje em parceiro preferencial dos chineses em comércio exterior.

Conclusão.


Diziam os escolásticos: "Quidquid recipitur, ad modum recipientis recipitur" ("O que se recebe, é recebido de acordo à forma do receptor"). O neopopulismo contemporâneo é recebido de acordo à natureza dos regimes por ele visitados. Ora, nos Estados Unidos, Pátria da Liberdade e da Representação, se bem que o populista Trump traga alguns tropeços, eles estão sendo superados pelo sistema de freios e contrapesos que estabelecem controles da opinião pública sobre o Executivo. Mas não se teme, do ângulo das expectativas de um cidadão comum, grandes ameaças contra a liberdade e a democracia tradicionais do povo americano. Tudo será superado no contexto da longa tradição de vivência democrática do espírito republicano, que já levava Tocqueville, em 1833, a definir a República dos Pais Fundadores como "o reino tranquilo da maioria".


Já no contexto russo e chinês, os respectivos surtos populistas de Putin e Xi-Jinping devem ser inseridos na longa tradição do "despotismo oriental" em que se verteram as acomodações das respectivas Repúblicas ao longo do século XX, no seio da tradição patrimonialista que vingou em ambos os contextos. Em relação a um estímulo para o surgimento de mais espaços de liberdade individual no mundo de hoje, o clima está pesado e tende mais para o controle irrestrito do Estado sobre os indivíduos.

Faltou nesta abordagem a questão econômica. Apenas para concluir a respeito, poderia dizer que ninguém gosta de tocar fogo em dinheiro. As três Potências, com os seus respectivos populismos, estão cuidando da área dos negócios, cada um do seu jeito. Os americanos, isentando de impostos os grandes e médios empresários, o que tem produzido uma aceleração real da produção e uma baixa das expectativas inflacionárias. Os russos, potencializando a exportação de armas e de petróleo. E fazendo intervenções militares tópicas para garantir o seu domínio sobre áreas estratégicas como a Síria. Os chineses, como foi frisado, atendendo às demandas logísticas de países da África e da América Latina, mediante a construção de ferrovias e estradas, e através de mecanismos de financiamento internacional para projetos específicos que visem a aumentar a produção das commodities de que eles precisam.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

VARIAÇÕES ACERCA DA DISSOLUÇÃO DOS IMPÉRIOS E DOS ESTADOS

O historiador britânico Edward Gibbon (1737-1794)

Alexis de Tocqueville (1805-1859),
 autor de Da Democracia na América 

Os Impérios,  bem como os Estados, via de regra, não morrem de fora para dentro, mas de dentro para fora. Os pensadores políticos, ao longo da história do Ocidente, sistematizaram o que poderíamos denominar de sintomatologia da queda dos poderes constituídos.

Foi Aristóteles na sua Política quem, em meados do século IV a.C., indicou a causa fundamental da queda dos regimes: Quando os que administram o Estado se preocupam mais com o próprio bem-estar do que com a coisa pública, sobrevém a corrupção daquele. 

Ora, essa causa geral da morte dos regimes pode ser particularizada historicamente em várias modalidades, que seriam como que os principais sintomas da doença. Referir-me-ei, neste comentário, aos dois principais sintomas da corrupção de Impérios e Estados na história do Ocidente.

1 - Quando esmaecem os vínculos entre as partes que os integram, o fim começa a aparecer no horizonte da história de Estados e Impérios. Foi assim com o Império Romano, como narra com seu estilo grandioso e detalhista o historiador britânico Gibbon, aquele que, em meados do século XVIII, era admirado pela Europa afora e tinha sido íntimo da mãe de Madame de Staël, a bela Suzanne Curchaud, futura esposa do banqueiro suíço Necker, o ministro da Fazenda de Luís XVI (que  poderia ter poupado a cabeça do monarca francês, caso este tivesse decidido seguir o conselho do seu Ministro, de dar o passo que os Ingleses tinham dado no final do século anterior, transformando a monarquia absoluta em constitucional).

Gibbon escreve a propósito da queda do Império Romano: "Os ferimentos mais profundos foram infligidos ao Império durante a minoridade dos filhos e netos de Teodósio; depois de terem atingido a idade viril, esses príncipes incapazes deixaram a Igreja entregue aos bispos, o Estado aos eunucos e as províncias aos bárbaros...". (E. Gibbon, Declínio e queda do Império Romano. Edição abreviada. Trad. de José Paulo Paes, São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 542).

Ora, tanto o Império Romano quanto a Monarquia Absoluta na França entraram em declínio acelerado, quando as suas elites, corruptas pelas mordomias que o poder  lhes garantia, afrouxaram os vínculos que mantinham unidas as partes dos seus domínios, privilegiando a vida mole dos palácios à sisudez dos gabinetes e à disciplina do estadista que se preocupa em ouvir o que os seus governados esperam, seguindo os conselhos dos velhos jurisconsultos e dos funcionários leais. 

No caso destes tempos duros que o Brasil vive na era pós-lulista, ao ensejo da corrupção generalizada do aparelho do Estado e das grandes empreiteiras do país, teríamos um caso semelhante de dissolução dos vínculos da unidade nacional, propiciada pelos próprios comandantes da nave estatal, Lula e Dilma. Crime generalizado que até a Justiça dos Estados Unidos denuncia e que Lula e o PT tentam ainda negar, com apoio de parte da grande imprensa, como a Folha de São Paulo que, em "pesquisa" feita sob medida pelo instituto Data Folha, comete a infantilidade de ainda atribuir a Lula a preferência do eleitorado numa eventual eleição presidencial.

Não tivessem sido retirados do poder, os petralhas teriam comprometido definitivamente a unidade nacional, com o esfacelamento das instituições republicanas, na maior onda de corrupção conhecida no mundo, nos últimos decênios.

 2 - Quando os cidadãos de um Império ou país trocam o ideal da luta em prol da liberdade, pela busca do conforto. Alexis de Tocqueville, se referindo aos Estados Unidos da América, considerava que o grande país do Norte correria esse risco, caso os seus cidadãos, em algum momento, preferissem se acomodar às delícias do progresso material e as colocassem à frente do senso da liberdade conquistada em lutas e sacrifícios, por parte das Treze Colônias originárias. 

Seria como se os Americanos abdicassem do seu DNA, aquele que caracterizou aos Pilgrim Brothers que cruzaram o Atlântico, ao longo dos séculos XVII e XVIII, buscando a liberdade nas terras por eles ocupadas na Nova Inglaterra.

Esse risco, entretanto, estaria longe do povo americano, em decorrência da forma particular em que a ideia de República se materializou entre eles, no sentir de Tocqueville. A respeito, afirma o pensador francês na sua obra principal, Da Democracia na América:  "O que se entende por República, nos Estados Unidos, é a ação lenta e tranquila que a sociedade exerce sobre si própria. É um estado regular fundado realmente na vontade esclarecida do povo. É um governo conciliador, em que as resoluções amadurecem durante muito tempo, sendo discutidas com vagar e executadas com maturidade. Nos Estados Unidos, os republicanos gostam dos costumes, respeitam as crenças e reconhecem os direitos. Professam a opinião segundo a qual um povo deve ser tanto mais respeitador da moral, religioso e moderado quanto maior for a liberdade de que disponha. Aquilo a que se chama República, nos Estados Unidos, é o reino tranquilo da maioria. A maioria, depois de ter tido tempo para se reconhecer e se dar conta da sua própria existência, é a fonte comum dos poderes". (Alexis de Tocqueville, Da democracia na América. Tradução de Carlos Correia Monteiro de Olveira, prefácio de João Carlos Espada, Lisboa: Princípia - Publicações Universitárias e Científicas, 2001, pg. 445-446).

O risco do abandono do ideal da liberdade pela busca do conforto é, entretanto, grande, segundo o pensador francês, entre os povos do Continente europeu ou os Latino-americanos, herdeiros de uma ideia oligárquica de República, segundo a qual não se trataria do tranquilo império da maioria, mas do intranquilo domínio da minoria sobre o resto. 

A respeito, frisa Tocqueville: "(...) a República não seria o reino da maioria, como se julgou até agora, mas sim o reino daqueles que melhor a representam. Não é o povo que dirige os governos deste tipo, mas aqueles que sabem o que é melhor para ele: feliz distinção, que permite agir em nome das nações sem as consultar nem pedir o seu aval e espezinhando-as" (Tocqueville, Da Democracia na América, ob. cit., pg. 446). 

