Pesquisar este blog

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DÚVIDAS DE PESO: O ARRAZOADO DE PERCIVAL PUGGINA EM RELAÇÃO À 2ª TURMA DO SUPREMO



Amigos. Tenho a minha posição firmada no sentido de apostar nas instituições brasileiras e na responsabilidade dos seus condutores. Mas os fatos das últimas semanas levantam sérios questionamentos que não podemos abafar. 
A atitude da maioria dos ministros do STF da 2ª Turma, notadamente de Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandovski no sentido de, céleres, terem aprovado o relaxamento da prisão do peso-pesado do crime organizado José Dirceu, causou impacto negativo na sociedade brasileira. A razão de peso é, a meu ver, a seguinte: A cúpula petista associou-se para delinquir. Na cúspide da pirâmide há duas figuras: Lula e Dirceu. Claro que há outras também, a começar pela Dilma que, como seu chefe, Lula, pelas delações feitas, sabe-se que "sabia de tudo". Ora, ora. Tudo bem que a Justiça ande devagar na colheita de provas. Os ritos precisam ser preservados. Mas ritos e atitudes éticas não podem brigar ao ponto de, num determinado momento, os primeiros passarem à sociedade a mensagem de que não há mais sentido de Justiça neste país. 
Dentre as muitas reações dos brasileiros em face desses fatos, ressaltam as razões apontadas, ontem, pelo general Augusto Heleno, ex-comandante militar da Amazônia. Elas situam-se neste contexto e é necessário que sejam levadas em consideração, dada a inquestionável autoridade moral desse eminente oficial perante a tropa e a opinião pública brasileira.
Parecem mais convincentes, hoje, as razões expostas pelo juiz Sérgio Moro, no sentido da necessidade de manter Dirceu na prisão, visto que, como um dos chefes da organização criminosa, poder vir a tumultuar as investigações em curso, tendo ficado fora da prisão graças à decisão da 2ª Turma do Supremo. Não podemos admitir, nesta altura dos acontecimentos, "pedaladas togadas". E sabemos que Lewandoski é mestre nelas (à luz do acontecido no julgamento da Dilma e da generosa interpretação de que ela poderia ser afastada da Presidência da República sem perder os seus direitos políticos). 
No atual embate entre a Segunda Turma do STF e os integrantes vencidos da mesma, os ministros Fachin e Celso de Melo, de um lado, de outro, entre a maioria da Segunda Turma e o Plenário do colegiado (evento que que está por vir) e, para complicar as coisas, entre o juiz Sérgio Moro e o Ministério Público, de um lado, e de outro a maioria dos ministros da 2ª Turma do STF, a resultante é a dúvida crescente, no seio da sociedade brasileira, no sentido de que a Suprema Corte represente a última instância jurídica em que todos podemos acreditar.
Que os eminentes Ministros do STF levem em consideração a perplexidade que ora paira na sociedade brasileira. Como eco equilibrado das dúvidas de peso que ora se levantam, reproduzo, neste espaço, o artigo que, hoje, divulga o jornalista gaúcho Percival Puggina.
OS HABEAS CORPUS DO STF: TERÁ A ÁGUA BATIDO EM QUEIXOS IMPRÓPRIOS?
Percival Puggina
           Ao mandar de volta ao aconchego do lar João Claudio Genu, José Carlos Bumlai, Eike Batista e José Dirceu, a segunda turma do STF abriu a porteira nos dois sentidos. Saem os presos e as suspeitas invadem o topo do judiciário nacional.
          Chega às raias do inadmissível que, conforme denunciou o procurador Deltan Dallagnol, o mesmo grupo de ministros tenha mantido na cadeia delinquentes em situação análoga aos que agora manda soltar. Como costumava dizer um amigo meu, já falecido: "É a diferença entre pano de chão e toalha felpuda".
          Como pode proporcionar segurança à sociedade um poder "supremo" da República que faz esse tipo de diferenciação? Que se conduz de modo ziguezagueante, para não dizer trôpego? Que decide e logo volta atrás? Onde alguns de seus membros se consideram em condições de julgar casos ante os quais se deveriam declarar impedidos? Que mantêm uma vida social comum e  conversações tão frequentes quanto pouco recomendáveis com figuras da cena política e econômica de quem nós guardaríamos prudente distância?  Os membros da Suprema Corte dos EUA, tão logo assumem suas funções, se recolhem a uma vida quase monástica, evitando toda atividade social que os exponha a situações de convívio inconveniente.
          Sinto muito. A desejável saída da crise política, pela qual tanto ansiamos como nação, pressupõe credibilidade no Poder Judiciário. E o STF vem se esforçando por cair em descrédito. É essa a conclusão inevitável de uma deliberação por 3 x 2 em matéria de tamanha sensibilidade social, onde isso parece não haver merecido qualquer consideração por parte da posição vencedora.
          Proliferam, então, as suspeitas. Como não associar esse surto de habeas corpus e as palavras arrogantes, duras e desrespeitosas do ministro Gilmar Mendes contra os promotores da Lava Jato, com a ruptura do contrato entre Antonio Palocci e os advogados que tratariam de sua delação premiada? Um dia o "Italiano" anuncia estar em condições de disponibilizar a Sérgio Moro atividades ilícitas com nomes, endereços e anotações que poderiam demandar mais um ano de investigações. Dia seguinte, recado dado, sabe-se da contratação, por ele, de advogados especializados em delações. Qual a consequência? Liberdade ainda que tardia para as toalhas felpudas! Só faltou ser dito: "Ai de quem falar em delação premiada daqui para a frente!". E Palocci dispensou seus advogados.
          Terá a água batido em queixos impróprios? A declaração da ministra presidente em entrevista ao programa "Conversa com Bial" da Rede Globo, na madrugada desta quarta-feira, 3, é uma clara expressão de insegurança quanto a isso. Disse ela: "A Lava Jato não está ameaçada, não estará. Eu espero que aquilo que cantei como hino nacional a vida inteira, nós do Supremo saibamos garantir aos senhores cidadãos brasileiros, de quem somos servidores: verás que um filho teu não foge à luta". Veremos?
________________________________

* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

Área de anexos

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ANTÔNIO PAIM: "Se minha experiência valesse ninguém seria comuna ou se casaria" (Entrevista à jornalista Eliana de Castro)

Amigos, reproduzo entrevista que a jornalista Eliana de Castro fez ao Mestre Antônio Paim, em São Paulo, na residência do grande pensador, (no blog faustomag.com), ao ensejo da celebração dos seus 90 anos. Um documento tocante e que certamente interessará a todos os que estudamos a obra de Antônio Paim e reconhecemos o grande valor que ele representa para a cultura brasileira. O link original da matéria é este: 
http://faustomag.com/antonio-paim-se-minha-experiencia-valesse-ninguem-seria-comuna-ou-se-casaria/
A jornalista Eliana de Castro e o Mestre Antônio Paim (Foto de Alex Catharino).

Diante de uma oportunidade única, resta apenas se entregar? Sem artifícios, sem medo de errar sobre o que deseja guardar como memória? De forma desajeitada, transformo a entrevista a seguir em um pequeno poema sobre o amor: ao Saber, aos livros, a qualquer alguém capaz de marcar profundamente nossa vida. Quem emana essa centelha é Antônio Paim, um dos mais importantes filósofos e historiadores brasileiros. Aos 90 anos, é responsável por uma trajetória que jamais deverá ser esquecida na história da filosofia brasileira e do pensamento político brasileiro. É ele um dos grandes responsáveis por nossa memória – ou o que deveria ser nossa memória. Seria Paim a caixa preta desse voo que fazemos pela História, como participantes ou meros espectadores? Não sei o que você, leitor, conversaria com ele: se sobre fatos jamais contados ou sobre os últimos 50 anos de nossa política. Escolhi, contudo, falar sobre o que fez um homem que desejou não ter alma mudar de ideia.
Filósofo e historiador Antônio Paim.
Eliana de Castro (blog Fausto) – Aos 90 anos, creio que o entendimento que o senhor tem sobre a vida, a família, a religião, o amor e o amor romântico seja muito diferente do que eu possa ter… Se o senhor pudesse voltar atrás e mudar alguma coisa, o que seria?


Antônio Paim: Difícil de responder… Não me arrependo de nada. Fui comunista de verdade, não como os que ficavam tomando whisky e falando besteira na zona sul do Rio de Janeiro, como era comum entre os intelectuais. Fui comuna mesmo. Fui para a Rússia para me transformar em um bolchevique sem alma, sem amigos. Era o meu projeto. E só fui salvo pela paixão por aquela russa… [Emociona-se]
O amor…


Antônio Paim. Até fico comovido. Eu me apaixonei por ela no curso. Ela era tradutora, dava aulas. Eu levava textos para ela traduzir e quando tinha uma palavra que ela não sabia eu ensinava. Aprendi russo com uma facilidade enorme. E ficou naquilo… Éramos em 20 homens, 20 brasileiros comunistas. A matrícula era na Escola Superior do Partido Comunista, mas a maior parte das aulas acontecia na Universidade Lomonosov. Eram aulas introdutórias, então, quando acabei, fui para a Lomonosov direto. O amor foi um processo de humanização para mim. Eu estava em um caminho e, depois que nasceu a minha filha, tudo aquilo acabou para mim.
Kant foi uma grande influencia para o senhor?

Antônio Paim. Kant inventou uma solução que considero adequada para medir se o nosso comportamento é moral, que é fazer o que todo mundo pode fazer. Se em um momento de aperto você mente, Kant disse que não pode. Porque se você mente, você inviabiliza as relações. E ele tem razão. Mas… Às vezes na vida você precisa fazer violações. E eu fiz muitas violações. Não sabia essa regra kantiana direito. Estudei Kant depois que saí do Partido Comunista. Foi quando conheci um alemão, engenheiro meteorologista, Leandro Ratisbona. Ele conhecia Kant. Tive uma sorte danada de encontrar Kant. Fiz terapia kantiana. Passei quase 20 anos estudando com ele, todo sábado, página por página. Então, as coisas que fiz, procurei fazer até o fim. [Emociona-se]
Podemos considerar o amor e a paternidade assuntos mais importantes do que política?


Antônio Paim. Podemos.
E os livros! Três coisas: amor, paternidade e os livros.


Antônio Paim. Pode ser. [Emociona-se]
Nota: no momento que Paim se emociona, o historiador Alex Catharino, que intermediou o encontro, dá o seguinte depoimento.


Uma experiência que posso dizer, desses anos todos não só acompanhando o professor Antonio Paim, mas vários dos discípulos dele, é que o professor Paim foi um “painho”, um pai para os alunos. A paternidade intelectual do professor Paim foi a de cuidar de todos nós, eu mesmo um garoto naquela época. Ele sempre teve o cuidado de guiar, ajudar, orientar, dar uma trilha. Ele é um pai intelectual que pega pelas mãos e vai guiando, ajudando a descobrir novas áreas de pesquisa, mostrando as necessidades que o pensamento político brasileiro, a ética, tinham e tem. O trabalho que ele fez, não só com os alunos, mas também ajudando a abrir cursos de pós-graduação por todo o Brasil, além dos cursos de humanidades juntamente com o saudoso Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez. Tudo isso é material que precisa ser recuperado, é material da paternidade intelectual que revela um cuidado com a nova geração.


Alex Catharino, historiador, autor de Russell Kirk – O peregrino na terra desolada, foi aluno de Antônio Paim.



