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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

DOM QUIXOTE, HERÓI LIBERTÁRIO

Os sonhos de Dom Quixote - Gustavo Doré.

Dom Quixote e os moinhos de vento - Gustavo Doré.

Cervantes encarnou o liberalismo telúrico ibérico, que aflora em outras figuras dessa cultura. Após os estudos de Alexandre Herculano, Américo Castro, Martínez Marina, Ots Capdequí, Fidelino de Figueiredo, Sampaio Bruno, etc., ficou claro que a tradição liberal é, na Península Ibérica, mais antiga que a vertente patrimonialista e absolutista, que veio se inserir na história dos povos espanhol e português como realidade adventícia, posterior a essa inicial aspiração a um individualismo estóico e libertário. A tradição contratualista visigótica deu expressão a essa velha tendência independentista (belamente expressa nos Fueros Aragoneses), e foi o ponto central das dores de cabeça de conquistadores alienígenas, como Napoleão Bonaparte (1769-1821). O Imperador dos Franceses começou o seu rápido declínio quando decidiu invadir os confins da Ilha européia, a Península Ibérica e a Rússia. Defrontou-se com a tremenda capacidade de sobrevivência e o patriotismo do povo russo e com a particular heroicidade da sociedade espanhola, capaz de lutar até o último homem em prol da defesa da sua independência e da liberdade. Os quadros de Goya que retratam os fuzilamentos de 1812 dão prova dessa capacidade de luta heróica dos ibéricos contra o invasor estrangeiro.

Se há um traço que marca a personalidade de Dom Quixote, esse é a defesa incondicional que o herói cervantino faz da liberdade. O ponto essencial do seu programa caveleiresco é a ética da honra, que se centra na defesa da liberdade individual. Liberdade de ir e vir, liberdade de não ser importunado pelos burocratas do rei, liberdade de amar e de folgar com os amigos, liberdade para os cativos, liberdade das amarras contra-reformistas expressas no direito filipino e nos preconceitos inquisitoriais.

A defesa incondicional da liberdade, tal é o leitmotiv do belo discurso que Cervantes põe em boca de Dom Quixote, no Capítulo LVIII da Segunda Parte da obra. Eis as palavras do herói cervantino quando deixa o palácio dos Duques, após ser tratado por estes com todas as delicadezas e afagos da alta nobreza: “A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus; não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens. Digo isto, Sancho, porque bem viste os regalos e a abundância que tivemos neste castelo, que deixamos; pois no meio daqueles banquetes saborosos, e daquelas bebidas nevadas, parecia-me que estava metido entre as estreitezas da fome; porque os não gozava com a liberdade com que os gozaria, se fossem meus; que as obrigações das recompensas, dos benefícios e mercês recebidas, são ligaduras que não deixam campear o ânimo livre. Venturoso aquele a quem o Céu deu um pedaço de pão, sem o obrigar a agradece-lo a outrem que não seja o mesmo Céu!”[1]

Comentando o discurso de Dom Quixote, escreveu Mário Vargas Llosa o seguinte texto, em que destaca a inspiração liberal do nosso herói: “Recordemos que o Quixote pronuncia esta louvação exaltada da liberdade ao partir dos domínios dos anônimos duques, onde foi tratado a corpo de rei por esse exuberante senhor do castelo, a encarnação mesma do poder. Mas, nos afagos e mimos de que foi objeto, o Engenhoso Fidalgo percebeu um invisível espartilho que ameaçava e rebaixava a sua liberdade, porque os não gozava com a liberdade com que os gozaria, se fossem meus. O pressuposto desta afirmação é que o fundamento da liberdade é a propriedade privada, e que o verdadeiro gozo só é completo se, ao desfrutar, uma pessoa não vê recortada a sua capacidade de iniciativa, a sua liberdade de pensar e de agir. (...) Não pode ser mais claro: a liberdade é individual e exige um mínimo de prosperidade para ser real. Porque quem é pobre e depende da dádiva ou da caridade, nunca é totalmente livre”. [2]

A liberdade apregoada e defendida por Dom Quixote, é a que hodiernamente chamamos de liberdade negativa. Trata-se de uma liberdade não adjetivada, liberdade primária de ir e vir, essa liberdade que estimulou as revoltas espanholas, portuguesas e ibero-americanas, nas denominadas “conjurações”, seja dos comuneros espanhóis do século XVI, seja dos nossos conjurados neo-granadinos ou mineiros de fins do século XVIII. Ora, a liberdade primária defendida pelos conjurados latino-americanos é a de pensar e agir, a de não serem taxados os cidadãos sem prévia negociação com a Coroa. A propósito disto, afirma Vargas Llosa: “Que idéia da liberdade se faz Dom Quixote? A mesma que, a partir do século XVIII, far-se-ão na Europa os chamados liberais: a liberdade é a soberania de um indivíduo para decidir a sua vida sem pressões nem condicionamentos, em exclusiva função de sua inteligência e vontade. Quer dizer, o que vários séculos mais tarde um Isaias Berlin definiria como liberdade negativa, a de estar livre de interferências e coações para pensar, se exprimir e agir. O que reside no coração dessa idéia de liberdade é uma desconfiança profunda em face da autoridade, dos desaforos que pode cometer o poder, qualquer poder”.[3]

Essa liberdade negativa é também defendida por Sancho Panza. Em face das complicadas tarefas de governador da Insula Barataria, o fiel escudeiro prefere a vida simples de quem se contenta com o trabalho manual e o alimento na hora certa; prefere essa vidinha aos luxos da corte e à complicada ritualística da governança, que lhe exige, entre outras coisas, entrar em combate com incômoda armadura que lhe impossibilita os movimentos, levar uma surra monumental dos inimigos fictícios e se submeter à famélica dieta prescrita pelos médicos, a fim de manter as aparências estetizantes do palco da política. Eis o discurso com o qual Sancho dispõe-se a justificar a sua saída do poder, para desfrutar a simples liberdade dos filhos de Deus: “Abri caminho, senhores meus, e deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente. Eu não nasci para ser governador, nem para defender ilhas nem cidades dos inimigos que as quiserem acometer. Entendo mais de lavrar, de cavar, de podar e de pôr bacelos nas vinhas do que de dar leis ou defender províncias nem reinos. Bem está São Pedro em Roma; quero dizer: bem está cada um, usando do ofício para que foi nascido. Melhor  me fica a mim uma fouce na mão, do que um ceptro de governador; antes quero comer à farta feijões, do que estar sujeito à miséria de um médico impertinente, que me mate à fome; e antes quero recostar-me de Verão à sombra de um carvalho, e enroupar-me de Inverno com um capotão, na minha liberdade, do que deitar-me, com a sujeição do governo, entre lençóis de Holanda, e vestir-me de martas cevollinas. Fiquem Vossas Mercês com Deus, e digam ao duque meu senhor que nasci nu, nu agora estou, e não perco nem ganho; quero dizer: que sem mealha entrei neste governo, e sem mealha saio, muito ao invés do modo como costumam sair os governadores de outras ilhas; e apartem-se, deixem-me, que me vou curar, pois suponho que tenho arrombadas as costelas todas, graças aos inimigos que esta noite passearam por cima do meu corpo”.[4]

