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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

NADA MENOS QUE TUDO NOS BASTIDORES DA LAVA-JATO



A obra de Rodrigo Janot intitulada: Nada menos que tudo: bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque, (com a colaboração dos jornalistas Jaílton de Carvalho e Guilherme Evelin, São Paulo: Planeta do Brasil, 2019, 256 p.) é um vivo depoimento acerca da Operação Lava-Jato. Testemunho tanto mais valioso quanto que o seu autor foi personagem central da mencionada quadra da nossa evolução política. A avaliação desse momento é de importância capital para o amadurecimento democrático do Brasil. A opinião pública precisa se debruçar sobre essa quadra da nossa história política, justamente para tirar da Lava Jato as lições que podem ajudar a amadurecer as instituições republicanas. 

É antiga a tradição do "parquet" ou ministério do Executivo que garante a informação, ao Estado, acerca dos desmandos que acontecem na administração pública. Em épocas de absolutismo, o "parquet" , como nos terríveis tempos do terror jacobino, após a Revolução Francesa (1789), chegou a se mimetizar com os próprios justiceiros. Ocorreu isso por força do pensamento de Rousseau (1712-1778), que, cioso de manter incólume a unanimidade ao redor do poder estabelecido, exagerou na dose da eliminação da dissidência, submetendo à guilhotina todos aqueles que discordassem do núcleo moralizador dos "puros", que encarnavam o interesse público. Os mais de 40 mil guilhotinados e os 300 mil camponeses assassinados pelos jacobinos na Vendeia, nessa época, dão testemunho da irracionalidade que reveste a ação daqueles que querem governar partindo da unanimidade ao redor dos detentores do poder. Saint-Just (1767-1794), o "anjo da morte" e o seu inspirador, Robespierre (1758-1794), foram gestores e vítimas, ao mesmo tempo, da implacável máquina de descabeçar opositores. A tragédia se repetiria, multiplicada em número de vítimas, nas aventuras totalitárias do século XX, ao ensejo do comunismo e do nazi-fascismo.

Mas a tradição do "parquet" encontrou, ulteriormente, na França e alhures, civilizadas modalidades, no seio do constitucionalismo moderno. No Brasil do século XXI, não há dúvida de que a atuação do "parquet", ou Ministério Público, estabelecido pela Constituição de 1988, foi fundamental para o sucesso da Operação Lava-Jato, que desmontou a máquina de corrupção instalada pela engenharia da ladroagem do PT e comparsas.

Mas também é claro que existem, hoje, no panorama político, várias tendências que visam a desmoralizar a Operação Lava Jato, como um entrave à normal evolução da política brasileira. Rodrigo Janot endereça o seu depoimento ao público em geral, com a finalidade de ajudar na reflexão que a sociedade deve fazer em torno ao fenômeno da corrupção. A respeito, frisa: "De toda forma, espero sinceramente que os casos trazidos à luz ajudem na reflexão sobre corrupção, política e responsabilidade individual na construção de uma nova sociedade" [p. 11]. Não se trata, portanto, de invalidar as instituições republicanas, como se pudesse ser erguida uma barreira jurídica contra a prática da política. Trata-se, simplesmente, de uma contribuição à reflexão dos cidadãos sobre as instâncias que possibilitam, no Brasil, o combate à corrupção. 

O apoio decidido da opinião pública à Operação Lava-Jato.

A primeira coisa que salta à vista, é que a Operação Lava-Jato foi amplamente apoiada pela opinião pública, até o ponto de que mudou a percepção da tradicional prática política, que fazia da coisa pública uma mistura entre saque ao tesouro e interesses dos atores mais poderosos: políticos profissionais e empresários corruptos. Todos esses atores estavam dispostos a avançar sobre o dinheiro da Nação, mediante fajutas  operações nas quais, sob a fachada de obras públicas, disfarçava-se o enriquecimento ilícito, a fim de abastecer os bolsos dos empresários inescrupulosos e de comparsas políticos, dispostos a qualquer coisa para se locupletarem a partir do erário.

A Operação Lava-Jato cercou aqueles que, segundo as provas, participavam do saque indiscriminado ao Tesouro. O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi, de longe, a figura mais forte em termos dos obstáculos colocados em funcionamento para impedir o avanço das investigações. 

A respeito, escreve Janot: "De todos os investigados por nosso grupo de trabalho da Lava Jato em Brasília, Eduardo Cunha foi, de longe, o que mais opôs resistência ao trabalho do Ministério Público. Tivemos dificuldades com Fernando Collor, com Renan Calheiros e com muitos outros. Mas nenhum deles nos pareceu tão atrevido e tão influente quanto Cunha - nem mesmo Temer, investigado e denunciado quando ainda era presidente da República. Ao longo das investigações, Cunha conseguiu colocar contra a Procuradoria-Geral o vice-presidente da República, um ex-presidente da Câmara, um ex-procurador-geral, duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI da Petrobrás e CPI da JBS) e uma bancada de fiéis e agressivos deputados, boa parte deles do Centrão, que ainda hoje, dá as cartas no Congresso Nacional. Curiosamente, as investigações sobre o ex-deputado foram as mais rápidas e eficientes que fizemos. Em um ano e sete meses de investigação, ele foi afastado da presidência da Câmara, teve o mandato cassado e terminou preso em Curitiba. Foi uma virada de página no caso Petrobrás e uma mudança nos rumos do país" [p. 101].

O papel do Ministério Público é, para Janot, apenas o de um auxiliar da Justiça. Frisa a respeito: "O Ministério Público é o braço acusador do Estado. Nosso papel é investigar, denunciar e brigar pela punição de quem fere a lei. Nada além disso" [p. 251].

Parte da crise pela qual enveredou o Ministério Público recentemente decorre, a meu ver, do fato de alguns Promotores - como no caso da Operação Lava-Jato em Curitiba - terem tentando ampliar a sua função para além de ser "o braço acusador do Estado", passando a fixar normas a serem levadas em consideração pelo eleitorado, função que caberia ao Legislativo ou à Justiça Eleitoral. Aqui se inseririam os "dez preceitos" indicados pelos Promotores para moralizar a representação.

"Quem tem medo não pode ser investigador" - Pressão dos corruptos sobre o Ministério Público.

As investigações do Ministério Público contra Cunha não foram fáceis. Rodrigo Janot confessa que ele e os seus colaboradores enfrentaram uma personalidade capaz de qualquer coisa para paralisar os trabalhos. A intimidação provocada por Cunha e os seus sequazes tornou-se visível no caso da advogada Beatriz Catta Preta, a fim de que ela fosse depor em favor de Cunha, na CPI da Petrobrás. Deputados amigos do presidente da Câmara a pressionaram ameaçando-a. "Mesmo sabendo que poderia contar com a proteção do Estado brasileiro, ela preferiu mudar-se com a família para os Estados Unidos, para manter distância de Cunha e seus aliados", frisa Janot [p. 97]. Um dos colaboradores de Cunha, Lúcio Bolonha Funaro, no melhor estilo mafioso, ameaçou tocar fogo no apartamento de Catta Preta, com ela e os filhos dentro.

A pressão sobre os membros do Ministério Público era constante e terminou gerando uma onda de ameaças, que se traduziram em mudança de hábitos dos investigadores e de reforço ao compromisso deles em prol da manutenção das ações iniciadas contra a bandidagem instalada no coração do Estado. Assim se refere Janot a esse clima de insegurança e apreensão: "É preciso ter uma atuação reta. Se começa a colocar outros ingredientes na sua decisão, que não seja a decisão técnica, aquela que deve ser tomada, você se ferra. Se abrir exceção para um, vai ter que abrir exceção para todo mundo. Nós sabíamos que Cunha era ousado e tinha ligações estranhas. Ouvíamos até que ele tinha ligação com um grupo de extermínio do Rio. Por isso, tínhamos porte de arma e andávamos com proteção. Mas receio do ex-deputado? Não. Ninguém da equipe tinha receio dele. É necessário enfrentar esse tipo de problema. Quem tem medo não pode ser investigador" [p. 98].

A verdade é que a atuação dos membros do Ministério Público cobrou deles, na sua vida particular, uma enorme conta, por força das continuadas tensões emocionais vividas ao ensejo da realização das suas várias missões. O próprio Janot dá conta da pesada dívida existencial que teve de pagar, por conta das tensões continuadas à frente da PGR. No capítulo intitulado: "Nada será como antes", o autor afirma: "Em janeiro de 2018, quatro meses depois do fim do meu segundo mandato como procurador-geral, eu estava morando sozinho num apartamento de 57 metros quadrados em Bogotá.  Tinha me separado da minha mulher em outubro do ano anterior e resolvera aproveitar um convite da Universidad de los Andes para mudar de ares. Também tinha perdido temporariamente o contato com antigos interlocutores da esquerda, da direita, do centro, de todos os quadrantes políticos. Alguns eram amigos, outros nem tanto. Vários estavam, de algum modo, insatisfeitos comigo. (...). As críticas eram sempre as mesmas, mas com sinais trocados. O rigor deveria ser sempre aplicado aos investigados de campos ideológicos opostos. (...) Infelizmente, o compadrio e o jeitinho ainda são traços fundamentais da nossa cultura" [p. 239]. 

Arrependimento do trabalho feito na Procuradoria? Não. Janot é enfático a respeito: "Um amigo, que conhece um pouco esse meu ponto de vista (de luta contra a corrupção, qualquer que seja a sua manifestação), me perguntou se, sendo assim, valera a pena tanta luta. Eu digo que sim. Digo mais, até: faria tudo de novo, igualzinho ao que fizemos todos esses anos. E olha que comemos o pão que o diabo amassou. Em quatro anos de Procuradoria Geral, vivemos quatro décadas. Engordei, envelheci e, confesso, perdi e recuperei as esperanças algumas vezes. Era um carrossel sem direito a descanso. (...) No centro do poder, a luta é diária. A trégua é só a preparação para a batalha seguinte. Comigo e com a minha equipe foi assim. Trabalhávamos em média de doze a quatorze horas por dia. Não poucas vezes, o trabalho avançava pelos fins de semana e feriados. A Lava Jato nos absorveu de tal forma que era impossível parar (...). [p. 242-243].

Isso sem levar em consideração a segurança pessoal, que obrigou o Procurador-Geral a fazer curso de tiro, andar armado e se submeter ao tedioso hábito de ele, e a sua família, consultar a equipe de segurança para qualquer deslocamento.

Uma ironia da história. O bravo Procurador Janot, uma vez relevado do seu cargo, foi vítima, em Bogotá, da traquinagem de reles larápios, os famosos "cacos bogotanos". Eis a narrativa do fato pelo próprio Janot: "Eu acabara de sair do hotel Rosales, onde me hospedara inicialmente, e estava fazendo uma caminhada em direção ao Museu do Ouro. Estava relaxado. Era a primeira vez em muito tempo que caminharia pelas ruas de uma grande cidade sem o risco de ser interpelado por um investigado ou abordado por um jornalista (...). Era a primeira vez em quatro anos que eu poderia andar nas ruas sem segurança e com a tremenda sensação de liberdade. De repente, um transeunte se aproximou de mim e me perguntou, de uma forma confusa, se eu sabia onde poderia fazer 'câmbio'. Ele era da Venezuela e precisava de dinheiro local. Aquilo me soava como o apelo de um refugiado gritando por uma ajuda mínima. Eu respondi que não sabia, que tinha acabado de chegar do Brasil e não conhecia bem a cidade, e segui a minha caminhada. Caminhando ao meu lado, o rapaz apontou para um outro homem parado na esquina, a quem foi pedir informação. 'Onde posso fazer cambio aqui?', o venezuelano perguntou. 'Vocês são estrangeiros? Estão juntos?', respondeu o homem, que sacou uma carteira e se identificou como policial federal. Antes que pudéssemos responder claramente, ele pediu passaportes, fez uma bateria de perguntas e decretou: 'Vocês terão de me acompanhar até a delegacia!' Eu estava em situação regular, mas 'meu amigo venezuelano' não, porque deixara o passaporte no hotel, conforme a versão dele. Portanto, o 'policial federal' teria que registrar o caso numa delegacia a 50 metros dali, e nós deveríamos acompanhá-lo. Achei tudo muito estranho, mas só me dei conta de que tinha caído numa arapuca quando, a caminho da tal delegacia, entramos numa rua secundária e isolada. (...). Antes que eu esboçasse qualquer reação, o 'venezuelano' botou a mão embaixo do casaco para mostrar que estava armado. Entendi que não era o caso de testar a verdade. Eram dois ladrões, e eu não sabia o que poderiam fazer comigo se descobrissem que estavam diante de um 'fiscal da lei'. Sem maiores negociações, eles pegaram as notas de peso e o celular que encontraram no bolso da minha camisa e sumiram em segundos. Voltei à via principal, Carrera Sétima, e relatei o fato a um policial fardado. Ele disse que tentaria localizar os larápios, mas deixou claro que era muito difícil fazer algo contra esse tipo de vigarice. Aquilo era inacreditável. Depois de passar tantos anos enfrentando criminosos no Brasil, eu fora trapaceado por dois malandros de rua em Bogotá. Que humilhação!"[p. 240-242].