Nota - Paim prossegue: Não atribuo importância à paternidade intelectual. Creio que o que a nossa geração fez foi criar, pela primeira vez – e posso estar exagerando – uma alternativa, bem organizada, para esse bestialógico que virou a cultura brasileira, principalmente nas humanidades. Ninguém lê nada! E não é resultado da Internet não. Isso vem de muito antes. O Ricardo [Vélez Rodríguez], professor na Universidade Estadual de Londrina [e hoje, na Faculdade Arthur Thomas - nota do blog "Rocinante"], dá 200 páginas para os alunos lerem e eles reclamam! É claro que a Internet contribui. Isso de conversar em apenas 250 caracteres é uma idiotice completa. O Vargas Llosa diz que perdemos a guerra, que a cultura ocidental foi liquidada. [A Civilização do Espetáculo] Foi, mas tem os focos de resistência.
Quais são eles?

Antônio Paim. Nós temos tudo pronto para combater tudo isso, esse povo da USP que está na área de Filosofia – não para prender e perseguir, como eles fazem conosco. É difícil, vem de uma tradição muito louca. Eles incorporaram isso com o positivismo. [Muda de assunto]
Pensando aqui, a única coisa que eu gostaria de fazer, e não sei como resolver, é trazer a russa para cá. Porque a separação desorganizou minha cabeça completamente. Casei com uma moça durante a faculdade, que era uma moça muito bonita, e tive que fazer o curso de graduação sem ter lido muitos autores direito – e com uma mulher grávida dentro de casa, tendo que trabalhar para pagar as contas. Mas eu estava com a cabeça voltada para sair do marxismo. Eu tinha deixado de ser comunista, mas eu era marxista, o que eu sabia era marxismo. Mudei de assunto de novo? [Dá risada].
Pode falar o que o senhor quiser…

Antônio Paim. Se eu pudesse voltar atrás, e não sei como faria, eu resolveria minha vida com a russa. Naquela época, eu não estava disposto a morar na Rússia. Eu queria voltar de qualquer jeito. Eles têm sete meses de inverno! Nasci no sertão da Bahia. Até os 16 anos, eu não sabia o que era inverno. Quando vim para São Paulo fiquei um pouco mais afeiçoado ao clima. Mas fiquei tão destrambelhado quando a russa foi embora que casei com a pessoa errada. Durou um ano. Fomos irresponsáveis. A minha paixão pela russa foi um processo de humanização. O nascimento da minha filha russa foi também fundamental para eu sair daquele diabo que eu estava metido até o pescoço. Mas com a separação fiquei muito mal e tomei muitas decisões erradas. Quando eu era professor, eu costumava dizer: se minha experiência valesse, ninguém seria comuna ou se casaria. [Dá risada]
Quando o senhor fala do amor como um processo de humanização, é porque não temos controle sobre o amor e ficamos vulneráveis?

Antônio Paim. Se você tivesse ideia do que é o processo de bolchevização do sujeito… É brutal. Só de se propor a não ter família, amigos, já é um absurdo total.
Mas por que o senhor buscou isso?

Antônio Paim. Eu não queria ter alma. Aquele processo de construção do chamado comunismo na Rússia é de uma brutalidade inominável. É mais fácil explicar o comunismo do que o nazismo. O nazismo está misturado com nacionalismo, entre outros assuntos. O comunismo você não entende sem conhecer essa brutalidade. É importante dizer que Marx não tem nada a ver com o que houve na Rússia. Esse livro que escrevi sobre marxismo [Marxismo e Descendência], foi uma das coisas que eu tinha que fazer, foi um ajuste de contas com o marxismo.
Qual conselho o senhor deixaria para mim, ou para todos que desejam aprender mais, que apreciam a vida intelectual?

Antônio Paim. Procure ser autentica e fazer as coisas com seriedade.
***


Nota: Agradeço publicamente ao historiador Alex Catharino a oportunidade de viver instantes inesquecíveis e o incentivo de continuar escrevendo apenas sobre o que me toca.
Conheça os livros publicados por Antonio Paim:

·         1966 – A filosofia da Escola do Recife.
·         1967 – História das idéias filosóficas no Brasil.
·         1968 – Cairu e o liberalismo econômico.
·         1972 – Tobias Barreto na cultura brasileira: uma reavaliação.
·         1977 – A ciência na Universidade do Rio de Janeiro (1931-1945)
·         1977 – Evolução histórica do Liberalismo. Em colaboração com Francisco Martins de Souza, Ricardo Vélez Rodríguez e Ubiratan Borges de Macedo.
·         1978 – A querela do estatismo.
·         1979 – Bibliografia filosófica brasileira – Período contemporâneo (1931-1977).
·         1979 – Liberdade acadêmica e opção totalitária. Título organizado por Antonio Paim.
·         1981 – A questão do socialismo, hoje.
·         1981 – Os novos caminhos da Universidade.
·         1982 – Curso de Introdução ao pensamento político brasileiro.
·         1982 – Pombal na cultura brasileira. Título organizado por Antonio Paim.
·         1983 – Bibliografia filosófica brasileira (1808 -1930).
·         1983 – Para onde vai a Universidade brasileira?
·         1984 – História das idéias filosóficas no Brasil.
·         1986 – O estudo do pensamento filosófico brasileiro.
·         1987 – O modelo de desenvolvimento tecnológico implantado pela Aeronáutica.
·         1987 – Problemática do culturalismo.
·         1988 – Curso de Humanidades: História da Cultura. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1989 – Curso de Humanidades 2: Política. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1989 – Evolução do pensamento político brasileiro. Em colaboração com Vicente Barretto, Ricardo Vélez Rodríguez e Francisco Martins de Souza.
·         1989 – Oliveira Vianna de corpo inteiro.
·         1991 – A filosofia brasileira.
·         1992 – Modelos éticos: introdução ao estudo da moral.
·         1994 – Fundamentos da moral moderna.
·         1994 – Pensamento político brasileiro. Título organizado por Antonio Paim.
·         1995 – O liberalismo contemporâneo.
·         1996 – Curso de introdução histórica ao liberalismo. Título organizado por Antonio Paim em colaboração com Francisco Martins de Souza, Ricardo Vélez Rodríguez e Ubiratan Borges de Macedo.
·         1996 – Educação para a cidadania. Compêndio em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1996 – Roteiro para estudo e pesquisa da problemática moral na cultura brasileira.
·         1997 – A agenda teórica dos liberais brasileiros.
·         1997 – As filosofias nacionais.
·         1997 – Curso de Humanidades 3: Moral. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1997 – Curso de Humanidades 4: Religião. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1997 – Momentos decisivos de história do Brasil.
·         1998 – Etapas iniciais da Filosofia Brasileira.
·         1998 – História do Liberalismo brasileiro.
·         1998 – O Liberalismo social: uma visão histórica. Em colaboração com José Guilherme Merquior e Gilberto de Mello Kujawski.
·         1998 – Formação e perspectivas da social-democracia. Em colaboração com Carlos Henrique Cardim e Ricardo Vélez Rodríguez.
·         1999 – Curso de Humanidades 5: Filosofia. Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez.
Fonte: Centro de Pesquisas Estratégicas Paulino Soares de Sousa – Universidade Federal de Juiz de Fora.