Dom Quixote, herói libertário. Mas, também, cavaleiro andante que luta em prol da justiça. Encontramos, na escala axiológica do herói cervantino, o culto insofismável a esses dois valores: liberdade, mas também justiça (que hoje denominaríamos de democracia, no sentido de igualdade perante a lei e ausência de privilégios). Dom Quixote, como fará Alexis de Tocqueville três séculos mais tarde, bate-se por um liberalismo que concilia defesa da liberdade e defesa da justiça/igualdade[5]. O liberalismo telúrico quixotesco é, como o de Tocqueville, um liberalismo social.

O Cavaleiro da Triste Figura, embora reconheça a legitimidade dos poderes constituídos, desconfia dos seus excessos. Numa Espanha presidida pelo Estado patrimonial dos Áustrias, Dom Quixote fica com um pé atrás, em face da autoridade. Ela, como nos subúrbios das grandes cidades brasileiras ou no nosso sertão, somente se fazia presente, na Espanha cervantina, para tornar mais difícil a vida do desprotegido cidadão. Quando os poderosos extrapolam os seus privilégios, utilizando uma legislação que, como a filipina, privilegiava quem tivesse recursos contra os que não tinham nada, o herói cervantino não duvida em favor de quem vai empunhar as suas armas: em defesa dos fracos. Isso acontece, por exemplo, quando Dom Quixote desafia o poderoso Juan Haldudo, que está açoitando um dos seus empregados que lhe extraviou uma ovelha. Dom Quixote intervém, lança em riste, obrigando o rude senhor a parar com a injusta punição.

A respeito desse episódio, afirma Vargas Llosa: “Como neste, a novela está cheia de episódios em que a visão individualista e libérrima da justiça conduz o temerário fidalgo a desacatar os poderes, as leis e os usos estabelecidos, em nome do que para ele é um imperativo moral superior”.[6]  A atitude libertária de Dom Quixote chega até os limites da anarquia, quando o herói descobre que a autoridade exercida em nome d’ El-Rei simplesmente escraviza sem contemplação e sem discernimento, em que pese o fato de os delitos terem sido já expiados pelos condenados, que são conduzidos para completar a sua pena nas galés. Ao libertar os doze cativos (entre eles o famoso meliante Ginés de Passamonte), Cervantes coloca em boca do seu personagem um alerta contra o excessivo rigor da autoridade: “porque dura coisa me parece o fazerem-se escravos indivíduos, que Deus e a Natureza fizeram livres”.[7]

Dom Quixote desconfia da autoridade, mas quer, ao mesmo tempo, o mundo em ordem. Ora, a paz social deveria ser obra dos indivíduos chamados por uma vocação especial – os cavaleiros andantes – a pôr ordem nas coisas humanas, sem que fosse necessário atribuir essa tarefa aos burocratas d’El-Rei, que certamente vão utilizar a parcela de poder que receberam para escravizar os seus semelhantes. Cervantes apela para uma aristocracia da ordem, que se contraponha ao exercício da autoridade régia. A respeito, escreve Vargas Llosa: “O Quixote não acredita que a justiça, a ordem social, o progresso sejam funções da autoridade, mas obra de indivíduos que, como os seus modelos, os cavaleiros andantes, e ele mesmo, tenham chamado a si a tarefa de tornar menos injusto e mais próspero o mundo em que vivem. Isso é o cavaleiro andante: um indivíduo que, motivado por uma vocação generosa, lança-se pelos caminhos a buscar remédio para tudo aquilo que anda mal no planeta. A autoridade, quando aparece, em lugar de lhe facilitar a tarefa, torna-a difícil”.[8]

A Espanha cervantina, Realidade que se converte em Mito.

A loucura de Dom Quixote, longe de ser esconjurada no decorrer da narrativa cervantina, termina contaminando a obra. Os fatos reais passam a uma segunda dimensão e tornam-se fantasia. Para curar a loucura do herói, todos os que o rodeiam, a começar pelo bacharel Sansón Carrasco, assumem um papel de ficção, a fim de, a partir desta, convencer o imaginoso manchego a largar a cavalaria andante. Ora, acontece o contrário: todos passam a viver a ficção quixotesca, o que termina dando à obra cervantina um inegável caráter contemporâneo. Trata-se de uma ficção continuada à la Jorge Luis Borges, ou à la Macondo: o furacão caribenho varre o mundo real e o transporta para a dimensão da fantasia, em que todos os sonhos valem. Dom Quixote sai vencedor: todos passam a compartilhar a loucura da fantasia. Até o prosaico Sancho começa a acalentar o sonho como a melhor dimensão da realidade, ao se tornar governador da Insula Barataria.

