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quinta-feira, 18 de junho de 2015

EDUCAÇÃO FÍSICA E REGIME MILITAR: UMA GUERRA CONTRA O MARXISMO CULTURAL

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A obra do professor Alessandro Barreta Garcia intitulada 'Educação física e regime militar: Uma guerra contra o marxismo cultural' chega às livrarias em bom momento para os leitores brasileiros. 


Esta obra, efetivamente, constitui uma crítica contra a monocórdia propaganda gramsciana que, nestes onze anos de dominação lulopetista, tomou conta do cenário cultural brasileiro, deformando totalmente o conceito de educação e substituindo-o pelo de doutrinação ideológica. 



O autor, com rara coragem, não duvida em destacar os aspectos niilistas da proposta oficial no terreno da educação, que se tem traduzido em inúmeros fracassos nos programas educacionais apresentados pelo PT, quer no ciclo básico, quer no ensino secundário e no plano universitário.
No terreno da educação física, que constitui a especialidade do autor, as coisas não foram diferentes. Os técnicos do governo e os intelectuais associados à visão chapa-branca tentam, por todos os meios, desacreditar os programas educacionais vigentes antes da era lulopetista, como pertencentes a propostas que visavam a manutenção da exploração capitalista sobre as massas ignaras.
Em face dessa tentativa de falseamento da história, o autor mostra, na sua obra, que a proposta de educação física posta em prática durante o ciclo militar obedecia a uma concepção enraizada na melhor tradição humanística do Ocidente. Tal proposta se inseria, segundo o autor, no contexto mais amplo da educação para a cidadania e considerava a educação física e o esporte como meios de grande peso na sedimentação dos valores fundantes da cidadania. Alessandro Barreta Garcia tenta, na sua obra, resgatar essa tradição educacional e, para tanto, retoma a melhor tradição filosófico-educacional do Ocidente, aquela surgida ao redor da filosofia de Aristóteles. Estes conceitos aparecem claramente no seguinte trecho da obra que ora apresentamos:
Durante o regime militar brasileiro a pedagogia e a psicologia são fundamentais para esse processo. Formar o cidadão para o esporte é cultivar os frutos de uma civilização de qualidade. Os valores morais são bem claros e a formação educacional do aluno frente ao esporte é fundamental para o desenvolvimento da unidade nacional. Respeitar as regras, ser disciplinado não é um mal, pelo contrário, uma virtude. Ainda nessa perspectiva a cooperação também foi um fator observado nas aulas de educação física. Para os gregos na Antiguidade, a formação moral também era essencial para o cidadão se tornar virtuoso.
Em relação ao conceito de esporte-educacional vigente no ciclo militar, o autor afirma:
O esporte-educacional, como aquele observado nos anos de 1964 a 1985, aparece claramente com o notável intuito de formar a juventude brasileira por meio de valores supremos. A honestidade nos jogos é um valor moral que já observávamos entre os gregos antigos. Pierre de Coubertin, inspirado nesse espírito grego, tentou revigorar na modernidade as mesmas características desejadas nos anos do militarismo brasileiro.
O autor, na conclusão da obra, enfatiza o papel que o Exército Brasileiro ainda pode desempenhar no terreno da educação física para a renovação do espírito que a deve animar. A propósito, frisa:
Destacamos, ainda, que o Exército contribuiu, e muito tem a contribuir com a educação física brasileira. Hoje, mais do que nunca, precisamos de ordem, disciplina e respeito na escola. Uma educação de qualidade caracteriza-se por ser responsável, técnica, conceitual, racional e empírica. Entre as melhores escolas do país estão as militares, e certamente uma das opções honrosas de um ensino de qualidade é a instituição militar. Se um dia quisermos nos tornar uma potência esportiva, devemos voltar às origens, à caserna, que é aprender com quem cuidou muito bem de nossa educação física, com quantidade e qualidade, com amor, dedicação ao corpo e à alma de uma nação.
Levando em consideração a escolha teórica do autor para fundamentar a sua análise crítica da educação física brasileira, gostaria, nesta apresentação, destacar o que do ângulo da educação física pode ser haurido da obra de Aristóteles, centrando a minha atenção no conceito da ética e da sua aplicação ao processo educacional. 