Nota da jornalista Eliana de Castro acerca da foto: Gostaria de dividir a foto especial que tirei com Antonio Paim. Não há produção, manipulações, apenas um momento especial, um registro simples. Como esta entrevista sai do padrão, pelo entrevistado e pela forma como decidi apresentar o conteúdo, quis compartilhá-la.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A VENEZUELA NO CENÁRIO: ATÉ ONDE O PATRIMONIALISMO PODE AVANÇAR?


A triste saga de corrupção, autoritarismo e violência que os nossos irmãos venezuelanos sofrem não pára de piorar. A seguirem assim as coisas, o maduro-chavismo descambará em mais uma ditadura totalitária, na trilha da que, há mais de sessenta anos, se apossou de Cuba sob a férula de ferro dos irmãos Castro e da sua revolução comunista. 

Como frisava, em artigo recente, o cientista político Bolívar Lamounier ("A Venezuela e as esquerdas brasileiras", O Estado de S. Paulo, 23/04/2017, p. A2), "Passo a passo, o legado chavista vai destruindo a Venezuela. Em vez de agir no sentido da reconciliação da sociedade, Nicolás Maduro, o sucessor de Hugo Chávez, parece querer dividi-la ainda mais. A realidade cotidiana do país é o desabastecimento generalizado e a miséria. Dias atrás os jornais estamparam uma foto de venezuelanos disputando restos de comida com urubus num aterro sanitário de Boa Vista (Roraima). A alucinação de Maduro é de tal ordem que a hipótese de uma guerra civil não pode ser descartada. Informações divulgadas na semana passada dão conta de que ele estaria disposto a recrutar e armar um milhão de milicianos para defender a soberania nacional".

Esses males de ditaduras megalomaníacas não aparecem da noite para o dia. A ditadura cubana foi o primeiro balão de oxigênio que deu fôlego ao autoritarismo chavista. Houve estreita colaboração entre o maluco coronel-presidente Chávez e o regime de Havana, a tal ponto que o ministério venezuelano que cuidava da informação e da segurança do Estado passou a funcionar na ilha caribenha "assessorado" por militares cubanos da área de informação, no contexto da estratégia da guerra revolucionária para o continente latino-americano traçada há mais de três décadas pelo Barba-roxa cubano, o amigo de Fidel, Manuel Piñeiro. 

O projeto era transformar o ensaio venezuelano numa revolução continental que teria como eixo Havana. A idéia, megalomaníaca, foi de Fidel Castro e de Chávez. Este não piscou em comprometer seriamente a soberania do seu país entregando a gestão da informação estratégica e a segurança a estrangeiros. Mais uma vez se verifica que para a esquerda messiânica a ideia de Pátria é relativa. O que importa é a grande revolução mundial dos "oprimidos" contra os "opressores". Os primeiros, sabemos a-priori quem são: os povos latino-americanos. Os segundos concentram-se nos Estados Unidos. Duas simplificações catastróficas das quais somente saem lucrando os administradores da "salvação coletiva" habilmente manipulada pelos revolucionários de plantão. Referir-me-ei logo mais, no presente comentário, a este último ponto.

Mas ainda falando do tema que mencionei no parágrafo anterior, a revolução bolivariana não surgiu do dia para a noite porque, além da ajuda cubana, houve o compromisso de regimes esquerdistas latino-americanos com o seu sucesso. 

Lembremos que, quando Chávez foi desalojado do poder na tentativa de golpe ocorrida em abril de 2002, um dos que colaboraram mais estreitamente com o coronel venezuelano, uma vez abortado o golpe, foi Lula, ao longo do seu primeiro mandato. Diante da ameaça de crise de abastecimento de petróleo (paradoxalmente sofrido pela Venezuela, grande produtora mundial, quando das medidas estatizantes da petrolífera PDVSA por Chávez), Lula colocou à disposição do colega bolivariano um navio cargueiro da Petrobrás para suprir as necessidades prementes do governo chavista. Essa foi a primeira "ajuda" do governo petista ao autocrata venezuelano. 

Na trilha dessa generosidade patrimonialista viriam outras "ajudas" como a do falido projeto da refinaria Abreu e Lima, que consumiu bilhões de reais sem que os venezuelanos aportassem (como prometeram) os fundos a que tinham se comprometido. Ora, esses bilhões não se traduziram em obras, mas em engorde das contas bancárias dos petralhas e associados. Outra "ajudinha" dos petralhas a Chávez correu por conta de uma das suas "reeleições", sendo que a campanha foi feita pelo marqueteiro de Lula.

