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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

GREVES E ANARQUISMO


A onda de greves no serviço público decorre, em primeiro lugar, da falta de responsabilidade dos sucessivos governos e do congresso que, em 24 anos, não conseguiram regulamentar a matéria em lei. Decorre, em segundo lugar, do espírito patrimonialista (presente na burocracia que se acostumou à farra lulopetista) de privatização do espaço público e das funções estatais, como se fossem propriedade particular de quem as exerce. O país está à beira do colapso, com paralisações no pessoal que presta serviços essenciais em portos, aeroportos, postos de fiscalização nas estradas, etc. Cidadãos brasileiros que precisam de medicamentos importados sofrem na própria pele a paralisação dos funcionários da ANVISA. As operações de vigilância, em rodovias e fronteiras, simplesmente não acontecem, por causa da greve dos policiais federais e dos policiais rodoviários federais. Os alunos das Universidades Federais já há mais de três meses não têm aulas, vendo comprometida seriamente a sua formação profissional. Parece como se o país estivesse catatônico por obra de uma estranha doença que atinge o sistema nervoso do serviço público.

Falarmos em anarquismo da liderança sindical (a “anarquia branca” de que falava Oliveira Vianna em Instituições políticas brasileiras), talvez traduza o que se passa. As siglas à esquerda do PT passaram a dominar as centrais sindicais. Aprenderam dos seus mestres, os petistas, como se deve fazer uma greve, azucrinando a vida dos cidadãos inermes, a fim de chantagear o governo, para que ceda às suas descabidas exigências. O PT come do próprio veneno, que inoculou no movimento sindical há mais de vinte anos. Já tem até liderança sindical pensando em apelar para o STF, a fim de ver consagrado o seu direito de greve remunerada. É o cúmulo do cinismo! 

Em tempos em que saiu de moda falar de esquerda e de direita neste mundo multipolar e globalizado, no Brasil ainda as lideranças sindicais pensam nesses arcaicos termos. Millôr Fernandes dizia que, quando as ideologias ficam bem velhinhas, vêm morar aqui, no Brasil. Com o grevismo irresponsável que ora vinga no país se confirma esse ditado. A esquerda sindical acha progressista atentar contra os interesses dos cidadãos, a fim de conseguir que o governo lhe conceda o que pleiteia. Pensa em termos de ética totalitária, segundo a qual os fins justificam os meios. 

Não votei em Dilma, não votei em Lula, tenho sido um crítico constante da mediocridade e da corrupção dos governos petistas e lamento a oposição pusilânime que temos hoje no parlamento brasileiro. Mas acho que a presidente está certa ao não ceder à chantagem do sindicalismo que domina o serviço público. Por outro lado, acho tímidas demais as medidas tomadas pelo atual governo em termos de estimular o crescimento econômico, com “concessões” entregues à iniciativa privada para que esta construa, conserve e administre estradas e aeroportos. Considero que essas medidas “meia-sola” não resolvem os problemas de infraestrutura. O governo federal se quiser sair do atoleiro em que está, deveria privatizar para valer, permitindo que quem tiver experiência e for eficiente lá fora venha aqui fazer o mesmo. A solução não consiste, certamente, em abrir concorrências para “concessões” em que os que se inscrevem são nanicos ou gestores manipuláveis dos fundos de pensão das estatais, sem que tenham provado eficiência, e pensando unicamente em agradar ao governo, prometendo lhe repassar o que pede, fixando tarifas irreais para os serviços prestados, a fim de se acomodar ao populismo de plantão. Com essa fórmula foram ensaiadas as primeiras concessões de aeroportos e deu no que deu, fracassando. Trata-se, no caso da nossa infra-estrutura, de privatizar com todas as letras. Não como se fosse uma concessão feita ao mostrengo capitalista do setor privado. 

Nos atuais momentos de paralisia induzida pelo anarquismo sindical, é necessário que o governo corte o ar de um movimento de sindicatos oficiais que agem declaradamente contra os interesses do Brasil, como acontecia, nos idos de 1980, na Inglaterra. A presidente Dilma pode se firmar como verdadeira estadista se, junto com as privatizações necessárias, confrontar de forma decidida os dirigentes do grevismo irresponsável e obrigar os funcionários a voltar às suas tarefas. Margareth Thatcher fez isso na Inglaterra e o país superou os empecilhos que o impediam de se desenvolver a contento.

Particularmente lamentável é o movimento grevista nas Universidades Federais. Não concordo com esse jeito irresponsável de apresentar propostas de melhora salarial para os docentes e funcionários. Salários dignos sim, para professores e funcionários. Mas sem prejudicar a comunidade acadêmica como está acontecendo. E incluindo uma cláusula que foi relegada ao esquecimento pelos administradores: avaliando regularmente a eficiência dos serviços prestados. Isso é democrático e é justo. Hoje, a avaliação de docentes e funcionários, nas Universidades Federais, é apenas formal. Deveria haver um mecanismo sério, não ideológico nem clientelista, que permita avaliar, de forma constante, a qualidade dos serviços prestados por mestres e funcionários. Avaliação docente continuada só se faz, hoje, nas Academias Militares. As greves, notadamente no campo da saúde, da educação e da segurança, deveriam ser rigorosamente regulamentadas, a fim de preservar a prestação desses serviços essenciais à população que paga a conta. No projeto de lei que o senador Aloysio Nunes preparou para apresentar ao Congresso, está contemplado que, nas atividades essenciais como as mencionadas acima, pelo menos 60% do serviço sejam garantidos, em caso de greve. Que o ilustre Senador apresente logo a sua proposta para ser votada. 

