Pesquisar este blog

quarta-feira, 15 de março de 2017

ROBERTO CAMPOS (1917-2001) - [Artigo publicado na página de opinião do jornal O Estado de São Paulo, em 15-03-2017]



Comemora-se este ano o centenário de nascimento do grande estadista e pensador liberal Roberto Campos. Para recordar esta ímpar figura, em sua honra publico um breve comentário sobre alguns aspectos da sua vida, obra e pensamento. 

--------

Nestes momentos pelos que o Brasil passa, com o governo e a sociedade brasileira tentado fazer reformas para diminuir o tamanho do ineficiente Estado Patrimonialista, a lembrança do pensamento de Roberto Campos é norte que nos deve guiar.

Durante décadas, a figura de Roberto Campos tentou ser riscada pelo establishment no interior do Itamaraty, porquanto representava um perigo para os que tinham se encastelado no regime de sesmarias ao redor de uma opção pelo “socialismo real”, após a derrota dos alemães na Segunda Guerra Mundial.

Inicialmente, quando nosso autor optou por se habilitar em concurso para trabalhar no Ministério das Relações Exteriores em pleno Estado Novo, no ano de 1938, a maior parte dos nossos diplomatas se colocava no contexto dos interesses do Eixo. Mas, quando as forças de Hitler começaram a ser detonadas pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial, os diplomatas correram céleres para se arrumarem em torno aos representantes das democracias ditas “populares”, chefiadas pela antiga União Soviética. Guinada de 180 graus que deixou intacto, contudo, o dogmatismo e o gosto pelo “poder total”.

Entre os Aliados, os itamaratianos fizeram a sua escolha: os Russos, que representavam a nova força que se estabelecia no mundo, contrária aos Americanos. A respeito do clima que se vivia no Ministério das Relações Exteriores no contexto dessa arrumação ideológica, escreve Roberto Campos: “O Itamaraty, situado na avenida Marechal Floriano (a antiga rua Larga de São Joaquim), era comumente apelidado de Butantã da rua Larga. – São cobras, mas fingem que são minhocas – dizia-me de seus colegas o admirável Guimarães Rosa, que depois se tornaria o meu escritor preferido”. [1]

Roberto Campos e um grupo minoritário representaram a opção por um conceito de diplomacia afinado com a democracia ocidental e alheio à busca do “democratismo” que terminou vingando no mundo comunista. Como ele mesmo destacava, virou uma espécie de “profeta da liberdade”, à maneira, aliás, de Tocqueville, que se descrevia a si próprio como um “João Batista que prega no deserto”. A respeito da opção liberal, frisava Roberto Campos na sua obra autobiográfica, A lanterna na popa: “Em nenhum momento consegui a grandeza. Em todos os momentos procurei escapar da mediocridade. Fui um pouco um apóstolo, sem a coragem de ser mártir. Lutei contra as marés do nacional-populismo, antecipando o refluxo da onda. Às vezes ousei profetizar, não por ver mais que os outros, mas por ver antes. Por muito tempo, ao defender o liberalismo econômico, fui considerado um herege imprudente. Os acontecimentos mundiais, na visão de alguns, me promoveram a profeta responsável”. [2]

O nosso autor definia o seu compromisso intelectual com a defesa de duas variáveis: opulência e liberdade, que deveriam estar estreitamente ligadas para não degenerarem em populismos irresponsáveis. A respeito, Campos frisava: “Neste fim de século ressurgem tendências liberais sob a forma do capitalismo democrático. Este se baseia na convicção de que somente através do mercado se alcança a opulência, enquanto que para a preservação da liberdade o instrumento fundamental é a democracia. Ambos, opulência e liberdade são valores desejáveis. O mercado pode gerar opulência sem democracia, e a democracia, sem o mercado, pode degenerar em pobreza. Conciliar o mercado, que é o voto econômico, com a democracia, que é o voto político, eis a grande tarefa da era pós-coletivista – o século XXI”. [3]

Talvez o traço mais marcante da personalidade intelectual de Roberto Campos tenha sido a capacidade de rir de si próprio, estabelecendo uma saudável relatividade nos seus pontos de vista. Definiu-se a si mesmo, no primeiro capítulo de sua autobiografia, como o “analfabeto erudito”. Analfabeto em matéria de especialidades cartoriais que o habilitariam para um concurso público. Mas erudito por uma inegável formação humanística haurida no Seminário, onde cursou os estudos completos de Filosofia e Teologia, além de ter recebido as “Ordens Menores” (hostiário, leitor, exorcista, acólito). Lia com familiaridade o grego e o latim. E, forçosamente, para quem viveu anos a fio em meio às exigências celibatárias, a iniciação sexual começou bastante tarde, já na casa dos vinte e tantos anos. [4] Dessas peripécias dá notícia, com humor, Roberto Campos na sua obra autobiográfica.

 A formação humanística no Seminário fez com que o nosso autor tivesse como pano de fundo da sua vivência intelectual, a compreensão da complexidade das relações sociais, ancorando o estudo destas na meditação aprofundada sobre o ser humano. Algo semelhante ao que motivou o pai do liberalismo, John Locke, a entender as relações políticas sobre o pano de fundo mais largo das exigências morais, a partir do imperativo, de inspiração medieval, do controle moral ao poder. Não em vão o maior vulto do liberalismo inglês frequentou os estudos humanísticos preparatórios para a clerezia no Christ Church College, antes de passar pelos estudos da Medicina em Oxford que o levaram, jovem praticante, a tratar do conde de Shaftesbury e virar, pelo seu intermédio, o principal assessor da liderança parlamentar no desmonte do absolutismo monárquico.

A formação humanística recebida por Roberto Campos o habilitou para, sobre esse legado, entender em profundidade o mundo econômico, ao ensejo dos estudos feitos em nível de pós-graduação em Economia, na Escola de Governo da George Washington University, sob a rigorosa orientação de Edward Champion Acheson. Na mencionada Universidade o nosso autor teve contato com os maiores vultos do pensamento econômico da época como John Donaldson, Arthur F. Burns, Gottfried Haberler, Fritz Machlup, Joseph Alois Schumpeter (que considerou que o montante das pesquisas feitas por Campos para a tese de mestrado “era suficiente para uma tese doutoral”), John Maynard Keynes e o papa da Escola Austríaca, Friedrich A. Hayek.

Assim, a passagem de Roberto Campos pela divisão de “secos e molhados” (nome jocoso dado pelo nosso autor à área de Assuntos Econômicos do Itamaraty) foi bastante profícua, tendo-o colocado, junto com Eugênio Gudin, na linha de frente da formulação das políticas econômicas, que se tornariam, após a Conferência de Bretton Woods em 1944, a peça forte das relações diplomáticas. (Da mencionada Conferência, Roberto Campos participou como assessor da equipe brasileira chefiada pelo professor Gudin).

Duas etapas podem ser reconhecidas na formação do liberalismo econômico no nosso autor: a primeira, onde a influência maior veio de Keynes e a segunda, já derrubado o Muro de Berlim, com uma aproximação maior ao pensamento da Escola Austríaca. Mas sempre mantendo atenta a vista na construção de instituições que conduzissem o Brasil ao pleno desenvolvimento econômico com preservação da liberdade.

Roberto Campos, crítico do Patrimonialismo. Ele foi, ao meu ver, um dos críticos mais sistemáticos e radicais das práticas patrimonialistas com a tendência secular a fazer do Estado negócio de família.  Na sua última fala no Congresso, ao se despedir da vida pública, em 1999, frisou: “ (...). Sempre achei que um dos mais graves problemas dos subdesenvolvidos é a sua incompetência na descoberta dos verdadeiros inimigos. Assim, por exemplo os responsáveis pela nossa pobreza não são o liberalismo, nem o capitalismo, em que somos noviços destreinados, e sim a inflação, a falta de educação básica, e um assistencialismo governamental incompetente, que faz com que os assistentes passem melhor que os assistidos. Os inimigos do desenvolvimento não são os entreguistas que, aliás, só poderiam entregar miséria e subdesenvolvimento, e sim os monopolistas, que cultivam ineficiências e criaram uma nova classe de privilegiados – os burgueses do Estado. Os promotores da inflação não são a ganância dos empresários ou a predação das multinacionais e sim esse velho safado, que conosco convive desde o albor da República – o déficit do setor público”. [5]

Referências Bibliográficas

CAMPOS, Roberto. A lanterna na popa – Memórias. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994, p. 31.

CAMPOS, Roberto. A despedida de Roberto Campos. O Estado de São Paulo, 31/01/1999, p. A8.





[1] CAMPOS, Roberto. A lanterna na popa – Memórias. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994, p. 31.
[2] CAMPOS, Roberto. A lanterna na popa – Memórias. Ob. Cit., p. 20
[3] CAMPOS, Roberto. A lanterna na popa – Memórias, ob. cit., p. 21.
[4] Sinto-me irmanado com o grande pensador nestes aspectos da sua biografia, pois percorri todas essas etapas clericais, tendo inclusive recebido, além da tonsura, as “Ordens Menores”. Pulei fora quando chegou a hora do subdiaconato, com a renúncia definitiva ao casamento. 
[5] CAMPOS, Roberto. A despedida de Roberto Campos. O Estado de São Paulo, 31/01/1999, p. A8.


sábado, 11 de março de 2017

O CICLO DAS REVOLUÇÕES BURGUESAS

Resultado de imagem para revoluções inglesas
Resultado de imagem para revolução francesa
As chamadas "Revoluções Burguesas" ocorreram ao longo dos séculos XVII e XVIII. Paradigmas delas são as Revoluções Inglesa e Francesa. A primeira, relativamente pacífica, sem a carnificina que se tornou marca registrada na guilhotina, com a qual a Revolução Francesa tornou os seus inimigos iguais, ou seja, sem cabeça.

Estudiosos clássicos desses eventos foram o escocês David Hume e o francês François Guizot, em relação à Revolução Gloriosa de 1688 na Inglaterra. Estudiosos igualmente clássicos da Revolução Francesa foram Edmund Burke, do lado inglês, e Alexis de Tocqueville, no contexto da cultura francesa.

A Revolução Inglesa não foi sanguinolenta como a Francesa, em decorrência de um fato apontado por Guizot: ela ocorreu como consequência natural de um processo que já tinha sido iniciado no século XIII, quando o Magnum Concilium, formado por artesãos e burgueses, passou a pressionar o Monarca para que esse colegiado fosse consultado em matéria de fixação de tributos (essa exigência estava contida no conhecido documento que levou o nome de Magna Carta). Assim, a essência da Revolução de 1688 já estava presente nas reivindicações pelas que lutavam burgueses e artesãos séculos atrás. Os fatos marcantes daquela consistiram em que o Parlamento passou a ser considerado o poder supremo e o Monarca simples mandatário daquele, no modelo que passou a se denominar de "monarquia constitucional".