Lula, desde o seu eterno palanque, não perdeu nunca a  oportunidade para engrandecer a figura de Chávez e a sua maluca revolução caribenha, afirmando que o problema da Venezuela é que ali havia "até democracia demais", como frisou num dos seus arroubos retóricos quando o líder venezuelano já estava doente, mas não piscava em mandar as hordas repressivas para assassinar oposicionistas ao regime. O antiamericanismo do Lula, aliás, ajudou a disseminar esse clima de admiração a Chávez e às demais propostas comunistas para a região, desde a criação, no início dos anos 90, do famigerado "Foro de São Paulo", cujo nascimento teve dois padrinhos: Lula e Fidel Castro, sendo o batismo do mostrengo ministrado por Frei Beto, representante dos bispos progressistas encarrapitados na direção da CNBB. O braço militar do Foro, é bom que se lembre, foi nomeado por Fidel na pessoa do coronel Chávez....

A propósito  da defesa incondicional do regime bolivariano por Lula e patota, Bolívar Lamounier frisa no artigo acima citado: "Ora, Lula é o líder inconteste da esquerda brasileira. A maioria dos políticos, clérigos e intelectuais que se autointitulam 'de esquerda' se dedica diuturnamente a cultuar sua personalidade. Voltemos, pois, à Venezuela. Ao evocar o que há anos se vem passando naquele país, é inevitável que nos vejamos como testemunhas da atitude das esquerdas brasileiras. Estas, com as exceções de praxe, notabilizam-se, como diria Nelson Rodrigues, por um silêncio 'de estourar os tímpanos'. Não defendem os direitos humanos como conceito universal, e sim os direitos humanos de uma determinada faixa ideológica. Quem quiser compreender tal atitude deve começar pelo antiamericanismo. Para o esquerdista brasileiro (ou para o latino-americano, em geral), ser indiscriminadamente contra os Estados Unidos é a credencial sine qua non de quem luta pelo progresso social e pelo bem da humanidade. O corolário desse posicionamento é que qualquer regime antiamericano é bom. Cuba é excelente; a teocracia iraniana é excelente; o chavo-madurismo pode não ser excelente, mas não é o caso de criticá-lo É, no mínimo, um aliado em 'nossa' luta contra o imperialismo. Mas o antiamericanismo é somente a ponta emersa de um grande iceberg. A parte submersa, em geral estruturada em torno da vulgata marxista, é a missão que as esquerdas se arrogam de conduzir a humanidade a algum paraíso terreno (...)".

Voltemos aos administradores da salvação coletiva. A ideia foi inventada por um filósofo genial e maluco do século XVIII, Jean Jacques Rousseau, fundador da ditadura de massas da modernidade. Como fazer para arregimentar os milhões de seres humanos que compõem os países na era moderna, perguntava o filósofo (lembremos que na França da Revolução Francesa havia 26 milhões de habitantes). Rousseau, no 8º capítulo do seu Contrato Social fornece a receita: crie-se um "credo político" em que todos devam acreditar. Quem não acreditar, seja jogado "nas trevas exteriores", ou seja, excluído do pacto político e da existência. Por que isso? Porque a unanimidade é o estado de felicidade coletiva da Humanidade. Logo, conseguir a unanimidade implica em garantir a felicidade geral. Quem consegue implantar a unanimidade? - Os "puros", responde Rousseau, ou seja aqueles que renunciaram aos seus interesses individuais para construir o interesse coletivo. Eles são os chamados a chefiar a grande transformação revolucionária. Como? Aterrorizando e chegando até a eliminação dos dissidentes. O resultado será o reino da Unanimidade ao redor do Legislador, que garantirá a felicidade coletiva.  Ele ocupará o lugar que na antiguidade Platão assinalava ao Rei Filósofo.

O corolário do maluco arrazoado é evidente: os rios de sangue que, à luz do rousseaunianismo, correram no mundo moderno, por conta das Revoluções em busca da Unanimidade, a começar pela Revolução Francesa, que inventou a maquininha para cortar cabeças de dissidentes, seguida pela Revolução Russa que, chefiada pela Minoria ("Bolcheviques", em russo) impôs o paraíso da unanimidade na ditadura totalitária bolada por Lenine e Trotsky e aperfeiçoada por Stalin e seguidores. É o paraíso que Lula et caterva queriam implantar no Brasil e que Maduro, ouvindo os trinos do "passarinho" de Chávez, está tentando impor a ferro e fogo, na vizinha Venezuela.

O troglodita metroviário virou chefe de Estado. E, com um exército de milicianos de um milhão de fanáticos armados de rifles kalashnikov, implantará o paraíso no país vizinho. Os descontentes já estão sendo mortos a tiros ou pulando fora. Os venezuelanos que disputam com urubus comida em Boa Vista formam parte dessa turma de amaldiçoados. Outros capítulos bastante cruéis desse drama estão por vir. Venezuela não merecia um desfecho tão trágico.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

AS REFORMAS AVANÇAM, APESAR DE LULA E PATOTA


As reformas avançam. Tudo o que Lula, a esquerda radical e a patota de sindicalistas da CUT não queriam. Mas avançam porque a sociedade quer. E a sociedade quer porque, sem elas, o país fica inviabilizado nos próximos anos. É questão de sobrevivência. 

Até a imprensa alinhada com a esquerda reconhece, como fez a Folha de São Paulo, em editorial publicado no 28 de abril: "Deu-se na madrugada desta quinta-feira o primeiro passo da ambiciosa e decisiva agenda reformista deste ano. Por 296 votos a 177, a Câmara dos Deputados aprovou projeto que altera de maneira substantiva a CLT, cujos alicerces remontam aos anos 1940. Tratar de normas que regem as relações entre patrões e empregados será tarefa delicada em qualquer lugar e momento; aqui, a revisão de práticas tão enraizadas converteu-se em tabu. A mudança pode não ser isenta de riscos, mas é, sem dúvida, necessária. Se não constitui panaceia, a reforma votada traz avanços importantes, na direção correta. (...). Numa grata ousadia, o texto elimina a excrescência do imposto sindical (chamado eufemisticamente de contribuição obrigatória), arrecadado por entidades patronais e trabalhadores. Não surpreende, pois, que sindicatos encabecem a oposição ao projeto, à qual se somam os partidos e militantes de esquerda. Afora o discurso fácil contra a perda de direitos, porém, não se ouvem dos críticos contrapropostas razoáveis".

