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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O IMPERATIVO DAS LUZES NO SÉCULO XXI (UM TEXTO DE 2007)




O texto a seguir é a Conclusão da minha obra, lançada em 2007, com o seguinte título: Luz nas trevas - Ensaios sobre o Iluminismo (Guarapari ES: Editora Ex-Libris, 2007, 260 p.). Pela atualidade do tema tratado, reproduzo esse texto agora, na esperança de iluminar o atual momento, uma de cujas caraterísticas marcantes é a descrença nas Luzes da Razão, para equacionar os grandes problemas com que o Brasil se defronta.
Ao longo desta obra destaquei o importante papel das Luzes na Modernidade. O processo de ilustração no Brasil ficou a meio caminho, em decorrência das nossas decisões erradas. A estrutura patrimonial do Estado, ligada à mentalidade contra-reformista, terminou polarizando a dinâmica da nossa história, pelo torto caminho da privatização do poder por grupos e estamentos e da execração do lucro, da riqueza e do progresso como se fossem realidades contrárias à moral e à reta razão. Terminamos cativos de uma idéia deformada de modernidade, como a realização de uma ordem doméstica que nos daria mesada a todos, sem precisarmos trabalhar. E ficamos presos aos chavões politicamente corretos, que não nos deixam sacudir a poeira do passado, a fim de enveredarmos por caminhos novos. Hoje o gramscismo está na ordem do dia e ai de quem esboçar opiniões contrárias ao populismo em voga, às bolsas-família, às cotas raciais, aos estatutos legais que fazem dos adolescentes e jovens eternos irresponsáveis perante a lei. Ai de quem criticar a conivência das autoridades para com os mal chamados movimentos sociais, que fazem tabula rasa da lei e dos princípios morais, inspirados no pressuposto totalitário de que “os fins justificam os meios”.
Intelectuais e mestres são ameaçados, na sua integridade física, por militantes que simplesmente procuram impor, a qualquer preço, os slogans oficiais, sem que se possa duvidar da conveniência dos mesmos. Racismo proveniente dos antigos discriminados, pode! Já foi ouvida essa barbaridade, de boca de alta funcionária governamental, que tem, entre as suas incumbências, a de lutar contra a discriminação. O fascismo entrou pela porta da frente na já combalida vida pública brasileira. Hoje, mais do que nunca, é preciso ter coragem para pensar, neste país! A Imprensa, amordaçada pela autocensura e premida pelas ajudas oficiais, é vítima de uma legislação autoritária que ameaça com pesadíssimas multas aqueles que ousarem criticar os novos donos do poder. Operações policiais para amedrontar as denominadas “elites” são deflagradas com estardalhaço, sem que se observem, em não poucos casos, as normas prescritas nos códigos de processo. Enquanto isso, a criminalidade corre solta pelas nossas cidades, eliminando os indefesos cidadãos que caem vítimas do fogo cruzado entre os meliantes e a polícia. E os corruptos de sempre, os do mensalão, os dos sanguessugas, os da patifaria do momento que é focalizada pelos noticiários mas que logo é esquecida, saem de cara lavada pregando moralidade e civismo. Cínica encenação que causa asco aos cidadãos de bem, já cansados com tanta irracionalidade e com a quebra dos valores morais.
Mas podemos mudar as coisas. O esforço da Ilustração é algo que pode ser retomado. Precisamos de coragem para isso. Gostaria de lembrar, aqui, o “Imperativo das Luzes” formulado por Immanuel Kant em 1783: “O que é a Ilustração? É a saída do homem da sua menoridade, da qual ele mesmo é responsável. (...) Sapere aude! Tem coragem para te servir do teu próprio entendimento! Essa é a divisa das Luzes!”. Com a coragem de ousarmos ver o que se passa diante de nós, poderemos, abertos ao legado da Filosofia Ocidental e da Tradição Humanística, identificarmos as soluções para superarmos o abismo de mediocridade que ameaça engolir as nossas instituições e a paz social.
Confio nas novas gerações. Sinto que elas se cansaram da desfaçatez dos políticos e dos burocratas carreiristas, e almejam uma sociedade nova. Vejo ressurgir o interesse pelo estudo da Filosofia Brasileira, após uma década de indiferença do meio acadêmico em face do conhecimento aprofundado da nossa realidade cultural. Ao longo dos anos 80 e 90 do século passado, foram sendo fechados, por pressão da Capes, os Cursos de Mestrado e Doutorado em Filosofia Brasileira, existentes no Brasil, primeiro na PUC do Rio de Janeiro e, depois, na Universidade Gama Filho e na Federal de Juiz de Fora. Isso num momento em que as exigências da Globalização estavam levando outros países a iniciarem ou a retomarem pesquisas acerca das respectivas filosofias nacionais, como aconteceu em Portugal, na Espanha, no México, no Peru, na Colômbia, etc.
Felizmente para nós, a nova geração de alunos que cursa Filosofia e Ciências Humanas, tanto na UFJF como em outras Universidades brasileiras, está dando ensejo a iniciativas em prol da pesquisa das nossas origens filosóficas e culturais. Por pressão dos meus alunos de graduação vi-me obrigado a voltar aos empoeirados livros e documentos do pensamento nacional, a fim de retomar os estudos que, com desesperança, tinha deixado para mais tarde, apenas para a minha curiosidade intelectual, ou para manter vivo o intercâmbio que continuei a fazer com Universidades e centros de pesquisa de outros países, interessados no estudo sistemático dos nossos pensadores. Para canalizar as iniciativas dos meus alunos criei, em 2003, o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da UFJF, que já deu os seus primeiros resultados na publicação regular da Revista Ibérica e que acaba de realizar o primeiro Colóquio para a comunidade acadêmica da UFJF, acerca do tema: “Filosofia, Estado Patrimonial e Imaginação Literária na América Latina”.

Dentre as iniciativas estrangeiras vigentes em prol do estudo da Filosofia Brasileira, vale a pena mencionar o Projeto Ensayo, iniciado em 1986 por José Luis Gómez Martinez, na Universidade de Georgia, nos Estados Unidos, bem como as pesquisas que, na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, desenvolve Juan Carlos Torchía Estrada, ou os estudos realizados pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em Lisboa, sob a direção de José Esteves Pereira, António Braz Teixeira, Antônio Paim e o saudoso Eduardo Soveral, que frutificaram nos Colóquios Luso-Brasileiros de Filosofia, realizados ininterruptamente, a cada dois anos, em Portugal e no Brasil (ao longo dos últimos quinze anos). Vale a pena mencionar, também, as pesquisas sobre pensamento brasileiro que Zdenek Kourim realiza, na França, sob os auspícios do Centre National de la Recherche Scientifique; os estudos sobre filosofia jurídica brasileira, efetivados na Universidade de Milão por Mário Losano e Marcela Varejão, assim como os projetos dedicados à pesquisa da Filosofia Latino-Americana, adiantados pelo Institut de Philosophie, de Paris, vinculado à Unesco. Dignos de menção são, também, os estudos das idéias políticas luso-brasileiras realizados no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de Lisboa, sob a direção de João Carlos Espada, bem como o Primeiro Congresso Luso-Galaico-Brasileiro, que será realizado pela Universidade Católica Portuguesa, na sua sede do Porto, no final de 2007, sob a coordenação de Arnaldo de Pinho.
Teimosos e destemidos pesquisadores brasileiros continuaram o trabalho esquecido pelas pós-graduações stricto sensu das Universidades, programando eventos, publicando revistas, aglutinando os remanescentes dos antigos cursos de mestrado e doutorado em Filosofia Brasileira. Os nomes de alguns desses quixotes: o recentemente falecido Miguel Reale, o maior filósofo brasileiro do século XX, à frente do Instituto Brasileiro de Filosofia; Antônio Paim, do IBF, que doou a sua biblioteca pessoal para organizar o maior acervo existente de pensamento filosófico e social brasileiro, no Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, criado por ele em Salvador, na Bahia, em 1982; Leonardo Prota, do Instituto de Humanidades, em Londrina, que realizou, ao longo dos últimos quinze anos, os famosos Encontros Nacionais de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira; Jorge Jaime, Ricardo Moderno, Aquiles Côrtes Guimarães, Francisco Martins de Souza, Anna Maria Moog e Luís Antônio Barreto, da Academia Brasileira de Filosofia, no Rio de Janeiro; José Maurício de Carvalho, da UFSJ; Tiago Adão Lara e José Carlos Rodrigues, da UFJF; Constança Marcondes César, da PUC-Campinas; Selvino Malfatti, das Faculdades Franciscanas de Santa Maria, no Rio Grande do Sul; monsenhor Urbano Zilles, da PUC de Porto Alegre, etc.
As iniciativas da nova geração em prol dos estudos da Filosofia Brasileira deram continuidade, sem dúvida nenhuma, a essa fonte de luz que não se apagou, apesar dos preconceitos neocolonialistas dos burocratas. É nessa nova geração que aposto e para quem dedico as últimas palavras da minha obra. Lembro a esses jovens as palavras do filósofo alemão: Sapere aude!

sábado, 5 de maio de 2018

MÁRIO JOSÉ DOS SANTOS (IN MEMORIAM)


Faleceu o meu amigo e colega Mário José dos Santos. Saudades do seu convívio leve e da sua companhia, sempre discreta, como Chefe de Departamento ou como simples Professor. Mário foi uma daquelas pessoas que passam pela nossa vida deixando um ambiente de paz e cordialidade. O serviço público brasileiro, na área da educação, serve para duas coisas: ensinar e pesquisar, claro está, e reunir gente interessante cuja amizade nos enriquece e vai tornando, no dia a dia, mais leve a nossa faina. Mário José inseria-se nessas duas categorias.

As suas pesquisas sobre os Pré-Socráticos, que culminaram com o livrinho de texto que leva o mesmo título, foram de grande estímulo para os meus alunos e me ajudaram a desenvolver, de forma mais pedagógica, esse tema importante na formação da Teoria do Conhecimento na Filosofia Grega.

Mário chegou a cursar os créditos para o Curso de Doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro da Universidade Gama Filho, junto com outros colegas da UFJF, lá pelos anos 90 do século passado. Participaram desse grupo, também, Luciano Caldas Camerino, Mário Sérgio Ribeiro e Pedro Paulo de Araújo Ferreira. Essa foi a segunda geração dos docentes da UFJF que fizeram a pós em Pensamento Luso-Brasileiro na Gama Filho. Da geração anterior tinham participado José Carlos Rodrigues, Aristóteles Ladeira Rocha e Joel Neves. Outros professores provenientes de instituições de renome (como a antiga Funrei, hoje Universidade Federal de São João del Rei) fizeram o doutoramento na mesma área, na Universidade Gama Filho: José Maurício de Carvalho, o padre Fábio Rômulo Reis, Thiago Adão Lara, Adelmo José da Silva, João Bosco Batista, Marilúze  Ferreira de Andrada e Silva e o padre Sílvio Firmo do Nascimento.

Nos anos 80, Mário José tinha participado do grupo que organizou, na UFJF, sob a direção de José Carlos Rodrigues e Aristóteles Ladeira Rocha, o primeiro curso de pós-graduação lato sensu em Filosofia (área de Pensamento Brasileiro), que depois se converteu, com o apoio de Antônio Paim e com a minha colaboração, em meados dos anos 80, no Curso de Mestrado em Pensamento Brasileiro (que funcionou até o final da década de 90).

O Curso terminou sendo fechado por pressões dos discípulos do padre Lima Vaz, encarrapitados, desde o ciclo militar, em posições de comando na Capes. Lima Vaz não queria que se estudasse o pensamento brasileiro, na forma em que Antônio Paim orientava as suas pesquisas. Ou seja, desvendando a índole problemática da meditação filosófica dos autores. Isso por um motivo simples: o padre jesuíta tinha sido o animador dos grupos de jovens católicos (vinculados à Ação Popular Marxista-Leninista) que se vincularam à luta armada nos anos 60, inspirados no hegelianismo de esquerda do Padre Vaz. A melhor forma de tolher essa pesquisa era o padre Vaz utilizar o seu poder de coordenador do comitê de avaliação da Capes na área da Filosofia. Desde o início, o Mestrado em Filosofia da UFJF esteve fadado a ser fechado, como deixou claro um dos avaliadores enviados intempestivamente pelo padre Vaz, Guido Antônio de Almeida, na visita-surpresa que fez ao Curso em 1986, um ano apenas depois de ter sido iniciado. "Este curso não será aprovado pela Capes", sentenciou, então, Guido. E assim foi: o Curso, embora aprovado no começo, foi descredenciado e clausurado no decorrer da década dos noventa por pressão dos próprios avaliadores da Capes.

Mário José dos Santos, assim como José Carlos Rodrigues, era um jovem sacerdote que decidiu deixar a batina para se dedicar plenamente ao exercício da docência superior. Foi acolhido, bem como José Carlos, de forma paternal, por Monsenhor Luiz de Freitas, um emérito pastor que estava à frente da tradicional Igreja de São Mateus. Monsenhor Luiz amparava os seus ex-alunos de Seminário e tinha destinado para eles um aparamentosinho no interior da Casa Paroquial. Quem sabe se não voltariam ao Clero! Mas, se não voltassem, lá, sob o amparo de Monsenhor Luiz, os jovens ex-padres teriam um lugar de acolhimento e de reflexão. Monsenhor Luiz de Freitas era um pastor de tempo integral, como aqueles padres liberais que Alexandre Herculano descreve no seu belo romance "O Pároco da Aldeia". Um belo exemplo de pastor de almas. O Mestre Antônio Paim tinha pelo saudoso Pastor um carinho todo especial, sempre fazendo questão de visitá-lo na Casa Paroquial quando das suas idas a Juiz de Fora. Eu também me tornei amigo de Monsenhor Luiz, nos últimos anos de sua vida.