Essa seria a versão de República, patrimonialista e positivista, que herdamos no Brasil e na qual lutamos para sobreviver, defendendo a escassa liberdade que ainda nos resta.

sábado, 18 de outubro de 2014

TOCQUEVILLE, A FRANÇA, A ÍNDIA E AS AMÉRICAS

Alexis de Tocqueville (1805-1859) não foi apenas o autor do clássico livro A democracia na América. Foi um observador atento de tudo quanto se passava no mundo da sua época, na França e alhures. Queria compreender a maior novidade da sua época: o nascimento de nações democráticas. Mas pretendia entender, também, o complexo panorama político do século XIX.
Do ângulo das preocupações internacionais de Tocqueville, desenvolverei neste trabalho três partes: em primeiro lugar, de que forma entendia a Índia, submetida ao colonialismo britânico; em segundo lugar, como situava o pensador francês o seu país no contexto das relações exteriores; em terceiro lugar, de que forma entendia o papel dos Estados Unidos e da América Latina no plano internacional.
1 – A Índia submetida ao colonialismo britânico, segundo Tocqueville.
Tocqueville dedicou parte importante da sua reflexão sobre a colonização à avaliação crítica da experiência inglesa na Índia. Considerava que os ingleses tiveram muito melhor senso de realidade do que os franceses na empreitada colonial, embora não os eximisse de defeitos. Os principais destes eram, no sentir do pensador francês, a empáfia e a hipocrisia dos colonizadores ingleses, que se sentiam superiores aos seus colonizados e que os exploravam achando que realizavam uma grande obra de civilização, com uma atitude de ranço aristocrático que o nosso autor achava démodée, típica do Ancien Régime.
A propósito deste ponto, escrevia Tocqueville: "Os Ingleses fizeram na Índia o que todas as nações européias fariam no seu lugar (...). Isso não é o que me admira. Mas o que não consigo entender é essa sua dedicação diuturna para pretender provar que eles agiam no interesse de um princípio, ou pelo bem dos indígenas, ou ainda pela vantagem dos soberanos que eles subjugam; é a sua indignação honesta contra os que lhes opõem resistência; são os procedimentos com os que eles mascaram quase sempre a violência. Não somente eles usam essa linguagem em face dos indígenas ou da grande sociedade européia, mas entre eles mesmos. Nas comunicações do governador geral com a corte de diretores e ainda com os seus subordinados na Índia, encontra-se em todas partes o mesmo estilo. Se se trata de persuadir o Peschwa a receber tropas inglesas ao seu serviço e, de fato, a abdicar em favor dos Ingleses, Wellesley se indigna com as resistências que encontra. Ele se revolta com a ambição, a má vontade, a imperícia do Peschwa; contra a obstinação culpável e desinteressada dos chefes maharatas que acham ruim essa solução, que ele chama de uma aliança defensiva. E os seus agentes compartilham dos mesmos sentimentos e lhe escrevem no mesmo tom. Isso provém, creio, do hábito típico dos Ingleses, de publicar, depois de um certo tempo, todas as despesas desta espécie. Somente no teatro observamos que os homens introduzem o público na confidência das paixões interessadas que os levam a agir" [Tocqueville, 1962: 505].
Anotemos que desse hipócrita formalismo colonial foram herdeiros os americanos, no que tange ao tratamento dispensado por eles aos índios e aos negros, conforme foi registrado pelo nosso autor na primeira Démocratie en Amérique [cf. Tocqueville, 1992: 394-421]. Formalismo que, diga-se de passagem, os americanos souberam utilizar de modo muito eficiente, (muito mais pragmático que a conquista a ferro e fogo dos ibéricos), conforme o próprio Tocqueville destaca: "Os Espanhóis soltam seus cães sobre os índios, como se estes fossem animais ferozes. Pilham o Novo Mundo como uma cidade assaltada, sem discernimento nem piedade. Mas não se pode destruir tudo; a fúria tem limites. O resto das populações indígenas salvas do massacre terminam por se misturar aos conquistadores, adotando sua religião e costumes. A conduta dos Estados Unidos com relação aos indígenas, pelo contrário, é inspirada no mais puro amor às formas e à legalidade. Desde que os índios se mantenham no estado selvagem, os Americanos não interferem na vida deles, tratando-os como um povo independente. Não se permitem ocupar suas terras sem antes adquiri-las devidamente, por meio de um contrato. Se uma nação indígena não pode mais viver no seu território, a conduzem fraternalmente da mão para morrer fora da terra dos seus ancestrais. Por meio de monstruosidades sem exemplo, cobrindo-se de vergonha indelével, os Espanhóis não conseguiram exterminar a raça indígena, nem a impediram de partilhar dos seus direitos. Os Americanos atingiram este duplo resultado com uma facilidade maravilhosa, tranqüilamente, legalmente, filantropicamente, sem derramar sangue nem violar um só dos grandes princípios morais, aos olhos do mundo. Não se poderia destruir os homens respeitando melhor as leis da humanidade" [Tocqueville, 1992: 392-393].
Outro aspecto negativo encontrado por Tocqueville na colônia britânica, diz relação à cobrança de impostos. Estes poderiam ser auferidos de forma mais racional. Os ingleses, através da Companhia das Índias, tentaram criar uma espécie de nobreza burocrática integrada por nativos, os denominados zemindares (que constituía uma casta privilegiada cobradora de tributos). Mas o projeto não deu certo. A razão fundamental era o fato de que as taxas a serem repassadas pelos zemindares à Companhia foram calculadas de forma muito rígida e alta, chegando a atingir três quintas partes dos ingressos e produzindo a rápida falência desses cobradores, que viram arrematadas as suas terras [cf. Tocqueville, 1962: 488].
Contudo, tratava-se de um mal relativo, pressuposta a realidade colonial. Embora não poucos afirmassem que os ingleses tinham empobrecido a Índia, Tocqueville duvidava disso. Muito mais prejudicada tinha sido essa nação sob os dominadores orientais, que aplicavam uma política abertamente despótica em matéria tributária. Era claro, para Tocqueville, que se houvesse na Índia liberdade de comércio e indústria, a realidade teria sido outra. Mas já não se poderia falar em dominação colonial. Tocqueville, que tinha estudado a realidade das ex-colônias britânicas na América, sabia muito bem que o caminho para o progresso material estava diretamente atrelado ao self government, de um lado (coisa que ele encontrava nas comunidades indianas), mas, de outro, na democrática difusão das luzes e na luta em prol da liberdade individual, realidades que ele considerava ausentes na vasta península oriental. O Bramanismo não era uma religião de homens livres, nem se poderia pretender que sobre as suas bases de desigualdade radical pudesse fundar-se uma democracia.
Em que pese os defeitos apontados pelo nosso autor, ele não deixa de reconhecer que a colonização inglesa teve aspectos positivos que deveriam ser levados em consideração pela França. Tocqueville chamava a atenção para a grande perplexidade que significou, em face da Europa do século XIX, a colonização da Índia pelos ingleses. Tratava-se, a seu ver, de fato até então desconhecido nos anais das conquistas efetivadas pelas nações européias. Quais os principais aspectos dessa novidade? A colonização da Índia quebrava todas as normas dos processos históricos de conquista, ocupação e dominação de um povo por outro. No fundo da perplexidade diante da colonização inglesa no oriente aparece, de forma curiosa, a questão da livre iniciativa vinculada a um governo que não a abafa. Da soma entre a imprevisibilidade daquela e da previsibilidade deste, surge um fato novo: uma espécie de racionalidade em andamento, que vai consolidando, pela via do acerto e do erro, uma ação de ocupação e de governo. Modalidade de empirismo prático, muito afinado, aliás, com a tradição do direito consuetudinário anglo-saxão e com a filosofia escocesa do senso comum. Modelo realmente novo em face dos exemplos conhecidos na Europa continental, ainda sob o impacto da aventura napoleônica e dos despotismos da Prússia e da Rússia. 