Os conhecidos "movimentos sociais" manipulados por Lula e o PT estão "fazendo o diabo" nas ruas das nossas cidades e nas estradas principais, ajudados, claro, como de praxe, pelo crime organizado, neste dia declarado por eles "de greve geral". Bom, é caso de polícia, para a PF e as polícias estaduais identificarem os criminosos, os black blocs de praxe, e conduzi-los perante a Justiça e que sejam enquadrados na lei. Não é possível contemporizar com uma turma de baderneiros que tem como única finalidade inviabilizar as reformas a fim de, no rio revolto do Brasil paralisado, lucrar com as suas propostas esdrúxulas. Tudo com a finalidade de livrar o Lularápio da cadeia. E de voltar, por meios escusos, ao poder do qual foram enxotados pelos brasileiros.

Lamentável é que a CNBB, como órgão máximo da Igreja Católica no Brasil, se alinhe com essas forças do caos, conclamando à paralisação que os desordeiros tentam promover. Lamentável mesmo. Porque quem sai perdendo de tudo isso é a própria Igreja Católica, cujos fiéis, angustiados pela politização infame a que os quadros eclesiais cederam nas últimas décadas, buscam outras alternativas espirituais nestes tempos conturbados. Os bispos alinhados com a esquerda radical conseguiram até demover o Papa Francisco da sua viagem ao Brasil, como se se tratasse de um país governado por terroristas do tipo Estado Islâmico. Lamentável, nestes tempos confusos. Patriotismo às avessas (convertido em patotismo de baixo nível) desses pastores desnorteados.

Mas, em que pese os esperneios de Lula e dos seus radicais, as reformas prosseguirão o seu curso. É bom que saibam uma coisa: há instituições republicanas no Brasil. E a lei será cumprida!



quinta-feira, 27 de abril de 2017

CORRUPÇÃO ENDÊMICA NO BRASIL E NO MUNDO: AS (VELHAS) NOVIDADES BRASILEIRAS


Não é de hoje que a corrupção endêmica ameaça as Nações. Da segunda metade do século XX para cá, além da nossa Operação Lava Jato, mais quatro grandes operações foram deflagradas em diversos países, com a finalidade de esconjurar o mostrengo: a operação "Mãos Limpas" na Itália, a reação do partido comunista contra a "Máfia dos quatro" na China, o reconhecimento de que tudo era inviabilizado pela onda de corrupção da burocracia corrupta (denominada de O Lamaçal) na ex-União Soviética, e a denúncia fulminante da imprensa acerca das maquinações corruptas de Nixon contra o Partido Democrata nos Estados Unidos. De comum a todas essas operações ressalta a insatisfação crescente da sociedade em face da corrupção escancarada.

1 - Itália e a Operação "Mãos Limpas". 

Na Operação "Mãos Limpas" na Itália, a sociedade reagiu contra as práticas de corrupção corriqueiras no seio dos partidos políticos que se acostumaram à distribuição do butim, se apropriando de parcelas significativas de dinheiro público como "compensação" pelos serviços prestados à Nação em obras públicas e serviços essenciais. A reação de juízes e promotores foi saudada pelos cidadãos que se sentiam espoliados pelos corruptos. Com sucesso marcante nos primeiros anos, os juízes e promotores foram, aos poucos, perdendo apoio da sociedade, em decorrência da falta de uma moral social firme que desse continuidade à ação encetada no início com sucesso. Ao que tudo indica, a Igreja Católica, tradicionalmente majoritária no país, não conseguiu difundir no seio da sociedade italiana esse tipo de moral social. Tradicionalmente dividida em círculos de clientelismo corrupto, a sociedade italiana terminou se esquecendo da tarefa heroicamente empreendida por funcionários públicos honestos e terminou abrindo a porta para que novos líderes aparecessem, retomando a tendência corrupta. Foi assim como se tornou possível a aparição de um líder como Berlusconi, que terminou estabelecendo elos de continuidade mafiosa entre as suas empresas da área de comunicação e setores da sociedade italiana que passaram a apoia-lo. Se bem é certo que os antigos chefes políticos surpreendidos "com as mãos da massa" das práticas corruptas perderam a vez, surgiram novos rebentos do mesmo espírito que legislaram em causa própria. Resultado: a volta da doença atingiu a eficiência econômica do sistema, a Itália perdeu pontos no desenvolvimento da sua economia, novos centros do cancro corrupto foram abertos pela ação das tradicionais máfias (como ficou demonstrado por Roberto Saviano nas suas obras de denúncia política) e as coisas se acomodaram de forma periclitante para a sobrevivência do sistema, em face de novos e agressivos reptos como os decorrentes das ondas massivas de imigrantes cuspidos nas praias italianas pelos regimes terroristas do Oriente Médio e da Africa, com a espada da Dámocles do terrorismo sobre a testa do governo e da sociedade civil, como ocorre hodiernamente.

2 - A China comunista e a "Máfia dos Quatro". 