Os processos contra os corruptos.

Os indícios contra Eduardo Cunha foram assim sintetizados por Janot: "(...) No início, quando o ministro Teori Zavascki autorizou a abertura do primeiro inquérito contra Cunha, tínhamos apenas o depoimento em que o doleiro Alberto Youssef relatava o pagamento de US$ 5 milhões a Cunha a pedido do lobista Júlio Camargo. Parte do pagamento teria sido intermediada pelo lobista Fernando Baiano, inclusive com remessas ao exterior. A confissão do doleiro era explosiva, mais do que o necessário para abrir um inquérito, mas não suficiente para sustentar uma acusação formal. Youssef tinha falado sobre um requerimento de informação usado na Comissão de Fiscalização da Câmara para pressionar Camargo a pagar parte da propina a Fernando Baiano. O suborno total seria de US$ 40 milhões. Era a 'comissão' cobrada para induzir a diretoria internacional, comandada por Nestor Cerveró, a adquirir, sem licitação, dois navios-sondas da Samsung Heavy Industries, um negócio de 1,2 bilhão. Detalhe: Cerveró fechou o negócio sem o devido estudo de comprovação da necessidade dos dois navios. Ou seja, ao que tudo indica, a compra bilionária seria um meio de justificar a propina (partilhada entre Cunha, Baiano,  Cerveró e Júlio Camargo), e não o contrário. Enfim, uma estranha inversão de prioridade, inclusive nesse mundo pantanoso da corrupção" [p. 101-102].

A prova necessária para instruir o processo contra Cunha foi a cópia do requerimento de informação usado na Comissão de Fiscalização da Câmara, que teria saído do computador do presidente da Casa. O diretor da Câmara recebeu, então, a visita dos membros do Ministério Público. Tentou obstaculizar a entrega da cópia, alegando que precisaria dar ciência a Eduardo Cunha. O chefe da equipe do Ministério Público orientou, então, o oficial de Justiça a registrar detalhadamente o que estava acontecendo "porque aquilo poderia dar ensejo a um pedido de prisão". Com medo das sanções penais, o diretor da Câmara entregou o documento requerido.

A respeito, Janot frisa: "Diante do requerimento de chantagem, Júlio Camargo, que praticamente ignorou Cunha na delação, decidiu refrescar a memória e, num detalhado depoimento, confirmou a tentativa de extorsão, o pagamento da propina e a agressividade do deputado na cobrança do suborno. Pelo que entendi, o lobista tinha medo físico do parlamentar. A delação de Camargo foi ampliada com a colaboração de Fernando Baiano, que, espremido pelas evidências, também concordou em contar como se utilizara dos serviços de Cunha para cobrar o restante da propina de Camargo" [p. 105].

Apesar das articulações efetivadas pelo deputado Eduardo Cunha para paralisar as investigações do Ministério Público, foi possível enquadrá-lo dentro dos rigores da lei. A propósito, frisa Janot: "Apresentamos a primeira denúncia contra Cunha por corrupção e lavagem de dinheiro em 20 de agosto de 2015. Quatro meses depois, com mais informações coletadas, pedimos o afastamento do deputado da presidência da Câmara. Em março, o STF abriu processo contra o presidente da Câmara. Três meses depois, ele foi afastado da presidência" [p. 107].

A prisão de Cunha mudou radicalmente o panorama político. "Com Cunha na Câmara, frisa Janot, Bolsonaro não seria presidente". O ex-diretor da Procuradoria Geral arrisca a seguinte hipótese: "Se tivesse sobrevivido à investigação, Eduardo Cunha, e não Jair Bolsonaro, teria sido eleito presidente do Brasil nas eleições de 2018" [p. 98]. Janot explica o seu palpite da seguinte forma: "Agora, quando escrevo este livro [entre dezembro de 2018 e o primeiro semestre de 2019], ninguém mais parece se lembrar, mas em 2015, antes de receber o carimbo de corrupto e mentiroso, Cunha vinha recebendo crescente apoio do empresariado, dos evangélicos e dos grupos de direita que lideravam grandes manifestações contra a corrupção. Bolsonaro só passou a catalisar o sentimento anti-PT, que se traduzia nos protestos contra a corrupção na Petrobras, depois que Cunha perdeu o mandato, foi preso e saiu de cena. Nesse sentido, não seria errado dizer que Bolsonaro também deve parte da vitória na eleição presidencial ao sucesso da investigação contra Cunha, o que não deixa de ser um contrassenso no contexto geral. Isso porque o PP, onde militou Bolsonaro por longos anos, foi o partido, em termos numéricos, mais atingido pela Lava Jato. Foi o PP quem indicou Paulo Roberto Costa para a diretoria de Abastecimento e, com isso, instituiu na Petrobrás a cobrança sistemática da propina vinculada a contratos da estatal e empreiteiras. Parlamentares do partido recebiam regularmente uma mesada, que em alguns casos chegava a R$ 150 mil, en troca do apoio a Costa. Bolsonaro foi um dos poucos do partido não mencionados nas delações do ex-diretor e do doleiro Alberto Youssef" [p. 98-99].

O autor expõe em detalhe os processos levantados contra figuras importantes da política brasileira como o senador Delcídio do Amaral e o ex-presidente Lula. As diferenças com a equipe de Procuradores da Lava Jato em Curitiba (chefiada por Deltan Dallagnol) ocorreram pelo fato de eles terem desconhecido a ordem expressa do ministro Teori Zavascki, do STF, no sentido de excluir a possibilidade de a equipe de Curitiba investigar e denunciar Lula por crime de organização criminosa, que seguia no Supremo. Ora, a denúncia por organização criminosa era essencial para Lula ser acusado de lavagem de dinheiro, como queriam Dallagnol e a sua equipe.


Em que pese essa diferença entre a PGR e a turma de procuradores de Curitiba, a equipe de Janot continuou com o seu trabalho. A respeito, frisa o ex-procurador: "(...) Fiz as denúncias conforme os critérios estabelecidos inicialmente, embora a ordem das acusações tenha sofrido uma ligeira alteração. E, em 1º de setembro de 2017, denunciamos o quadrilhão do PP. Quatro dias depois, fizemos uma denúncia por organização criminosa contra Lula e outros do PT, ou seja, quase um ano após a denúncia da força-tarefa de Curitiba. Em 8 e 14 de setembro, protocolizamos as denúncias contra o PMDB do Senado e da Câmara. A troca da ordem, uma diferença de poucos dias, se deveu tão somente ao andamento natural das investigações" [p. 185]. "Em suma - conclui Janot -, eu não poderia corrigir uma falha de Curitiba colocando em risco meu trabalho e, mais do que isso, quebrando a máxima de nunca tomar qualquer decisão que não fosse amparada na regra geral, técnica e impessoal" [p. 185-186].

Ponto alto das investigações da PGR foi a gravação que o empresário Joesley Batista fez do Presidente Temer no Palácio Jaburu. A respeito, escreve Janot: "Com a artilharia crescendo em nossa direção, tivemos que trabalhar em dobro, a inda mais rápido. Rocha Loures e outros réus estavam presos. Tínhamos prazos curtos a cumprir. Rocha Loures foi preso em 3 de junho [de 2017], depois que perdeu a vaga a deputado com o retorno de Osmar Serraglio à Câmara. Em 26 de junho, pouco mais de um mês depois das primeiras buscas, denunciamos o presidente da República e o ex-assessor especial por corrupção. Para nós, o crime estava devidamente caracterizado nas imagens de Rocha Loures recebendo a mala com R$ 500 mil de Ricardo Saud. A entrega da mala era o primeiro resultado concreto da conversa de Temer com Joesley Batista no Jaburu e das incursões de Loures pelo governo para atender os interesses do empresário. Era um caso com ciclo completo Na primeira cena, o presidente se reúne com um empresário às escondidas e indica um interlocutor de confiança, autorizado a tratar de qualquer assunto. No momento seguinte, o empresário se encontra com o assessor e apresenta um pedido de favores para uma de suas empresas. Na terceira etapa, o assessor recebe uma mala de dinheiro e sai correndo com a fortuna pelas ruas de São Paulo. Um roteiro de cinema não poderia ser mais completo e simples". 

"Como se não bastasse - continua Janot -, relatório da Polícia Federal sobre a primeira fase do inquérito contra Temer seguia na mesma direção. 'Diante do silêncio do mandatário maior da Nação (Michel Temer) e de seu ex-assessor especial (Rocha Loures), resultam incólumes as evidências que emanam do conjunto informativo formado nestes autos a indicar, com vigor, a prática de corrupção passiva', concluiu o delegado Marlon Cajado. A denúncia teve forte impacto. Afinal, pela primeira vez na história, um presidente da República era denunciado por corrupção em pleno exercício do mandato. Alguns diziam que a acusação formal da Procuradoria-Geral seria o fim do governo. Outros insistiam na tese do açodamento. Outros ainda diziam que o procurador-geral deveria ter esperado um pouco mais (quanto tempo?) para fazer uma denúncia de tamanha envergadura. (...) Temer chegou a insinuar que minha atuação tinha como objetivo final alguma vantagem financeira (...)" [p. 218-219].

Janot relata a perseguição de que foi vítima, através de ataques contra a honra do irmão falecido e contra a filha Letícia, cheias de insinuações maldosas. "Num dos momentos de dor aguda - confessa -,  de ira cega, botei uma pistola carregada na cintura e por muito pouco não descarreguei na cabeça de uma autoridade de língua ferina que, em meio àquela algaravia orquestrada pelos investigados, resolvera fazer graça com a minha filha. Só no houve o gesto extremo porque, no instante decisivo, a mão invisível do bom senso tocou meu ombro e disse: não" [p. 216]. Pouco antes do lançamento do seu livro, no segundo semestre de 2019, o próprio Janot, em entrevista à imprensa, confessou que a mencionada autoridade era o ministro Gilmar Mendes.

Para Janot, tentar jogar pelo chão a denúncia do Ministério Público contra o Presidente Temer, equivaleria a rasgar o Código Penal. Resume assim as provas levantadas e sustentadas pela PGR: "Tínhamos a gravação da conversa incriminadora entre Temer e Joesley Batista na calada da noite no Jaburu. Tínhamos a gravação de Batista e Rocha Loures acertando o uso da estrutura do governo em benefício do empresário. E, por fim, tínhamos a corridinha com a mala de dinheiro pelas ruas de São Paulo. Se aquelas conversas escabrosas e aquela fuga do assessor do presidente com uma mala com R$ 500 mil não eram 'indícios' suficientes para se abrir um processo por corrupção, o crime deveria ser excluído do Código Penal" [ p. 221].