A situação é grave. Quando está em jogo o bem comum, os interesses particulares têm de ser disciplinados, a fim de que o caos não se instale na sociedade. Os grevistas devem voltar ao trabalho imediatamente. O governo tem instrumentos para obrigá-los a cumprir com as suas funções. É necessário que o funcionalismo federal entenda, de uma vez por todas, que os recursos do orçamento são limitados.  Como frisou recente editorial de O Estado de S. Paulo (“Caindo na real”, 24-08-12) “Durante anos, o governo Lula beneficiou o funcionalismo federal com reajustes acima da inflação, que recompuseram com sobras o poder de compra de centenas de milhares de servidores. É normal que se tenham acostumado a esses benefícios, principalmente porque, tendo o PT fincado pé na administração federal, se consolidou entre a insaciável companheirada a convicção de que o Estado deve ser o Grande Provedor”. É a reedição, em pleno século XXI, do princípio pombalino de que cabe ao Estado “garantir a riqueza da nação” sem que seja necessário, aos cidadãos, trabalhar, bastando apenas “se encostar no Estado”.

sábado, 18 de agosto de 2012

UM DEBATE INTELIGENTE EM MEIO À MARÉ DE INCOMPETÊNCIA QUE ASSOLA AS NOSSAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Em meio ao grevismo irresponsável que tomou conta das Universidades públicas brasileiras, acho que vale a pena aprofundar na reflexão acerca das soluções para melhorar o nosso ensino médio, levando notadamente em consideração  a aprovação, pelo Senado, da Lei de Cotas e a promessa do Executivo de sancionar essa maluca legislação. Considero as reflexões do professor Simon Schwartzman, a respeito do ensino médio, muito procedentes, embora a sua proposta não seja a única. O Instituto de Humanidades apresentou, já desde os anos 80 do século passado, uma proposta a que me refereirei neste espaço em futura postagem.

 

 SIMON SCHWARTZMAN - ENSINO MÉDIO: ESCOLHER E APROFUNDAR E NÃO DILUIR

 http://www.schwartzman.org.br/sitesimon/?p=3814&lang=pt-br

Comentando os resultados desastrosos do ensino médio brasileiro, confirmados pelos dados recém divulgados do IDEB, o Ministro da Educação, Aloísio Mercadante, falou do absurdo que é exigir que os todos os alunos tenham que estudar 13 matérias diferentes neste nível, e o jornal Folha de São Paulo anunciou que “o Ministério da Educação prepara um novo currículo do ensino médio em que as atuais 13 disciplinas sejam distribuídas em apenas quatro áreas (ciências humanas, ciências da natureza, linguagem e matemática). A mudança prevê que alunos de escolas públicas e privadas passem a ter, em vez de aulas específicas de biologia, física e química, atividades que integrem estes conteúdos (em ciências da natureza). A proposta deve ser fechada ainda neste ano e encaminhada para discussão no Conselho Nacional de Educação, conforme a Folha informou ontem. Se aprovada, vai se tornar diretriz para todo o país”. O modelo a seguir seria o do ENEM, que se divide em quatro áreas, “ciências humanas”, “linguagens e códigos”, matemática e “ciências da natureza”, cada qual com as respectivas tecnologias.

A preocupação do Ministro é correta e muito oportuna, ainda mais se pensamos que hoje os jovens que queiram ter uma formação técnica de nível médio precisam fazer todas estas disciplinas obrigatórias mais as de sua especialização técnica. No entanto, a solução proposta pode levar a uma situação pior do que a atual. A razão é que não existe, como as vezes se pensa, alguma coisa que se chame “ciências sociais” ou “ciências naturais” em geral, e sim ciências e áreas de formação específicas, cada qual com seus métodos, tradição de trabalho, autores centrais e cultura própria, da mesma maneira que não existe um “método científico” em geral, mas abordagens experimentais, analíticas e interpretativas próprias das diversas áreas de conhecimento. Esta é uma discussão filosófica complicada que não caberia aprofundar aqui, mas o que significa, na prática, é que a única maneira de realmente entrar no mundo da cultura e do conhecimento é escolher uma ou poucas áreas de estudo e se aprofundar nelas, e não tentar entender o conjunto em sua generalidade. O mesmo vale para quem opte por uma via mais prática e profissional, a partir da qual os conhecimentos de natureza mais geral podem ser ampliados e aprofundados.
Para o ensino médio, isto significa que os estudantes precisam poder optar por poucas disciplinas e se aprofundar nelas, e não tentar aprender generalidades ou um pouquinho de cada coisa. Se o interesse for física, economia, inglês ou eletrônica, então ele deve poder se dedicar a isto e deixar de lado todo o resto, e não se preocupar com “ciências na natureza”, “ciências sociais” ou “linguagem” de maneira geral, coisas que poderão vir depois a partir destas escolhas. Uma vez escolhidos os temas, é necessário aprofundar os estudos com autonomia, buscando recursos didáticos disponíveis, experimentando, escrevendo e tendo seu progresso estimulado e acompanhado por professores competentes.

A outra observação é que o currículo do ensino médio brasileiro, embora muito detalhista e extenso, não inclui áreas de grande importância no mundo contemporâneo como a estatística, a economia, direito, ciência política e computação, ao mesmo tempo em que exige disciplinas como filosofia e sociologia que, embora possam ser muito interessantes e produtivas, correm o risco sério de serem dadas de forma extremamente rasa e preconceituosa quando tornadas obrigatórias.

Mas será que, além disto, não existem algumas coisas mais gerais que todos deveriam saber? O consenso é que todos deveriam desenvolver bem o domínio da língua e da matemática, e que isto deve ser trabalhado até o fim da educação fundamental, para que os estudantes já cheguem ao ensino médio com esta formação pronta. Mesmo aqui, no entanto, temos muito que avançar no entendimento sobre o que, realmente, todos os estudantes precisariam aprender. Em um artigo recente no The New York Times, o conhecido cientista social Andrew Hacker critica a exigência, nos Estados Unidos, de que todos os estudantes aprendam álgebra, e mostra como esta exigência faz pouco sentido, porque é pouco demandada no mercado de trabalho e é responsável por grande parte dos problemas de fracasso escolar que ocorrem nos Estados Unidos.

Diz ele: “Of course, people should learn basic numerical skills: decimals, ratios and estimating, sharpened by a good grounding in arithmetic. But a definitive analysis by the Georgetown Center on Education and the Workforce forecasts that in the decade ahead a mere 5 percent of entry-level workers will need to be proficient in algebra or above. And if there is a shortage of STEM graduates, an equally crucial issue is how many available positions there are for men and women with these skills. A January 2012 analysis from the Georgetown center found 7.5 percent unemployment for engineering graduates and 8.2 percent among computer scientists.”