A ética do Estagirita tem por objetivo o domínio da ação humana, em tanto que alicerçada numa decisão e a política é o terreno da sua aplicação social. Distingue-se a ética da filosofia teorética, que se dirige ao imutável e eterno. Por natureza, segundo Aristóteles, todo ser tende a um bem que lhe é próprio e no qual encontrará a sua realização. O bem humano é a atividade da alma conforme à razão. Nessa atividade, o homem descobre a felicidade (eudemonía), que é independente das circunstâncias exteriores, como objetivo final das suas aspirações. 


Como frisa Aristóteles na sua Ética a Nicômaco, “O bem do homem consiste numa atividade da alma conforme à virtude”. Aristóteles distingue entre virtudes dianoéticas (que se manifestam no exercício da razão) e virtudes éticas (que são transmitidas pela ordem estabelecida na sociedade e na Polis) sendo que elas recebem a sua validade da tradição e do consentimento universal. 

A virtude dianoética fundamental é a prudência (frónesis), que leva o homem a reconhecer os meios e os caminhos justos que conduzem ao bem. À luz dessa virtude o homem desenvolve a atitude ética, que se formata mediante a prática das virtudes (através do exercício, o hábito e a aprendizagem).

No que tange ao conteúdo, a virtude ética é definida como o justo meio (mesótes) entre dois extremos contrários. Assim, por exemplo: a coragem ocupa o lugar intermediário entre a covardia e a temeridade. A moderação é um intermédio entre a apatia e a excessiva vontade e a generosidade é o equilíbrio entre a avareza e a prodigalidade.

A justiça (dikaiosune), para Aristóteles, é a virtude mais importante para a vida em comum. Em tanto que distributiva, ela cuida de distribuir os bens justamente; em tanto que corretiva, ela compensa os danos ou os prejuízos sofridos por alguém.
Uma virtude essencial é, também, a amizade. Graças a ela, o homem experimenta a passagem dos interesses individuais àqueles que constituem a comunidade.
A ética aristotélica, contrariamente à platônica, é uma moral concreta da liberdade e da diferença entre os homens da cidade. Ela define um espaço de discussão, que deve permitir chegar a um bem soberano, que não é transcendente (como em Platão), nem imposto desde cima por algum sábio. O bem soberano aristotélico nasce exclusivamente do contato entre os homens livres.


No que tange à ordem política, diferentemente de Platão (que privilegiava o modelo aristocrático), ela é variada, para Aristóteles, podendo ser de três tipos: realeza (cuja degeneração é a tirania), aristocracia (cuja corrupção é a oligarquia) e politéia ou governo do povo, (cuja degeneração é constituída pela democracia).

Contrariamente a Platão, que no relativo ao conhecimento racional da realidade política dava prelação à Ideia sobre os conhecimentos empíricos, Aristóteles privilegia estes últimos. Nesse terreno, o filósofo de Estagira realizou estudos comparados, tendo chegado a identificar 158 formas de organização ou de constituição política. Desses estudos somente nos restou o escrito intitulado 'Constituição de Atenas'.
Platão concebia uma visão ideal da política, ao passo que Aristóteles concebe uma ideia possível. Ele é partidário de um realismo político. Na obra 'Política', frisa o Estagirita: “Deve-se, efetivamente, examinar não somente o melhor regime político, mas também aquele que é simplesmente possível”. Contrariamente a Platão, para quem os homens ingressavam no Estado em decorrência das suas fraquezas, Aristóteles considera que os homens procuram a ordem política, movidos pela sua natureza sociável. A respeito escreve: “O homem é por natureza um animal político”: anthopos fusei zoon politikon. 



A linguagem é um signo de que o homem não está destinado unicamente à simples sobrevivência, mas a viver numa comunidade que deve chegar a acordos acerca do útil, do bom e do justo.