Os fatos históricos que conduziram a essa reforma foram dois: de um lado, o combate da sociedade inglesa contra as pretensões dos Monarcas de tradição católica (os pertencentes à dinastia Stuart: Carlos I, Carlos II e Jaime II); de outro, a tentativa do último monarca, Jaime II, de colocar no trono como herdeiro o seu filho menor, sendo que havia uma soberana herdeira legítima do trono, a princesa Maria, casada com Guilherme, príncipe holandês da casa de Orange. Quem atuou dentro do Parlamento para que o poder fosse entregue ao casal Guilherme e Maria foi o líder do partido whig (liberal), lorde Shaftesbury, cujo secretário era o filósofo John Locke. Este, a pedido do seu mentor, tinha escrito os elementos básicos do que seria o novo modelo, na obra que foi publicada em 1690 com o título de Segundo Tratado sobre o Governo Civil. Assim, a Revolução Gloriosa coincidiu com a coroação de Guilherme III e Maria II, em 1688.

As principais consequências que decorreram da mencionada Revolução foram as seguintes: conquista da liberdade de empreendimento por parte da burguesia (que faria com que se tornasse possível no século seguinte a Revolução Industrial), a Declaração dos Direitos (Bill of Rights) que eliminava a censura política e reafirmava os poderes do Parlamento, o Tesouro e todos os gastos públicos passaram a ser controlados pelo Parlamento, foi instaurada a fiscalização dos altos funcionários pelo Parlamento, foi adotado o controle dos gastos da família real pelo Parlamento, foi promulgado o "Ato de Tolerância" (Toleration Act) que estabelecia a liberdade religiosa de todos os cristãos exceto os católicos, deu-se continuidade à organização democrática do Exército com participação nas deliberações dos próprios oficiais, foi adotada a segurança jurídica nas transações comerciais ao ser impedido o Monarca de intervir na economia, foi garantida a progressiva participação da sociedade nos assuntos públicos graças à representação parlamentar, foi implantado um ambiente pacífico nas relações internacionais pelo fato de o Rei não poder armar exércitos, sendo esta prerrogativa exclusiva dos representantes do povo (no Parlamento), foi promulgada a liberdade de expressão que possibilitou uma renovação da circulação das ideias, foram disseminados os ideais da educação liberal ao redor do estímulo à formação da liberdade com ênfase no estudo das Humanidades e a abertura de novos horizontes para as artes e as letras, foi dado decidido estímulo às ciências e à pesquisa dos recursos naturais do Reino da Inglaterra (que passou a receber recursos da iniciativa privada).

A Revolução Francesa, diferentemente da Inglesa, foi extremadamente violenta. Por uma razão simples: as mudanças pressionadas pelas novas classes (notadamente a burguesia) foi frustrada pela corrupta burocracia real que, desde Versalhes - essa Brasília do século XVIII - impedia a qualquer preço que os seus interesses e privilégios fossem sequer discutidos. As classes populares e a burguesia reivindicavam a participação na gestão do Estado, como tinha ocorrido na Inglaterra. O livrinho do abade Sieyès intitulado: O que é o terceiro estado? foi o estopim do movimento revolucionário que começou com a tomada, pelos revoltosos, da prisão da Bastilha, em julho de 1789. 

Sieyès traçava um quadro estatístico das classes. A nobreza improdutiva, que se apropriava dos cargos públicos, não passava das 200 mil pessoas, ao passo que os pagadores de impostos (industriais, profissionais liberais e em geral as pessoas que trabalhavam) chegavam aos 25 milhões. Perguntava Sieyès: o que é o primeiro estado (nobreza) diante do terceiro estado (pagadores de impostos)? Respondia: Nada, porque a grande maioria dos cidadãos franceses pertencia a este último.

Como consequência da oposição da burocracia corrupta para que não houvesse mudanças, a luta foi violenta entre os burgueses e a nobreza. O Rei Luís XVI foi guilhotinado, bem como numerosos nobres. A servidão dos camponeses aos antigos nobres foi abolida. A burguesia passou a controlar o poder. Mas a onda de violência desatada pelos burgueses radicais no período posterior à Revolução (denominado de Terror) terminou fazendo com que o Diretório (órgão colegiado máximo do governo integrado por burgueses) perdesse o controle da situação, tendo sido o poder depositado nas mãos de um general que assumiu o cargo de Primeiro Cônsul, Napoleão Bonaparte. Ele tinha imposto a paz pelas armas na cidade de Paris. A consequência de toda essa crise foi a volta do absolutismo monárquico, quando Napoleão se coroou Imperador dos Franceses em 1804.

As principais consequências da Revolução Francesa foram a abolição da antiga servidão dos camponeses, a promulgação  da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão ao redor do lema republicano: Liberdade, Igualdade, Fraternidade, a valorização das atividades burguesas (liberdade de empreendimentos industriais e do comércio), a decretação de mudanças radicais que pretendiam romper definitivamente com o passado como a implantação de um novo calendário e a adoção de um novo sistema de pesos e medidas (abandonando o antigo sistema de origem medieval), a liberdade de pensamento e manifestação do espírito anti-religioso como reação contra a vinculação que existia entre Igreja e Monarquia, a renovação artística e cultural valorizando sobremaneira as novas criações ensejadas pela Revolução (como as marchas e os cantos populares, sendo a Marselhesa, um deles, adotado como hino oficial da República), as mudanças radicais do urbanismo de Paris tendo a Praça do Povo como centro, a reforma universitária mediante a incorporação da Faculdade Politécnica (dedicada à pesquisa das ciências para a engenharia) ao lado das tradicionais Faculdades, a promulgação, por Napoleão, do novo Código Civil que abria espaço para as atividades industriais e comerciais, lhes garantindo a segurança jurídica, a definitiva modernização do Exército (Grande Armée) dando continuidade ao processo iniciado um século atrás com Luís XIV mediante a adoção sistemática da artilharia de campanha, etc. O Museu Carnavalet, no tradicional bairro parisiense do Marais, passou a abrigar posteriormente as várias manifestações artísticas desse período conturbado (constituindo, ainda hoje, um dos grandes museus de Paris).


PREVIDÊNCIA: REFORMA JÁ OU NAUFRÁGIO


O Brasil chegou tarde à reforma previdenciária. Ao passo que outros países, como a França, a Inglaterra, a Espanha, o Chile, a Colômbia, etc.,  reformaram os seus sistemas previdenciários nas últimas décadas do século passado, as reformas na área ficaram patinando no Brasil por obra e graça da pressão dos burocratas do Estado (que sempre defenderam os seus privilégios) e da própria sociedade (convencida, em grande parte pelos políticos e pelas lideranças sindicais, de que teria mais a perder com a reforma do que a ganhar). 

Ainda hoje, com os dados escatológicos de que dispomos, as siglas partidárias da oposição de esquerda conseguem erguer a voz para combater a reforma previdenciária com a surrada alegação de que se trata de desconhecer direitos adquiridos.

Os gastos do PIB brasileiro com previdência cresceram brutalmente nas últimas décadas. Ao passo que em 1997 representavam 0,3%, para este ano estão calculados em 2,7% do PIB, com um déficit que no ano passado ficou na casa dos 149,2 bilhões de reais e que neste ano terminará em 181,2 bilhões. Não há como tampar esse buraco enorme com a peneira. Ou se faz uma rigorosa reforma previdenciária já, ou a nau do Tesouro, junto com o Brasil, naufraga.

O elemento que do ângulo da sociedade civil mais atrapalha as coisas é, a meu ver, a cultura sindical que se espraiou pelo país afora e que tem como imperativo moral "tirar vantagem em tudo", só enxergando para o umbigo das reivindicações da respetiva categoria, sem olhar para o conjunto da economia do país. 

Não é de hoje que os estudiosos apontam para essa mentalidade sindical, de cego corporativismo, como o grande entrave ao processo modernizador da gestão da máquina pública. O amigo e professor Francisco Martins de Sousa, no seu estudo sobre o corporativismo (Paradigmas teóricos do autoritarismo brasileiro, Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1995), apontava para esse problema. "O Patrimonialismo brasileiro vestiu a camisa sindical", frisava o meu amigo.

O jornalista Percival Puggina, em recente artigo ("Está tudo errado e já quebrou. Mas não mexe!" 10-03-2017) também chamava a atenção para o mal do corporativismo sindical. Escrevia a respeito: "Recordista mundial em número de sindicatos, o Brasil cria 250 novas organizações desse tipo por ano. Segundo a revista Veja, em outubro do ano passado, havia 16.293 deles, prontos para servir de sinecura a dirigentes e de complicador às relações de trabalho. O motivo pelo qual os temos em tal quantidade (125 vezes mais do que os Estados Unidos e 180 vezes mais do que a Argentina) é o mesmo pelo qual são tantos os nossos partidos políticos. Há muito dinheiro fácil para uns e outros. Nenhum direito a menos, lia-se em faixa de passeata ocorrida há dois dias em Porto Alegre. Queremos mais direitos e não menos, proclamava outra, no mesmo evento. Ora, quem disse que muitos direitos são vantajosos ao trabalhador? Fosse assim, Portugal e Espanha estariam recebendo trabalhadores alemães e ingleses. No entanto, o que acontece é o contrário. Recursos humanos de países super regulamentados migram para países onde as relações são mais livres. Aqueles têm as economias mais travadas e pagam salários mais baixos; estes são mais ágeis, prósperos e pagam salários mais altos. Li outro dia que na Venezuela, onde a lei proíbe a demissão de quem ganha salário mínimo os trabalhadores, por motivos óbvios, têm medo de ser promovidos". 

Na Venezuela também há um folclórico ministério "Da felicidade popular". Talvez por esse motivo os ânimos dos nossos vizinhos estejam tão por baixo. Após 13 anos de "benesses sindicais" petistas, o Brasil descobre que é o país latino-americano com mais baixo astral. Psiquiatras e fabricantes de antidepressivos agradecem. Oligarquia sindical dá nisso: infelicidade geral da nação!

domingo, 5 de março de 2017

PERSPECTIVAS BRASILEIRAS NA ERA BREXIT-TRUMP

"Sistema TRAPPIST - Uma estrela pequena e sete terras" (Desenho artístico da NASA,  fevereiro de 2017).

Passou o Natal, o novo ano chegou, o Carnaval virou cinzas e eis-nos aqui, neste modorrento final de verão, a lidar com a cotidianidade das nossas limitadas perspectivas, neste maluco mundo globalizado em crise. Será que perdemos a capacidade de traçar os nossos destinos, nesta confusa quadra da história mundial? 