A respeito dessa dimensão fantástica da obra, escreveu Vargas Llosa, justamente destacando a contemporaneidade de Dom Quixote: “O grande tema de Dom Quixote de la Mancha é a ficção, a sua razão de ser e a forma como ela, ao se infiltrar na vida, vai modelando-a, transformando-a. Assim, o que parece a muitos leitores modernos o tema borgiano por excelência – o de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius – é, na verdade, um tema cervantino que, séculos depois, Borges ressuscitou, imprimindo-lhe um selo pessoal. A ficção é um assunto central da novela, porque o fidalgo manchego que é o seu protagonista foi tirado de lugar (...) pelas fantasias dos livros de cavalarias e, acreditando que o mundo é como o descrevem as novelas de Amadises e Palmerines, lança-se ele em busca de umas aventuras que viverá de forma exemplar e sofrendo pequenas catástrofes. Ele não tira dessas más experiências uma lição de realismo. Com a inamovível fé dos fanáticos, atribui a encantadores perversos que as suas façanhas tornem sempre a se desnaturar e a se tornarem falsas. No final, termina se saindo com a sua. A ficção vai contaminando o vivido e a realidade vai gradualmente se acomodando às excentricidades e fantasias de Dom Quixote”.[9]

Cervantes brinca com a fantasia. Os personagens da Segunda Parte de Dom Quixote leram o Primeiro Volume da obra e aceleram o processo de tornar a realidade ficção. Isso se dá a partir do capítulo 31 da Segunda Parte, com a aparição dos famosos duques sem nome, que desdobram a cotidianidade em fantasias teatrais; quando encontram as figuras de Dom Quixote e Sancho são literalmente seduzidos pela irrealidade destes e tomam carona no seu sonho. É então quando, no castelo dos duques, a vida vira ficção, fantasia, jogo. Existe exemplo mais claro de realismo mágico? Nesse brincar com a fantasia, Cervantes coloca num ponto de vista evanescente o narrador da história, ou melhor, os narradores desta. Quem são esses narradores? São dois: o misterioso Cide Hamete Benengeli, que não é lido diretamente, em virtude do fato de o seu manuscrito se encontrar escrito em árabe. O segundo é um narrador anônimo, que por vezes fala em primeira pessoa, mas que o faz usualmente do ponto de vista omnicompreensivo de quem fala em terceira pessoa. Este segundo narrador traduz ao espanhol e comenta a narrativa do primeiro.

A respeito deste artifício, escreve Vargas Llosa: “Esta é uma estrutura de caixa chinesa: a história que os leitores lemos está contida dentro de outra, anterior e mais ampla, que só podemos adivinhar. A existência desses dois narradores introduz na história uma ambigüidade e um elemento de incerteza sobre aquela outra história, a de Cide Hamete Benengeli, algo que impregna as aventuras de Dom Quixote e Sancho Panza de um sutil relativismo, de uma áurea de subjetividade, que contribui de forma decisiva a lhes dar autonomia, soberania e uma personalidade original”.[10]

Nesse sumir a realidade na aventura da ficção literária, Cervantes genialmente se insurge contra o gênero de “Livros de Cavalarias”, substituindo o descomunal dos seus dragões, anões, serpentes, terras exóticas, gigantes, castelos aquáticos (óbvios demais, por exemplo, na narrativa de Chrétien de Troyes), pela crescente evanescência do universo humano na perspectiva da loucura dos personagens principais, que toma de assalto a razão de todos os outros e dos próprios leitores. Valha, a respeito, a acertada observação de Martín de Riquer, no seu estudo intitulado Cervantes y el Quijote: “O certo é que Cervantes propôs-se satirizar e parodiar os livros de cavalarias, a fim de acabar com a sua leitura, que ele considerava nociva, e que, segundo demonstra a bibliografia, conseguiu plenamente o seu propósito, pois depois de publicado o Quixote diminuem de forma extraordinária, até desaparecerem totalmente, as edições espanholas de livros deste gênero”.[11]

Cervantes, nessa genial aventura da imaginação, consegue libertar os Livros de Cavalaria do ambiente de passado em que tinham mergulhado, ao fazer do Cavaleiro da Triste Figura um modelo ético a ser seguido pelo homem moderno. Trata-se de um ideal prometeico que torna ao herói fonte irradiadora de amor incondicional, tomando o lugar que o Deus-Amor ocupava no Cristianismo. No amor incondicional pela sua dama, o herói supera a morte e se projeta para a eternidade. A propósito, escreve com muito bom senso San Tiago Dantas, nesse seu magnífico ensaio intitulado Dom Quixote, um apólogo da alma ocidental: “Pois Cervantes, segundo penso, concebeu o Dom Quixote para extrair a Cavalaria da forma histórica em que vivera, e da ingênua literatura fabulosa em que agonizava, e para lhe assegurar uma ressurreição no mundo dos símbolos. Todo o Quixote prova que a perenidade da Cavalaria não está nas suas exterioridades, mas no molde espiritual invisível, que, depois de se haver modelado sobre ela, se separou de seu corpo transitório. Eis porque a novela cervantina pode ser implacável com a Cavalaria e os Livros de Cavalaria, para os quais aponta o caminho da morte, ao mesmo tempo em que o espírito e a ética da Cavalaria entram pela sua mão no clima da vida eterna”.[12]

Dom Quixote, modelo de herói moderno.

Terminarei a minha aproximação à obra cervantina ressaltando este aspecto que faz de El Quijote o precursor da literatura moderna, assim como Descartes (1596-1650) é o precursor da filosofia moderna com o seu Discurso do Método. A essência da modernidade pode ser condensada na seguinte idéia: o homem descobre a perspectiva antropocêntrica e faz de si próprio o centro do cosmo. Ora, nesse antropocentrismo prometeico e iconoclasta, o homem ousa representar Deus à sua imagem e semelhança. A melhor expressão dessa ousadia a encontramos na Renascença Italiana. Não é, por acaso, o belo afresco de Miguel Ângelo, na Capela Sixtina, o símbolo desse “fazer Deus à sua imagem e semelhança?” Não é, como lembrava Ortega, a alma da Renascença, esse instituir uma religião eminentemente teândrica, ao redor da “Imitação de Cristo?” O Deus absconditus das Catedrais Góticas tinha ficado submerso nas sombras do Mistério, ausente no sentimento que Rudolf Otto identificou como o numinoso. O sagrado-absolutamente-outro falava pouco para o homem da Renascença, que reinventa a experiência do mundo. Era necessário encarnar Deus no mundo, fazê-lo partilhar da nossa humanidade, era preciso trazer o céu para cá embaixo, torná-lo objeto da experiência humana. Não é essa a síntese da Divina Comédia de Dante (1265-1321)? É possível, sim, viajar pelo além, como quem descobre Novos Mundos. Esse é o roteiro essencial da metáfora do genial precursor florentino do quatrocento, que imagina Paraíso, Purgatório e Inferno a partir da perspectiva histórica da sua cidade.

