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sábado, 13 de agosto de 2016

A INSEGURANÇA DO RIO OLÍMPICO: CONSEQUÊNCIA DE POLÍTICAS "MEIA-SOLA"


A morte do soldado da Força Nacional que foi assassinado ao entrar, guiado pelo GPS, na "Comunidade" da Maré, mais do que um caso isolado, é a prova de que os narco-terroristas cariocas peitam as instituições do Estado. Tudo decorrente da "pacificação meia-sola" efetivada no Rio ao longo dos últimos dez anos. Se era para ter feito algo semelhante ao que os colombianos fizeram, em Medellín e Bogotá, entre 2002 e 2007, os bandidos que não tivessem deposto as armas e se submetido aos tribunais, já deveriam ter sido eliminados pela Polícia e pelas Forças Armadas.
Mas nada disso aconteceu em tempo e o resultado é esse: "Comunidades" como a da Maré, reféns dos chefetes do narcotráfico armados como nunca e que, em plena Olimpíada, desafiam as Forças da Ordem, os cidadãos, os jornalistas estrangeiros e os brasileiros. O crime organizado cresceu e se tornou forte no Rio pelo conluio trágico entre populismo e espírito do politicamente correto.
Desde os tristes tempos dos governos Brizola até hoje, é isso o que acontece. O lulopetismo só fez reforçar esse estado de coisas, de mãos dadas com os populistas acomodados no poder do Estado e do Município. Os momentos de lucidez foram sufocados pelo desleixo na administração do Estado e da cidade. A Olimpíada passará, ficarão, pelo menos, as obras de infraestrutura (muitas delas superfaturadas), mas no quesito "segurança pública" todos saimos perdendo, a Cidade Olímpica, o Estado do Rio de Janeiro e o Brasil. Estrangeiros e patrícios que vieram à Cidade Maravilhosa estão registrando tudo, como os jornalistas que tiveram o seu ônibus "apedrejado". Restará a nós, brasileiros, retomarmos a vida e administrar o caos que se instalou com a pacificação "meia sola" implantada nos últimos anos.
Pacificação para valer implicava muito mais do que as medidas parciais postas em execução na última década, com grande aparelho de propaganda. Como foi feito em Medelín e Bogotá, cidades visitadas pelo governador fluminense em 2007, teria sido necessário realizar um conjunto complexo de ações que contemplassem três planos: econômico, jurídico-político e cultural.
No primeiro, tanto em Bogotá quanto em Medellín foram elaborados, em parceria de empresários e poder público, estudos tendentes à dinamização do comércio e da indústria, a fim de acelerar o crescimento econômico e a mais racional das inclusões, a decorrente dos benefícios do desenvolvimento que gera empregos. Os nossos vizinhos têm crescido a taxas de causar inveja, que se situam entre 4,5 e 6,5 por cento ao ano.
No tocante à variável jurídico-política, foi feita uma teia de reformas que possibilitaram a eficácia do combate ao terrorismo, centralizando nos respectivos prefeitos (alcaides) metropolitanos a gestão das políticas de segurança. Reformas do aparelho policial e dos corpos das Forças Armadas que iriam colaborar nas ações de pacificação foram feitas com dois intuitos: aproximar as Forças da Ordem dos cidadãos, de forma a que estes confiassem nelas, e treinamento do pessoal militar para que executasse as ações de pacificação com um adequado embasamento legal e com a devida transparência.
Essas medidas institucionais foram acompanhadas de perto pela sociedade civil, mediante a criação, nas respectivas cidades, do movimento “Como Vamos”, do qual participam estudantes, professores, grêmios econômicos (que aglutinam os empresários da indústria e do comércio, bem como os bancos), profissionais liberais, membros da Igreja, imprensa e organizações comunitárias, divulgando mensalmente, no jornal de maior circulação, os resultados da avaliação sobre os vários itens das políticas traçadas visando à segurança.
No tocante à variável cultural (dirigida a desenvolver o sentimento de participação cidadã) nas áreas pacificadas e após um prazo de 120 dias, a respectiva Prefeitura entregava às comunidades um conjunto de obras educacionais e sociais denominado de “Parque-Biblioteca” que abarcava: luxuosa biblioteca pública, campos esportivos, escola municipal, posto de saúde, agência bancária e ligação com o transporte de massa (em Medellín, conexão com o metrô mediante bondinhos; em Bogotá, conexão dos bairros mediante micro-ônibus com o Trans-Milênio, o sistema de ônibus articulados que percorrem a cidade de norte a sul e de leste a oeste).
Todas essas medidas locais foram acompanhadas, no plano nacional, por uma política de segurança pública efetivada com a finalidade de modernizar as Forças Armadas e a Polícia Nacional e por políticas sociais que reforçassem a inclusão social. O programa “Bolsa Família” brasileiro foi adotado com modificações que o tornaram eficiente, ao cobrar o governo resultados das famílias beneficiadas, a fim de que não se tornasse ajuda crônica e irresponsável como aconteceu no nosso país. 
Assinale-se, para terminar, que as políticas efetivadas foram financiadas pelos governos locais com a parceria dos empresários locais: efetivamente, 90% das obras para construção dos Parques-Bibliotecas foi financiado mediante a modalidade de parcerias público-privadas, sem que se desenvolvessem ações de corrupção como tem acontecido no Brasil.
No Brasil, longe de as políticas pacificadoras se complementarem com políticas sociais e econômicas, o governo federal, embriagado com o populismo lulopetista, terminou piorando as coisas ao desmoralizar a ação das autoridades contra o crime organizado e ao adotar um esquema de megacorrupção para perpetuar no poder o partido do governo .