E conclui dizendo que  ”Instead of investing so much of our academic energy in a subject that blocks further attainment for much of our population, I propose that we start thinking about alternatives. Thus mathematics teachers at every level could create exciting courses in what I call “citizen statistics.” This would not be a backdoor version of algebra, as in the Advanced Placement syllabus. Nor would it focus on equations used by scholars when they write for one another. Instead, it would familiarize students with the kinds of numbers that describe and delineate our personal and public lives. It could, for example, teach students how the Consumer Price Index is computed, what is included and how each item in the index is weighted — and include discussion about which items should be included and what weights they should be given. This need not involve dumbing down. Researching the reliability of numbers can be as demanding as geometry. More and more colleges are requiring courses in “quantitative reasoning.” In fact, we should be starting that in kindergarten.”

Esperemos que, ao levar à frente a indispensável reforma do ensino médio, o Ministério da Educação não recaia nos equívocos do ENEM, trocando os conhecimentos retalhados de hoje por generalidades sem conteúdo, e opte por dar aos estudantes possibilidades reais de escolha, aprofundamento e melhor formação.
   

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O EMPIRISMO INGLÊS


Universidade de Oxford, a mais antiga da Grã Bretanha e onde repercutiu, mais do que em outras Universidades européias, a tradição do empirismo
A meditação filosófica inglesa pode ser caracterizada, como propôs Hegel (1770-1831), do ponto de vista da idéia ou leit-motiv que lhe é característico: a valorização da experiência. Desenvolverei, aqui, os seguintes pontos: Num primeiro bloco, que intitularei “Conceituação”, fixarei os aspectos básicos dessa idéia, que confere personalidade à filosofia inglesa. A seguir, em cinco blocos, analisarei o processo constitutivo da mesma, percorrendo várias etapas, desde a Idade Média até o século XIX. 

1 – Conceituação.
 
Não há dúvida quanto à valorização do conceito de experiência no pensamento inglês, já a partir da Idade Média. Hegel, nas suas Lições sobre a filosofia da história universal, frisava que “(...) os princípios abstratos e universais nada representam para os Ingleses, nem lhes dizem nada” [1]. 

Comentando a apreciação do pensador alemão, especificamente em relação ao campo do direito, escreve Martin Laclau: “Referindo-se à Idade Moderna, (...) Hegel não pode deixar de realçar, com certa admiração, o caso da Inglaterra, país dotado de uma forte singularidade, que apresenta características que o diferenciam das restantes nações européias que engloba sob a denominação genérica de mundo germânico. Assim, diz que a partir do momento em que foi conquistado por Guilherme da Normandia[2], este país beneficiou-se do singular privilégio de estar ocupado exclusivamente consigo próprio. E adiante, referindo-se ao direito inglês, nota que nele não há nenhum princípio universal, nem nenhum pensamento determinante. A Inglaterra, para ele, é o país da particularidade, dos direitos totalmente concretos. Evidentemente, este apego da mentalidade inglesa às singularidades da experiência e esta consideração não sistemática da realidade, não poderiam deixar de suscitar, num pensador como Hegel, atraído pelas altas abstrações da metafísica, um sentimento em que coexistem o interesse e certo sentido crítico, que o levava a falar do atraso em que se encontrava o direito privado inglês” [3]. 

Esse apego à particularidade leva o espírito inglês à valorização da experiência do singular para, a partir daí, pela via indutiva, chegar à generalidade. A respeito frisa Laclau:  “O pensamento inglês tem uma raiz empírica e indutiva. O Inglês é um povo que ama as suas tradições, especialmente apto para captar as facetas individuais e peculiares que apresentam os diversos fenômenos, com certo desdém pelas abstrações, que tendem a ser evitadas. Maitland[4], o grande representante da escola histórica do século passado [XIX], dotado de fina sensibilidade literária, que lhe permitia formular sínteses que se tornaram lugares comuns, dizia, referindo-se ao comportamento inglês, que este se caracterizava por continuar a esbarrar no modo empírico para, por fim, através de sucessivos enganos alcançar a sabedoria: stumbling forward in our empirical fashion, blundering into wisdom” [5].

À singularidade histórica apontada veio se somar, sem dúvida, a valorização da experiência por parte da ciência árabe, que difundiu no Ocidente a tradição experimental dos Gregos, bem como os conhecimentos matemáticos da Índia e da Pérsia, junto com uma forma de entender a religião que não atrelava a razão à fé. Foi notável, na emergência da ciência moderna, a retomada do saber antigo por parte dos estudiosos medievais, possibilitada pelas traduções das obras mais representativas, efetivadas por homens que freqüentaram as universidades espanholas (Toledo e Cordova). Entre esses estudiosos cabe mencionar Michael Scott[6] (1175-1232), Guilherme de Moerbecke (1215-1286), Geraldo de Cremona (morto em 1187), etc. A grande era das traduções, como lembra Edward Grant (nasc. 1926), “foi precedida pelo retrocesso dos muçulmanos na Espanha e a sua total derrota na Sicília ao longo do século XI. Com a queda de Toledo em 1085 e a captura da Sicília em 1091, uma Europa cristã dinâmica tomou posse de grandes centros de erudição arábica” [7]. Não podemos esquecer, aliás, outra janela de igual importância, por onde entrou o saber da ciência antiga na Europa: a Abadia do Mont Saint-Michel, na Normandia (França), que tinha ligações diretas com Bizâncio, sendo este mais um caminho para a elaboração de traduções das obras de Aristóteles e dos escritos remanescentes da Biblioteca de Alexandria [8].

2 – A valorização da experiência na obra de Robert de Grosseteste (1168-1253) e Roger Bacon (1220-1292) [9].
 