Pois bem: Cervantes apropria-se dessa perspectiva antropocêntrica e ergue um ideal ético para o homem moderno: o da pessoa-amor, que ama incondicionalmente e que, ao redor desse amor-doação constrói o seu mundo, ou melhor, faz evanescer o mundo real na névoa da metáfora continuada da loucura quixotesca. A fonte (neo-platónica e judaica) que inspira esta perspectiva heróica é indubitável, e é o próprio autor quem a identifica no prólogo do Quixote, onde Cervantes escreve: “Se vos meterdes em negócios de amores, com uma casca de alhos que saibais da língua toscana topareis em Leão Hebreu, que vos encherá as medidas”.[13] O filósofo judeu-espanhol, falecido na Itália em 1535, foi, com a sua clássica obra Diálogos de Amor, a voz inspiradora da loucura amorosa de Dom Quixote. Um pouco mais adiante, o mesmo pensador inspiraria um outro gênio do século XVII, o filósofo luso-holandês Baruch Espinosa (1632-1677). Intuiu com propriedade o genial Unamuno essa reviravolta ontológica, quando, na sua Vida de Don Quijote y Sancho, escreveu: “Dom Quixote amou a Dulcinea com amor acabado e perfeito, com amor que não corre atrás do deleite egoísta e próprio; entregou-se a ela sem pretender que ela se entregasse a ele. Lançou-se ao mundo a conquistar glória e louros, para ir logo depositá-los aos pés da sua amada”.[14]

Nesse ato prometeico de criar um novo homem a partir da vontade de amar, ou como diz Ortega nos seus Estudios sobre el amor, no seio do “enamoramiento”, Cervantes antecipa o Kant (1724-1804) da Fundamentação da metafísica dos costumes com a sua ética do dever, emergente das profundezas subjetivas da liberdade transcendental, e prenuncia o Schopenhauer (1788-1860) de O mundo como vontade e representação. Cervantes supera, de outro lado, as duas formas de amor moderno desenvolvidas ao redor do Doutor Fausto e de Don Juan. Efetivamente, o Doutor Fausto, na versão belamente perenizada por Goethe (1749-1832), é movido por uma paixão titânica que tudo dissolve e que, como frisa San Tiago Dantas, “é infiel, pois em meio às satisfações perfeitas do amor, no peito do homem titânico medra o desejo de libertar-se”.[15] O herói cervantino supera, outrossim, o modelo do amor de Don Juan Tenório que, no sentir de Unamuno, ter-se-ia dedicado a seduzir com a mirada a sua dama, a fim de “possuí-la e saciar nela o seu apetite, não mais do que por amor a gozá-la e apregoá-lo; Dom Quixote, não. Dom Quixote não foi de galã a El Toboso a enamorá-la, mas saiu ao mundo a fim de conquistá-lo para ela”.[16]

Uma última observação: nessa doação incondicional à amada, Dom Quixote supera as vicissitudes do amor, liberta-se por completo dos seus limites. O herói cervantino conquista a plena liberdade. Nas palavras de San Tiago Dantas, “Assim como se liberta da constante e fatal sedução da aventura amorosa, Dom Quixote se liberta do ciúme. A entrega amorosa, sobretudo a entrega que ainda não conseguiu se satisfazer, isto é, ser recebida pela pessoa amada, assume um sentido unilateral que acaba por assemelhá-la ao Ser Divino”.[17]

Como Sancho estranhasse o fato de Dom Quixote ordenar a todos aqueles que libertava que fossem se prostrar diante da amada Dulcinea, o Cavaleiro da Triste Figura o repreendeu com as seguintes palavras: “Que néscio e que simplório que és! (...). Pois tu não vês que tudo isso redunda em sua maior exaltação? Porque deves saber, que nestas nossas usanças de cavalaria é honra grande ter uma dama bastantes cavaleiros andantes que a sirvam, sem que os pensamentos deles se abalancem a mais do que unicamente servi-la só por ser ela quem é, sem aguardarem outro prêmio de seus muitos e bons desejos senão o ela contentar-se de os aceitar por cavaleiros seus”.[18]

  Essa incondicional dedicação do herói à amada, foi interpretada pelo realista Sancho como uma entrega em mãos do Absoluto. Eis a forma em que o singelo escudeiro interpreta a louca paixão do seu senhor, aproximando-a da doação total de inspiração evangélica: “Essa coisa já eu ouvi em sermões: que se há-de amar a Deus por si só, sem que nos mova a isso esperança de glória, nem medo de castigo”.[19]

Entrega absoluta à amada que constitui a técnica do heroísmo quixotesco. “O herói, – frisa San Tiago Dantas – confia em Deus e em si mesmo, conserva a alma isenta de mescla e da satisfação de apetites, mas ainda lhe falta o meio de agir, a técnica. Essa técnica é, afinal, a essência do heroísmo quixotesco; podemos defini-la como o dom de si mesmo. Entregar-se a si mesmo, fazer do próprio ser um simples mediador da obra que tem diante dos olhos, desaparecer nessa obra, consumir-se e enterrar-se nela como a semente no solo, eis o savoir faire do cavaleiro, eis o que o Quixote nos ensina, do primeiro ao último dos seus instantes”.[20]

Não será essa lição de desprendimento heróico e de idealismo, o exemplo de que mais precisamos, nós brasileiros, sumidas as nossas instituições nas baixas e putrefatas águas da corrupção generalizada e do clientelismo rasteiro, nesta hodierna etapa da cultura patrimonialista, que tudo coloca a serviço de interesses clânicos e mesquinhos? Hoje, como ontem, O Quixote representa – repitamos aqui as palavras de Ivan Tourgueneff (1818-1883) – “ante todo a fé; a fé em algo eterno, imutável, na verdade, naquela verdade que reside fora do eu, que se não entrega facilmente, que quer ser cortejada e à qual nos sacrificamos, mas que acaba por se render à constância do serviço e à energia do sacrifício”.[21]




