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segunda-feira, 21 de abril de 2014

NOVO MENSALÃO EM RITMO DE PETROTANGO

Quem já esperava ter visto tudo quanto é safadeza com o dinheiro público no Mensalão I do PT (aquele coordenado pelo Zé Dirceu et Caterva), pode tirar o cavalinho da chuva. O Mensalão II (da Petrobrás) é filme para público adulto. Melhor tirar as criancinhas da sala na hora do noticiário, quando o dossiê das falcatruas for completamente revelado ao ensejo da CPI. Claro, se esta Comissão Parlamentar de Inquérito não for engolida por outra safadeza: a do controle social da mídia pela petralhada no poder. Os “técnicos” em desinformação do PT (dentre os quais se destacam o ex-ministro Franklin Martins e o ex-deputado André Vargas) estão trabalhando a todo vapor para impedir a livre informação dos fatos. Acampamento de ciberterroristas já foi bancado pelos petralhas, para treinamento da militância nas técnicas de invasão de sites e blogs críticos dos donos do poder. E a tropa de choque do governo, no Congresso, está utilizando todas as artimanhas da politiquice calhorda para impedir a CPI de funcionar, adicionando “fatos” velhos de governos anteriores, que nada têm a ver com os eventos que deveriam ser investigados. Tudo para distrair a atenção do honorável público e da oposição. Se necessário, os congressistas do Planalto e da base aliada vão propor incluir, na CPI original, até a origem das 30 moedas de prata com que Judas Iscariote vendeu Jesus aos seus algozes, há dois mil anos atrás.

Mas, antes de prosseguir, queria justificar o título do meu comentário. Quando falo em “Petrotango”, não pretendo criticar o belo ritmo argentino de Gardel, que, aliás, se toca e se dança diariamente em... Medellín. “La Casa Gardeliana” é, na bela cidade colombiana, um animado templo da boemia, que freqüentei na minha juventude. Refiro-me, no título desta matéria, à definição que deste ritmo fazia o grande escritor portenho Ernesto Sábato, no seu livrinho intitulado: “Tango”. Sábato o definia como “un pensamiento triste que se baila”. O Mensalão II da Petrobrás é, certamente, isso: “um pensamento triste que se dança”, um “petrotango”.

Esse “tango” da tristeza simboliza plasticamente o ritmo da corrupção destes populismos sul-americanos. Poder-se-ia descrever o seu “bailado”, assim: “um passinho para frente e dois passinhos para trás”. É esse, exatamente, o ritmo que a petralhada no poder imprimiu à louca dança que descambou na quebra da Petrobrás. Sob uma fajuta portada de “modernização democrática” a liderança da outrora próspera empresa a fez afundar: o noticiário econômico informava, por estes dias, que ela, orgulho dos brasileiros, descambou do 12º lugar entre as grandes petroleiras do mundo, para o 120º. Uma queda e tanto, que está levando de roldão a confiança dos investidores e as expectativas dos brasileiros. Queda que, pelo que se sabe grosso modo, a partir de informes especializados, se estende também a outras grandes empresas como a Eletrobrás, que foi descapitalizada criminosamente em aras do populismo orçamentário em ano de eleição.

“A marca da ruína vai ficar” reza o título com que a Revista Veja (edição 2368 de 9 de abril de 2014) apresentou o seu Informe Especial, intitulado: “Como o PT está afundando a Petrobrás”. O plano, segundo a revista, consistia em enriquecer a cúpula de uma quadrilha criminosa integrada pelo ex-vice-presidente da Câmara, o petista André Vargas e o doleiro Alberto Youssef. Eles “associaram-se para fraudar contratos no governo e, juntos, ganhar uma fortuna”. Youssef, segundo a revista, foi preso “sob a acusação de comandar um esquema de lavagem de dinheiro pelo qual passaram cerca de 10 bilhões de reais, fortuna usada para azeitar as mais variadas modalidades de corrupção, inclusive propinas na Petrobrás”. O esquema da ladroagem estendia-se até o Ministério da Saúde, com criminoso projeto que desviava dinheiro do orçamento destinado à medicina popular, para engordar a conta de uma pseudo-empresa de Youssef e de Vargas. Os ganhos seriam enormes, pois os gatunos achavam que, com eles, poderiam se aposentar e viver ricos e tranqüilos pelo resto da vida. Patriotismo lulo-petralha da melhor espécie: roubar em nome do povo e se enriquecer às suas custas!