Esse é o quadro da nossa precária segurança pública no Rio Olímpico. Poderia ter sido de outra forma, se as autoridades regionais e nacionais tivessem tido bom senso e não deixassem prosperar o vírus da corrupção. Mas ainda é tempo para começar a mudar no sentido de políticas bem definidas e de colaboração efetiva com o setor privado. Os cariocas merecem uma cidade em ordem e segura. Pelo menos, merecem observar alguma perspectiva de mudança. Deixar como está ninguém merece!

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

FESTA OLÍMPICA: LEGADO E PROBLEMAS

Esgoto na praia da Barra da Tijuca. (Foto: The Guardian, 03-08-2016)



A Festa Olímpica, com todo o seu brilho, não desfaz, num passe de mágica, os problemas que o Brasil enfrenta nesta difícil quadra da sua história. Está aí o "custo Brasil" que superfaturou obras e encareceu para os brasileiros a conta a pagar. Não há almoço de graça, como dizia conhecido economista. Mas tampouco há Olimpíada de graça. A conta é paga pelos contribuintes, que podem sentir muito forte o baque. A Grécia que o diga. 

Os problemas com o descaso em face do meio ambiente estão sendo sentidos pelos participantes dos Jogos Olímpicos do Rio. E nem adianta disfarçá-los. Estão aí, aos olhos de todos, como o esgoto e os detritos que contaminam as águas da Baia da Guanabara e que já estão dando dores de cabeça aos esportistas de remo, vela, caiaque e assemelhados, bem como aos seus auxiliares. No caso do esgoto visível nas águas do mar no Rio de Janeiro, será difícil convencer o honorável público estrangeiro de que são fatalidades da natureza. 

Reportagem do jornalista John Vida, do londrino The Guardian intitulado: “Por que o Rio de Janeiro está achando tão difícil limpar o seu lixo?”(03-08-2016) informava: “Um entre três dos mais de 10 milhões de habitantes da grande área metropolitana vive em lugares que não possuem saneamento básico e metade do lixo da cidade não é tratado antes de ser despejado nos cursos de água e, eventualmente, no oceano”.

Reportagem de Pauline Fréour do jornal parisiense Le Figaro, em artigo intitulado: “Jogos Olímpicos: no mar e sobre a terra, os atletas face à poluição”, alertava acerca do perigo que os esportistas vão encontrar na Lagoa Rodrigo de Freitas nas competições de caiaque e canoagem, em decorrência das altas porcentagens de microrganismos nocivos presentes na água, sendo que “a concentração de adenovírus é 25 mil vezes superior ao nível de alerta fixado nas praias da Califórnia”. John  Griffith, biólogo marinho  da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, entrevistado a respeito, frisava: “O que há lá é água de esgoto, simplesmente”.

Os australianos, aliás, na tela dos noticiários por causa das suas legítimas reclamações quanto às obras inacabadas dos apartamentos na Vila Olímpica, quando foi a vez deles, em Sydney, nas Olimpíadas de 2000, não se viram às voltas com esses problemas de contaminação das águas. Muito pelo contrário: fizeram da sua Olimpíada um belo exemplo de políticas públicas para cuidar da natureza, como lembrou recentemente André Trigueiro no seu programa “Cidades e Soluções”, divulgado pela Globo News.