Na China comunista, após a morte de Mao-Tse-Tung, ficou exposto o trabalho em surdina desenvolvido pela mulher do líder, que organizou, com membros da burocracia partidária fiéis a ela, a denominada "Máfia dos Quatro" que passou a se enriquecer estupidamente a partir das expropriações efetivadas ao longo do período da "Revolução Cultural" maoista. No entanto, setores não contaminados do PC chinês reagiram à sombra da ética do mandarinato, neutralizaram a onda corrupta e reformularam o sistema à luz do princípio pragmático formulado por Den Xiao Ping de que "Não importa a cor do gato, conquanto cace o rato". Os chineses descobriram as práticas de gestão do capitalismo, abriram as suas fronteiras aos dinheiros do Ocidente e deram ensejo à onda de renovação da China contemporânea. Não é de hoje que a secular burocracia chinesa descobre esse caminho de abertura ao oeste. Isso já vinha sendo praticado em ondas que se repetiam, desde os velhos tempos das dinastias Han (202 a.C-265 d.C), Yuan (1279-1368), Manchu (1644-1912), etc., até a contemporaneidade. O conceito estratégico hodierno da liderança chinesa de "Mundo Murado" preserva a atitude de um pé atrás nas reformas modernizadoras, que devem preservar, antes de tudo, a estabilidade do sistema e a ortodoxia da burocracia inspirada no confucionismo. Xi Jinping, o atual mandatário chinês, emergiu justamente do lado conservador dessa burocracia confuciana, com raízes no seio das famílias, do atual mandarinato. O PC chinês conseguiu dar continuidade à onda de crescimento econômico graças ao investimento maciço em formação de lideranças empresariais e tecnológicas, as primeiras provenientes da elite empreendedora da "diáspora chinesa" que tinha emigrado para os denominados "Tigres Asiáticos" nas épocas duras da revolução maoista, tendo desenvolvido no exterior a sua criatividade mediante a prática do comércio intensivo, a poupança e a derivação para atividades empresariais e bancárias que a tornaram extremadamente rica, ao ponto de poder voltar para a Mãe Pátria no momento de pragmatismo de Den Xiao Ping, tendo feito florescer grandes conglomerados empresariais, incluindo Bancos. Esse processo de renovação econômica sobre bases éticas confucianas foi estudado pelo professor Peter Berger, da Universidade de Boston, ao longo das últimas duas décadas. 

As elites tecnológicas, por sua vez, vêm sendo preparadas mediante acertada política de "ciência sem fronteiras" direcionada, ao longo das últimas três décadas, a formar os melhores estudantes nos melhores centros tecnológicos dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Hoje a China sabe o que fazer com essa onda modernizadora, como mantê-la neste mundo convulsionado. Para isso, segundo revelam estudos de cientistas políticos alemães, a China conta hoje com mais de 1400 centros de estudos estratégicos financiados generosamente pelo governo, a fim de estudar todas as variáveis que se abrem pelo mundo afora em face da manutenção da segurança e da prosperidade do país. Uma invejável perspectiva estratégica de que estamos longe, certamente, no Brasil, onde o Estado não conta sequer com um centro de prospecção estratégica de nível internacional. Hoje a China, para 500 milhões de chineses, chegou ao Primeiro Mundo. Basta dar uma olhada para o turismo que essa elite econômica pratica, sendo praticamente multitudinárias as ondas de turistas chineses que percorrem os boulevards parisienses e demais roteiros "Elizabet Arden" do jet-set internacional. 

Na China, efetivamente, ocorreu uma mudança de rumo, mas o país ainda não saiu da tradição patrimonialista: o poder continuará a ter "donos". O abandono do comunismo maoísta pela atual elite dirigente não significou um rompimento com a tendência à privatização do poder por parte de uma elite ou de uma casta. O mandarinato chinês se modernizou. Tornou-se gestor de uma nova "sociedade limitada" capitalista. Porém, o capitalismo chinês não é uma economia aberta às sociedades anônimas. É um modelo de capitalismo dirigido desde o Estado. Quem não se ajustar - como aconteceu com o Google - , tem de arrumar as malas e ir embora.

3 - "O Lamaçal" na União Soviética.

Na antiga União Soviética, a corrupção correu por conta do poder total desempenhado pelo Partido Comunista, que varreu a inteligência e se apropriou da riqueza. De forma semelhante a como Hitler destroçou a intelectualidade alemã, a fim de erguer à liderança do país as mediocridades de que se compunha a elite do Partido Nacional Socialista alemão, Lenine e Stalin fizeram outro tanto na Rússia: simplesmente eliminaram todos aqueles que fossem capazes de pensar  ou elaborar uma visão da União Soviética e do mundo diferente da que eles professavam. A mentalidade que tomou conta do poder era unilinear, o que fez com que ficasse comprometido o processo de consolidação da Rússia como nação moderna. Isso se viu agravado com a perpetuação, sob Stalin, das erráticas políticas agrícolas de Lenine, que conduziram ao desaparecimento dos empresários rurais. Lenine tinha, aliás, uma visão bastante ingênua do que era a economia industrial, imaginando que esta se reduzia ao simples controle cartorial, pelo Estado, sem maiores preocupações técnicas (como lembra Antônio Paim na sua obra Marxismo e descendência, de 2009). Desaparecido Stalin, o centro do sistema foi ocupado por burocratas pertencentes à antiga nomenklatura, formados na mentalidade de enriquecer a partir do Estado, passando rasteira em todos quantos se opusessem às suas tacanhas ambições. Era como se tivesse sido organizada uma Igreja com bispos "orçamentívoros" (bem ao gosto do que imaginava fazer, no Brasil, o PT). No seio dessa cultura de enriquecimento privado às custas dos bens públicos, os nomenklaturistas passaram a se considerarem superiores à lei. Os estatutos legais valiam para os outros, não para eles. Podiam praticar, sem risco, qualquer tipo de desvio de dinheiros públicos. Ninguém, na cúpula, via nada nem sabia de nada. O pacto era para que cada aprelho se enriquecesse, sugando a parcela de riqueza nacional por ele administrada. Nesse cinismo em que o público confundiu-se com o privado, os interesses pessoais e familísticos passaram a valer mais  do que a preocupação com o bem do país. 