[1] Dom Quichote de la Mancha, ob.cit., Segunda Parte, cap. LVIII, pg. 300.
[2] Mario Vargas Llosa, “Una novela para el siglo XXI”. In: Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha. (Edição do IV Centenário. Estudos introdutórios de Mario Vargas Llosa, Francisco Ayala e outros). Madrid: Alfaguara / Real Academia Española / Asociación de Academias de la Lengua Española, 2004,  pg. XIX.
[3] Mario Vargas Llosa, “Una novela para el siglo XXI”, ob. cit.,  pg. XIX.
[4] Dom Quichote de la Mancha, ob. cit., Segunda Parte, cap. LIII, pg. 279.
[5] Cf. Alexis de Tocqueville. A democracia na América. 2a. Edição. (Tradução e introdução e notas de Neil Ribeiro da Silva). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1977, pg. 329.
[6] Mario Vargas Llosa, “Una novela para el siglo XXI”, ob. cit., pg. XX.
[7] Miguel de Cervantes, Dom Quichote de la Mancha. Ob cit.,  Vol I, Cap. XXII, pg. 131.
[8] Mario Vargas Llosa, “Una novela para el siglo XXI”, ob. cit., pg. XX.
[9] Mario Vargas Llosa, “Una novela para el siglo XXI”, ob. cit., pg. XV-XVI.
[10] Mario Vargas Llosa, “Una novela para el siglo XXI”. Ob. cit., pg. XXIII-XXIV.
[11] Martín de Riquer, “Cervantes y el Quijote”. In: Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha. (Edição do IV Centenário. Estudos introdutórios de Mario Vargas Llosa, Francisco Ayala e Martín de Riquer; notas de Francisco Rico. Posfácio de José Manuel Blecua, Guillermo Rojo, José Antonio Pascual, Margit Frank e Claudio Guillén).  Madrid: Alfaguara, Real Academia Española, Asociación de Academias de la Lengua Española, 2004, pg. LXV.

[12] San Tiago Dantas, Dom Quixote, um apólogo da alma ocidental. (Apresentação de Marcílio Marques Moreira). Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979, pg. 36.
[13] Miguel de Cervantes, Dom Quichote de la Mancha. Ob cit.,  Vol I, Prólogo, pg. 10. Os Diálogos de Amor de Leão Hebreu, inicialmente publicados na Itália, eram bem conhecidos na época de Cervantes.
[14] Miguel de Unamuno. Vida de Don Quijote y Sancho. Madrid: Alianza Editorial, 2004, pg. 94.
[15] San Tiago Dantas, Dom Quixote, um apólogo da alma ocidental, ob. cit.,  pg. 78-79.
[16] Unamuno, Vida de Don Quijote y Sancho, ob. cit., pg. 94.
[17] San Tiago Dantas, Dom Quixote, um apólogo da alma ocidental, ob. cit., pg. 76.
[18] Miguel de Cervantes, Dom Quichote de la Mancha. Ob cit.,  Vol I, cap. XXXI, pg. 200.
[19] Miguel de Cervantes, Dom Quichote de la Mancha. Ob. cit., ibid.
[20] San Tiago Dantas, Dom Quixote, um apólogo da alma ocidental, ob. cit., pg. 60.
[21] Tourgueneff, apud Luis Astrana Marín, “Cervantes y El Quijote”, ob. cit., pg. LXXVII.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O ROUCO CLAMOR DAS DAS RUAS

Passeata de 16 de Agosto em Londrina: 25 mil participantes. (Foto: Ricardo Fernandes)

Este escriba na passeata do dia 16 de Agosto em Londrina. (Foto: Ricardo Fernandes).

As passeatas de domingo passado, 16 de Agosto, não se esgotam na convocação, pelas redes sociais, feita pelo Movimento Brasil Livre e outros. Nem esta nem as anteriores manifestações populares  ficaram restritas a essas iniciativas. O movimento das ruas que o Brasil redescobriu de dois anos para cá mostra a insatisfação crescente da sociedade com o desgaste do atual sistema político de presidencialismo de compadrio. Os movimentos que conclamam para as manifestações vão evoluir, ao que tudo indica, para a formação de partidos políticos. A luta pelo poder exige isso. E é bom que aconteça. Falta, no Brasil de hoje, o surgimento de siglas partidárias descoladas da máquina patrimonialista que terminou sendo domesticada pelo PT. Se os partidos de oposição quiserem sobreviver, deverão entrar em contato com essa tendência, que se processa nas entranhas da sociedade brasileira. Menos conformismo e mais coragem. Menos politicamente correto e maior combatividade. Em face da ação deletéria da esquerda burra, é de primeira necessidade que surjam partidos de direita, de inspiração liberal-conservadora, que coloquem sobre o tapete da disputa política um plano de reformas essenciais na política, na economia e na cultura.

No ensolarado domingo 16 de Agosto os brasileiros saíram novamente às ruas, para fazer ouvir as suas reclamações em face da surdez sistemática do governo petralha. Mais de um milhão de cidadãos desfilaram pacificamente por ruas, praças e avenidas. As mensagens dos manifestantes? Praticamente as mesmas das passeatas anteriores, dos meses de Março e Abril. Chega de corrupção! Chega de gastança irresponsável do dinheiro público! Chega de arrocho para o povo enquanto o governo não controla gastos! Fora Dilma! Impeachment nela! Fora PT! Chega de marxismo nos altos escalões do governo e nos demais níveis da administração pública federal! Chega de roubalheira em nome do povo! Ponto final para a imoralidade dos que mandam, alicerçada no marxismo gramsciano com a finalidade de corroer os valores da nossa sociedade!

Essas vozes de indignação foram engrossadas com as que manifestavam apoio ao juiz Sérgio Moro e às atividades investigativas do Ministério Público e da Polícia Federal. Outra voz indignada: “Lula no xilindró”. O enorme boneco que, em Brasília, reclamava isso com a legenda: 13=171 fazia-se eco da exigência de milhões de manifestantes para que fossem levados à barra dos tribunais todos os envolvidos no escândalo do Petrolão, a começar pelo chefe, Lula da Silva, que segundo as investigações da operação Lava Jato aparece, agora, ligado aos meliantes nas gravações telefônicas feitas pelas autoridades. Em menor escala, alguns grupos exigiam intervenção militar já.

Um fato novo: o senador oposicionista Aécio Neves juntou o seu protesto contra o governo às vozes dos manifestantes em Belo Horizonte. De outro lado, foram numerosos os que, com cartazes, destacavam que os cidadãos brasileiros não se deixarão intimidar pelas ameaças totalitárias dos militantes petralhas que, do alto dos seus cargos de chefes de sindicatos filiados ao PT, ameaçam quem ousar protestar com ações armadas. A Venezuela não é aqui! Bolivarianos fora do Brasil! Em mais de 200 cidades brasileiras fizeram-se ouvir essas vozes de protesto e de rejeição ao governo petralha. Em Londrina, onde moro, os manifestantes foram calculados em 25 mil.