Mas a vida continua e só há certeza de uma coisa: quanto mais tomarmos consciência daquilo que somos, mais aparelhados estaremos para fazermos frente às incertezas que nos angustiam. 

Com muito bom senso dois intelectuais de peso fizeram, no domingo passado, reflexões válidas sobre o futuro do nosso país. Refiro-me aos artigos publicados, em 5 de março, pelo jornal O Estado de São Paulo, por esses dois acadêmicos de esquerda que têm dado válidas contribuições para a tarefa de traçar rumos nesta confusa quadra da nossa história: Fernando Henrique Cardoso ("Jogo de gente grande"), e Luís Werneck Vianna ("A retomada das atividades reflexivas").

Fernando Henrique lembra que, embora não sejam fáceis as atuais circunstâncias internacionais, pelo fato de as grandes potências terem aparentemente chegado ao fim dos seus esforços em prol da manutenção de condições internacionais para dar vida à paz (no contexto do arranjo político que se seguiu ao segundo conflito mundial), abrem-se, no entanto, novas perspectivas. 

No seio da ênfase que hoje os grandes dão à dimensão nacionalista (e o governo Trump seria arquétipo dessa variante), no entanto as perspectivas para o crescimento econômico e o bem-estar não se fecharam para nós, em decorrência do fato de que, pelas frestas das grandes decisões estratégicas dos poderosos, restam para os menos aquinhoados alternativas de crescimento e de novas negociações no plano internacional. Quem parece que está em situação mais difícil, no entender de Fernando Henrique, são os europeus, com o final do equilíbrio geopolítico pacientemente tecido com os americanos no segundo pós-guerra, em face de outras potências como a China e a Rússia. 

Mas, mesmo assim, a nossa perspectiva será a de negociarmos com europeus, americanos, chineses, russos e com outros países, condições favoráveis ao crescimento econômico na região do Mercosul, devidamente faxinado esse espaço sul-americano dos arroubos bolivarianos graças à nova orientação dada pelo governo Temer através do Itamaraty, chefiado pelos tucanos. A atual acomodação das placas tectônicas do poder não é desfavorável a nós. O novo ambiente pode ser canalizado de forma positiva pelo Brasil.

A respeito da perspectiva que se abre, frisa Fernando Henrique: "O rearranjo atual da ordem global não tem força para estancar o que as mudanças culturais e tecnológicas tornaram irreversível: as consequências do aumento da produtividade e a integração produtiva. As mudanças em curso decorrem mais das questões de poder do que das econômicas. Isso não nos leva a descuidar de nossa base produtiva, mas nos induz a não descuidar dos meios disponíveis de poder, que incluem capacidade de defesa e visão estratégica".

Luís Werneck Vianna, que já foi inflamado ideólogo de esquerda e que hoje, felizmente, forma parte dessa geração de seniores que se dedica às artes mais frutíferas da reflexão, enxerga que, no contexto da nossa tumultuada política interna que depôs uma presidente e que abriu um espaço de transição com o governo Temer, é possível, sim, ver sinais de crescimento democrático, pelo simples fato de as instituições republicanas estarem funcionando malgré tout, incluindo aí o pessimismo dos que acham que tudo está perdido e dos radicais de sempre, que unicamente enxergam a possibilidade da revolta das ruas e da hegemonia dos "movimentos sociais", num clima escatológico de golpes intermináveis. 

Não, frisa o notável acadêmico, os tempos são outros, as instituições democráticas ganham força e, nesse contexto, vale a pena apostar na arma que temos à mão (que é utilizada infelizmente com pouca frequência): a razão e a análise aprofundada, "sine ira ac studio", como diria Weber, da atual conjuntura histórica. É o que o professor da PUC-RJ chama de "a retomada das atividades reflexivas".

Para Werneck Vianna, a esquerda socialdemocrata deu a sua decisiva contribuição já a partir dos anos setenta do século passado, com o breve texto de 1971 escrito pelos economistas Maria da Conceição Tavares e José Serra, que se intitulava: "Além da estagnação - uma discussão sobre o desenvolvimento recente do Brasil". Nele, segundo o professor da PUC-RJ, "seus autores argumentavam que a economia brasileira sob o regime militar, ao contrário de estagnar, crescia a olhos vistos, ampliando a sua sustentação social. O ensaio de Conceição e Serra, recusando o determinismo esquerdista, sinalizava para uma direção oposta da que ele preconizava - a resistência ao regime militar encontraria seu melhor terreno no campo da política. Como se sabe, essa inflexão está na raiz das lutas que nos devolveram à democracia"

Tentando dar a minha contribuição ao debate, acho, em primeiro lugar, que Fernando Henrique e Werneck Vianna deixaram de assinalar um fato importante: o mundo está dando uma guinada à direita, para evitar a esclerose do "politicamente correto" que foi implantado pacientemente no plano internacional por socialdemocratas e socialistas, ao longo destas décadas de efetivação do "estado de bem-estar" na Europa e na América, mas que, como "não tinham combinado com os russos" terminaram deixando do lado de fora muita gente que passou a questionar o paraíso identificado pelos pensadores de esquerda. 

A reposta para essa falha histórica está na guinada trumpiana, nos Estados Unidos, bem como na agitação que toma conta do espaço político europeu, após consolidado, pelos ingleses,  o Brexit.

Não será o fim do mundo, mas no espaço não trilhado que se abre, devemos refletir em profundidade, a fim de descobrirmos novos caminhos. O dogma do "welfare celestial" que nos apregoou a esquerda está chegando ao fim. São necessários novos esquemas de análise e ação, que no Brasil passam pela superação do pensamento da esquerda, pelos funerais da petralhada e que enveredam pela entrada em cena de propostas conservadoras e liberais-conservadoras, em que apostam claramente novas gerações de jovens pensadores e ativistas. 

Propostas que já tinham sido formuladas com coragem pelos liberais-conservadores do século findo, à cuja testa, no terreno da economia, estão situados dois grandes vultos: os professores Eugênio Gudin e Roberto Campos. Digo professores porque, embora tenham desempenhado importantes funções de Estado, sobressaía, em ambos, a visão de longo curso dos mestres do pensamento econômico, que se contrapunham à onda estatizante que tomou conta do nosso panorama intelectual já a partir dos anos 30 do século passado, sendo os capítulos iniciais a polêmica de Gudin contra a ideia estatal de planejamento (que permeia a sua discussão com Roberto Simonsen) e está presente nas críticas de Roberto Campos ao estatismo que tomou conta dos governos militares após o desaparecimento do marechal Castelo Branco, quando o núcleo de militares gaúchos tomou conta da nau do Estado ao longo do resto do ciclo militar, com a posta em prática do mesmo vício criticado por Gudin: a ideia estatizante de planejamento, com a consolidação do ideal pombalino do Estado empresário...

Ora, ora. Não foram os socialdemocratas que se anteciparam à crise atual do Estado, com a adoção do modelo cepalino, que não é mais do que um estatismo disfarçado sob as vestes do keynesianismo transplantado para nosso contexto patrimonialista. Os pensadores que elaboraram um diagnóstico verdadeiramente crítico do estatismo de marras foram os liberais-conservadores identificados, no terreno econômico, com Eugênio Gudin e Roberto Campos, bem antes de Maria da Conceição Tavares e José Serra terem elaborado o seu breve escrito de inspiração cepalina.

Lembrando aos incautos que, do ângulo político, já tínhamos as análises críticas de toda uma geração de pensadores liberais-conservadores, como Miguel Reale, Antônio Paim, Paulo Mercadante, Gilberto Ferreira Paim, Ubiratan Macedo, Roque Spencer Maciel de Barros, José Osvaldo de Meira Penna e tantos outros, cujas vozes terminaram sendo caladas pelas patrulhas ideológicas de esquerdistas encarrapitados no poder. 

Dou apenas dois exemplos de como essas patrulhas tentaram abafar o pensamento liberal-conservador crítico do estatismo: as duas revistas que, ao longo das décadas de 60 e 70 do século passado, canalizaram o debate contra o estatismo pretensamente modernizador acalentado por militares positivistas e esquerdistas de todos os matizes, inclusive os socialdemocratas, foram duramente perseguidas pelas patrulhas ideológicas. Em segundo lugar, a partir da abertura democrática foram sendo fechados, por pressão da CAPES, os cursos de mestrado e doutorado em pensamento brasileiro existentes no Brasil, que tinham aberto espaço para análises da realidade brasileira do ângulo liberal-conservador.

Primeiro exemplo: A Revista brasileira de Filosofia, fundada pelo professor Miguel Reale no início dos anos 50, viu cortada a modesta verba para circulação que o governo da União lhe passava no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, graças à eficaz intervenção do ministro da Cultura, Francisco Weffort. A Revista Convivium, fundada por Adolpho Crippa no início da década de 60 e que se destacou como foro de debate em que tinham voz os conservadores e os liberais, terminou sendo banida, ao longo da década de 90, pela CAPES, do índice de publicações que merecem o título de "científicas" na área da Filosofia e Humanidades. Note-se que, desde o final do regime militar, a área de Filosofia da CAPES sempre foi coordenada por ex-militantes da Ação Popular Marxista-leninista, do grupo de antigos estudantes que foram discípulos do padre Henrique Cláudio de Lima Vaz.

Segundo exemplo: esse sacerdote jesuíta, ao cujo redor se estruturou a AP (Ação Popular Marxista-leninista) foi, desde finais do regime militar, quem deu as cartas na Comissão de Filosofia e Teologia da CAPES. Lima Vaz atacou com força os cursos de mestrado e doutorado que, entre os anos 70 e 90, se estruturaram na PUC do Rio e, posteriormente, na Universidade Gama Filho e na Universidade Federal de Juiz de Fora. Não interessava ao padre Vaz o funcionamento deses cursos por um motivo simples: abriam espaço para a crítica à esquerda radical do ângulo liberal-conservador. A perseguição chegou às raias inquisitoriais quando, ao ser desmantelado no final da década de 70 o Curso de Mestrado em Pensamento Brasileiro da PUC, desapareceu - possivelmente nas chamas da fogueira inquisitorial, a biblioteca de Pensamento Brasileiro que o professor Paim tinha doado a essa Universidade.

Assim, não é válida a afirmação de que os caminhos da redemocratização do Brasil passaram primeiro pelos socialdemocratas como pretende Werneck Viana. A abertura política foi obra de liberais-conservadores da talha de Tancredo Neves, como mostrou claramente Arsênio Eduardo Correa no seu livro intitulado: A Frente Liberal e a Democracia no Brasil (2001).

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

TOTALITARISMO E AUTORITARISMO: OS RISCOS PARA O BRASIL


O risco do totalitarismo e do autoritarismo não foi banido da vida política brasileira. É um risco que está presente, na medida em que perduram, na nossa cultura, hábitos e convicções que reproduzem esse universo. Esta exposição tem como objetivo identificar essas variáveis, a fim de estimular a busca de atitudes e soluções que se lhes contraponham, visando à consolidação da democracia no Brasil.