A Austrália deu um show de preservação ambiental cuidando, de forma exemplar, da pureza das águas da hiperpoluída baía de Homebush, conhecida como o maior esgoto do país, muito semelhante, em deterioração, ao estado em que se encontra a nossa baía da Guanabara. Esse foi o cenário para os esportes náuticos e ficou como legado da Olimpíada, ao ter totalmente saneadas as suas águas e ao ser convertido o seu entorno num parque natural de 430 hectares. Para conseguirem obter em tempo recorde esses magníficos resultados, os organizadores não pouparam esforços: gastaram 2,1 bilhões de dólares australianos e chamaram para colaborar no planejamento ecológico grupos ambientalistas internacionais, conhecidos pelo seu rigor nas políticas preservacionistas, como o Greenpeace. Ali foi estabelecido o primeiro sistema integrado do país de reciclagem total da água. Lembremos, por outro lado, que a Vila Olímpica foi abastecida totalmente com energia renovável proveniente de painéis solares. 


"Floresta flutuante" em navio abandonado, na bela e despoluída baía de Hombebush, em Sydney. (Foto: Divulgação).


As obras de preservação ambiental continuaram nos anos seguintes. Em 2014 foi inaugurado um parque ecológico sui-generis. O navio de suprimentos americano SS Armyfield de 1.400 toneladas, construído em 1911 e que tinha sido abandonado perto da praia pelos americanos após o final da 2ª Guerra Mundial, foi transformado em parque ecológico flutuante e passou a ornar, como uma espécie de grande vaso verde, as tranquilas águas da baia de Homebush.

Bem que os brasileiros poderíamos ter feito bonito nesse item. Mas não: optamos pela improvisação. A administração municipal ficou refém das piadinhas sem graça do Prefeito, que ofereceu cangurus aos australianos e se queixou (sem fundamento) de ter de "oferecer caviar" ao Comitê Olímpico.

De outro lado e já no plano nacional, ficará difícil para explicar aos estrangeiros presentes nas Olimpíadas as cenas de terrorismo deflagradas em Natal pelo Primeiro Comando da Capital e quejandos, que dominam os presídios brasileiros e que decidiram mostrar a sua força perante o mundo, envergonhando as autoridades brasileiras e a todos nós. Uma centena de ônibus incendiados para aterrorizar a população em pleno período de Olimpíada é terrorismo no duro. Vamos ver se as autoridades estaduais e federais vão dar o tratamento que merecem os autores desses crimes. Já temos uma lei antiterror que os petralhas fizeram o possível para que não fosse aprovada. Terão coragem as autoridades competentes para aplica-la, como a opinião pública espera?

E, por falar em terrorismo, ficaram famosas as fotografias tiradas pela equipe masculina chinesa de basquete (mostrando pessoas se jogando ao chão para se protegerem do tiroteio patrocinado por traficantes). A equipe chinesa tinha ficado  presa, entre as Linhas Amarela e Vermelha, logo após o seu desembarque no aeroporto do Galeão. Isso não podia acontecer. Grave falha do esquema de segurança!


Tiroteio na entrada ao Rio, na junção das Vias expressas Amarela e Vermelha. Fotografia tirada pela equipe masculina de basquete da China (04-08-2016).

Numa outra abordagem dos jornalistas internacionais, reportagem do jornal espanhol El País fez ampla matéria sobre a prostituição de jovens mulheres ao ensejo da Olimpíada no Rio de Janeiro. As “trabalhadoras sexuais”, como a esquerda gramsciana gosta de chama-las, não se sentem à vontade na sua profissão durante esses dias de folguedo. Como destacou a jornalista Maria Martin em duas matérias publicadas no dia 2 de Agosto, (“El sueño agridulce de las prostitutas de los Juegos Olímpicos” y “Prostitución infantil con vistas al Parque Olímpico”), muitas mulheres de várias regiões do país viajaram para o Rio de Janeiro, aliciadas por falsos empresários que lhes pagaram a viagem de ida e retorno, além de uma refeição básica, a fim de se prostituírem na região central da cidade ou em alguns clubes noturnos da zona sul. A reportagem entrevistou várias delas. Todas declararam que se tratava de uma opção difícil e que caíram na esparrela do comércio sexual em decorrência do aperto econômico ensejado pela crise que vive o país em tempos de Petrolão. Perderam o precário emprego que tinham ou simplesmente não conseguiam pagar as contas por ganharem somas irrisórias em face das necessidades de sobrevivência. Nenhuma manifestou satisfação com as condições de trabalho.