Conclusão: o que esperarmos do papel do Ministério Público em face da Operação Lava Jato?

A minha posição em face desse aspecto é clara: a Operação Lava Jato foi uma grande realização do Ministério Público, que em muito ajudou a clarear o nosso ambiente político, delimitando, com meridiana claridade, os lindeiros do que é permitido por lei e do que constitui prática criminosa.

O Ministério Público, ao ensejo dessa operação, agiu rigorosamente dentro dos marcos assinalados pela Lei, apresentando à Justiça provas para o julgamento de agentes públicos suspeitos e ulteriormente acusados de corrupção. Mas, de outro lado, teria faltado, aos arquitetos da Operação, fixar os limites temporais desse conjunto de ações. 

O próprio Rodrigo Janot assinala este aspecto, no seguinte comentário por ele tecido na Apresentação da obra: "Lembro-me (...) de uma profética conversa que tive com a deputada italiana Marina Sereni num jantar na embaixada da Itália, em 2015. Ela me fez três perguntas: 1 - 'O senhor ou alguém de sua equipe pretende disputar algum cargo político?'; 2 - 'O senhor já definiu o limite descendente, ou seja, até onde vão descer as investigações?' 3 - 'Já sabe quando o senhor vai terminar essa investigação?' - À primeira pergunta eu respondi com firmeza. Não me candidataria a nada, nem a síndico de prédio. As duas outras perguntas me pareceram estranhas. Como assim, definir limite de uma investigação? Como estabelecer prazo para concluir as apurações? A deputada me disse, então, que, ao ampliar demais as investigações e atingir pessoas comuns, a Operação Mãos Limpas, da Itália, perdeu o apoio da opinião pública, inflamada por 14 suicídios. Disse também que, se não encerrássemos de forma planejada a Lava Jato, uma 'mão externa' o faria por nós. Só hoje consigo entender o alcance daquelas palavras. Agora que vejo que esse movimento vasto, de múltiplas procedências, para 'estancar a sangria com o Supremo, com tudo' " [p. 10-11]. 


Os atuais movimentos do Supremo, no sentido de acabar com a prisão após a segunda instância, faz parte, certamente, desse "movimento vasto" a que se referia Janot. O caminho, hoje, para voltar à normalidade, parece complexo. Passa, a meu ver,  pela ação dos freios e contrapesos do Congresso da República sobre o Supremo, no caso específico da decisão de acabar com a prisão após a segunda instância. Só assim se garantiria a ação já executada pela Operação Lava Jato, sem anular os seus efeitos benfazejos ao atacar a corrupção no seu nascedouro. E se abriria a porta, também, para a definição de um limite temporal para a mesma. Nos atuais momentos, de perda de credibilidade do Supremo, esses limites temporais teriam de ficar por conta do Legislativo, que é o poder constitucional chamado a corrigir os desvios do STF.

Mesmo com as idas e vindas da política, uma lição ficou clara, para Janot, a partir da Operação Lava-Jato: nunca a vida será a mesma, de agora em diante, para os corruptos. A respeito, frisa: "A Lava Jato não acabou com a corrupção, mas mexeu significativamente em feudos políticos e econômicos. Os donos do poder foram tirados da eterna zona de conforto em que se encontravam. Não há, é verdade, a certeza de que todo poderoso que cometa um crime sofrerá algum tipo de punição. Mas também não há mais certeza de que não terá nenhum incômodo. O próprio Temer passou dois anos se escudando na Presidência da República, mas, tão logo deixou o cargo, foi preso duas vezes. Isso, para mim,  é uma mudança clara de paradigma. Uma mudança que, no futuro, será vista como um salto histórico. É perceptível também que o discurso da moralidade no serviço público foi incorporado por parte expressiva da população. Não existe mais espaço para velhos bordões do tipo 'rouba, mas faz', a expressão máxima do cinismo que predominava na velha política. O 'roubo' pode até acontecer, mas ninguém teria mais a coragem de se vangloriar publicamente de uma desonestidade operativa. O lema agora poderia ser outro. 'Faça e não roube', porque ninguém poderá alegar inocência. Ninguém poderá dizer que foi seduzido ou constrangido. O empresário não poderá culpar o político. O político não poderá culpar o financiador de campanha. Se uma empresa não puder ganhar uma concorrência, que mude de ramo. Se um político não consegue dinheiro legalmente para sua campanha, que não se candidate. Caso contrário, que admita o risco permanente da virada do jogo. Porque, depois de tudo que foi feito nos últimos cinco anos, nada será como antes" [p. 252-253].

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

WANDERLEY-GUILHERME DOS SANTOS (1935-2019, IN MEMORIAM)

O Professor Wanderley-Guilherme dos Santos (1935-2019). (Foto: skoob.com.br)

Faleceu recentemente, em 26 de outubro de 2019, no Rio de Janeiro, o cientista político Wanderley-Guilherme dos Santos. Nasceu no Rio de Janeiro em 1935, tendo concluído o curso de Filosofia nos anos 50. Dedicou-se ao magistério universitário na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, tendo se especializado na História da Filosofia. A agitação que tomou conta do país nas áreas política e cultural, levou-o a se interessar pelo estudo da problemática política brasileira. Com o advento do regime militar, viajou aos Estados Unidos, onde se doutorou em Ciência Política na Universidade de Stanford, tendo terminado os seus estudos em 1979.

Tornou-se um dos mais importantes cientistas políticos do Brasil, tendo-se dedicado à pesquisa e à docência no Instituto Universitário de Pesquisas da Universidade  Cândido Mendes (IUPERJ), no Rio de Janeiro. Lecionou, também, em outros centros de ensino superior, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se tornou titular de Ciência Política, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, tendo-se aposentado nesse cargo. Implantou e dirigiu o Laboratório de Estudos Experimentais (LEEX) da Universidade Cândido Mendes, onde também desempenhou o cargo de Pro-Reitor Acadêmico.

A sua produção intelectual, na seara da especialidade da Ciência Política, constitui um patrimônio bastante significativo. Estudou com afinco o fenômeno do autoritarismo no seio da sociedade brasileira, sendo da sua lavra a tipologia sociológica do "autoritarismo instrumental", para caracterizar os ciclos modernizadores do Estado brasileiro, fruto da insuficiente modernização da nossa sociedade, que ancorou em modelos de dirigismo paternalista. 

A respeito da modernização, considerava que ela tinha, no nosso meio, uma característica mitigada, que alcunhou de "autoritarismo instrumental", uma de cujas manifestações, no regime militar, foi o famoso adágio do general-presidente João Batista Figueiredo: "Juro fazer deste país uma democracia, e prendo e arrebento quem se opuser".

Tive a satisfação e o orgulho de contar com o professor Wanderley-Guilherme, como um dos examinadores da minha tese de doutoramento em Pensamento Luso-brasileiro na Universidade Gama Filho em 1982, que versou sobre o tema: "Oliveira Vianna e o papel modernizador do Estado brasileiro". No meu estudo, aproximei-me da obra do sociólogo fluminense Francisco José de Oliveira Vianna (1883-1951), a fim de aprofundar no sentido da modernização dirigista por ele proposta e que inspirou a ação de Getúlio Vargas (1882-1954) na sua volta ao poder no período 1951-1954.

Em 2007, o professor Wanderley-Guilherme foi nomeado pelo presidente Lula como membro do Conselho Curador da Rede Pública TV Brasil. Desempenhou as funções de Presidente da Fundação Casa Rui Barbosa no período compreendido entre 2011  e 2013.

Wanderley-Guilherme recebeu, ao longo de sua vida acadêmica, os seguintes reconhecimentos: Medalha Minerva (2004), Prêmio Literário na categoria Ensaio e História Literária, da academia Brasileira de Letras (2004), Prêmio Victor Nunes Leal de Ciência Política.  

Quando do seu falecimento, a Associação Nacional de Ciência Política publicou a seguinte nota: "Wanderley-Guilherme foi um dos principais responsáveis pela introdução da pós-graduação em Ciência Política no Brasil e é considerado, por muitos, como o maior cientista político do Brasil". 

Por sua vez, Míriam Pillar Grossi, presidente da Associação Nacional de Pesquisa em Ciências Sociais, lembrou que Wanderley-Guilherme foi um dos fundadores e um dos primeiros presidentes da ANPOCS, tendo participado diuturnamente das atividades da mesma, ao longo dos seus 43 anos de existência. Frisou: "Há duas semanas, na comemoração dos 50 anos do IESP, o professor Wanderley-Guilherme fez a conferência final do evento. Pronunciou uma conferência brilhante e superatual, na sua reflexão sobre a produção de conhecimento no Brasil. Lotou o auditório. Vi, ali, o carinho que os ex-alunos do professor Wanderley-Guilherme têm por ele. A forma como eles reverenciaram o professor Wanderley, naquele dia, me emocionou muito".

Bibliografia de Wanderley-Guilherme dos Santos

Quem dará o golpe no Brasil? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1962, 98 p. (Cadernos do Povo Brasileiro, 15).


Introdução ao estudo das contradições sociais no Brasil. Rio de Janeiro: ISEB, 1963, 122 p.

Reforma contra reforma. Rio de Janeiro: Tempo /Brasileiro, 1963, 90 p. ( Coleção Brasil Hoje, 3).

Dialética e ciências sociais.  Rio de Janeiro: Zahar, 1967, 150 p. (Textos Básicos de Ciências Sociais).

Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo: Duas Cidades, 1978, 172 p. (Coleção História e Sociedade).

Poder e política: crônica do autoritarismo brasileiro.  Rio de Janeiro: Forense, 1978, 211 p.

Cidadania e justiça: a política social na ordem brasileira. Rio de Janeiro: Campus, 1979, 138 p. (Contribuição em Ciências Sociais, 1).

O limite do laissez-faire e os princípios do governo. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1983, 66 p. (Série Estudos, 14).

O século de Michels: competição oligopólica, lógica autoritária e transição na América Latina. Rio de Janeiro, 1984, 61 p.

Kantianas brasileiras: a dual-ética da razão política nacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, 93 p. (Coleção Estudos Brasileiros, 72).

Modelos endógenos de decadência liberal. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1984, 54 p. (Série Estudos, 21).

Sessenta e quatro: anatomia da crise. São Paulo: Vértice, 1986, 195 p.

Crise e castigo: partidos e generais na política brasileira. São Paulo: Vértice; Rio de Janeiro: IUPERJ, 1987, 208 p. (Grande Brasil Veredas, 5).

Política social e combate à pobreza. Rio de Janeiro: Zahar, 1987, 126 p.

Paradoxos do Liberalismo: teoria e história. São Paulo: Vértice; Rio de Janeiro: IUPERJ, 1988, 160 p. (Grande Brasil Veredas, 6).

Discurso sobre o objeto: uma poética do social.  São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Que Brasil é este? - Manual de indicadores políticos e sociais. São Paulo: Vértice, 1990, 261 p.

Dois escritos democráticos de José de Alencar: Sistema representativo, 1868. Reforma eleitoral, 1874. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1991, 122 p.

Razões da desordem. Rio de Janeiro: Rocco, 1993, 148 p.

Regresso, máscaras institucionais do liberalismo oligárquico. Rio de Janeiro: Ópera Nostra, 1994, 86 p.

Décadas de espanto e uma apologia democrática. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, 192 p.

Estudos sobre o Autor:

ABRANCHES, Sérgio. "As origens do estatismo".  Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24/04/1993.

BARRETTO, Vicente. "O Brasil entre o cinismo e o civismo". O Globo, Rio de Janeiro,30/05/1993.

CORRÊA, Marcos Sá. "Plebiscito sem causa". Veja, São Paulo, 28/04/1993, p. 7-9 (entrevista).