Essa burocracia corrupta passou a ser chamada pelo povão de "O Lamaçal", nome que se poderia aplicar hoje, perfeitamente, à caterva de petistas chefiados por Lula e aglutinados no sindicalismo barulhento e improdutivo da CUT que só pensa na "greve geral". Esse foi o pano de fundo em que ocorreu a queda do Muro, sem ser disparado um único tiro. O sistema soviético caiu de podre. Como de podre caiu o petismo no Brasil. Gorbatchev, representante da geração nova de tecnocratas cansados com a corrupta burocracia do partido, esse estadista decidiu pôr em marcha um movimento de contestação às antigas estruturas, partindo de dentro do próprio sistema, numa espécie de "autoritarismo instrumental" que lembra a frase do general Figueiredo: "Juro fazer deste país uma democracia e prendo e arrebento quem se opuser". O Capítulo hodierno de Putin, novo czar emergido do serviço de inteligência da antiga URSS não rompeu definitivamente com o passado, mas passou a agir como autêntico "dono do poder", que gerencia estrategicamente a grande máquina de guerra que restou da antiga URSS. Mas a produção de bens e serviços em benefício da população não chegou a decolar como esperado. Do ângulo da formulação de uma moral social de tipo consensual que reforce a posição da sociedade russa em face do Estado, a inserção desse país no contexto do cristianismo ortodoxo, na tradição de subserviência da religião ao Kremlin, certamente de pouco tem ajudado para conter o despotismo dos donos do poder.

4 - Nixon, o bisbilhoteiro, nos Estados Unidos. 

O momento Nixon, protagonizado pelo presidente americano ao redor do famoso affaire Watergate nos anos 70 do século passado, em que informações sigilosas foram roubadas por agentes secretos a serviço do poder da sede do Partido Democrata em Washington e que, revelado amplamente pela imprensa, conduziu à queda do presidente, é bastante lembrado no Brasil, notadamente pelo papel decisivo que a imprensa livre teve em todo esse processo. Numa sociedade aberta como a estadunidense, os inimigos da democracia são exorcizados pela imprensa livre e pelas instituições que funcionam, sem que se decante o veneno da elite que se considera "dona do poder". Nixon foi jogado na lata de lixo da história e a democracia americana continuou a marchar rumo a novos desafios.

5 - O Brasil da Operação "Lava-Jato". 

Já no nosso combalido Brasil da era "Lava-Jato", os criminosos se acham no direito de questionar as instituições, comandados pelo ladrão-mor, Lula. A proposta de uma lei contra o abuso do autoridade que circula no Parlamento e que, embora modificada, acaba de passar no Senado, encaminhada pelos aliados do Lularápio, mostra até que ponto cresceu a desfaçatez dos arquitetos do caos. É de se esperar que a sociedade brasileira reaja em face de mais essa tentativa de destruir as instituições, em que Lula et caterva são especialistas. O pior crime cometido por Lula foi tentar desmontar as instituições republicanas. Ele já deveria estar preso "pelo conjunto da obra". 

O dramático de tudo isso é que não se consolidou, no Brasil, uma moral social consensual, independente das instâncias de governo, que blinde a sociedade contra as arremetidas dos poderosos encastelados em instituições patrimonialistas. A moral contrarreformista que ainda tem vigência foi reforçada pela conversão esdrúxula da máxima instituição da Igreja Católica no Brasil, a CNBB, em partido político, já há mais de três décadas, desde quando o padre português José Narino de Campos escreveu, em 1981, a obra intitulada: Brasil, uma Igreja diferente (São Paulo, T. A Queiroz), em que denunciava com dor a tomada, por ativistas marxistas, da alta cúpula da organização eclesial, tendo-a convertido em aparelho de ação e propaganda política simpatizante dos comunistas. Na ausência de uma moral social consensual decididamente voltada para a modernidade e que acelere a democratização das instituições preservando as liberdades, talvez fiquemos patinando, ainda durante muito tempo, no chão movediço dos interesses privados que tomam conta do Estado, com a nomenclatura patrimonialista de séculos enquistada no poder. 

Parece que alguma coisa, no entanto, está mudando no seio da sociedade brasileira. A "Revolução do Smartphone" que está ocorrendo por trás da Operação Lava-Jato, certamente é uma novidade no horizonte. Já não sobrevivem, como antigamente, nas eleições, aqueles que foram identificados pela sociedade como beneficiários do Estado Patrimonial. Será que vai continuar essa tendência? A julgar pelo que dizem conhecedores profundos da estrutura patrimonialista do Estado, como por exemplo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, parece que há chances de mudança. Quem tiver sido identificado pelo eleitorado como vinculado à onda de corrupção denunciada pela Lava-Jato, dificilmente se elegerá, seja do Partido que for. Isso já começou a se tornar realidade nas eleições municipais de outubro de 2016. Os petistas foram literalmente varridos do mapa. 

Em entrevista recente à imprensa portuguesa ("O sistema político partidário brasileiro acabou", jornal Público, Lisboa, 22/04/2017), Fernando Henrique falou: "Precisamos de lideranças. Hoje as pessoas já não se mobilizam em função de interesses partidários e políticos em sentido estrito, mobilizam-se eventualmente por causas: a paz, a participação das mulheres, a ecologia, a moral - esse vai ser um fator grande na situação brasileira, 'eu sou a favor de um comportamento mais transparente, eu não quero mais saber de político que enrole'. O político de modo geral enrola no modo de falar. Os que estão a ganhar no mundo de hoje, inclusive no Brasil, são aqueles que vão cara a cara, dizem o que querem, o que pensam, o que são. Não dizem que são uma coisa e fazem outra, isso desmoraliza. (...) Vou dizer como o [prefeito de São Paulo] João Dória ganhou a eleição. Ele é um empreendedor, é rico. Foi para a campanha e disse o que ele era isso, mas que também era joão trabalhador. Há um modo de comunicação com o povo que é diferente. O próprio Lula tinha uma capacidade de se comunicar pelo que ele era. Agora estão a mostrar, na Lava-Jato, que ele não era o que ele dizia que era".