A reportagem informou acerca do estouro, pela polícia civil do Rio, de sofisticado esquema de “prostituição chique” com adolescentes que foram aliciadas em várias cidades brasileiras, mediante anúncio de oportunidade ímpar para entrar nas passarelas como modelos, ou na carreira artística como cantantes ou atrizes de cinema. Três luxuosos apartamentos com vista para o Parque Olímpico foram invadidos pelos policiais. Num deles, confinadas, moravam as adolescentes. Os outros dois serviam como base para as “atividades profissionais”. Os dois aliciadores, garotões malhados, vestiam roupas luxuosas e andavam em carrões importados, mas sumiram. Quando chegaram os policiais, os meliantes se escafederam. Ao que tudo indica, tratava-se de narcotraficantes tentando lavar dinheiro sujo e buscando faturar um extra com motivo da festa olímpica.

É claro que nem tudo é contaminação das águas, terrorismo no Rio Grande do Norte, tiroteios nas vias de acesso ao Rio Olímpico ou cenas de prostituição. A Cidade Maravilhosa ganhou obras significativas para a mobilidade urbana. A região do Porto foi definitivamente revitalizada. Museus e espaços públicos foram inaugurados e ficarão para serem desfrutados pela cidadania. O Parque Olímpico é um marco de referência na urbanização da zona oeste e as suas instalações são certamente motivo de alegria e orgulho para cariocas e visitantes. Mas festa olímpica é evento exigente e a presença de visitantes de outras nacionalidades, acostumados a que as coisas funcionam a contento, enxergaram as nossas falhas e as colocaram aos olhos do mundo. É melhor tomar conhecimento desses defeitos e procurar saná-los. E assumirmos as nossas responsabilidades, num mundo globalizado, para quando recebermos visitantes estrangeiros em eventos que, no futuro, sejam novamente programados.



O belo Parque Olímpico do Rio de Janeiro, uma das heranças positivas da Olimpíada para a Cidade Maravilhosa. (Foto: Renato Sette / Prefeitura do Rio de Janeiro).

A encenação que acompanha a abertura dos Jogos Olímpicos é, costumeiramente, uma radiografia da alma dos que organizam essa festa. Os chineses deram, em 2008, um belo espetáculo do que são, no fundo das suas almas: uma multidão de pessoas que se movem ao uníssono, com ética confuciana. 

A estética da gambiarra esteve presente na festa brasileira, reforçada pela imagem da favela que cresce sem parar, que apareceu como pano de fundo no palco. Isso, aliado ao erro histórico de, ao se fazer referência aos que nos enriqueceram de fora com a sua vinda como imigrantes ao Brasil, terem sido excluídos dois grupos fundamentais na colonização do Sul especialmente, embora tenham estado presentes, também, em outras regiões. Refiro-me aos Italianos e aos Alemães. Ficar, como se fez, só com a memória dos Libaneses e dos Japoneses foi um erro histórico grave, provocado possivelmente pelo afã de agradar ao Lula (que manifestou em alguma oportunidade não gostar de brancos de olhos azuis) e que achava que iria "papar" os louros da abertura da festa olímpica. 

Claro que gostei de ver a bela Gisele Bündchen desfilando majestosa (com a sua herança genética alemã) na enorme passarela, ao som da música de Tom Jobin, executada pelo seu filho. Claro que gostei dos deslumbrantes cenários montados com o que de melhor há na tecnologia digital. E gostei dos fogos, como deles gostou, fascinado, o meu filhinho. Não gostei, contudo, dos comentários patrioteiros do Galvão Bueno, exaltando os Brasileiros como se fossemos a nação mais civilizada do planeta. Não gostei da pretensão de dar aos espectadores uma aula de preservação ambiental, como se fôssemos os mais civilizados no quesito de cuidados com o meio ambiente. Não somos isso e temos consciência das nossas limitações. Da vaia ao Temer, repetiria com Nelson Rodrigues que o Maracanã vaia até minuto de silêncio. O nosso vice, exercendo as funções de presidente interino, teve uma atitude digna e realista, não dando ao incidente a importância que os líderes petistas, Lula e Dilma, deram, quando, por sua vez, foram vaiados em cenários esportivos internacionais.