Serão desenvolvidos três pontos: I) os fenômenos totalitário e autoritário, II) formas históricas autoritárias e totalitárias no século XX e III) análise prospectiva: as perspectivas autoritárias e totalitárias no Brasil. e no mundo.

I-  Os fenômenos totalitário e autoritário.

A fim de realizar uma exposição sumária das variáveis totalitária e autoritária no mundo contemporâneo, torna-se necessário desenvolver os seguintes itens: 1- gênese: antecedentes culturais e moldura histórica; 2 - similitude e aspectos diferenciais; 3 - traços comuns aos totalitarismos.

1- Gênese: antecedentes culturais e moldura histórica.- No que tange aos antecedentes culturais dos fenômenos totalitário e autoritário, poderíamos situá-los, do ângulo filosófico, no seio da própria cultura da Grécia clássica, quando Platão tentou elaborar o modelo de organização de uma República racional, arquitetada ao redor do rei-filósofo e fechada à prática do dissenso. A respeito, escreve Maciel de Barros (1990: 30-31) : “Que dizer, entretanto, do ‘totalitarismo antigo’? E, em primeiro lugar, onde encontrar manifestações dele? (...) Só seria possível registrar a sua presença entre os povos que viveram positivamente a experiência da individualização, aceitando-a.  E, entre estes, naqueles que tiveram a idéia de modelar o homem, apelando para a ciência (naturalmente para o que o seu tempo considerava ciência), construindo uma espécie de ‘filosofia da história’ que explicaria a degradação do homem em conexão com a degradação das formas políticas, caracterizando a existência de uma ideologia (...). Ora, todas essas condições só as encontramos realizadas entre os gregos, particularmente na teoria política de Platão”. O pensador grego, ainda segundo Maciel de Barros (1990:32) , “é um ideólogo que,  na elaboração de sua teoria ‘científica’ e ‘maniquéia’ (...) sobre a vida política, teve presente, se não como modelo perfeito, pelo menos como a forma mais aproximada desse modelo, a experiência espartana que é (...) uma insólita ‘experiência totalitária’ no mundo antigo”.

Mas, ao lado do antecedente platônico, que consolidaria o princípio de que “o poder vem do saber” e da que posteriormente seria denominada por Comte de “ditadura científica”, há um outro antecedente filosófico do binômio autoritarismo-totalitarismo: trata-se da gnose ocidental, filha bastarda da tradição judaico-cristã dessacralizada. Segundo essa tradição gnóstica, a história humana tem começo, meio e fim, consistindo este último na eclosão definitiva da razão humana (o “espírito absoluto” de que nos fala o monge calabrês Joaquim de Fiori, no final da baixa Idade Média) (cf. Lubac, 1978). Este antecedente cultural do autoritarismo e do totalitarismo é denominado por Maciel de Barros (1990: 26) de “totalitarismo do devir”.

Esses dois antecedentes culturais, de cunho filosófico, do binômio autoritarismo-totalitarismo, vinculam-se a um arquétipo epistêmico, o da verdade como unanimidade, que se contrapõe, no terreno da política, a um outro, o da verdade como dissenso a partir do qual se constrói o consenso. É evidente que se nos situarmos no primeiro arquétipo, estaremos na República platônica ou no reino da virtude rousseauniana, que exige unanimidade de todos os cidadãos, a fim de consolidar a vontade geral.

O estudo dos antecedentes culturais do binômio autoritarismo-totalitarismo ficaria incompleto, no entanto, se não fosse levada em consideração a variável sócio-política. Os estudos mais destacados, nesse terreno, foram os empreendidos por Max Weber (1944) e Karl Wittfogel (1977), de um lado,  e por Alexis de Tocqueville (1989), de outro.

Os Estados modernos, segundo Weber,  surgiram de acordo a duas tipologias: a contratualista e a patrimonialista. A primeira deu-se naquelas nações que, como a Inglaterra, experimentaram na Idade Média o feudalismo de vassalagem, fenômeno eminentemente contratualista. Os Estados organizaram-se, no período moderno,  a partir de um contrato ou pacto entre as classes que se digladiavam pela posse do poder,  tendo dado ensejo,  no decorrer dos três últimos séculos, à prática do parlamentarismo.  Esse foi o processo percorrido pelos Estados nacionais na Europa Ocidental, exceptuada a Península Ibérica.

Nos países ibéricos, pelo contrário, como também na Rússia, o surgimento e consolidação do Estado moderno ocorreu de forma bem diversa: ele surgiu da hipertrofia de um poder patriarcal original, que alargou a sua dominação doméstica sobre territórios, pessoas e coisas extra-patrimoniais, tratando-os como propriedade familiar (ou patrimonial). Além dos países mencionados, esse foi o processo percorrido também, na antiguidade,  pelos países onde se firmou o chamado por Wittfogel “despotismo oriental”, decorrente da economia hidráulica (Antigo Egito, China, Mongólia, os Califados árabes, além dos impérios pré-colombianos de Tihuanaco, Inca e Asteca). Patrimonial seria a herança na formação dos Estados ibero-americanos, após os processos de independência em relação às metrópoles espanhola e portuguesa. Essa situação tem sido estudada, entre outros, por Raimundo Faoro (1958), Antônio Paim (1978), Fernando Uricoechea (1978), Simon Schwartzman (1982), Vélez-Rodríguez (1982) e Meira Penna (1988).

Alexis de Tocqueville analisa a variável sócio-política precursora do binômio autoritarismo-totalitarismo, enfatizando a base jurídica sobre a qual se alicerçam as práticas absolutistas. Estas consolidaram-se na Europa, após o final da Idade Média e ao ensejo da formação dos Estados nacionais, graças ao esquecimento do direito consuetudinário germânico e à sua substituição gradativa pelo direito romano. Eis a forma em que Tocqueville (1989:197) explica esse fenômeno na Alemanha: “No fim da Idade Média, o direito romano tornou-se o principal e quase o único escudo dos jurisconsultos alemães. Nessa época,  a maioria dentre eles estudava fora da Alemanha, nas Universidades da Itália. Estes jurisconsultos, que não eram os dirigentes da sociedade política, mas que estavam encarregados de explicar a aplicar as suas leis, se não puderam abolir o direito germânico, deformaram-no entretanto de modo a fazê-lo penetrar à força no quadro do direito romano. Aplicaram as leis romanas a tudo que, na sociedade germânica, pareceria ter alguma longínqua analogia com a legislação de Justiniano. Introduziram desta maneira um novo espírito, novos hábitos na legislação nacional; esta foi pouco a pouco tão transformada que tornou-se irreconhecível e,  no século dezessete, por exemplo, quase não era mais conhecida.  Foi substituída por um não-sei-quê ainda germânico pelo nome,  mas romano de fato”.

Processo semelhante, no sentir de Tocqueville (1989: 185-189), ocorreu na França, onde o centralismo alicerçado no direito romano permitiu aos reis consolidarem a sua posição sobranceira à sociedade, que foi submetida, ao mesmo tempo, ao absolutismo e ao igualitarismo. Daí emergiu a Revolução de 1789.

A bem da verdade, as tipologias weberiana e tocquevilliana se complementam, se levarmos em consideração que o conceito de Estado patrimonial é, para Weber,  uma categoria relativa,  no sentido de que um regime pode evoluir do patrimonialismo para o contratualismo, ou vice-versa. As categorias de Tocqueville se aplicam ao processo assinalado por Weber, da seguinte maneira:  um Estado com alto grau de centripetismo (ou de patrimonialismo), incorpora o direito romano para garantir essa situação (isso aconteceu, por exemplo,  em Portugal, quando da Revolução de Avis, em 1385). Um Estado com alto grau de contratualismo se aproxima mais do direito consuetudinário germânico (foi o processo que ocorreu nas Ilhas Britânicas, quando da  derrota do absolutismo no século XVII).

Já no que diz relação à moldura histórica dos fenômenos totalitário e autoritário, podemos frisar que, a partir dos antecedentes culturais atrás pontados, a história é pródiga em múltiplos exemplos de regimes neles inspirados. Precedidos pela República platônica e pelo modelo político emergente do direito justiniano (“non est civitas propter civem, sed cives propter civitatem”) encontramos, influenciados já diretamente pelos antecedentes culturais citados, os autoritarismos presentes  no precursor medieval de Maquiavel e Hobbes, Marsílio de Pádua (1275-1342), como também na Cidade do Sol (1602) do renascentista Tomás Campanella, no Príncipe (1517) do florentino Nicolau Maquiavel e no Leviatã (1651) do filósofo da revolução de Cromwell, Thomas Hobbes. Porém, é com a formulação do messianismo político (cf. Talmon, 1956, 1969) no pensamento de Rousseau (1712-1778) e Saint-Simon (1760-1825), que se consolida a versão moderna do autoritarismo. Essa será a base sobre a qual, no século XX, emerge o modelo do totalitarismo.

2 - Similitude e aspectos diferenciais.- A semelhança que se dá entre o autoritarismo e o totalitarismo é gradual: o totalitarismo realiza, em grau extremado, o que o autoritarismo consegue apenas parcialmente.  O centripetismo da vida política, econômica e cultural da sociedade ao redor do Estado, dá-se de forma limitada nos governos autoritários. Nos totalitários,  a realidade do Estado mais forte do que a sociedade é esmagadora.

Antônio Paim (1994a: 11) distinguiu da seguinte forma autoritarismo e totalitarismo, referindo-se à realidade brasileira: “Nosso autoritarismo republicano não pode ser confundido com o totalitarismo. Mesmo nos períodos de sua maior exacerbação  - como na ditadura Vargas ou sob os governos militares -  o regime sempre admitiu oposição. Pode-se dizer que esta era uma oposição consentida, o que corresponde à verdade.  Oposição consentida era aquela que aspirava à volta do processo eleitoral normal como forma de promover-se a alternância dos governantes no poder e de efetivar a renovação das Assembléias. Havia, em ambas as circunstâncias históricas,  grupos que pretendiam fazê-lo pela força e, contra estes,  certamente, foram empregadas formas odiosas de repressão.  O que distingue o totalitarismo, contudo, é que não é admitida nenhuma forma de oposição. Toda oposição é catalogada como subversiva (no sentido próprio e não pejorativo do termo, isto é, recorrendo ao emprego da força) e como tal ferozmente reprimida”.

Karl Wittfogel, na sua obra Depotismo Oriental (1951) destacou que o modelo patrimonial de Estado constituiu a preparação para a implantação,  na Rússia soviética, do modelo totalitário comunista. “O socialismo - afirma a respeito Antônio Paim (1994b: 115) -  talvez não tenha passado de uma virtualidade do Estado patrimonial”. Essa seria uma manifestação da semelhança gradual apontada entre autoritarismo e totalitarismo.