Qual será a resposta de Dilma aos brasileiros indignados? Ela já começou a ladainha de obviedades que nada dizem: o Brasil é um país democrático onde as pessoas podem protestar. Tudo bem: e qual será a sua resposta efetiva diante do clamor das ruas? Até agora, o máximo que tentou foi arquitetar conchavos entre quatro paredes, a fim de fazer melar a Operação Lava Jato e obstaculizar o caminho para uma livre investigação por parte do TCU sobre os gastos na gestão passada. Nessa queda de braço entre a presidência da República e o eleitorado, certamente Dilma está perdendo a parada: a sua popularidade mal chega aos 8%, segundo as últimas pesquisas. É evidente que um governo assim deve acabar. O melhor para o Brasil seria que Dilma renunciasse a um cargo para o qual jamais esteve preparada. Mas o seu orgulho de topeira e a sua convicção ideológica afinada com o totalitarismo marxista são obstáculos para que ela chegue à solução esperada. Mais pressão virá das ruas. Os cidadãos indignados não vão se calar. Os atuais arquitetos do caos, instalados no Planalto e nos ministérios podem estar seguros de que os dias de poder do PT estão terminando. O Brasil não tolera mais a existência de “donos do poder”.



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

RADIOGRAFIA DO DINOSSAURO LULOPETRALHA SEGUNDO AUGUSTO DE FRANCO


Augusto de Franco, o ex-militante petista e hoje lúcido crítico da lulopetralhada. (Foto: blog de Augusto de Franco)
Amigos, nesta antevéspera da passeata do dia 16 de Agosto, divulgo dois breves artigos do escritor Augusto de Franco, ex-militante petista e hoje crítico duro do totalitarismo lulopetralha. Um testemunho importante, vindo de quem foi ativo militante do PT. Mas que terminou rompendo com a petralhada ao perceber a índole totalitária e burra da agremiação e do chefe. Os petralhas são, no Brasil, a versão dos bolcheviques. Só pensam em si mesmos e em acaparar o poder para benefício exclusivo do partido e dos seus militantes. O resto que se lasque. Augusto de Franco, com raro valor, coloca a nu a índole criminosa do totalitarismo lulopetista. Eles não duvidam, quando necessário, em se vincular ao crime organizado. É a natureza assassina dos comunistas. Não é à toa que já apareceram, em São Paulo, os estranhos vínculos entre militantes petralhas e o PCC. As FARC, na Colômbia, viraram cartel da cocaína. O crime está nas entranhas dos totalitários lulopetralhas e demais organizações bolcheviques na América Latina e pelo mundo afora. No final do segundo artigo, Augusto de Franco, após ter sofrido as consequências da militância num partido totalitário como o PT, diz que não acredita mais em partidos políticos. Respeito a sua posição, mas divirjo da suas razões. O fato de ter sofrido no seio de um partido de orientação totalitária não é premissa suficiente para rejeitar os partidos políticos. Eles são necessários no mundo contemporâneo, para discutir as grandes e complexas questões do Estado e, também, para lutar pela conquista do poder. Faz-se necessário, hoje, no Brasil, um partido liberal-conservador que se contraponha à esquerda troglodita e que canalize a insatisfação da grande parcela da sociedade brasileira, cansada com as maluquices lulopetralhas. "Cão mordido por cobra tem medo de linguiça", diz o ditado popular. Quem sofreu a experiência de um partido totalitário experimenta medo de cair em nova esparrela. Mas é necessário superar o trauma e partir para outra, buscando participar de um partido afim com a defesa da liberdade. 


Enfim chegou: a Venezuela é aqui

Reflitam sobre isso proprietários dos meios de comunicação que mudaram suas linhas editoriais abruptamente na última semana, entrando num acordão para apoiar a manutenção a qualquer preço do governo corrupto. 

O presidente da CUT, Vagner Freitas, convocou hoje os movimentos sociais a ir à rua entrincheirados, com armas na mão, se tentarem derrubar a presidente e o Lula. O tal Boulos, do MTST, completou dizendo que os moradores dos Jardins, do Leblon e do Lago Sul são golpistas que não representam o Brasil. E mais: que seus pais apoiaram a ditadura militar e seus filhos são contra as cotas. Tudo isso no Palácio do Planalto (um espaço público) e na presença de Dilma (que deveria ser a presidente de todos os brasileiros). E ela também falou e deu a entender que qualquer protesto depois do resultado de uma eleição é golpe. 

É chavismo puro. É a venezuelização do Brasil. Olhem aí empresários que querem se associar a um projeto de poder para auferir lucros incessantes por longo tempo. Olhem aí proprietários dos grandes meios de comunicação, que mudaram suas linhas editoriais abruptamente na última semana. Reflitam sobre os cenários possíveis no curto e no médio prazos. Vejam as consequências do que vocês estão fazendo ao manter Dilma a qualquer preço, contra a decência e contra a vontade da esmagadora maioria dos brasileiros.


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Queda do Muro de Berlim em 1989: o PT não tomou conhecimento desse fato. (Foto: Blog de Augusto de Franco).


POR QUE A ESQUERDA ENVEREDOU PARA O CRIME – Uma análise

O que está acontecendo com o PT não é um fenômeno isolado. Aconteceu com vários grupos da esquerda autocrática depois da queda do muro de Berlim. Sobretudo na América Latina, em que muitos dirigentes de organizações ditas revolucionárias enveredaram para o crime.

Conheci vários desses militantes que viraram bandidos. Daniel Ortega, da Frente Sandinista, hoje presidente da Nicarágua, foi um deles. Me lembro como se fosse hoje. Ele foi convidado de honra no I Congresso do PT (que coordenei), no final de 1991. Chegando lá, no Hotel Pampa, em São Bernardo, Daniel pediu logo ao tesoureiro do PT à época, se não podia arranjar umas prostitutas. Esse Daniel e seu irmão Humberto, eram teleguiados de Fidel, que lhes passava pitos, aos berros. Reuniões decisivas para o futuro da chamada revolução sandinista foram realizadas em Havana, sob o comando de Fidel. E enquanto as bases petistas da Igreja idolatravam por aqui os sandinistas como expoentes de uma nova espiritualidade dos pobres, esses bandidos assaltavam patrimônio público (inclusive passavam para seus nomes propriedades imóveis) do Estado nicaraguense.

