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terça-feira, 10 de abril de 2012

DEMÓSTENES E AS DESGRAÇAS HEGEMÔNICAS


O articulista João Nemo publicou a matéria que reproduzo abaixo sobre o caso do Senador Demóstenes Torres, o mais recente membro da oposição defenestrado sem dó por causa das suas vinculações com o contraventor Carlinhos Cachoeira. Reflexão que vale a pena fazer nesta conjuntura: assim como o partido que pretende a hegemonia republicana colocou em alto volume as denúncias contra o “Mensalão do DEM”, ao mesmo tempo em que, pela boca dos seus mais importantes representantes, a começar pelo ex-presidente Lula afirmava cinicamente que não houve “Mensalão do PT”, o senador punido teve as suas vinculações com a contravenção ampliadas pela lupa impiedosa dos engenheiros gramscianos do atual governo. Não que não mereça investigação e a correspondente punição, se os seus atos forem considerados crimes pela instância institucional correspondente. Mas não deixa de causar espécie no cidadão comum essa desproporção entre a compreensão infinita para com os “malfeitos” dos amigos e a rápida lapidação com que são punidos, já desde o início, os opositores suspeitos de terem cometido algum crime. Estamos no reino da propaganda escancarada (já deixou de ser subliminar), em favor dos donos do poder e em desfavor do resto. Mais um passo na escalada da hegemonia total do Novo Príncipe... Mais um passo no cumprimento da sentença propalada desde o costumeiro palanque pelo então presidente Lula: a oposição tem de acabar! (Me faz lembrar essa sentença a assertiva do ditador Júlio de Castilhos: “Aos nossos adversários o único que lhes resta é uma sincera penitência”).




A DECEPÇÃO

http://www.midiaamais.com.br/brasil/7965-a-decepcao


“O que clama aos céus não são os vossos pecados,
mas a mesquinhez dos vossos pecados.”
Friedrich Nietzsche

O episódio mais recente da tragédia política brasileira é o comentado naufrágio daquele que parecia ser, com méritos, um dos melhores senadores da República. Os jornais pululam de notícias ou simulacros de notícias, já que são, na maioria, repetições das mesmas coisas já publicadas com variadas composições de palavras.

Para a sórdida e corrupta máquina política que hoje controla o país, com toda a sua trilha ideológica, crua às vezes, ardilosa quase sempre, o desastre pessoal do senador Demóstenes Torres foi um presente dos deuses. Tudo que ele representava como crítico combativo e competente, não apenas das falcatruas oficiais, mas dos desatinos de um conceito de política voltada para a escalada gramsciana, fica exposto ao descrédito, o cinismo ganha mais músculos e alarga-se o fôlego do poder com o episódio.

Fosse um parlamentar comum, desses que todos sabemos serem cheios de enroscos por aqui, mumunhas por ali, e poderia contar com a relativa tolerância que se confere a todo cafajeste, mas “um bom rapaz”, quando apronta, é logo soterrado pelo escândalo.

Para os que admiravam o senador, a sensação resultante foi uma amarga decepção. Como alguém com a sua postura aparentemente destemida, sempre seguro e preciso na defesa da ética, apontando sem contemporização o dedo para as manobras típicas da hipocrisia política vigente, podia ignorar a própria vulnerabilidade ao conviver amigavelmente com um renomado contraventor? Pior, trocar favores com ele? Dá para imaginar, mas não dá para aceitar, infelizmente.

Vejamos no que consistem os pecados do senador. A primeira acusação foi ter recebido como presente de casamento um fogão e uma geladeira, o que, convenhamos, não seria nada de mais, mas prepara o ambiente para demonstrar a proximidade entre os dois personagens. Depois, vêm as constantes ligações telefônicas e gravações em que se evidencia não apenas a intimidade, como a troca de favores, intermediação de contatos, inclusive acessos a gente do próprio governo que Demóstenes combatia, para resolver problemas diversos. Há momentos em que Demóstenes se torna um despachante de luxo do senhor Cachoeira. Em contrapartida, recebe sugestões de encaminhamento da própria carreira política, com a recomendação de abandonar o DEM e ir para o PMDB, o que agradaria à própria presidente da República.