Eis a forma em que Tocqueville destaca esse fato novo: "O imenso império dos Ingleses na Índia estabeleceu-se de uma maneira tão súbita, ele é de data tão recente que a Europa, sacudida pela admiração em face de uma revolução tão singular, não teve ainda tempo de procurar as suas causas e de estudar os seus efeitos. Ela não viu, nem vê ainda, nessa grande revolução, mais do que um evento inexplicável e quase maravilhoso. A verdade é que se pretendermos observar o fato unicamente na sua dimensão exterior, jamais houve algo de mais extraordinário. Um país quase tão extenso quanto a Europa foi conquistado, no espaço de sessenta anos, por alguns milhares de Europeus desembarcados como comerciantes nas suas costas. Trinta mil estrangeiros governam cem milhões de homens que, pelas leis, a religião, a língua, os costumes, não possuem nenhum ponto de contato com eles e que, no entanto, não tomam parte nenhuma na direção dos seus próprios negócios. Não satisfeitos em conquistar essa multidão, os vencedores tentaram duas temeridades singulares: eles tinham o projeto de abolir ali, de uma vez só, todas as formas da justiça e de administrá-la, eles próprios, aos vencidos, fato que, acredito, não tem paralelo na história. (...) Fizeram ainda mais: subitamente mudaram a posse da terra, misturando, assim, os distúrbios de uma grande revolução social à agitação de uma grande revolução política. Todas essas coisas foram feitas, não de acordo com um plano hábil e uniformemente conduzido e posto em prática por algum grande gênio, mas aos poucos, seguindo o acaso das circunstâncias e dos homens, e após muitas dúvidas e tentativas. Essa estranha revolução foi conduzida por homens comuns. Ela não teve necessidade do gênio de alguns homens. O bom senso e a firmeza de todos têm sido suficientes. Enfim, para levar ao cúmulo a singularidade do evento, as duas terceiras partes de um império tão vasto quanto o de Alexandre foram submetidas contrariando as ordens formais dos que hoje são os seus senhores. O governo inglês e a Companhia foram arrastados sem sabê-lo ou apesar deles a realizar essas conquistas. Muitas vezes eles têm desautorizado os generais que as realizaram e, o que parece bem contrário à marcha comum das paixões humanas, os seus desejos mostraram-se menores do que a sua sorte" [Tocqueville, 1962: 444].
Ainda que seja certo que a conquista da Índia pelos ingleses era paradoxal na sua época, o nosso pensador não ficou atemorizado diante do fato de que ninguém tinha ousado elaborar até então uma explicação global do fenômeno. Utilizando o instrumental conceitual que o guiou nas outras pesquisas em que se enfronhou, de forma paciente e sistemática decidiu elucidar esse caso. A propósito da sua determinação e da certeza que tinha de encontrar uma explicação plausível, escreve Tocqueville: "Chegou o tempo de fazer desaparecer a nuvem que parece ainda ocultar a fundação do império inglês na Índia e de vincular esse evento às causas gerais que regem as coisas humanas. Documentos de todas as espécies são bastante numerosos como para, a partir deles, fazer esse trabalho. Examinado dessa forma, o evento será sempre muito grande, mas deixará de ser maravilhoso" [Tocqueville, 1962: 445].
O nosso autor passou a examinar detalhadamente toda a informação disponível sobre a Índia. Estudou, em primeiro lugar, anotando-as, as Leis de Manou (na tradução do sânscrito ao francês realizada pelo orientalista Loiseleur-Deslongchamps, em 12 volumes, Paris, 1832), pois queria ver de que forma o bramanismo tinha ensejado uma moral social, se consolidando em instituições sociais e políticas, de uma maneira análoga a como se interessou pelo estudo do Alcorão, a fim de melhor compreender o comportamento dos habitantes originários da Argélia. Pesquisou, de outro lado, nos anais do Parlamento britânico, as discussões relativas à política colonial inglesa na Índia, notadamente os relatórios ali apresentados por M. Dundas, Lorde North, Fox e Pitt. Consultou o conjunto de leis consolidadas que regiam as relações de Londres com as colônias, na coleção intitulada The Statutes of the United Kingdom of Great Britain and Ireland. Leu, outrossim, os relatórios dos funcionários britânicos na Índia. O nosso autor cita fartamente esse tipo de fonte, especialmente os informes de Lorde Cornwallis, de Lorde Teighmouth, do marquês de Wellesley, de Sir Philip Francis, de Lorde Clive e do marquês de Hastings (relativos estes últimos à administração da Companhia das Índias e ao conflito com os Gurkas, entre 1814 e 1816).
Dentre as obras consultadas ressaltam: de James Mill, The History of British India, 6 volumes, Londres, 1840; do reverendo Reginald Heber,  Narrative of a journey through the upper provinces of India from Calcutta to Bombay, 1824-1825, Londres, 1829; de sir John Malcolm, A memoir of central India, Londres, 1832; de Montsuart Elphinstone, An Account of the kigdom of Caboul and its dependencies in Persia, Tartary and India comprising a view of the Afghan nation and a history of the Dooranee monarchy, Londres, 1815; do general e conde sueco Magnus Björnstjerna, The British Empire in the East, Londres, 1840; de James Peggs, Slavery in India. The present State of East India Slavery, Londres, 1828; de William Adam, The Law and Custom of slavery in British India, Londres, 1840; de Mark Wilks, Historical Sketches of the South of India, Londres, 1810-1817; de Barchou de Penhoën, Histoire de la Conquête et de la fondation de l'Empire anglais dans l'Inde, 6 volumes, Paris, 1840-1841; do Abbé Jean-Antoine Dubois, Moeurs, institutions et cérémonies des peuples de l'Inde, 2 volumes, Paris, 1825 e de Robert Montgomery Martin, History of the British possessions in the East Indies, 2 volumes, Londres, 1836.
Não estranha que de posse de tão ampla documentação, o nosso autor tenha feito uma acertada aproximação da realidade indiana, embora não tenha conseguido viajar ao oriente, como era o seu desejo. Sintetizemos a apreciação que Tocqueville faz da colonização inglesa na Índia. Para o nosso pensador, não há dúvida de que os ingleses conseguiram compreender o espírito da sociedade indiana. Daí o fato de eles terem podido desenvolver instituições coloniais que possibilitaram a sua presença dominadora no continente asiático. Isso não significa que tudo tenha sido favorável aos indianos. Mas, no essencial, os colonizadores não alteraram a vida privada das pessoas e garantiram uma ordem jurídica e política, que deu a sensação de estabilidade.
Os ingleses, em primeiro lugar, encontraram uma sociedade atomizada em pequenas comunas. Não havia na Índia consciência nacional. Os dominadores anteriores (muçulmanos, afegãos, persas, mongóis) beneficiaram-se  também dessa situação. Mas não conseguiram estabelecer instituições permanentes, talvez em decorrência de um fato fundamental: o despotismo oriental impedia-lhes compreender essa importância da vida local na cultura indiana. Queriam centralizar tudo. Os ingleses, ao contrário, souberam adaptar o regime administrativo colonial a essa realidade. Isso porque o próprio governo inglês já convivia há séculos com uma rica vida comunal, na Inglaterra. De outro lado, jamais os ingleses permitiram que o exército se colocasse por cima do poder civil. As guerras que fizeram na Índia, tiveram como finalidade defender os interesses dos acionistas da Companhia das Índias (que nomeavam o governador e os altos funcionários da colônia), bem como a estabilidade dos negócios. Como os que mandavam eram governadores civis indicados pela Companhia, jamais a empresa guerreira teve como finalidade a conquista ou a glória militar. A administração política sobrepôs-se, na Índia, ao poder militar. Os generais prestavam um serviço de proteção aos nativos ou de restabelecimento da ordem, quando eles e os seus exércitos eram chamados pelo poder civil; mas nem este comandava diretamente as tropas, nem os chefes militares tinham iniciativa política.