A Universidade de Oxford, surgida no final do século XII das escolas fundadas no século IX pelo rei Alfredo o Grande (849-899) constituiu, junto com a de Paris, o arquétipo da Universidade da Europa ocidental. Oxford se converteu rapidamente na caixa de ressonância mais importante na valorização da ciência experimental. Retomando a tradição da espiritualidade inglesa expressa na obra de Veda o Venerável (673-735), monge de Jarrou, norte da Inglaterra, que conciliava a fé com a observação científica num contexto de agostinismo mitigado[10], Roberto de Grosseteste, sagrado bispo de Lincoln em 1253, desenvolveu, na Universidade de Oxford, importante trabalho de valorização da ciência experimental. Como lembra Colin Ronan (1920-1995), Grosseteste ensinava que a ciência “começou pela experiência dos fenômenos pelo homem”, sendo que a sua finalidade consistia em: “(...) descobrir as razões para a experiência, encontrar suas causas. Então tendo descoberto as causas – os agentes causais - o próximo passo seria analisá-las, selecionando-as em suas partes ou princípios componentes. Depois disso, o fenômeno observado deveria ser reconstruído a partir desses princípios, com base numa hipótese, e finalmente a própria hipótese teria de ser testada e verificada – ou invalidada – pela observação. Esses eram pontos de vista importantes, e o procedimento recomendado era valioso, pois continha a base essencial de toda a ciência experimental” [11]. 

O mais importante discípulo de Grosseteste, o igualmente franciscano Roger Bacon prosseguiu na trilha da valorização da experiência científica, bem como da sua conciliação com a fé. Empolgado pelas observações de Euclides (330-275 aC.), Claudio Ptolomeu (90-168), Al-Haytham (965-1040) e do próprio Grosseteste, sintetizou as suas próprias conclusões no terreno da óptica, no livro intitulado Opus Majus (1267). Eis o teor evidentemente empirista de Bacon nesse trabalho, ao descrever a utilidade das lentes: “(...) Então podemos dar forma a corpos transparentes e arranjá-los de tal maneira com respeito à nossa vista e objetos de visão que os raios se curvarão do modo que desejarmos e no ângulo que quisermos; poderemos ver o objeto perto ou à distância. Assim poderemos ler as menores letras a uma incrível distância (...). Poderíamos também fazer, aparentemente, com que o Sol, a Lua e as estrelas descessem até aqui embaixo” [12].

Ao mesmo tempo em que Roger Bacon valorizava a experiência externa como ponto de partida da ciência, chamava a atenção para os obstáculos que se opunham a esta (autoridade fraca e inepta, hábitos antigos, opinião popular sem instrução, encobrimento da ignorância de alguém por uma aparência de sabedoria). O pensador atendia, também, à defesa da experiência mística interior, tão objetiva e válida quanto a externa [13]. Nessa remota origem deita raízes a valorização da experiência interna, que será retomada por John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776), bem como pela Escola Escocesa do Senso Comum e que chegará a influenciar os românticos franceses, notadamente Madame de Staël (1766-1817) e Benjamin Constant de Rebecque (1767-1830) e o nosso primeiro pensador pátrio, Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846), na defesa que faz da experiência da fé cristã [14].

3 – A valorização da experiência na crítica nominalista à Escolástica. 

Este momento da meditação filosófica inglesa esteve representado pela obra de Duns Scot (1270-1308) e de William Ockham (1280-1349). O primeiro firma a independência da razão em relação à fé – contrariando, nesse ponto a convicção escolástica da philosophia ancilla theologiae – e desenvolve a teoria da bipolaridade das essências, que não seriam apenas universais, mas também individuais. Como frisa Carlos Lopes de Mattos (1910-1993), esta teoria (chamada da haecceitas ou da estidade) “(...) afasta da filosofia a preocupação exclusiva com as essências universais e transcendentes e formula o início de uma concepção que atribui estatuto de ciência ao aqui e agora. Essa legitimação racional do individual e do imediato parece continuar a tradição inglesa, já evidenciada em Roger Bacon, de valorização da experiência” [15].

William Ockham, discípulo de Duns Scot, levou até as últimas conseqüências o processo de crítica à Escolástica, deflagrado com a teoria da estidade. Retirou dos universais todo fundamento ontológico, identificando-os somente com signos que serviriam apenas para designar um conjunto de semelhanças abstraídas das coisas. López de Mattos caracteriza, assim, as conseqüências que o nominalismo de Ockham trouxe para a filosofia ocidental: “A primeira era a transformação de toda ciência em conhecimento empírico dos indivíduos, posto que, por um lado, só eles constituiriam a verdadeira realidade e, por outro, porque os indivíduos são conhecidos principalmente no plano da experiência. Para Ockham, o conhecimento conceitual ou abstrativo é confuso e indeterminado, pois apreende apenas os caracteres comuns a vários objetos e deixa escapar o que eles têm de particular e que os distingue dos demais. Outra conseqüência do nominalismo consistiu no abismo criado entre o conhecimento científico (dos seres individuais, concretos, encontrados na natureza) e os domínios do pensamento religioso” [16].
Mont Saint-Michel, na Normandia (França), em cuja Abadia foram acolhidos e traduzidos para o Latim, textos antigos de Aristóteles e de pensadores da Escola de Alexandria

4 – A valorização da experiência na obra de Francis Bacon (1561-1626).
 
A tradição empirista inglesa ganhou uma primeira sistematização na obra de Sir Francis Bacon intitulada: Novum Organon (1620). A significação deste escrito do chanceler do Reino foi instrumental ou lógica, a julgar pela apreciação de Voltaire (1694-1778) que, nas suas Cartas filosóficas, escrevia referindo-se a Bacon: “A mais singular e a melhor das suas obras é hoje a menos lida e a mais inútil: refiro-me ao seu Novum Scientiarum Organon. É o andaime com que se construiu a nova filosofia; e quando esse edifício foi levantado, ao menos em parte, o andaime não serviu para mais nada” [17]. 

