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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A NOSSA ERRÁTICA POLÍTICA EXTERNA

(Entrevista concedida ao professor Gutierres Siqueira, de São Paulo)

1. O Brasil sob o governo Lula exerce uma política externa proclamada como Sul-Sul, valorizando as relações com países pobres e emergentes. Quais são as vantagens e desvantagens dessa abordagem diplomática? – Bom, acho que a dimensão terceiro-mundista que o presidente Lula deu à nossa política externa é irreal e traduz mais anseios ideológicos. É uma burrice sem tamanho ter o governo petista hostilizado tradicional parceiro do Brasil, como são os Estados Unidos, em fala recente do presidente, ridicularizando, de forma chula, a secretária de Estado americana. Isso revela uma absoluta falta de cultura política e uma indesejada presença, nas idéias de política externa do atual governo, de chavões ideológicos, mais do que de princípios de sadio realismo político.

2. Quando o governo brasileiro é indagado sobre os direitos humanos em Cuba ou no Irã, os diplomatas invocam o princípio da não-intervenção em assuntos internos de outros países. Mas na ação em Honduras parece que houve uma forte intervenção brasileira nos problemas daquela nação centro-americana. Seria uma contradição? – Evidente contradição que só revela o despreparo da liderança do governo Lula em matéria de política externa. Os nossos diplomatas sempre foram, desde o século XIX, profundamente respeitados lá fora. O que se dizia até há pouco tempo, era que o Brasil não improvisava em matéria de política externa. Hoje, sob efeito da retórica populista (“nunca antes na história deste país”...), o que se diz é que o Brasil improvisa em matéria de política externa. Lula conseguiu desprestigiar o Itamaraty, uma tradição de dois séculos, um patrimônio que enobrecia a Nação brasileira. No caso de Honduras fomos colocados como matéria de chacota internacional. A nossa representação diplomática em Tegucigalpa virou literalmente a casa da mãe Joana, com ativistas dormindo nos gabinetes, gente amontoada, militantes chavistas fazendo o seu trabalho sujo, etc.

3. Como o senhor avalia a diplomacia brasileira nas crises entre Colômbia e Venezuela? O senhor acredita que o novo governo de Juan Manuel Santos conseguirá avanços com as ações impulsivas de Hugo Chávez? – Diferentemente do governo petista, a administração de Juan Manuel Santos não improvisa. A pauta da política externa colombiana é séria e os efeitos estão aí: revelou-se transparente, respeitada, eficiente. Tudo que a nossa diplomacia, hoje, não é. A posição brasileira em face do problema Colômbia-Venezuela foi ditada, ao longo dos últimos oito anos, pela preferência do governo Lula pela revolução bolivariana de Chávez. Ideologia absolutamente imatura. Porque Chávez se juntou ao Foro de São Paulo, tudo lhe é permitido. O governo brasileiro se parcializou e perdeu a capacidade de intermediação que antes tinha. Ninguém hoje, na Colômbia, acredita na isenção do governo brasileiro. Pior para os nossos interesses. O presidente Santos conseguiu uma jogada de mestre nas tensas relações com a Venezuela: simplesmente desmontou a retórica de Chávez, ao chamá-lo diretamente para dialogar. O que o governo colombiano queria, em primeira instância, era que os venezuelanos pagassem a dívida de 800 milhões de dólares que comerciantes do vizinho país tinham para com a Colômbia, por conta do comércio bilateral interrompido com a quebra das relações diplomáticas. Santos conseguiu que esse pagamento fosse feito. E, com a divulgação, pelo governo de Álvaro Uribe, no final da sua administração, dos vídeos que identificavam as FARC como protegidas do governo venezuelano em seu território, abriu espaço para que o novo presidente se apresentasse como o bom policial com o malandro, enquanto Uribe encenava a posição do policial truculento, que deixou as provas da interferência venezuelana no Tribunal Internacional de Haia. Os colombianos simplesmente deram um nó de forca no pescoço de Chávez. Se não paga e se persiste em apoiar os guerrilheiros das FARC, as provas já estão aí, nas mãos dos juízes de Haia. Chávez não teve mais remédio do que ficar quietinho e cumprir o prometido a Santos no encontro de Santa Marta.

4. E a democracia no Brasil? Estamos avançando na consolidação das instituições democráticas ou corremos perigo de uma “mexicanização” à la brasileira com a hegemonia de um partido? – O risco de uma mexicanização já está aí. É só ler o projeto de Direitos Humanos 3 que o governo assinou no final do ano passado. Ora, a equipe da Dilma não renunciou a essas idéias de crescente estatização da mídia e de abuso em matéria de direitos individuais e de ataque à liberdade de imprensa. Se Dilma for eleita, os petistas e coligados vão tratar de tornar realidade essas propostas malucas, que conspiram contra o Estado de Direito e contra a democracia. Não precisa ter bola de cristal para alguém prever essa desgraça. É a crônica de uma ditadura anunciada, parafraseando o livro de García Márquez (Crônica de uma morte anunciada). O PT, com as inúmeras quebras de sigilo fiscal de cidadãos, com finalidade eleitoreira, já mostrou do que é capaz, caso alguém tenha se esquecido dos inúmeros atentados à democracia perpetrados por Lula e sua equipe, ao longo dos últimos oito anos, desde o mensalão, até os aloprados 2. A posição de Lula como presidente de partido nestas eleições, nos palanques, o desqualificou por completo. Não é um governante isento. Governa para os seus militantes e para a sua patota.

5. Qual o maior desafio da política externa brasileira para os próximos anos? – Superar a sinuca de bico em que Lula colocou a nossa diplomacia e voltar às antigas tradições de pragmatismo responsável, amor ao Brasil e defesa dos interesses dos brasileiros no mundo globalizado.


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