Mário José era um intelectual preocupado com a questão social. Aproximou-se do PT, sem chegar à militância, mas era admirador das políticas sociais do Partido, ao longo dos governos petistas. Divergi sempre dos seus pontos de vista, pois achava Lula um enganador. Mas sempre tivemos uma relação de respeito nas nossas opções ideológicas e político-partidárias. O compromisso social do meu amigo Mário canalizou-se também nas suas relações com os alunos, aos quais sempre dava um tratamento cheio de dedicação e amizade. 

Saudades do amigo que partiu e que nos deixou tristes na comunidade acadêmica da UFJF. Para os seus familiares, os meus sentimentos.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA VIANNA (1883-1951) - O HOMEM E A OBRA

Francisco José de Oliveira Vianna (1883-1951)

O pensamento sociológico de Oliveira Vianna constituiu, junto com as propostas estratégicas de Lindolfo Boeckel Collor (1890-1942), o referencial teórico que serviu a Getúlio Vargas para elaborar a sua proposta modernizadora do Estado e da sociedade brasileira, ao longo da década de 30 do século XX. A sociologia de O. Vianna constituiu o marco conceitual que abriu as perspectivas ao jovem deputado Getúlio Vargas, para compreender o alcance nacional da problemática social, superando o vezo provinciano que o jovem castilhista tinha herdado da sua formação no Rio Grande do Sul. Lindolfo Boeckel Collor e Oliveira Vianna representaram, também, o aspecto liberalizante das reformas de Vargas, que encontraram, de outro lado,  elementos definidamente autoritários que influíram de forma marcante nos rumos absolutistas do Estado Novo, proclamado em 1937. Dois desses inspiradores autoritários foram, sem dúvida, Francisco Campos e o general Góes Monteiro, o primeiro admirador do corporativismo de Mussolini e o segundo um castilhista linha dura, que pretendia ver implantada no Brasil, indefinidamente, a ditadura científica comteana.

Oliveira Vianna não foi um observador abstrato da sociedade em que vivia. Participou, como acaba de ser mencionado, do amplo esforço modernizador e centralizador empreendido pelo Estado getuliano. Mas seria injusto reduzir a obra do pensador fluminense a um simples comentário tecido ao redor do élan autoritário da década de trinta. Oliveira Vianna pensou de maneira criativa o autoritarismo e a modernidade do Brasil e fez uma crítica sistemática aos extremos liberal-oitocentista e patriarcal-clânico em que naufragaram as nossas reformas desde o Império. Não se pode captar, de forma adequada, o alcance dos conceitos do sociólogo fluminense, sem atender para a sua metodologia de trabalho e para a sua idéia de cultura. Por isso, deter-me-ei nesses aspectos da sua magna obra, após ter feito a exposição dos principais traços biobibliográficos.

I - ASPECTOS BIO-BIBLIOGRÁFICOS DE OLIVEIRA VIANNA

Francisco José de Oliveira Vianna nasceu em Saquarema, na antiga Província Fluminense, em 20 de julho de 1883, na Fazenda do Rio Seco, e faleceu em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, em 27 de março de 1951. O seu pai, fazendeiro, era a encarnação do paterfamílias. A propósito, frisa o biógrafo de Oliveira Vianna, Vasconcellos Torres: "A incontrastável autoridade do paterfamílias dava tons sublimes ao patriarcado. O núcleo larário tinha muito de templo. Um ambiente doméstico para melhor sobressair a solidariedade. a sociedade era a fazenda, a família e os agregados, cujos interesses fora do círculo parental eram ardorosa e fraternalmente defendidos pelo patrão" [Torres, 1956: 19]. Em que pese a sua natural inclinação pelo estudo da matemática, o jovem Oliveira Vianna viu frustrados os seus planos de ingressar na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Cursou, então, a Faculdade de Direito, tendo-se bacharelado em 1905.  Integrou, a seguir, o corpo docente do Colégio Abílio, de Niterói, como professor de matemática. Já desde os últimos anos de estudos universitários colaborou ativamente no jornalismo: escrevia no Diário Fluminense, no jornal A Capital, e logo em outros como A Imprensa, O Paiz e a Revista do Brasil, de São Paulo. Praticamente não exerceu a profissão de advogado, tendo preferido se dedicar ao estudo dos problemas nacionais.

Através da atividade jornalística entrou em contato com Alberto Torres (1865-1917), de cuja amizade receberá forte impulso e influência intelectual para escrever o seu primeiro livro, Populações meridionais do Brasil - volume I: Populações do Centro-Sul, que terminou em 1918 e publicou em 1920. Em 1916 iniciou o seu trabalho como professor de Teoria e prática do Processo penal, na Faculdade de Direito do Estado do Rio de Janeiro (depois denominada de Faculdade de Direito de Niterói). Por esse tempo, era forte a influência de Ferri, cuja obra admirava o jovem professor, mais do ponto de vista sociológico do que puramente criminalístico. A partir da publicação do seu primeiro livro em São Paulo, sob os auspícios de Monteiro Lobato (com quem o nosso autor teve grande amizade), tornou-se conhecido a nível nacional e internacional. Sobre o primeiro volume de Populações meridionais do Brasil escreveu o argentino José Ingenieros: "Pelo seu método, pelas suas idéias, pela sua erudição, tem-me parecido uma das obras mais notáveis no gênero que até agora foi escrita na América do Sul".

A intuição em que se baseia Populações meridionais consiste em identificar no latifúndio vicentista as remotas origens patriarcais da organização social brasileira. Esta evoluiria, consoante o nosso autor, no decorrer dos séculos XVIII e XIX, até a consolidação do Estado Nacional no Império e o fortalecimento político das oligarquias regionais na República Velha. Oliveira Vianna dedicou as suas obras sociológicas ao estudo monográfico de aspectos essenciais dessa complexa realidade, nos seguintes livros: O idealismo da Constituição (1920), Pequenos estudos de psicologia social (1921), Evolução do povo brasileiro (1923), O ocaso do Império (1925), Problemas de política objetiva (1930), Formation ethnique du Brésil colonial (1932), Raça e assimilação (1932). Depois da Revolução de 1930 que levou Getúlio Vargas ao poder, Oliveira Vianna tornou-se consultor da Justiça do Trabalho. Graças a essa posição, o nosso autor influiu decisivamente na elaboração da nova legislação sindical e trabalhista. Assinale-se desde logo que a sua influência não foi apenas técnico-jurídica, abrangendo também o campo dos princípios. Como terei oportunidade de destacar mais adiante, Oliveira Vianna considerava o insolidarismo como o traço mais caraterístico dos indivíduos e dos grupos na sociedade brasileira, razão pela qual defendia o papel coactivo e educador do Estado, na formação do que ele chamava de um comportamento culturológico, capaz de se sobrepor ao espírito insolidarista.

Desfrutando de uma situação em que poderia atuar nessa direção, não deixou de faze-lo, como se vê da parcela subsequente da sua obra integrada pelos seguintes livros, que materializam o seu pensamento acerca desse segmento da atuação culturológica: Problemas de direito corporativo (1938), Problemas de direito sindical (1943) e a coletânea de ensaios intitulada Direito do trabalho e democracia social (publicada em 1951). Teve a formação católica de Oliveira Vianna algum peso na elaboração da sua obra no campo do direito do trabalho, como sugere Vasconcellos Torres?  Provavelmente sim, embora de forma mitigada. Amigo de Getúlio Vargas, recebeu dela a indicação para ser ministro do Supremo Tribunal Federal; mas declinou o oferecimento. Alegara razões de idade para se dedicar ao estudo do direito civil e, além disso, manifestara a vontade de voltar aos seus estudos sociológicos. Foi-lhe oferecido então outro importante cargo, o de ministro do Tribunal de Contas da União, em 1940, que o nosso autor aceitou, movido em parte pelo fato de o novo cargo não lhe impedir a dedicação às suas pesquisas sociológicas. De fato, a circunstância permitiu-lhe dar forma acabada à sua meditação, notadamente mediante a complementação de Populações meridionais do Brasil, com a publicação do segundo volume, dedicado ao estudo do campeador rio-grandense. Esta obra foi publicada postumamente em 1952.  Outros escritos do período foram Instituições políticas brasileiras (1949), Problemas de organização e problemas de direção (1952), Introdução à história social da economia pre-capitalista no Brasil (livro publicado postumamente em 1958), História social da economia capitalista no Brasil, História da formação racial do Brasil e Ensaios (reunião de trabalhos esparsos do autor, como opúsculos e publicações em revistas especializadas). As últimas três obras ainda não foram publicadas.

De índole pessoal tímida e pouco inclinada às manifestações públicas, o nosso autor praticamente não saiu da sua terra natal. Além de curtas viagens a São Paulo, a São José dos Campos e às Estâncias hidrominerais de Minas Gerais para tratamento de saúde, não se afastou do Rio e do cenário fluminense. Declinou atenciosamente os convites que lhe foram feitos em várias ocasiões; por Getúlio Vargas em 1928 para pronunciar uma conferência em Porto Alegre; pelo governador gaúcho Flores da Cunha, alguns anos mais tarde; pelo amigo Afranio Peixoto, radicado em São Paulo. Igualmente, recusou o convite que lhe fez o chanceler Oswaldo Aranha, em 1944, para chefiar uma missão de estudos do Itamaraty ao Paraguai.  Oliveira Vianna integrou a Academia Brasileira de Letras. Pertenceu também, como membro correspondente, às seguintes entidades culturais: Instituto Internacional de Antropologia, Sociedade dos Americanistas de Paris, Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Academia Portuguesa de História, União Cultural Universal de Sevilha, Academia de Ciências sociais de Havana, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, etc.

II - BASES GNOSEOLÓGICAS PARA O ESTUDO DA REALIDADE BRASILEIRA

Embora sempre tivesse observado rigorosa fidelidade em face dos conceitos relacionados ao papel e abrangência da sociologia e do direito, muito tardiamente, porém, o ensaista fluminense preocupou-se com uma explicitação sistemática dos mesmos. Apenas em 1949, com a primeira edição de Instituições políticas brasileiras, Oliveira Vianna expôs sistematicamente as que podemos considerar como suas bases gnoseológicas para o estudo da realidade brasileira. Para que o leitor possa apreender de modo pleno esse aspecto de sua meditação, cumpre desdobrá-lo deste modo: 1) o primado da objetividade científica na obra de Oliveira Vianna; 2)  a presença dessa objetividade na própria atividade intelectual do escritor; 3) a perspectiva gnoseológica de Oliveira Vianna: a culturologia do Estado num contexto pluridimensional; 4)  os complexos culturais e a morfologia do Estado, segundo o ensaista fluminense.

1) A questão da objetividade científica. - No prefácio à quarta edição da obra Evolução do povo brasileiro, (cuja primeira edição foi de 1937), Oliveira Vianna reage contra a forma unilinear de entender a evolução das sociedades, como se houvesse leis gerais que a comandassem. Acolhendo os conceitos de Gabriel Tarde, o nosso autor considera que existem múltiplas tendências na evolução das sociedades, e que é impossível reduzi-las a um único esquema. Existe, hoje, à luz das ciências sociais, o heterogêneo social de que fala Gabriel Tarde, contraposto ao homogêneo social de Spencer [cf. Vianna, 1956: 26-27].

No estudo das sociedades podemos encontrar, segundo Oliveira Vianna, multiplicidade de linhas de evolução e de fatores que intervêm nessas linhas. Para essa multiplicidade de tipos - frisa o nosso autor -, para essa variedade de linhas de evolução, para este heterogenismo inicial contribui um formidável complexo de fatores de toda ordem, vindos da Terra, vindos do Homem, vindos da Sociedade, vindos da História: fatores étnicos, fatores econômicos, fatores geográficos, fatores históricos fatores climáticos, que a ciência cada vez mais apura e discrimina, isola e classifica. Estes predominam mais na evolução de tal agregado; aqueles, mais na evolução de outro, mas, qualquer grupo humano é sempre conseqüência da colaboração de todos eles; nenhum há que não seja a resultante da ação de infinitos fatores, vindos, a um tempo, da Terra, do Homem, da sociedade e da História. Todas as teorias, que faziam depender a evolução das sociedades da ação de uma causa única, são hoje teorias abandonadas e peremptas: não há atualmente monocausalismos em ciências sociais".