GASPARI Elio."Uma cabeça que bate contra a maré".  Veja, São Paulo,  18/05/1994,  p. 40-43.

MACEDO, Ubiratan. Os caminhos da democracia no Brasil. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1984 (tese de doutorado).

NEVES, Luiz Felipe Baêta. "Um douto tratado da ignorância"; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14/07/1990.

PAIM, Antônio. A querela do estatismo. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.

PAIM, Antônio. "SANTOS, Wanderley-Guilherme dos". In: Dicionário biobibliográfico de autores brasileiros. Brasília: Senado Federal. Salvador - Bahia: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, 1999, p. 437-439.

PAIM, Antônio. História das ideias filosóficas no Brasil. 5ª edição. Londrina: Editora da UEL, 1997.

VÉLEZ Rodríguez, Ricardo. Oliveira Vianna e o papel modernizador do Estado brasileiro. Londrina: Editora da UEL, 1997, p. 49-64.

VÉLEZ Rodríguez, Ricardo. Pensamento político brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Editora Clube da Aeronáutica, 2012, p. 10-15.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

TIAGO ADÃO LARA (1930-2019, IN MEMORIAM)


Faleceu recentemente, em Juiz de Fora, o amigo e pensador Tiago Adão Lara.  Tiago, ex-sacerdote salesiano, dedicou-se ao estudo do Pensamento Brasileiro. Nasceu na cidade de São Tiago, em Minas Gerais. Entre  1942 e 1950 cursou estudos no Seminário Salesiano de São João del Rei. Fez o curso de Teologia em Turim, na Itália (entre 1953 e 1957), tendo cursado, ulteriormente, a especialização em Filosofia na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica (1971). 

Cursou o Mestrado em Pensamento Brasileiro na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1976-1977) e, depois, fez o Curso de Doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro na Universidade Gama Filho (entre 1982 e 1983). Ao ensejo desse Curso, o conheci no Rio de Janeiro. Tiago foi membro do corpo docente da Faculdade de Filosofia, Ciências de Letras de São João del Rei, dirigida pelos padres salesianos. Foi professor, também, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (em Belo Horizonte). No início dos anos 80 entrou, por concurso público, como professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia, onde se aposentou em 1991.

Dedicou-se, nas últimas décadas, à pesquisa da História da Filosofia, com apoio das Universidades Federais de Uberlândia e de Juiz de Fora. Um dos temas mais caros ao pensamento de Tiago Adão Lara relacionou-se com a questão da Justiça, à luz da Teologia da Libertação, tema pelo qual passou a se interessar após a sua especialização em Filosofia na Universidade Católica de Louvain, um centro importante na divulgação e aprofundamento desse tipo de reflexão teológica, levando em consideração que dali surgiram vários dos grandes teóricos da mencionada Teologia, como o ex-padre Camilo Torres, na Colômbia. 

No Brasil, Tiago acompanhou de perto o Movimento dos Sem Terra, tendo dedicado ao mesmo vários dos seus ensaios no terreno da ética e da teologia. Embora simpatizante do MST, Tiago Adão Lara professou, sempre, um ideal de tolerância para com os que pensavam diferente dele. Assim, integrou-se, construtivamente e sem dificuldades, no grupo maior de pesquisadores e professores da Filosofia Brasileira, reunido pelos professores Antônio Paim, Leonardo Prota e José Maurício de Carvalho ao redor da temática das Filosofias Nacionais, em diálogo com a Filosofia Portuguesa contemporânea. Participou dos vários Colóquios Antero de Quental reunidos no Brasil pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, bem como de alguns dos Colóquios Tobias Barreto patrocinados pelo mesmo Instituto, em algumas Universidades portuguesas. Participou, outrossim, em Londrina, dos vários encontros de professores e pesquisadores da Filosofia Brasileira, organizados pelo saudoso Leonardo Prota, entre 1989 e 2003. 

Meus sentimentos para sua esposa, Maria Helena.

Bibliografia de Thiago Adão Lara.

As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo. São João del Rei: Faculdade Dom Bosco de Filosofia, 1977, 345 p.

Pombal e a cultura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Brasil-Portugal, Editora Tempo Brasileiro, 1982, 137 p. (Organizador, em colaboração com Antônio Paim).

História da Filosofia, do Renascimento aos nossos dias. 5ª edição. Petrópolis: Vozes, 175 p. (Coleção Caminhos da Razão no Ocidente).

Tradicionalismo católico em Pernambuco. Recife: Fundação Joaquim Nabuco / Editora Massangana, 1988, 161 p.

A filosofia nas suas origens gregas. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 1992, 231 p. (Coleção Caminhos da Razão no Ocidente).

A escola que não tive, o professor que não fui.  São Paulo: Cortez; Uberlândia: Editora da Universidade Federal de Uberlândia, 1996, 246 p.

A filosofia nos tempos e contratempos da Cristandade Ocidental. Petrópolis: Vozes, 1999.

Estudos sobre o Autor.

PAIM, Antônio. O estudo do pensamento filosófico brasileiro. 2ª edição. São Paulo: Convívio, 1986, p. 54-72.

PAIM, Antônio. "LARA, Tiago Adão".  In: Dicionário biobibliográfico de autores brasileiros. Brasília: Senado Federal; Salvador - Bahia: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, 1999, p. 264-265.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

DEMOCRACIA CONSENSUAL, DEMOCRACIA TOTALITÁRIA E ESTADO PATRIMONIAL NA AMÉRICA LATINA



Um dos grandes problemas enfrentados pela Humanidade, no limiar do século XXI, é o da violência. Em face dessa realidade, são fortes as tentativas de equacionar o problema à luz da velha fórmula absolutista: porquanto o bem mais prezado é a segurança, vamos garanti-la sacrificando outros bens, inclusive a liberdade. 

Esse é o cerne da questão que coloca a Democracia Deliberativa no centro do debate. Esta proposta teórica inspira-se diretamente em Rousseau, embora tenha também herdado elementos conceituais dos teóricos do absolutismo, iniciando com Maquiavel e seguindo com Bodin e o próprio Hobbes. A Democracia Deliberativa é, hoje, proposta por grupos politicamente corretos, alinhados à esquerda do panorama ideológico. Pretendo discutir os elementos essenciais que formam parte dessa proposta, ao redor da formulação feita pelo jurista e filósofo argentino Carlos Santiago Nino (1943-1993). Poderíamos aplicar, à proposta em apreço, a sentença da fabula esopiana: Peior medicina malo. Ou seja, o remédio resultou pior do que a enfermidade.

Na segunda parte, destacarei a forma em que a violência constitui um dos traços marcantes das sociedades latino-americanas, em decorrência, fundamentalmente, de uma variável cultural: a tradição patrimonialista. E mostrarei de que forma a adoção de mecanismos rousseaunianos (como a Democracia Deliberativa) contribui fortemente para um agravamento da situação, só sendo viável uma saída inspirada no liberalismo democrático.

Algumas considerações críticas acerca do conceito de Democracia Deliberativa

A problemática da democracia conheceu, na modernidade, duas versões: a unanimista e a consensual. A primeira foi sistematizada por Jean-Jacques Rousseau e repousa sobre os seguintes princípios: 1) a finalidade da vida em sociedade consiste em garantir a felicidade dos indivíduos; 2) somente será possível atingir a felicidade dos indivíduos em sociedade, se estes renunciarem à defesa dos seus interesses individuais; 3) como os indivíduos foram tornados egoístas pela sociedade, é necessário que uma minoria de puros, identificados com o bem público, os submeta a um banho catártico que os limpe das impurezas do individualismo; 4) a comunidade dos indivíduos despidos dos seus interesses individuais constitui a vontade geral; 5) nessa comunidade de homens puros vigora a unanimidade, sendo a dissidência considerada como um atentado à felicidade geral, devendo ser rigorosamente eliminada; 6) na organização do Estado deve ser levada em consideração a busca daquele modelo que melhor garanta a unanimidade.

Sabemos, pela experiência histórica, que o modelo rousseauniano terminou privilegiando regimes ditatoriais e, no século XX, totalitários. Esse seria o reino da paz perpétua, não no sentido liberal que Kant lhe deu, mas na acepção literal que o gênio de Könisberg viu inscrita na porta do cemitério da sua cidade, circunstância que o inspirou, aliás, na pergunta de se não haveria outra paz a que os seres humanos pudéssemos aspirar, diferente da dos túmulos.

A versão consensual da democracia foi sistematizada pelos pensadores liberais, notadamente Baruch Espinosa, John Locke, Immanuel Kant, Benjamin Constant de Rebecque, François Guizot e Alexis de Tocqueville. Os seus princípios são os seguintes: 1) a finalidade da vida em sociedade consiste em garantir aos indivíduos o gozo dos seus direitos inalienáveis à vida, à liberdade e às posses; 2) a partir do gozo desses direitos os indivíduos podem construir, cada um segundo as suas tendências, o seu projeto de felicidade, não havendo, para esta, uma fórmula única; 3) o exercício dos direitos inalienáveis dos indivíduos em sociedade traduz-se num aspecto material concreto: a legitimidade da luta em prol dos seus interesses materiais, que são essencialmente diferenciados, exigindo o pluralismo e a tolerância em face dos interesses dos outros; 4) não há, na sociedade, interesses individuais espúrios, sendo o único limite, na defesa dos próprios interesses, aquele exigido pelo respeito aos interesses dos outros; 5) na organização do Estado deve ser privilegiado aquele modelo que melhor se ajustar à representação dos interesses dos indivíduos, visto que, no mundo moderno, tornou-se praticamente impossível gerir os negócios públicos mediante a prática da democracia direta em assembleias; 6) nas sociedades modernas, de massas, a diferenciação de interesses conduziu à luta de classes, que passou a ser civilizada mediante a prática da representação e a institucionalização dos partidos políticos; as decisões são tomadas, no seio da sociedade pluralista, de forma consensual. Nos últimos dois séculos aperfeiçoaram-se os mecanismos eleitorais e a técnica parlamentar, visando a alargar a representação a todos os indivíduos da sociedade e a garantir a defesa dos interesses das minorias.

O mundo no qual Kant enxergava a possibilidade da paz perpétua era o da sociedade consensual, que possibilitasse a defesa dos interesses de todos. Somente haveria, para o pensador alemão, paz perpétua, quando imperasse, nos diferentes países, a República, ou seja, o governo representativo que respeitasse a liberdade e os interesses de todos os indivíduos, sem exclusão de ninguém e pondo em prática o imperativo categórico da transparência.

É por todos conhecido o desfecho que tiveram esses dois modelos no último século: consolidou-se no leste europeu, no oriente, na África e em alguns países da América Latina, um modelo de democracia totalitária, de tipo unanimista, com todas as caraterísticas avassaladoras sobre a liberdade individual, assinaladas pelo filósofo de Genebra. Diríamos que a humanidade viveu, entre 1917 e 1989, o século do totalitarismo, com os milhões de vítimas que causou a intolerância da vontade geral posta em mãos de minorias fanáticas. Mas, felizmente, o modelo consensual sobreviveu à loucura totalitária, constituindo, hoje, o ideal que atrai as atenções em boa parte do mundo. A onda liberal, que se espraiou pelo globo afora, foi uma das caraterísticas marcantes na virada do milênio.