De outro lado, os ingleses souberam conviver e administrar uma sociedade essencialmente desigual, como a indiana, segmentada hierarquicamente pelas castas. Isso porque, mais uma vez, o poder na Inglaterra sabia conviver com as diferenças hierárquicas no seio da sociedade. A religião indiana, o bramanismo, de outro lado, não ensejou a intolerância e a guerra contra o infiel, pela natureza mesma dessa religião. O bramanismo, do ângulo social, consolida uma sociedade de desiguais e justifica a desigualdade.  As pessoas nascem ou dos pés de Brahma ou da sua cabeça, sendo ou membros das castas inferiores ou das superiores. A religião está intimamente atrelada a essa ordem de castas. Não pretende subvertê-la. Mas, de outro lado, a religião é tradição da própria casta. Não constitui uma crença universal, que deva ser levada a outros povos. O próprio bramanismo hindu tende a que os fiéis aceitem outros credos, porque não há a preocupação de converter ninguém. Esse aspecto introspectivo do bramanismo, no sentir de Tocqueville, favoreceu a dominação britânica e a estabilidade administrativa da colônia. Os colonizadores não se defrontaram com uma jihad ou guerra santa, como as que pululavam no meio muçulmano. Os anteriores dominadores da Índia, aliás, não eram brâmanes, mas muçulmanos. De forma que a sociedade indiana já convivia pacificamente com senhores portadores de um credo diferente.
Tocqueville ressalta a originalidade do esquema de governo britânico na Índia. Houve dois modelos, um que vingou até 1786, e que poderia ser denominado de privatista. Outro, que se consolidou após as reformas efetivadas por Pitt em 1784 e 1786, que poderia ser caracterizado como privatista e estratégico. A primeira ocupação da Índia pelos ingleses, no início do século XVIII, deu-se sob a modalidade de atividade comercial privada, realizada pela Companhia das Índias. Os acionistas da Companhia, em Londres, nomeavam o governador e os altos funcionários coloniais. O governo britânico acudia para apoiar e defender os seus interesses, deslocando a força armada, que agia pontualmente e não como exército de ocupação. Após o sucesso crescente dos negócios da Companhia, entre 1784 e 1786, Pitt elabora a reforma que dará ensejo ao segundo modelo, privatista e estratégico. Tratava-se de criar uma interferência do governo inglês, de forma a conservar a unidade da colônia, sem impedir o funcionamento da livre iniciativa dos negócios da Companhia das Índias.
Tocqueville sintetizou da seguinte forma os aspectos essenciais das reformas de Pitt: "Os bills propostos por Pitt em 1784 e 1786: 1) estabeleceram a criação de um conselho governamental denominado Board of Control, que dava ao governo o controle supremo sobre os negócios políticos da Companhia. Esses dispositivos davam também ao rei o poder de chamar o governador geral nomeado pela Companhia. 2) Davam ao governador geral muita mais independência (...). Subordinavam de uma forma mais precisa o poder militar ao poder civil (...). Este bill distinguia de novo muito formalmente o general-em-chefe do governador geral e colocava o primeiro imediatamente abaixo do segundo. Aumentando em muito o poder do governador geral, o bill de 1786 dispôs que as atribuições deste poderiam se estender até os casos judiciais, sem poder contudo mudar ou modificar as instituições ou regulamentos estabelecidos pelo governo civil" [Tocqueville, 1962: 484].
O modelo de administração britânica na Índia encarnava o princípio defendido por Tocqueville para a Argélia: centralização política e descentralização administrativa. A primeira acontecia em decorrência do poder supremo do Board of Control. A segunda estava garantida graças à independência de que gozava o governador geral. O nosso autor não deixava de admirar um outro fator: a estreita colaboração que o modelo colonial inglês possibilitava entre o governo e a iniciativa privada.     
Outro aspecto importante da administração colonial britânica na Índia, dizia respeito à preparação dos quadros administrativos. Os ingleses cuidaram de forma muito eficiente disso. Tocqueville sintetizou assim esse aspecto da política colonial britânica: "Os jovens que se destinam a ocupar as funções civis na Índia, são obrigados a residir por dois anos num colégio especial fundado na Inglaterra (e que é chamado de Hailesbury College). Lá eles se dedicam a todos os estudos particulares que se relacionam à sua carreira e, ao mesmo tempo, adquirem noções gerais em administração pública e em economia política. As personalidades mais destacadas lecionam ali. Malthus ofereceu um curso de economia política em Hailesbury e sir James Mackintosh tem lecionado direito. São ali ensinadas oito línguas da Ásia. Para entrar e para sair do mencionado centro de estudos são necessários exames. Isso não é tudo. Chegados na Índia, esses jovens são obrigados a aprender a escrever e a falar corretamente dois idiomas do país. Quinze meses depois da sua chegada, um novo exame constata se eles possuem esses conhecimentos e, se forem reprovados num exame, são mandados de volta à Europa. Mas uma vez que, após tantas provas, eles se firmam na administração do país, a sua posição lhes é garantida, bem como os seus direitos; o seu progresso na carreira não é totalmente arbitrário. Eles ascendem de grau em grau, e seguindo regras conhecidas de antemão, até as mais altas posições" [Tocqueville, 1962: 332].
O nosso autor chamava a atenção para o fato de que a administração francesa na África poderia se inspirar nesse exemplo, a fim de passar a preparar os seus quadros administrativos de maneira racional. Somente assim, considerava Tocqueville, poderia se garantir, para a Argélia, uma colonização civilizadora, digna da tradição das luzes e do liberalismo. 
Uma última observação acerca da abordagem da Índia por Tocqueville. O nosso pensador enxergava longe: qual seria o começo da derrubada do grande império colonial britânico na Ásia? Duas hipóteses eram levantadas por ele: ou a invasão de uma potência européia, ou uma revolta interna. Tocqueville descartava a primeira hipótese, pelas dificuldades estratégicas que sofreria o invasor, devido ao grande poderio da Armada britânica. Restavam as alternativas por terra. Seria muito difícil invadir a península da Índia, pois para isso, tropas ocidentais deveriam entrar pelo Afeganistão, país inóspito, cheio de perigosos desfiladeiros e vales profundos, perfeitamente controlados por tribos guerreiras que conhecem palmo a palmo o terreno, e  onde as constantes rixas tribais dificultam qualquer empreendimento. É muito interessante, aliás, a descrição que das várias regiões afegãs oferece Tocqueville no breve ensaio intitulado Afghans, que insere no seu trabalho sobre a Índia, de 1842 [cf. Tocqueville, 1962: 498-500]. O nosso autor lembra as dificuldades que tiveram de enfrentar nessa região os vários invasores ao longo dos séculos, desde Alexandre da Macedônia.
A derrubada do império britânico na Índia ocorreria por causas internas, no sentir do nosso autor. Seguindo os estudos de Heber, Tocqueville considerava que a resistência civil do povo indiano poderia ser o calcanhar de Aquiles do poderio inglês. No esboço do livro que pretendia escrever sobre a Índia, o nosso autor inseria uma terceira parte intitulada: Comment l'Empire des Anglais dans l'Inde pourrait être détruit. A propósito, escrevia: "É muito remota a chance de uma rebelião. Os Ingleses terminarão por colocar os Hindus em estado de lhes resistir. Mas esse tempo está muito longe de nós. Ver a forma de mencionar esse traço que se encontra em Heber, de toda essa população da província de Bénarès, que ameaça se deixar morrer de fome se não for retirado um novo imposto. Exemplo significativo que prova ao mesmo tempo a singular doçura desse povo, mas ao mesmo tempo o poder que ele tem de se associar e a energia que ele pode dar às suas associações políticas" [Tocqueville, 1962: 481]. A figura do Mahatma Gandhi e da gesta libertadora não violenta por ele deslanchada no século XX, oferece-se espontaneamente à imaginação ao lermos estas linhas, escritas cem anos atrás.
O castelo de Alexis de Tocqueville, na Normandia, perto da cidadezinha de Tocqueville. (Janeiro de 1996 - Fotografia do jornalista José Carlos de Lery Guimarães)