Outro integrante da quadrilha, que de uma forma ou de outra se beneficiou com o descalabro da Petrobrás, foi, segundo Veja, Paulo Roberto Costa (ex-diretor de abastecimento e líder do “clube dos corruptos”, um seleto grupo de empresários que se habilitavam para fazer negócios com a empresa pagando um salgado pedágio que oscilava entre 300 mil e 500 mil reais). Outro integrante da máfia foi o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula e que está sendo investigado por “negócio da Petrobrás para ajudar o PT”, pelo fato de ter repassado uma bolada milionária ao empresário Ronan Maria Pinto, que chantageava o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, o chefe do gabinete do presidente da República, Gilberto Carvalho e o próprio presidente Lula. Vale a pena esclarecer que Ronan Maria Pinto ameaçava revelar fatos cavernosos ligados ao assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em 2002. Outro membro do grupo de gatunos foi José Sérgio Gabrielli, “o petista que presidia a Petrobrás na época da compra de Pasadena”, e que era “um dos artífices do negócio”, segundo Veja, “que foi feito para dar errado”. A finalidade principal deste parece ter sido uma operação de lavagem de dinheiro sujo. Somente assim se explica a diferença abissal entre o preço da refinaria de Pasadena segundo os antigos proprietários belgas e o preço generosa e rapidamente pago pelos burocratas brasileiros, que chegava à casa de 1,2 bilhão de dólares, praticamente o dobro do preço inicial. Tudo sacramentado no alto conselho da estatal presidido na época pela atual presidente da República.

Toda essa engenharia da corrupção do lulopetismo, que está a concretizar uma corrupção da engenharia brasileira (dada a participação de grandes empresas nas negociatas em que mergulhou a Petrobrás) é mais um capítulo da triste história do Estado Patrimonial brasileiro. O esquema dessas práticas deletérias remonta-se ao Marquês de Pombal e à sua “aritmética política”, que no século XVIII pôs em funcionamento, em Portugal e conseqüentemente no Brasil, o modelo de Estado empresário que garante a riqueza da nação. Foram criados em terras lusitanas os grandes Monopólios, entre os que sobressaía a Companhia do Grão Pará e do Maranhão, que visavam a dar entrada, em Portugal e nas suas Colônias,  à modernidade, num esquema de colbertismo econômico bem semelhante ao que pôs em funcionamento, no século anterior, o pai do absolutismo, Luís XIV da França. Dom José I, o monarca a quem servia Pombal, tinha nesse modelo um dos seus guias para a modernização do Estado português.

Resumamos os itens do modelo modernizador de Pombal no terreno econômico: 1 - Criação de empresas monopolísticas estatais, ao redor das quais sejam cooptados os investidores privados. 2 - A finalidade primordial destes monopólios consiste em fortalecer o poder absoluto do monarca e daqueles que por ele forem cooptados. 3 - Perseguição contra todos aqueles atores econômicos, pertencentes à nobreza ou à burguesia, que pretendam se consolidar à margem dos donos do poder. 4 - Garantia de estabilidade a todos os cooptados pelo monarca, sejam eles pertencentes à burocracia oficial ou ao meio empresarial. 5 - Criação de nexos de cooptação entre o monarca e as classes inferiores, que passam a depender dos favores do governo e a lhe retribuir, com fidelidade incondicional ao rei e aos seus colaboradores. 6 -  Taxação rigorosa sobre todos os agentes econômicos que produzam bens e serviços na metrópole ou nas colônias, com a finalidade de fortalecer o Estado português e a sua burocracia.

Na história econômica brasileira, o modelo pombalino foi o que moldou a criação dos monopólios estatais, dentre os quais, no século XX, sobressai a Petrobrás,consolidada à luz do princípio nacionalista de: “o petróleo é nosso”. A principal conseqüência desse modelo consistiu na dependência absoluta do Estado e na distribuição parca de benefícios entre os cidadãos. A Petrobrás, desde os tempos da sua fundação, sempre atendeu às demandas da burocracia estatal, em primeiro lugar, deixando em segundo plano a distribuição de royalties entre os cidadãos. O grosso da riqueza auferida foi, sempre, apropriado pelo Estado e pelos seus estamentos burocráticos. Não assusta, assim, que nos tempos atuais o PT tenha achado conveniente acelerar a “produtividade” da empresa, para benefício dos companheiros, em primeiro lugar, e para financiar a hegemonia partidária na nossa melancólica República. O PT, como frisa Antônio Paim na sua obrinha intitulada: Para entender o PT (Londrina: Edições Humanidades, 2002) constitui a mais acabada manifestação do Patrimonialismo tupiniquim.

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