O mesmo ocorreu com gente da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional de El Salvador, que também está no governo. Aconteceu com o Mir (e com o Mir Militar) chileno, com alguns Tupamaros, com as FARC colombianas e, é claro, com a nova leva de bolivarianos, que não tinham tanta tradição de esquerda, como Chávez, Maduro e Cabello (mas aí já estamos falando de delinquentes da pior espécie, que inclusive chefiam o narcotráfico na região) e como Rafael Correa e Evo Morales. Bem, para resumir, aconteceu com boa parte das organizações e pessoas que frequentam as reuniões do Foro de São Paulo (fundado, não por acaso, um ano depois da queda do muro - e eu estava presente na reunião de fundação, no Hotel Danúbio).

Não dando certo a revolução pela insurreição, pelo foquismo ou pela guerra popular prolongada, essa galera chegou à conclusão de que seria preciso fazer a revolução pela corrupção. Bastaria adotar a via eleitoral contra a democracia e depois assaltar o Estado para financiar um esquema de poder de longo prazo. O plano era simples: conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido. O objetivo era claro: chegar ao governo pela via eleitoral, tomar o poder e nunca mais sair do governo. Para isso, entretanto, era necessário, além do tradicional caixa 2, fazer um caixa 3, encarregado de custear ações legais e ilegais, ostensivas e clandestinas, para controlar as instituições, comprar aliados, remover ou neutralizar obstáculos...

Afinal, pensaram eles: as elites não fizeram sempre assim? Para jogar o jogo duro do poder não se pode ter escrúpulos. Foi essa a conclusão de Lula, Dirceu e dos dirigentes petistas que tomaram o mesmo caminho. É claro que, como ninguém é de ferro e como não se pode amarrar a boca do boi que debulha, alguma compensação em vida esses bravos revolucionários mereciam ter. E foi assim que enriqueceram, abriram contas secretas no exterior para guardar os frutos dos seus crimes, adquiriram bens móveis e imóveis em nome próprio ou de terceiros e foram levando a vida numa boa enquanto o paraíso comunista não chegava.

O ano de 1989 foi decisivo para essa degeneração política e moral da esquerda. Mas o que aconteceu não foi um resultado do somatório de desvios individuais. Não! Eles viram que seria muito difícil conquistar o mundo e assumir o comando de seus próprios países, contrapondo um bloco a outro bloco. O bloco dito comunista se desfez. A União Soviética derreteu em 1991. Ruiu tudo. E agora? Bem, agora – pensaram eles – seria necessário ter uma nova estratégia. E eis que surgiu uma ideologia pervertida, baseada numa fusão escrota de maquiavelismo (realpolitik exacerbada) com gramscismo. Eles, como operadores políticos, conduziriam a realpolitik sem o menor pudor, enquanto que pediriam ajuda aos universitários para dar tratos à bola do gramscismo (e reproduzir mais militantes nas madrassas em que se transformaram as universidades).

No Brasil, porém, parece que erraram no timing. Precisariam de mais uns três ou quatro anos para ter tudo dominado, dos tribunais superiores, passando pelo Congresso, pelo movimento sindical e pelos fundos de pensão, pelos (falsos) movimentos sociais que atuam como correias de transmissão do partido, pela academia colonizada, pelas ONGs que se transformaram em organizações neo-governamentais, por uma blogosfera suja financiada com dinheiro de estatais e por grandes empresas (com destaque para as empreiteiras, atraídas pela promessa de lucros incessantes quase eternos se estivessem aliadas a um sólido projeto de poder de longo prazo).

Não deu tempo. O plano foi descoberto antes que as instituições fossem completamente degeneradas. E chegamos então a este agosto de 2015, ano em que alguns desses dirigentes vão começar a assistir, de seus camarotes na prisão, o desmoronamento do esquema maléfico que urdiram.

NOTA | Me afastei do PT no final de 1993. Portanto, há mais de 20 anos. Até aquela época não era muito visível a estratégia da "revolução pela corrupção" que descrevi acima, nem mesmo para vários dirigentes nacionais do PT que, como eu, não pertenciam à corrente majoritária de Lula e Dirceu. Mas desde aquela época não acredito mais em partidos.

LUCAS BERLANZA - "PATRIMONIALISMO E A REALIDADE LATINO-AMERICANA", UM RETRATO DAS NOSSAS RAÍZES

Capa do livro de Ricardo Vélez Rodríguez resenhado nesta matéria


Amigos, divulgo neste post a bela resenha que do meu livrinho "Patrimonialismo e a realidade latino-americana" (2006) fez o jovem acadêmico Lucas Berlanza. A resenha foi publicada no Portal do Instituto Liberal, edição de 31-07-2015. Fico muito contente com a atividade de uma nova geração de estudiosos do liberalismo que decidiu enfrentar o Estado Patrimonial brasileiro. Lucas Berlanza é uma prova disso.