Paralelamente ao desenvolvimento das idéias políticas, a filosofia experimentou, ao longo dos dois últimos séculos, uma peculiar evolução. Contrariamente à valorização da ontologia pelos grandes sistemas formulados ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, (tanto no terreno das tradicionais metafísicas espinosana e leibniziana, quanto no que tange à formulação do idealismo transcendental kantiano e hegeliano), os pensadores dos séculos XIX e XX passaram a valorizar o culto ao rigor científico e a análise do discurso. No caso particular do neo-kantismo, evoluiu-se na Alemanha esfacelada pelo totalitarismo nazista, do idealismo transcendental à pragmática transcendental, que confunde os planos do real e do discurso, partindo do pressuposto de que todo ato de pensamento é ato de fala e de que este ultimo, tranquilamente, pode substituir a variável ontológica. Esse processo consolidou-se e virou moda filosófica sob o patrocínio do Círculo de Viena e da Escola de Frankfurt. Trata-se de uma modalidade muito curiosa de nominalismo, em que o discurso sobre o homem sobrepõe-se à apreensão da liberdade e dos interesses dos indivíduos. O clima que passou a ser cultuado em inúmeros centros de estudo é o da análise lógico-linguística, tendo perdido a meditação filosófica o sentido do real. Na contemporaneidade digital, os algoritmos identificados pelos manipuladores de big data, graças à inteligência artificial, identificariam os "interesses" prevalecentes no linguajar dos indivíduos, possibilitando aos gestores públicos a realização da devida faxina dos interesses impróprios, porquanto não formulados nos termos abarcados pelos sistemas binários.

Nesse contexto, associado ao da concepção unanimista de sociedade inspirada em Rousseau, situa-se, a meu ver, a proposta da democracia deliberativa proposta por Carlos Santiago Nino na sua obra intitulada The Constitution of Deliberative Democracy [Nino, 1996]. O pensador argentino parte do desconhecimento de dois pontos capitais do modelo liberal, como são a legitimidade da defesa dos interesses individuais e o valor insubstituível da democracia representativa como primeiro mecanismo político para defesa daqueles. O clima em que se movimenta o mencionado filósofo é o de uma substituição dos interesses individuais pelo arrazoado moral, de acordo com uma vaporosa vontade geral. Prevalece, ali, o desconhecimento da democracia representativa, que deveria ser substituída por assembleias deliberativas norteadas pelo esquisito imperativo categórico da busca da unanimidade.

O pensador argentino, aliás, faz depender a sua opção rousseauniana da escolha de dois princípios, um que ele denomina de ontológico e outro que é caracterizado de epistêmico. O primeiro seria o seguinte: "A verdade moral é constituída pela satisfação de pressupostos formais ou processuais de uma prática discursiva encaminhada à obtenção da cooperação e à supressão de conflitos" [Nino, 1996: 112-113]. Observe-se, aliás, como o pensador argentino substitui a dimensão ontológica pelo expediente linguístico da "satisfação de pressupostos formais ou processuais de uma prática discursiva" programada para conseguir a unanimidade. De outro lado, permeia o arrazoado a seguinte pressuposição infantil: os seres humanos devem viver sem conflitos, o que equivale a negar a validade da pluralidade de interesses.

O segundo princípio, epistêmico, reza assim: "A discussão e a decisão intersubjetivas constituem o procedimento mais confiável para permitir o acesso à verdade moral, pois o intercâmbio de idéias e a necessidade de oferecer justificações perante os demais não somente aumenta o conhecimento que se possui e detecta falhas de raciocínio, mas também ajuda na satisfação da exigência de atenção imparcial aos interesses de todos os afetados. Não obstante, isto não exclui a possibilidade de que, através da reflexão individual, alguém possa ter acesso ao conhecimento de soluções corretas, ainda que deve-se levar em conta que esse método individual é muito menos confiável que o coletivo, devido à dificuldade de se permanecer fiel à representação dos interesses dos outros e de ser imparcial" [Nino, 1996: 113]. Trocado em miúdos, o anterior arrazoado poder-se-ia resumir da seguinte forma: a descoberta da verdade não é um atributo da razão individual, mas do discurso coletivo, quando este é proferido em função da busca da unanimidade. Fica aberta, assim, a porta para o assembleísmo e o totalitarismo da novilíngua socialista, garantida pelos puros (sejam eles o Big Brother imaginado por Orwell, ou a liderança bolchevique tornada omnipresente nos comitês de defesa da revolução, ou o carisma do caudilho barbudo, ou a liderança do partido único, etc.).

Quão longe está o arrazoado de Nino da defesa que a tradição liberal sempre fez da democracia representativa, a única consentânea, no mundo moderno, com a defesa da liberdade e dos interesses dos indivíduos. A posição esboçada pelo pensador argentino é duplamente falaciosa: em primeiro lugar, porque pretende garantir os direitos básicos do cidadão mediante a sua eliminação como indivíduo capaz de descobrir a verdade e lutar pelos seus interesses. Em segundo lugar, porque pretende estabelecer uma oposição radical entre defesa dos interesses individuais e vontade geral. Esta última, no sentido liberal, consiste, unicamente, na defesa dos interesses dos indivíduos, seja a nível comunal ou municipal, seja a nível regional ou nacional. A representação é que deve ser apoiada e aperfeiçoada, de forma que cada vez mais responda aos interesses dos indivíduos. Mas, sem ela, não haverá, no mundo de hoje, autêntica defesa dos interesses individuais, não podendo, portanto, ser substituída por procedimentos epistêmicos que reduzam estes a uma vaporosa abstração pretensamente lógica.

A tradição liberal, aliás, já discutiu, com clareza, acerca das estreitas relações entre defesa dos interesses individuais a nível comunal e no plano da representação regional ou nacional. Não há interesses gerais que se sobreponham aos interesses individuais. É deles e somente deles que emergem a representação, o Estado e a União, como no caso dos Estados Unidos da América. Lembremos a forma em que Alexis de Tocqueville destaca essa hierarquia, na sua clássica obra A Democracia na América [Tocqueville, 1977: 126-127]: "Não seria possível imaginar-se a que ponto essa divisão da soberania serve ao bem estar de cada um dos Estados de que se compõe a União. Nessas pequenas sociedades, onde em nada preocupa o cuidado de defender-se ou de crescer, todo o poder público e toda a energia individual acham-se voltados para melhoramentos interiores. Por ser o governo central de cada Estado situado inteiramente nas mãos dos governados, é ele diariamente informado das necessidades que se fazem sentir; ademais, vêem-se apresentar todo ano novos planos que, discutidos nas assembléias comunais ou perante a legislatura do Estado, e em seguida reproduzidos pela imprensa, excitam o interesse universal e o zelo dos cidadãos. Essa necessidade de melhorar agita constantemente as repúblicas americanas e não as perturba; nelas, a ambição do poder cede lugar ao amor ao bem-estar, paixão mais vulgar, porém menos perigosa. É opinião geralmente difundida na América que a existência e a duração das formas republicanas do Novo Mundo dependem da existência e da duração do sistema federativo. Atribui-se grande parte das misérias em que se acham mergulhados os novos Estados da América do Sul ao fato de se terem querido implantar grandes repúblicas, em lugar de fracionar a soberania. É incontestável, na realidade, que nos Estados Unidos o gosto e o costume do governo republicano nasceram nas comunas e no seio das assembléias provinciais. Numa pequena nação, como Connecticut, por exemplo, onde a grande questão política é a abertura de um canal ou o traçado de uma estrada, onde o Estado não tem nenhum exército, nem guerra a manter, e não poderia dar àqueles que o dirigem nem muita riqueza nem muita glória, nada de mais natural se pode imaginar, nem de mais apropriado à natureza das coisas, que a república. Ora, é esse mesmo espírito republicano, são esses costumes e hábitos de um povo livre que, depois de haver nascido e se ter desenvolvido nos diversos Estados, aplicam-se em seguida, sem dificuldade, ao conjunto do país. O espírito público da União não passa de ser, ele próprio, de certa forma, uma síntese do patriotismo provinciano. Cada cidadão dos Estados Unidos transporta, por assim dizer, o interesse que lhe inspira sua pequena república ao amor da pátria comum. Defendendo a União, ele defende a prosperidade crescente do seu cantão, o direito de dirigir os seus negócios, a esperança de fazer prevalecer ali planos de melhoramentos que devem fazer com que ele próprio enriqueça; coisas, todas essas, que, de ordinário, tocam mais os homens que os interesses gerais do país e a glória da nação".

O sentido que, para a tradição liberal, sempre teve a representação, é o da preservação dos interesses dos cidadãos. A longa noite do autoritarismo republicano certamente escamoteou, no Brasil, a questão, deixando no ar o preconceito contra a representação de interesses e abrindo a porta para a prática da cooptação, tão do agrado dos espíritos totalitários. Todos sabemos a que conduziu esse preconceito, alimentado pelo castilhismo-getulismo: uma elite de burocratas passou a se considerar representante dos interesses dos cidadãos, dando ensejo a esse verdadeiro mostrengo que consiste no estatismo patrimonial, segundo o qual a nomenclatura tupiniquim sente-se dona do país e dirige os destinos da República ao seu bel-prazer, sem prestar contas a ninguém. O conhecido episódio, ocorrido nos anos 90, da impune contaminação da baia da Guanabara pela Petrobrás, dá uma medida da desfaçatez e da força dessa tradição estatizante. Os episódios mais recentes de saqueio aos cofres das estatais e da União, ao ensejo dos episódios de mega-corrupção do Mensalão e do Petrolão - este último objeto da Operação Lava Jato - ampliaram de forma bastante visível o alcance desse desconhecimento do interesse dos cidadãos por parte de um conluio de burocratas e empresários corruptos. São práticas que achincalham a democracia representativa e que propõem a substituição dela pelo assembleísmo unanimista praticado pelos burocratas corruptos, que ajudam a reforçar, no país, a tradição patrimonialista de gestão do público como propriedade privada.

O debate acerca da melhor forma de revigorar entre nós a prática da representação é necessário. Torna-se inadiável uma reforma política que leve à superação da prática antidemocrática dos partidos de aluguel, estimulando o fortalecimento das agremiações com programas consistentes, implantando uma fidelidade partidária que evite a prática do estelionato político, etc. Mas para que continuemos a progredir por esse caminho, é necessário que lembremos a tradição liberal e esqueçamos o discurso dos que propõem essa confusa democracia deliberativa.

O ethos da violência no contexto latino-americano

Falar em perspectivas da violência para o século XXI não é fazer predições proféticas. Na história humana não há rupturas radicais. Os processos de mudança, mesmo os mais extremos, anunciam-se nas tendências do presente. Assim aconteceu, por exemplo, com a Revolução Francesa, que pretendia ser uma ruptura definitiva com o fio da história, tendo dado ensejo, ao contrário, como todos sabemos após as críticas análises de Tocqueville em O Antigo Regime e a Revolução, a mais um capítulo da longa história do absolutismo, que constitui a nota caraterística das instituições da França desde o início da modernidade. Algo de muito semelhante aconteceu, no início do século XX, com a Revolução Bolchevique na Rússia, que ensejou uma reedição do velho czarismo, o mais acabado modelo de patrimonialismo conhecido na Europa, como foi ilustrado detalhadamente por Karl Wittfogel na sua clássica obra O Despotismo Oriental e por Milovan Djilas em  A Nova Classe.

Tratarei de desenhar um mapa das tendências que estão vigentes na América Latina e que herdamos do século passado. Partindo do pressuposto formulado em meados do século XIX pelos Doutrinários franceses (Royer Collard, Constant de Rebecque, Guizot) e retomado por Tocqueville, no sentido de que a tendência à democracia constitui, desde o século XIX, o pano de fundo da história de longo curso da Humanidade, colocarei a questão nos seguintes termos: quais são as perspectivas que a violência coloca para as sociedades latino-americanas em face da realização do ideal democrático, neste início de século?