Se bem é certo que o conceito de natureza com que Bacon trabalha é bastante nebuloso, coube-lhe, no entanto, um duplo mérito: em primeiro lugar, ter assinalado o caráter concreto e observável das formas naturais (corrigindo, nesse ponto, a física aristotélica, que considerava a forma algo metafísico) e, em segundo lugar, ter formulado os procedimentos metodológicos a serem seguidos, com vistas a uma observação rigorosa e experimental das formas naturais. Bacon recolhia, assim, a melhor tradição britânica de valorização da experiência, presente no pensamento de Grosseteste, Roger Bacon e os nominalistas.

No trabalho em prol de assinalar a contribuição baconiana ao método experimental, destaquemos o seu ponto de partida e o ponto de chegada. Em relação ao primeiro, Bacon chama a atenção para os ídolos ou erros do espírito: idola tribus (ídolos da tribo, consistentes na preguiça mental que nos leva a tecermos generalizações sem prova empírica); idola especus (ídolos da caverna, erros originados pela inércia do costume): idola fori (ídolos da praça pública, palavras que contribuem a falsear o nosso conceito das coisas) e idola theatri (ídolos do teatro, procedentes do argumento dos grandes sofistas) [18].

Em relação ao ponto de chegada do seu método, Bacon destaca os socorros com que ajuda a razão a chegar a um resultado definitivo. Esses socorros consistem nas prerrogativae instantiarum (ou prerrogativas dos fatos), nas instantiae migrantes (ou fatos translatícios), nas instantiae ostensivae et clandestinae (ou casos em que a natureza está no seu máximo de revelação ou no seu mínimo), nas instantiae monodicae et deviantes (ou casos em que a natureza se revela de forma excepcional), nas instantiae divortii (ou casos que nos revelam, desunidas, duas naturezas ordinariamente unidas), nas instantiae crucis (ou fatos cruciais), nas instantiae lampadis (ou simples meios para alargar a nossa informação), etc. [19]
 
O fundamental da contribuição de Francis Bacon reside, portanto, na valorização do método experimental, que seria largamente valorizado na Inglaterra ao longo do século XVII, notadamente por parte de Robert Boyle (1627-1691), Isaac Newton (1642-1727) e em geral todos os cientistas que colaboraram no empenho da Royal Society de Londres (fundada em 1645), no sentido de elaborar o catálogo dos fenômenos da natureza. Essa circunstância, como diz Émile Bréhier (1876-1952), constituiu “um ensaio para realizar a primeira exigência da ciência baconiana: a história” [20]. A tradição de dar valor à experimentação, impulsionada e sistematizada metodologicamente por Francis Bacon, influiu decisivamente no abandono da perspectiva dinâmica na cosmologia, tendência que se firma a partir de Galileu (1564-1642) e Newton, em prol da adoção da perspectiva cinemática [21]. Já não se tratava de indagar pelas causas ocultas da natureza, mas de observar e mensurar os fenômenos, com a utilização do método experimental.

5 – A valorização da experiência na filosofia inglesa dos séculos XVII e XVIII: Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704), David Hume (1711-1776) e Thomas Reid (1710-1796). 

Os mais destacados pensadores ingleses do período compartilham este leitmotiv: a importância fundamental que atribuem à experiência como fonte de certeza. Isso aparece claro na antropologia de teor mecanicista que inspira o Leviatã (1651) de Thomas Hobbes (1588-1679). Na primeira parte do livro, o homem é apresentado como aparece para quem o observa com critério empírico: ele é dotado de uma dupla tendência a se apropriar aquilo que lhe convém e a rejeitar o que não lhe convém. O Estado, que na filosofia política antiga e medieval era concebido como decorrente de uma tendência natural do homem, é apresentado por Hobbes como ente artificial a ser construído pelos próprios homens. 

Já na introdução ao Leviatã afirma o filósofo: “Do mesmo modo que tantas outras coisas, a natureza (a arte mediante a qual Deus fez e governa o mundo) é imitada pela arte dos homens também nisto: que lhe é possível fazer um animal artificial (...). E a arte vai mais longe ainda, imitando aquela criatura racional, a mais excelente obra da natureza, o Homem. Porque pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado, ou Cidade (em latim civitas), que não é senão um homem artificial, embora de maior estatura e força do que o homem natural para cuja proteção e defesa foi projetado (...). Por último, os pactos e convenções mediante os quais as partes deste Corpo Político foram criadas, reunidas e unificadas assemelham-se àquele Fiat, ao Façamos o homem por Deus na criação” [22].

Fica evidente, assim, o caráter experimental (artificial, diz Hobbes), da política, tanto no plano de construir o Estado, como no que tange ao se conhecimento. Embora John Locke tivesse haurido inspiração em fontes medievais do pensamento político inglês e, através delas, tivesse recebido a influência aristotélica [23], não é menos certo o decisivo influxo que sobre o seu pensamento teve a tradição empirista de Francis Bacon, Robert Boyle e Isaac Newton. Nos seus estudos e trabalhos de medicina, outrossim,  o filósofo do liberalismo recebeu a influência do empirismo que animava a Thomas Sydenham (1624-1689) com quem, em 1668 e 1669, escreveu alguns opúsculos médicos [24].  

Podemos estabelecer um paralelismo de cunho empirista entre as duas grandes obras de Locke, O Ensaio sobre o entendimento humano [25] e os Dois tratados sobre o governo [26]. Assim como, a partir da experiência, podemos concluir que não há idéias inatas, a experiência igualmente nos mostra que não há soberanos inatos. Assim como os nossos conhecimentos devem ser construídos a partir de idéias simples, originadas da experiência (externa ou interna), o Estado deve ser efeito de uma ação humana. E essa ação é o pacto social, efetivado pelos cidadãos. Coube a Locke o mérito de ter deitado os alicerces epistemológicos e políticos para a nova sociedade inglesa que emergiu da Revolução Gloriosa de 1688. E esses fundamentos são calcados numa epistemologia empirista e numa filosofia política acorde com essa forma de conhecimento.
Abadia do Mont Saint-Michel - foto de 1865.