2 - A França no contexto das relações exteriores, segundo Tocqueville.
Analisarei nesta parte o modo como Tocqueville situava a França da sua época no contexto internacional dos países já consolidados na vida independente. Para o nosso pensador não havia dúvida de que a democracia era a tendência a que as nações deveriam obedecer ao longo do século XIX. Herdeiro do hegelianismo mitigado de Guizot, Tocqueville considerava que as forças subterrâneas da história dirigiam-se nesse sentido. A propósito, escrevia na Introdução à primeira Démocratie en Amérique: "O desenvolvimento gradual da igualdade de condições é (...) um fato providencial e as suas caraterísticas são as seguintes: ele é universal, é durável, escapa sempre ao poder humano; todos os acontecimentos, como todos os homens, servem ao seu desenvolvimento" [Tocqueville, 1992: 7; cf. La Fournière, 1981: 147].
As grandes potências do século XX seriam aquelas que obedecessem de forma mais total a essa tendência democrática. Tocqueville enxergava dois países que ocupariam esse lugar: a Rússia e os Estados Unidos. A primeira cresceria pelo caminho do despotismo. Os segundos, pelo do desenvolvimento da liberdade. Tornou-se clássica a conclusão com que o nosso autor encerra, de forma profética, a sua primeira Démocratie en Amérique: "Há hoje, na terra, dois grandes povos que, partindo de pontos diferentes, parecem avançar em direção ao mesmo objetivo: os russos e os anglo-americanos. Ambos cresceram na obscuridade; e, enquanto os olhares do mundo estavam voltados para outros pontos, colocaram-se repentinamente no primeiro plano das nações e o mundo conheceu quase ao mesmo tempo o nascimento e a grandeza de ambos. Todos os outros povos parecem ter mais ou menos atingido os limites que lhes traçou a natureza e só precisam conservá-los; mas estes estão em crescimento: todos os outros pararam, ou só avançam com muito esforço; estes caminham com passo rápido e fácil, em carreira cujo ponto culminante não se pode divisar a olho nu. O americano luta contra os obstáculos postos pela natureza; o russo enfrenta os homens. Um combate o deserto e a barbárie, o outro, a civilização, sob todas as suas formas: as conquistas do americano se fazem com o cabo da enxada, as do russo, com a espada. Para atingir o objetivo, o primeiro conta com o interesse pessoal, e deixa agir, sem dirigi-las, a força e a razão dos indivíduos. O segundo concentra em um homem, de certa forma, todo o poder da sociedade. Um tem como principal meio de ação a liberdade; o outro, a servidão. O ponto de partida é diferente, as vias divergem; entretanto, cada um deles parece chamado, por vocação secreta da Providência, a concentrar nas mãos o destino da metade do mundo" [Tocqueville, 1992: 480].
Diríamos que a preocupação tocquevilliana fundamental consistia em pensar a forma de a França se preparar para esse fato novo, o ideal da igualdade, que o acaso tornou presente na própria história francesa. Ora, esse ideal era pensado por Tocqueville, à luz da experiência americana, como a conquista de um estado social em que vingaria a igualdade de condições [cf. Matsumoto, 1999: 38]. Na introdução à primeira Démocratie en Amérique, o nosso autor mostrava que entre os franceses a democracia tinha vingado como uma espécie de menino de rua, com toda a dinâmica dos primeiros anos, mas sem os anteparos da boa educação: "Não há povo na Europa em que a grande revolução social a que fiz alusão tenha feito progressos mais rápidos do que entre nós; mas a revolução, neste país, desenvolveu-se sempre ao acaso. Nunca os chefes de Estado pensaram em preparar, previamente, o que quer que fosse em seu favor; fez-se apesar deles ou sem que dela tivessem conhecimento. As classes mais poderosas, mais inteligentes e mais honestas não buscaram apoderar-se dessa revolução para dirigi-la. A democracia foi, portanto, abandonada aos seus instintos selvagens; cresceu como essas crianças privadas dos cuidados paternos, que se criam sós nas ruas das cidades, que só conhecem da sociedade os vícios e as misérias. Parecia-se ignorar, ainda, a existência da revolução, quando apoderou-se, inopinadamente, do poder. Então, cada qual se submeteu servilmente a seus mínimos desejos. Adoraram-na como imagem da força; mas quando, depois, enfraqueceu por culpa de seus próprios excessos, os legisladores conceberam o projeto de destruí-la, ao invés de buscar instruí-la e corrigi-la; sem pensar em ensiná-la a governar, só quiseram expulsá-la do governo. O resultado foi que a revolução democrática operou-se no plano material da sociedade, sem que houvesse, nas leis, nas idéias, nos hábitos e costumes, a mudança que teria sido necessária para torná-la útil. Assim, temos a democracia, menos o que deve atenuar os seus vícios e realçar-lhe as vantagens naturais; já conhecendo os males que provoca, ignoramos os bens que pode proporcionar (...)" [Tocqueville, 1992: 8-9].
O pano de fundo da democracia será o marco de referência conceitual das reflexões de Tocqueville no que tange às relações internacionais. Esse marco, aliás, como já tive oportunidade de mostrar atrás, enquadra a meditação do nosso pensador em relação à problemática colonial. A Argélia e a Índia foram estudadas por ele como propostas de colonização julgadas à luz do ideal democrático. Algo semelhante se pode dizer da problemática da abolição da escravatura, totalmente equacionada com referência ao contexto da vida democrática.
Quais eram as perspectivas estratégicas que Tocqueville assinalava à França no contexto europeu da sua época? O nosso autor esteve à frente dos negócios estrangeiros da França, como ministro das Relações Exteriores, durante cinco meses no gabinete presidido por Odilon Barrot, entre 2 de junho e 31 de outubro de 1849. Pouco tempo para desenvolver uma política exterior ampla e coerente. O nosso pensador teve, necessariamente, de se acomodar aos compromissos assumidos por ministros anteriores e respeitar as linhas mestras do regime republicano moderado presidido por Luís Napoleão Bonaparte, eleito presidente em 10 de dezembro de 1848. O escasso tempo de que Tocqueville dispôs para dirigir a política exterior, não significou, contudo, que não a conhecesse em profundidade, nem que os seus ideais democráticos tivessem ficado à margem da atividade política. O nosso autor já tinha integrado, como deputado, várias comissões para estudar problemas relacionados com esse ponto. E nas questões essenciais que teve de solucionar no ministério, agiu guiado pelas idéias que defendeu na sua obra.
Tocqueville almejava ser nomeado ministro da Instrução Pública. Revelava, assim, a tendência que já tinha se manifestado na vida política de Guizot, de contribuir para a reforma das instituições na França a partir do ponto que era considerado pelo doutrinários como nevrálgico: a educação popular. Não tendo conseguido a indicação para a Instrução, foi nomeado ministro das Relações Exteriores. A respeito das atividades que teve de desempenhar no ministério, escreve André Jardin: "Na falta da Instrução Pública, Tocqueville recebeu os Assuntos Estrangeiros, que aceitou com certo temor. Não era, contudo, tão bisonho como às vezes se tem afirmado; a partir do seu ingresso na vida pública tinha estudado os problemas internacionais com dedicação; no ano anterior, tinha sido designado como mediador francês no conflito austro-sardo e, com vistas à hipotética conferência de Bruxelas, tinha revisado cuidadosamente os expedientes italianos no ministério; regressava da Alemanha, aonde tinha ido para observar pessoalmente os movimentos revolucionários" [Jardin, 1984: 406].