3) Traços comuns aos totalitarismos.- No sentir de Hannah Arendt (1979: 305-479) e J. L. Talmon (1956), os traços comuns aos totalitarismos são os seguintes: a) busca da identidade completa entre o Estado, de um lado,  e a sociedade, a economia e a cultura, de outro; b) unicidade partidária e sindical, com monopólio da vida política pelo partido único e das atividades profissionais pelo sindicato único submetido ao partido; c) império de uma única ideologia, que passa a inspirar a visão de mundo de todos os indivíduos; d) domínio da propaganda, mediante o controle, pelo Estado,  dos mass media; e) controle absoluto da polícia política sobre todas as atividades da sociedade e das pessoas; f) geração de um clima de terror permanente por parte do Estado, como instrumento para destruír a solidariedade social e a capacidade de reagir dos indivíduos; g) surgimento, nas pessoas assim submetidas, do sentimento da solidão total. Ninguém melhor do que Mussolini exprimiu a essência do totalitarismo, quando afirmou: “Tudo dentro do Estado, nada fora do Estado”.

II- Formas históricas autoritárias e totalitárias no século XX.

Nesta parte serão desenvolvidos quatro itens: 1- o fascismo e o nazismo; 2- o justicialismo e o estado-novismo; 3 - o socialismo de modelo soviético e suas variações; 4 - o fundamentalismo islâmico.

1- O fascismo e o nazismo.- De acordo com estudiosos do nacional-socialismo (cf.Garmendia, 1986: 803-804; Lipset, 1963: 121-135; Poulantzas, 1971; Bosch, 1976: 49-54; Delgado, 1976: 61-66; Touchard, 1972: 608-616; Sabine, 1972: 657-661), os componentes fundamentais desta doutrina política são os seguintes: a - exacerbado nacionalismo que ancora numa ideologia comunitária com base em critérios étnicos e racistas; b - xenofobia que evoluiu até um anti-semitismo biológico radical (com base no qual se efetivou o holocausto de milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial); c - idolatria do Estado onipotente segundo um enfoque absolutista e centralizador; d - socialismo nacionalista, que procurava unir o romantismo social ao estatismo; e - culto à personalidade e messianismo carismático, centrados ao redor da figura do III Reich; f - monopólio da política por parte do partido único controlado com mão de ferro pelo Führer; g - instauração do terror estatal, mediante a temida polícia secreta do regime (os SS); h - organização de uma poderosa máquina de propaganda orientada a efetivar o controle do regime sobre a economia e sobre a consciência dos cidadãos; i - organização de uma poderosa máquina de guerra, que garantiu os ideais expansionistas de Hitler.

Já em relação ao fascismo, os estudiosos (Cf. Cotter, 1986: 463-464; Cambó, 1925; Lipset, 1963: 145-147; Poulantzas, 1971; Cassigoli, 1976:175-180; Pierre-Charles, 1976: 163-174; Hackethal, 1976: 181-186; Sabine, 1972: 632-656; Touchard, 1972: 608-616) destacam as seguintes caraterísticas: a - composição do Estado como algo absoluto, perante o qual os indivíduos ou os grupos sociais são relativos, uma vez que só têm sentido se atrelados a ele; b - caráter autocrático do poder do Estado concentrado no chefe (Mussolini), de quem emanava, como frisava ele próprio, “uma vontade dirigida para o poder e o governo: a tradição romana revela-se aqui no ideal da força em ação (...). Para o fascismo, o crescimento do império era uma manifestação de vitalidade, e o oposto, um sinal de decadência” (apud Cotter, 1986: 464); c - subordinação da vida política de toda a sociedade ao Estado,  mediante o Partido único; d - monopólio estatal dos meios militares e das comunicações; e - implantação do terror estatal, mediante grupos policiais e para-militares (“camisas negras”); f - ativismo contrário à idéia democrática e à defesa da liberdade perante o Estado; g - estatismo de inspiração social, que pretendia, mediante a presença tutora do Estado,  equacionar a problemática da justiça, selecionando o que de real valor houvesse, nesse ponto,  “nas doutrinas liberal, social e democrata” (Mussolini, apud Cotter, 1986: 463); h - organização corporativa das forças econômicas (empresários e trabalhadores).

O nacional-socialismo e o fascismo revelaram-se como duas modalidades semelhantes de totalitarismo, que lutaram juntas na Segunda Guerra Mundial e que semearam a morte e  a destruição ao longo da Europa, como fez também o bolchevismo na União Soviética.

2) O justicialismo e o “estado-novismo”.- As caraterísticas doutrinárias fundamentais do justicialismo argentino, base ideológica do peronismo, são as seguintes (cf. Velasco e Cruz, 1986: 888-889; Crassweller, 1988;  Dechancie, 1987; Touraine, 1989: 291-340; Murmis-Portantiero, 1973): a - defesa da justiça social sem abolição das relações capitalistas de produção; b - defesa do intervencionismo do Estado na economia, a fim de regular o mercado e subordinar a propriedade ao cumprimento da sua função social; c - organização sindical das forças produtivas (empresários e trabalhadores), de forma tal que possam se entender de igual para igual, numa relação a ser arbitrada pelo Estado. Essa organização corporativa visava a aplacar a luta entre as classes sociais; d - nacionalismo econômico endereçado a um projeto de desenvolvimento capitalista autônomo da indústria nacional, com apoio ostensivo do Estado; e -  terceiro-mundismo nas relações internacionais, com denúncia do imperialismo das nações capitalistas avançadas e uma atitude cautelosa face à dominação soviética; f - populismo, que se caracteriza pela feição poli-classista do peronismo e pelo paternalismo do chefe justicialista, face aos “descamisados” e aos sindicatos operários, amplamente manipulados pelo regime.

O peronismo constituiu, sem dúvida,  junto com o getulismo brasileiro e o porfiriato mexicano, um dos “modelitos” mais importantes do velho patrimonialismo ibérico em que, por baixo das feições doutrinárias atrás apontadas, esconde-se sorrateira a realidade de um Estado centrípeto e familístico, mais forte do que a sociedade insolidária. Nesse contexto, a res publica é administrada pelos donos do poder como coisa nossa. Segundo frisou Crassweller  (1988: 14), “A civilização de Perón é a culminância da cultura e dos valores legados por Roma, pelos mouros que dominaram a Península Ibérica durante muitos séculos e pela Castela da antiga Espanha, valores que foram todos corrigidos e reforçados durante os quatro séculos de história do Novo Mundo”.

As caraterísticas doutrinárias do “estado-novismo” de Vargas são as seguintes (cf. Vélez-Rodríguez, 1980, 1982, 1983, 1994a, 1994b, 1994c, 1994d; Paim, 1978; 1994b; Paim-Barretto, 1994; Tavares, 1986: 517-520): a - integração do proletariado à sociedade, mediante a legislação trabalhista que tornava os sindicatos dos trabalhadores e empresários simples caudatários do Estado paternalista; b - defesa do intervencionismo do Estado como empresário na economia; neste ponto, o getulismo deu continuidade à velha tendência pombalina, consolidada em Portugal na segunda metade do século XVIII. O getulismo alicerçou-se doutrináriamente, outrossim, na versão política do positivismo brasileiro, sendo a ideologia castilhista a fonte imediata de inspiração do ideal de “ditadura científica” que o Estado Novo pretendeu encarnar; c - organização corporativa das forças produtivas, tendo sido adotado o modelo do sindicato único para trabalhadores e empresários. Os sindicatos terminaram sendo controlados pelo Executivo forte, no que passou a ser chamado de “peleguismo”. Instrumento importante dessa política “soft” foram o Ministério do Trabalho e a Justiça do Trabalho, que passaram a equacionar, a partir do Estado e com critérios técnicos, os conflitos trabalhistas, de forma a impedir as reivindicações políticas e a luta revolucionária; d - nacionalismo econômico centrado ao redor do Estado dirigido por um Executivo forte, auxiliado pelos conselhos técnicos integrados à administração. O autoritarismo getuliano tolerava, como no caso do peronismo, o sistema capitalista, acomodado, evidentemente, à dinâmica do Estado patrimonial, ou seja, a uma forte tutela da iniciativa privada pelo governo; e - pragmatismo nas relações internacionais (de fato, Getúlio acenou com simpatia para os países do Eixo, ao longo da década de 30, mas quando pressentiu a iminente derrota do nazismo e do fascismo, não duvidou em se entender com os Aliados). Na fase posterior ao estado-novismo, o getulismo evoluiu em direção ao terceiro-mundismo e às conseqüentes denúncias anti-imperialistas, como revela a Carta-testamento do líder são-borjense; f - populismo, que se caracterizava pela existência de partidos políticos controlados pelo governo (PTB e PSD) e dirigidos à cooptação política dos trabalhadores, dos empresários e outras lideranças da sociedade civil; g - forte aparelho propagandista e repressor, centrado na DIP e na polícia política; h - feição conservadora, expressa nas máximas getulianas “deixar como está para ver como é que fica” e “não fazer inimigos que não se possa converter em amigos”; i - forte preconceito contra a democracia representativa, alcunhada depreciativamente pelo getulismo de “metafísica liberal”; j - utilização, pelo getulismo, da retórica liberal para angariar apoio popular nos momentos de crise, sem no entanto aderir praticamente aos ideais democráticos do liberalismo.

Como se pode observar, múltiplos fatores aproximavam o estado-novismo getulista do peronismo, sendo aspecto diferenciador o cientificismo de origem castilhista (e, portanto, positivista) de Getúlio.

3) O socialismo de modelo soviético e as suas variações.- Poderíamos arrolar como caraterísticas do socialismo de modelo soviético as seguintes (cf. Boer, 1982; Paim, 1981: 88-118; Wittfogel, 1977) : a - hipertrofia do Estado em relação à sociedade, na trilha do velho despotismo mongólico e do absolutismo czarista, seu herdeiro; b - controle da máquina do Estado pela nomenklatura, ou cúpula dirigente do Partido Comunista da União Soviética. Essa nova classe, substrato político do “socialismo real”, “constitui o desmentido histórico da utopia marxista da sociedade sem classes” (Boer, 1982: X); c - fé messiânica no papel salvífico do comunismo soviético. Essa fé ancora no velho messianismo poítico russo, na versão do ideólogo de Ivã o Terrível, Filofei de Pskov, segundo o qual Moscou é a Terceira Roma, chamada a unificar e salvar a Humanidade (cf. Voegelin, 1981: 85 seg.); d - igualitarismo, que apregoa o fim da luta de classes e da diversificação da sociedade, fato que contrasta com o reconhecimento, pela própria ideologia soviética, da existência de três “estratos”: operariado, campesinato e intelligentsia (Cf. Trotsky, 1977); e - abolição da propriedade privada em todas as suas manifestações, especialmente dos meios de produção. Concentração de todas as propriedades nas mãos do Estado; f - culto à personalidade e bonapartismo: tudo gira ao redor do líder revolucionário (Lenine) ou dos secretários todo-poderosos do Partido (Stalin, Kruschev, Breshnev, etc.), cuja figura foi bem definida por Lenine (1982): “um poder não limitado por leis”; g - terror policial exercido pela temida KGB e cuja expressão foram os Gulags, destino forçado dos dissidentes; h - regime de propaganda maciça, graças ao controle do Estado soviético sobre os meios de informação; i - expansionismo, graças à fabulosa máquina de guerra fabricada pela União Soviética; j - cientificismo, que considera conforme à razão científica a organização e funcionamento do sistema soviético; k - regime de partido único e de sindicato único, este submetido ao primeiro.