Claustro da Abadia do Mont Saint-Michel

No pensamento de David Hume, expresso fundamentalmente na sua Investigação sobre o entendimento humano [27], também aparece clara a valorização da experiência. Hume critica os dois extremos em que pode cair a filosofia: o da teoria abstrata desligada da vida, e o do espírito prático que somente olha para o dia-a-dia, menosprezando a teoria. A verdadeira filosofia, considera Hume, deve ser, como ele diz, uma “geografia moral” que nos permita classificar, com rigor científico todos, os elementos que integram a nossa faculdade cognitiva. Na busca de objetividade nesse tipo de reflexão, o filósofo formula a perspectiva transcendental: tudo quanto temos no nosso conhecimento é representação da realidade, não a realidade mesma. Portanto, o estudo que deve ser empreendido pela filosofia não é o da coisa em si, mas o da nossa faculdade cognitiva, no ato de construir as representações a partir de instâncias apriori chamadas por Hume de “hábitos”, que nos permitem associar idéias e elaborar juízos. Embora o nosso conhecimento possa se elevar até representações abstratas, para Hume não há dúvida de que todo ele provém da experiência (interna ou externa).

No caso de Thomas Reid (1710-1796), o mais importante pensador da denominada Escola Escocesa do Senso Comum, a fidelidade à experiência é uma constante, embora o seu pensamento tenha sido formulado no contexto de uma crítica abrangente à obra de David Hume. Reid, que ocupou a vaga que Adam Smith (1723-1790) tinha deixado em Glasgow como professor de Moral, escreveu três obras importantes: Investigação sobre o pensamento humano, acerca dos princípios do senso comum (1764) e Ensaio sobre os poderes intelectuais do homem (1788). Parte de uma crítica frontal à teoria de Locke, Berkeley (1685-1753) e Hume acerca das idéias. Eles aceitavam o pressuposto de que o objeto imediato do conhecimento é algo que está na alma e que recebe o nome de idéia, ou (como dizia Hume), de impressão. Por esse motivo, no sentir do pensador escocês, eles não conseguiram afirmar a existência de alguma realidade exterior à alma, da alma mesma, ou das relações entre as coisas. “As idéias – frisava Reid – parece que possuem na sua natureza algo que é hostil a outras existências” [28]. O filósofo de Glasgow coloca em dúvida a existência da idéia como objeto. “As idéias de cuja existência exijo a prova, não são as operações da alma, mas os objetos supostos dessas operações” [29]. Reid nega, a seguir, a existência dessas “imagens de objetos exteriores” na alma. 

O pensador escocês identificou, no contexto da experiência, certos princípios decorrentes da própria constituição da nossa natureza, aos quais dá o nome de “princípios do senso comum”. Por esse caminho, nitidamente experimental, Reid afirma a existência real da alma e dos objetos exteriores que Hume negava, no seu entender. Trata-se de uma espécie de vivência da nossa alma, que nos leva a aceitar a sua existência e a afirmar a dos objetos externos. O filósofo escocês retoma, sem dúvida, a trilha da “experiência interna”, aberta séculos atrás por pensadores de inspiração agostiniana como Beda, o Venerável e Roger Bacon.
 
6 – A valorização da experiência na filosofia inglesa do século XIX: Thomas Hill Green (1836-1882), Francis Herbert Bradley (1846-1924) e Bernard Bosanquet (1848-1923).
 
Nada mais adequado para mostrar o peso que a valorização da experiência tem na meditação inglesa do século XIX, do que expor, aqui, as idéias fundamentais dos idealistas britânicos. O contraste seria evidentemente menor se tivéssemos decidido, por exemplo, analisar o pensamento do teórico do utilitarismo, Jeremy Bentham (1748-1832) ou de um liberal que sofreu a influência do positivismo como John Stuart Mill (1806-1873). Eles, evidentemente, recolheram o legado empirista de Locke e Hume. 

Thomas Hill Green [30] foi o primeiro, em Oxford, a se consagrar exclusivamente ao ensino da filosofia. Tinha estudado a obra de Kant (1724-1804) e conhecia as idéias de Hegel. As suas principais obras foram a Introdução ao tratado da natureza humana de Hume (1874), os Prolegómenos à ética (1883) e as Lições sobre os princípios da obrigação política (1866), sendo que estes dois últimos livros passaram a integrar o currículo das Universidades inglesas alo longo dos cinqüenta anos seguintes.

Em que pese o fato da inspiração de Green em Kant e Hegel, o pensador inglês ultrapassa o ponto de vista estritamente crítico dos filósofos alemães. Isto se dá em função dos pressupostos de típico sabor empirista (herdeiros das teses da Escola Escocesa do Senso Comum), em que se alicerça. Valorizando a experiência do eu interno, ao criticar a modalidade do empirismo de Locke e de Hume, Green considera que: “(...) não poderíamos ter nenhuma experiência da continuidade e do desenvolvimento de nossas idéias e de nossas impressões, se não houvesse, em nós, um eu suscetível de efetivar a unidade que estabeleça a ligação entre o que se produziu antes com o que vem a seguir. Nada pode ser objeto da experiência fora da atividade coordenadora da mente” [31].

É interessante anotar, à margem da inspiração empirista de Green, a importância por ele atribuída ao Estado no controle da vida econômica. Certamente aí encontramos a influência hegeliana. Para Green, como frisa Harry Burrows Acton (1908-1974) [32], “(...) a ação governamental não pode tornar os homens moralmente melhores, mas pode dar-lhes os meios para conseguir isso por si mesmos”. Green sentou, assim, as bases, na tradição política inglesa, da crítica ao laissez-fairismo, que John Maynard Keynes (1883-1946) desenvolveu a partir da década de vinte do século passado.
Francis Herbert Bradley chegou a ser, no sentir de Harry B. Acton. “(...) o filósofo mais conhecido e mais discutido dos países de fala inglesa” [33]. As suas principais obras foram: Os pressupostos da crítica histórica (1874), Estudos éticos (1876), Princípios de lógica (1883) e Aparência e realidade (1893). Muito influenciado por Thomas Green, o seu pensamento representa uma original interpretação da filosofia hegeliana, do ponto de vista da valorização da experiência. Na sua última obra, o pensador inglês salienta os laços que unem o pensamento à realidade. Ao analisar a questão da aparência, Bradley examina conceitos como os de coisas, qualidades, relações, espaço e tempo, causalidade, eu e atividade. Esses conceitos, no sentir dele, implicam imposição de contradição entre si e não devem ser aceitos. O conceito de realidade, que abarca a noção de coerência, exclui esses conceitos situados no terreno da aparência. “Nosso critério – frisa Bradley – exclui a incoerência e postula (...) a existência de uma coerência” [34].