Entre todos esses fatores e sem pretender ensejar uma explicação monocausalista, Oliveira Vianna considera de alta importância o elemento por ele chamado de ambiente cósmico, ligado basicamente às condições do solo. Acha que em seu tempo prevaleciam em ciências sociais os trabalhos monográficos, que tentam identificar os elementos específicos que intervêm em determinado meio cósmico. Esses trabalhos devem ter como ponto de partida uma única preocupação: conhecermo-nos a nós mesmos, deixando de lado as tentativas de acomodar a nossa realidade a modelos preexistentes.  A respeito, Oliveira Vianna é taxativo em  Evolução do povo brasileiro:  "Desde o momento em que a ciência confessava a sua ilusão e reconhecia que as leis gerais, a que havia chegado, não correspondiam à realidade das formas infinitas da vida, compreendi que a melhor coisa a fazer não era insistir por encerrar a nossa evolução nacional dentro dessas fórmulas vãs ou querer subordinar nosso ritmo evolutivo a um suposto ritmo geral da evolução humana - ao evolucionismo spenceriano, como fez Sílvio Romero, à teoria filogenética de Haeckel como fez Fausto Cardoso, ou à lei dos três estados de Comte, como têm feito os positivistas sistemáticos. Pareceu-me trabalho inútil esforçar-me por descobrir nos acontecimentos da nossa história a revelação dessas leis gerais, de que a própria ciência acabava de instaurar o processo de falência. O mais sábio caminho seria tomar para ponto de partida o nosso povo e estudar-lhe a gênese e as leis da própria evolução. Se estas coincidissem com as supostas leis gerais, tanto melhor para a ciência e para nós; se não, ficaríamos, pelo menos, conhecendo-nos a nós mesmos -  o que já seria alguma coisa, porque valeria o consolo de estarmos com a sabedoria dos antigos" [Vianna,  1956: 37].

Só assim, renunciando de início a qualquer esquematismo preestabelecido, é possível contribuir para a ciência social e para a materialização de uma política orgânica. Unicamente a história (e Oliveira Vianna segue aqui o pensamento de Ranke e de Mommsen) é capaz de nos ajudar a reconstruir as diversas fases evolutivas de um povo determinado, chegando assim a desvendar o seu modo de ser próprio. A preservação dos valores da Civilização do Ocidente no nosso meio dependeria desse trabalho de pesquisa histórica. Referindo-se aos nossos velhos historiadores, Oliveira Vianna salienta que lhes faltam dois elementos essenciais: o povo, que ele chama de massa humana e o meio cósmico. Eis as suas palavras a respeito: "Duas coisas, realmente, não aparecem nas obras dos nossos velhos historiadores senão furtivamente e a medo, duas coisas sem as quais a história se torna defectiva e parcial. A primeira é o povo, a massa humana sobre que atuam os criadores aparentes da história: vice-reis, governadores gerais, tenentes-generais, funcionários de graduação, diretamente despachados da metrópole. A segunda é o meio cósmico, o ambiente físico em que todos se movem, o povo e os seus dirigentes, e onde um e outros haurem o ar que respiram e o alento que lhes nutre as células, e que age como o seu relevo, a sua estrutura, o seu subsolo, a sua hidrografia, a sua flora, a sua fauna, o seu clima, as suas correntes atmosféricas e as suas intempéries. Tudo isto influi, tudo isto atua, tudo isto determina as ações dos homens na vida cotidiana - e, entretanto, nada disto parece se refletir na explicação da nossa gente" [Vianna, 1956: 48].

Oliveira Vianna afirma que nesse trabalho de pesquisa sobre a nossa gente, inspira-se no mesmo espírito de objetividade e imparcialidade com que os técnicos agrícolas estudam, por exemplo, os problemas do café. A respeito, escreve: "Estudando as nossas realidades históricas e sociais, o nosso povo, a sua estrutura, a sua psicologia, e a vida, a estrutura e a psicologia dos grupos regionais, que o compõem, faço-o com o mesmo espírito de objetividade e a mesma imparcialidade com que os técnicos do Serviço de Defesa Agrícola estão agora estudando a praga vermelha dos cafezais da Paraíba ou os sábios de Manguinhos estudaram, entre as populações do planalto e da costa, a função patogênica do necator americanus (...). O meu grande, o meu principal empenho é surpreender o Homem, criador da história, no seu meio social e no seu meio físico, movendo-se e vivendo neles, como o peixe no seu meio líquido" [Vianna, 1956: 50].

Essa preocupação com a objetividade científica, comprometida com a observação paciente de todos os detalhes do fenômeno social, tentando chegar a categorias que expressem aquela realidade, faz-se presente em todas as obras de Oliveira Vianna. Mesmo em pontos altamente discutidos e discutíveis - como na questão da superioridade organizacional da raça ariana -  não podemos deixar de reconhecer um grande esforço de observação da realidade social. Ao expor, por exemplo, a progressiva arianização da população brasileira, o autor procura alicerçar todas as suas afirmações em dados estatísticos, hauridos dos recenseamentos oficiais [cf. Vianna, 1938: 127-165; 1956: 186-191]. E não deixa de reconhecer, com inegável sensibilidade de cientista, o caráter hipotético das suas afirmações, abertas sempre à discussão pela comunidade científica e ao confronto com a realidade [Cf. Vianna, 1956: 5-6].

2) Testemunhos biográficos. - Essa preocupação pela objetividade condicionou, aliás, a metodologia de trabalho do nosso autor. Segundo testemunho de seu biógrafo, Vasconcellos Torres, o sociólogo fluminense tinha uma definida disciplina intelectual: "Quem visse as pequeninas folhas de seu fichário, fichário no sentido de coleção porque as suas notas eram apenas amarradas num barbante e separadas por assunto, não suspeitaria que, na aparente desorganização com que se apresentava, possuíam extraordinária unidade. Ele sabia encontrá-las no instante preciso. De ver o carinho que nutria por esses papagaios, como os denominava. Quando começava a escrever o livro, a atividade era febricitante e ininterrupta. Na segunda leitura dos originais incluía ou retirava trechos e, digno de referência, era a papelada, um pedaço menos para outro duas vezes maior que uma folha de almaço, colada e com tiras laterais que mais pareciam serpentinas. A datilografia não representava o fim. O processo continuava. (...). De quando em quando examinava recortes de jornais que lhe interessavam, beneditinamente conservados numa pasta" [Torres, 1956: 79-80].

O autor de Populações meridionais não escrevia por escrever. Amadurecia pausadamente uma idéia, até que a encontrava suficientemente clara para divulgá-la. A carta que endereçou ao chanceler Oswaldo Aranha em 1944, recusando o convite que lhe formulara para chefiar uma missão do Itamaraty no Paraguai é bem significativa, porque revela, numa confissão autobiográfica, a medida do seu compromisso como intelectual: "O apelo de V. Exa. me encontra no momento justo, exato de um verdadeiro demarage literário: o do recomeço da elaboração de uma obra, cuja conclusão há pouco mais de dez anos fui forçado a interromper e que por sua vez representa o labor de vinte anos de intensas leituras e penosas pesquisas arquivais sobre o Brasil. São nada menos que quatro volumes, já compostos, embora em escorço grosseiro e despolido (...). Estes quatro volumes eu os havia composto no período que vai de 1924 a 1932, depois de ter concluído o primeiro das Populações meridionais e a Evolução do povo brasileiro (...). Não se admire, meu caro chanceler de ter eu tantos livros no estaleiro, elaborados, mas inéditos. É isto conseqüência do meu método um tanto extravagante de trabalho: planejando o livro, escrevo-o logo (...), sem lavor literário (...); feito isto guardo-o; e só depois de vários anos é que o retomo para os trabalhos definitivos de refusão, atualização e polimento" [apud Torres, 1956: 80].

Hélio Palmier, o último secretário particular de Oliveira Vianna, deu o seguinte testemunho acerca da rigorosa disciplina científica do mestre: "Seu método de trabalho era uma prova da sua probidade intelectual. Confessou-me, certa vez, jamais ter idéia preconcebida de escrever um livro. Anotava fatos ou observações em pequenos pedaços de papel - papagaios chamava-os -  reunia-os, depois de certo tempo, e, verificando a interrelação dos fenômenos observados, deduzia fatos, estabelecia leis, e só então ia  procurar os livros dos estudiosos  -  dos sabidos, como dizia. Ditava-me, então, os originais. Recebendo-os de volta, datilografados, na ânsia da perfeição recortava-os, emendava-os ou inutilizava-os, mandando-me fazê-los de novo; e repetia essa operação várias vezes. Elaborado o livro guardava-o, para, mais tarde, anos depois verificar se os fatos estavam a confirmar as suas teses. Caso contrário, eliminava, sumariamente, os pontos falhos. Na revisão das provas tipográficas, ainda não satisfeito, fazia alterações, acrescentava frases, suprimia parágrafos" [apud Torres, 1956: 80].

3) Perspectiva gnoseológica de Oliveira Vianna: a culturologia do Estado num contexto poliédrico ou pluridimensional. - Em Instituições políticas brasileiras Oliveira Vianna firma o que pode ser chamado de bases gnoseológicas para o estudo da sociedade brasileira. O autor salienta, em primeiro lugar, a presença do direito costumeiro do povo-massa. direito que é geralmente desconhecido pelos legisladores. A respeito, frisa: "Há, por exemplo, um largo setor do nosso direito privado que é inteiramente costumeiro, de pura criação popular, mas que é obedecido como se fosse um direito codificado e sancionado pelo Estado. Quero me referir ao direito que chamo esportivo e que só agora começa a ser anexado pelo Estado e reconhecido por lei. Este direito (...) organizou instituições suas, peculiares, que velam pela regularidade e exação dos seus preceitos. Tem uma organização também própria de Clubes, Sindicatos, Federações, Confederações, cada qual com administração regular (...) e um Código Penal seu (...). Direito vivo, pois. Dominados pela preocupação do direito escrito e não vendo nada mais além da lei, os nossos juristas esquecem este vasto submundo do direito costumeiro do nosso povo (...)" [Vianna, 1974: I, 22-23]. Logo a seguir, na mesma obra, o nosso autor aponta uma outra manifestação desse direito costumeiro. Trata-se do que ele chama de direito social operário, que é caracterizado nos seguintes termos: "Todo um complexo de normas e regras (...), objetivado em usos, tradições, praxes, costumes, mesmo instituições administrativas oficiosas. Era todo um vasto sistema, que regulava as atividades (...), a vida produtiva de milhões de brasileiros, mas cuja existência os nossos legisladores não haviam sequer pressuposto. Sistema orgânico de normas fluidas, ainda não cristalizadas ou ossificadas em códigos; mas, todas provindas da capacidade criadora e da espontaneidade organizadora do nosso próprio povo-massa, na sua mais autêntica expressão" [Vianna, 1974: I, 27].

Exemplo desse direito social operário costumeiro seria o conjunto de normas práticas que nortearam, ao longo de quatro séculos, o trabalho marítimo e da estiva. Indica que os técnicos do Ministério do Trabalho, respeitando as tendências do povo massa, com muito bom senso simplesmente incorporaram esse direito ao texto legal. Acha ainda que preocupação idêntica orientou os técnicos do Ministério na elaboração da legislação sindical, embora não pretenda negar a inspiração forânea.  Tema predileto do pensador fluminense seria justamente a afirmativa de que direito semelhante do nosso povo-massa vingou no terreno constitucional. Ignorando que o nosso povo sempre teve o seu direito público próprio, costumeiro, a elite intelectual elaborou outro direito, teórico, que sempre entrou em atrito com o primeiro. Oliveira Vianna sintetiza assim os traços fundamentais desse direito público do povo-massa: "1) Na vida política do nosso povo, há um direito público elaborado pelas elites e que se acha concretizado na Constituição. 2)  Este direito público elaborado pelas elites, está em divergência com o direito público elaborado pelo povo-massa e, no conflito aberto por esta divergência, é o direito do povo-massa que tem prevalecido praticamente. 3) Toda a dramaticidade da nossa história política está no esforço improfícuo das elites para obrigar o povo-massa a praticar este direito por elas elaborado, mas que o povo-massa desconhece e que se recusa a obedecer" [Vianna, 1974: I, 27].
E conclui assim, ligando a problemática política à mais ampla problemática do comportamento humano e da cultura, e assinalando o papel que corresponde a ele, como cientista social, nesse contexto: "O meu objetivo será, pois, (...) estudar o nosso direito público e constitucional exclusivamente à luz dos modernos critérios da ciência jurídica e da ciência política: isto é, como um fato de comportamento humano. Dentro desse critério, os problemas de reformas de regime, convertem-se em problemas de mudança de comportamento coletivo, imposto ao povo-massa; portanto em problemas de cultura e de culturologia aplicada".

Na linha de Ralph Linton, Donald Pierson, Baldus e Willems, Oliveira Vianna entende o termo cultura no sentido originário da palavra alemã Kultur, que os ingleses traduziram como culture e que a escola sociológica francesa entendeu como ethnographie. Esse termo refere-se ao meio social ou à formação social. O ensaista fluminense esclarece que só passou a utilizar esse termo na última parte da sua obra (a partir de Instituições políticas brasileiras, que data de 1949) e explica assim a razão desse atraso: "É que, dominado, literariamente, pela preocupação do lucidus ordo cartesiano, sempre fugi, por sistema, nos meus escritos, às expressões demasiadamente técnicas, só acessíveis a mestres, a profissionais ou a iniciados, ou ainda não incorporadas àquela língua franca da ciência, de que nos fala Linton". Mas esclarece que passa a usar o termo cultura na acepção acima indicada, levando em consideração que em língua portuguesa já se encontra uma bibliografia suficiente para a correta interpretação sociológica do mesmo. Oliveira Vianna menciona a obra: Introdução à antropologia social de Ralph Linton, bem como o Dicionário de etnologia e sociologia de Baldus e Willems, a revista paulista Sociologia e a obra Teoria e pesquisa em sociologia de Donald Pierson. (Convém esclarecer que o livro de Ralph Linton foi traduzido por Lavínia Vilela em São Paulo, em 1934, ao passo que a obra de Baldus e Willems foi publicado na mesma cidade em 1939, ano em que apareceu também em São Paulo a obra de Pierson). O sociólogo fluminense alerta, contudo, para o perigo de utilizar o termo cultura fora do sentido sociológico, como cultura intelectual, salientando que essa foi a dificuldade enfrentada por Fernando de Azevedo na sua obra intitulada A cultura brasileira.