Ainda não foram demonstradas vantagens econômicas diretas, exceto as costumeiras verbas para campanha, mas estas contribuições, pode-se apostar, no caso de um generoso empresário como o senhor Cachoeira, estarão presentes nas contas de gente de todos os partidos. Tanto empresas idôneas como inidôneas costumam fazer distribuições bastante ecumênicas, para não ficar mal com ninguém. Há grandes e respeitabilíssimas empresas que, numa eleição para a Prefeitura de São Paulo, por exemplo, destinam exata e milimetricamente a mesma quantia para a campanha dos 3 ou 4 candidatos viáveis. Santo Deus! Estão contribuindo para a democracia (sic).

Há uma ironia inescapável neste episódio. Assim como o caso do ex-presidente Collor se iniciou com o ridículo recebimento de uma Fiat Elba para dar asas a um arrastão político-jurídico que o tiraria do poder, o caso do senador Demóstenes partiu do recebimento de alguns objetos da chamada linha branca.

As irregularidades que emergiram a partir desse primeiro tópico dos respectivos escândalos não têm a menor chance de chegar a uma fração mínima do que o país tem assistido apatetado ao longo dos últimos governos. Isso, é claro, não os absolve da gravidade moral de cada caso. Entretanto, existe uma diferença de escala entre o provincianismo do esquema Collor, o artesanato dos favores do senador Demóstenes e a corrupção como método, com plano estratégico e ação profissionalizada de informação e contrainformação, que se implantou a partir do governo Lula. Só que o complexo e sufocante esquema de dominação e cooptação dá proteção aos seus.

Do “mensalão” para cá mudou a logística, eliminaram-se as linhas de suprimento que se mostraram vulneráveis. Os “aliados” não são mais mantidos a soldo, mas participam de uma complexa matriz de “self service”, sem impressões digitais da nave mãe. Quarenta ministérios e sabe Deus quantos órgãos se prestam bem para isso. Os “malfeitos” podem ser eliminados simbolicamente por atitudes de suposta “faxina”, que secam a veia do escândalo e ainda rendem manchetes bobocas do tipo: a presidente enquadrou este ou aquele. Parece que a fantasia predileta agora é de caráter sadomasoquista, onde temos uma mestra dominadora que sai por aqui e pelo mundo afora distribuindo pitos com o chicote em riste. O auge da fantasia parece ter sido aquele ministro do trabalho que fazia declarações de amor enquanto recebia chicotadas.

Quanto ao senador Demóstenes, temos uma situação que lembra o conto machadiano “Suje-se gordo”, ou seja, se é para se sujar, suje-se gordo e receberá maior condescendência. Todos sabemos que quem deve pouco é um caso perdido, e quem deve muito ainda costuma ser tratado com certo cuidado e até algum respeito. Esses envolvimentos do senador, mesmo que ainda cresçam, sempre serão migalhas perto do que hoje se vive no Brasil. Mas, para ele, não haverá perdão. Se não for cassado, ficará perambulando como uma sombra do que foi no cenário político brasileiro. De um lado a sanha vingativa da pior gente da política, especialistas do ódio e da lapidação, a quem ele sempre afrontou com a verve e a coragem pelas quais tanto o admirávamos; de outro lado a frustração, o ressentimento justo dos que se sentem traídos na sua confiança, surpreendidos pela proximidade evidenciada com um dos inúmeros Darth Vader que assediam o espaço público brasileiro.

Já escrevi, certa vez, que fazer política no Brasil sem dispor de algum pedaço da máquina pública é como empreender uma travessia no deserto carregando apenas o próprio cantil. Com exceção do PT, que conta com uma nuvem dos chamados movimentos sociais, ONGS parasitas de toda espécie e com máquinas sindicais alimentadas pela herança fascista que persiste no nosso sistema trabalhista, ninguém encontrou uma tecnologia própria de sobrevivência, que pudesse ser funcional, sem se nutrir nos órgãos públicos. E não adianta falar, pois eu mesmo já falei muito e é o mesmo que pregar nesse mesmo deserto. Por isso a oposição já parece uma vela bruxuleante, no fim da cera, prestes a se apagar como, aliás, foi desejo explicitamente manifestado pelo ex-presidente Lula.

É então que Darth Vader suaviza a voz para convidar: venha mais para cá. A maioria vai, muitas vezes até pensando que poderá manter sob controle as suas relações com o lado negro da força.

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