Antes, porém, destacarei um dado antropológico fundamental: a violência não é apenas uma variável social. É, antes disso e basicamente, uma tendência ontologicamente enraizada no intimo do ser humano. O velho filósofo pre-socrático Parmênides já lembrava, no século VI a. C., que o ser humano é, na sua essência, como aliás os outros entes no mundo, ser e nada (dokounta), porquanto não possui o monopólio da existência. Pode ser e não ser. Pode, como no caso do feto que é eliminado após algumas semanas de vida, apenas ter uma  precária existência uterina. A certeza da nossa finitude, apreendida pela razão e não aceita, constitui, no ser humano individual, a raiz ontológica da violência. “Sereis como deuses”, teria dito a astuta serpente a Adão e Eva no paraíso. O cerne do pecado original seria essa não aceitação da finitude humana. Pecado prometeico de soberba ou de hybris.

É evidente que a filosofia ocidental mostrou um caminho construtivo para emergir da angústia da própria finitude: já desde Platão a meditação filosófica apresenta-se como sofia libertadora das angustiantes cadeias da nossa precariedade existencial. A Religião, desde as mais remotas épocas da história humana, já tinha aberto uma porta  para dar vazão, no plano da crença, a essa problemática. A solução religiosa continua a ter plena validade e é interessante observar o renascer das diversas religiões. Mas a Filosofia constituiu sempre a resposta, do ângulo racional, para a finitude. Na modernidade, os filósofos da cultura, após Pufendorf, tentaram definir os contornos desse espaço humano que nos abre caminho à perspectiva da imortalidade nas grandes criações do espírito, na aventura intelectual. Estão aí os imorredouros trabalhos de Platão, Aristóteles, Averróis, S. Tomás de Aquino, Ockham, Descartes, Hume, Kant, Hegel, Scheler, Tobias Barreto, Ferreira da Silva, Miguel Reale e tantos outros. Somos pó, mas podemos aspirar às estrelas mediante o nosso conhecimento e a nossa grandeza moral. Sempre que a humanidade se distanciou dessa forma construtiva de lidar com a sua finitude, mergulhou no sem-sentido de uma violência niilista. Não é por acaso que no curto século vinte, para lembrar a expressão cunhada por Eric Hobsbawm, após ter renunciado à transcendência religiosa e à transcendentalidade da criação cultural, o pensamento europeu entrou em parafuso existencial e proclamou, alto e bom som, a morte de Deus e do homem. 

Foi o filósofo inglês Thomas Hobbes quem realizou, na modernidade, a primeira sistematização filosófica acerca da violência como caraterística do homem em sociedade. Hobbes considerava que a discórdia provinha da natureza do homem, sendo que as três causas principais da mesma seriam a competição, a desconfiança e a glória. "A primeira  -- frisa o filósofo [Hobbes, 1974: 79] --  leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança; e a terceira, a reputação. Os primeiros usam a violência para se tornarem senhores das pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para defendê-los; e os terceiros por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião, e qualquer outro sinal de desprezo, quer seja diretamente dirigido às suas pessoas, quer indiretamente aos seus parentes, seus amigos, sua profissão e seu nome".

A violência política ocorre, segundo o filósofo inglês, em dois momentos: antes do surgimento do Estado e quando este se corrompe. Hobbes denomina de guerra de todos contra todos à situação de violência social anterior à criação do Estado. Nela, a vida humana não vale nada e todos somos reféns do temor da morte violenta. Hobbes retratava assim essa situação, com sombrias cores que traduziriam perfeitamente o clima de violência, impunidade e insegurança que vivemos, hoje, nas nossas sociedades latino-americanas: "(...) tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto; conseqüentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força, não há conhecimento da face da terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, (prevalece) um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida  do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta" [Hobbes, 1974: 80].

Nesse estado de violência generalizada não há lei, nem moral, nem propriedade. O homem, considerava Hobbes, é levado a superar essa deplorável situação pelas suas paixões (medo da morte, desejo de conforto e esperança de conseguir este último mediante o trabalho) e pela sua razão (que "sugere adequadas normas de paz, em torno das quais os homens podem chegar a acordo") [Hobbes, 1974: 81]. A partir dessa dupla tendência (racional e irracional) surge o Estado, que é definido por Hobbes [1974: 110] da seguinte forma: "Uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos (de) uns com os outros, foi instituída por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum".

Para o pensador inglês, há duas maneiras de criação e organização do Estado: ou por instituição, ou por aquisição. O Estado por instituição ocorre "quando os homens concordam entre si em submeterem-se a um homem, ou a uma assembléia de homens, voluntariamente, com a esperança de serem protegidos por ele contra todos os outros". Já o Estado por aquisição ocorre pela via da força natural, "como quando um homem obriga seus filhos a submeterem-se, e a submeterem seus próprios filhos, à sua autoridade, na medida em que é capaz de destruí-los em caso de recusa. Ou como quando um homem sujeita através da guerra seus inimigos à sua vontade, concedendo-lhes a vida com essa condição" [Hobbes, 1974: 110].

O filósofo inglês mostrava-se mais favorável ao Estado por instituição, sem dúvida mais afinado com a tradicional prática da representação na Inglaterra. Não é difícil, aliás, encontrar um paralelismo na dupla tipologia hobbesiana do Estado e a proposta por Max Weber [cf. 1944: IV, 85-203], a saber: Estado contratualista e Estado patrimonial.

Mas voltemos à caracterização da violência por Hobbes. Esta ocorre em ausência do pacto social que funda o Estado, como já vimos, ou quando este se corrompe, (ou, em outros termos, quando perde a força e fica doente). A sedição, o menosprezo face à lei, a guerra civil, a desobediência ou anarquia cidadã, a cupidez do poder espiritual, o domínio das corporações ou grupos sobre o governo, a desordem orçamentaria, eis algumas das causas endógenas que, além da invasão estrangeira, levam à doença e à dissolução do Estado [cf. Hobbes, 1974: 196-203]. Anarquizado o Estado, instala-se a violência na sociedade, bem como a plêiade de desgraças que acarreta a guerra de todos contra todos. Embrutecidos, os cidadãos passam a viver coagidos pelo temor constante da morte violenta.

O fenômeno da violência na América Latina teve dois momentos semelhantes aos observados na tipologia hobbesiana: em primeiro lugar, insegurança generalizada, prévia à consolidação do Estado e, em segundo lugar, violência decorrente da degeneração ou má formação deste.

Quanto à primeira manifestação, a violência, na América Latina caracterizou-se por ser efeito, já desde os tempos coloniais, da denominada por Oliveira Vianna [1973: 142] de anarquia branca. Para o sociólogo fluminense, o motivo imediato que impelia a população rural brasileira a se organizar em clãs, era a necessidade de defesa contra essa anarquia. Naqueles remotos tempos, entre nós, não havia Estado organizado. A corrupta magistratura portuguesa não funcionava, como tampouco os tribunais superiores, que ficavam muito distantes; isso levava a população a se refugiar em clãs, para ser protegida contra os excessos dos magistrados e poderosos. "Nessa situação de permanente desamparo legal,  -- frisa Oliveira Vianna --  em que vivem, sob esse regime histórico de mandonismo, de favoritismo, de caudilhismo judiciário, todos os desprotegidos, todos os fracos, todos os pobres e inermes tendem a abrigar-se, por um impulso natural de defesa, à sombra dos poderosos, para que os protejam e defendam dos juízes corruptos, das devassas monstruosas, das residências infamantes, das vinditas implacáveis. Faz-se, assim, a magistratura colonial, pela parcialidade e corrupção dos seus juízes locais, um dos agentes mais poderosos da formação dos clãs rurais, uma das forças mais eficazes da intensificação da tendência gregária das nossas classes inferiores".

Essa situação de anarquia primordial era testemunhada pelos visitantes estrangeiros. Eis o relato de um comerciante francês, publicado em Rouen em 1723, com o longo título de Journal d'un voyage sur les costes d'Afrique e aux Indes d'Espagne; avec une description particulière de la Rivière de la Plata, de Buenos Aires e autres lieux; commencé en 1702 et fini en 1706 [apud Pernoud, 1990: 63-105]. No seu diário, o viajante descreve assim a arraia miúda e a elite cariocas da época : "Falando em termos gerais, os portugueses são muito atenciosos, muito amáveis e de fino trato. Não me refiro ao povo baixo, cuja insolência e descaro estão por cima de tudo quanto se possa dizer. Não creio que possa haver indivíduos mais mal-intencionados e mais intratáveis; são mentirosos, indolentes, briguentos, insubordinados, sediciosos e cheios de injúrias, e das mais grosseiras; são, numa palavra, a mais indigna e mais maldita canalha de que se tenha ouvido falar. Critica-se às gentes honradas, e possivelmente não sem razão, pelo fato de serem vaidosos, orgulhosos e de terem uma cortesia e uma polidez que podem ser consideradas exageradas. Conta-se, a propósito do anterior, que um capitão de navio bateu tão forte num marinheiro, que este morreu  -- segundo disse o agressor --, pelo fato de ter sido pouco atencioso com ele. Na sua maior parte são extraordinariamente inimigos do  trabalho, preguiçosos e muito inclinados à voluptuosidade" [apud Pernoud, 1990: 99]. Em síntese, para o narrador francês a violência era a marca registrada da população carioca, com alguns matizes segundo a faixa social: rude e explícita no povão, jeitosa nas elites.

Mas se a anarquia branca dos cariocas era evidente no século XVIII, não menos visível era a mesma caraterística entre os paulistas, segundo o relato de Régine Pernoud [1990: 137-138], que se alicerça, entre outras fontes da época, nas Lettres édifiantes et curieuses, escritas pelos missionários jesuítas das Reduções paraguaias entre 1717 e 1776. A respeito da anarquia dos paulistas, escreve a historiadora francesa: "Mas os maiores perigos provinham dos paulistas ou mamelucos; chamava-se assim a população de São Paulo que era, nessa época, um verdadeiro refúgio de bandoleiros, formada principalmente por mestiços e portugueses; tinha acolhido aventureiros de todas as regiões, cujo principal recurso era o comércio de escravos. Por isso viram com satisfação o estabelecimento dos primeiros povoados, que constituíam para eles excelentes reservas de índios, destinadas a se converterem em presa fácil. De fato, desde 1629 caíram sobre as Reduções da província de Guairá, levando como escravos mais de quinze mil índios dos povoados de Santo Antônio, São Miguel e Jesus Maria, depois de terem assassinado os que se opunham (...).  Os mamelucos (eram) temíveis ao ponto de que não arredavam pé diante de nenhum estratagema; em várias ocasiões apresentaram-se diante dos povoados de índios, vestindo sotainas, com a cruz na mão, entoando cantos religiosos, etc., e enquanto os índios, sem desconfiança, reuniam-se para escutar a sua pregação, as suas tropas, colocadas em emboscada, atacavam. Isso provocou inúmeras dificuldades aos missionários e levantou uma desconfiança que custou a vida a muitos deles".

Testemunho dessa anarquia branca dos paulistas já tinha sido dado, aliás, em fins do século XVIII, pelo viajante francês Froger, para quem a cidade de São Paulo tinha a sua origem numa "(...) assamblage de brigans de toutes les Nations, qui peu à peu y ont formé une grande Ville et une espèce de Republique, où ils se font une loy de ne point reconnaître le Gouverneur" [apud Vianna, 1973: 183].

Mas o fenômeno da violência não se restringiu apenas, no nosso Continente, à situação de guerra de todos contra todos anterior à consolidação do Estado. Revela-se também hoje na corrupção do mesmo, ao ter sido ele privatizado por grupos, corporações, estamentos, facções e partidos, no seio da tradição patrimonialista. Não há dúvida de que o exemplo mais caraterístico foi, no final do século XX e no início deste milênio, a Colômbia. A respeito, assim caracterizou a situação de violência clânica nesse país Almudena Mazarrasa, delegada da ONU na Colômbia: "Este parece ir se tornando um país feudal onde cada um cria o seu próprio exército (...). Cheguei num momento em que o incremento da violência é aterrorizante. Estou muito consternada pelo fato de ser testemunha dessas atrocidades" [Mazarrasa, 1997: 1].