Tocqueville teve, no ministério das Relações Exteriores, uma atitude de colaboração leal para com o presidente Luís Napoleão. Em que pese as tendências autoritárias do príncipe-presidente, o nosso autor soube colocar anteparos na sua pasta, quando achou que o primeiro mandatário extrapolava os limites traçados pela conveniência dos interesses franceses. A propósito dessa colaboração, frisa Jardin: "Tocqueville expunha-lhe regularmente os assuntos da Europa, explicitava-lhe os motivos de suas decisões. Quando acreditou dever resistir às suas decisões ou aos seus caprichos, justificou as causas da sua resistência. Dessas relações surgiu uma simpatia um pouco desconfiada da parte de Tocqueville, uma simpatia mais profunda da parte do Presidente, da qual mais tarde daria alguns testemunhos (...)" [Jardin, 1984: 408].
Tocqueville encontrou problemas no que tangia à preparação do pessoal na sua pasta. Após os inúmeros movimentos revolucionários enfrentados pelo país e em face das idéias republicanas em ascensão, muitos diplomatas surgiam das fileiras dos ativistas políticos, tornando difícil a circulação de informações confidenciais e a elaboração e execução de uma política exterior amadurecida. Tocqueville, como ministro, teve de criar, em não poucos casos, uma rede de informantes paralela aos quadros da diplomacia. O seu chefe de gabinete, o jovem Gobineau, foi para nosso autor de uma grande utilidade, na medida em que se revelou um colaborador fiel e eficaz. Após ter se desempenhado como auxiliar do nosso autor, quando Tocqueville deixou o ministério, Gobineau direcionou-se para a carreira diplomática, tendo representado os interesses da França no Médio e no Extremo Oriente, como também no Brasil.
No que tange à problemática das relações exteriores da França com os restantes países europeus, Tocqueville desenvolveu uma política de continuidade com os seus antecessores no ministério: manter a Europa em paz. Essa política já tinha sido praticada antes de 1848 pelo conservador Guizot. Era compreensível essa atitude, diante dos enormes custos sociais e políticos do ciclo revolucionário de 1789, do Terror Jacobino e das aventuras napoleônicas. A França estava cansada de guerras e a sua diplomacia buscava deitar as bases de um convívio pacífico no cenário europeu. A propósito, frisa Jardin: "Na turbulenta Europa de 1849, o interesse essencial é a manutenção da paz. Desde 25 de junho, Tocqueville afirma esse grande princípio a propósito da interpelação de Maugin. Maugin subia cada ano à tribuna para denunciar a conjuração dos soberanos da Europa contra a França e, dessa feita, profetizou a chegada dos russos. Boa ocasião para Tocqueville proclamar que a paz é necessária e que não é imediatamente ameaçada. Nas circunstâncias do momento, a guerra seria não só um desastre para a República francesa: dela poderia resultar um terrível naufrágio não somente para nós, como para todo o mundo civilizado, numa conjuntura em que as sociedades tremem nos seus alicerces. Parece impossível uma coalizão contra a França: Inglaterra quer manter a paz, as potências alemãs jamais estiveram tão divididas (...)" [Jardin, 1984: 412-413].
O mais espinhoso problema que Tocqueville teve de enfrentar na pasta das Relações Exteriores foi o dos Estados Pontifícios. Após a revolução de 1848 o Papa Pio IX, com a finalidade de conservar o seu poder em Roma, tinha acenado, a partir do seu refúgio em Gaeta, com a concessão de algumas reformas liberalizantes, organizando um regime constitucional. Após o assassinato do primeiro-ministro papal, Rossi, em 15 de novembro desse ano, o Pontífice voltou atrás. Acontece que as tropas francesas, chefiadas pelo general Oudinot, tinham entrado em Roma para restabelecer a ordem, por determinação de Tocqueville. Se impusessem a manutenção do status quo absolutista (como era o desejo dos cardeais mais influentes), as tropas ficariam desmoralizadas perante a opinião pública de seu país. Se abandonassem Roma à pilhagem, a situação não seria melhor. O nosso autor insistia na realização de reformas nos Estados Pontifícios, que possibilitassem o equilíbrio entre liberdade moderna e Igreja.
A respeito dessa política, frisa Jardin: "No entanto, a política francesa podia encontrar uma justificação: a de impor aos estados romanos um regime constitucional. Essa idéia era uma aplicação do princípio expressado em La Démocratie de que era necessário fazer coexistir a liberdade moderna e a Igreja, para garantir o equilíbrio moral da futura sociedade democrática. A negociação do conflito romano era uma das idéias fundamentais de Tocqueville" [Jardin, 1984: 416]. Tocqueville, católico por tradição familiar, era sensível ao desprestígio que a Igreja teria, caso o Papa mantivesse a pretensão absolutista nos seus Estados. Em carta endereçada a Corcelle em 1º de julho de 1849, assim escrevia o nosso autor: "Se o soberano pontífice, uma vez colocado novamente no poder, trabalhar para restabelecer os abusos que a própria Europa absolutista não deseja, se se entregar aos rigores que a história não perdoa nem sequer aos príncipes seculares, a Igreja católica não só se debilitaria, mas também se desonraria diante de todo o universo" [apud Jardin, 1984: 416].
Uma vez garantido o Papa à frente do governo de Roma pelas tropas francesas, o Pontífice emitiu um decreto (motu proprio) que praticamente restabelecia o poder absoluto e deixava sem efeito as promessas liberalizantes, tendo inclusive restabelecido a Inquisição. Tocqueville sentiu-se traído. A partir de então, passou a alimentar sentimentos anti-clericais, que o acompanhariam até o final da sua vida. Jardin frisa a respeito: "Tocqueville ficou pessoalmente marcado por essa experiência diplomática. A hipocrisia da corte romana tinha-o exasperado. Católico por tradição e por costume, contemplava com desânimo a veneração dos fiéis da sua época por Pio IX. Que pena que você seja protestante! escreve-lhe um dia Corcelle e essa afirmação marca entre eles uma verdadeira diferença de sensibilidade. Para Tocqueville, as virtudes privadas do Santo Padre não têm grande peso diante da falta de lucidez que o encadeia à torta política do seu Secretário de Estado. A partir de então, através de sua correspondência, pode-se destacar uma dura atitude anticlerical, até então ausente nele. Subsistirá durante o Segundo Império" [Jardin, 1984: 421].
Em síntese, a atuação de Tocqueville na pasta das Relações Exteriores deu continuidade a uma linha política previamente formulada, de manter a paz na Europa. O seu principal mérito consistiu em ter conseguido salvar a paz na Itália, mediante uma boa harmonia com a Áustria. Em geral, as suas apreciações sobre a política européia foram acertadas, como por exemplo a que previa a unificação alemã. E na sua atuação observa-se o perfil dos seus mestres doutrinários: agir preservando a fidelidade aos princípios morais básicos de respeito às pessoas e às nações, preservando as instituições da democracia representativa e o regime de liberdades. Em face da dúbia atitude do Papa e dos seus cardeais, o nosso autor, como frisa Françoise Mélonio no seu ensaio intitulado Tocqueville et la restauration du pouvoir temporel du pape (juin-octobre 1849) "parece ter pensado uma política de pressão moral mais vigorosa" [Revue Historique, CCLXXI/1: pg. 118].
Uma última observação: a lucidez com que o nosso autor analisou as relações internacionais na sua época, inspirou, ao longo do século XX, a retomada dessa perspectiva liberal e responsável (diríamos tipicamente doutrinária) na França, por parte de Raymond Aron, à cuja sombra, no Centre de Recherches Politiques que leva o seu nome, formou-se um núcleo de importantes estudiosos da problemática internacional e da questão social, entre os que se destacam as figuras de François Furet, Marcel Gauchet, Pierre Rosanvallon, Patrice Gueniffrey, Françoise Mélonio, Ran Halévi, Claude Lefort, Pierre Manent, Mona Ozouf, Philippe Raynaud, Elisabeth Dutartre, etc. [cf. Mélonio, 1998: 925-927]. Fecundidade semelhante  observa-se hodiernamente, nos Estados Unidos, ao redor das idéias mestras de Tocqueville, que têm alimentado a meditação sobre os problemas atuais da democracia americana, como por exemplo no relacionado ao convívio das raças, dos sexos, enfim, da denominada "igualdade de condições", numa sociedade civil caracterizada pela liberdade de associação [cf. Drescher, 2001: 63-76; Vélez, 2001: 275-304].