Quanto à culturologia do Estado, especificamente, Oliveira Vianna frisa que esse é o aspecto que mais lhe interessa e que pretende ter desenvolvido na maior parte das suas obras, desde Populações meridionais do Brasil (1920) até Instituições políticas brasileiras (1949); trata-se, portanto, do que poderiamos chamar de objeto formal da sua sociologia, o aspecto específico sob o qual o pesquisador fluminense estuda a realidade brasileira.  A culturologia do Estado, salienta Oliveira Vianna, é especialidade assaz descuidada por parte dos etnólogos. Confessa ter encontrado alguma coisa sobre esse tema na Social anthropology de Radin, nos Principles of Anthropology de Carleton Coon e Chapple e na obra clássica de Goldenweiser. Contudo, frisa o nosso autor, "foram os franceses e não os americanos que me deram as melhores sugestões sobre este ponto, e o livro de Moret e Davy, Des clans aux empires (Paris, 1932) é o mais sugestivo trabalho que conheço sobre a genética do Estado". Em que pese o fato de Oliveira Vianna ter lido a obra de Max Weber [cf. Vianna, 1974: I, 93, 95, 114-115, 123-124, 291], não chega a se interessar, contudo, pelo estudo que o sociólogo alemão faz do Patrimonialismo, (tipologia que teria, aliás, encaixado perfeitamente nas categorias telúricas do nosso autor). Weber interessa a Oliveira Vianna sob dois aspectos especificamente: no estudo das comunidades de aldeia na Europa feudal, e na análise do oikós do faraó, que o ensaista fluminense achava muito semelhante à autarquia econômica materializada no engenho real descrito por Antonil. Talvez o nosso autor achasse a categoria do Patrimonialismo weberiano alheia ao contexto americano, levando em consideração o fato de o sociólogo alemão ilustrar esse tipo ideal a partir das sociedades antigas, como a chinesa ou a egípcia. A aplicação mais larga do conceito de Patrimonialismo, de modo a situar nele o absolutismo ibérico pós-feudal seria feita muito posteriormente na análise de Wittfogel (Oriental despotism, Yale University Press, 1957).

Analisando as relações entre direito, cultura e comportamento social, Oliveira Vianna lembra que dos métodos enumerados por Jacobsen como utilizáveis no estudo da ciência política, do direito público e das instituições do Estado (histórico, comparativo, filosófico, experimental, biológico, psicológico e legístico), só apenas um tem sido aplicado no Brasil: o legístico, que "vê a sociedade política apenas como uma coleção de direitos e obrigações expressos em lei e tende a não levar em conta as forças sociais e extralegais, sem as quais, entretanto, não seria possível nenhuma explicação que corresponda aos fatos da vida do Estado" [Vianna, 1974: I, 33-34]. Quanto ao moderno método científico ou sociológico, que se caracteriza pela objetividade dos seus critérios, Oliveira Vianna supõe que em geral os nossos juristas o consideraram sempre como uma impertinência, continuando fiéis à metodologia de Rui Barbosa. O pioneirismo nesse campo é representado por Alberto Torres, Sílvio Romero, Euclides da Cunha e por ele mesmo. A respeito, o nosso autor escreve: "O segundo tipo de estudos - do direito como costume ou cultura -  tem o seu primeiro padrão nos ensaios de Torres, começando com a pioneiragem de Sílvio e Euclides. Depois, no estudo sistemático e rigorosamente científico que, nos meus livros, venho fazendo da história e da sociologia das nossas instituições políticas e partidárias".  Informa ter sido Sílvio Romero quem primeiro o influenciou desde 1900, quando ainda era estudante. O elemento mais importante dessa influência foi a revelação da escola lepleyana, cujo critério monográfico Oliveira Vianna achou então o mais apropriado para o estudo do povo brasileiro. O ulterior encontro com Alberto Torres (em 1914), quando o nosso autor já era bacharel em Direito, bem como o estudo dos sociólogos americanos e franceses, vieram aprofundar a herança recebida de Sílvio Romero e Euclides da Cunha.

Para Oliveira Vianna é um fato que o método sociológico se aplica, cada vez com maior intensidade, ao campo do direito. A grande preocupação é com a objetividade, que ele entende assim: "Objetividade - eis o caráter que distingue esta fase moderna da ciência do direito, esta nova metodologia, esta nova atitude dos espíritos em face do fenômeno jurídico. Estudar a vida do direito criminal, do direito internacional com a mesma objetividade com que Lévy-Bruhl estudou as funções mentais nas sociedades primitivas, ou Radcliffe-Brown os ritos mágicos dos indígenas das Ilhas Adaman, ou Malinowski a vida dos insulares da Melanésia - eis o ideal do moderno estudo do direito como ciência social, seja o Direito Privado, seja o Direito Público" [Vianna, 1974: I, 35]. A seu ver, nesse esforço de aplicação do método sociológico ao direito, têm sido de grande valor os trabalhos da Escola de Direito Comparado de Lyon sob a direção de Eduardo Lambert, bem como a contribuição da Nova Escola Americana de Jurisprudência (Holmes, Roscoe Pound, Benjamin Nathan Cardozo, Brandeis, Karl Llewellyn, Felix Frankfurter, Huntington Cairns, Max Radin, Jerôme Frank, etc.). Considera que a influência das ciências sociais (principalmente da psicologia social, da etnografia, da economia política, da antropogeografia, da culturologia) sobre o direito, tem contribuído para que esta disciplina se liberte progressivamente dos seus elementos apriorísticos e se torne uma autêntica ciência social, cada vez mais objetiva.

Como fazer - pergunta o nosso autor -   um estudo do direito que possa ter peso científico? A resposta é simples: referindo-o aos comportamentos sociais. Isso porque (e aqui Oliveira Vianna segue o pensamento de Huntington Cairns na obra The Theory of legal science, publicada em 1941), as ciências sociais podem ser definidas como um tipo de conhecimento que tem como objetivo "o estudo do comportamento humano, tal como se manifesta em ações na sociedade". Se a base da cientificidade do direito é o comportamento social, conclui que ela será constituída não pelo direito escrito - como se considerou no Brasil -  mas pelo direito costumeiro. A conseqüência que Oliveira Vianna tira dessa premissa é clara: no povo-massa reside a base objetiva da cientificidade do direito, por ser ele a fonte do direito público costumeiro. E conclui: "Em vez de um problema de hermenêutica constitucional, torna-se, assim, o estudo do nosso direito público e constitucional um problema de culturologia aplicada". Esta conclusão implica na realização de um aprofundamento no sentido da cultura e da sua influência como força determinante dos comportamentos individuais. A respeito deste ponto, o nosso autor critica, em primeiro lugar, o panculturalismo de Spengler, Schmidt e Frobenius, por se tratar de uma reação extremada contra o biologismo unilateralista, que reduzia a sociedade a um agregado de indivíduos. Oliveira Vianna critica a concepção panculturalista, em decorrência da concepção determinística do homem que a empolga. A respeito, frisa:  "Para os culturalistas há então, na Cultura, uma virtualidade própria - mística ou mágica, como quer que seja - que anula qualquer ação em contrário do Homem, reduzido assim à condição de homúnculo ou menos do que isto. Mesmo que este homem seja um grande homem” [Vianna, 1974: I, 44].

Esse vício determinístico do panculturalismo provém do fato de considerar a cultura como exterior ao homem. Esse extremo corresponde, no entanto, a uma primeira fase da teoria culturalista. Entende que essa concepção, fundada na suposição de que a cultura transcende ao homem, teria sido substituída por uma visão que o nosso autor chama de imanência da cultura. Em relação a este ponto escreve: "É que (as ciências sociais) acabaram encontrando a cultura dentro do próprio homem e, portanto, imanente ao homem". Oliveira Vianna cita a este respeito um texto de A. Kardiner, que exprime claramente a idéia de imanência: "Temos que reconhecer, porém, que o indivíduo é o portador das instituições e o meio através do qual elas se perpetuam. A cultura, que não é mais do que uma abstração do observador, existe unicamente nas psiques dos indivíduos que compõem a sociedade. As características do homem, que tornam possível a cultura, constituem os objetos supremos do estudo". Assim, as ciências têm mostrado que toda cultura se dá num contexto de reflexos condicionados por vários fatores, de forma tal que ela também está dentro de nós. A conclusão seria que a cultura, entendida desta forma ampliada, reconhecendo a existência independente da psique e da estrutura física dos indivíduos, não os aniquila, mas preserva, pelo contrário, a sua criatividade.  As modernas pesquisas de cientistas como Malinowski, Mac Iver e outros, teriam demonstrado claramente as falhas do panculturalismo: estudando sociedades primitivas, tais pesquisas chegaram à conclusão de que as normas culturais vigentes em determinado meio têm um valor relativo quanto ao modo de sua execução. O qual demonstra a insuficiência do contexto dado pela cultura, para explicar, de forma exclusiva e sem recorrer a fatores diferentes, as variações de comportamento em relação à norma preestabelecida (culturalmente).

Oliveira Vianna expressa deste modo a sua divergência com os seguidores americanos do panculturalismo: "O meu ponto de divergência com os antropologistas da escola culturalista, Boas e seus seguidores, é que eles consideram a cultura como um sistema social que encontra explicação em si mesmo, ao passo que eu, embora aceite a concepção central da etnologia americana  - do regionalismo das áreas de cultura -  contudo,  não aceito o panculturalismo desta escola, que quer tudo explicar em termos de cultura, até os fenômenos fisiológicos, e se recusa a fazer intervir, na formação e evolução das sociedades e da civilização, os fatores biológicos, negando qualquer influência ao indivíduo ou à raça e à sua poderosa hereditariedade". Na base da crítica do nosso autor está a firme convicção, repetidas vezes afirmada, "da importância que na elaboração das culturas e dos seus destinos, tem o homem, o seu temperamento, as suas idiossincrasias pessoais - o poliedrismo da sua personalidade" [Vianna, 1974: I, 57]. Em que pese as críticas feitas ao panculturalismo, Oliveira Vianna não deixa de reconhecer um alto valor heurístico à escola culturalista, quando desprovida dessa metafísica sócio-vitalista, que faz da cultura entelechia responsável por tudo quanto acontece nas sociedades. Justamente na medida em que um cientista como Ralph Linton consegue relativizar em alguma medida a função cultural, nos seus estudos sobre as relações entre personalidade e cultura é dada a esta variável a sua adequada dimensão, apesar da originária inspiração desse autor na escola culturalista. As possibilidades desta escola, aliás, estão chegando aos seus limites, afirma Oliveira Vianna. Pode-se fazer hoje a previsão de que "não está muito longe o dia em que a sociologia terá de reconhecer - na gênese das culturas e nas transformações das sociedades -   não apenas o papel da hereditariedade individual e do grande homem, mas mesmo o papel da raça. Na verdade, tudo parece afluir para uma grande síntese conciliadora (...).  O certo, porém, é que passou definitivamente a época dos exclusivismos monocausalistas" [Vianna, 1974: I, 70-71].

Em que termos se efetivaria essa síntese conciliadora? O nosso autor assim explica esse processo: "Em suma, o quadro clássico dos fatores da Civilização e da História se está restaurando. Em vez de uma causa única - meio só (Buckle), ou raça só (Lapouge), ou cultura só (Spengler, Frobenius, Boas) -  a ciência confessa que tudo se encaminha para uma explicação múltipla, eclética, conciliadora: Raça + Meio + Cultura. Com estes elementos é que ela está recompondo o quadro moderno dos fatores de Civilização". Quanto ao tipo em que se inspira esta posição, Oliveira Vianna frisa: "É o que esperamos do trabalho científico feito sob a inspiração daquela integralist sociology, de que nos fala Sorokin e que concebe a realidade social como um complexo multifário (a complex manifold)".  À luz dessa perspectiva conciliadora, ou melhor, segundo os termos usados pelo próprio autor, poliédrica, Oliveira Vianna entende a totalidade da sua obra como um esforço para aproximar-se desse grupo de fatores (Raça, Meio, Cultura), fazendo recair a ênfase em algum deles. Daí o caráter monográfico da sua obra. A respeito, afirma: "Nos meus livros anteriores, (...) tenho investigado todos esses grupos de fatores da nossa formação e da nossa evolução histórica e social: o meio antropogeográfico (clima e solo), os fatores biológicos e heredológicos (linhagem e raça) e os fatores sociais (cultura), embora com outra tecnologia. Retomo agora (em Instituições políticas brasileiras), depois de dez anos de forçada interrupção, estes meus estudos sobre a nossa formação social (...). Por agora, irei investigar neste volume, e de forma monográfica e especializada, unicamente o papel da cultura na formação da nossa sociedade política e na evolução e funcionamento do Estado no Brasil" [Vianna, 1974: I, 71-72]. O nosso autor conclui assim, salientando o caráter multidimensional da sua pesquisa: "É claro que, estudando a cultura, não irei estudá-la apenas no seu aspecto puramente geográfico, como é dos estilos; mas também (enquanto é) um complicado e delicado mecanismo que as sociedades humanas constróem, sob o condicionamento do Meio e da História, para selecionar, distribuir e classificar os valores humanos, gerados em seu seio pelas matrizes biológicas da Linhagem e da Raça". 