Como apreender a realidade que é, fundamentalmente, harmonia? Para Bradley não há dúvida: mediante a experiência sensível. Harry B. Acton sintetizou assim o pensamento de Bradley a respeito: “A realidade não pode estar feita de uma pluralidade de objetos reais desprovidos de qualquer relação entre eles, mas deve ser um todo cujas diferenças se baseiam na harmonia. Além disso, deve ser experiência e, mais ainda, experiência sensível. Para provar que a realidade deve ser experiência, Bradley recorre ao argumento idealista bem conhecido, segundo o qual é impossível conceber qualquer coisa fora de toda experiência. E para provar que deve tratar-se de experiência sensível, afirma que somente a sensibilidade permite distinguir as diferenças sem que, por isso, possam ser separadas do conjunto que as contém. Quase veladas pela nossa experiência cotidiana, encontram-se experiências ao mesmo tempo diferentes e ligadas, que nos antecipam o que deve ser a realidade última ou o Absoluto” [35].

Em relação a este ponto, afirma o próprio Bradley: “Isso nos sugere a idéia de uma experiência total em que a vontade, o pensamento e a sensibilidade não formassem já mais do que um só conjunto” [36]. Harry B. Acton considera que Bradley se alicerça em Hegel ao afirmar que quanto mais espiritual é uma coisa, mais real é; no entanto, o nosso autor entende “(...) a palavra espiritual num sentido menos intelectual que o filósofo alemão. Nosso hegeliano inglês – conclui Acton – está influenciado pela tradição empirista como para não desejar se converter num metafísico racionalista”.

Contemporâneo e debatedor das idéias de Bradley, Bernard Bosanquet situa-se mais perto de Hegel do que o seu concorrente. Foi autor de várias obras, entre as quais Conhecimento e realidade (1885), Lógica ou morfologia do conhecimento (1888), Teoria filosófica acerca do Estado (1889), Princípios da individualidade e do valor (1912) e Valor e destino do individual (1913). Para Bosanquet, o mundo é um todo integrado por elementos estreitamente inter-relacionados uns com os outros no conjunto do sistema. Cada elemento, conseqüentemente, possui em si indícios dos outros elementos existentes no sistema, de forma tal que o conhecimento do particular leva implícito o do geral, em decorrência da inter-relação existente. A história, para Bosanquet, não é uma disciplina muito rigorosa do ponto de vista da razão, que se prende ao conhecimento científico do contingente. A experiência vivencial do todo, no entanto, supera os limites da razão, e transcende em formas de conhecimento supra-científico, através da arte, da religião e da filosofia. O idealismo de Bosanquet entronca de novo com a tradição empirista inglesa, notadamente com a herança da Escola Escocesa do Senso Comum, ao relacionar diretamente a apreensão do todo com o conhecimento, pela experiência, das suas manifestações concretas. Estas somente se podem dar nela. No terreno da filosofia política, Bosanquet reforçou a tendência hegeliana à valorização da intervenção do Estado na vida social, que já tinha sido defendida por Bradley [37].

Conclusão.
 
Alicercei-me, neste artigo, no insofismável testemunho de Hegel, para quem as filosofias nacionais integram momento fundamental da dialética da razão, porquanto captam “o espírito da época”. Procurei ilustrar, à luz da análise feita pelo filósofo alemão, a idéia ou leit-motiv que serviu de pano de fundo à meditação inglesa, desde as suas origens medievais até o momento da sua consolidação no século XIX. Essa idéia, vimos, é a da experiência. Ela aparece como fio condutor da filosofia, em que pese a variedade de autores e tendências.

Se, por um lado, a análise das filosofias nacionais deve ser objeto de estudo da história da filosofia, no sentir de Hegel, a inquirição, contudo, não pode parar aí. Momento fundamental da dialética da razão constitui também a busca da identidade dela consigo mesma, ao que só se pode chegar a partir da integração das várias filosofias nacionais e dos vários sistemas, numa visão de conjunto. Tal visão, revelando as diferenças históricas, deve explicitar, também, o fundo comum que as une, a força do espírito humano na busca da sua identidade. Para utilizar a bela imagem criada por António Braz Teixeira (nasc. 1936), o fato de ter pernas que repousam sobre a terra, não tira à ave a capacidade de voar até os céus.