Estou com Reinaldo Azevedo, na sua coluna de 05-0 publicada em Veja.com: "Não é a nossa capacidade de realizar eventos gigantescos que está em questão. Setores da economia brasileira dominam tecnologia de ponta capaz de rivalizar com o que de melhor se faz mundo afora. O nosso primitivismo está em outro lugar. É a política que ainda é movida a tração animal; é o respeito aos direitos individuais que ainda está em lombo de burro; é o arcabouço legal para empreender que ainda é movido a vapor; é o respeito à cidadania que ainda é analógico; é a tara pelo estatismo que ainda revela uma noção de país coberta de sapé e sentada de cócoras. Como o Jeca Tatu. Como a casa do Jeca Tatu. Infelizmente, desde a sua fundação e ao longo de 13 anos no poder, o PT fez dessa soma de atrasos uma ética e uma estética. E nos empurrou para o buraco. Mas estamos começando a sair dele. Assim, meu bom brasileiro, vibre com os jogos. Divirta-se com os jogos; o que nos envergonha estava aqui antes deles".

sexta-feira, 24 de junho de 2016

BREXIT

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O bom senso britânico voltou a prevalecer na decisão em prol da saída da Inglaterra do seio da Comunidade Européia. O raciocínio é simples: se os 27 integrantes da mencionada Comunidade não têm, cada um deles, a casa em ordem, a soma das irregularidades não pode produzir a ordem geral.

Confrontaram-se, na dramática decisão, duas tendências: a Continental e a Britânica. Duas tradições que se chocaram duramente no passado: lembremos o "Bloco Continental" imaginado pelo imperador Napoleão I, para passar a borracha sobre a Grã Bretanha. Waterloo, no caso, deu a última palavra: quem sofreu a passada da borracha por cima foi Napoleão e o seu projeto megalomaníaco de uma Europa Unida ao redor do seu despotismo.

Os problemas vividos pela União Européia ao longo das últimas décadas, decorrem de que ainda, em muitas cabeças, está presente o modelito de Unidade Continental alicerçada numa força exterior. A periferia da União, bem como países centrais, como é o caso da França, relutaram no saneamento das contas públicas, com as negativas consequências para o bem-estar geral. 

Lembro-me de que, no final dos anos 90, quando terminava o meu pós-doutorado na França, nada menos do que quinze mil empresários franceses cruzaram o Canal da Mancha para se estabelecerem na próspera e sorridente Grã Bretanha, que tinha colocado freio, a partir da era Thatcher, nos desmandos do estatismo. Os quinze mil empreendedores franceses fugiam das garras do guloso fisco do seu país, em busca de melhores condições para fazerem prosperar as suas empresas. Ora, a Grã Bretanha, com a casa em ordem (as contas públicas saneadas e, consequentemente, com menores impostos), era a alternativa desejada.

De lá para cá as coisas não mudaram em termos de controle sobre o gasto público. A França se vê ainda às voltas com o Martínez, o líder sindical bigodudo que lembra o Lula de 79, fazendo greve por tudo quanto é lugar, estimulado pelo crescimento desenfreado dos sindicatos alimentados pelo estatismo... Alguma diferença com o Brasil da era petralha?

Em tempos de turbulência global, dizem os britânicos na sua lição do Brexit, não adiante grandes alardes de alianças transnacionais. O primeiro passo é controlar o gasto público no interior do próprio país. Depois, pode-se pensar em passos mais arrojados como integrar uma grande aliança transnacional.

No caso brasileiro, só conseguiremos despegar para voos mais arrojados, se a operação Lava-Jato terminar a sua ação saneadora, colocando atrás das grades os ladrões da coisa pública e, especialmente, os seus mandantes. Somente assim poderá haver saneamento das contas públicas e a almejada paz social. 

A situação dramática do Rio olímpico está a nos lembrar que bazófia e propaganda nada resolvem. Ou se coloca a casa em ordem estancando de vez a roubalheira generalizada e a má gestão, ou as coisas pioram na área social, a começar pela segurança pública. 

O velho patrimonialismo precisa acabar. E o ponto de partida é prender os larápios que confundiram público com privado e reduziram tudo a uma privada.