4) Complexos culturais e morfologia do Estado. - Estes dois elementos formam parte, também, do quadro gnoseológico de Oliveira Vianna. Sem caracterizarmos o conteúdo de ambos os conceitos, não poderíamos proceder a uma interpretação do pensamento do sociólogo fluminense. Quanto ao conceito de complexo cultural, Oliveira Vianna frisa: "O complexo representa um conjunto objetivo de fatos, signos ou objetos, que, encadeados num sistema, se correlacionam a idéias, sentimentos, crenças e atos correspondentes. (...). É toda uma multidão de fatos, objetos, signos, utensílios, etc., que se prendem a usos, costumes, tradições, crenças, artes, técnicas, que, por sua vez, se prendem igualmente a idéias, sentimentos, condutas, tudo correlacionado com estes tópicos peculiares da atividade econômica: - e cada um destes tópicos forma um complexo" [Vianna, 1974: I, 74].

Em todo complexo cultural encontramos dois tipos de elementos: externos ou objetivos (fatos, coisas, signos, tradições), e internos ou subjetivos (sentimentos, idéias, emoções, julgamentos de valor, etc.).  Os primeiros constituem os chamados elementos transcendentes da cultura, ao passo que os segundos são os seus elementos imanentes. A interrelação desses dois grupos de elementos é complexa. Oliveira Vianna a explica assim:  "Estes elementos conjugados ou associados formam um sistema articulado, onde vemos objetos ou fatos de ordem material, associados a reflexos condicionados, com os correspondentes sentimentos e idéias. Estes elementos penetram o homem, instalam-se mesmo dentro da sua fisiologia: e fazem-se enervação, sensibilidade, emoção, memória, volição, motricidade. Os quadros mentais do indivíduo se constituem de acordo com estes complexos: estes lhes dão das coisas e do mundo uma representação coletiva, como dizia Durkheim. Tanto que já se começa a lançar os fundamentos de uma nova especialização científica: a sociologia do conhecimento de que a obra de Mannheim é, decerto, um belo exemplo". Do ponto de vista psicológico, portanto, um complexo cultural é um sistema idéio-afetivo, do qual se derivam atitudes ou comportamentos com projeção social, numa sincronia de sensibilidades, emoções, sentimentos, preconceitos, preferências, repulsões, julgamentos de valor, deliberações, atos omissivos ou comissivos de conduta. O nosso autor chama a atenção para um fato importante: quando se pretende mudar um determinado complexo cultural a nível exclusivamente objetivo ou transcendente (promulgando, por exemplo, uma nova constituição em nome de Deus ou do povo), as possibilidades de sucesso de tal mudança são mínimas, pois a ela opor-se-á o elemento subjetivo ou imanente (sentimentos, crenças, preconceitos, praxes seculares dessa comunidade humana). Porisso, salienta Oliveira Vianna, têm fracassado tantas reformas no nosso meio latino-americano: porque os reformadores, imbuídos de espírito legalista, acham que mudando as leis vão mudar os hábitos da população, que permanece sempre alheia ao formalismo externo. Oliveira Vianna endossa a afirmação de Jung de que os traços culturais imanentes se transmitem pelo inconsciente coletivo, e "tudo é como se eles se imprimissem ou se contivessem nos genes das próprias raças formadoras". 

Quanto à morfologia do Estado, Oliveira Vianna identifica quatro tipos: Estado-aldeia, Estado-cidade, Estado-império e Estado-nação. Faz uma detalhada análise do primeiro tipo, ilustrando especialmente o funcionamento das aldeias hidráulicas da Península Ibérica (seguindo a terminologia de Maurice Aymard), de acordo à exposição feita por Joaquim Costa na obra Colectivismo agrario en España. O nosso autor, contudo, considera isoladamente estas comunidades reduzidas, supondo-as verdadeiras democracias telúricas, sem enxergar o contexto mais largo do despotismo hidráulico que vingou na Península Ibérica durante a ocupação sarracena. Registra, é certo, as dificuldades enfrentadas por essas comunidades de aldeia, quando se defrontaram com o absolutismo pós-feudal, não só na Península Ibérica, mas também no resto da Europa. A impressão que se tem ao ler a morfologia do Estado elaborada por Oliveira Vianna, é que ele desconhece o fenômeno do feudalismo em toda a sua profundidade, especialmente no relacionado à passagem da organização feudal à moderna realidade do Estado. Não estabelece - ao contrário de Weber -  uma diferenciação de tendências nesse surgimento do Estado moderno. Porisso, junta sem maior preocupação os Estados em que vingou a formação de tipo patrimonial aos Estados em que o poder patrimonial do monarca foi controlado, tendo surgido instituições de governo representativo. O seguinte trecho de Oliveira Vianna, referido indistintamente a todos os países da Europa, exprime de forma clara essa confusão: "Estes grandes Estados imperiais não se assentavam, porém, sobre bases democráticas - ao modo dos Estados-aldeias ou dos Estados-cidades das épocas anteriores. Neles, o soberano não era o povo, como havia sido antes e como veio a ser depois; mas, o Rei. Este Rei tinha um caráter místico ou religioso nos predicamentos da sua investidura: era um soberano carismático; quer dizer:  por sua graça divina. Deus o havendo escolhido e consagrado para esta missão, era em nome de Deus que ele, Rei,  governava os povos. Por força desta designação divina é que ele exercia os poderes do Estado: o Poder Executivo, o Poder Judiciário e o Poder Legislativo. (...). Em síntese: O Estado-império que governou e administrou a Europa até a Revolução Francesa, era uma organização de estrutura nitidamente aristocrática. O Rei, soberano por graça de Deus, dirigia a Nação e a administrava, rodeado de uma casta nobre e privilegiada, com direito de exclusividade ao exercício do governo e de todos os cargos públicos. Esta nobreza irradiava das Cortes e dos bastidores palacianos para todos os postos administrativos das Províncias e dos Municípios, bem como para as longínquas colônias d'além-mar, integrantes do Império. E foi o que ocorreu aqui durante o período colonial (1500-1822)" [Vianna, 1974: I, 104-106].

O nosso autor ignora aqui a Revolução Gloriosa (1688) que ensejou, na Inglaterra, o primeiro ensaio sistemático de governo representativo e deu origem à monarquia constitucional. Esta experiência, e não a Revolução Francesa, foi, certamente, o núcleo de inspiração da filosofia política liberal. E constituiu a primeira tentativa bem-sucedida de pôr um freio ao fortalecimento do Estado Patrimonial. Oliveira Vianna identifica como primeiro Estado-nação a França. Tal Estado, para ele, é de origem muito recente. A respeito, frisa: "O mundo civilizado só o viu aparecer depois da Revolução Francesa, com o reconhecimento do princípio da soberania do povo e o advento das democracias européias". A limitação da perspectiva escolhida por Oliveira Vianna na sua análise do Estado moderno, condicionou o seu estudo sobre a realidade brasileira. Ao passo que valoriza a democracia como um desejo da Nação, no momento da escolha de alternativas concretas para materializar esse ideal, o sociólogo fluminense voltar-se-á para os exemplos em que, no seu sentir, materializou-se realmente a democracia: O Estado-aldeia e o Estado-cidade da Antigüidade. A sua visão do Estado moderno terminou sendo polarizada por uma das formas que este assumiu historicamente: o Estado Patrimonial.

Conclusão. - Apesar das deficiências teóricas que afetam a análise de Oliveira Vianna sobre o Estado Moderno, uma coisa é certa: o pensador fluminense rejeita e supera definitivamente o monocausalismo sociológico que vingou nas diversas teorias de inspiração cientificista acerca da formação social brasileira, ao longo do século XIX e ainda no século XX. Um outro mérito inegável é a rica tipologia sociológica com que soube ilustrar a organização política do Brasil, desde a Colônia até o século XX. Ninguém que pretenda fazer um estudo sério sobre a evolução sócio-política brasileira, poderá se dar ao luxo de ignorar conceitos básicos da sociologia de Oliveira Vianna, tais como os de povo-massa, homens de mil, clã parental, clã político, clã eleitoral, solidariedade de família senhorial, responsabilidade coletiva familiar, sinecurismo parlamentar, burocratismo orçamentívoro, etc. Justamente o espírito científico do pensador fluminense se revela no rigor metodológico por ele seguido no processo de formulação dos conceitos sociológicos, extraídos, como vimos, de uma rigorosa observação dos fatos sociais e do confronto com os dados da experiência. Tendência salutar, hoje mais do que nunca extremamente necessária, em face da perniciosa ideologização das ciências sociais.

Por todos esses motivos, mas principalmente pelo fato de ter inserido a sociologia brasileira na rica corrente do culturalismo sociológico, prolongando a tendência ensejada por Sílvio Romero e continuada por Alcides Bezerra, a figura de Oliveira Vianna é sem dúvida pioneira no hodierno pensamento social e político brasileiro. Nada mais justo para lembrar os 134 anos do seu nascimento do que recordar, como acaba de ser feito, os traços marcantes da idéia de cultura de Oliveira Vianna aplicada ao estudo do Estado.

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VIANNA, Francisco José de Oliveira [1987]. História social da economia capitalista no Brasil. (Apresentação e organização de Antônio Paim). Belo Horizonte: Itatiaia; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2 volumes.

VIANNA, Francisco José de Oliveira [1987]. Populações meridionais do Brasil. - 1º volume: Populações rurais do Centro-Sul; 2º volume: O campeador Rio-Grandense.  3ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia; Niterói: Universidade Federal Fluminense.

VIANNA, Francisco José de Oliveira [1991]. Ensaios Inéditos: reunião de trabalhos esparsos, opúsculos e publicações em jornais e revistas especializadas. (Apresentação de Marcos Almir Madeira). Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.

(Este ensaio foi publicado no Portal "Ensaio Hispânico", criado pelo professor Dr. José Luis Gómez Martínez da Universidade da Geórgia).