Entre as obras comercializadas pela loja do Instituto Liberal, encontra-se um item reduzido em tamanho, mas que abre as portas a enormes possibilidades de exploração das raízes brasileiras e latino-americanas. Da lavra do professor Ricardo Vélez Rodríguez, colombiano e autor de inúmeras atividades acadêmicas no Brasil, Patrimonialismo e a realidade latino-americana, publicado em 2006, em tempos de reflexão sobre os rumos que temos a percorrer, traz à tona importantes informações sobre o que nos trouxe até aqui. Vale a pena chamar a atenção para esse trabalho sintético e valoroso, sobretudo quando o cientista político Bruno Garschagen, em seu best seller Pare de acreditar no governo – por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o estado, procura diagnosticar, com um tom distinto, o mesmo problema.
Diante da realidade de que o Brasil, bem como todo o continente, se encontra ainda refém de uma cultura política muito voltada ao crescimento do Estado e à manutenção de uma sociedade demasiado dependente dele, o professor Vélez Rodríguez excursionou até as origens da colonização, a partir das metrópoles ibéricas (Portugal e Espanha), para entender a nossa realidade. Nessa jornada, um dos aspectos mais estimulantes do pequeno livro é a riquíssima presença de indicações bibliográficas para o aprofundamento dos conceitos, em especial de autores ligados às escolas sociológicas de Max Weber (1846-1920) e Karl Wittfogel (1896-1988), que desenvolveram os conceitos fundamentais na interpretação do que se denomina “Estado patrimonial”, marcado pelo “patrimonialismo”.
De acordo com Weber, o patrimonialismo é “aquela forma de dominação tradicional em que o soberano organiza o poder político de forma análoga ao seu poder doméstico”. A confusão entre os interesses particulares e a organização do Estado e de suas atividades que marca o Estado patrimonialista se consolidou em Portugal, segundo as perquirições do professor colombiano, desde a Revolução de Avis (1385). Ele referencia o liberal português Alexandre Herculano (1810-1877), que “destacou a ausência de feudalismo em Portugal”, sistema que, descentralizando o poder, facilitou a que o Estado nacional posteriormente se configurasse em uma negociação das diferentes instâncias de poder, com o surgimento autônomo de uma burguesia – posteriormente industrial – e a concessão de poder da nobreza para o monarca, com limitações claras e a organização de Parlamentos. Sem esse momento histórico feudal, Vélez encontra em outro autor, Raimundo Faoro, a explicação de que, em Portugal, “a nobreza e a burguesia jamais tiveram poder suficiente para se contrapor ao poder inquestionável do monarca. Assim, os nobres, mais do que de uma tradição que independesse da Coroa, dela recebiam o prestígio, sendo praticamente funcionários do príncipe”.  As principais atividades econômicas e políticas se encontraram submetidas a esse jogo de favores, formando uma imensa burocracia de “capacidade esclerosante”, no dizer de Vélez. Apesar de ter havido a figura dos municipalismos administrativos erguidos a partir do poder local dos senhores de terra (no Brasil, das sesmarias e das capitanias hereditárias), formando o que Alexandre Herculano chamava de “liberalismo telúrico”, logo esses mesmos senhores corromperam o processo e tudo foi cooptado “pelo centralismo da Coroa, ao longo do período filipino, no século XVII”. Em consequência desse legado, acabou se consolidando em terras tupiniquins “um Estado mais forte do que a sociedade, em que o poder centrípeto do rei, no período colonial, e do imperador ao longo do século XIX, ou do Executivo, no período republicano, criou forte aparelho burocrático alicerçado no sentimento de fidelidade pessoal”. Mais adiante, entraria ainda outro ingrediente, o modelo de “Estado modernizador” do Marquês de Pombal, também objeto de muita atenção no livro de Garschagen, e que, usando um conceito dos autores Simon Schwartzman e Antônio Paim, Vélez chama de “patrimonialismo modernizador”, em que o Estado centralizador incorpora os ditames e práticas da ciência moderna, formando a gênese da tecnocracia burocrática, que despreza e desencoraja a participação efetiva da sociedade na política.

O positivismo do golpe republicano, que desembocaria no domínio igualmente patrimonialista das oligarquias estaduais (os “clãs políticos”), e a “ditadura científica” que inspira o castilhismo e o Estado Novo de Getúlio Vargas, bem como o regime militar dos anos 60, 70 e 80, se alimentam dessa matriz, bem como de outra concepção, a de “autoritarismo instrumental”. Tal como a define outro autor com que Vélez dialoga em seu trabalho, Oliveira Vianna, esse tipo de pensamento considera que “o liberalismo político seria impossível na ausência de uma sociedade liberal e a edificação de uma sociedade liberal requer um Estado suficientemente forte para romper os elos da sociedade familística”, isto é, para combater o patrimonialismo – e, mais tarde, o socialismo e o comunismo – e criar uma sociedade liberal-democrática avançada, um regime autoritário que tutelasse o país seria o único caminho. Na prática, o século XX assistiu a uma sucessão de trocas de grupos de poder sedimentados em mesclas mais ou menos diversificadas dessas mesmas matrizes de pensamento social e de percepção do Estado, a cujas teias de influência assistimos ainda hoje e tanto ansiamos superar.
Assim como o livro recém-lançado de Garschagen, Vélez também já reconhecia o valor do esforço realizado durante o Segundo Reinado, com a elite política do parlamentarismo entre 1841 e 1889. Ele lembra o elogio do primeiro-ministro francês François Guizot a essa tentativa de experiência modernizadora, inspirada “no liberalismo lockeano e na versão liberal-conservadora de Benjamin Constant de Rebecque”, bem como admite a presença de atores políticos e filosóficos mais associados à mentalidade liberal de matriz anglo-saxônica, como Rui Barbosa no Brasil, sem necessariamente desprezar as bases culturais ocidentais da formação ibérica e, consequentemente, também da América Latina (tal como destaca Alexis de Tocqueville, pensador citado no livro e com quem Vélez tem afinidades confessadas).  No entanto, a tônica que nos conduziu até agora foi, infelizmente, a da opção paralisante e limitadora pela persistência do patrimonialismo.
Chegando aos dias de hoje, Vélez retira de Paim uma análise sucinta e imperdível da história do Partido dos Trabalhadores, apontando o governo de Lula como uma fase de recrudescência do modelo estatista, e sua posição de centralidade no esquema do continente, junto a Cuba e ao bolivarianismo chavista, via Foro de São Paulo. A “ação deletéria” de setores da Igreja Católica no combate ao agronegócio no Brasil e no apoio a movimentos como o MST, a presença das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, a integração dos movimentos de esquerda no poder desses países para manter e aprofundar esse modelo atrasado, estão entre os aspectos que Vélez aponta como desanimadores.
No entanto, ao fim do opúsculo, Vélez relaciona alguns motivos que, naquele 2006, ele considerava animadores, podendo fortalecer um movimento latino-americano rumo à superação das mazelas patrimonialistas, que diferentes regimes, desde a monarquia colonial até o socialismo lulopetista, vêm construindo – e sobre as quais vêm se ancorando. Entre esses motivos, a “consolidação da democracia e da economia de mercado nos principais países do Mercosul” e a influência dos países desenvolvidos. A realidade subsequente ainda não confirmou esses últimos apontamentos. No entanto, Vélez acredita que “Alexis de Tocqueville mostrou que o caminho para iluminar a luta pela conquista da autêntica democracia nos nossos países deveria ser o da defesa da liberdade para todos os cidadãos” e que, segundo o mesmo pensador, “uma época mais ou menos distante chegará, em que os sul-americanos formarão nações florescentes e esclarecidas”. Esperamos sinceramente que isso seja verdade, e que nossos esforços de hoje sejam cruciais na preparação dessa futura realidade. Para isso, reforçamos o que destacamos ao começo: vasculhar o passado e entender como tudo começou é parte do caminho inadiável para, de fato, darmos o impulso em frente.

Acadêmico de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na UFRJ, e colunista do Instituto Liberal. Estagiou por dois anos na assessoria de imprensa da AGETRANSP-RJ. Sambista, escreveu sobre o Carnaval carioca para uma revista de cultura e entretenimento. Participante convidado ocasional de programas na Rádio Rio de Janeiro.