BIBLIOGRAFIA
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[1] HEGEL, Wilhelm Friedrich. Lecciones sobre la filosofia de la historia universal. Madrid: Alianza, 1982, p. 699.
[2] Guilherme da Normandia, o Conquistador (1028-1087), que submeteu a Inglaterra após a batalha de Hastings (1066).
[3] LACLAU, Martin. “Os pressupostos do pensamento jurídico inglês”. In: Nomos – Revista Portuguesa de Filosofia do Direito e do Estado. Amadora, Nº. 3 – 4 (janeiro / dezembro 1987): p. 83.
[4] Frederic William Maitland (1850-1906).
[5] LACLAU, Martin. “Os pressupostos do pensamento jurídico inglês”. Art. Cit., p. 83.
[6] Cf. DUNCAN, Archibald A. M., “Michael Scott”, in: BENTON, William (Publisher), Encyclopaedia Britannica, Chicago – London: Encyclopaedia Britannica Inc., 1972, vol. 20, p. 30-31. Quanto aos outros tradutores medievais, cf. DUNCAN, Archibald A. M., “Michael Scott”, in: BENTON, William (Publisher), Encyclopaedia Britannica, Chicago – London: Encyclopaedia Britannica Inc., 1972, vol. 20, p. 30-31, p. 103-104; 122-125; 127-165; 205.
[7] GRANT, Edward. La ciencia física en la Edad Media, ob. cit., p. 40.
[8] Cf. GOUGENHEIM, Sylvain. Aristote au Mont Saint-Michel – Les racines grecques de l’ Europe Chrétienne. Paris: Seuil, 2008.
[9] Cf. CROWLEY, T. “Rev. Roger Bacon”, in: BENTON, William (Publisher), Encyclopaedia Britannica, ob. cit., vol. 2, p. 1000-1001. GRANT, Edward, La ciencia física en la Edad Media, ob. cit., p. 103-104.
[10] Cf. RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência. (Tradução de José Enéas Fortes), Rio de Janeiro: Zahar, 1987, vol. II, p. 136-137.
[11] RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência. Ob. cit., vol. II, p. 139.
[12] RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência. Ob. cit., vol. II, p. 142.
[13] Cf. RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência. Ob. cit.,vol. II, p. 141.
[14] No seu exílio em Paris Silvestre Pinheiro Ferreira escreveu o livro intitulado: Theodicée ou traité de la religion revelée, cujo original, inédito, foi preservado pela Academia de Ciências de Lisboa, segundo informa Antônio PAIM em História das idéias filosóficas no Brasil, 3ª edição: Convívio; Brasília: INL – Fundação Pró-Memória, 1984, Prêmio Jabuti 1985, p. 16.
[15] MATTOS, Carlos Lopes de. “Duns Scot – Ockham: vida e obra”. In: SCOTUS, João Duns, Escritos filosóficos, (tradução de Carlos Lopes de Mattos), São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. IX. Cf. BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, Buenos Aires: Sudamericana, s/d, vol. II, p. 439 seg. .
[16] MATTOS, Carlos Lopes de. “Duns Scot – Ockham”, art. cit., p. IX.
[17] Apud BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, ob cit., vol. II, p. 537.
[18] BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, ob. cit., v. II, p. 528 seg. ADAMSON, Robert e MITCHELL, John Malcolm. “Francis Bacon”, in: BENTON, William (Publisher),  Encyclopaedia Britannica, ob. cit., v. 2, p. 993-999.
[19] Cf. BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, ob. cit., vol. II, p. 534-535. ADAMSON, Robert e MITCHELL, John Malcolm, “Francis Bacon”, art. cit.
[20] BRÉHIER, Émile, Historia de la filosofia, ob. cit., vol. II, p. 537.
[21] Cf. LADRIÈRE, Jean, Éléments de critique des sciences et de cosmologie, Louvain: Université de Louvain, 1967, p. 140 seg.
[22] HOBBES, Thomas. Leviatã, ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. (Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva), 4ª edição, São Paulo: Nova Cultural, 1988, coleção “Nova Cultural”, p. 5.
[23] A influência de Aristóteles revela-se no conceito, utilizado por Locke, de que o homem busca naturalmente o convívio social (lembrando o princípio aristotélico de que o homem é um “animal político”), para ver garantidos os seus direitos inalienáveis à vida, à liberdade e às posses, que lhe garantem a felicidade (eudemonía).
[24] Cf. BRÉHIER, Émile. Historia de la filosofia, ob. cit., vol. II, p. 722.
[25] LOCKE, John. Ensayo sobre el entendimiento humano. 1ª edição em espanhol (segunda reimpressão). (Tradução de Edmundo O’ Gorman). México: Fondo de Cultura Económica, 1986.
[26] LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. (Prefácio e introdução de Peter LASLETT, tradução de Julio Fischer), São Paulo: Martins Fontes, 1998.
[27] HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. (Tradução de Leonel Vallandro). 1ª edição. São Paulo: Abril Cu8ltural, 1973, coleção “Os Pensadores”. Cf. JESSOP, Thomas Edmund. “David Hume”, in: BENTON, William (Publisher), Encyclopaedia Britannica, ob. cit., vol. 2, p. 833-837.
[28] SORLEY, W. R., Historia de la filosofia inglesa. (Tradução ao espanhol de Teodora Efrón e Julieta Gómez Paz), Buenos Aires: Losada, 1951, p. 226-227.
[29] SORLEY, W. R., Historia de la filosofia inglesa. Ob cit., p. 228.
[30] Cf. ACTON, Harry Burrows. “La filosofia anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon, (coord). Las filosofias nacionales: siglos XIX y XX. (Tradução de José Miguel Marinas e Eduardo Bustos). 3ª edição em espanhol. México: Siglo XXI Editores, 1984. WRIGTH, Muriel H. “Thomas Hill Green”, in: BENTON, William (editor), Encyclopaedia Britannica, ob. cit., vol. 10, p. 890.
[31] ACTON, Harry Burrows. “La filosofia anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon (coord.), Historia de la filosofia: las filosofías nacionales – Siglos XIX y XX, ob. cit., p. 5.
[32] ACTON, Harry Burrows. “La filosofia anglosajona”. In: BELAVAL, Yvon (coord.), Historia de la filosofia: las filosofias nacionales – siglos XIX y XX, ob. cit., p. 9.
[33] ACTON, Harry Burrows. “La filosofia anglosajona”. In: BELAVAL, Yvon (coord.), Historia de la filosofía: las filosofias nacionales – Siglos XIX y XX. Ob. cit., p. 17.
[34] BRADLEY, Francis Herbert. Appearence and Reality, cit. por ACTON, Harry Burrows, La filosofia anglosajona. In: BELAVAL, Yvon (oord.), Historia de la filosofia: Las filosofías nacionales – Siglos XIX y XX.
[35] ACTON, Harry Burrows. “La filosofía anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon, (coord.), Historia de la filosofía: las filosofías nacionales – Siglos XIX y XX, ob. cit., p. 17-18.      
[36] BRADLEY, Francis Herbert. Appearence and Reality, cit. por ACTON, Harry Burrows, “La filosofia anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon, Historia de la filosofia: las filosofias nacionales – Siglos XIX y XX, ob. cit., p. 18.
[37] Cf. ACTON, Harry Burrows, “La filosofia anglosajona”, in: BELAVAL, Yvon, (coord.), Historia de la filosofia: las filosofias nacionales – Siglos XIX y XX, ob. cit., p. 21-23.