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

GILBERTO FREYRE, OLIVEIRA VIANNA E A SOCIOLOGIA DO PATRIMONIALISMO

Oliveira Vianna
Gilberto Freyre


Não há dúvida de que Gilberto Freyre e Oliveira Vianna elaboraram a mais completa caracterização do ethos da casa grande, a partir do qual se consolidou a organização política brasileira. As categorias sociológicas utilizadas por ambos os autores são eminentemente telúricas, tiradas da sociedade patriarcal que deu ensejo às instituições nacionais. Certamente o longo ciclo do positivismo marxista atrapalhou em muito a adequada avaliação desses dois luminares do pensamento social. Mas nas últimas décadas do século XX passou-se a fazer, mesmo no universo acadêmico, uma avaliação mais objetiva da obra deles. É meu propósito ilustrar a forma em que os estudos sobre o patriarcalismo desenvolvidos pelos dois sociólogos, servem de base para a compreensão do Estado patrimonial brasileiro. A fim de cumprir com o meu propósito, mostrarei, em primeiro lugar, a feição contrária dos dois autores em relação ao arquétipo positivista que vingou ao longo do século passado; ilustrarei, a seguir, a forma em que Gilberto Freyre e Oliveira Vianna apresentam os valores que presidiram à formação social brasileira e analisarei, por último, o conceito de patriarcalismo (na formulação de ambos os autores), como base para compreender a realidade do Estado patrimonial brasileiro.
1) Gilberto Freyre e Oliveira Vianna, autores malditos
Qual foi a matriz ideológica[1] que deu embasamento à sociologia brasileira ao longo do século XX? Wanderley-Guilherme dos Santos considera que essa matriz foi a dicotômica, que consiste em atribuir a origem das crises a uma oposição arquetípica de fatores. "Foi talvez Euclydes da Cunha  - frisa dos Santos -  no ensaio Da Independência à República, publicado pela primeira vez em 1900, quem chamou a atenção para a existência de dois Brasis: um, urbanizado, litorâneo, desenvolvendo-se com os benefícios da atenção governamental; outro, constituído pelas populações rurais, estagnado, sobrevivendo por si mesmo, fora do âmbito da ação ou interesse governamentais (...). Embora este esquema seja apenas incidental no contexto geral do ensaio, é altamente importante na medida em que estabelece a fórmula intelectual para a análise política que estava por vir, a saber, descobrir uma dicotomia à qual possa ser racionalmente atribuída a origem das crises; traçar a formação da dicotomia no passado histórico nacional; propor a alternativa política para a redução da dicotomia. Tal é a estrutura básica do paradigma"[2].
Ora, considera dos Santos, "este estilo dicotômico de percepção permanece indiscutível desde então"[3], tendo-se tornado o milieu preferido pelos cientistas sociais brasileiros. A entrada das categorias marxistas na análise sociológica, encaixou-se nesse esquema, que já tinha servido de marco epistemológico para as abordagens de inspiração positivista.
Colocado o pensamento de Gilberto Freyre e Oliveira Vianna em face da matriz ideológica dicotômica que prevaleceu, vemos que ambos os autores fogem a essa perspectiva. O pernambucano, na medida em que escapa ao ponto de vista metropolitano dialético, dedicando-se a formular amplo painel integrador da vida brasileira, ao redor da Casa Grande. A respeito desse aspecto totalizante da sociologia freyriana, frisa Jean Duvignaud: "Encontramos um outro aspecto do método deste autor na instituição de uma totalidade orgânica, de uma coesão dialética que envolveria todas as manifestações de uma sociedade ou de um período da história, e cuja forma comandaria os movimentos interiores. Mas uma esfera enraizada num solo, numa terra cujo eixo seria uma relação material entre os homens e a natureza. Reencontraríamos aqui uma das idéias força de Marcel Mauss, a noção de fenômeno social total unindo, numa análise, atividades divergentes que geralmente apelam para estudos especializados diferentes (religião, economia, estética, etc.) mas que um núcleo único reúne. Ou, ainda,  esta outra idéia que Gurvitch propôs pela primeira vez, nesse colóquio de Cérizy dedicado a Gilberto Freyre, ou seja a idéia do fenômeno psíquico total que possuiria sua autonomia própria, simbólica, ao mesmo tempo consciente e inconsciente, sem entretanto coincidir plenamente com a sociedade nem tampouco dela emanar ou refleti-la"[4].
Em relação à forma em que Oliveira Vianna foge à matriz ideológica dicotômica, lembremos a crítica que o sociólogo fluminense tece contra o monocausalismo em ciências sociais. Longe de serem pautadas as sociedades por leis gerais (como a física social dos positivistas), prevalece o conceito de multiplicidade de fatores. No prefácio à terceira edição da sua obra Evolução do povo brasileiro[5], em 1937,  Oliveira Vianna reage contra a forma unilinear de entender a evolução das sociedades, como se houvesse leis gerais que as comandassem; acolhendo os conceitos de Gabriel Tarde, o nosso autor considera que existem múltiplas tendências na evolução das organizações sociais, e que é impossível reduzi-las a um único esquema. Existe hoje, à luz das ciências sociais, o heterogêneo social contraposto ao homogêneo social de Spencer[6].
No campo social, encontramos multiplicidade de linhas de evolução e de fatores que intervêm nessas linhas. Para essa multiplicidade de tipos,  - frisa Oliveira Vianna[7] -  para essa variedade de linhas de evolução, para esse heterogenismo inicial "contribui um formidável complexo de fatores de toda ordem,  vindos da Terra, vindos do Homem,  vindos da Sociedade, vindos da História: fatores étnicos, fatores econômicos, fatores geográficos, fatores históricos, fatores climáticos, que a ciência cada vez mais apura e discrimina, isola e classifica. Estes predominam mais na evolução de tal agregado; aqueles, mais na evolução de outro; mas, qualquer grupo humano é sempre conseqüência da colaboração de todos eles; nenhum há que não seja a resultante da ação de infinitos fatores, vindos, a um tempo,  da Terra, do Homem, da Sociedade e da História. Todas as teorias,  que faziam depender a evolução das sociedades de uma causa única, são hoje abandonas e peremptas: não há atualmente monocausalismos em ciências sociais".
Do exposto fica claro de que forma Gilberto Freyre e Oliveira Vianna fogem, no seu pensamento sociológico, à matriz ideológica dicotômica que terminou por prevalecer na sociologia brasileira. Não estranha, assim, o ostracismo a que foram submetidas as suas obras. Apenas a partir dos anos 80 começaram a ser superados esses preconceitos[8], embora tenha continuado a circular, após esse período,  literatura que desconhece o valor deles no panorama sociológico nacional[9].
2) O estudo dos valores que presidiram à formação social brasileira, segundo Gilberto Freyre e Oliveira Vianna
O pensamento sociológico, desde as suas origens até os nossos dias, tem percorrido um caminho inverso ao trilhado pelos seres vivos. Da esclerose do cientificismo saint-simoniano e comteano (que consideravam, respectivamente, a sociologia ora como uma fisiologia social, ora como uma física social, dotada em ambos os casos de leis irretorquíveis e geradora de certezas absolutas), passamos, no século XX, a um tipo de saber fundado apenas em certezas probabilísticas, alicerçadas em generalizações estatísticas, muito mais próximas do contínuo fluir que caracteriza a vida. A grande contribuição dada por Max Weber à evolução hodierna da sociologia, consistiu em ter assinalado para ela, como objeto de estudo, não apenas os tipos ideais que poderiam exprimir transitoriamente as relações sociais, mas também os valores inspiradores da ação humana. Descortinou-se, assim, para o pensamento sociológico, todo um universo, ao se ver ele projetado sobre a complexa base axiológica em que se alicerçam as sociedades. Aproximou-se, destarte, a sociologia das humanidades, que constituem o arcabouço conceitual que nos permite compreender o mundo dos valores.
Weber encaminhou o seu estudo dos valores, como frisa Bendix,[10] numa posição complexa e intermediária "entre o racionalismo e o reducionismo", que empolgaram os estudos científicos da sociedade ao longo dos séculos XVIII e XIX, respectivamente. Em conseqüência, ele "sustentou que os princípios morais existem em um contexto social e histórico", tentando encontrar na análise dos valores o significado daqueles.
A grande contribuição de Gilberto Freyre e Oliveira Vianna aos estudos sociológicos, consiste justamente em ter reivindicado a importância do estudo dos valores, na tentativa em prol de compreender a sociedade brasileira. Freyre certamente conheceu o pensamento weberiano, sendo que já nas primeiras edições de Casa Grande e Senzala faz menção ao sociólogo alemão, como lembra Vamireh Chacon, "a propósito das relações entre calvinismo, judaísmo e catolicismo no quadro do capitalismo"[11]. O pensador romeno Zevedei Barbu identificou de forma mais precisa a feição weberiana do método aplicado pelo sociólogo pernambucano, nas seguintes palavras: "Gilberto Freyre encontra grandes afinidades com a sociologia interpretativa de Weber,  especialmente com a abordagem empatética. Para esse fim, ele acrescentou uma série de instrumentos complementares ou mais abrangentes, tais como penetração empatética e estudo empatético de valores e símbolos. Esse núcleo weberiano foi adicionalmente agregado a algumas noções de variável importância metodológica, como conceito de personalidade e desdobramento consciente da personalidade"[12].
Já Oliveira Vianna,  embora não faça referência sistemática à obra de Weber, que conhece, realiza ao longo dos seus estudos da sociedade brasileira, notadamente no que tange à sua culturologia do Estado, uma análise do ângulo dos valores, que se aproxima muito da forma em que o pensador alemão extrai do processo histórico os seus tipos ideais[13].
Em que pese a influência weberiana apontada a respeito da preocupação axiológica na sociologia de Gilberto Freyre, Zevedei Barbu a filia imediatamente à escola dos Annales, que, no seu entender, idealizou "um conceito de história como sendo um ponto de convergência entre todas as ciências sociais, com especial referência à psicologia, à sociologia, à antropologia e um toque de existencialismo"[14]. A influência dessa escola teria sido canalizada sobre tudo através de Lucien Febvre. Barbu estabelece a seguinte relação em face da metodologia utilizada por ambos os autores: "Voltando ao método comparativo, tanto Febvre quanto Freyre sustentam que a fonte prima e a estrutura do processo histórico devem ser localizadas na experiência cotidiana de uma determinada comunidade humana. Indo além, ambos argumentam que as experiências de cunho valorativo, ou seja, significativas, possuem uma importância epistemológica mais elevada, no sentido em que revelam aspectos fundamentais da vida social"[15].
Gilberto Freyre, portanto, ao seguir pela trilha da influência febvriana, elabora análise axiológica semelhante à empreendida por Weber. Segundo Barbu, o sociólogo pernambucano "parte da convicção de que o material do conhecimento histórico não pode ser outro senão aquele recolhido das experiências do dia-a-dia. Finalmente, admite ainda que o tipo de experiências que mais o interessam são aquelas com sentido valorativo, isto é, as que na sociedade brasileira se caracterizam como valores rurais, telúricos e agrários. Como se pode notar, trata-se de valores fundamentais nas sociedades rurais tradicionais. Entretanto, os valores são consignados historicamente e, consequentemente, quando a sociedade brasileira atingir um alto grau de urbanização, os valores urbanos passarão a prevalecer"[16].
Ora, esses valores fundamentais são captados no seio de experiências vividas que abarcam sentimentos, emoções, hábitos, etc. No contexto dessas experiências vividas capta-se emocionalmente o que Gilberto Freyre chama de história recebida, aberta ao passado, ao presente e ao futuro. Eis a forma em que Barbu explica a apreensão desse universo na sociologia freyriana: "O que é esse algo que penetra e age como parte distinta da consciência humana, sem perder sua identidade? Trata-se das experiências vividas pela comunidade como um todo. O todo deve ser aqui evidenciado, pois as experiências vividas como totalidade possuem um significado histórico e ontológico que as experiências isoladas não têm. A história contém, ou melhor dizendo, é a maior estrutura de experiência no mundo do homem e, como tal, o mais completo quadro de referência para o modo humano de ser; ela molda as experiências presentes, passadas e futuras. Em outras palavras, podemos dizer que é uma verdade bastante conhecida o fato de que a consciência somente surge como dimensão distinta da vida humana, quando se percebeu clara e generalizadamente que a existência humana é uma entidade tridimensional, isto é, vida concomitantemente no presente, no passado e no futuro. Em termos mais empíricos, o senso histórico ou consciência histórica do homem torna-se plenamente articulado se e quando for possível perceber e aceitar como fato que, no período que antecede o presente, as pessoas se vestiam, comiam, bebiam, sentiam e pensavam diferentemente da época atual. Nas palavras de Freyre, é a história recebida, que muda a si mesma durante o processo"[17].
Os valores fundamentais que, segundo Gilberto Freyre, devem ser estudados e que constituem a base da história recebida na cultura brasileira  -- conforme insinuou o texto já citado de Barbu --  são os do Brasil rural. O autor romeno identifica esses valores como uma espécie de primeira intuição, de onde decorre toda a obra do sociólogo pernambucano. "Existe, frisa Barbu, um outro tipo de experiência, que chamarei transfenomenal, pois ela constrói uma ponte entre uma situação concreta e o todo, sendo apenas vagamente prefigurada na intuitio prima. Trata-se da casa, da família e da personalidade, três focos ativos na fenomenologia do mundo de Gilberto Freyre. (...) (Eles) se me afiguram como a trindade da existência humana: casa = receber o mundo (o que é exterior não é humano); família = multiplicar e criar o mundo do homem; e personalidade = ver, encontrar e conhecer o mundo"[18].
Oliveira Vianna, por sua vez, confere grande importância também ao estudo dos valores, no esforço em prol de compreender a sociedade brasileira. Os valores são denominados pelo sociólogo fluminense de complexo cultural, conceito que explica da seguinte forma: "o complexo representa um conjunto objetivo de fatos, signos ou objetos, que,  encadeados num sistema, se correlacionam a idéias, sentimentos, crenças e atos correspondentes (...). É toda uma multidão de fatos, objetos, signos, utensílios, etc., que se prendem a usos, costumes, tradições, crenças, artes, técnicas, que, por sua vez, se prendem igualmente a idéias, sentimentos, condutas, tudo correlacionado com estes tópicos peculiares da atividade econômica: e cada um destes tópicos forma um complexo"[19].
Em todo complexo cultural encontramos dois tipos de elementos: externos ou objetivos (fatos, coisas, signos, tradições), e internos ou subjetivos (sentimentos, idéias, emoções, julgamentos de valor, etc.). Os primeiros constituem os chamados elementos transcendentes da cultura, ao passo que os segundos são os seus elementos imanentes. A inter-relação entre esses dois grupos de elementos é complexa. Oliveira Vianna a explica assim: "Estes elementos conjugados ou associados formam um sistema articulado, onde vemos objetos ou fatos de ordem material, associados a reflexos condicionados, com os correspondentes sentimentos ou idéias. Estes elementos penetram o homem, instalam-se mesmo dentro da sua fisiologia: e fazem-se enervação, sensibilidade, emoção, memória, volição, motricidade. Os quadros mentais do indivíduo se constituem de acordo com estes complexos: estes lhes dão das coisas e do mundo uma representação coletiva, como diria Durkheim. Tanto que já se começa a lançar os fundamentos de uma nova especialização científica: a sociologia do conhecimento de que a obra de Mannheim é, decerto, um belo exemplo"[20].
Do ponto de vista psicológico, portanto, um complexo cultural é um sistema ideo-afetivo, do qual se derivam atitudes ou comportamentos com projeção social, numa sincronia de sensibilidades, emoções, sentimentos, preconceitos, preferências, repulsas, julgamentos de valor, deliberações, atos de conduta. Oliveira Vianna chama a atenção para um fato importante: quando se pretende mudar um determinado complexo cultural, a nível exclusivamente objetivo ou transcendente (promulgando, por exemplo, uma nova Constituição em nome de Deus ou do povo), as possibilidades de sucesso de tal mudança são mínimas, pois a ela opor-se-á o elemento subjetivo ou imanente (sentimentos, crenças, preconceitos, praxes seculares dessa comunidade humana). Por isso, salienta o sociólogo fluminense, têm fracassado tantas reformas no nosso meio latino-americano: porque os reformadores, imbuídos de espírito legalista, acham que mudando as leis vão mudar os hábitos da população, que permanece sempre alheia ao formalismo externo. Oliveira Vianna endossa a afirmação de Jung de que os traços culturais imanentes se transmitem pelo inconsciente coletivo, e "tudo é como se eles se imprimissem ou se contivessem nos genes das próprias raças formadoras".