3 – O papel dos Estados Unidos e da América Latina no plano internacional.
A - Perspectivas estratégicas da América do Norte.- Não há dúvida de que a América, para Tocqueville, era uma potência forte. Dois aspectos salientava o nosso autor em relação a esse fato: ela é tal porque a natureza a colocou isolada dos grandes inimigos. Mas ela possui também a força das nações cujas instituições estão solidamente ancoradas na vontade popular.
Em relação ao primeiro aspecto, o nosso autor considerava que os Estados Unidos da América gozavam de uma situação privilegiada, de que outros povos não tinham se beneficiado. Era uma nação colocada pela Providência longe dos seus inimigos e, portanto, a salvo das guerras. A propósito, escrevia no final da primeira parte da Démocratie en Amérique de 1835: "De onde provém, pois, o fato de que, embora protegida pela perfeição relativa das suas leis, não se dissolva a União americana no meio de uma grande guerra? É que não tem absolutamente grandes guerras a temer. Situada no centro de um continente imenso, onde a indústria humana pode estender-se sem limites, a União é quase tão isolada do mundo como se estivesse encerrada pelo oceano, por todos os lados. O Canadá conta apenas com um milhão de habitantes; a sua população acha-se dividida em duas nações inimigas. Os rigores do clima limitam a extensão do território e fecham os seus portos durante seis meses. Do Canadá ao Golfo do México, encontram-se ainda algumas tribos selvagens, semidestruídas, que vão sendo expulsas por seis mil soldados. Ao sul, a União toca num ponto o império do México. É de lá, provavelmente, que virão um dia as grandes guerras. Mas, por longo tempo ainda, a situação pouco adiantada da civilização, a corrupção dos costumes e a miséria impedirão o México de tomar uma posição elevada entre as nações. Quanto às potências da Europa, o seu afastamento as torna pouco temíveis (...). Admirável posição do Novo Mundo, que faz com que o homem, nele, não encontre ainda inimigos, a não ser ele próprio! Para ser feliz e livre, basta desejá-lo" [Tocqueville, 1992: 191-192].
O fato de estar longe dos seus inimigos acrescia-se a esta outra realidade: o continente americano era imenso e rico em terras cultiváveis. Para ser uma grande potência, Estados Unidos não encontrariam, no século XIX, grandes dificuldades. A sua população cresceria em paz e ocuparia de maneira produtiva a imensa hinterlândia que a Providência tinha-lhe dado, entre os dois oceanos, graças a um espírito de trabalho aguçado pela religião e estimulado pelo desejo de riqueza e conforto, bem como por instituições de governo a serviço da liberdade cidadã. Uma vez ocupada toda essa imensidão, ainda poderia se desenvolver a economia mediante um agressivo comércio internacional, que o nosso autor já registrava na sua primeira Démocratie en Amérique  [cf. Tocqueville, 1992: 19-59].
A União americana era forte também, no sentir de Tocqueville, por causa das suas instituições. A fórmula radicava na fundamentação daquelas na vontade popular. O espírito público da República americana alicerçava-se nos espíritos, nas convicções e sentimentos dos cidadãos. Aí radicava a sua tremenda força, num mundo cada vez mais agitado pelas guerras e os choques dos interesses individuais.
A propósito deste ponto, escrevia Tocqueville ao tratar das vantagens do sistema federativo, na primeira Démocratie en Amérique: "É incontestável, na realidade, que, nos Estados Unidos, o gosto e o costume do governo republicano nasceram nas comunas e no seio das assembléias provinciais. Numa pequena nação, como Connecticut, por exemplo, onde a grande questão política é a abertura de um canal ou o traçado de uma estrada, onde o Estado não tem nenhum exército, nem guerra a manter, e não poderia dar àqueles que o dirigem nem muita riqueza nem muita glória, nada de mais natural se pode imaginar, nem de mais apropriado à natureza das coisas, que a república. Ora, é esse mesmo espírito republicano, são esses costumes e hábitos de um povo livre que, depois de haver nascido e se ter desenvolvido nos diversos Estados, aplicam-se em seguida, sem dificuldade, ao conjunto do país. O espírito público da União não deixa de ser, ele próprio, de certa forma, uma síntese do patriotismo provinciano. Cada cidadão dos Estados Unidos transporta, por assim dizer, o interesse que lhe inspira sua pequena república ao amor da pátria comum. Defendendo a União, ele defende a prosperidade crescente do seu cantão, o direito de dirigir os seus negócios, a esperança de fazer prevalecer ali planos de melhoramentos que devem fazer com que ele próprio enriqueça: coisas, todas essas, que, de ordinário, tocam mais os homens que os interesses gerais do país e a glória da nação" [Tocqueville, 1992: 182-183].
A sensação de segurança e a certeza de que as instituições estavam a serviço da liberdade, da democracia e do bem-estar dos cidadãos, produziam, no sentir de Tocqueville, na sociedade americana, um sentimento de orgulho nacional e de superioridade em face de outros povos. "Em geral, as instituições democráticas - frisava o pensador francês -  dão aos homens uma ampla idéia de sua pátria e de si próprios. O americano sai de seu país com o coração trasbordante de orgulho. (...) Um americano fala todos os dias acerca da admirável igualdade que reina nos Estados Unidos; e ele orgulha-se, alto e bom som, de seu país (...)" [Tocqueville, 1992: 686-687].
Os riscos de desestabilização da sociedade americana eram situados por Tocqueville num futuro longínquo. Se crises de unidade a sociedade americana tivesse de sofrer, elas deveriam provir, pensava o nosso autor, de fatores internos não resolvidos, como a questão dos negros, que poderiam dar ensejo a sangrentos conflitos civis. O nosso autor antecipava-se, destarte, à guerra civil americana que eclodiria quarenta anos mais tarde [cf. Tocqueville, 1992: 359-393]. Mas, com certeza, os Estados Unidos da América não enfrentariam perigos vindos de fora durante muito tempo. Como tampouco sofreriam as agruras das revoluções, muito raras, aliás, no universo democrático tocquevilliano, segundo a acertada apreciação de Seymour Drescher [1992: 429-454].
B - Perspectivas estratégicas da América Latina.- Tocqueville teve sempre uma visão crítica do autoritarismo ibérico e da maneira como foi transplantado para a América Latina. Não podem progredir nações nas quais a liberdade foi sufocada pelo absolutismo, e nas que o sentimento do bem público é muito frágil. O clima social na América Latina, para o nosso autor, aproximava-se mais da barbárie do que da civilização. Parece como se os países desta parte do mundo voltassem à situação precária do estado de natureza. A causa responsável por essa desgraça era clara: o despotismo.  A secular falta de civismo ibero-americano às vezes era tanta, que o nosso autor chegava a admitir, por um momento, uma saída autoritária para a América Latina. Mas imediatamente descartava essa hipótese como falsa solução. Tocqueville acreditava no seguinte princípio: não pode haver redenção sob o jugo do absolutismo.
A propósito, escrevia o nosso autor, ao tratar da dinâmica que se desenvolve nas nações democráticas e da falta dela no mundo ibero-americano: "Estranha perceber as novas nações sul-americanas agitarem-se, há um quarto de século, em meio a revoluções que começam a cada instante, e, a cada dia, espera-se vê-las voltar ao que se chama o estado natural. Mas quem pode afirmar que essas revoluções não sejam atualmente o estado mais natural dos espanhóis da América do Sul? Nesses países, a sociedade debate-se no fundo de um abismo, do qual seus próprios esforços não são capazes de fazê-la sair. O povo que habita essa boa metade de um hemisfério parece obstinadamente apegado ao hábito de se dilacerar as entranhas; nada pode removê-lo. O esgotamento fá-lo cair um instante em repouso, e este lhe devolve rapidamente as forças. Quando considero este estado alterado de miséria e crimes, sou levado a crer que o despotismo lhe seria benfazejo. Mas estas duas palavras jamais poderiam unir-se no meu pensamento" [Tocqueville, 1992: 258-259].
Em que pese as críticas levantadas contra o absolutismo ibérico e a sua presença na América Latina, Tocqueville era otimista em relação ao futuro do nosso continente. Achava que o estado de atraso destes países seria transitório e que, assim como a Inglaterra tinha conseguido influenciar positivamente nos países da Europa Continental na superação das mazelas da pobreza e do autoritarismo, de forma semelhante os Estados Unidos conseguiriam, mais cedo ou mais tarde, influenciar beneficamente nos seus vizinhos do sul, fazendo surgir, neles, a valorização do trabalho, do desenvolvimento e da democracia, dinamizando os elementos de civilização cristã presentes nas tradições ibéricas. Antecipava o grande pensador francês a proposta da Aliança do Livre Comércio das Américas, que hoje os Estados Unidos tentam implementar na América Latina. Tocqueville talvez se possa aproximar da idéia de Nisbet [cf. 1969], no sentido de que as mudanças sociais não obedecem apenas a fatores endógenos, mas que são implementadas fundamentalmente por influências exógenas.
Vale a pena citar as palavras de Tocqueville a respeito: "Os espanhóis e os portugueses fundaram, na América do Sul, grandes colônias que posteriormente se transformaram em impérios. A guerra civil e o despotismo desolam, hoje em dia, aqueles vastos territórios. O movimento da população se detém e o reduzido número de homens que os habita, preocupado com o cuidado de se defender, apenas experimenta a necessidade de melhorar sua sorte. Mas não será possível ocorrer sempre assim. A Europa, entregue a si mesma, chegou pelos seus próprios esforços a vencer as trevas da Idade Média; a América do Sul é cristã como nós; tem as nossas leis, os nossos costumes; encerra todos os germes das civilizações que se desenvolveram no seio das nações européias e de seus rebentos; a América do Sul tem, mais do que nós, o nosso exemplo: por que há de permanecer bárbara para sempre?".
"Trata-se, evidentemente, neste caso, de uma questão de tempo: uma época mais ou menos distante chegará, em que os sul-americanos formarão nações florescentes e esclarecidas. (...) Não poderíamos duvidar que os americanos do norte da América venham a ser chamados a prover um dia às necessidades dos sul-americanos. A natureza os colocou perto deles. Forneceu-lhes, assim, grandes facilidades para conhecer e julgar as suas necessidades, a fim de estabelecer com aqueles povos relações permanentes e para se apoderar gradualmente do seu mercado. O comerciante dos Estados Unidos só poderia perder essas vantagens naturais se fosse muito inferior ao comerciante da Europa. Acontece que é, pelo contrário, superior a este em muitos pontos. Os americanos dos Estados Unidos já exercem grande influência moral sobre todos os povos do Novo Mundo. É deles que partem as luzes. Todas as nações que habitam o mesmo continente já se habituaram a considerá-los como os filhos mais esclarecidos, mais poderosos e mais ricos da grande família americana. Constantemente voltam os seus olhares para a União e, na medida do possível, assemelham-se aos povos que a compõem. Todos os dias vão buscar nos Estados Unidos doutrinas políticas e tomar-lhes leis emprestadas".
"Os americanos dos Estados Unidos estão, perante os povos da América do Sul, precisamente na mesma situação que seus pais ingleses perante os italianos, os espanhóis, os portugueses e todos aqueles povos da Europa que, sendo menos adiantados em civilização e indústria, recebem das suas mãos a maior parte dos objetos de consumo (...)" [Tocqueville, 1992: 471-473].
Poderia frisar, à luz dos ensinamentos de Tocqueville, que a nossa história, em Ibero-América, desenvolveu-se sempre entre dois extremos antidemocráticos: de um lado, o velho absolutismo ibérico e o seu herdeiro, o caudilhismo; de outro, o anarquismo revolucionário. A liberdade foi, nesse contexto de barbárie, a grande vítima. Alexis de Tocqueville mostrou que o caminho para iluminar a luta pela conquista da autêntica democracia nos nossos países deveria ser o da defesa da liberdade para todos os cidadãos. Após a queda do Muro de Berlim e, com ela, do modelo de democracia sem liberdade proposto por Marx, o modelo tocquevilliano de democracia liberal está em alta e é capaz de inspirar, ainda, os processos de renovação política e de reforma do Estado, em andamento no Brasil e no resto da América Latina [cf. Vélez, 1998].
A luta tocquevilliana em prol da defesa da liberdade, embora pareça aventura quixotesca no contexto de autoritarismo que ainda vigora nos costumes políticos latino-americanos, é ainda motivo inspirador de renovação nesta parte do Novo Mundo. Como frisa Paulo Kramer,  "(...) Para quem vive num país que ainda não conseguiu vencer as pragas da hipertrofia burocrática do Estado, do corporativismo clientelístico camuflado sob slogans de isonomia e equiparação e de uma democracia sempre ameaçada pelo patrimonialismo e pelo autoritarismo de todos os matizes na quase total ausência de lideranças lúcidas, legítimas e dignas de crédito, este me parece um combate digno de ser travado" [Kramer, 1998: 79].
Este cronista ao lado do busto de Tocqueville, na cidadezinha que leva o seu nome (Janeiro de 1996. Fotografia do saudoso jornalista José Carlos de Lery Guimarães)