A caraterística mais marcante que salta à vista, ao comparar os itens doutrinários enunciados com o real funcionamento da máquina soviética são as contradições, que aparecem em vários aspectos. Talvez foi L. Trotsky (1977: 272) quem melhor as traduziu: “O cesarismo  - ou a sua forma burguesa, o bonapartismo -  entra em cena na História quando a áspera luta entre dois adversários parece elevar o poder acima da Nação e assegura aos governantes uma independência aparente relativamente às classes, não lhes deixando, na realidade, mais do que a liberdade de que precisam para defender os privilegiados. Elevando-se acima de uma sociedade politicamente atomizada, apoiando-se na polícia e no corpo dos oficiais, sem tolerar controle algum, o regime stalinista constituiu uma variedade manifesta do bonapartismo, de novo tipo, até hoje sem precedentes. O cesarismo nasceu de uma sociedade fundada sobre a escravatura e abalada por lutas intestinas. O bonapartismo foi um dos instrumentos do regime capitalista nos seus períodos mais críticos. O stalinismo é uma variedade, mas assenta nas bases do Estado operário, dilacerado pelo antagonismo entre a burocracia soviética organizada e armada e as massas laboriosas desarmadas”.

Karl Wittfogel (1977: 529-530), por sua vez, caracterizava da seguinte forma o regime soviético, dez anos depois do assassinato de Trotsky a mando de Stalin: “Assim, na medida em que os dirigentes da Rússia soviética perpetuam um dos traços-chave da sociedade agro-estatal, a saber, a posição monopolista de sua burocracia dominante, faziam mais do que a simples perpetuação dessa sociedade.  Mesmo antes da coletivização da agricultura, os aparatchiki (=integrantes da máquina burocrática) soviéticos dispunham de um sistema mecanizado de comunicação e de produção industrial que os colocava numa posição superior à alcançada pela burocracia agro-hidrâulica. O aparelho industrial estatizado lhes fornecia armas novas de organização, propaganda e coerção, aptas a permitir a liquidação dos pequenos produtores agrícolas enquanto categoria social. A coletivização transforma os camponeses em trabalhadores agrícolas submetidos a um único patrão: o novo aparelho do Estado. O despotismo agrário da antiga sociedade aliava o poder político total a um controle social e intelectual limitado. O despotismo industrial da sociedade de aparelho estatal total alia o poder político absoluto ao integral controle social e intelectual”.

O regime soviético revelou-se, destarte, como a forma mais agressiva e extremada do Patrimonialismo (cf. Paim, 1981: 117 seg.), característica que ainda preservam outros regimes comunistas sobreviventes à queda do Muro de Berlim, como o chinês ou o cubano. A derrubada do regime soviético pode-se interpretar validamente como decorrência das contradições apontadas por Trotsky e Wittfogel. Os regimes comunistas constituíram-se, aliás, nos totalitarismos mais violentos do século XX, contando-se em dezenas de milhões as suas vítimas e chegando a superar o número de mortos do totalitarismo nazi-fascista, que já era estarrecedor.


4 - O fundamentalismo islâmico.-  Embora seja difícil caracterizar em poucas palavras a doutrina político-religiosa do islamismo na sua versão contemporânea,  não podemos deixar, mesmo com risco de simplificação, de indicar as notas que nos parecem mais marcantes dessa cultura (cf. Jomier, 1993; Sánchez-Albornoz, 1974; Cruz Hernández, 1981; Azis, 1978; Corbin, 1964; Arberry, 1956; Menéndez Samará, 1940). Não pretendemos, aqui, desconhecer  a riquíssima tradição civilizatória que o Islã representou para nós, através da Espanha muçulmana e do Portugal mouro. Mas queremos, unicamente, lembrar os principais itens da política islâmica no mundo atual. 

Esses itens são, ao nosso modo de ver, os seguintes: a - união estreita entre religião e política, desde a época do fundador da Religião Islâmica, Maomé, no século VII; b - divisão do Islamismo em duas grandes vertentes: sunitas (moderados), que representam hoje 90% do mundo islâmico e que defendem a natural evolução histórica das suas lideranças políticas e xiitas (radicais), que representam hoje 10% dos islâmicos. Eles somente reconhecem a legitimidade dos primeiros 7 ou 12 dirigentes políticos, descendentes diretos de Ali e Fátima, filha de Maomé e sustentam a tese do Imã Oculto (ou líder missiânico) que aparecerá no final dos tempos para conduzir os seguidores de Alá ao triunfo definitivo contra o Grande Satã, personificado nas potências capitalistas do Mundo Ocidental; c - intolerância com quem professa outras religiões ou credos políticos. Essa intolerância varia de grau, indo dos sunitas (menos intolerantes) até os xiitas (radicais), que levam a extremos terroristas o conceito mais largo, e originariamente moral, de jihad (guerra santa); d - autoritarismo como forma geralmente aceita de organização do poder  político, que oscila entre o modelo ditatorial (de Kadhafi, Saddam Hussein ou dos Mulahs iranianos), passando por monarquias familiares (como as que imperam nos Emirados árabes, na Jordânia ou na Arábia Saudita) e indo até formas republicanas mais ou menos autocráticas (como no Egito ou na Turquia, respectivamente); e - expansionismo, no sentido de que o Islamismo é considerado pelos seus seguidores como uma religião de missão, que visa a conquistar espiritual e políticamente o mundo, mediante a implantação do Alcorão como Constituição universal; f - reação fundamentalista a partir dos anos 70, decorrente de vários fatores: derrota do mundo árabe na Guerra dos Seis Dias (1967), decepção diante da política de socialismo árabe de Abd-en-Nasser, bem como diante da sua aliança com os países comunistas, excessiva ocidentalização de regimes como o do Xá do Irã, crise do petróleo, Guerra do Golfo e derrota de Saddam Hussein, desconhecimento da vitória dos fundamentalistas na Argélia, nas eleições de 1993, crescimento da onda anti-islâmica em países como a França e a Alemanha, guerra de “limpeza étnica” dos sérvios contra os muçulmanos na ex-Yugoslávia, etc. A convicção generalizada é a de que os islâmicos estão sendo vencidos por não terem posto em prática com suficiente devoção o Alcorão; g - fundação, nos anos 60 e 70,  dos grandes organismos muçulmanos internacionais com as suas reuniões periódicas. Os mais importantes organismos são a Liga Islâmica Mundial e a Conferência Islâmica. Atualmente há uma forte tendência, no mundo muçulmano, para a canalização de recursos  - notadamente os petrodólares -  na criação de um banco islâmico e na organização de uma espécie de Liga das Nações Muçulmanas, que contrarreste a excessiva ocidentalização da ONU; h - criação de organismos muçulmanos não governamentais (como os “Irmãos Muçulmanos”) e de partidos radicais (como o Hezbolah ou Partido de Deus), que visam a manter viva a pureza da fé islâmica e a defender os interesses das nações nela inspiradas, face ao mundo ocidental.  Não faltam mártires e profetas para essas iniciativas, como o egípcio Sayyid Qotb, como o escritor Abul Ala al-Mawdûdi e o próprio Aiatolá Ruola Khomeini.

III- Análise prospectiva: as perspectivas autoritárias e totalitárias no Brasil e no mundo

Tentando fazer um balanço prospectivo dos riscos autoritários e totalitários no Brasil e no mundo, neste final de milênio, poderíamos identificar três tendências para cada um desses fenômenos.

1 - Tendências totalitárias.- Referir-nos-emos, brevemente,  às seguintes: a - o comunismo, no seio do despotismo oriental (China); b - o islamismo, na versão xiita; c - os movimentos neo-nazistas.

Convém salientar que essas tendências ou são hoje regimes totalitários (como nos casos de China e de Cuba), ou ao menos contam com os elementos potenciais necessários ao desenvolvimento de formas totalitárias de governo.

a - O comunismo, no seio do despotismo oriental (China).- Se bem é certo que o comunismo soviético se desmanchou como castelo de cartas, o mesmo não acontece com o comunismo chinês, que vai muito bem de saúde e que consegue fazer engolir ao Ocidente a sua visão totalitária dos direitos humanos e da política internacional. A queda do Muro de Berlim em nada abalou o controle totalitário do regime de Pequim sobre os seus cidadãos.  Se alguém tinha ilusões acerca de uma descompressão política na China, os tanques da Praça da Paz Celestial se encarregaram de esmagá-las junto com as centenas de ativistas que foram literalmente varridos do mapa em 1989. As reações do Ocidente perante a brutalidade do velho despotismo oriental foram pouco mais que protocolares. Prova vivencial de que o regime de Pequim não brinca em serviço, tiveram as 20 mil delegadas ao Forum das Organizações Não-governamentais, que se reuniram no estadio olímpico da capital chinesa, para influenciar na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, a reunião promovida pela ONU em setembro de 1995. O governo chinês impôs uma série de regulamentos restritivos à realização das reuniões preparatórias em Huairou, a 55 kilômetros da capital. Dos 3 mil jornalistas credenciados em Pequim, apenas 300 tiveram permissão para assistir à cerimônia de abertura. Muitas pessoas foram revistadas como suspeitas; o governo chinês negou ou atrasou vistos e as participantes frisaram que foram tratadas como invasoras hostis, apesar da alegação de que o espaço do Forum era território da ONU (cf. O Globo, Rio de Janeiro, 31/08/95). Certamente o totalitarismo do regime de Pequim sobrevive à derrubada do totalitarismo soviético e à crise em que entrou o regime castrista, que muito provavelmente, após o evidente fracasso revolucionário de Castro, terá um desfecho gradual à la espanhola ou à la`mexicana (cf. Oppenheimer, 1992: 411 seg).