O sociólogo fluminense dedicou boa parte da sua obra à análise do complexo cultural que lhe pareceu mais marcante no Brasil rural: o chamado por ele de complexo de clã. Eis a forma em que caracterizou a presença desse complexo na vida política brasileira: "Em toda essa psicologia da vacuidade ou ausência de motivações coletivas da nossa vida pública, há um traço geral que só por si bastaria para explicar todos os outros aspectos (...). Este: a tenuidade ou fraqueza da nossa consciência do bem coletivo, do nosso sentimento da solidariedade social e do interesse público. Esta tenuidade ou esta pouca densidade do nosso sentimento do interesse coletivo é que nos dá a razão científica do fato de que o interesse pessoal ou de família tenha, em nosso povo  - no comportamento político dos nossos homens públicos -, mais peso, mais força, mais importância determinante do que as considerações do interesse coletivo ou nacional. Este estado de espírito tem uma causa geral (...); e esta razão científica é a ausência da compreensão do poder do Estado como órgão do interesse público. Os órgãos do Estado são para estes chefes de clãs, locais ou provinciais, apenas uma força posta à sua disposição para servir aos amigos e aos seus interesses, ou para oprimir os adversários e os interesses destes"[21].
Tanto a sociologia de Gilberto Freyre quanto a de Oliveira Vianna identificam uma base axiológica sobre a qual se estruturou a sociedade brasileira: o espírito familístico, que o pernambucano genialmente analisa vivo nas relações domésticas da Casa Grande e que o fluminense surpreende in fieri, no fundo do nosso compadrio político. A partir desse fundamento primordial, ambos os autores construirão, com rigorosa metodologia, o seu universo sociológico: sensual, cálido, plástico, integrador, impregnado dos aromas da mesa do senhor de engenho em Casa Grande e Senzala[22]; polimorfo, lógico, conceitual, fielmente verificado sine ira ac studio, na precisa anatomia das ações e reações do corpo social, efetivada pelo observador arguto e minucioso em Instituições políticas brasileiras[23]. Freyre como que nos apresenta a versão mito-poética da essência da vida social brasileira, que Oliveira Vianna traduz numa trabalhada amálgama de tipos ideais, hauridos da nossa história regional e local.
3) O estudo do patriarcalismo em Gilberto Freyre e Oliveira Vianna, como base para compreender a realidade do Estado Patrimonial brasileiro
Ninguém como Gilberto Freyre ou Oliveira Vianna conseguiu retratar, com maior fidelidade, o quadro do patriarcalismo brasileiro. Referindo-se ao primeiro, escreve Vamireh Chacon:  "Marx costumava dizer que o maior crítico da sociedade burguesa fora Honoré de Balzac, que proclamava escrever à luz de dois faróis, o Trono e o Altar e não o socialista Émile Zola, prejudicado pelo afã proselitista... Poderíamos também ver o Brasil patriarcal paternalista, ainda sobrevivente, melhor em Gilberto Freyre que em vários analistas marxistas sem Marx ou contra Marx..."[24].
De acordo com o conjunto de valores que lhe permitem compreender a realidade brasileira, Gilberto Freyre dá importância especial à histoire intime da Casa Grande, onde nasce e se desenvolve esse conjunto axiológico. Sob este ângulo, Gilberto Freyre é pioneiro. Desse pioneirismo dá testemunho o historiador britânico Asa Briggs, ao afirmar: "Na verdade, não conheço nenhum historiador como ele, brasileiro ou não brasileiro, em qualquer língua antes de 1933"[25]. Parece ao estudioso romeno Zevedei Barbu que a sociologia freyriana, no plano horizontal,  percorre uma trajetória do centro para fora: a partir da família patriarcal reconstrói a sociedade global. A respeito, frisa o mencionado autor: "O ponto central consiste na família, a unidade social mais concreta, a qual ele descreve em detalhe, sempre focalizando as circunstâncias concretas da comunidade portuguesa no Brasil.  A partir dos relacionamentos homem-mulher, marido-esposa, pai-filhos, mãe-filhas, ele descreve tudo em termos de inter-relações, e tão vividamente, que cada traço pode ser tomado como uma unidade, ou melhor dizendo, como narrativa do Brasil do ponto de vista da família. Contudo,  o principal é que Freyre assim o faz com plena consciência  - transmitida ao leitor -  de que não se trata de uma tipologia, senão de um caso historicamente concreto, a família portuguesa vivendo em isolamento dentro de uma ordem social patriarcal com visíveis traços feudais, e com um modo de produção agrário tradicional"[26].
A bem da verdade, não se trataria de uma sociedade patriarcal de tipo feudal, como frisa Barbu, mas, como o próprio Gilberto Freyre salienta, de "uma sociedade semi-feudal - uma minoria de brancos e brancarrões dominando patriarcais, polígamos do alto das casas-grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha, vassalos das casas-grandes em todo o rigor da expressão"[27].
A reconstrução do microcosmo da Casa Grande, de onde emerge a vida sócio-política brasileira: eis o cerne da contribuição sociológica de Gilberto Freyre. Ninguém melhor do que o próprio autor de Casa Grande e Senzala para traçar as linhas mestras desse pequeno universo social, construído ao redor do pater famílias: "A casa grande, completada pela senzala, representa todo um sistema econômico, social, político: de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o bangüê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater famílias, culto dos mortos, etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo); de higiene do corpo e da casa ( o tigre, a touceira de bananeira, o banho de rio, o banho de gamela, o banho de assento, o lava-pés); de política (o compadrismo). Foi ainda fortaleza, banco, cemitério, hospedaria, escola, santa casa de misericórdia amparando os velhos e as viúvas, recolhendo órfãos. Desse patriarcalismo absorvente dos tempos coloniais, a casa-grande do engenho Noruega, em Pernambuco, cheia de salas, quartos, corredores, duas cozinhas de convento, despensa, capela, puxadas, parece-me expressão sincera e completa. Expressão do patriarcalismo já repousado e pacato do século XVIII; sem o ar de fortaleza que tiveram as primeiras casas grandes do século XVI"[28].
Outra não é a contribuição dada à sociologia brasileira por Oliveira Vianna[29]. A sua perspicaz observação, o seu exigente método de análise, foram os instrumentos de que se valeu o sociólogo fluminense para reconstruir,  a partir de tipos sociológicos hauridos da nossa história, o intrincado pano de fundo da evolução política brasileira. Profundo conhecedor da nossa formação social, o pensador fluminense partiu da análise do complexo de clã, que surgiu como produto cultural do latifúndio. O nosso insolidarismo secular nos fechou, durante séculos, numa visão que não ultrapassava os limites do clã. Porque foi o latifúndio a primeira realidade organizacional consolidada que o nosso país conheceu, ao emergir das sombras do descobrimento e ao se processar o primigênio surto  de interiorização ocorrido com as bandeiras vicentistas. O complexo de clã nasceu ali, ao redor da Casa Grande, sob a figura protetora do senhor de engenho, única autoridade patriarcal, inapelável, indelegável, unipessoal, carismática, violenta e paternal ao mesmo tempo. Poderíamos aproximar com sucesso essa autoridade clânica do latifúndio da figura do pater famílias, tão bem estudada por Weber.
A organização política na época colonial consolidar-se-ia a partir da única realidade social conhecida pelo nosso povo-massa: o clã parental. Era ele quem realmente garantia a sobrevivência ao indivíduo contra a anarquia branca que, numa visão privatista do poder (típica, aliás, da formação política patrimonial caracterizada pela sociologia weberiana), enquadrava dentro da órbita centrípeta dos interesses parentais as instituições formais: câmaras municipais, juizes de paz, etc.
O Estado moderno, de abrangência nacional, deveria constituir-se a partir dessa realidade. As tentativas de passar da atomização clânica a uma democracia formal, fatalmente levariam ao reforço das antigas formas privatistas de exercício do poder: isso aconteceu, segundo Oliveira Vianna, em 1824, quando da instituição do regime parlamentar e em 1891, quando da adoção puramente formal do federalismo presidencialista de inspiração anglo-americana.
Dois momentos-chave identificou o sociólogo fluminense na tentativa de consolidar o Estado nacional, superando o complexo de clã e fazendo emergir uma mística nacional: o Segundo Reinado e o ciclo getuliano. Dom Pedro II e Getúlio enfeixaram nas mãos o maior acúmulo de poder que governante algum já conseguiu ter ao longo da história brasileira. A genialidade política de ambos decorria do fato de terem encarnado uma autoridade de cunho patriarcal, mas pondo-a a serviço de um processo modernizador, que tinha como finalidade a definitiva consolidação do Estado nacional, que se sobrepusesse aos clãs.
Oliveira Vianna explica de que forma dom Pedro II conseguiu colocar a serviço da mística nacional os clãs parentais, organizando a partir deles os clãs políticos, que por sua vez se integrariam nos dois Partidos, o Liberal e o Conservador. A elite imperial de homens de 1000 (figura bíblica que identificava os líderes do povo escolhido) consolidou, ao longo do país, a idéia de Nação, sob a decidida autoridade do Imperador. Faltou ao sociólogo fluminense, é certo, saber valorar nas suas devidas dimensões a experiência parlamentar do Império, que ele identificou pejorativamente como mais um formalismo do marginalismo liberal. Mas essa falha do nosso autor talvez deva ser tributada na conta dos próprios liberais republicanos que, como Rui Barbosa, fizeram uma crítica indiscriminada às instituições imperiais, sem perceberem o alto valor pedagógico e modernizador do parlamentarismo e do Poder Moderador, que ensejaram na nossa cultura os valores da negociação e da tolerância, como acertadamente destaca Antônio Paim em recente estudo[30].
O Estado getuliano seria, para Oliveira Vianna, o segundo momento modernizador da história brasileira. Sobrepondo-se à privatização do poder político decorrente da queda do Império e da adoção da instituição republicana calcada da Carta norte-americana, com o conseqüente sacrifício do poder central no altar do vácuo federalista, Getúlio conseguiu reerguer um centro de poder nacional. Ao seu redor, em autêntico élan modernizador, o estadista gaúcho deflagrou amplo processo de reformas econômicas, sociais, trabalhistas e educacionais, que permitissem ao Estado intervir nos principais setores da vida nacional, a fim de sobrepor  a unidade política e o sentimento nacional à colcha de retalhos de interesses clânicos em que tinha afundado a República Velha. Verdadeiro esforço pedagógico que visava ao surgimento de uma nova consciência social, como a pretendida pelo processo centralizador do Império. O direito social, presente na legislação trabalhista getuliana, seria elemento fundamental do processo.
A pauta modernizadora de Oliveira Vianna certamente influiu na elaboração das propostas reformistas de Getúlio Vargas. A leitura da obra do sociólogo fluminense levou Getúlio a descobrir a dimensão nacional dos problemas sociais e lhe permitiu superar o ranço de provincianismo gaúcho que o afetou na primeira parte da sua vida política, como Deputado na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Deputado Federal e líder da bancada gaúcha na Câmara, ele cita nos seus discursos, a partir de 1925, trechos inteiros de Populações Meridionais do Brasil, cuja primeira edição data de 1920. É através da leitura de Oliveira Vianna como o jovem deputado supera os estreitos limites do comtismo e se abre a uma perspectiva sociológica mais larga, na qual, sem esquecer os princípios do organicismo saint-simoniano e do darwinismo social, incorpora a perspectiva monográfica da sociologia de Le Play, que já tinha, aliás, inspirado ao próprio Sílvio Romero[31]. Nas reformas autoritárias deflagradas por Getúlio ao ensejo da proclamação do Estado Novo terminou ganhando maior dimensão, no entanto, a feição tutelar e centralizadora do ideal castilhista.
O processo democrático posterior à queda de Getúlio em 1945, foi sem dúvida estudado com afinco por Oliveira Vianna, que não chegou a identificar, contudo, verdadeiras aspirações modernizadoras na classe política sediada no Parlamento. O voraz clientelismo e o espírito familístico que vieram à tona reproduziam os hábitos privatistas da República Velha. Porisso, talvez, na parte final da sua meditação sociológica (expressa magistralmente em Instituições políticas brasileiras), Oliveira Vianna frisa que o caminho da democratização deve percorrer primeiro a etapa da conquista dos direitos civis dos cidadãos, para depois se converter em processo de construção dos canais de participação política. Ao Poder Judiciário, autônomo e desligado - segundo ele - do vezo familístico que afetava à classe política, o nosso autor atribui esse importante papel.
Oliveira Vianna teve como cenário para a sua reflexão sociológica o Brasil rural, que acordava para o primeiro surto de industrialização e de formação das grandes cidades. Mas os elementos teóricos encontrados pela sua meditação sobre a realidade brasileira, norteiam a forma em que deveriam ser abordados os problemas nacionais. Amante declarado da democracia (é indisfarçável, por exemplo, o entusiasmo com que descreve a secular luta do povo inglês para construir a democracia representativa, enquadrando o absolutismo monárquico em limites fixados pelo costume e pelo direito daí emergente), toda a sua reflexão foi endereçada no sentido de encontrar o verdadeiro caminho para a democracia no Brasil, que seria o coroamento do esforço modernizador empreendido pelo Estado intervencionista e centralizador. E não poupou críticas à retórica liberal, que se limitava a apregoar a volta oitocentista a um individualismo laissezfairista.  Mas é inegável que o sociólogo fluminense ficou limitado por uma concepção elitista, que Wanderley Guilherme dos Santos classificou, acertadamente, como autoritarismo instrumental. Mesmo fazendo reservas a esse elitismo e divergindo conceitual e emocionalmente de qualquer forma de autoritarismo, não posso deixar de reconhecer que a tipologia elaborada por Oliveira Vianna inspirou, com sucesso, à elite militar que efetivou a abertura política, tendo dado ensejo ao fim do período de exceção, no início dos anos oitenta.
Preocupado com o conteúdo ético da vida política brasileira, o sociólogo fluminense não só analisou os aspectos institucionais ligados ao processo modernizador do Estado, como também se deteve no estudo do conteúdo psicológico das nossas atividades partidárias e da ausência de motivações coletivas. Falando em linguagem filosófica, diríamos que Oliveira Vianna se preocupou com a formulação de uma moral social consensual que alicerçasse o processo de modernização institucional e o sentimento de nação.
As sociologias de Gilberto Freyre e de Oliveira Vianna, pelo fato de partirem da análise detalhada do fenômeno do patriarcalismo brasileiro, constituem base conceitual sólida para a compreensão da realidade mais abrangente do Estado patrimonial, que é constituído essencialmente pelo alargamento de uma autoridade patriarcal originária, que se estende sobre territórios, pessoas e coisas extra-patrimoniais, enxergando-os como instâncias domésticas. Sem a compreensão prévia da realidade da Casa Grande e do Latifúndio que a acompanha, não se pode entender cabalmente a evolução centrípeta do Estado patrimonial brasileiro. As sociologias calcadas em arquétipos dicotômicos, como a marxista, não conseguem enxergar esse universo nuclear, magistralmente estudado por Freyre e Oliveira Vianna.
Conclusão
Tentei caracterizar, ao longo deste trabalho, as sociologias de Gilberto Freyre e Oliveira Vianna, como originais contribuições que fogem à moda dicotômica, por onde enveredaram no Brasil as ciências sociais, e que conseguem elaborar tipologias inspiradas na nossa história, a fim de compreender o processo nuclear e centrípeto da formação sócio-política brasileira, a partir do patriarcalismo. Aproximei a sociologia de ambos os autores do modelo de pesquisa axiológica desenvolvido por Max Weber, destacando a valiosa contribuição prestada por eles às ciências sociais no nosso meio, lhes permitindo um arejamento humanístico, interdisciplinar e crítico do positivismo. Em que pese a insubstituível contribuição teórica de Freyre e de Oliveira Vianna, as suas tipologias atrelam-se ainda demais ao nosso meio rural. O Brasil posterior a 1970 tornou-se maioritariamente urbano. Muito esforço criativo deverá ser feito daqui para frente, no sentido de traduzir em novos conceitos sociológicos os profundos câmbios que afetam à nossa realidade. Freyre e Oliveira Vianna serão superados em não poucos aspectos das suas tipologias. Mas deverá permanecer, como norte que guie aos novos estudiosos, a sua inspiração interdisciplinar e culturológica, aberta à história em toda a sua complexidade e crítica de todos os dogmatismos.