As atrocidades que deixaram perplexa a delegada da ONU na Colômbia decorriam do fato de o país ter sido loteado entre os bandos criminosos, num acelerado processo de desintegração e de guerra total, que foi denominado de "escobarização" (lembrando a onda terrorista desencadeada por Pablo Escobar) [Bustos, 1997] e que ensejava, para os colombianos, uma situação de "emergência internacional", em decorrência das tensões geradas por esse país a escala global [Tokatlian, 1997b].

Estudo da Fundação Milênio, com sede em Bogotá, revelava, efetivamente, que a guerrilha de esquerda e os paramilitares de direita iniciaram, nas duas últimas décadas do século passado, uma estratégia para dominar as regiões mais ricas da Colômbia, buscando um melhor financiamento para a guerra a morte que se declararam. As duas maiores organizações guerrilheiras, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) adquiriram grande vantagem nesse ponto, já que administravam sólidas finanças. Cada um dos guerrilheiros dessas organizações criminosas passou a ter um ingresso de 70 mil dólares anuais, o que equivalia a 40 vezes o que ganhava, na época, um colombiano médio [cf. AFP, 03/08/97].

A respeito, o mencionado estudo frisava: "Houve uma expansão intencional (da guerrilha) em direção àquelas áreas economicamente mais prósperas. O crescimento adicional da guerrilha (...) concentrou-se nas áreas prósperas e não em zonas de colonização, onde teve a sua presença tradicional (...). Em 1985 a subversão estava presente em 15% dos municípios de campesinato médio não cafeicultor e em 2% dos municípios de campesinato cafeicultor. Em 1995 estava em 58% do primeiro tipo de municípios e em 53% dos municípios do segundo tipo. No mesmo período, a guerrilha aumentou a sua presença de 13% dos povoados de agricultura comercial para 71%, e a sua presença em cidades intermédias passou de 3 para 85%" [AFP, 03/08/97].

A guerrilha, segundo o mencionado estudo, adquiriu tal força, que superou a capacidade de controle por parte do Estado. Pesquisa de opinião realizada, na época, revelava que os colombianos consideravam ter a guerrilha derrotado, definitivamente, as Forças Armadas. Em 1994, o então Presidente César Gaviria reconhecia que 600 dos 1000 municípios colombianos sofriam alguma forma de presença guerrilheira. Os paramilitares, por sua vez, entenderam, aos poucos, que deveriam penetrar nas áreas mais desenvolvidas economicamente, em especial naquelas que possuíam nexos com o narcotráfico. Um total de 26% dos 134 municípios onde se cultivava a papoula (base da heroína), contavam já com a presença de grupos armados paramilitares, que disputavam com a guerrilha o domínio sobre os narcotraficantes. Conseqüentemente, havia uma acelerada escalada da violência, decorrente do conflito entre guerrilheiros e paramilitares, conflito que terminou vitimando a população civil, manipulada por guerrilheiros, paramilitares, Forças Armadas, políticos corruptos e narcos. A perspectiva era sombria. À violência praticada, nos anos anteriores, pelos cartéis da cocaína, somava-se, então, o conflito entre os dois agrupamentos subversivos que pretendiam encampar o narcotráfico, aproveitando o vácuo deixado com as prisões dos tradicionais chefões. O estudo da Fundação Milênio concluía a respeito: "Há uma escalada em andamento do conflito entre guerrilha e paramilitares, embora é difícil de predizer se vai acontecer de forma generalizada em todo o país, ou se vai se apresentar sob a modalidade de guerras locais" [AFP, 03/08/97].

Essa escalada da violência tornou a Colômbia um dos países mais inseguros do planeta. Os cientistas políticos Uprimmy Yepes e Vargas Castaño [1990: 105] quantificaram, da seguinte forma, essa violenta realidade: "Na Colômbia, a morte violenta tornou-se uma realidade cotidiana. Segundo dados oficiais da Polícia Nacional, em 1988 cometeram-se no país aproximadamente 21.000 homicídios, um a cada média hora em promédio. A taxa de homicídios nesse ano foi de 70 por cem mil habitantes, fazendo da Colômbia o terceiro país mais violento do mundo. (...). Se excluirmos as crianças e os velhos, a metade das mortes dos homens cuja idade está compreendida entre 15 e 44 anos, deve-se a assassinato".

Quais seriam as principais causas do fenômeno da violência na América Latina? Séculos de cultura patrimonialista levaram os países ibero-americanos a encararem a política como luta entre os clãs pela posse do poder do Estado e, uma vez consolidado este, a administrá-lo como botim orçamentário a ser distribuído entre amigos e apaniguados, com exclusão de todos os outros. Essa é a raiz peculiar da violência na América Latina. Não fomos dotados, como outros povos, da tendência à solidariedade. O nosso, como destaca Oliveira Vianna, é um individualismo clânico e insolidário, amadurecido em três séculos de poder latifundiário. O patotismo, nos nossos países, sufocou o patriotismo [cf. Vianna, 1973: 220].

O sociólogo fluminense, aliás, traçou, em Instituições políticas brasileiras [Vianna, 1974: I, 297], um quadro magistral desse insolidarismo patrimonialista, na dinâmica da nossa sociedade: "Em toda essa psicologia da vacuidade ou ausência de motivações coletivas da nossa vida pública, há um traço geral que só por si bastaria para explicar todos os outros aspectos (...). Este: a tenuidade ou fraqueza da nossa consciência do bem coletivo, do nosso sentimento da solidariedade social e do interesse público. Esta tenuidade ou esta pouca densidade do nosso sentimento do interesse coletivo é que nos dá a razão científica do fato de que o interesse pessoal ou de família tenha, em nosso povo  -- no comportamento político dos nossos homens públicos --  mais peso, mais força, mais importância determinante, do que as considerações do interesse coletivo ou nacional. Este estado de espírito tem uma causa geral (...): e esta razão científica é a ausência da compreensão do poder do Estado como órgão do interesse público. Os órgãos do Estado são, para estes chefes de clãs, locais ou provinciais, apenas uma força posta à sua disposição para servir aos amigos e aos seus interesses, ou para oprimir os adversários e os interesses destes".

O cientista político Juan Gabriel Tokatlian [1997a: 61] exprimia, nos seguintes termos, a presença desse insolidarismo patrimonialista na sociedade colombiana: "Na Colômbia, no Estado e no terreno não-governamental, os agentes mais poderosos extremaram um comportamento orientado à maximização de benefícios particulares e à garantia da própria sobrevivência, com prejuízo dos interesses nacionais no seu conjunto". O folclore político já tinha identificado esse vício patrimonialista do trinômio insolidarismo / clientelismo / autoritarismo nos seguintes versos, que eram recitados pelo povo após as guerras da independência da Nova Granada, na terceira década do século XIX: "Bolívar venció a los godos / Mas, desde ese infausto día / Por un tirano que había / Se hicieron tiranos todos!".

Já para o ex-padre e sociólogo colombiano Camilo Torres, o fenômeno da violência, inerente à privatização do poder por estamentos e clãs, decorria da agressividade social que acompanha à frustração de aspirações daqueles segmentos que se sentiram excluídos. A respeito, escrevia [Torres, 1985: 106-107]: "A agressividade pode ser individual ou social. A agressividade individual é o resultado de um desejo de destruição originado em uma frustração. A destruição é buscada como uma compensação e como um meio de reconstrução do que não se conseguiu. A agressividade social possui as mesmas características, mas alargadas ao grupo social. A agressividade pode ser manifesta ou latente, segundo o desejo de destruição possa se realizar ou não. A agressividade social, em geral, encontra-se naqueles países nos quais há frustração de aspirações. Se essa frustração de aspirações forma parte da consciência social e encontramos, no interior das instituições sociais, instrumentos violentos e eficazes de realização, a agressividade tornar-se-á manifesta".

Foi o que de fato aconteceu na Colômbia: frustrado, a partir dos acenos de modernização e de liberdade que foram inicialmente encenados e logo freados pelas oligarquias nas décadas de 1930 e 1940, o campesinato, "por uma espécie de ação diabólica  -- frisa o sociólogo Orlando Fals-Borda -- foi induzido a identificar os seus inimigos entre os seus próprios vizinhos e parentes" [Fals-Borda, 1985: 42]. Essa foi a etapa da violência que ensejou a luta a morte entre liberais e conservadores até 1958. A ulterior fase da violência -- chamada de etapa dos filhos da violência -- começou a se gestar durante o chamado Frente Nacional (1958-1974) e eclodiu, com força, quando os partidos tradicionais recusaram-se a permitir o surgimento de partidos de representatividade popular e foram boicotadas as principais reformas econômicas e políticas reclamadas pela população. Os filhos da violência, camponeses famintos e operários desempregados, juntaram-se a jovens universitários desiludidos de tudo, e passaram a engrossar as fileiras dos movimentos guerrilheiros. A cooptação de uma parcela dessas massas pelos narcotraficantes foi questão de tempo e se viu facilitada pelo estranho raciocínio de alguns líderes guerrilheiros que, estimulados por Cuba, passaram a achar que o incremento do narcotráfico ajudaria a derrotar o gigante imperialista e, de outro lado, daria lugar a preciosas divisas para compra de armamento. Desse contexto emergiu, nestas últimas décadas, o esquisito fenômeno da narco-guerrilha [cf. Castillo, 1987; Landazábal, 1985; Castro, 1985; Pérez, 1990].

Os numerosos grupos de jovens desiludidos que habitam na periferia das grandes cidades colombianas, são o que poderíamos chamar de exército marginal de reserva da guerrilha, do narcotráfico e dos organismos para-militares. Calcula-se que de cada 100 pessoas assassinadas em Medellín, 70 estão na faixa dos 14 aos 19 anos. Esses jovens desenraizados e sem esperança vendem os seus serviços de sicariato a qualquer um. Só em Medellin havia, em 1989, mais de 150 grupos de extermínio integrados por adolescentes. Esses fatos levaram à jornalista Laura Restrepo a escrever que "uma nova geração de colombianos não sabe que é possível morrer de velhice" [Restrepo L., 1990: 27].

Testemunho claro da exclusão social e da violência causadas pela privatização patrimonialista do Estado, foi dado por um jovem chefe de um grupo de extermínio com atuação em Medellín. O testemunho desse jovem muito bem poderia ser o de qualquer líder de polícia mineira numa favela carioca: "Destruímos as bocas de fumo e atacamos o consumo de droga, porque daí provém grande parte da decomposição da gente. Num dia justiçamos cinco moleques, porque eram casos perdidos de drogadição. Já haviam sido advertidos, mas nunca houve forma de recuperá-los, porisso os matamos. Criamos uma rede de informações para todos os setores, com a mesma gente da comunidade. As senhoras, as crianças, os velhos, todos eles nos avisam acerca da presença de assassinos e de estranhos. Só estamos respondendo aos problemas que o governo não resolve. Aqui a polícia nunca sobe e quando o faz torna-se cúmplice dos ladrões. Entendemos que é pelo desemprego que muita gente opta por essa vida de delinqüência: se estes bairros tornaram-se um inferno, não é por culpa da gente, mas do governo. Mas as coisas já foram longe demais. Não há mais remédio que optar pela violência para defender a tua vida e a da comunidade" [in: Restrepo, L., 1990: 31].

A violência colombiana, poderíamos afirmar com o historiador Eric Hobsbawn [1985: 23], "procede de uma revolução social frustrada. Isso é o que pode acontecer quando as tensões revolucionárias sociais não são dissipadas pelo pacífico desenvolvimento econômico, nem freadas para criar estruturas sociais novas e revolucionárias. Os exércitos da morte, os desenraizados, os mutilados físicos e mentais, são o preço que a Colômbia paga por esse fracasso".