Os simpatizantes brasileiros do totalitarismo chinês e cubano não parecem ter força suficiente para ameaçarem a democracia e instaurarem no país um regime de poder total, em que pese o esforço feito por Lula para a criação, no início dos anos noventa, do Foro de São Paulo, com a finalidade de dar sobrevida ao comunismo, que já estava morto e sepultado na Europa após a queda do Muro de Berlim. Mas, certamente, reforçam as tendências autoritárias. Porisso, o risco por eles representado será objeto de análise no próximo item, que analisa as tendências autoritárias.

b - O islamismo, na versão xiita.- O regime iraniano pode evoluir, caso se sinta encurralado, até formas de exercício do poder total. De outro lado, podem surgir novos governos fundamentalistas islâmicos. O advento dos xiitas ao poder na Argélia, por exemplo,  parece questão de tempo.  O golpe dos generais argelinos retrasou, não eliminou esse desfecho. E a França, que apoiou a drástica medida dos militares de Argel, está pagando um alto preço com as ações terroristas praticadas pelo grupo GIA (e mais recentemente pelo autodenominado Estado Islâmico) em Paris e em outras cidades francesas. Países como os Estados Unidos têm também sofrido as conseqüências do terrorismo xiita, que não está longe das fronteiras do Brasil. Lembremos a explosão que derrubou, há alguns anos, em Buenos Aires,  o Centro Israelense, causando dezenas de vítimas. De outro lado, o processo de paz do Oriente Médio está sendo torpedeado pelos xiitas, em que pese o empenho das autoridades israelenses e do falecido líder palestino Yasser Arafat.

c - Os movimentos neo-nazistas.- Representam, sobretudo na Alemanha,  uma tendência de inspiração totalitária. É necessário, a respeito,  chamar a atenção para o fato de que o regime soviético congelou, na antiga Alemanha do Leste, não eliminou, a velha ideologia totalitária nazista. Muitos dos atentados dos neo-nazistas têm sido perpetrados em cidades da antiga Alemanha democrática. A eliminação dessas tendências somente ocorre graças à maciça crítica cultural, que certamente não se dava no leste submetido ao controle ideológico do Partido Comunista.

A agressividade dos movimentos tupiniquins de inspiração nazista (a versão brasileira dos skinheads) ocupou, há alguns anos atrás, as primeiras páginas dos jornais. Parece que este início de milênio fizesse ressurgir esses fantasmas do passado. Práticas de feição nazista são adotadas hoje por narco-traficantes que pretendem controlar as torcidas organizadas. Não se trata de movimentos com uma explícita armação doutrinária. Na tendência geral de banditização dos conflitos que afeta ao novo século, não é raro descobrir velhas práticas intimidatórias, de que nazistas e fascistas foram mestres.

2 - Tendências autoritárias.- Referir-nos-emos, de forma sumária, a quatro tendências: a - narco-terrorismo, b - novas formas de fundamentalismo, c - a pervivência, na América Latina especialmente,  do velho patrimonialismo ibérico e d - a presença das velhas ideologias totalitárias.

a - Narco-terrorismo.- O que aconteceu na Colômbia nas duas décadas passadas, onde o Presidente da República, o Judiciário  - não poucos dos seus magistrados -  e boa parte dos congressistas  viraram reféns dos traficantes, é uma triste realidade e um alerta diante de um perigo que, infelizmente, começa a aparecer hoje no Brasil. (cf. Vélez-Rodríguez, 1988 e 1993). A situação do Rio de Janeiro, onde a população se vê obrigada a conviver com a violência imposta pelos traficantes e onde a própria polícia perdeu terreno para os bandidos,  é uma prova do risco que a narco-ditadura representa para a segurança do país. Não há dúvida de que o Brasil passou da condição de entreposto para o tráfico de cocaína à de produtor e consumidor. Informações do chefe do órgão de combate aos narcóticos nos Estados Unidos no início deste milênio, Lee Brown, revelavam que o Brasil e o México despontavam como os principais fornecedores mundiais de cocaína, já competindo com a Colômbia e os outros países andinos produtores de folha de coca.

A solução é a que esboçava o secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro no anos noventa: a ocupação dos espaços dos traficantes pelo governo. Bastou o general Cerqueira interpelar, na época, no centro da cidade, os apontadores de uma banca de jogo-do-bicho, para que em poucos minutos toda a bicharada das redondezas desbandasse despavorida (cf. O Globo, Rio de Janeiro, 30/08/1995). A solução não era tão complicada, mas exigia a firme vontade política de colocar os agentes da ordem nas ruas e nos morros.

Falta ainda no Brasil a formulação e a posta em prática de uma política coerente de combate ao narcotráfico. Exemplo dessa carência foi o fato, registrado pela imprensa, de os candidatos à presidência da República nas elieções presidenciais ocorridas ao longo deste século, não conferirem importância ao problema do narcotráfico. A questão do combate aos traficantes aparece infelizmente, hoje, como solução que não dá certo. Até um magistrado do Supremo Tribunal Federal se pronunciou a favor da descriminalização do narcotráfico como forma de combater a drogadicção! Uma pseudo-solução que, onde foi adotada (como na Holanda, nos países nórdicos e em Portugal) não deu certo.

b - Novas formas de fundamentalismo.-A explosão da bomba que, no centro da pacata cidade de Oklahoma, deitou por terra o prédio do Governo Federal, fazendo dezenas de vítimas fatais, no final do século passado, foi uma prova da força de intimidação que possuem grupos de fundamentalistas wasp na sociedade americana. Parece um fenômeno apenas deles, mas nos enganamos se não ficarmos atentos à entrada maciça no Brasil de pastores eletrônicos. A liberdade deve ser defendida em todos os terrenos. A manipulação do fator religioso por líderes inescrupulosos e radicais é um risco concreto. Ontem foram os padres de inspiração marxista-leninista, que defendiam as formas violentas da luta dos oprimidos, na chamada teologia da libertação. Hoje podem ser grupos de evangélicos exaltados. De outro lado, o Brasil não parece alheio ao fundamentalismo islâmico, como foi destacado anteriormente.

c - A pervivência, na América Latina especialmente, do velho patrimonialismo ibérico.- A tendência, muito presente na nossa cultura política, a privatizar o Estado para favorecer amigos e lascar inimigos, é de nítida inspiração autoritária. É evidente que o autoritarismo tem revertido em todo o continente, graças aos processos de democratização em curso. Mas continua presente nos hábitos de muita gente que utiliza o Estado como bem de família e que pretende pagar rombos bancários ou previdenciários com o dinheiro do contribuinte. A dupla saga do Mensalão e do Petrolão, hoje combatido este último pela Operação Lava-Jato, revelou até que ponto o Estado Patrimonial brasileiro foi capaz de cooptar a cúpula das grandes empresas brasileiras da área da engenharia, a fim de assaltar o Estado e distribuir o dinheiro público entre amigos e apaniguados da Presidência da República e do Partido no poder, no longo ciclo lulopetista. Somente a crítica política, a liberdade de imprensa,  a pressão da sociedade e, de forma especial, a educação para a cidadania, conseguirão erradicar de vez esse fantasma autoritário do patotismo e da corrupção que sufocam o patriotismo.

d -  A presença das velhas ideologias totalitárias.- Em que pese o fato da derrubada do Muro de Berlim, não se pode desconhecer o fato de que ainda restam saudosistas na sociedade brasileira, as chamadas por Meira Penna de “viúvas da Praça Vermelha”. Essas viúvas, saudosistas do stalinismo e do trotskismo, certamente não têm poder suficiente para implantar no Brasil um regime totalitário. São tradicionalmente ruins de voto. Só galgariam o poder na trilha de um golpe armado contra as instituições democráticas, que parece pouco provável nas atuais circunstâncias, após o corajoso desmonte da pretensa hegemonia partidária do PT pelo Judiciário, pela Imprensa e pela massa dos cidadãos que saíram às ruas ao longo dos últimos três anos, exigindo o fim da corrupção sistêmica que tomou conta do Estado.

Mas os totalitários continuam a defender com unhas e dentes a ditadura castrista e as aventuras guerrilheiras que ainda subsistem em alguns cantos da América Latina. Nesse contexto, as “viúvas da Praça Vermelha” reforçam as tendências autoritárias da nossa tradição patrimonialista. Não deixam de ser preocupantes as notícias veiculadas pelos jornais  (cf., por exemplo, O Globo,  Rio de Janeiro, 10 e 11 de Outubro de 1995), no sentido de que o Movimento dos Sem Terra montou uma estrutura dirigente na clandestinidade, seguindo à risca o modelo adotado pelos guerrilheiros centro-americanos e colombianos. Em anos anteriores circularam rumores de que guerrilheiros do Sendero Luminoso e das FARC estariam infiltrados no mencionado Movimento, e houve até, no início do governo de Fernando Henrique Cardoso, um informe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, destacando a organização guerrilheira dos Sem Terra. Independentemente da questão da infiltração de guerrilheiros estrangeiros, o certo é que o Movimento dos Sem Terra adotou uma organização de tipo paramilitar, com uma liderança que reconhecidamente entrou na clandestinidade e que desafia de forma aberta as autoridades constituídas, promovendo a violenta ocupação de fazendas produtivas e manipulando grupos de camponeses, de forma a induzir choques com a força pública, de que tem havido vítimas, muitas vezes fatais.

Esse tipo de radicalização representa, sem dúvida, um risco para a democracia brasileira, e preocupa na medida em que as autoridades têm agido até agora com excessiva tolerância, não deflagrando as ações preventivas cabíveis. A defesa das instituições de direito é o primeiro compromisso do poder constituído com a democracia. Não é democrático, certamente, agir com excesso de tolerância face a essas lideranças, que deliberadamente promovem o desrespeito às leis e o conflito armado no campo.

Para terminar, convém destacar a importância do debate cultural, no esforço em prol de superar os riscos do totalitarismo e do autoritarismo na sociedade brasileira. A herança tradicional do patrimonialismo age como segunda natureza e emperra o esforço de modernização do país. A mentalidade mercantilista e o corporativismo freiam qualquer processo de racionalização. As dificuldades vividas pelo país após o término do ciclo de autoritarismo militar, reforçam essa apreciação. A tendência a privatizar o Estado em benefício próprio, não é apenas mal do aparelho estatal; constitui, infelizmente, também, a base culturológica a partir da qual os próprios cidadãos enxergam as instituições governamentais. As repetidas fraudes previdenciárias, a corrupção que grassa em inúmeros setores da burocracia, a sonegação, o nepotismo, em suma, a falta de espírito público, são males da nossa cultura macunaímica, que levamos introjetados e que somente mediante um longo processo de conversão cultural será possível eliminar.