NOTAS

[1] O conceito é de Wanderley-Guilherme dos Santos. Por "Matriz Ideológica", o autor entende "a preocupação de analisar os textos brasileiros de reflexão social com o objetivo explícito de buscar sua caracterização conceitual própria, independentemente dos azares conjunturais da empiria. Não se trata de afirmar que a empiria histórica é irrelevante para a formação do pensamento social, nem que esse mesmo pensamento não se refira em algum momento ao transcurso histórico. Apenas se reivindica a diferenciação e análise conceitual como procedimentos legítimos e necessários na apropriação adequada dos determinantes estritamente conceituais do presente" (Wanderley-Guilherme dos Santos, Ordem burguesa e liberalismo político, São Paulo: Duas Cidades, 1978, pg. 25).
[2] Santos, Wanderley-Guilherme dos. Ordem burguesa e liberalismo político. Ob. cit., pg. 44-45.
[3] Santos, Wanderley-Guilherme dos. Ordem burguesa e liberalismo político. Ob. cit., pg. 48-49.
[4] Duvignaud, Jean. "Gilberto Freyre, sociólogo humanista". In: Gilberto Freyre na Un. B. Conferências e comentários de um simpósio internacional, realizado de 13 a 17 de outubro de 1980. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981, pg. 69-70.
[5] Vianna, Francisco José de Oliveira. Evolução do povo brasileiro. 4ª edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, pg. 26-27.
[6] Cf. Vianna, Francisco José de Oliveira. Evolução do povo brasileiro. Ob. cit., pg. 399.
[7] Vianna, Francisco José de Oliveira. Evolução do povo brasileiro. Ob. cit., ibid.
[8] É palpável o interesse crescente pelo estudo do pensamento sociológico de Gilberto Freyre e Oliveira Vianna. Dissertações de mestrado e  Teses de doutorado nas Universidades, artigos, foros de debates, livros publicados testemunham essa mudança. Em relação a Gilberto Freyre, frisava assim o padre Fernando Bastos d'Avila, no Simpósio Internacional sobre o sociólogo pernambucano, promovido em 1980 pela Universidade de Brasília: "Por isso atribuo o sentido de uma verdadeira consagração ao espírito ocorrido no último Congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), quando me pareceu que a juventude descobria Gilberto Freyre. Os congressos da SBPC têm sido oxigenados por ciclones juvenis e, no último desses ciclones, deu-se o encontro de Gilberto Freyre com a juventude. Símbolo comovente, que hoje se repete neste auditório,  e que transfere para o cenário acadêmico o fenômeno que o próprio Gilberto Freyre, na sua obra Além do apenas moderno, já havia detectado no cenário familiar. Sobre o vão central da geração adulta, parece existir uma misteriosa comunicação, uma secreta cumplicidade entre as gerações por ela separadas. Vejo no fato o sentido humanista  da perenidade de um autor e de uma obra na qual começam a se reconhecer os jovens, esses contemporâneos do futuro" (Avila, Fernando Bastos de,  "Gilberto Freyre e o desafio da cultura tropical", In: Gilberto Freyre na Un. B., ob. cit., pg. 79). No caso de Oliveira Vianna, aconteceu movimento semelhante a partir dos anos 80. Começaram a aparecer estudos que, de forma desapaixonada, tentam analisar o pensamento sociológico do grande cientista fluminense. Cito alguns deles:  Queiroz, Paulo Edmundo de Souza, Sociologia política de Oliveira Vianna,  São Paulo: Convivio, 1975; Paim, Antônio, Oliveira Vianna de corpo inteiro, Londrina: CEFIL, 1989; Vélez Rodríguez, Ricardo, Oliveira Vianna e o papel modernizador do Estado Brasileiro (tese de doutorado defendida una Universidade Gama Filho em 1982 e publicada, sob o mesmo título, pela Editora da Universidade Estadual de Londrina, em 1997). De outro lado, tem sido empreendida a reedição da obra de Oliveira Vianna, sendo de destacar as seguintes publicações: Populações meridionais do Brasil e Instituições políticas brasileiras, 1ª edição num único volume, (introdução de Antônio Paim), Brasília: Câmara dos Deputados, 1982; Instituições políticas brasileiras; Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1987, 2 volumes; Populações meridionais do Brasil; Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1987, 2 volumes; História social da economia capitalista no Brasil, Belo Horizonte: Itatiaia; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1987, 2 volumes; Ensaios inéditos, Campinas: Unicamp, 1991.
[9] É o caso, por exemplo, das obras de Evaldo Amaro Vieira, Autoritarismo e corporativismo no Brasil: Oliveira Vianna & Companhia (2ª edição, São Paulo: Cortez, 1981) e de José Nilo Tavares, Autoritarismo e dependência: Oliveira Vianna e Alberto Torres (Rio de Janeiro: Achiamé, 1979), que reduzem a obra do sociólogo fluminense, ora à defesa incondicional do Estado corporativo, ora à apolotia do autoritarismo tout-court, ou das teses racistas do conde Gobineau. Já no sentir de Philippe C. Schmitter, em seu livro Interest Conflict and Political Change in Brazil, "a obra de Oliveira Vianna não é estudada hoje, talvez, por motivo de sua associação com o pensamento racista corporativista no período de 1920 a 1930" (citado por  Queiroz, Paulo Edmundo de Souza in: Sociologia política de Oliveira Vianna, ob. cit., pg. 7). No que concerne aos preconceitos sofridos pela obra de Gilberto Freyre, o padre Bastos d'Avila lembra as radicais críticas de origem clerical, endereçadas ao sensualismo tropical de Casa Grande  e Senzala (Avila, Fernando Bastos de, "Gilberto Freyre e o desafio da cultura luso-tropical, ob. cit., pg. 77). A radical crítica "progressista" contra a obra do autor pernambucano, poder-se-ia ilustrar deliciosamente com o seguinte testemunho do próprio Gilberto Freyre: "(...) igual indignação foi a de antropólogos convencionais, à qual se juntaram incompreensões de antropólogos também fechados em antropologismos superados. Protestos de moralistas ao mesmo tempo que patriotas. Um desses  -  antes e depois desse seu efêmero furor contra mim -  amigo por mim querido e admirado. Admiradíssimo: Vicente do Rego Monteiro. Pois o grande modernista da pintura brasileira, em certo momento,  bradou contra o para ele, em certo momento, terrivelmente perigoso Casa Grande e Senzala (...).  Tanto que chegou a este extremo: o de clamar para que o livro fosse queimado em praça pública (...). Igual atitude teve contra o octogenário (...) o também renovador modernista (...) Oswald de Andrade, a quem, por algum tempo, dei a impressão de vir corrompendo a mocidade brasileira com um, para ele,  reacionarismo contrário a quanto fosse modernismo e progressismo messiânicos. De tal modo indignou-se com a minha presença, para ele de todo perniciosa, na cultura brasileira, que ao noticiar-se a morte, em combate, pela polícia nordestina, do então famoso Lampião, exclamou: Não adianta. Mataram Lampião mas Gilberto Freyre continua vivo" (Freyre, Gilberto, "Menos especialista que generalista", in: Gilberto Freyre na Un. B., ob. cit., pg. 149). 
[10] Bendix, Reinhard.  Max Weber, um perfil intelectual. (Tradução de Elisabeth Anna e José Viegas Filho. Apresentação de Vamireh Chacon).  Brasília: Editora da Universidade de Brasília., 1986, pg. 362.
[11] Chacon, Vamireh. "Uma weberiana brasileira". Apresentação à obra, já citada, de Reinhard Bendix, Max Weber, um perfil intelectual, pg. 11.
[12] Barbu, Zevedei. "A contribuição de Gilberto Freyre à sociologia histórica". In: Gilberto Freyre na Universidade de Brasília, ob. cit., pg. 50-51.
[13] Cf. Vélez Rodríguez, Ricardo. "A idéia de cultura em Oliveira Vianna". In: Convivium, art. cit., nota 1.
[14] Barbu, Zevedei. "A contribuição de Gilberto Freyre à sociologia histórica". Artigo citado, pg. 54.
[15] Barbu, Zevedei, "A contribuição de Gilberto Freyre à sociologia histórica". Artigo citado, pg. 58.
[16] Barbu, Zevedei. "A contribuição de Gilberto Freyre à sociologia histórica". Artigo citado, pg. 57-58.
[17] Barbu, Zevedei. "A contribuição de Gilberto Freyre à sociologia histórica". Artigo citado, pg. 59.
[18] Barbu, Zevedei. "A contribuição de Gilberto Freyre à sociologia histórica". Artigo citado, pg. 52-53.
[19] Viana, Francisco José de Oliveira. Instituições políticas brasileiras. 3ª edição, Rio de Janeiro: Record, 1974, vol. I, pg. 74. Os grifos são do autor.
[20] Vianna, Francisco José de Oliveira. Instituições políticas brasileiras. Ob. cit.,  vol I, pg. 74.
[21] Vianna, Francisco José de Oliveira. Instituições políticas brasileiras. Ob. cit., vol. I, pg. 297.
[22] Freyre, Gilberto. Casa Grande e Senzala. 25a edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.
[23] Edição citada, 1974.
[24] Chacon, Vamireh. "Uma fenomenologia de Gilberto Freyre". In: Gilberto Freyre na Un. B., ob. cit., pg. 83.
[25] Briggs, Asa. "Gilberto Freyre e o estudo da história social". In: Gilberto Freyre na Un. B., ob. cit., pg.  30. 
[26] Barbu, Zevedei. "A contribuição de Gilberto Freyre à sociologia histórica". In: Gilberto Freyre na Un. B., ob. cit., pg. 60.
[27] Freyre, Gilberto. Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da Economia Patriarcal. 25ª edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 1987, prefácio à 1ª edição, pg. IX.
[28] Freyre, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Ob. cit., pg.  XIII-XIV.
[29] A tipologia sociológica de Oliveira Vianna acerca da formação política brasileira, encontra-se fundamentalmente nas suas obras Populações meridionais do Brasil e Instituições políticas brasileiras (primeira edição num único volume. Prefácio de Antônio Paim, Brasília: Câmara dos Deputados, 1983, coleção "Pensamento Político Republicano"). Cf. Ricardo Vélez Rodríguez, Oliveira Vianna e o papel modernizador do Estado brasileiro. (Prefácio de Antônio Paim). Londrina: editora da UEL, 1997.
[30] Cf. Paim, Antônio. Momentos decisivos da história do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2000, pg. 196-198.
[31] Cf. da minha autoria, Castilhismo, uma filosofia da República. (Prólogo de Antônio Paim). 2ª edição corrigida e acrescida. Brasília: Senado Federal, 2000, pg. 241-242.

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Juiz de Fora (Minas Gerais - Brasil) 31 de Janeiro de 2001