BIBLIOGRAFIA
ARON, Raymond [2000]. As etapas do pensamento sociológico. (Tradução de Sérgio Bath). 5ª edição. São Paulo: Martins Fontes.
BAECQUE, Antoine de e Françoise MÉLONIO [1998]. Histoire culturelle de la France - 3. Lumières et Liberté, les dix-huitième et dix- neuvième siècles. Paris: Seuil.
CHEVALLIER, Jean-Jacques e André JARDIN [1962]. "Introduction". In: Alexis de Tocqueville, Oeuvres complètes - T. III Écrits et discours politiques, vol. 1. (Texto preparado e anotado por André Jardin; introdução de J. J. Chevallier e A. Jardin). Paris: Gallimard, pg. 7-32.
DRESCHER, Seymour [1992]. "Why Great Revolutions Will Become Rare: Tocqueville's Most Neglected Prognosis". In: The Journal of Modern History. The University of Chicago Press, vol. 64, no. 3 (setembro 1992): pg. 429-454.
DRESCHER, Seymour [2001]. "L'Amérique vue par les tocquevilliens". In: Raisons Politiques. Presses de Sciences Po - Paris, no. 1 (fevereiro de 2001): pg. 63-76.
ESPADA, João Carlos [1998]. A tradição da Liberdade. (Prefácio de Mário Pinto). Lisboa: Principia - Publicações Universitárias e Científicas.
ESPADA, João Carlos [2001]. "Prefácio à edição portuguesa". In: Alexis de TOCQUEVILLE, Da Democracia na América. (Prefácio de João Carlos Espada; tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira; revisão de Lívia Franco e Maria João Favila Vieira Carmona). Lisboa: Principia - Publicações Universitárias e Científicas, pg. 7-31.
HIMMELFARB, Gertrud [1997]. "Introduction". In: Alexis de TOCQUEVILLE, Memoir on Pauperism. (Versão inglesa a cargo de Seymour Drescher; prefácio de Max Hartwell). London:  IEA Health and Welfare Unit, pg. 1-16.
JARDIN, André [1984]. Alexis de Tocqueville, 1805-1859. Paris: Hachette.
JARDIN, André [1991]. "Introduction et chronologie". In: Tocqueville, Oeuvres - T. I. (Edição publicada sob a direção de ª Jardin, com a colaboração de F. Mélonio e L. Queffélec). Paris: Gallimard, pg. XI- XLVII. (La Pléiade).
JAUME, Lucien (organizador) [2000]. Coppet, creuset de l'esprit libéral - Les idées politiques et constitutionnelles du groupe de Madame de Staël. Aix-en-Provence: Presses Universitaires d'Aix-Marseille. Paris: Economica.
KRAMER, Paulo [1998]. "Despotismo tutelar e jaula de ferro: Tocqueville, Weber e o mal-estar no liberalismo". In: Política comparada. Brasília, vol. II, no. 2 (2º semestre de 1998): pg.  61-79.
LA FOURNIÈRE,  Xavier de [1981]. Alexis de Tocqueville, un monarquiste indépendent. Paris: Perrin.
LAROUSSE, Pierre [1865]. Grand Dictionnaire Universel du XIX siècle. Paris: Larousse, vol. 12, pg. 432-433.
MACEDO, Ubiratan Borges de [1987]. "O liberalismo doutrinário". In: Antônio Paim (organizador). Evolução histórica do Liberalismo. Belo Horizonte: Itatiaia,  pg. 33-44.
MACEDO, Ubiratan Borges de e Ricardo VÉLEZ Rodríguez [1996]. Liberalismo doutrinário e pensamento de Tocqueville. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho; Londrina: Instituto de Humanidades. Curso de Introdução Histórica ao Liberalismo, volume 2.
MATSUMOTO, Reiji [1999]. "Individualism, Association, and Civil Society: Tocqueville and the American Public". In: Hitoshi ABE, Hiroko SATO, Chieko KITAGAWA OTSURI (organizadores). The Public and the Private in the United States. Osaka: The Japan Center of Area Studies / National Museum of Ethnology, pg. 35-49.
MÉLONIO, Françoise [1993]. Tocqueville et les Français. Paris: Aubier.
MÉLONIO, Françoise [1997a]. "Nations et nationalismes". In: La Revue Tocqueville. Paris - La Société Tocqueville / Toronto - Presses de l'Université de Toronto, vol. XVIII, no. 1 (1997): pg. 61-75.
MÉLONIO, Françoise [1997b]. "Tocqueville et le despotisme moderne". In: Revue Française d'Histoire des Idées Politiques. Paris, no. 6 (segundo semestre de 1997): pg. 339-354.
MÉLONIO, Françoise [1998]. "Lecteur de Tocqueville". In: Commentaire. Paris, vol. 84 (inverno 1998-1999): pg. 925-927.
NISBET,  Robert [1969]. La formación del pensamiento sociológico. (Tradução espanhola de Enrique Molina de Vedia). Buenos Aires: Amorrortu, 2 vol.
PAIM, Antônio (organizador) [1987]. Evolução histórica do Liberalismo. Belo Horizonte: Itatiaia.
PAIM, Antônio [1995]. O Liberalismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.
PENNA, José Osvaldo de Meira [1987]. "O pensamento de Tocqueville". In: Antônio  PAIM (organizador). Evolução histórica do Liberalismo. Belo Horizonte: Itatiaia, pg. 45-55.
PENNA, José Osvaldo de Meira [1997]. O espírito das revoluções. (Prefácio de Antônio Paim). Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade.
SAINTE-BEUVE, Charles Augustin de [1985]. "Obras y correspondencia de Tocqueville". In: Alexis de TOCQUEVILLE  e John Stuart MILL,  Correspondencia. (Versão ao espanhol a cargo de Hero Rodríguez Toro). México: Fondo de Cultura Económica.
SCHLEIFER, James T. [2000].  The Making of Tocqueville's Democracy in America. (Prólogo de G.  W. Pierson). Indianapolis: Liberty Fund.
SOUZA, Paulino Soares de, visconde de Uruguai [1960]. Ensaio sobre o direito administrativo. (Apresentação de Themistocles Brandão Cavalcanti). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional.
STAËL Holstein, Germaine Necker (Madame de) [1996]. Dix années d'exil. (Edição crítica, preparada por Simone Balayé e Mariella Vianello Bonifácio). Paris: Fayard.
TAVARES BASTOS, Aureliano Cândido [1975]. Cartas do solitário. (Nota introdutória de Manuel Diegues Júnior). 4ª edição, São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: Instituto Nacional do Livro.
TOCQUEVILLE, Alexis de [1942]. Souvenirs. (Introdução de Luc Monnier). Paris: Gallimard.
TOCQUEVILLE, Alexis de [1952]. Oeuvres Complètes  - T. II L'Ancien Régime et la Révolution, vol. 1. (Introdução a cargo de George Lefebvre; nota preliminar e edição do texto a cargo de J. P. Mayer, com a supervisão de Georges Lefebvre e Ernest Labrousse). Paris: Gallimard.
TOCQUEVILLE, Alexis de [1953]. Oeuvres Complètes - T. II L'Ancien Régime et la Révolution, vol. 2. - Fragments et notes sur la Révolution. (Edição do texto e notas a cargo de André Jardin). Paris: Gallimard.
TOCQUEVILLE, Alexis de [1962]. Oeuvres Complètes - T. III Écrits et discours politiques, vol. 1. (Texto preparado e anotado por André Jardin; introdução de J. J. Chevallier e A. Jardin). Paris: Gallimard.
TOCQUEVILLE, Alexis de [1984]. Oeuvres Complètes - T. IV Écrits sur le système pénitentiaire en France et à l'étranger, vol 2. (Edição do texto a cargo de Michelle Perrot, com a colaboração de Jacques Léauté e G. W. Pierson). Paris: Gallimard.
TOCQUEVILLE, Alexis de e John Stuart MILL [1985]. Correspondencia. (Prólogo de Charles Augustin de Sainte-Beuve; versão ao espanhol a cargo de Hero Rodríguez Toro). México: Fondo de Cultura Económica.
TOCQUEVILLE, Alexis de [1989]. Oeuvres Complètes - T. XVI Mélanges. (Edição do texto a cargo de Françoise Mélonio). Paris: Gallimard.
TOCQUEVILLE, Alexis de [1991]. Oeuvres, I. (Edição organizada por André Jardin e Françoise Mélonio, com a colaboração de Lise Queffélec. Introdução e cronologia a cargo de André Jardin). Paris: Gallimard. ( La Pléiade).
TOCQUEVILLE, Alexis de [1992]. Oeuvres, II. (Edição organizada por André Jardin, com a colaboração de Jean-Claude Lamberti e James T. Schleifer). Paris: Gallimard. (La Pléiade).
TOCQUEVILLE,  Alexis de [1997]. Memoir on Pauperism. (Versão ao inglês a cargo de Seymour Drescher; introdução de Gertrud Himmelfarb; prefácio de Max Hartwell). London: IEA Health and Welfare Unit.
TOCQUEVILLE,  Alexis de [2000]. Viagens à Inglaterra e à Irlanda. (Tradução de Plínio Augusto Coelho; apresentação de Eduardo Valladares). São Paulo: Imaginário.
TOCQUEVILLE, Alexis de [2001]. Da Democracia na América. (Prefácio de João Carlos Espada; tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Revisão de Lívia Franco e Maria João Favila Vieira Carmona). Lisboa: Principia - Publicações Universitárias e Científicas.
VÉLEZ Rodríguez, Ricardo [1997]. Oliveira Vianna e o papel modernizador do Estado brasileiro. (Prefácio de Antônio Paim). Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina.
VÉLEZ Rodríguez, Ricardo [1998]. A democracia liberal segundo Alexis de Tocqueville. São Paulo: Mandarim / Instituto Tancredo Neves.
VÉLEZ Rodríguez, Ricardo [1999]. "Tocqueville au Brésil". In: La Revue Tocqueville. Paris - La Société Tocqueville; Toronto - Presses de l'Université de Toronto. Vol. XX, no. 1 (1999): pg. 147-176.
VÉLEZ Rodríguez, Ricardo [2001]. "Germaine Necker de Staël e as origens do Liberalismo doutrinário". In: Carta Mensal, Rio de Janeiro, vol. 47, no. 554 (Maio de 2001): pg. 47-64.
VIANNA, Francisco José de Oliveira [1987]. Populações meridionais do Brasil - T. I Populações rurais do Centro-Sul. Belo Horizonte: Itatiaia; Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense.
WEBER, Max [1944]. Economía y sociedad - T. IV Tipos de dominación. (Tradução espanhola a cargo de José Ferrater Mora). 1ª edição em espanhol. México: Fondo de Cultura Económica.