O debate cultural deve-se realizar à sombra das idéias liberais, as únicas que permitem fazer uma crítica adequada ao totalitarismo e ao autoritarismo. A situação brasileira, quanto a essa tarefa, é preocupante, pois o liberalismo foi banido da nossa cultura por décadas de prática autoritária e pelo positivismo marxista que invadiu os centros de ensino superior e as universidades. A respeito, escrevia Antônio Paim (1995: 13): “A tarefa mais importante com a qual se defronta a liderança brasileira consiste em retomar os laços com o pensamento liberal dos principais países. Desde o seu nascedouro até mais ou menos os anos trinta, mantivemos estreito contato com a temática e os autores liberais destacados. A partir de então o ideário patrimonialista tradicional assumiu feição socialista e ocupou todos os espaços e os postos relevantes da cultura. De seu largo predomínio, durante cerca de meio século, resultou a virtual esterilização das mentalidades, cujo patrimônio intelectual reduz-se hoje a meia dúzia de lugares comuns. Apanhados de surpresa com o fim da experiência socialista européia, teimam em desconhecer a obsolescência do marxismo. Assim, a linha de frente de nossa intelectualidade está completamente perdida, voltada e devotada ao passado e às suas propostas ultrapassadas. Somente o liberalismo tem algo a dizer à nossa juventude e às gerações do futuro.”

BIBLIOGRAFIA

ARBERRY, A. J. (1956). Sufism: an account of the mystics of Islam. London: Allen & Unwin.

ARENDT, Hannah. (1979).  The origins of Totalitarianism. New York: Harvest/HBJ.

AZIZ, Philippe. (1978). A civilização hispano-moura.. Rio de Janeiro: Otto Pierre.

BOER, Nicolas. (1982). A utopia marxista e o socialismo real. São Paulo: Convivio.

BOSCH, Juan. (1976). “Hablando del fascismo”. In: Nueva Política.. México, no. 1: pgs. 49-54.

CAMBÓ, Francisco, (1925). En torno del fascismo italiano.. (Prólogo de A. Ossorio y Gallardo).          Barcelona: Editorial Catalana.

CAMPANELLA, Tommaso. (1974). A cidade do sol. (Trad. de A. Lôbo). São Paulo: Abril Cultural.

CASSIGOLI, Armando. (1976).  “Fascismo típico y fascismo atípico”. On: Nueva Política. México,   no. 1: pgs. 175-180.

CORBIN, Henri. (1964). Histoire de la Philosophie Islamique. Paris: Gallimard.

COTTER, Cornelius P. (1986). “Fascismo”. In: Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro:          Fundação Getúlio Vargas, vol. I, pgs. 463-464.

CRASSWELLER, Robert. (1988). Perón y Los enigmas de la Argentina.. Buenos Aires: Emecé.

CRUZ HERNÁNDEZ, Miguel. (1981). Historia del pensamiento en el mundo islámico. Madrd:          Alianza Editorial, 2 vol.

DECHANCIE, John. (1987). Perón. São Paulo: Nova Cultural.

DELGADO, Emilio. (1976). “Significado y usos del fascismo”. In: Nueva Política. México, no. 1:     pgs. 61-66.

FAORO, Raimundo. (1958). Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 1a.          edição. Porto Alegre: Globo, 2 vol.

GARMENDIA, José A. (1986).  “Nacional-Socialismo”. In: Dicionário de Ciências Sociais. Rio de          Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, vol. 2, pgs. 803-804.

HACKETAL, Eberhardt. (1976). “Fascismo y lucha anti-fascista”. In: Nueva Política. México: no. 1:          pgs. 181-186.

HOBBES, Thomas. (1940). Leviatán: o la materia, forma y poder de una República eclesiástica y civil. (Tradução de M. Sánchez Sarto). México: Fondo de Cultura Económica.

JOMIER, Jacques. (1993). Islamismo: História e doutrina. (Tradução de L. J. Barraúna).     Petrópolis: Vozes.

LENINE, Vladimir Illich Ulianov. (1982). O Estado e a revolução. Rio de Janeiro: Lobo Mau.

LIPSET, Seymour Martin. (1963). El hombre político. (Tradução ao espanhol de E. Mendielevich).          Buenos Aires: Eudeba.

LUBAC, Henri de. (1978). La posterité spirituelle de Joachim de Fiore. Paris: Lethielleux-Namur,   vol. I.

MACHIAVEL, Niccolo. (1968). Le Prince.. (Intr. trad fracnesa e notas de R. Naves). Paris: Garnier.

MACIEL DE BARROS, Roque Spencer. (1990). O fenômeno totalitário. Belo Horizonte: Itatiaia;      São Paulo: Edusp.

MEIRA PENNA, José Osvaldo de. (1988). O dinossauro. São Paulo: T. A. Queiroz.

MENÉNDEZ-SAMARÁ, Adolfo. (1940). Fanatismo y misticismo. México: Casa de España.

MURMIS, Miguel e Juan Carlos Portantiero. (1973). Estudos sobre as origens do peronismo. São   Paulo: Brasiliense.

OPPENHEIMER, Andrés .(1992). La hora final de Castro: la historia secreta detrás de la inminente          caída del comunismo en Cuba. Bogotá/Buenos Aires: Javier Vergara Editor, Prêmio Pulitzer.

PÁDUA, Marsilio de. (1983). Defensor Pacis.. Antologia de trechos escolhidos. (Seleção e tradução          de F. Simonetti). Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho.

PAIM, Antônio. (1978).  A querela do estatismo. 1a. edição. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

PAIM, Antônio. (1981). A questão do socialismo, hoje.São Paulo: Convivio.

PAIM, Antônio. (1994a). A opção totalitária.  2a. edição. Rio de Janeiro: Editora da Universidade   Gama Filho. Coleção Pensamento Político Brasileiro, Volume XI.

PAIM, Antônio. (1994b). Correntes e temas políticos contemporâneos. 2a. edição. Rio de Janeiro:          Editora da Universidade Gama Filho. Coleção Pensamento Político Brasileiro, vol. XII.

PAIM, Antônio. (1995). O liberalismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.
PAIM, Antônio e Vicente Barretto. (1994). O liberalismo, o autoritarismo e o conservadorismo na          República Velha., 2a. edição. Rio de Janeiro: Editora da Universidade Gama Filho. Coleção          Pensamento Político Brasileiro, volume VI.

PIERRE-CHARLES, Gérard. (1976). “Fascismo y crisis imperialista”. In: Nueva Política. .México:    no. 1: pgs. 163-174.

POULANTZAS, Nicos. (1971). Fascismo y dictadura..1a. edição em espanhol. México: Siglo XXI.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. (1966). Du contrat social. (Cronologia e introdução de P. Burlegin).     Paris: Garnier-Flammarion.

ROUSSEAU, Jean Jacques. (1972). El origen de la desigualdad entre Los hombres.  (Tradução ao          espanhol de Coloma Lleal). México: Grijalbo.

SABINE, George H. (1972). Historia de la teoría política.  (Tradução ao espanhol de V. Herrero).          México: Fondo de Cultura Económica.

SAINT-SIMON, Claude-Henri de. (1965). La physiologie sociale. Oeuvres choisies. (Introdução de G. Gurvitch).  Paris: PUF.

SAINT-SIMON,  Claude-Henri de. (1969). Le nouveau christianisme. (Introdução de H. Desroche).          Paris: Seuil.

SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio. (1974). El Islam de España y el Occidente. Madrid: Espasa-         Calpe.

SCHWARTZMAN, Simon. (1982). Bases do autoritarismo brasileiro.. 1a. edição. Rio de Janeiro:          Campus.

TALMON, J. L. (1956). Los orígenes de la democracia totalitaria. (Tradução ao espanhol de M.          Cardenal Iracheta).  México: Aguilar.

TALMON, J. L. (1969). Mesianismo político, la etapa romántica. (Tradução ao espanhol de A.          Gobernado). México: Aguilar.

TAVARES, José Nilo. (1986).  “Getulismo”, in: Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro:          Fundação Getúlio Vargas, vol. I, pgs. 517-520.

TOCQUEVILLE, Alexis de. (1989).  O Antigo Regime e a Revolução.  (Tradução de Y. Jean). 3a.          edição. Brasília: Editora da Un. B.; São Paulo: Hucitec.

TOUCHARD, Jean. (1972). Historia de las ideas políticas. (Tradução ao espanhol de J. Pradera).          Madrid: Tecnos.

TOURAINE, Alain. (1989). Palavra e sangue: Política e Sociedade na América Latina. (Tradução    de I. D. Poleti). Campinas: Editora da Unicamp.

TROTSKY, Leon. (1977). A revolução traída. 11a. edição. Lisboa: Antídoto.

URICOECHEA, Fernando. (1978). O minotauro imperial. São Paulo: Difel.

VELASCO E CRUZ, Sebastião Carlos. (1986). “Peronismo”, in: Dicionário de Ciências Sociais. Rio   de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, vol. 2, pgs. 888-889.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1980). Castilhismo: Uma filosofia da República.  Porto Alegre:        EST; Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1982a). Oliveira vianna e o papel modernizador do Estado   brasileiro. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, (tese de doutorado).

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1982b). “Tradição centralista e Aliança Liberal”, in: Aliança Liberal:          Documentos da campanha presidencial. Brasília: Câmara dos Deputados, pgs. 9-43.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo.  (1983). “Introdução”, in: Cultura política e o pensamento     autoritário. Brasília: Câmara dos Deputados, pgs. 11-22.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1988). “Brasil: el desafío del narcotráfico; los dilemas de la transición política”. In: El Mundo, Medellín, 17-01-88, p. 2b.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1993). “Colômbia: narcotráfico e terrorismo”. In: Carta Mensal, vol.          39, no. 464, pgs. 41-50.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1994a). A ditadura republicana segundo o Apostolado Positivista. . 2a. edição. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, Coleção Pensamento Político        Brasileiro, vol. V.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1994b). A propaganda republicana. 2a. edição. Rio de Janeiro:          Universidade Gama Filho, Coleção Pensamento Político Brasileiro, vol. IV.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1994c). O Castilhismo. 2a. edição. Rio de Janeiro: Universidade     Gama Filho, Coleção Pensamento Político Brasileiro, vol. VII.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. (1994d). O trabalhismo após 30. Rio de Janeiro: Universidade         Gama Filho, Coleção Pensamento Político Brasileiro, vol.VIII.

VOEGELIN, Eric. (1981). A nova ciência da política. (Prefácio de J. P. Galvão de Sousa).  Brasília:          Editora da Un. B.

WEBER, Max. (1944). Economía y Sociedad. (Tradução ao espanhol de J. Medina Echavarría et     alii). 1a. edição em espanhol. México: Fondo de Cultura Económica, 4 volumes.


WITTFOGEL, Karl. (1977). Le despotisme oriental. (Tradução ao francês de M. Puteau). Paris:      Minuit.