Como Platão, Aristóteles considera que a tarefa do Estado consiste em possibilitar a realização ética dos cidadãos. No entanto, enquanto o mestre de Aristóteles, Platão, considerava que a questão ética consistia em partir para um processo de catarse, a fim de o homem voltar à contemplação pura das Ideias no reino do Sumo Bem, para o Estagirita essa realização consiste em algo muito mais singelo e terreno: o amor da vida feliz e boa. É somente no seio do Estado que se pode desenvolver perfeitamente a virtude do indivíduo. O Estado, para Aristóteles, se forma a partir de um conjunto de comunidades que vão se alargando. A propósito, frisa: 

“Na origem, existe a comunidade de duas pessoas (homem e mulher, pai e filho, amo e servo). Estes, juntos, constituem a família, a partir da qual, a seguir, constitui-se a aldeia e por fim a cidade (polis), que é o reagrupamento de várias aldeias”

É somente a partir da cidade que é garantida a autarquia (ou seja, o fato de se garantir, a si próprio, a independência e a autossuficiência). O princípio formal da pólis, para Aristóteles, é a constituição. A respeito frisa Aristóteles: “A cidade é uma espécie de comunidade e uma participação comum dos cidadãos no governo”. O filósofo divide as formas de constituição em três “tipos justos” (realeza, aristocracia, politéia). O critério de classificação é o número dos que participam do poder político: um, alguns, todos. É boa a forma de governo que serve ao bem-estar geral; é ruim aquela que somente persegue os interesses dos que mandam.

Aristóteles, não prefere, de entrada, uma das três formas de organização da polis mencionadas. Considera, contudo, que a mais realizável e a mais estável é a politéia (ou democracia moderada). É uma forma que mistura as vantagens das outras constituições e que realiza o princípio formulado na Ética, da virtude como justo meio entre os extremos. A propósito, Aristóteles escreve: “A melhor comunidade política é aquela que constitui a classe média (...). O seu predomínio restabelece o equilíbrio da balança e impede a aparição dos excessos contrários”. Da análise histórica Aristóteles conclui que a melhor forma política, em cada caso, é aquela que melhor convém ao país e às necessidades dos cidadãos. 

Em relação à questão da ordem interior do Estado, Aristóteles considera que é necessário preservar a família e a propriedade privada. Segundo Aristóteles, a família é ainda mais elementar que a aldeia e esta é mais elementar que o Estado ou a polis. A família deve ser privilegiada em tanto que base da ordem natural da sociedade, mesmo se o Estado joga um papel essencial na educação da juventude. 

Em relação à propriedade privada, Aristóteles considera que “a propriedade deve ser privada, mas o seu uso deve ser comum”. Nestes aspectos, certamente, o Estagirita se distancia dos ensinamentos do seu mestre Platão. No que tange à estrutura interna da sociedade, Aristóteles reconhece, além da escravatura, a desigualdade natural entre homens e mulheres. Tanto uma quanto outra são “condições naturais” da vida humana. Mas, entre os homens livres, deve reinar a igualdade.

Seria necessária, contudo, a influência do Cristianismo sobre o pensamento grego para que esta visão se ampliasse até levar em consideração todos os seres humanos, não apenas os pertencentes à sociedade ateniense. Em boa hora Alessandro Barreta Garcia retoma a obra de Aristóteles para fundamentar, nela, a prática da educação física. Aristóteles, efetivamente, enriquecido pela tradição judaico-cristã, passou a ser referência nas filosofias da educação desde a Idade Média, sendo a síntese efetivada por São Tomás de Aquino, no século XIII, manifestação dessa riqueza doutrinária, ensejando uma tradição humanística que vem até os dias de hoje. A volta a essa tradição humanística é o marco assinalado pelo autor na sua obra e pode, no conturbado mundo de hoje, ser fonte de renovação para o ensino da educação física, retomando um elo esquecido pelas esquerdas brasileiras nas últimas décadas.



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