Para o cientista político, Eduardo Pizarro [in: Restrepo D., 1990: 210] uma das caraterísticas marcantes da violência colombiana é o fato de ela provir da privatização do poder pelos partidos, que são "(...) aparelhos tipicamente clientelistas, onde o poder do congressista não provém do partido mas do controle sobre uma parte do eleitorado, através da apropriação das corporações públicas, da capacidade de decisão sobre o gasto, dos contratos e oferta de emprego público (...)".

No caso da violência que sofre o Brasil e que se traduz na pesada estatística de 60 mil assassinatos por ano, o Ministro de Justiça, Sérgio Moro, elaborou plano para atacar o surto da criminalidade ali onde ele ocorre: nos Municípios. A proposta de uma política de Segurança Pública, apresentada pelo Ministro ao Congresso, inseria-se justamente nesse contexto. Infelizmente, de forma suicida, o Congresso enterrou o projeto. Ora, era uma proposta lúcida, que se afastava do tratamento geral à criminalidade, como se ela tivesse exatamente as mesmas características em todos os lugares. A violência precisa ser identificada e calibrada ali onde acontece, nos Municípios. Era essa a proposta do atual governo. A Colômbia, com uma estratégia semelhante à de Moro, conseguiu diagnosticar e combater eficazmente a violência a partir dos Municípios. As cidades colombianas tiveram sucesso, justamente por esse realismo. Algum dia o Brasil deverá fazer o mesmo, se quisermos erradicar a onda de violência que nos assoberba. 

A alternativa democrática em face da violência latino-americana

O fenômeno da violência na América Latina possui raízes profundas, de natureza culturológica, não sendo, apenas, um fenômeno conjuntural. Daí por que os remédios devem apontar à mudança dessa complexa realidade. Precisamos, nos nossos países, como dizia Tocqueville em relação aos franceses, construir o homem político [cf. Mélonio, 1993: 91 seg.], civilizado, solidário, livre das amarras do patotismo, solidamente ancorado na defesa da liberdade, cônscio dos seus direitos e dos seus deveres como cidadão. Precisamos reverter a tremenda infra-valorização em que se encontra o cidadão, esse João Ninguém envergonhado de si mesmo, tão bem descrito por Roberto da Matta [1991: 6].

Lembrarei aqui três tarefas inadiáveis, sem as quais não será possível reverter, no nosso Continente, a problemática da violência, umbilicalmente ligada à privatização do Estado no seio da tradição patrimonialista. Essas três tarefas, interligadas entre si, são as seguintes: em primeiro lugar, a conquista da liberdade econômica, mediante a desregulamentação, o estímulo à livre iniciativa, o alívio da carga tributária para o capital que gera empregos, o controle do gasto público e os processos de privatização. Em segundo lugar,  o aperfeiçoamento da representação e do controle da sociedade sobre o aparelho estatal, mediante a reforma política e administrativa do Estado; em terceiro lugar,  a efetivação da educação para a cidadania, a ser realizada nas quatro primeiras séries do primeiro grau.

É evidente que constitui passo importante a formulação de políticas públicas adequadas no terreno da segurança cidadã. Mas só conseguiremos reforçar o statu quo, se essas providências não se inserirem no quadro mais largo da reforma e modernização do Estado, do estímulo à livre iniciativa e à produtividade e da superação definitiva das crenças e práticas que constituem o chão axiológico em que se alicerça o patrimonialismo, que outra coisa não é senão o nosso conhecido patotismo, aplicado à administração do governo.

No que tange à conquista da verdadeira liberdade econômica, podemos anotar que o problema do narcotráfico, responsável por grande parte da onda de violência que sofrem os países latino-americanos, ancora na dificuldade para gerar empregos. A pesada herança contra-reformista criou, ao longo dos séculos, verdadeiras barreiras contra a modernização econômica. Os governos, via de regra, punem quem trabalha e quem gera empregos, dando continuidade, destarte, à mentalidade colonial ibérica de perseguição contra os elementos economicamente ativos: judeus e mouros, no passado, e empresários, no presente. É já conhecida a chocha ladainha populista dos nossos governantes de plantão contra as multinacionais e contra o empresariado, como se fossem eles e não a nomenclatura corrupta e improdutiva, os responsáveis pelo atraso.

No tocante à representação política e ao controle da sociedade sobre o aparelho estatal, é interessante notar que as soluções apontadas para superar a violência muitas vezes continuam a mante-la sem controle. Ora, a melhor forma para marginalizar a sociedade da representação dos seus interesses e da participação na gestão da coisa pública, é instituir uma minoria de puros, que se auto-intitulam portadores do interesse público e entregar a eles a escolha de quem são os verdadeiros cidadãos. O resto, ou seja, os que não foram cooptados pelos detentores da razão e da moral, devem se submeter a um tratamento hobbesiano, ou seja, renunciar a todos os seus direitos. Esse tipo de aventura de Democracia Participativa somente faz perpetuar a violência, cuja causa fundamental é a privatização do Estado por patotas. Mais importante do que criar uma nova patota é aperfeiçoar os mecanismos da representação, a fim de que, através de Partidos modernos, a sociedade possa participar efetivamente na discussão e no equacionamento dos seus problemas.

No que tange à educação para a cidadania, ela constitui o elemento cultural de maior importância, a fim de que a sociedade possa encontrar o verdadeiro caminho para a superação dos problemas que a afligem. A crise das instituições, nos países latino-americanos, decorre do fato muito simples de que não foi equacionada essa questão ao longo do século XX. Esse problema foi resolvido pelos países que hoje se situam no primeiro mundo. Em relação a este ponto, no texto sobre Educação para a Cidadania dedicado, pelo Instituto Liberal, a analisar a questão, Antônio Paim, Leonardo Prota e eu destacávamos em 1999: "Nos principais países europeus, nos Estados Unidos e no Canadá, do mesmo modo que no Japão, há uma consciência profunda de que o adequado aproveitamento dos recursos naturais e outras potencialidades nacionais encontra-se na estrita dependência da educação. Quando se faz semelhante enunciado, tem-se presente, antes de mais nada, a educação geral, facultada a todos, e não apenas os investimentos em pesquisa e desenvolvimento ou a formação de técnicos de nível superior. A experiência sugeriu que cabe ao ensino básico e fundamental a responsabilidade de assegurar a homogeneidade cultural de cada um dos países considerados. Esse problema foi mais agudo nos Estados Unidos, nas últimas décadas do século passado, pelo grande fluxo de imigrantes. Mas, com maior ou menor intensidade, afeta a todas as nações. De sorte que se pode tomar como um princípio de ordem geral, válido para a maioria das circunstâncias" [Paim, Prota, Vélez, 1999: 5-6].

A realidade dos países latino-americanos dista muito de se assemelhar à das nações desenvolvidas, que equacionaram o problema do ensino básico e fundamental. A gravidade da situação brasileira é bem expressiva da falência dos países latino-americanos nesse ponto e era assim descrita pelo estudo em apreço: "No Brasil, fomos despertados tardiamente para o problema. As quatro séries do ensino primário somente são declaradas obrigatórias na Constituição de 34. Nos 60 anos desde então transcorridos, ao invés de perseguir a sua consecução, os governos buscam grandes feitos que os notabilizem ainda no exercício dos respectivos mandatos. Desde a Constituição de 67, a obrigatoriedade foi estendida a oito séries. Embora se tenha obtido que a quase totalidade das crianças ingressem nas séries iniciais do Primeiro Grau, não consegue retê-las na escola. Esta na verdade nutre o universo desconcertante onde a maioria dispõe de baixos níveis de escolaridade. Para se ter uma ideia da gravidade da situação basta indicar que a força de trabalho no Brasil, compreendendo, em 1997, 73 milhões de pessoas, era integrada por 17% com menos de um ano de instrução ou que sequer haviam frequentado qualquer escola. Os que tinham de um a dois anos eram 12% e os que estiveram na escola, de três a quatro anos, 26%. A média geral de escolaridade de nossa força de trabalho equivale a quatro anos, enquanto, nos países desenvolvidos, varia entre 11 e 12 anos" [Paim, Prota, Vélez, 1999: 7-8]. É evidente que sem ter sido equacionada a contento a questão do ensino básico e fundamental, dificilmente poderão os nossos países, no continente latino-americano, ver solucionadas outras questões como a democracia representativa e o efetivo controle do Estado pela sociedade.

No Brasil, os últimos dois governos, de Michel Temer e Jair Bolsonaro, fizeram um esforço significativo para progredir na reforma do ensino básico e fundamental. No governo de transição de Temer, foi encarada a reforma do ensino fundamental, a fim de evitar a evasão dos adolescentes que chegavam ao segundo grau profissionalizante. A ideia foi propor um modelo de ensino diversificado que preparasse o estudante para o mercado, mediante o desenvolvimento de propostas de formação teórica e prática, que vinculassem ensino e produção. Foi posta em prática uma política que instituía um modelo diversificado de ensino-trabalho, quebrando a proposta única  vigente, de tipo livresco. 

No atual governo, o MEC estabeleceu um novo programa de alfabetização que adotava novas metodologias de acordo com os avanços da ciência, tendo sido criada a Secretaria Especial de Alfabetização, com a finalidade pôr em prática um novo método que permitisse superar a ineficiência do modelo tradicional, a fim de vencer o analfabetismo funcional; outra finalidade proposta era a formação, nessa nova metodologia, de professores treinados no ensino-trabalho. Até o momento, foi possível formular o novo método de alfabetização, sendo ainda uma proposta, para concretizar, a política de formação de professores para o ensino básico, num modelo diversificado que recrie a carreira do magistério. Nos primeiros três meses de 2019, sob a minha gestão, o MEC cuidou de escutar os especialistas na matéria, a fim de elaborar o novo modelo de alfabetização. A proposta de formação de professores numa nova carreira de magistério estava sendo costurada, quando da minha saída do Ministério. 

De outro lado, o novo modelo profissionalizante para o Ensino Fundamental e para o nível de Segundo Grau, começou a ser concretizado mediante a implantação, na Secretaria de Educação Básica, de um modelo de ensino-trabalho profissionalizante, para o qual foi nomeado como secretário executivo do Ministério, um profissional que conhecia em detalhe o modelo educacional vigente na Fundação Paula Souza, que se consolidou no Estado de São Paulo, desde os anos 60 do século passado. Com a minha saída do Ministério, interrompeu-se esse trabalho. Da nova proposta participariam outras Secretarias do MEC como a Setec e a Seres.

Uma última observação. No que tange à criação de partidos modernos que realmente valorizem a representação e desenvolvam modelos de governança adaptados às exigências da atual quadra da história, caracterizada pela maciça entrada da tecnologia digital, falta, ao atual governo de Jair Bolsonaro, a atuação de um Partido moderno. O PSL, do ângulo programático, tinha propostas sensatas, acordes com o ideário liberal. Mas a acirrada disputa entre os membros do Partido, levando em consideração as vantagens financeiras do Fundo Partidário, terminaram criando mais obstáculos do que soluções. 

O Presidente precisa de um Partido moderno e aberto à defesa da representação e ao estímulo à economia, fortalecendo o setor privado. Esse Partido seria um guarda-chuva para defender as propostas do Governo em prol das reformas, sem que se desgastasse a figura do Presidente, discutindo com a mídia ou os Congressistas. Sem essa base política, será difícil, ao atual Governo, dar continuidade à sua pauta política e econômica, que já atingiu, aliás, resultados alvissareiros na realização de reformas como a da Previdência e no tocante ao desengessamento da economia, para facilitar a atração dos capitais internacionais de que o Brasil precisa. O giro internacional que o Presidente Bolsonaro acaba de realizar, com sucesso, pelo Extremo e pelo Médio Oriente, revelou o quanto os investidores estão querendo trabalhar no Brasil. A estabilidade política e jurídica são fundamentais para manter essa porta aberta.


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